26 fevereiro 2003

DEZ MIL

Estamos com quase 10.000 visitas.
Acho o número tão bonito, que proponho: o visitante que chegar aqui e registrar dez mil visitas pode - e deve - sugerir um tema, qualquer tema. Serei obrigada a escrever uma crônica sobre esse tema.
Que tal?
Beijos, até as 10 mil visitas !!
(Tem que ser honesto, hein?)

25 fevereiro 2003

CURTAS

- Hoje estou assim. De curtas.

- Filosofia de coturnos gaudérios: não tamanco quem peleja, tchê. (Inspirado no último texto, sobre os tamancos).

- O Rio de Janeiro teve uma “segunda sem lei”, como anunciava o jornal O Globo de ontem. Que bom se fosse só a segunda.

- Sentou-se ao meu lado no ônibus, ontem, um cara com a maior cara de Evandro. Calça jeans, pastinha, camisa de botão, óculos de sol. Bronzeado, cabelo curtinho. Trinta e poucos.

- Seria um perfeito Edu, mas, como era um pouco malandro demais, era Evandro. Ou devia ser.

- Evandro fez uma ligação. Evandro visivelmente era um desses apaixonados carentes, mas tratava a moça com uma formalidade broxante, usando “ok” e “correto” quando queria concordar com algo.

- Como é que eu sei que Evandro era apaixonado carente? Ora, porque ele pediu, quase implorou que a moça ligasse para o escritório dele naquela manhã, a fim de “combinarmos algo para logo mais, ok, correto, ok”.

- Homens dificilmente sabem o que dizer. E NUNCA sabem o que NÃO dizer.

- Como não querem passar por inseguros, preenchem frases vazias com “ok, correto e ok”.

- Estou sendo injusta. Cabe definir a faixa etária: apenas homens com mais de 30 e menos de 50 são assim.

- Parece que eles têm vergonha do jogo da conquista e da sedução – a não ser, é claro, que sejam casados. Os casados são sem-vergonha, mesmo.

- Os homens com menos de 30 são deliciosamente adolescentes.

- Os homens com mais de 50 são deliciosamente adolescentes.

- Essa fase aí do meio é que é problemática, porque eles acham que são “gente grande”.

23 fevereiro 2003

Meu (prometido) episódio com os tamancos


Eu sempre fui uma menina sem frescuras, sem papas na língua e sem tamancos. No tempo em que morávamos na casa emprestada da Vó Manoela, eu vestia camiseta do Grêmio e chinelos Havaiana, e ia andar de bicicleta com meu pai e meu irmão. Íamos até a pracinha, onde eu andava em círculos e sonhava em linha reta.

Cresci assim, desprovida de vestidinho e salto, mas sem jamais soltar as tiras.

Foi no Natal passado, e somente no Natal passado, que minha madrinha Maristela, aquariana e amalucada (com perdão do pleonasmo), deu-me de presente o meu primeiro par de tamancos. Belíssimo. Altíssimo. Chiquérrimo. Praticamente um móvel a serviço de meus pés.

Tão feliz e afoita fiquei, que já calcei o presente ali mesmo - deixando meus habituais tênis humilhados, num canto, à espera de pés menos afortunados que os meus. E fui ao salão de beleza mais próximo, a fim de lavar, pintar e polir meus dedinhos outrora enfurnados na minha mais absoluta falta de tamancos.

- Olá, quero fazer os pés! – eu disse à moça do salão, enquanto girava suavemente um dos tornozelos, como quem diz – sabe como é, estou de tamancos...

Parece que ela entendeu o recado. Meus pés ficaram viçosos e brilhantes como nunca.

Agradeci e saí rebolando; fui ao supermercado estrear meu novo “look” – como diria alguém do mundo “fashion”. E era assim que eu estava me sentindo: “fashion”.

Já nos primeiros 100m de calçada, contudo, notei que alguma coisa não ia tão bem naquele Natal de salto alto. Andar num par de tamancos imensos requer certas habilidades que as Havaianas nunca me exigiram, e, pior ainda: havia óleo na pista. Muito óleo.

A moça do salão, evidentemente mal intencionada, tinha empaçocado meus pés com um ordinário creme hidratante que, misturado ao suor que escorria do meu nervosismo óbvio, àquelas alturas, transformava-se numa ameaça à minha posição vertical. A cada passo dado, eu ia empinando o corpo, como quem tem pressa, e iniciava uma luta inútil em direção contrária – inclinando-me para trás, no afã de travar aquele desequilíbrio que, fatalmente, me levaria à capotagem.

Quanto mais brigava contra o óleo na pista, mais deslizava tamanco abaixo. O nariz no chão era questão de minutos.

Cheguei ao supermercado em tempo recorde, e me agarrei ao primeiro carrinho que havia. Foi minha perdição. O amigo-da-onça, ao invés de me brecar, dava-me mais velocidade ainda.

Apavorada, fui troteando como podia. Se soltasse o carrinho, àquela velocidade, certamente andaria uns dois ou três corredores lambendo o chão. Segurei-me ainda mais forte nele, e fosse lá o que Deus quisesse.

Nem preciso dizer que não comprei uma lata de milho. Naquela pressa, era impossível.

Quando cheguei à prateleira dos congelados, esbaforida e desiludida, topei ainda com maior falta de sorte: uma senhora desastrada deixara cair uma lasanha à bolonhesa bem na minha frente, e foi o fim do meu cooper. Meti o pé naquele tijolo gelado, de modo que não vi mais nada.

Devo ter voado uns metros. Quando despertei daquele pesadelo, enfim eu me achava absolutamente parada; literalmente abraçada, pernas e braços, num cabide giratório recheado de – pasmem! – Havaianas.

Minha sorte, se é que se pode assim dizer, foi o providencial defeito do cabide: ele estava emperrado, não girava. Caso estivesse funcionando, provavelmente eu estaria, até agora, naquela órbita de chinelos.

Mas, Deus é pai. Depois de uns minutos agarrada àquelas que, comprovadamente, não soltam as tiras, caí de bunda no chão. Quanto prazer eu sentia em estar esborrachada naquele corredor, imóvel, livre daquela sensação de “Velocidade Máxima” que me afligia desde o salão de beleza. Quanto alívio.

Refeita do susto, levantei-me, não sem antes experimentar um belo par de Havaianas – que já saí calçando, mui agradecida e tranqüila. Nada como um produto de confiança.

Chegando em casa, pendurei os tamancos. Eles estão mais seguros na parede do meu quarto.

E eu, mais segura bem longe deles.

22 fevereiro 2003

Tem dias em que acordo com aquele gás: zero. Preguiça até do fio dental, sabe como é? Hoje foi assim.

Um sábado lento, tenebroso. Ensolarado lá fora. Banhistas se debatendo no engarrafamento rumo à orla – a “boa vida” do fim de semana. Tumulto e mais tumulto. Tô fora.

Aqui dentro de casa, contrariando a preguiça, rolou uma faxina daquelas. Hoje eu ouvi muito rock’n roll, que também acordei com preguiça daquele pessoalzinho da (gravadora) Trama - que virou prato-feito das rádios MPB. Tem dó!

Acordei e já virei um copão de Nescau, energia que dá gosto, para ver se deixava de me arrastar e passava a viver um dia normal, tipo pessoa-humana mesmo. Necas. Meu estômago embrulhou com aquele achocolatado triplo; senti que a peleja estava só começando.

O sol acenou lá fora, eu rebati com um bocejo imenso. Não estou pra brinquedo, não sei se notas.

Caí na cama de novo, dessa vez com a cabeça para o lado dos pés e os pés para o lado da cabeça. A posição invertida muito me agradou – dormi mais um tanto.

Acordei de novo, crente que estava em Garibaldi, num hotel onde costumávamos nos hospedar quando íamos tocar no Bar do Joe (que saudade!). Hotel Pieta. Mas o friozinho que eu sentia não era da serra gaúcha; era do ar condicionado, mesmo. Lá fora, uns 40 graus me lembravam do verão carioca. “Caracas, ninguém merece”.

Voltei a cochilar, e do cochilo fui ao ronco mais profundo, e do ronco a Garibaldi. Outra vez, do verão carioca à serra gaúcha em menos de dez minutos. É por essas e outras que eu sou tão boa de cama...

Quando o “carro das mantas” passou aqui em frente, tornei a encarar a realidade barulhenta e infernal que me aguardava.

Contra o barulho, só mais barulho: Fluminense FM.

Vassoura, pano, luvas, água sanitária, Pinho, Sapólio, escova, esfregão... enfim, um sábado realmente rock’n roll. Quase trash metal, eu diria.

Só parei quando o piso brilhava de modo a ofuscar o sol, que já se punha lá fora, envergonhado. Optimum.

Banho tomado, tracei um caldo de feijão para repor as energias. Quer mais?
Me deixa, que agora vou ver o Zé Mayer na tevê.

Porque hoje é sábado.

21 fevereiro 2003

FIM DA GREVE

Buenas!

Minha polêmica greve era somente para confirmar o óbvio: vocês não me dão o mínimo apoio! Recebi ONZE protestos contra o meu próprio protesto, e, incrível, NINGUÉM me perguntou onde estava minha insatisfação, quais eram minhas reivindicações, minhas exigências...

Vocês não têm vergonha?

Eu nem deveria ter terminado a greve. Prometi a mim mesma que só voltaria a escrever quando alguém me perguntasse o que eu estava querendo. Nada. Ninguém deu pelota para os meus sentimentos, ninguém quis saber. Só queriam protestar.

Estou carente, oras! Que mulher não fica carente uma vez ou outra, ainda que seja moderníssima, independente, forte, segura, confiante, invulnerável, antiderrapante, firme, convicta, sagitariana e, talvez, um pouco mentirosa?

Quis um afago virtual, mas, em lugar dele, o que recebo? Pedras.

Está certo. Quem mandou eu inventar carência numa hora dessas? Quem mandou?

Viram como está meu texto hoje? Cheio de interrogações, todo inseguro. Viram? Culpa de vocês. Sou contra isso, sou contra. Não gosto desse tipo de texto que dialoga consigo próprio, mais parecendo que o leitor não está ali para formular suas próprias perguntas.

Não sou muito de interrogações, e ponto final.

Mas o que eu posso fazer? Vocês me obrigam! Onde estão vocês, quando eu mais preciso? Quando eu questiono a nossa relação, analisando tudo, desde o dia em que nos conhecemos até o momento presente, onde estão vocês?

Ausentes.

Assim fica difícil. Queria que vocês se olhassem no espelho agora, para verem exatamente o que eu estou vendo: esse ar casual, mera ruguinha no meio da testa, pensamento meia-boca - estou aqui, mas não é muito comigo...

É nisso que eu penso, quando ponho a cabeça no travesseiro, e me pergunto se não poderia ser melhor. É sobre essa ruga descompromissada que eu reflito, diante da telinha, enquanto vejo o furdunço que uma paixão “made in Manoel Carlos” pode causar. Nos outros.

E o nosso furdunço, cadê? (O mouse comeu).

Não sei se poderemos levar adiante deste modo. Sinceramente? Não sei.

(Baixo a cabeça, faço círculos com o dedo numa poeirinha que caiu sobre o mouse pad, suspiro... longo silêncio...).

Sinais do tempo, gente. Poeira no mouse pad.

(Coço o nariz, fungo duas ou três vezes para deixá-los na dúvida entre a alergia ao pó ou um choro compulsivo que pode começar de uma hora para outra...).

Hein? Como?

(Faço cara de desentendida enquanto vocês começam a dizer o quanto me amam, como eu sou maravilhosa, e outras quinquilharias verbais do tipo.)

Ah. Sério?

(Olho no relógio, entediada).

Ok, ok. Então eu vou dar mais uma chance à relação.

(Vocês se sentem aliviados, como se recém tivessem escapado da guilhotina. Vocês suam horrores. Vocês tremem, não sabem onde colocar as mãos).

(Eu, superior, publico tudo isso).

(E vocês?).

18 fevereiro 2003

14 fevereiro 2003

Mas o que há com o meu BLOG?
É só comigo, ou só está visível até a metade do segundo texto?
Ai, não sei, hoje acordei com uma disposição incomum para a vida, para as pessoas, para as flores, para os céus, para os abdominais, para os agachamentos, para os glúteos, para os bíceps, tríceps, e até para a Lívia, da novela das 7h! Não é incrível?

Estou vestida com o mesmo short vermelho de sempre, aquele que ganhei de minha mãe na última visita, mas me sinto absolutamente em trajes festivos. É como se eu usasse uma saia rodada, colorida, florida, fresca e repolhuda ao mesmo tempo, e um top de cetim azul celeste. Já pensou, cetim?

Faz o mesmo calor repugnante das últimas semanas nesta cidade maravilhosa, mas, não sei, a brisa sopra de um jeito que me faz lembrar a infância nos verdes pampas de Encruzilhada do Sul, onde aprendi a cavalgar em nossa égua Pitanga, muito antes do pocotó fazer tanto fuzuê nessas rádios crudelíssimas que insistem em... mas vamos mudar de assunto, ou acabo esquecendo o bom humor.

Valha-me Deus, há muito tempo eu não começava o dia tão otimista! Deve ter sido por conta dos meus sonhos m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s da noite passada, mas esses eu não conto nem sob tortura... hohoho, tenho direito a meus mistérios, não tenho?

E vocês, que mistérios andam escondendo por aí? “Que mistérios trago no peito...”, dizia a canção “Meu Pago”, que eu cantava com meu tio nos tempos da MPG. Quase participei de um festival, mas ainda era muito novinha.

Há sempre qualquer coisa escondida aí dentro de você, amigo, que o faz sorrir de cantinho quando alguém dá “a deixa”. Não vá negar, que é feio.

A deixa é a senha – aquela palavrinha mágica, que é mágica só para a gente. Um sinalzinho bobo; alguém come uma letra na palavra, e você se lembra daquela namorada de infância que falava errado... pronto, lá vem o mistério. Você desvia o olhar da conversa, perde o tom da canção, vira a cabeça, faz um biquinho desentendido, mas não controla o sorriso bobo. Nem que dure só um segundo.

Na televisão, você vê uma roupa, você ouve uma frase, você sente um sotaque carregado lá daquela cidade onde esteve há tanto tempo, e nunca mais voltou. É a deixa. Ninguém vai compartilhar da sua comoção relâmpago: o mistério é só seu, pode suspirar à vontade.

Alguns mistérios desta vida eu já desfiz; contei à melhor amiga, deixei escapar nos altos papos da madrugada ou nos versos de uma canção. Fraquezas da condição humana, talvez. Você jura nunca entregar o ouro, mas, quando vê, dá com a língua nos dentes. No fundo, estava louco para desabafar e ouvir algo a respeito do mistério – só para cristalizá-lo, dar a ele um “certificado de existência”.

Outros mistérios ainda se encontram lá no fundo da minha alma, onde a razão não dá pé. Intactos.

Mistérios desacreditados, abandonados, difamados pela consciência e humilhados pela autocensura. Mistérios depravados, proibidos, encarcerados lá no sub-sub-subconsciente, que é para não haver perigo de fuga.

Mistérios não vão às compras, não andam de ônibus, não saem de viagem. Quando ameaçamos sair, eles ficam escondidos atrás da orelha. Como a pulga.

A maioria se nega a ir à terapia, inclusive.

Os mistérios são o nosso subtexto, as nossas entrelinhas. Aquilo que não se vê e não se ouve, mas vem à tona nas horas mais impróprias, involuntariamente. É só dar a deixa.

Ou vai dizer que você não tem algum?

13 fevereiro 2003

ECO-CHATA É A MÃE!

Preciso comentar isto: ontem, enquanto eu tomava sol na pacata (em dia de semana) praia do Recreio, um casal bem apresentado relaxava a poucos metros de mim. Ela estava grávida, falava alto num celular chique; ele tinha pose de burguês.

Ambos bebiam água-de-coco, refestelados em suas cadeiras, enquanto o cachorrinho brincava ali em volta – apesar das inúmeras placas de “não traga seu cachorro para a praia”.

Já achei um insulto. Muito bonitinho, o animal. Fofo, até. Mas, ainda um cachorro.

Quando resolveram levantar para ir embora, homem e mulher deixaram para trás seus cocos vazios, canudos coloridos e uma garrafa plástica de água mineral. Tudo na areia pública; ali mesmo, onde também o cachorrinho pode ter deixado algum sinal nada higiênico de sua presença.

O pior é que eu olhei em volta, e havia inúmeras cenas parecidas com aquela: gente despreocupada - ou, pior, MAL EDUCADA - deixando rastros de uma ignorância injustificável a essa altura do campeonato. Francamente!

Eu estou doida, ou não custa nada andar uns metros até a lixeira mais próxima?

Será que eles pensam que o lixo “some” dali, como num passe de mágica, assim que a noite cai? Será mesmo que, nem diante da imensidão do mar, manifestação explícita da natureza, é possível notar que meio-ambiente e resíduos plásticos não formam um belo par? Impossível não perceber o disparate.

Não se trata de eco-chatice; é questão de simples bom senso e coerência. Sim, porque aquela mulher grávida vai ter um filho, que vai crescer e ir para a escola, onde aprenderá as primeiras noções de cidadania e respeito ao ambiente. Chegará em casa, um dia, com um lindo trabalhinho: a figura de uma árvore cheia de folhas saudáveis, e uma placa ao lado, na qual se lerá - “jogue o lixo no lixo”.

Os pais vão sorrir, orgulhosos, e não haverá ninguém para lembrá-los que, em pleno momento de gestação do pimpolho, ambos viviam cometendo crimes contra a natureza.

Minto: infelizmente, a própria natureza vai se encarregar de lembrá-los.

12 fevereiro 2003

ATRASADA

Em tempo: o arquivo cujo link eu recomendo, ali embaixo, é o que está no pé da página - "Mico Jornalístico", aquele conhecido, da Lilian Wite Fibe...
VIDAS ALTERNATIVAS – parte I


Às vezes eu desejo me transformar numa mulher de 1,58m, 46kg, cabelos pretos bem curtinhos – um penteado bagunçado, com gel – pele clarinha, canceriana com ascendente em aquário e a lua em peixes. 29 anos. Morando num apartamento de dois quartos na Alameda Lorena, Jardins, São Paulo, vaga na garagem preenchida por um Gol verde 1.8, ano 2001.

Eu seria uma publicitária que faz ioga às 6h da manhã, depois come meio papaia e iogurte com granola. Jamais tomaria banho; tomaria duchas, demoradas e relaxantes, usando sabonete Dove e qualquer xampu – afinal, meu cabelo é tão curtinho que não carece dessas frescuras. Duchas!

Teria um tapete na minha sala acarpetada com móveis modernos, mesa baixinha em frente ao sofá vermelho, mas um vermelho bem fechado. Ali, meus cinco amigos e eu beliscaríamos uns queijos e torradinhas com patê, e bebericaríamos vinho tinto.

Duas ou três tacinhas e eu já estaria sonolenta, pronta para mais uma noite confortável no meu quarto de paredes cor-de-pêssego.

No dia seguinte, um sábado ensolarado de março, eu faria jogging no Ibirapuera, com uma calça de moletom preta e uma blusa azul de lycra, enquanto ouviria “Where the streets have no name”, do U2, no walkman, sem jamais pensar que o timbre ou o delay da guitarra do The Edge poderiam entrar na introdução de alguma música em lá menor que eu comporia para o próximo disco.

Em vez disso, eu apenas ouviria, e ainda pensaria “uau! Estou correndo bem no ritmo da canção!”. É claro que não estaria.

Talvez essa fosse mesmo uma boa alternativa: ter uma vida atribulada em São Paulo, e correr no parque para relaxar - ou seja, correr para parar.

Acho que meu nome seria Cíntia Lemos, ou melhor, Ana Cíntia Lemos – para conjugar o verbo do sobrenome na(s) pessoa(s) certa(s).


Pensando bem, melhor continuar sendo eu mesma, que esse meu humor cafajeste jamais me deixaria virar uma pessoa séria, decente.

E, outra: eu não sou do tipo que toma ducha, muito menos que beberica!!!

11 fevereiro 2003

BiBlog recomenda - chovendo no molhado, mas tudo bem:
Você NÃO PODE, em hipótese alguma, deixar de baixar este arquivo aqui.
src="http://www2.humortadela.ig.com.br/site7/soft/thumbs/soft_f_vid_0126.jpg">
Assombra-me o tempo, que me escapa do couro cabeludo, fino e branco, e arranco. Assombra-me a minha própria incompetência de lidar com essas coisas que andam; coisas que não me perguntam, não pedem, sequer avisam: apenas andam.

Há movimentos que só percebemos porque o cabelo daqui voa com algum vento de lá, nos fazendo coadjuvantes de uma história inevitável qualquer. Assombra-me, também, a impotente relação que temos com as coisas que não pedem passagem: apenas passam.

E ninguém avisa, ninguém protesta, ninguém adverte, ninguém, palavra nenhuma, nada.

Engraçada essa fobia infinita que me acende um alarme, que ainda me presto a idéias como assombração, não durmo, e ainda divulgo. Engraçado isso do susto que a cronologia às vezes nos prega, se o passar dos anos não se dá como em pulos, mas de forma absolutamente homeopática, comedida - como em dias, oras!

Parece que não importa, porque é naturalmente, que vamos indo, frouxos, no embalo...
e pronto.

Mas não é bem assim.

A pista é meio torta, porque é feita pela gente, às vezes eu vou indo, solta, entalo...
e tombo.

09 fevereiro 2003

Buenas!

Tudo ok com vocês, minhas poucas e boas (leitoras)? Aqui, tudo azul. Literalmente; céu e mar. É pena que...
O RECREIO NÃO É MAIS O MESMO

O Recreio dos Bandeirantes é uma praia que fica ao lado da Barra da Tijuca – em direção ao lado mais longe. Para quem não conhece o Rio, funciona mais ou menos assim: a Barra é um bairro grande, que fica “muito longe” – como dizem todos que moram, ou perto do Centro da Cidade, ou perto da Zona Sul (Copacabana, Ipanema, Lebon...).

Mas o “muito longe” é relativo, claro. Quando morei em Ipanema, por exemplo, demorava meia hora para atravessar três quadras de carro até chegar em casa. Isso, para mim, era muito “longe”. Dava vontade de descer do carro e ir a pé. Tudo é lento na Zona Sul.

O Recreio, onde moro hoje, é realmente muito longe do Centro da cidade. Dependendo do trânsito, pode-se levar uma hora ou mais. O caso é que, aqui no Rio, o “Centro” não é como na maioria das cidades brasileiras – um bairro onde se precisa ir quase que diariamente, para se fazer qualquer coisa importante.

Nem me lembro da última vez em que fui ao Centro (graças a Deus, porque aquilo ninguém merece). “O Rio é uma cidade de cidades misturadas”; desse modo, os bairros são relativamente auto-suficientes, como se fossem cidades mesmo.

Quando pus meus pés aqui no Recreio pela primeira vez, no verão de 89/90, tratava-se de uma prainha-matagal pacata, simpática e pouco povoada. Viemos – meus pais, meu irmão e eu – num táxi desses com guia turístico, um homem muito simpático que perguntou se queríamos conhecer a praia onde era filmada a novela Top Model.

Eu tinha 12 anos e era fã daquela novela. Queria ser a Malu Mader quando crescesse. Já contei isso a vocês, né?

Pois bem. Chegamos na tal prainha, cujo nome me agradava, não sei por quê: Recreio dos Bandeirantes. Soava tão bem!

Quando chegamos em frente à “Casa do Gaspar” (Nuno Leal Maia vivia um surfista quarentão super boa gente), eu me derreti. Além de ser a Malu Mader, eu queria morar bem ali quando crescesse, naquela praia com cara de interior, mar imenso e uma brisa que seguiu soprando nos meus ouvidos durante os próximos anos em que eu virava gente no Rio Grande do Sul.

Pois, que ironia, vim parar justo aqui. No Recreio.

Infelizmente, treze anos depois, o Recreio já não é mais o mesmo. Hoje eu fui à praia, que está mais suja do que nunca, e me deparei com o “progresso” do meu bairro. No caminho até lá, a brisa que vem do mar é misturada ao cheiro desagradável que sai dos canos de descarga. Dezenas e dezenas de carros barulhentos amontoam-se pelas ruas – e até pelas calçadas – em busca de um lugarzinho; coisa que está cada vez mais difícil por estas bandas.

Pior, muito pior é a constatação de que a desgraça está instalada, e daqui para frente só tende a piorar: vários homens, com seus isopores, vendiam bebidas no engarrafamento!! Isso é o fim.

Bebida no engarrafamento é um péssimo sinal. Sinal de precisamos achar outra casa para o Gaspar.

08 fevereiro 2003

Comendo duas fatias de queijo minas
(as últimas, finas),
bebendo cappuccino
(gole sim, gole não),
escrevendo
(tem alguém aí?),
esperando o Jô Soares
(déjà vu de verão),
ouvindo o barulhinho do ventilador
(sopro elétrico),
imaginando ter um apartamento mais bonitinho e decoradinho
(spot futuro),
lembrando os sonhos da noite anterior
(passado dormente),
esquecendo o que é preciso
(presente inconveniente),
precisando de alguém que diga que,
mais dia,
menos dia,
os gerúndios serão bem outros,
e as fatias serão menos finas,
e os goles serão todos,
e os verões serão inéditos,
e os sopros serão humanos,
e os spots serão agora,
e o passado será memória,
e o presente não precisará de explicações
(entre parênteses).

02 fevereiro 2003

DELÍRIOS DOMINICAIS DE UMA BAIXISTA GAÚCHA EM CRISE


Alô, ouvintes, hoje por favor* peço que me leiam em voz alta, porque o meu texto vai ficar melhor em áudio que em vídeo, uma vez que estou despreocupada com os pormenores literário-gramatiacais e coisinhas de hábito, se é que me entendem, de quem lida melhor com a palavra escrita que com a falada, a frigideira, o interfone, o porteiro, os vizinhos e até mesmo as próprias unhas.

* notem que o “por favor”, na primeira linha, não está entre vírgulas. Vejam como me permito relaxar, não sou uma escriba careta, presa às normas, encarcerada na gramática; meu vôo é livre, leve, solto. E me desculpem o ponto-e-vírgula, antes que eu me esqueça.

Então, continuando, não esperem versos ordenados, parágrafos coerentes, idéias sólidas. Hoje o papo é torto, estou em crise, não sei se já disse.

Vocês sabem qual é a diferença entre uma cantora e uma vocalista/instrumentista? As unhas. Por isso é que me revolto quando alguém diz “aquela cantora”, referindo-se a mim, pobre de mim, que há anos carrego o peso grave do contrabaixo nas costas, e privo minhas unhas de um tratamento digno de uma donzela, a donzela esta, justamente aquela donzela que sou. (Sobre o texto: eu avisei).

Nada contra as cantoras de belas unhas, segurando seus microfones com a delicadeza e o glamour que lhes convém, usando saias curtas ou médias ou longas, tecidos leves, maquiagem rósea, sorrisos carismáticos, dançando conforme a música. Muito pelo contrário, até muito admiro esses canários de belas ou médias ou feias pernas, que muito encantam seu público, e muito me inspiram, na verdade.

O caso é que há uma diferença entre nós, e o equívoco foi se convencionar que qualquer elemento feminino que esteja sobre um palco é, invariavelmente, uma cantora. Não o é. Aliás, não o somos. (Ou seria “não os somos?” Ossomos?? Não interessa, hoje o texto é o de menos, já avisei).

Foi-se o tempo, meu amigo, em que os barbados seguravam suas guitarras, seus contrabaixos, ou sentavam-se a batucar em suas baterias, e depois chegavam em casa, exaustos, às seis da manhã, e esperavam que suas esposas lhes tirassem os chinelos e preparassem o jantar – nesse caso, o café da manhã. Estão rindo de mim, mas a classificação errada de que qualquer mulherzinha no palco é cantora, e não vocalista ou instrumentista, veio desse tempo mesmo!

A diferença, repito, está nas unhas e nos calos.

O que quero dizer, com esse manifesto, é que o serviço pesado há muito já não é feito só por eles. Estamos no mesmo palco, dividindo melodias e acordes, ritmos e levadas, no aplauso e na vaia, até que a morte nos separe.

Não é muito mais bonito assim?

01 fevereiro 2003

Absoluto calor no primeiro dia de fevereiro - tem carnaval - no Rio de Janeiro. Céu sem nuvens, praias lotadas, engarrafamentos bem próximos. Pagodinho no quiosque. Cervejinha na areia, empada, paquera, canga, bronzeado cremoso, descanso.

Não participei de nada disso.

Ao contrário – estou enfurnada dentro de um apartamento cujo piso verde e liso me dá muito prazer em andar descalça, e só. Um pouco de tela, confesso, além de boas tecladas com amigos distantes.
Um monitor quadrado, sossego, vento artificial. Nada de sol. Sal, só o das batatas fritas. Ok, você venceu: batata frita!
Foi um sábado sem barulho de chuva, como há muito não tínhamos. Para não dizer que não festejei o fim do mau tempo, sim, eu fui até a varanda. Olhei em volta, mas o sol não me deu a mão. E eu ando meio orgulhosa; se não formalizar o convite, não aceito.
Fiquei.
Não que eu não goste de sol, areia da praia e mar. O caso é que há momentos, não?
Primeiro dia de fevereiro. Primeiro sábado de sol. Primeiro sábado meu, em 2003, no Rio de Janeiro, com bom tempo.
Não dava. Essas estréias todas me inibem.

Como dizia um amigo nosso, guitarrista - depois de passar anos tocando com uma guitarra horrível por falta de grana, enfim comprou uma nova, maravilhosa, impecável. Mas continuava tocando com aquela tralha velha.
Cobrava-se:
- E aí??? Não vai tocar hoje com a guitarra nova???
Ao que ele respondia, sério, quase cochichando:
- Ainda não. Não é o momento. Deixa passar o clima.

“Deixa passar o clima”. Ninguém entendia.
Parecia que, se ele fosse com muita sede ao pote, a guitarra nova iria se desmanchar nas mãos dele, ou coisa assim. Era o jeito que ele tinha de respeitar o momento nobre – comprara, com muito sacrifício, depois de anos de peleja nos bares da cidade, uma guitarra zerinho. Uma Gibson legítima. Imagine.

E o pessoal, afoito, querendo que ele inaugurasse aquela preciosidade, assim, num boteco qualquer!

Podem me chamar de antiga, “nerd” ou bobalhona, mas eu acho mesmo que certas coisas merecem respeito.

Claro que um sábado de sol é só um sábado de sol, e não fui à praia porque deu preguiça, ou porque estou mesmo lesionada das pernas, quem me conhece sabe que ainda estou mancando e toda dura. Mas o pretexto é bom, e o argumento aqui é o que vale: pensar no respeito das coisas. Respeito, palavra antiga, em desuso.

Eu respeito muito as coisas que estão vindo à luz pela primeira vez. E até temo atitudes recém-nascidas, muitas vezes – minhas, inclusive.

São embriões de hábitos, e a gente nunca sabe...

30 janeiro 2003

Tive pesadelo com assalto, mas fui salva no final por um carro de segurança particular, um Gol branco com um homem esperto dentro. O menino que tentava me assaltar era muito novinho; ele tinha uma arma de brinquedo só para disfarçar – e outra, de verdade, dentro da mochila.

Fiquei desesperada na hora em que o homem descobriu que o menino estava armado de verdade, e mais desesperada ainda quando ele cochichou para mim “vou te dar um revólver, mas é só para te defender, não vai ser preciso usar...”.

Se não fosse preciso, ele não me daria uma arma – foi o que eu pensei na hora, enquanto pegava aquilo com a mão esquerda, tentando evitar que o assaltante percebesse a manobra. Deu certo, e não foi mesmo preciso atirar.

Só lembro que, no final da história, o segurança conseguiu evitar o assalto, imobilizando o menino e tirando tudo dele.
Não se ouviu um disparo, mas o clima era tenso demais, e eu acordei agitada.

***

Quando dormi de novo, sonhei que meus dentes (todos) estavam caindo, um a um. Eu tentava disfarçar, porque estava em público. Levava a mão à boca, retirava um dente, e punha no bolso. E assim por diante, até que fiquei totalmente banguela.

O ponto alto do sonho foi quando meu punhado de dentes foi parar dentro do MOCOTÓ que um amigo do meu pai estava preparando num panelão, ao ar livre. O acidente se deu quando meu irmão me pediu a chave do carro, e eu, num gesto desajeitado, enfiei a mão no bolso errado, apanhei os dentes achando que era o molho de chaves, estendi o braço por cima da panela, e... derrubei tudo lá dentro.

Eu não sabia se chorava mais de vergonha pela patacoada no meio do evento, ou pela banguelice em si. Motivos não faltavam, enfim.

Acordei, ainda apavorada, e só sosseguei quando senti os dentes com a língua.

***

Andam bulindo no meu jornal.

O entregador aparece sempre bem cedinho, pouco antes das 6h. Hoje, acordei às 8h e fui pegar o jornal na porta. Em vão.

Eu já desconfiava, e meu irmão também já me havia advertido do problema. O vizinho não-assinante madruga, surrupia o folhetim alheio, e toma seu cafezinho ao desfrutar da leitura gratuita. Muito bonito.

Lá pelas 9h ou 10h da manhã, quem aparece em frente à minha porta? Todo arrumadinho – mas, evidentemente, desvirginado. Sim, porque o periódico, quando ainda é donzelo, a gente percebe de longe.
Jornaleco devasso é muito diferente.

Por mais que esteja dobrado reto, nunca está lisinho. Sempre há alguma ruga, uma manchinha aqui e ali; enfim, claras denúncias da infidelidade.

Já aconteceu, algumas vezes, de eu chegar de algum trabalho noturno – música, música! -, junto com o jornaleiro. Nesses casos, levo a melhor, e acabo inibindo a traição do vizinho com as minhas imaculadas notícias. Mas, na maioria das vezes, confesso que tenho sido chifrada e não paga.

Diante de tamanha cara-de-pau desse misterioso maníaco do primeiro andar, só posso concluir: preciso bolar uma arapuca para pegar o cretino.

Já pensei em ficar de tocaia, entrincheirada no quartinho do lixo, só esperando o arrastar dos textos para a porta ao lado. No momento do ato, eu pularia em cima dos dois, e acabaria de vez com essa farra matinal.

Mas eu não me prestaria a tal papel. Não sou do tipo que faz escândalos; costumo agir com classe.

Primeiro, preciso saber quem é o crápula. Para isso, contrato uma faxineira, que se fingirá de funcionária do prédio, e madrugará limpando a ardósia dos corredores do primeiro andar. Em poucos dias, ela desmascarará o traidor, e me dará o serviço completo.

De posse da identidade do bandido, telefono para alguma editora de revistas de mulheres peladas, e peço que me venham oferecer assinatura, pessoalmente. Na porta do vizinho, é claro.

O tarado, certamente, não vai resistir. Se gosta de bolinar jornal, que dirá revista de mulher nua.

Ele assinará na hora. No dia da primeira entrega, eu confiscarei o exemplar, e devolverei, minutos depois, no capacho do vizinho. Claro que vou procurar alguma celulite ou estria naquela turma de beldades, só para não perder o hábito, mas nem vou me demorar: o mais importante é lavar a revista com bastante água corrente, página por página.

Nada como pagar na mesma moeda. O corno do meu vizinho, quando esperar encontrar suas mulheres peladas intactas, terá a grande surpresa - elas estarão todas desvirginadas, e, pior, dando a maior bandeira: quem aparece de cabelinho molhado é porque sequer respeita o cônjuge!

28 janeiro 2003

CHUVA E MAIS CHUVA

Gente amiga, confesso que não agüento mais essa água toda. Chega, perdeu a graça. Justo eu - uma gaúcha que adora quando pinta um céu cinza-chumbo aqui no Rio de Janeiro, para brincar de pampas -, justo eu.

Minha avó ensinava a fazer promessas, mas, mui discreta e cuidadosa com os termos, arriscava um eufemismo: “é uma troca de favores, minha filha”.

Nunca entendi direito o porquê de Deus se sentir, de certo modo, acarinhado por minhas reles atitudes politicamente corretas – como usar o fio dental todos os dias, por exemplo -, mas minha avó garantia que Ele se satisfazia, e muito. Vá lá.

Pois faço uma negociação com São Pedro: ele pára de mandar água, e eu paro de fingir que a minha varanda verde não existe. Caio de quatro, vou com tudo naquela ardósia empoeirada. Juro. Vassoura, pano e cera. Tou dizendo.

Há dias que eu olho, meio de lado, para a sacada, e depois pigarro, pigarro, pigarro... hein? O que eu estava fazendo, mesmo? Ah, sim, telefonar para a mãe, urgente!

A rua aqui em frente, acreditem se quiser, ainda não foi asfaltada. Imaginem. Cada carro que passa é mais poeira que levanta, sendo que aqui, no primeiro andar, amparamos boa parte da areia voadora.

Não bastasse o pó, parece que São Pedro adivinha: no horário de pique, manda chuva e vento varanda adentro, transformando aquela inocente sujeirinha em ardósia com cobertura de lama. Delícia.

Está prometido, portanto. São Pedro, se fizer a sua parte, terá os olhos ofuscados – com todo respeito – pelo brilho impecável da minha varanda. Que trate de comprar óculos escuros.

Segundo a previsão do tempo, no entanto, as chuvas durarão até o fim da semana. É isso que enfraquece a amizade, São Pedro. Se o senhor insistir nessa insossa campanha nebulosa, eu deixarei que a minha sacada marrom, outrora verde, crie bichos. Não estou nem aí!

(Minha avó diria que São Pedro e demais seres celestiais estariam, a essa altura, comovidos com meu apelo higiênico. De modo que prossigo).

Ouviu bem, São Pedro? Ou quer que repita?

(Minha avó diria – não se exalte, minha filha, não se exalte que Deus não gosta!).

Ah, não gosta? E que direito tem Ele de mandar esse aguaceiro para me atormentar a vida, além de esmagar pobres criaturas inocentes debaixo da lama que despenca, a torto e a direito, por aí? Fora a minha ardósia, claro!

(Querida, já me arrependi de tê-la ensinado a trocar favores com os santos! Não é assim que uma moça deve proceder diante de...)

Cala a boca, vó! O negócio aqui é entre A e B!

(Minha Santa Maria...!!)

Opa, não mete a mãe do Cara no meio! Pega leve, só estou fazendo um protesto, não precisa ofender também!
Olha aí, São Pedro, é ela quem está baixando o nível, o senhor tá vendo. O senhor tá vendo.

Depois disso, o que era para ser uma conversa informal passa a ser um debate descarado e exaltado. Já vi que a chuva vai continuar, minha ardósia vai seguir cada vez mais imunda, e nada mais pode ser feito.

Tudo culpa da minha avó, que não entende nada de administração de empresas.

Hoje em dia, quem não tiver uma postura ativa e agressiva vai ficar comendo poeira!


* * * * *

A RODA

De vez em quando pinta uma fraqueza de encarar a luz, de freqüentar o óbvio, de folhear os fatos, ler às pressas as coisas dos dias.

Como é necessário ir andando, mais que tudo!

Como é necessário só passar; e não importa a impressão – porque o registro é tão inútil, que se apaga em dois tempos.
E quanto tempo é gasto em constatação, quantos anos perdemos tentando traduzir a simplicidade das coisas, terminando por complicá-las, definindo, catalogando, organizando...

Bobagem.
A roda segue esmagando a estrada.E o rastro não dura quase nada.

25 janeiro 2003

EU QUERO ENTRAR NO ROUGE

Está decidido - eu quero entrar no Rouge. Estou aqui ensaiando o Ragatanga e tudo. Meu sonho é entrar no Rouge. Chega dessa vida ingrata de compor e não conseguir gravar, gravar e não conseguir lançar, ensaiar e não conseguir tocar. Chega de escrever letras e mais letras, riscar, rasgar, escrever tudo de novo, rasgar de novo por achar que não está legal.

Ragatanga é o sucesso!

Meninas, me ajudem. Eu tive uma infância muito difícil. Andava de chinelos no inverno sulista, comia canja de galinha rala porque não havia dinheiro suficiente. É verdade. Mas canto desde que morava na barriga de minha mãezinha, porque acredito que a alegria está no coração da gente, não importa o financeiro.

Nunca sonhei com fama e dinheiro. Só quero mostrar o meu trabalho, sabe? Acho que todo mundo deveria ter uma oportunidade, é por isso que estou aqui, ensaiando o Ragatanga para fazer bonito diante desse Brasil lindo, cheio de gente maravilhosa e trabalhadora.

O meu público é assim, bem variado. As crianças gostam de mim, não sei bem por quê. Minha mãe diz que eu tenho carisma, e meu namorado afirma que sou bonita, mas eu acho que beleza não é tudo nesse mundo, tem que ter talento. Porque a minha beleza um dia vai acabar, eu sei, tenho conhecimento disso. Não adianta ser só bonito por fora.

Cantar? Ah, pra mim, cantar é tudo! Eu acordo cantando, durmo cantando, faço esteira cantando... cantar alivia a alma por dentro, tudo. Como dizem, quem canta seus males espanta.

Sim, eu estudo muito. Terminei o ensino médio e fiz alguns semestres da faculdade de jornalismo, depois tranquei tudo para me dedicar ao que eu gosto mesmo de fazer, que é cantar, não sei se eu já disse. Ah, e agora estou estudando o Ragatanga.

Sou uma pessoa muito honesta e também humilde. Pretendo estar ajudando muita gente com o dinheiro que eu ganhar na minha carreira. O que eu desejo para o mundo é muita paz e alegria, é por isso que eu insisto em ser cantora, para levar um pouco de alegria a esse povo pobre a nível material, mas muito rico de espírito.

Eu quero e preciso e vou entrar no Rouge, porque as pessoas precisam parar de dizer que não existe nada de original no meio musical brasileiro. Pretendo estar mostrando que nós estamos aqui, de peito aberto, mostrando a cara e pagando para ver, porque acreditamos que temos muito que acrescentar na cultura em termos de opinião e até mesmo no tocante ao gênero espiritual, tão esquecido hoje em dia, com todas essas guerras, num mundo onde os valores são distorcidos, a família é menosprezada, só se fala em silicone, as meninas precisam ter o bumbum malhado e o que importava antigamente nem sempre volta a importar, o que é um erro grave, se pensarmos que tudo pode vir à tona um dia e então estaremos nos deparando com desastres ecológicos, dos quais só podemos nos livrar com muito pensamento positivo e amor ao próximo e compreensão.

Ainda mais agora, com a globalização.

24 janeiro 2003

Uma mulher sozinha e ociosa, numa noite de sexta-feira chuvosa, pensa em pedir uma pizza.

Observa a porta da geladeira, onde pequenos objetos pecaminosos disputam espaço, insinuando que a solução para esta noite estaria num código de sete dígitos. Do cofre, geralmente localizado em alguma esquina próxima, saltará um motoqueiro com capa de chuva e botas, que trará na garupa aquela peça redonda e gordurosa, coberta de queijos amarelos - alguns tão furadinhos quanto irão se tornar as coxas e as nádegas daquela que tiver a audácia de saborear a massa do pecado.

A mulher recua, hesitante. Carboidrato, depois das seis da tarde? – ela ouve vozes , sente um arrepio. Esquenta um pouco de água. Camomila e aspartame.

Meia hora depois, impaciente, cruza e descruza as pernas. Camomila, o cacete. Meia calabresa, meia portuguesa... meia-noite? Já??

Sujou. Se não pode carboidrato depois das seis, depois da meia-noite a pena deve ser dobrada. Imagino que todos os furos da lua na minha bunda, assim, por baixo. Nem pensar.

A mulher sobe na esteira e anda muito rápido, parada, como se quisesse fugir do moto-boy – que nem foi chamado. Ela anda em direção à televisão, onde vê propagandas de liquidação de biquínis, adoçantes dietéticos, clínicas estéticas e uma redonda pizza Sadia. Só pode ser um complô.

Num pulo, agarra o telefone sem fio e digita os sete números da perdição. Antes de atenderem, no entanto, ela tem a idéia que a salvará de todos os pecados, e a levará direto ao reino dos céus.

- Boa noite, faça seu pedido, por favor.

- Boa noite. O senhor tem salada de frutas?

- Não, senhora. Só entregamos pizza.

- Ah, que pena. Então me manda uma gigante, de calabresa com cebola e queijos, muitos queijos.

- Pois não.

A pizza chega, ela devora num tapa, sem culpa. Já é quase uma da manhã.

Ela bem que tentou, mas não pôde fazer nada. Onde iria achar salada de frutas a essa hora?

23 janeiro 2003

Respostas:

O da foto abaixo é o ator Ângelo Antônio, e o da foto mais abaixo ainda é o ator (gaúcho) Werner Schünemann - que interpreta Bento Gonçalves na série A Casa das Sete Mulheres, na Globo.

A poesia (mais abaixo ainda) é minha mesmo. :o)

E aí, Melissa, quanto aos bofes... melhorando ou piorando?


Dúvida cruel... (suspiro)


Ai, ai... já me apaixonei de novo.
Não me gosto
didática,
exemplar,
categórica,
correta,
protocolar,
metódica.

Prefiro-me às voltas, às moscas, aos prantos;
que o eixo seja semi-reto, que a margem saia meio torta,
que a letra esqueça a palavra, que esqueça o verso,
que esqueça o texto e todo o resto.

Já me basta a fama de implacável,
que disfarço com olhar disperso;
e já me chega a marca de insensível,
que mantenho pra evitar conversa.

Não me gosto
elétrica,
ávida,
pulsante,
enérgica,
falante,
corrente.

Prefiro passos lerdos, próximos, prestes;
que a foto seja sempre um susto, que a pose saia indecente,
que o olho supere a fala, que desbanque o verbo,
que destranque o beijo e todo o resto.

Pois já me basta a fama de arrogante,
que combato com sorriso doce;
e já me chega a fome de um abraço,
que contenho enquanto ainda posso.

20 janeiro 2003

No fritar dos miolos


De vez em quando bate repentina vontade - eu diria quase que uma gana – de escrever alguma coisa útil mesmo, não só útil a mim e a meus botões. Aí eu penso bem forte, e me fascina o dom que o ser humano tem de esquentar a cuca até chegar, invariavelmente, à mesma conclusão: De NADA vale o fritar dos miolos. E nada vale a fritada deles.

Duvido que alguém aqui tenha decidido um grande pepino de sua vida, fosse de ordem financeira, emocional ou vegetal mesmo, a partir do raciocínio compulsivo e ininterrupto acerca do objeto pepinoso. O fim da linha, quando se envereda para os lados mui frenéticos da atividade cerebral, é um só: justamente o ponto inicial. Ou seja - anda-se, anda-se, mas não se chega a lugar algum.

Contudo, milhares de seres humanos – nós (quase) todos -, ainda embalados por um sotaque cartesiano e mecanicista, pensam que têm acima de seus pescoços as respostas certas para todas as perguntas do mundo. Sua cabeça é seu mestre.

Parece mentira, mas, por mais que digamos que não, ainda estamos absolutamente deslumbrados e apaixonados por nossas próprias cacholas. O cérebro, como é incrível!

Tive uma idéia. O cérebro. Estou sendo sensato. O cérebro. Pensa bem. O cérebro. Sou inteligente. O cérebro.

E o resto?

Partes menos nobres da anatomia humana recebem tratamento de segunda ou terceira classe. Algumas são até sinônimo de palavrão, tamanha má fama. Outras, coitadas, são completamente ignoradas durante boa parte da vida. Uns até morrem sem saber.

O que é mesmo um clitóris?

O clitóris veio à tona depois da “revolução sexual”. Mas o cérebro nunca precisou de revolução nenhuma.

Caberia, a essa altura do campeonato, uma verdadeira revisão: afinal, até que ponto eu devo minha vida às engrenagens da razão?

Quantas vezes eu gastei neurônios, insistentemente, achando que resolveria um problema enorme - quando a resposta estava na asa da borboleta colorida que pousou, sem querer, na roupa branca que secava ao varal?

As coisas estão por aí, vagando; muito mais do que aprisionadas na nossa caixa craniana. O tutano pode ser muito, mas o mundo é mais.

Às vezes, uma simples olhada em volta revela o que o raciocínio lógico jamais conseguiria compreender. Yes, nós temos antenas, e elas servem para captar o que não caberia dentro de nós, mas tem passe livre para entrar e sair na hora em que bem entender.

O problema de superestimar o cérebro é justamente dar um nó nas antenas, e obstruir caminhos alternativos de percepção. Fecha-se um círculo vicioso, forma-se um entra-e-sai contínuo de informação, e não há espaço para RENOVAÇÃO.

A única forma de renovar o ar é expirando, para depois inspirar de novo.

Assim funciona com as idéias: não adianta fritar os miolos, se não houver espaço para as antenas brincarem de nariz da alma.

09 janeiro 2003

BUENAS!

Tudo tri com vocês? Espero que sim.

Têm acompanhado A Casa das Sete Mulheres, na Globo? Eu assisti aos dois primeiros capítulos, e achei legal, apesar do sotaque sulista soar bem apenas em dois ou três atores. Sinceramente - não é bairrismo, não -, bem que a Samara Felippo, por exemplo, poderia ser mais esforçada e parar de misturar "tu foste" com o chiado característico dos cariocas (que acho uma graça, mas fica ridículo numa situação dessas).

"Bah, tu foxxxxte à guerra?" - é, no mínimo, esquisito.

Tudo bem que deve haver alguma dificuldade em se adequar ao sotaque dos outros, mas eu pensei que o trabalho de ator/atriz fosse justamente este: vencer as dificuldades, representar, ser aquilo que não se nasceu sendo.

E não é só o sotaque, não. Alguém poderia cuidar para que a Nívea Maria, por exemplo, não segurasse a cuia de chimarrão como se fosse um coco verde, e a bomba como se fosse um canudinho de plástico. Não é preciso agarrar com as duas mãos - uma na cuia de porongo e a outra na bomba de metal. Os materiais são suficientemente resistentes, não é qualquer vento que vai levar o mate amargo embora.

O ato de segurar a cuia como se ela fosse fugir a qualquer momento tira toda a elegância da cena. O significado vai embora, fica uma coisa vazia.

São detalhes como esses que fazem a diferença; são pequenos cuidados que, se estiverem presentes, ninguém percebe. Já, se estiverem ausentes, saltam aos olhos.

Outra coisa que salta aos olhos, verdade seja dita, é o Tiago Lacerda de barba por fazer e cabelo por cortar. O bonitão aparece sem o rosto de bundinha de bebê e o cabelinho bem cortado, como convém a bons moços de horário nobre, e cresce uns 100 pontos na minha escala estética que clama por alguma imperfeição no reino dos galãs convencionais - os "tudo-de-bom" que têm aparecido por aí.

Acho que esse pessoal da estética "global" pensa que é preciso retornar a 1800 para que se possa mostrar um homem de verdade. Aliás, Ângelo Antônio e Murilo Rosa também estão melhores do que nunca em 1800!

Estivesse eu em meio àquela guerra, ficaria realmente confusa, indecisa, e talvez sequer diferenciasse aquelas fardas.

E acho que acabaria atirando para todos os lados.



07 janeiro 2003

BOM ANO BOM ANO BOM ANO BOM ANO BOM!

Que vergonha... meu último post foi no dia 27 de dezembro do ano passado. Que feio. Sei que vocês devem estar super decepcionados comigo, mas explico, se é que ainda tenho algum crédito aqui: estive fora. Passei a virada do ano em Tramandaí "Beach", "a capital das praias do sul do Brasil" - segundo o folder do hotel informava.

A pobre Tramandaí está imunda e superlotada, porém ainda simpática. Adorei rever, recordar.

Voltei para São Léo, minha terra, com o humor de quem perdeu os últimos dias de sol na praia aboletada numa cama de hotel, por conta de uma gripe ordinária e inoportuna que resolveu me freqüentar os pulmões, logo nos primeiros dias de 2003. Acontece.

Passei alguns dias me recuperando, tossindo e espirrando - como, aliás, ainda estou.

Desculpem o final do post tão corrido, mas estou sendo chamada de urgência para um almoço na Vó.

Acontece.

27 dezembro 2002

LAY OUT NOVO

O BiBlog comemora o Natal, e quem ganha o presente é você! Aliás, nós, porque também eu fiquei surpresa ao me deparar com o novo lay out - a responsável pela arte é a minha amiga Melissa.
Valeu, Me!! Adoramos!

A propósito, eu também achei que estava no lugar errado até reconhecer meu próprio blog, vestido de nova cor... caiu-lhe muito bem, ali(L)ás!

É bom entrar o ano de roupa nova, dizem. Estou nessa, agora, até virtualmente.

Vocês já entraram no clima de réveillon? Eu recém comecei a me animar e a pensar a respeito. Não sei de vocês, mas eu não sou daquelas pessoas que têm pavor das festas de fim de ano, não. Eu sempre gostei, principalmente da virada.

No Natal a gente ganha presente; na virada a gente ganha futuro. Tem aquela coisa meio ilusória de virar a vida de cabeça para baixo, chutar um balde ou outro, arrumar de vez o que nunca esteve lá muito certo. Gosto dessa promessa, ainda que fique só na intenção. Não me incomodo com as fantasias que não se concretizam nunca; para falar a verdade, acho mesmo que são elas as mais interessantes.

O concreto deixa de ser infinito no momento em que vira fato, não? Que graça?

Eu gosto de ter um pezinho sempre no infinito, no ilimitado, no - por que não? - inatingível. Nunca fui muito de cercar as idéias com tijolos; depois dá muito trabalho para pular e ver o que há do lado de fora delas.

É por isso que eu não me incomodo com a inquietude da possibilidade, com a insensatez da ilusão, com o não cumprimento de alguma coisa que parecia fadada ao êxito. Melhor estar sempre em aberto.

Em 2003 eu quero abrir exceções, fazer concessões, criar possibilidades. Posso sair da rotina, experimentar novas sensações, selecionar hábitos inusitados e incorporá-los. Incorporar hábitos é preciso.

Vou abrir algumas lacunas e deixar ventilando, sem me preocupar em tapar furos, cobrir frestas, definir, socar, sufocar, resolver. Um pouco de ar, em 2003, não fará mal a ninguém.

Só isso já vai ser trabalho duro, mas cavalo que corre por gosto não cansa. E ninguém mandou eu não gostar de cercas.







25 dezembro 2002

Vocês são uns amores! Mesmo na minha ausência, apareceram para registrar votos de bom Natal. Obrigada! Retribuo com sinceros desejos de paz e felicidades para o próximo ano.

A minha noite de Natal foi ótima. Comecei tocando violão e cantando com a parentada, e terminei às 6h da manhã de hoje, chegando em casa acabada de uma festa com minha incansável prima de 18 anos.

Chegamos na cervejaria/boate pouco depois da meia-noite. Olhares inquietos, expectativas, esperanças, vestidos de vários tamanhos e estilos. Homens de camisa vermelha, cumprimentos, sorrisinhos ensaiados e improvisados. Aquela coisa.

"O que será que eles procuram aqui?" - meu lado sagitariano-filosófico-enfadonho ameaça botar as garras sobre a minha saudável noite fútil. Controle-se, é apenas uma noite. Fútil.

Resolvo me distrair com as belezas humanas desta terra abençoada por Deus, e me encanto por um daqueles vários meninos de vermelho - que, para meu desânimo, engata-se de súbito a uma loura monumental, e desaparece entre os cachos dourados para nunca mais retornar a este reles mundo dos mortais.

Pronto. Menos um.

Relaxe, aconselho a meus neurônios mais afoitos, é Natal. Minha prima pergunta se eu quero dançar, eu pergunto quando vai começar a música, ela responde que é aquilo ali mesmo. Achei que estavam consertando alguma coisa na boate, pois o barulho mais se parecia com um martelo insistente do que, propriamente, com alguma canção. Mas ela reafirma: é isso aí que tem.

Pronto. Menos uma.

Não sou de dar carão; aceitei o convite e fui à luta. No início, me senti um pouco ridícula. Depois, foi piorando. Mas o importante é competir - eu me consolava, enquanto uma adolescente descompassada e meio bêbada se sacudia do meu lado, e depois ia se agachando até o chão, com as duas mãos na cabeça, e fazendo biquinho. Não estou tão mal assim, afinal.

Depois de uma "música" vinha outra, e outra, e ainda outra. Aquele aglomerado ia ficando cada vez mais parecido com uma coisa só. À medida que ia entrando mais gente na pista, a sensação era de que eu ia perdendo o controle sobre os meus próprios movimentos, passando a fazer parte de uma massa nervosa e compulsiva, ali, quicando ao bater de cada martelada. Era a dança.

- Quando não agüentar mais, é só falar... - ela me advertia, com olhar quase piedoso.

- Imagina! - eu tentava disfarçar.

- É só falar... - eu não conseguia disfarçar.

Joguei a toalha quando meus calcanhares já estavam dormentes, meus dedos pisoteados e esborrachados de inchaço, meus quadris apenas mexendo uma vez a cada duas ou três marteladas.

- Vamos dar uma voltinha? - ensaiei um sorriso e dei uma piscadela, como quem quer ver se encontra algum pretendente ou coisa parecida. Colou.

Ela saiu na frente, ainda rebolando ao ritmo da massa. Eu saí atrás, gemendo em silêncio e pisando manso, para ver se a sola dos pés latejava um pouco menos, se eu voltava a sentir as pernas, se a minha cabeça parava de clamar por duas aspirinas e silêncio.

O pretendente? Se meu travesseiro me aparecesse montado num cavalo branco, eu casava na hora. Com qualquer um dos dois.

Demos várias voltas pela boate, mas adiantou muito pouco. As minhas dores foram piorando; minha prima foi se animando. A morte era questão de tempo.

Agüentei no osso equanto deu. Passava das quatro da manhã quando eu sugeri que fôssemos indo, ela teria que viajar hoje ainda com a família, podia se sentir cansada... mas errei o alvo. Ela sorriu, tranqüila:

- Que nada! Tenho gás para virar a noite aqui dentro e depois sair de viagem, numa boa!

Mais uma hora quicando numa pista de luzes piscantes e fumaças variadas. Quem mandou eu não ser sincera? Bem feito.

Cinco horas, abri o jogo: o papo (?) está bom, mas a carroagem tá virando abóbora. Mais cinco minutos, e eu só saio daqui de cadeira de rodas.

Fim de combate. Chegamos em casa ao clarear do dia de Natal. Tirei a farda e a sandália, deitei na cama e ainda quis iniciar uma oração, mas confesso que o sinal da cruz foi só até o nome do filho.

Capotei com a mão no peito, como uma guerreira esgotada, porém feliz.
E já prometi a mim mesma: da próxima vez, vou de coturno. Muito mais adequado a esse tipo de enfrentamento pesado.


19 dezembro 2002

NEM TODA CATARINA É SANTA

O quê?? Tá brincando! Santa Catarina é o paraíso perdido, ou melhor, achado. Da última vez em que estive lá, foi preciso um guindaste para me levar de volta ao Rio. O máximo a que eu chego é Torres, perto do fim do ano, que infelizmente não vai dar para atravessar a fronteira e me meter na ilha da magia desta vez. Desta vez!

11 SHOUT OUTS

Qual não foi minha surpresa ao me deparar, hoje, com onze recadinhos de vocês! Muito obrigada, muito "agradicida mêsss"... adoro receber vocês aqui, do contrário seríamos apenas eu e meu eco eu e meu eco eu e meu eco eu e meu eco... ad infinitum.

FAMÍLIA, Ê, FAMÍLIA, AH, FAMÍLIA!

Tem coisa mais gostosa no mundo?
Eu tenho o maior prazer em reservar minhas horas e meus dias somente para o convívio familiar. Quem tem família sempre por perto pode não dar tanta importância, mas a gente, que mora longe, acaba se deliciando ao som das vozes que sempre estiveram ali, desde sempre. Soa como canção de ninar.

Eles dizem, família é coisa complicada. É nada. Não há nada mais simples neste mundo do que essa bagunça generalizada, vozes altas, crianças estabanadas puxando a toalha da mesa, a vó não vai deixar o cigarro, Vó? Cuide da sua vida! Como cresceu! Pintou o cabelo, foi? Está mais magro, ou é impressão minha? Põe os óculos, mãe, não assina o cheque assim, sem ver nada, pode ser perigoso... falar nisso, e o Rio de Janeiro?

Ontem eu vi o olhar da minha prima numa foto minha. Pode haver generosidade mais espontânea do que essa? Ela nem sabe, nem pensou em permitir, nunca pensou no assunto. Mas está lá, para quem quiser ver. Há uma cumplicidade implícita nisto; há mais que parentesco, mais que parceria.

Família é isso, simples assim; é dividir até o olhar.

17 dezembro 2002

Oi, meus queridos e minhas queridas.

Peço que não reparem n'algum possível erro de digitação. São duas da manhã, e estou sonolentamente me encaminhando a meus aposentos; só vim aqui mesmo para não deixá-los mais um dia órfãos de minhas sandices pseudo-literárias.

Escrevo do Rio Grande do Sul, mais precisamente de São Léo, Minha Terra. Vim passar as festas de fim de ano com minha família, embora tenha deixado boa parte dela no Rio de Janeiro - mas, tudo bem, nada é perfeito mesmo. Minto: o céu azul do Rio Grande do Sul é perfeito.

Desculpem minha crise de paixonite declarada ao estado que me pariu - juro, é temporário, e não é fruto de bairrismo algum. Apenas coisa de gaúcha que se auto-exilou dos pampas, por livre e espontânea vontade, e agora deixa de ser fiel: tem um marido gaúcho e um amante carioca, cada qual com suas belezas e seus sotaques inconfundíveis, fazendo com que meu coração bata em samba e milonga ao mesmo tempo.

Ops!, espero que entendam a minha metáfora: meu marido é o meu doce Rio Grande - casório registrado na minha certidão e tudo -, com quem me envolvo amorosamente desde que me conheço por carne e osso duro de roer, como convém a toda gaúcha que preze as tradições pampeanas.

Meu amante é um carioca, digo, um estado chamado Rio de Janeiro, onde instalei minhas letras e músicas assim que fiz 20 anos - e de onde não pretendo sair tão cedo. Claro que dou minhas escapadelas, que ninguém é de ferro, e o maridão sulista acaba recebendo o ar da minha graça volta e meia.

E chego sem aviso prévio, que é para pegar o peão no pulo, se for o caso. Ai dele!

Mulher é bicho bem sonso, mesmo.
Daqui a uns dias eu volto, com a maior cara de paisagem, e dou "aquele abraço" no Redentor. Finjo que só fui ali na esquina comprar pão...
Ele acredita, e fica tudo bem.

Isso se vocês não derem com as teclas nos dentes, né???

13 dezembro 2002

Ontem me deu vontade de sair de maria-chiquinha, mas não tive coragem. Eu tenho coragem para tanta coisa, desde escrever uma música boba e assinar embaixo até gostar de rúcula, mas me pelo de medo de um penteado infantil. Talvez eu tenha receio de que alguém ria de mim; mesmo assim é estranho, porque eu passo boa parte da vida fazendo ou dizendo ou escrevendo coisas para que os outros riam de mim. Mas, não sei, o penteado me pegou de jeito.

Claro que eu não fiz aquela maria-chiquinha inteira, sabe como é, deixei boa parte do cabelo solto, como quem diz que eu sou adulta e tal. Mesmo assim, quem olhasse de frente ia perceber que eu reparti com pente, e não reparto com pente há vários anos. Tanto é verdade, que não consegui deixar lá muito retinho. Pelo menos isso eu tinha a favor, o repartido estava meio indeciso, coisa de gente que não sai de maria-chiquinha todos os dias.

E ficaram uns fiapos rebeldes, escapando do elástico, e eu peguei uma presilha, mas uma só ficava assimétrico, peguei duas, não deram conta, peguei logo quatro, e o pior estava por vir, quando olhei no espelho, eu, ali, duas chiquinhas, uma de cada lado, quatro presilhas, duas de cada lado, putz!, não é que ficou ótimo?

Ficou tri bonitinho – eu diria.

Ainda assim, o espelho me encorajando, o horário da saída estourando, o rímel ajudando, o batom enfeitando, eu não pude, eu não sei, eu ando tão... sem chiquinhas.

Arranquei tudo num só golpe, e saí com o cabelo solto, como de adulta, como de praxe. Mas as chiquinhas foram comigo, só que do lado de dentro da cabeça. Como quase tudo que eu tenho.

Olhava no espelho, e não era mais uma mulher de cabelo solto. Era uma mulher sem maria-chiquinha. Havia um desfalque, sim, e não era coisa da minha cabeça, apesar de ser. Cadê que eu me sentia inteira, cadê que eu esquecia o acontecimento de não ter saído enfeitada?

Estava feia, velha e gorda. E pálida, e abatida, o sorriso era flácido, o olho cansado, o gesto era lerdo e o passo era torto. Sem brilho, sabe?

Também, com esse meu nome! Se eu me chamasse Kátia com K, talvez ficasse mais fácil andar por aí de maria-chiquinha, até porque, se for reparar, o próprio K já vem com esse penteado no desenho, olha aí. O Y é outro.

Quando resolvi voltar para a casa, com aquele ar fracassado e até meio doentio, ocorreu-me, de súbito, uma idéia que revolucionaria o meu passeio para todo o sempre. Não devo ser tão extremista, já diria minha terapeuta e o próprio Buda. Devo ir com calma, uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez, uma coisa de cada... vez!!!

Olhei-me no reflexo do vidro mesmo, não podia esperar um espelho. E puxei um naco de cabelo com a mão direita, e dei uma enroladinha com o dedo, e prendi com elástico, ali mesmo, em meio ao burburinho, dane-se.

Passei o resto da noite com meia-maria-chiquinha, um só belo rabo, assimétrico mesmo, feito um Y perneta. Uma coisa de cada vez.

Assim eu vou me acostumando e perco a timidez. Hoje, vou com o rabo esquerdo.

Por enquanto eu nem chamo atenção e ninguém ri de mim, ou, se ri, só pode rir pela metade. Mas eu vou me preparando, vai chegar o dia em que vou chutar o balde, não quero nem saber, saio de maria-chiquinha completa e minhas presilhas todas.

Se alguém olhar torto, ponho a língua mesmo. Aí vai ser um Y e um P.

12 dezembro 2002

Óóó, pobres BiBlogólatras Anônimos, quer dizer que sentiram minha falta, foi? Pois, que peninha, também agora estou sem tempo de acarinhá-los como deveria.

Das últimas notícias que me vieram perturbar os ouvidos, a pior foi – e está sendo – a tragédia em Angra dos Reis, é claro. Se bem que, aqui pensando, é de causar semelhante mal-estar a seguinte novidade: “Kelly Key lança REMIXES INÉDITOS”.

Não estou de brincadeira, e o termo não é meu (eu não seria capaz de criar tal pérola). Acreditem, “REMIXES INÉDITOS”. Eu me ponho a refletir sobre o que poderia vir a ser um REMIX INÉDITO. A julgar pelo prefixo “RE” - que, salvo engano, significa tudo, menos algo NOVO! -, então a expressão me parece seriamente equivocada. Para dizer o mínimo.

No entanto, quem inventou a pérola tem minha honesta admiração, e até minha peçonhenta inveja, se quiser. Está aqui estampado o supra-sumo desse vácuo criativo em que se encontram os artistas “top” das nossas “paradas radiofônicas”: REMIXES INÉDITOS!

Aliás, não existe coisa mais PARADA, de fato; com perdão do trocadilho inevitável.

Estou ansiosa para conhecer o novo-lançamento-re-inédito-mixado da cantora Kelly Key. Há de ser surpreendente.

O mercado fonográfico brasileiro encontrou a chave (key?) do sucesso; desde então, eu ouço rádios gagas e gagás, re-re-re-re-repetindo as mesmas paradas e babando, baby, babando no molhado.

Valha-me Deus, quisera isso tudo fosse apenas uma crônica ácida de alguma baixista solitária, rejeitada e mal amada, soterrada numa clave de fá. Seria menos dolorido, pois com a minha rabugice eu já me entendo há décadas.

O que não dá para entender é essa usina de re-novidades re-inéditas.
Re-voltante, não?

04 dezembro 2002


www.renatoborghetti.com.br

Agora que aprendi a postar fotos aqui, ninguém me escapa.
Confiram a beleza incalculável desse gaúcho talentoso (suspiros) e seu companheiro pingo (cavalo, em gauchês).
Não sei se tudo isso é saudade dos pampas, mas... BARBARIDADE, COMO DEUS É CAPRICHOSO !!!
Conflitos


Não tem graça nenhuma você, com a chave na mão, como quem vai embora, conferindo a carteira e os bolsos para ver se lembra onde escondeu a alegria.

Fosse eu mais romântica um pouco, tascava um beijo de despedida e mandava o outro olhar no espelho, ver se acaso achava ali a alegria perdida. Em vez disso, careço da meiguice apropriada; já nasci assim meio desajeitada, nunca sei o que fazer com as flores. Tenho medo de apalpá-las demais e aquilo me queimar, eu derreter, Deus me livre, derreter.

Pior você, que não ajeita nem desajeita, não parte e não ata, não chora, não implora e não se evapora logo embora. Pior você, pouco honesta, indo e vindo, a emoção balançando no céu e a razão atirando pra matar.

O último coração que amou e a cabeça mandava dizer que era mentira e era mentira, o pobre batucava mais que tamborim no sambódromo, mesmo assim era mentira e era mentira. Até que o vivente se achou exausto do bate-boca e ordenou: decidam vocês!

Não deu meia hora, saíram abraçados – cabeça e coração. Que briga sem platéia não tem graça.

Ora, o conflito sempre vai haver; o que não pode é ficar dando trela pra ele.

03 dezembro 2002


Os meninos e eu. :o)

Ana Lógica

só um teste.
Um pouco de abraço, em meio ao movimento, não cairia mal. Um laço solto, depois de tanto aperto. Uma brecha entre o alvo e a flecha, para não viciar no acerto em cheio – ficar um pouco no meio, para variar.

Se a gente deixasse o colo mais livre, sorrisse mais fácil, cultuasse o quente ao invés do frio. Se a vaidade permitisse um traço torto, se a pretensão cobrasse menos, se o orgulho nos liberasse mais. Se o compasso espichasse no final da canção, só para fazer uma graça; sem mania de perfeição, sem razão, sem nada.

Talvez não precisássemos repor as energias - se não as derrubássemos no caminho da angústia. Poderíamos, quem sabe, ir andando conforme o acaso ou o destino determinasse, tanto faria; estaríamos respirando lento e rindo frouxo, ao vento. Se ainda soubéssemos como se faz.

Alguém perdeu o acesso à suavidade dos dias, nalgum lugar de um remoto passado, e fomos atrás do atalho errado. A marcha foi ficando mais pesada, mais pesada, nossos coturnos foram engrossando, e nossa casca aumentando, nosso uniforme sufocando nossa emoção desbotada.

Seria útil pensar onde era, mesmo, que pretendíamos chegar.
OFFICINA

Saiu a nova edição da Officina do Pensamento - http://www.officinadopensamento.com.br/

Visitem! Estou na parte dos "musicais", com minha coluna e uma entrevista que me foi gentilmente cedida por um dos meus ídolos na música brasileira, o Luiz Tatit. Quem não conhece, vale a pena conhecer.

01 dezembro 2002

Aaaaaaai, minha Nossa Senhora do Recreio dos Bandeirantes, dai-me força e coragem e disposição para encarar este calor dos diab..., digo, com todo respeito, Nossa Senhora, este calor de derreter gaúcha branquela que há muito evita o sol na moleira.

E, já que estamos falando em forças, ó bondosa, dai-me também paciência para não me precipitar, violenta e desastrosamente, para cima de um carioca protagonista de cena como a que eu vi agorinha há pouco: imagine a Senhora, pleno meio-dia dominical de sol que racha, eu, saindo do supermercado, cheia de sacolas, suada, irritada e apressada, vou em direção ao meu automóvel, quando ouço uma sinfonia estridente de buzinas em pleno estacionamento. Que se passa? – indago às minhas sacolas, não sem acrescentar, ao final da pergunta, três ou quatro palavras de baixíssimo calão, coisa que aqui não me atrevo a redigir, visto que a Senhora pode se ofender e, pior, muito pior, ainda inventar de me punir.

Os buzinantes protestavam, acredite, contra um carro que repousava, inerte, exatamente no MEIO do único local pelo qual se poderia passar, caso alguém quisesse, por acaso, sair do supermercado e ir para casa. O motorista?, ausente.

Entrei no meu carro, que já mais parecia um forno elétrico que alguém esquecera ligado por dois dias, e fiquei ali, aguardando aquele boiol..., desculpe-me, aquele motorista se decidir e, enfim, remover dali o polêmico veículo.

Tinha gente querendo passar por cima, tinha gente buzinando, tinha gente cantando pneu para ver se o dono do carro se assustava. Chamavam-no, aliás, de todos os nomes feios que a Senhora possa imaginar. Tentaram bastante, mas acho que não acertaram, porque ele não atendia.

Como sou uma pessoa mui compreensiva e até serena, fiquei a imaginar que razão poderia ter levado o boiola (ops!) a largar o carro ali mesmo. Só poderia ter sido algo de urgência extrema, e, creio, algo muito pessoal e intransferível. Ou, por outra: o veado estava mijando, claro.

Relaxei um pouco. Urina é coisa séria, chega uma hora em que ninguém segura. Coitado. Fez o que pôde.

Foi eu terminar de perdoar o elemento, e já me arrependi. De repente, apareceu, com cara de que não era com ele, entrou no carro e foi-se embora. Tinha ido comprar flores na banca ao lado, e não quis estacionar numa vaga comum; preferiu parar o carro ali mesmo, que era mais perto.

O coro aumentou dez vezes; os outros motoristas estavam ainda mais indignados, mas aí o sujeito já tinha partido, e devia estar dando risadas ao conferir, pelo retrovisor, dezenas de babacas furiosos xingando ao vento.

Está certo, Nossa Senhora, tem aquele negócio da outra face. Eu entendo que deva ser também bondosa, e perdoar o motorista fujão. Está bem, está bem, vamos virar esta página, eu não guardo ressentimento algum do boiola, digo, do comprador de flores.

Coitadinho. Na certa, deve ser aniversário da mãezinha dele, e o pobre doce filho, ao perceber que se esquecera de levar uma lembrancinha, não pensou duas vezes: parou ali mesmo, juntou os últimos trocados, e foi comprar um bocado de flores.

Muito bonito da parte dele, uma vez que a mãe deve ter chegado em casa exausta, pela manhã, depois de mais uma duríssima noite de trabalho na Av. Atlântica, em Copacabana, onde ganha a vida.

30 novembro 2002

Boas!!

Em primeiro lugar, fiquem sabendo que eu leio, sim, todos os recadinhos que vocês me deixam aqui. Não costumo responder um a um, porque já sou meio relapsa com os textos, imaginem se eu for tentar agradá-los nos recados... sei, eu sei que eu seria um fracasso.

Como vocês estão? Eu estou bem, fora o calor carioca. Fui à Lapa, na quarta à noite, e dancei um bocado – coisa que não fazia há muito. Mas ainda não tive coragem de enfrentar a praia, ao menos durante o dia.

Hoje eu vi uma notícia no Jornal Nacional, talvez a mais chocante dos últimos tempos, no meu modesto entender. Vocês devem ter visto.

Tratava-se do aumento da produção de munição de guerra nos Estados Unidos. Dizem que, depois do fatídico 11 de setembro, muitos americanos decidiram rumar para o setor bélico, trocando de emprego, passando a fabricar bombas.

Uma mulher americana largou seu trabalho na área farmacêutica e foi construir bombas. Ela ganhava mais com os remédios, mas, segundo afirmava, ficara chocada com o atentado às torres gêmeas, de modo que pensou: “Preciso fazer alguma coisa pela minha pátria”.

Agora ela se sente muito mais tranqüila, porque sabe que está ajudando o seu país. Ganhando menos. E fazendo bomba.

Estamos acostumados a ver a morte estúpida, todos os dias, na tevê. Isso é chocante, é execrável, é repugnante – mas, por mais frio que possa parecer, até morte está banalizada. E a gente assiste a assassinatos, entre um gole e outro de cerveja, como se fosse apenas mais um absurdo entre tantos.

No entanto, quando aparece algo assim, como uma cidadã que deixa seu emprego para “servir à pátria” fabricando coisas que explodem, aí sim é que eu me choco de verdade. Porque a morte está ali, nas mãos satisfeitas daquela mulher, em estado primitivo. A morte em potencial, adotada (e adorada!) como solução.

Assim fica difícil, não é?

25 novembro 2002

ANIVERSÁRIO

É, queridos, estou mais velha. Uma jovem adulta, segundo dizem. Tudo bem, 25 é um número bonito, mas estou muito diferente (aquém - seria a palavra exata) do que me imaginava ser aos 25.

Tenho até um querido diário, onde lembro ter escrito, aos 12 anos de idade, que pretendia ser psicóloga com essa idade. Mas uma coisa deu certo: eu queria morar no Rio de Janeiro – que recém tinha conhecido. E outra: eu queria não ter mais que usar óculos. E outra: eu queria ter cabelo comprido. E outra: eu queria continuar escrevendo bastante.

Mas não imaginava que, um dia, fosse escrever coisinhas num computador, e muito menos publicá-las numa espécie de diário virtual. E também não imaginava que, no ano seguinte (aos 12), eu fosse me enfiar numa banda de rock que se formou dentro da minha própria casa, e resolvesse então cantar as coisas que eu escrevesse.

Acho que a psicologia ficou engavetada nos meus escritos, lá onde, sorrateiramente, dou conselhos a mim mesma – os quais não sigo, porque santo de casa não faz milagre -, numa espécie de autoterapia compulsiva. E a doida segue, por outro lado, a desafiar a sanidade da psicóloga, de modo que eu mesma já não sei mais qual das duas é mais perturbada das idéias.

Minha vó Maria ainda acha que eu poderia enveredar para os lados acadêmicos da psique. Diz que dá tempo, e tudo. Mas eu não sei se a doida aqui deveria suspender as atividades, e ir se aboletar do outro lado do divã por uns tempos. Talvez a psicóloga ficasse frustrada, de tanto correr atrás da cura da doida e não achar. Não sei. Ou, vai ver que é preguiça mesmo.

De qualquer forma, está bom assim, sem a psicologia, mas com as cordas do baixo, as músicas, as letras, os desejos, os medos, as paixões, as crises, as alegrias e os espetinhos de coração de galinha que meu irmão faz como ninguém.

Sim, ontem a festa foi com espetinhos, se alguém quer saber.

(Vocês já notaram que eu, quando invento de filosofar além da conta, meto sempre um espetinho no meio? Acho que é para descontrair. Meu irmão é bom nisso, aliás. Na descontração e no espeto).

Por voltar a falar em aniversário, agradeço muitíssimo aos recadinhos de vocês, sempre tão assíduos (as) e docemente carinhosos (as) comigo. Obrigada. Agora, vamos mudar de assunto antes que eu me sinta uma jovem senhora, de tanto falar em idade...


SHOW DO RUSH

Eu fui!!!

Talvez vocês não gostem do Rush - trio de rock canadense com 35 anos de carreira, aquele da música tema de “Profissão: Perigo”, quem tem mais de 20 deve lembrar. Mas vamos mudar de assunto, que esse negócio de mais de 20 já me remeteu a... vocês sabem.

Talvez a maioria de vocês nem sequer tenha prestado atenção no tal do Rush. Mas eu sou fã, muito fã mesmo, e nunca pensei que pudesse ver um dos meus maiores ídolos, o baixista e vocalista Geddy Lee, ao vivo.

Foi ali, no maior estádio do mundo, que eu tive a maior emoção do mundo quando o Rush apareceu, de verdade, em carne, osso e o Mi Maior da primeira canção, Tom Sawyer – aquela que eu, há oito anos, em entrevista a uma revista da minha cidade, citei como minha canção preferida.

Era o Mi Maior do Mundo.

O Maracanã estava em êxtase, enquanto eu me forçava a olhar só o telão, só o telão, só o telão, Bíbi, senão desmaia. Claro que não me contive; olhei mesmo. Graças a Deus, o Geddy Lee ficava do tamanho da unha do meu dedão, porque eu estava sentada do outro lado do estádio. Foi o que me salvou de despencar, dura e pálida, e virar tapete na hora.

Não virei tapete, mas também não estava lá muito em estado de gente. Virei uma coisa que pulsava, vibrava e arrepiava, embora estática por fora, meio incrédula, a segurar a boca com a mão direita, no afã de não deixar escapar nem um fiozinho de emoção. Sou assim, diante das maiores coisas do mundo: faço de conta que é tudo de faz de conta, pra não pirar de verdade.

Vieram outras canções, e outras mais. Do meu lado esquerdo, meu irmão e guitarrista. Lado direito, nosso amigo e baterista. À frente, outro trio nos chamava atenção: três meninos, deviam ter uns 12 anos, cada um fazendo os gestos do seu instrumento, tocando no vento. Uma banda de rock, certamente.

O trio canadense, o nosso trio, e o trio mirim. Cada qual mais diferente do outro, e mais igual impossível.

Claro que era mais que um evento, um espetáculo de som e luzes. Claro que era muito mais que uma banda preferida, um ídolo, um “obrigado” agudo e com sotaque estrangeiro. Era a sinergia que faz com que um trio se torne uma banda, assim, como num toque mágico. Deixam de ser Geddy, Alex e Neil – viram uma coisa só.

É difícil entrar nessa e não querer ficar. Complicado abandonar aquilo que nos mantém maior do que somos, não porque inflamos, mas porque amamos.

Como dizer àqueles meninos que é difícil, que a estrada, que a falta de grana, que as gravadoras, que os botecos vazios, que os bêbados chatos... que nada! Está ali, bem à frente, uma chance que deu certo – um trio que faz rock há 35 anos. E ponto. Mesmo que seja só um, entre tantos que se desfizeram, já nos faz querer ficar, ir tentando enquanto dá.

Até porque, no fundo, estamos todos tocando no vento; os instrumentos estão ali por um mero acaso.

22 novembro 2002

Buenas!

Vejo que gostaram do meu álbum virtual, e – especialmente – da minha prova de honestidade, mostrando, em cores, a performance de minha cunhada Erica e sua sombrinha do frevo.

Muito bem, também concordo que ela é lindíssima, “fofa”, e os demais adjetivos que foram justamente postos no nosso muralzinho de recados para elogiá-la. Quem não concorda com isso, naturalmente, carece de saúde mental e/ou necessita comparecer com urgência a um oftalmologista. (Eu escreveria “oculista”, mas minha mãe Aninha viria, toda autoritária, no “shout out” – onde ela só aparece para me dar broncas ou enfatizar seu gosto pelos quilômetros que nos separam, bradando: NÃO É OCULISTA, MINHA FILHA! DIZER OCULISTA É FEIO!!! DIZ-SE OFTALMO, OFTALMO!!).

Em tempo: onde minha mãe diria “é feio”, leia-se É CRIME. Para ela, dá no mesmo.

Mas, voltando. Rasgo-me em elogios à minha cunhada Erica, sim, sem vergonha de parecer que estou puxando o saco ou coisa que o valha, pois nem teria motivo algum para isso, e não é do meu feitio, todos sabem.

Está certo que, terça-feira passada, véspera de feriado aqui no Rio, Eriquinha – uso diminutivos somente quando prezo a pessoa além da média – convenceu meu sensato irmão a atravessar a Av. das Américas, em pleno horário de pico, cruzando Barra da Tijuca, São Conrado, Leblon, Ipanema e Copacabana (dando então uma paradinha estratégica num quiosque à beira da praia, onde havia uma maluca com cabelo de piaçava gritando com seu ex-marido e ameaçando chamar a polícia), depois ir até o tradicional bairro de Botafogo, encarando um trânsito de querer chutar o guarda, tudo isso somente para quê?

PARA ME LEVAR AO “BAR DO ACARAJÉ”!!!

Sim, caros amigos, eu não farei 25 anos sem ter provado um saboroso, apetitoso, cheiroso e crocante... acarajé. Digo-lhes, com franqueza absoluta, que o salgado me cativou logo de início, quando me apareceu, dividido ao meio, transbordando de recheio, aboletado naquele felizardo pratinho.

O que pude entender do petisco – para quem eventualmente o desconheça - foi o seguinte: tratava-se de uma massa, com uma gosma por cima, mais um molho colorido e uns camarões. Não sei que tipo de massa, nem o que era a gosma, nem o nome do molho, e nem bem tenho certeza de que aqueles animais eram, de fato, camarões. Mas, garanto: o conjunto da coisa funciona. E como.

É algo mais ou menos como ouvir jazz: você não entende nada, mas concorda – só por via das dúvidas.

A diferença entre o acarajé e o jazz, contudo, fica por conta da rebordosa. Meus queridos, não queiram saber o quanto passei mal naquela noite – e, juro, comi somente UM bolinho daqueles. Foi o suficiente.

Cá entre nós, é praticamente uma bomba gástrica, cuja digestão não acontece antes de, no mínimo: uma noite em claro, umas colheradas generosas de sal de frutas, dois litros de água mineral com gás, quatro voltas na quadra e dezenas de visitas (frustradas ou não) ao vaso sanitário.

No dia seguinte, não acordei – porque sequer havia dormido -, mas levantei-me ainda com a nítida impressão de estar grávida de uma dinamite querendo explodir a qualquer hora.

No entanto, era pior: eu paria de quinze em quinze minutos. (Sem querer entrar em detalhes, claro).

Mas nada disso me surpreende, amigos. Eu nasci há dez mil anos atrás. Já vi de tudo nesta vida.

Só não vi (e desafio que me mostrem) presente de cunhada que não acabe em bomba.

Hihihi...

19 novembro 2002

MEU ÁLBUM DE FOTOS PARA VOCÊS

Quem quiser dar uma olhadinha nas minhas fotos, enquanto eu não consigo publicá-las aqui (por falta de talento mesmo), vá em http://fotos.terra.com.br/album.cgi/304717

Atenção especial deve ser dada à foto entitulada "erica frevo", pois depois dizem que eu estou mentindo... mas, como vêem, eu mato a cobra e mostro o pau.

Espero os shout outs, hehe.
Beijocas,
Bíbi

16 novembro 2002

Só um adendo à frase do véio Einstein, homenzinho muy inteligente que era, mas, com licença, eu também sou, e ainda tenho a vantagem de estar viva.
A frase correta seria: "a mente que se abre a uma nova idéia, esta sim terá um tamanho ORIGINAL."

Não acham? (risos bobos e infames)
“A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho
original.”

Albert Einstein


Vocês acreditam que eu nunca comi um acarajé na minha vida? E acreditam que eu nunca fui a Grumari (uma praia que fica aqui perto da minha casa, que dizem ser ótima, mas nunca me ocorreu de passar ali e conferir)?

Imaginem uma pessoa que nunca presenciou uma enchente: sou eu. Que nunca puxou assunto com um desconhecido, num banco da praça, só para falar uma gracinha e fazê-lo sorrir. Sou eu.

Eu nunca me prestei a acordar e pensar: pára tudo, que hoje vou fazer algo de novo, algo que nunca fiz. Eu nunca fiz isso.

Nunca na vida eu fui a um salão de beleza e pedi que me inventassem algo de diferente, para mudar de visual. Desde que me conheço por gente, meu cabelo cresce, e do mesmo jeito eu corto, e do mesmo jeito cresce de novo, e assim vou sendo a mesma pessoa, com a mesma cara que o espelho já sabe de cor - acho mesmo que nem preciso aparecer na frente dele para que ele me reflita, com todos os meus detalhes antigos e alguns novos que surgem, não pela minha interferência, mas pelo tempo.

Acreditam que eu nunca subi num palco de rabo-de-cavalo? Em onze anos de palco, todas as vezes que me apresentei eu estava lá, com o cabelo do mesmo jeito. O penteado da lei da gravidade. De novo, sem a minha interferência.

Parece até que eu espero que alguém vá me apresentando as novidades, assim, como num passe de mágica, e eu vá então me adaptando... sem perceber.

Sem perceber, faço 25 anos num domingo ao final de mais um novembro quente, e me dou conta de que tenho me privado do acarajé por esse tempo todo.

Sem perceber, deixei meu rabo-de-cavalo na mão do desconhecido da praça, ou na praia de Grumari, ou em outro qualquer lugar dos muitos em que nunca estive.

Deixei a minha ausência lá, porque estive ocupada demais, presente em minhas já conhecidas manias. Andei envolvida nas mesmas histórias, nas mesmas lamúrias e em algumas ilusões que calharam de acontecer na realidade. E eu me assustei, claro.

O novo vem com sotaque estrangeiro, e a gente fica como bobo, fazendo mímica, tentando compreendê-lo... sem saber que ele veio justamente para nos tornar poliglotas, e não para que o façamos aprender a nossa língua. (Que sentido haveria?)
Com vontade de dar uma invertida, trocar de tom, de pele, de fala ou de gesto. Achar uma moça que não sou eu, por aí, dando bandeira na rua, e aprender a sê-la, só para experimentar. Chutar um balde, sentar numa pedra.

Quem me conhece sabe que sou exagerada e me atravesso no tempo, de modo que declaro aberta a minha temporada de “crise dos 30”, antes mesmo de completar 25.

Durma-se, com um barulho desses.

Aceito sugestões de coisas que nunca fiz, prometo analisar com carinho as propostas. A propósito, quem é que vai me levar para comer o tal acarajé? (Se é que isso existe mesmo, porque eu nunca vi, desconfio de tudo que é novo, estou sempre com um pé atrás, e desafio quem não me dê razão.)

Mas essa parte da arrogância a gente deixa para a crise dos 50, tá bom??
Até lá, aturem-me assim mesmo.
Se quiserem!! Se quiserem!!!

14 novembro 2002

Nem conto a vocês: acabou a TPM.

Estou feliz como pinto no lixo. Vem chegando o verão, como já dizia a Marina Lima, nos bons tempos em que eu era só uma criança que se achava adulta – e não o contrário, como agora.

Vou contar uns causos. Aprendi a ler e a escrever com meu irmão (e guru). Um dia, minha mãe pediu a ele que não esclarecesse minhas dúvidas ortográficas tão prontamente; que eu deveria aprender a pensar, descobrir se casa era com “s” ou com “z” por via de meu próprio raciocínio.

- Mano, casa é com “s” ou com “z”? – perguntei, certa feita.

- Você acha que é com “s” ou com “z”? – ele questionou.

- Não sei, Mano! Me responde!

- Não posso responder.

- Pode, sim, responde!

- Está bem, é simples: se você quer que seja com “s”, então será. Se quiser que seja com “z”, assim será também. Você tem de escrever como pensa que deve ser!!

Fiz uma cara de surpresa-abobalhada-meio-desconfiada que ele não deve ter entendido por anos; até que, já adolescente, confessei que aquele momento fora, para mim, verdadeira iniciação espiritual.

Lembro-me, como se fosse ontem, de ter pensado: “Uauu!! Se o Mano diz que ‘casa’ se escreve como EU quiser, então quer dizer que tudo que EU quiser se tornará realidade!! Logo, EU SOU DEUS!!!”

Sim, porque minha avó dizia, sempre que podia, que Deus era todo-poderoso: o único ser a quem o universo ouvia e respondia sempre com obediência.

A partir daquela revelação precoce, eu saía pela casa, com um sorrisinho de canto, decretando normas secretas e dando ordens explícitas aos anjos – sempre com muito cuidado, é claro, para que ninguém percebesse meus superpoderes divinos. Poderiam se sentir diminuídos perante a minha magnitude, ou mesmo temer futuros castigos (minha avó também dizia que Deus castigava, mas eu ainda sequer havia estudado esse capítulo, o de como castigar).

Não. Não era isso que eu queria. Queria só respeito e amor dos próximos a mim-Deus. (Pelo que eu entendia, os “próximos” eram todos aqueles que não eram Deus; ou, por outra: todos os outros - que não Eu. Por isso se chamavam “próximos”, porque eram os próximos a partir de mim – Deus.)

Não sei se me fiz entender.

E assim fui seguindo, certa de que faria milagres com um pé nas costas, e ajudaria a quem necessitado estivesse, contanto que me prestassem a obediência devida e, volta e meia, acendessem uma vela em Meu nome.

Caí do cavalo quando o meu primeiro pretendente – era eu quem o pretendia! -, uns vinte e cinco anos mais velho que eu, casado e com três filhas, não fez menção alguma de me atender quando, confiante, ordenei: APAIXONA-TE OU MORRERÁS!!!

Nem uma coisa, nem outra.

Como Deus, eu era um fracasso. Caí na maior fossa, vivia arrasada pelos cantos, mal dormia, mal comia, mal falava. Não rezava. (Rezar a quem?)

Aí foi que eu caí na real, resolvendo: de duas, uma. Ou eu não dou Deus, ou o Bicho Homem é que é o Diabo.

Claro que fiquei com a segunda opção.

;oP
Oi.
Meu cabelo acordou esquisito, minhas olheiras se elevaram à décima potência, minha pele está oleosa demais nuns lugares e seca demais noutros, minha orelha amanheceu inflamada por causa do diacho do segundo brinco, levantei meio manca da perna esquerda, os dentes amarelaram, o tempo está úmido, o ar está pegajoso, o assobio do vento está fora do tom, as árvores estão balançando sem o devido gingado, os carros passam mais nervosos do que nunca, parecem atrasados, as pessoas estão todas com cara feia, e cara feia pra mim é fome, por falar em fome, o nhoque apodreceu, o frango assado acabou, a tele-entrega de pizza demora muito, falta água potável em casa, tenho sede e pressa e fome e fúria, me arrasto pela casa, pesada e lerda, penso coisas desconexas, falo sozinha, xingo minha falta de sanidade mental, tento me espreguiçar, dou com a mão na quina do armário, grito, corro ao banheiro, abro a torneira, o telefone toca, corro, atendo, não, não quero assinar revista nenhuma, e não interessa o motivo, desligo na cara da moça, ligo a TV, assalto, acidente, traficante, desligo rápido, vou até a sacada, olho para baixo, miro uma moça com uma barriga imensa, quase parindo, e um vestidinho florido, parece feliz, a desgraçada, é claro: QUEM NÃO FICARIA FELIZ DEPOIS DE NOVE MESES SEM TPM ?????

11 novembro 2002

Buenas !!

Espero que estejam todos na boa. O show de sábado foi, digamos, cansativo. Aquela coisa de bar, tocamos das 9:30 às 3h da manhã, com alguns intervalos para esfriar os dedos e as cordas. Bar lotado, animado, e tal.

Mas o ponto alto da noite ficou por conta da minha cunhada Erica, aniversariante do dia, que levou uma penca de amigos para lá, e acabou “pagando o maior mico” – segundo ela. Mentira. Esteve ótima, dançando frevo.

Explico: Erica foi chamada, de última hora, na semana passada, para dançar frevo num hotel chiquérrimo aqui do Rio... adivinha para quem? Para os gringos, claro!

(Vocês já sentiram que todo mundo entrou pelo cano com essa dos gringos, né? Hehe, o que a gente não faz pelo leitinho das crianças.)

O evento era de responsabilidade da A L Eventos & Multimídia, empresa da qual meu irmão é sócio-fundador-produtor, etc. Na hora do frevo, eis que a moça contratada deu problema, e não havia outra disponível a pagar um mic..., digo, dançar frevo para os gringos, com sombrinha colorida, roupinha, maquiagem, e um bofe bailarino do lado. Mó micão, enfim, sejamos francos.

Quem foi solicitada? Ela mesma. A morena mais bela do Rio de Janeiro (não sou eu nem meu irmão quem diz, não, os gringos saíram no lucro e aprovaram!!), Erica. Tal fosse uma bailarina profissional, foi ensaiar uns passos com o bofe – que, aliás, é dono de uma academia de dança em Copacabana. E o bofe aprovou o gingado da morena. Quem não aprovaria?

Deram-se as mãos, e foram ao saguão abafar. Dizem que Erica terminou a noite com a boca que era um cabide, de tanto sorrir para as câmeras dos gringos, e com o polegar dolorido, de tanto beliscar os gringos mais animados que se aproveitavam do momento “flash” para conferir mais de perto o doce balanço da morenaça.

Fama adquirida, fama sofrida.

Nós, que não somos bobos nem nada, fizemos o esforço de aprender a tocar aquele frevo mais conhecido de todos, e paramos o show no momento mais animado para homenagear a aniversariante, convidando-a para fazer uma apresentação aos amigos.

A morena tropicana, alheia àquela sacanagem toda, viu-se tímida pela primeira vez – creio eu – em sua agitada vida. Um amigo sacou a sombrinha colorida (que conseguimos emprestada com o próprio bofe do frevo) e lhe ofereceu, num gesto tão convincente que a pobrezinha não teve alternativa: quando viu, já estava empunhando o instrumento da dança, em pé, com aquele povo todo em coro: DANÇA! DANÇA!

Eu, num impulso de cunhada-típica-venenosa, fazia um discurso inflamado ao microfone, exaltando as qualidades da bailarina, e oferecendo seus serviços aos possíveis contratantes. E o povo: DANÇA! DANÇA! – que sombrinha no dos outros é refresco, claro.

O frevo rolava solto, e, lá pelas tantas, Erica deve ter pensado que ficaria mais feio fixar raízes no chão que, enfim, saciar a sede dos afoitos. Foi então que se despiu de vergonha, e encarou a frente do palco, onde saltitava, exuberante, arrancando fervorosos aplausos de todos os freqüentadores do bar. Era a glória. (A minha, pelo menos).

O resto do show foi até chocho, se comparado à apresentação que transformou a Ana Lógica em trio-elétrico por alguns minutos, aliás, coisa que era um sonho antigo. Sobretudo, eu evitava o olhar ameaçador daquela que bailara, morrendo de medo de descer daquele palco e ter meu estômago perfurado por um salto dourado.

Tudo está sob controle, pelo menos até agora, muito embora eu ainda ande um tanto cabreira, sentindo que paira uma atmosfera esquisita pelos corredores da minha própria casa. Não sei, não, é capaz de eu amanhecer, qualquer dia, com uma sombrinha entalada na garganta (na melhor das hipóteses).

Notem que esta publicação é praticamente uma carta-denúncia, ou a crônica da morte anunciada. Se eu sofrer algum mal, vocês já sabem.

(E, se ela fugir, procurem no Recife. Onde mais ganharia a vida??)

09 novembro 2002

Oi, queridos, só passei aqui para deixar o convite: hoje, sábado, tem Ana Lógica no Downtown (Espírito do Chopp), a partir das 21h. O pessoal do Rio poderia bem fazer uma forcinha e aparecer por lá para prestigiar esta relapsa blogueira que vos escreve, não é?

Prometo que não irão se arrepender... pois o chopp realmente é muito bom. Hehe.
Beijos.