03 abril 2003

EQUADOR NA BUNDA


Estive um tempo fora do micro, porque minha macro-mamãe e meu espevitado pai vieram me visitar aqui no Rio. Estava tudo muito bom, exceto o raio do raio de sol que me pelou a bunda um dia desses. Desacostumada à vida praiana, ainda que more a dez minutos da orla, resolvi mesmo assim acompanhar mamãe - bronzeada e muito mais disposta que eu - num escaldante programa à beira-mar.

Tostávamos, as duas, enquanto a fofoca rolava solta. Mãe e filha que se vêem duas vezes por ano, quando se reúnem, sobre a alta do dólar é que não vão falar.

Horas depois, senti que alguma coisa não ia muito bem comigo, sobretudo na região dos glúteos. Ou, por outra: minha bunda virou um tomate seco.

Claro que não saí dando pinotes de dor, mas que o estrago foi feio, lá isso foi. Mamãe cor-de-jambo, imune às queimaduras, só fazia rir. E dizia que não era nada, filhota, isso passa, isso passa.

Passei foi uma temporada de bruços, lendo tudo que podia, inclusive os desenhos dos lençóis e das fronhas. Na falta do que fazer, confesso que dormi um bocado – coisa que faço muito bem, modestamente, já disse a vocês, sou ótima de cama.

Esclareço aos mais politicamente corretos que, sim, eu usei protetor solar. Fator 8. Em todo o corpo, como manda o figurino. Acontece que a bunda, concluo, por se formar redondamente a partir da lombar, e se localizar, portanto, um pouco acima do nível do mar, deve captar os raios solares de modo mais intenso, fazendo assim com que a fina e delicada tez que a reveste acabe por sofrer as queimaduras mais graves.

Além disso, as praias aqui do Rio não são como as do Sul. Aqui, estamos mais próximos à linha do Equador. Portanto, fui dormir Equador na bunda.

Não sei se fui clara.

E-qua-dor-na-bun-da.

23 março 2003

NÃO PERCAM PAULA SCHÜTZE

O texto a seguir eu encontrei no (imperdível, necessário e vitaminado) blog da Paula

Pelos comentários que ela recebeu no blog, notei que muita gente “captou”, mas muita gente não sacou, de fato, o que ela quis dizer com essa gracinha de texto.

A Paula tem 25 anos, como eu. No entanto, dificilmente a gente encontra na internet algum escrito que realmente soe como “era isso que eu queria dizer, mas nunca consegui!”. Isso é raríssimo.

A Paula escreve sobre relacionamentos muitíssimo melhor do que eu, e tem uma sensibilidade misturada ao humor fino que acaba comovendo, ao mesmo tempo em que dá um “tapa na cara” sutil – embora claríssimo!
É por isso que eu deixo vocês com ela hoje, e me calo em absoluto consentimento. Inclusive quanto aos brócolis!
Divirtam-se.

***

E isso passa na televisão

(Paula Schütze)

Ei. Alguém assistiu “Globo Repórter” hoje? É o tipo de programa que só se assiste quando o assunto é realmente interessante- a menos que você seja um ativista do Greenpeace e queira saber tudo sobre lontras, dromedários, animais marinhos e vida silvestre.

O assunto em questão? Loucuras de amor. Histórias cinematográficas demais, como a da paraibana que casou pelo celular com um cara de Foz do Iguaçu. Nada daquilo me pareceu familiar, embora eu desejasse lá no fundinho que alguém fizesse por mim uma loucura, mesmo que fosse mais plausível, palpável. Como as flores que eu costumava receber nos tempos de cursinho, CD´s personalizados na época da faculdade. Cartões. E-mails. Fotos. Hoje eu considero tudo isso loucura. Ninguém mais faz; achei que fosse comigo. Mas eu também parei de fazer coisas pras pessoas há algum tempo.

Tá todo mundo muito sozinho, todo mundo se lamentando, todo mundo trabalhando o dia todo, querendo chegar em casa e encontrar uma pequena surpresa. Ou ser acordado 5 minutos após pegar no sono por uma ligação breve, mas importante: “liguei pra te dar boa noite”. Assim, todas as noites seriam inevitavelmente boas.

É, tá todo mundo sozinho. Eu estou sozinha, tenho dúzias de amigas e amigos sozinhos. Tem gente anunciando no jornal, em blogs, no rádio que seja: não quero mais ficar sozinho. Mas, de fato, fico perplexa quando descubro, todo dia, que na verdade só queremos mesmo... continuar sozinhos.

Não existe mais paciência, petulância, insistência, conquista. É oito ou oitenta, você tem que me amar agora ou eu vou me cansar de você em dois tempos e dizer que a nossa história já não é mais a mesma. Tchau.

Eu quero um compromisso, como se amanhã fosse bater à porta da minha casa o cara perfeito, do tipo que “me compra brócolis”, me liga no final do dia, e - ainda por cima!!!- suporta minhas variações de humor. Admito, eu não tenho feito grandes esforços pra encontrar as pessoas certas, ou pra entender as erradas.

Ninguém tem feito. Ninguém faz nem ao menos sua própria parte. E isso poderia ser uma colocação das mais piegas, do tipo: vejam só, este mundo está perdido, estamos todos fadados à solidão. Morreremos- novamente- sozinhos numa cama quentinha, como a velhota do Titanic. Mas até aquela uva passa tinha uma história de amor pra contar.

Todos querem contar histórias de amor, arranjar alguém que sossegue essa coisa que fica ululando dentro do peito. Mas para o momento, sempre parece mais interessante viver uma vida louca, desregrada, pontuada por histórias de sexo, drogas e rock´n roll. Dizer que passou o final de semana embaixo das cobertas é final de carreira quando, na verdade, poderia ser só o começo.

Tudo porque alguém – quem? – resolveu convencionar que relacionamentos perfeitos acontecem entre pessoas perfeitas e nos levam, invariavelmente, a uma imensa e inestourável bolha de sabão que nos isola do mundo. Se você namorar alguém, vai ter que viver só pra isso, esquecer dos amigos, das festas e dos momentos em que gosta de ficar sozinho no quarto olhando pro teto.

Quem inventou isso, hein, quem?

Quem foi que disse que a mulher da sua vida nunca tem sono, nunca fica bêbada, quer fazer sexo no quarto encontro e- além de tudo- fala aberta e tranqüilamente sobre tudo o que sente?

Quem foi que disse que o homem da minha vida obrigatoriamente tem cabelos desgrenhados, gosto musical apurado, me faz rir e sabe cozinhar?

Eu acho que deve ser por isso, por essa insistência atrás de uma perfeição (que não existe), e, principalmente, pelo nosso hábito de sair julgando e condenando todo mundo que pisa na bola assim ou assado, que estamos, definitivamente, fadados a morrer numa cama quentinha, acometidos pelo mal do século: vazio. Sem história alguma pra contar.

trilha sonora: Goo Goo Dolls- Black balloons

22 março 2003

Buenas, macacada! Cá estou de volta, medicada, recuperada, equilibrada, equalizada, normalizada, mixada e masterizada. Perdoem meu vocabulário fonográfico; é que me sinto, uma vez recauchutada, mais próxima aos prazeres (musicais) da vida.

Por outro lado – o de cima? -, chove que Deus manda aqui na cidade maravilhosa. Falta muito pouco para que a pracinha aqui em frente se transforme num modesto parque aquático, coisa que me daria muito gosto, aliás, pois há tempo venho medindo o tamanho daqueles balanços com minha utilíssima capacidade de abstração espacial, e, não raro, chego à mesma enfadonha – porém honesta - conclusão de sempre: ou diminuo a bunda, ou alguém aumenta o balanço. Caso contrário, minha possibilidade de lazer se mantém zerada.

E não é justo, pois pago os impostos.

***

Por falar em bunda, vocês devem ter ouvido falar naquela que, de fato, inaugurou uma cena de “reality show” no manjado Big Brother Brasil. Não souberam?

Pois uma cantora cearense, farta dessas frustrações típicas de todo músico brasileiro (ensaiar e não apresentar, compor e não gravar, gravar e não lançar, fumar e não tragar, etc), achou um meio de “protesto”: durante a exibição do BBB, ao vivo, ela tirou o vestido e correu peladona em direção ao Pedro Bial. Minto, só de tapa-sexo – segundo nos informava O Globo no dia seguinte.

Uma coisa boa: finalmente, apareceu uma cena de realidade no show de realidade da Globo.

Uma coisa duvidosa: acho que essa moça deve estar vivendo noutro tempo. Tudo bem que queira protestar, mas, tirar a roupa? O que há de “punk” nisso, hoje em dia?? Revolucionário, sim, seria se ela fosse agarrar o Bial, sei lá, com uma batina até as canelas. Ou, melhor ainda: que fosse agarrar uma mulher!!

Para um ato rebelde, tirar a roupa me soa tão “nos conformes”... não vale.

***

Mudando de assunto, minha cunhada hoje fez uma lasanha de frango. Di-vi-na. Detalhe: no lugar do presunto que constava na receita original, usou peito de peru defumado. Só porque eu não como carne vermelha.

Calei a boca. Nunca mais falo da fantasia “de Zein” dela.
Hehe.

20 março 2003

NOTÍCIAS

Desculpem! Segunda-feira eu peguei uma chuvarada na rua, passei muito tempo com roupa e tênis molhados, entrando e saindo de lugares com ar condicionado, suando e passando frio... pronto! Uma gripe danada me derrubou, e não saí da cama até hoje de manhã.

Estou melhorando, já sem febre, mas ainda não tenho muita disposição para ficar aqui em frente a essas letrinhas... sorry! Volto em breve, assim que der.

Beijos e saudades.

13 março 2003

JOGUEI FORA

Esmaltes secos, brincos sem par, pomada para tendinite vencida, revistas velhas, Guia do Músico 2001 (sindicato), embalagens vazias, pedrinhas que guardei como lembrança de algo que já esqueci (truque falhou), chaves de cadeados que não tenho, recortes de jornal de cursos que nunca fiz e restaurantes que nunca freqüentei, anéis de gosto duvidoso, cacarecos de cabelo com defeito (os cacarecos, não o cabelo), versos mal feitos (meus, claro), listas de compras que já comprei, já usei e já gastei, guardanapos de avião com frases cujo significado expirou, notas fiscais amareladas, cartões de visita não visitados, grampos enferrujados, objetos decorativos inclassificáveis e muita, muita poeira.

Amanhã vou para a gaveta de roupas íntimas. Mas prometo não entrar em detalhes.


SONHAR COM O CAVALO

Noite dessas eu sonhei que tinha um cavalo. Fiquei pensando.
Sonhar com o cavalo. (...)
Seria porque cansei de sonhar com o príncipe?


OLHA O PASSARINHO

Hoje eu vi um passarinho que era o passarinho mais lindo do mundo. E não era verde.
Era um bichinho pequeno, talvez pouco maior que um beija-flor - não que eu entenda de pássaros, mas imagino. Branco e preto, design perfeito, bico delicado, asinhas apressadas, vôo preciso, pouso certeiro. Uma poesia de ave, eu diria. Com métrica e tudo.

Eu vinha andando pela rua, entretida com cálculos mentais de vencimentos, juros e dívidas, quando aquela preciosidade cruzou meu caminho. E estacionou sua beleza incalculável numa folha comprida que se deitava pela calçada.

“Olha o passarinho” – pensei, mudando de assunto com meus botões financeiros. “Olha o passarinho”, repeti a eles.

Minha testa finalmente soltou um pouquinho a ruga do meio, mas nem durou muito. Logo aquele versinho alado alçou vôo rumo a outra endividada qualquer, decerto para lhe dar o mesmo recado que deu a mim.
Que a beleza existe para quem está disposto a dispensar, por uns segundos, os seus próprios botões e umbigos.

11 março 2003

NOVIDADE

Ontem eu ouvi na Rádio Globo: uma pesquisa americana revelou que crianças e jovens que costumam assistir a programas de tevê com cenas de violência explícita têm maiores chances de se tornarem adultos agressivos.
Não brinca!


AZEITONA DA EMPADINHA

Por falar em violência, a advogada do Fernandinho Beira-Mar quer bater um papo com o nosso Secretário de Segurança, Josias Quintal. Diz que o detento não está satisfeito com aquelas condições (?) em que se encontra, tampouco com o estado (geográfico) onde está encarcerado.
Ela ainda disse que o pobrezinho anda muito magrinho. Claro, não está acostumado à comida que servem a presos; aqui no Rio, ele mandava buscar no restaurante. Lá, não tem essas mordomias, ora, que absurdo.
Eu fico pensando no que mais deveria vir dentro daquela marmita... ou, por outra: imaginem o tamanho da azeitona da empadinha do Beira-Mar!


EM VÃO

Ontem, primeira segunda-feira após o carnaval, o RJ TV exibia uma reportagem sobre esse “início informal do ano”. O repórter foi às ruas entrevistar as pessoas, que, na maioria, mostravam-se indispostas ao reinício da labuta.
O mais engraçado foi um cidadão que revelou, diante da câmera, com cara de malandro carioca:
- Estou dando uma fugidinha do serviço, né, que ninguém é de ferro...

O repórter:
- Ah, é? Passeando, em pleno expediente?

E o fujão, olhando para os lados:
- Ssssshhhh... fala baixo!!!



LEBLON GLACIAL

Um termômetro marcava, ontem, na Delfim Moreira, 29 graus. Negativos.
Depois, a doida sou eu.


CUNHADA I

Ela chegou na academia, e o professor perguntou qual era o seu objetivo. Longe de bordões como “definir a musculatura” ou “criar gominhos na barriga”, sentenciou:

- Quero ficar com a bunda lááá na nuca.

Ontem ela ia saindo e eu dei uma olhadinha. De fato, subindo.


CUNHADA II

No carnaval, passou uma semana anunciando que ia de Jade.
Trancou-se no quarto para se produzir, pensei: isso vai demorar uma eternidade.
Deu nem cinco minutos, saiu. A Jade dela era modesta. Eu diria que, além das roupas íntimas, havia meia-dúzia de fiapinhos dourados.

Avisei que aquilo não era fantasia de Jade; era de Zein.
Zein nada.
Hihi.

10 março 2003

MUNDO PEQUENO

Fiquei boba.
Werner Schünemann, no Faustão, recebendo homenagens de antigos amigos, parentes, aquela coisa. De repente, aparece o Tio Lauri!
Tio Lauri era uma das figuras folclóricas do Colégio Sinodal, onde estudamos – meus tios, meu irmão, eu, e... Werner Schünemann!
O galã não era do meu tempo, claro. Mas o Tio Lauri pegou o tempo dele, tanto que estava lá, diante da câmera, tecendo comentários sobre a época em que o nosso Bento Gonçalves era aluno interno. Interno! Imaginou?
E eu só cheguei ao colégio vários anos depois.
Sempre atrasada...


GUSTAVO DOS MEUS SONHOS

Essa é boa. Sonhei que eu tinha um cavalo, o Gustavo. Juro.
Meu irmão sugeria que eu fosse de ônibus, mas eu insistia que Gustavo e eu daríamos conta de atravessar a ponte Rio – Niterói, numa boa.
E fui de Gustavo, mesmo. Mas, antes, passei num shopping para almoçar. No estacionamento, quis deixar Gustavo na mão de um manobrista, que me olhou torto:
- Mas o que é isso?
- Não é “isso”, é o Gustavo. Pode manobrar, que ele é “relax”.
- Eu não vou manobrar um cavalo!
- E por que não? Ele é um meio de transporte como outro qualquer!
- Ah, mas não é mesmo! Eu não sei dirigir isso! E não sou pago pra manobrar cavalo, minha filha!
- Então eu vou entrar com o Gustavo. E vou dizer que foi o manobrista que mandou.

Nisso, eu ia empurrando as rédeas na barriga do manobrista, e ele recuava. Gustavo, impaciente, acho que já sonhava com um milk shake do Bob’s, quando o moço finalmente se decidiu:

- Olha, o máximo que eu posso fazer é arrastar esse bicho daqui e amarrá-lo num poste.

Eu fiquei ofendida:

- O Gustavo não se arrasta, que o Gustavo não é minhoca, é um cavalo. O Gustavo anda. E me dá o Gustavo aqui, que eu já perdi a fome com essa sua má vontade.

E fomos para Niterói. Gustavo e eu.


NOVELA DAS OITO

1. Está tudo muito bem, mas... o Expedito não vai abrir a boca??

2. Li no Globo que aquele colégio é um clube que fica aqui no Recreio. Que luxo.

3. Está bem, o padre é charmoso, mas não acho lá isso tudo.

4. Sabe o Fred, que vai ser aluno e ter um caso com a Helena Ranaldi? Pô, hein? Tudo bem, a professora se interessar pelo aluno muito mais moço... mas, com aquela carinha de bebê Johnson? Valha-me Deus, que coisa mais pedófila!

5. José Mayer só tem interpretado homens mal humorados. Se ele for assim de verdade, serei obrigada a dispensá-lo. Não queria, mas...

6. Rodrigo Santoro é mesmo um escândalo. Mas ainda não é o Capitão Rodrigo.


ORLA QUE COISA MAIS LINDA, MAIS CHEIA DE GRAÇA

Vou deixar de conversinhas, que já são 7h, está na hora de eu me arrumar para dar uma banda de busão até o Catete. Quem não tem Gustavo...

Vamos contornando a orla – Barra, São Conrado, Leblon, Ipanema, Copacabana, Botafogo. Daqui até lá, vou agradecendo a Deus pela companhia e por morar dentro de um cartão postal.

Beijos, mãe. Estou bem.

08 março 2003

O QUE HÁ NO MEIO?


Nunca vou me esquecer da minha avó dizendo que não ficava bem, para uma mocinha, sentar-se de pernas abertas. Mesmo que eu estivesse usando calça ou bermuda, como quase sempre, ainda assim era “feio” me espalhar na poltrona daquele jeito; uma perna lá, outra cá.

Mas, por quê? Porque é feio, e pronto.

Para uma criança de seis anos, feio significa – literalmente – feio. Então eu comecei a procurar, afinal, o que havia de tão feio ali no meio. O problema estava ali, entre as pernas, era evidente. Entre as pernas das moças.

O meio era o buraco do xixi, coisa que todo mundo tinha, exceto os meninos. Sim, porque o buraco dos meninos era muito outro, percebia-se.

Coisa que me fez pensar foi, justamente, por que motivo os meninos podiam se sentar do modo como bem entendessem, se o “meio” deles era muito maior que o nosso. Não deveria ser o contrário, então?

Não. O nosso meio era mais feio, estava decidido. E se endireite nesse sofá.

Fomos crescendo, assim, escondendo os meios. Contudo, os meios deles estiveram sempre muito à vista, sem problemas. Andavam, livres, balançando os meios. Coçando!

E foi de tanto escondermos os meios, imagino, que resolvemos revolucionar de vez aquela política injusta: fomos para a televisão e balançamos também nossos meios, nossos seios, nossos tudo. E ninguém reclamou, ninguém achou nada de feio. Muito estranho.

Minha avó não está mais aqui para conferir, mas as mulheres da minha idade, e até mais novas, e até muito mais velhas, estão por aí, digamos, um pouco desacomodadas na poltrona. E ganham bem para isso!

Muito bem, estamos quites. Homens e mulheres têm o mesmo direito de expor seus próprios meios, está ótimo, maravilha. O problema não é mais esse.

A confusão, agora, alastrou-se para as extremidades - pobres mazelas da constituição humana, hoje tão esquecidas e discriminadas. A supervalorização dos meios, sobretudo os femininos, desencadeou uma baixa nos valores menos balançáveis. Em outras palavras, a vida anda difícil para aquelas que não têm meios tão perfeitos, ou, por outra, que não desejam se sentar lá muito relaxadas nas poltronas.

É direito de cada uma, convenhamos, dar o destino que melhor lhe convier a seus atributos, estejam eles localizados onde estiverem. E ninguém tem nada a ver com isso. Mas, seria ótimo se houvesse um certo equilíbrio na distribuição das peças.

Nossos meios estão mui bem representados, fazendo-nos dar de cara, queiramos ou não, com vários latifúndios glúteos espalhados pelas ruas, dia e noite. Muito me orgulha que as mulheres tenham, enfim, conseguido liberá-los. As extremidades, contudo, carecem de representação. Acho que embolamos o meio de campo.

Por exemplo: outro dia, um repórter entrevistava uma moça de meios bem dotados e perfeitos, quando disparou a pergunta:

- E agora, você vai fazer o quê? Pretende lançar um CD?

Eis o equívoco. Alguém deveria dizer àquele jornalista que, não, os meios não compõem, tampouco cantam. Aquela belíssima moça jamais esboçara idéia alguma de se tornar uma artista da música – até porque, diferente do que muitos imaginam, ninguém se torna artista do dia para a noite. Por mais que tenha “meios” para isso.

Enquanto ninguém vier a público esclarecer que as extremidades femininas continuam atuantes e trabalhadoras como nunca - apesar dos meios, muitas vezes, fingirem-se de extremos para ganhar em dobro -, a distorção dos valores persistirá. E teremos superexposição dos meios, enquanto os extremos seguirão marginalizados.

A situação é grave, mas reversível. Acredito que melhores tempos estejam a caminho.

Assim, não precisaremos chegar ao cúmulo de pedir que nossas netas sentem-se com as pernas cruzadas sobre a cabeça, a fim de esconder o intelecto – afinal, não fica bem para uma mocinha...



P.s.: Parabéns pelo dia da mulher.

06 março 2003

COISINHAS CAPILARES


Eu preciso de um boné para proteger os cabelos do sol. Mas nunca compro um boné, afinal, boné a gente sempre ganha por aí.
E cadê que eu ganho um boné?

Outra coisa urgente é escolher, afinal, qual vai ser a próxima cor das minhas madeixas. Mesmo sabendo que aquele xampu tonalizante dura só uns quinze dias, não consigo me decidir por nenhuma cor. Ando com mania de não definir as coisas por medo de elas se tornarem definitivas demais.

Tudo bem que nunca fui lá muito boa do juízo.
Mas, mesmo sabendo que sai COM ÁGUA? Está demais.

Tenho um “preto ébano” aqui em casa, que eu comprei na farmácia, mas nunca tive coragem de usar. Minha mãe me põe medo: “não vai ficar preto demais, hein?”, depois disfarça: “ah, tudo bem, experimenta... sai em quinze dias, mesmo!”.

Desde que ela me veio com essa, por telefone, antes ainda do Natal passado, fiquei com a pulga do ébano atrás da orelha. E não tingi.

Está bem, confesso que o meu maior problema nem é com o cabelo em si; é com a porta do banheiro. Jogo a cabeça para frente, para espalhar a tinta na parte de trás do cabelo. Depois, jogo a cabeleira para trás.

A porta do meu banheiro, antes branca, está cheia de riscos coloridos – que vão do “vermelho intenso” ao “terra”.

Meu irmão entra e pergunta:
- O que é isso na porta do banheiro??

Como eu sempre coloco a culpa – de tudo que acontece de ruim nesta casa - naqueles toquinhos de barba que ele cisma em polvilhar pela pia branca, respondo:
- Isso aí é da tua barba, oras!!!

- Tá maluca? Como é que a minha barba iria fazer esta meleca na porta do banheiro?

- Ah, isso eu não sei... Mas, se ela faz o que faz com a pia, criatividade é que não lhe falta.

Ele chegou a franzir a testa, mas acho que não colou...

05 março 2003

Bom dia, gente, são 7h da manhã de quarta-feira de cinzas. Como podem perceber, não caí na gandaia neste carnaval – do contrário, acordaria só no meio da tarde, e não a esta hora de dona-de-casa que vai lavar as calçadas enquanto o sol ainda não está forte.

Não, também não vou lavar as calçadas, até porque não as tenho.

Desculpem-me, mas hoje estou com uma preguiça homérica; não vou “cronicar” – sem sob encomenda, nem sob inspiração. Sorry.

Vou fazer um momento “Meu Querido Diário”.

Pois bem. Estou decidindo se vou à padaria comprar um pãozinho francês, que acordei com desejo. Cappuccino com pão francês e margarina é tudo, ainda mais numa quarta de cinzas sem ressaca.

Vai fazer mais um dia lindo e quente aqui no Rio de Janeiro. Através da janelona (porta?) de vidro que dá para a minha varanda, vejo daqui um rapaz, com a sua pastinha, todo de preto. Vai sofrer, coitado. Uma menina passa caminhando com seu boxer pela pracinha aqui em frente. Um galo canta. Essas coisas.

Aliás, o apartamento seria bem menor sem essa janelona de vidro.

Estive pensando em ir ao cinema nesse feriado que passou, mas eu passei o feriado pensando, de modo que não houve tempo para ir ao cinema. Estive pensando, também, em pensar menos.

Mas aí eu iria gastar muito com cinema, e não estou em condições.

O último filme a que assisti foi Cidade de Deus, e não gostei. Desculpem-me se ofendo. Sei que todo mundo gostou desse filme, mas eu achei péssimo. Muito tiro e sofrimento para pouco argumento e significado. Sim, chega a dar para rir de vez em quando. O que considerei um desaforo à parte.

Não vejo muito mérito nesses filmes que têm a pretensão de “mostrar a cruel realidade”. Por mais que eu tenha boa vontade, ainda me cheira a mercantilismo de urubu. Fazer arte da miséria alheia, e ganhar prêmios.

Outra coisa: o sofrimento REAL daquela criança que, obviamente, acreditava mesmo estar sendo ameaçada de levar bala, o choro, o desespero, o pânico nos olhos dela... tudo isso não me lembra, nem de longe, o significado que atribuo à palavra ARTE. Mas, cada um...

Sim, mas isso nada tem a ver com o Meu Querido Diário!

Voltando ao tópico. O garrafão de água (20 litros) acabou, precisamos comprar mais.

Outra coisa que acabou foi a minha paciência com esse diário aguado.
Fui!

03 março 2003

Da série Textos sob Encomenda...

Tema 1 – “Como não ficar minhocando”
Determinado por – Denise
Autora – Bíbi Da Pieve


MINHOQUICE TEM CURA

Minhocar consiste em pensar excessivamente sobre um problema qualquer, criando hipóteses, elaborando soluções, prevendo desfechos, fantasiando catástrofes - sem, efetivamente, chegar a lugar algum.

Isto posto, pode-se concluir que, afinal, todos nós minhocamos. É verdade. Contudo, a diferença entre o minhoqueiro esporádico e o minhoqueiro crônico é claríssima: o primeiro reflete sobre problemas. O segundo CRIA problemas a partir de qualquer coisa que lhe apareça à mente. Vamos nos ater ao primeiro grupo, portanto.

Se você tem uma boa criatividade, gosta de exercitá-la, não se incomoda em perder meia horinha aqui e ali somente imaginando coisas, é chegado a um draminha... calma, você ainda pode ser uma pessoa normal. A minhoquice só é detectada quando a pessoa passa a reger sua vida (ou parte dela) a partir de conceitos oriundos de uma lógica completamente “torta”, equivocada.

Em outras palavras, a minhoquice desregula a bússola, e o sujeito acaba tonto, absorto num mar de conclusões que nem sabe mais de onde tirou. Perigo.

O pior minhoqueiro é aquele que acha que sabe o que os outros estão pensando. Infelizmente, o tipo é mais comum do que se imagina.

Ele é tão bom em diálogos interiores, que você está dispensado de contribuir na conversa. Silenciosamente, a partir de um simples suspiro seu, ele pode concluir que você não está satisfeita com o casamento, que ele se esforça para ser um bom marido, mas não adianta, você não dá valor, imagina, ele até te trouxe para tomar chope em plena terça-feira, está certo, o chope está meio quente, mas que culpa ele tem, se ele xinga o garçom você reclama igual, nada está bom, assim não dá, acho que chegamos a uma situação limite, alguém aqui vai ter que tomar uma decisão... Depois de minhocar tudo isso, ele verbaliza só a última frase:

- Está tudo acabado entre nós!!! – e joga a aliança dentro do chope morno.

Contrariar um minhoqueiro assim é até possível, mas dá um trabalho do cão. Até convencê-lo de que você suspirou porque viu que a farmácia estava fechando justo quando você lembrou que precisava de absorvente... Há quem afirme ser mais rápido e fácil arrumar outro marido.

Portanto, se você é um minhoqueiro de cabeça cheia, o melhor a fazer é buscar tratamento. Sim, a minhoquice tem cura, e aqui veremos algumas dicas para resolver esse problema.

O primeiro passo é ocupar seus ricos miolos com algo que não permita que seu pensamento “ande em círculos”. Pratique o linear, o racional. Ora, vá jogar xadrez!

Segundo passo: confesse cada minhoquice sua a um parente ou amigo íntimo, e ACREDITE quando ele disser que determinada conclusão não tem o menor cabimento. Um mero observador costuma detectar com sucesso quando há minhoquice naquele angu.

Terceiro passo: deixe AGORA de desenvolver qualquer pensamento com base no que você “intui” que outra pessoa esteja pensando. Cheque a hipótese; perguntar não ofende, e evita divórcios desnecessários.

Quarto passo: esqueça o “se”. Se eu fizesse, se eu comprasse, se eu deixasse... pensando, morreu um burro. Enfie na sua cachola que há um universo infinito de possibilidades; é mais fácil você derreter a sua cabeça do que esgotar todas as hipóteses da vida, ainda que em teoria.

Quinto passo: não traga situações do futuro para o seu presente. Antecipá-lo é, literalmente, envelhecer antes do tempo. E dá rugas.

Sexto e último passo: finalmente, quando aquela amiga lhe vier convidar para uma apetitosa sessão de minhoquice a duas, decline educadamente. Diga-lhe que não transa mais esse tipo de coisa, que passou a fase da farra cerebral. Agora você anda de cabeça limpa, e vive um dia de cada vez.

Ela vai estranhar, insistir, e talvez até chamá-la de careta. Não ceda. Seja forte. Diga não à minhoquice, compre essa idéia.

Se preciso, faça uma camiseta: “MINHOQUICE: TÔ FORA!”

E use sempre camisinha, para evitar a minhoquice do dia seguinte...

01 março 2003

VOCÊS NÃO ESTÃO DANDO CONTA DE MIM

Estou a mil! Ando escrevendo mais rápido que a capacidade que vocês têm de me ler, hohoho... como diria minha mãe, “te mete!”.
Manhã de sábado de carnaval ensolarada no Rio de Janeiro, eu bebo cappuccino dietético quente para ajudar no clima. É verão nos meus gorgomilos. (Gostaram de “gorgomilos”?).

Não sei o que fazer de almoço, por isso acho que vou comer peixe na churrascaria. Lá tem peixe, sim. Ou comerei dois ovos mexidos, mesmo. Mãe, favor fingir que não leu isso, ok?

Uma coisa confortável de se morar longe dos pais é poder comer ovos mexidos ou um pacote de Cebolitos no almoço, sem ter que ouvir o nome completo uma oitava acima do que seria suportável aos ouvidos.

Meu pai, por exemplo, foi capaz de passar três anos me atormentando a vida porque eu não comia carne – leu em algum caderno de saúde do jornal dominical que me faltaria vitamina B12, e não parava de insistir em que, cedo ou tarde, eu estaria anêmica.

Cansada de tanta ameaça, fui ao médico e pedi: “Quero fazer todos os exames possíveis e imagináveis para saber se estou anêmica, ou melhor, para mostrar a meu pai que não estou. É que não como carne”.

Enfrentei a picada, e passei no vestibular do sangue. Voltei ao médico, que examinou os resultados e ainda me disse: “parabéns, você tem uma dieta invejável, e está tudo bem por aqui. Um dia eu chego lá!”.

Mostrei os exames ao meu pai, e contei do médico. Ele retrucou – “esse médico não presta. Deve faltar B12 em algum canto aí, ele é que não procurou direito”.

Está certo. Se um pai diz que está faltando B12, é porque está faltando B12.

Voltei para casa, certa de que jamais convenceria aquele jovem senhor ariano de que minha saúde andava bem, apesar de eu não comer carne.

Menos de um ano depois, meu papai descobriu-se diabético, e adotou hábitos alimentares mais saudáveis – segundo ele mesmo anuncia, orgulhoso.

- Parei de comer carne vermelha -, ele me afirma, na maior cara-de-pau.

- O QUÊ??? Mas e a B12???

- Ora, a B12 está presente também noutros alimentos, não só na carne!

E começou a me “explicar”, detalhadamente, como eu deveria fazer para não ficar anêmica sem comer carne vermelha.

É pena que ele ainda não tenha descoberto os benefícios do Cebolitos.
COMO tem sido confortável sair pela cidade, agora que nossa governadora cor-de-rosinha tratou de despachar o único bandido do Rio de Janeiro para o interior de São Paulo. Sabe, sinto-me tão segura!

Na MADRUGADA de hoje, por exemplo, vários homens metralharam um ônibus da 1001 que se dirigia à cidade de São Paulo. Eu mesma já tomei esse ônibus algumas vezes; a viagem sempre foi muito confortável, com lanchinho e tudo. Só não havia balas.
Será que, hoje em dia, a passagem está mais cara por conta do chumbo?

Neste CARNAVAL, vou ficar por aqui mesmo, alimentando minh’alma com algum livro velho e tomando porres de leite gelado com Nescafé (sim, eu gosto disso, e daí?).

Quando muito, darei uma voltinha na praia, para não dizer que não falei das ondas. E só.

Não irei ao sambódromo, não saracotearei ao som dos tamborins n’algum bloco carnavalesco, desses que arrastam multidões suadas e embriagadas pelas avenidas da cidade, nem tampouco me renderei à modesta marchinha que, por certo, reinará absoluta nos quiosques do Recreio dos Bandeirantes. Não.

Provavelmente, o máximo da minha folia será uma corridinha no calçadão - providência muito bem cabida em dias de fuga, no caso, fuga das próprias marchinhas, dos quiosques e de banhistas exaltados e desafinados gritando mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero, sabe-se lá com quais intenções.

A meteorologia promete tempo bom, e eu prometo não atrapalhar a festa de ninguém, desde que não venham mexer comigo, que não estou boa. Tenho pensado em voltar a praticar artes marciais, atividade esta que me acompanhou pela infância e adolescência, e da qual tenho sinceras saudades há muito.

Não que a minha adolescência seja uma coisa assim tão remota, bem entendido fique.

Caso é que, munida de meus impulsos marcianos, digo, marciais, ainda mais em tempos de violência urbana tão intensa, confesso que ando mesmo investindo contra meu próprio travesseiro, no intuito de me preparar para eventual combate, nunca se sabe. Penduro o penoso pelo pescoço, digo, por uma ponta, ato ao mais alto local das grades de minha janela, de modo que o inimigo fica ameaçadoramente parado diante de mim, encostado na parede, mais ou menos à altura da minha cabeça.

A partir daí, começo a esmurrar o canalha, digo, o meu travesseiro, e não paro enquanto o infeliz não pedir água. Está certo, ele não pede água. Mas é como se fosse.

Meu treino não tem sido muito intenso, posto que recém estou no início. Coisa de duas horinhas, e me dou por satisfeita. Tende a melhorar.

Portanto, estou avisando. Meu plano é não boicotar a folia de ninguém. Vou dar uma corridinha na praia. Na minha.

Contudo, o primeiro safado que vier com “QUE SAÚÚÚDE!” vai ficar sem a sua.


p.s.: Denise, decida logo o tema, que assim eu tenho o que fazer no carnaval!

27 fevereiro 2003

COMPRIDAS

Hoje estou assim, de compridas.

Deve ser porque meu cabelo acordou de bom humor, leve e sedoso e organizado, que também eu estou faceira, cheia de viço, prevendo sorte grande.
Eu disse viço? Foi mau, nem sei direito o que é isso.

Afinal, onde já se viço?

Foi-se o viço do cacho castanho escuro que desenha no travesseiro, que se deita no ombro esquerdo, que amanhece amassado e duro.

Viu-se no espelho o cacho inteiro; como se viu caído, achou-se muito maduro.

Serviu-se de escova enorme, armou-se um primeiro penteado, mas que não servia, não surtia brilho, não havia viço, que agonia!

Serviu-se então de uns lenços, uns rolos e uns grampos, que escondia, que enrolava, que prendia. Quem olhasse de longe via até uma alegria, mas quem olhasse de perto via certo que sofria.

Viu-se um cacho de cabelo seco, cabisbaixo. Servia-se de tudo que aparecia, mas nada lhe rendia viço, e quase desistia.

De súbito, achou uma graça qualquer naquela batalha estética patética, e ouviu-se um riso relaxado e franco: era o próprio cacho que sorria, debochando.

E ali surgiu o viço - justamente no timbre do riso, no gesto impreciso da boca do cacho.
Era só isso.

26 fevereiro 2003

DEZ MIL

Estamos com quase 10.000 visitas.
Acho o número tão bonito, que proponho: o visitante que chegar aqui e registrar dez mil visitas pode - e deve - sugerir um tema, qualquer tema. Serei obrigada a escrever uma crônica sobre esse tema.
Que tal?
Beijos, até as 10 mil visitas !!
(Tem que ser honesto, hein?)

25 fevereiro 2003

CURTAS

- Hoje estou assim. De curtas.

- Filosofia de coturnos gaudérios: não tamanco quem peleja, tchê. (Inspirado no último texto, sobre os tamancos).

- O Rio de Janeiro teve uma “segunda sem lei”, como anunciava o jornal O Globo de ontem. Que bom se fosse só a segunda.

- Sentou-se ao meu lado no ônibus, ontem, um cara com a maior cara de Evandro. Calça jeans, pastinha, camisa de botão, óculos de sol. Bronzeado, cabelo curtinho. Trinta e poucos.

- Seria um perfeito Edu, mas, como era um pouco malandro demais, era Evandro. Ou devia ser.

- Evandro fez uma ligação. Evandro visivelmente era um desses apaixonados carentes, mas tratava a moça com uma formalidade broxante, usando “ok” e “correto” quando queria concordar com algo.

- Como é que eu sei que Evandro era apaixonado carente? Ora, porque ele pediu, quase implorou que a moça ligasse para o escritório dele naquela manhã, a fim de “combinarmos algo para logo mais, ok, correto, ok”.

- Homens dificilmente sabem o que dizer. E NUNCA sabem o que NÃO dizer.

- Como não querem passar por inseguros, preenchem frases vazias com “ok, correto e ok”.

- Estou sendo injusta. Cabe definir a faixa etária: apenas homens com mais de 30 e menos de 50 são assim.

- Parece que eles têm vergonha do jogo da conquista e da sedução – a não ser, é claro, que sejam casados. Os casados são sem-vergonha, mesmo.

- Os homens com menos de 30 são deliciosamente adolescentes.

- Os homens com mais de 50 são deliciosamente adolescentes.

- Essa fase aí do meio é que é problemática, porque eles acham que são “gente grande”.

23 fevereiro 2003

Meu (prometido) episódio com os tamancos


Eu sempre fui uma menina sem frescuras, sem papas na língua e sem tamancos. No tempo em que morávamos na casa emprestada da Vó Manoela, eu vestia camiseta do Grêmio e chinelos Havaiana, e ia andar de bicicleta com meu pai e meu irmão. Íamos até a pracinha, onde eu andava em círculos e sonhava em linha reta.

Cresci assim, desprovida de vestidinho e salto, mas sem jamais soltar as tiras.

Foi no Natal passado, e somente no Natal passado, que minha madrinha Maristela, aquariana e amalucada (com perdão do pleonasmo), deu-me de presente o meu primeiro par de tamancos. Belíssimo. Altíssimo. Chiquérrimo. Praticamente um móvel a serviço de meus pés.

Tão feliz e afoita fiquei, que já calcei o presente ali mesmo - deixando meus habituais tênis humilhados, num canto, à espera de pés menos afortunados que os meus. E fui ao salão de beleza mais próximo, a fim de lavar, pintar e polir meus dedinhos outrora enfurnados na minha mais absoluta falta de tamancos.

- Olá, quero fazer os pés! – eu disse à moça do salão, enquanto girava suavemente um dos tornozelos, como quem diz – sabe como é, estou de tamancos...

Parece que ela entendeu o recado. Meus pés ficaram viçosos e brilhantes como nunca.

Agradeci e saí rebolando; fui ao supermercado estrear meu novo “look” – como diria alguém do mundo “fashion”. E era assim que eu estava me sentindo: “fashion”.

Já nos primeiros 100m de calçada, contudo, notei que alguma coisa não ia tão bem naquele Natal de salto alto. Andar num par de tamancos imensos requer certas habilidades que as Havaianas nunca me exigiram, e, pior ainda: havia óleo na pista. Muito óleo.

A moça do salão, evidentemente mal intencionada, tinha empaçocado meus pés com um ordinário creme hidratante que, misturado ao suor que escorria do meu nervosismo óbvio, àquelas alturas, transformava-se numa ameaça à minha posição vertical. A cada passo dado, eu ia empinando o corpo, como quem tem pressa, e iniciava uma luta inútil em direção contrária – inclinando-me para trás, no afã de travar aquele desequilíbrio que, fatalmente, me levaria à capotagem.

Quanto mais brigava contra o óleo na pista, mais deslizava tamanco abaixo. O nariz no chão era questão de minutos.

Cheguei ao supermercado em tempo recorde, e me agarrei ao primeiro carrinho que havia. Foi minha perdição. O amigo-da-onça, ao invés de me brecar, dava-me mais velocidade ainda.

Apavorada, fui troteando como podia. Se soltasse o carrinho, àquela velocidade, certamente andaria uns dois ou três corredores lambendo o chão. Segurei-me ainda mais forte nele, e fosse lá o que Deus quisesse.

Nem preciso dizer que não comprei uma lata de milho. Naquela pressa, era impossível.

Quando cheguei à prateleira dos congelados, esbaforida e desiludida, topei ainda com maior falta de sorte: uma senhora desastrada deixara cair uma lasanha à bolonhesa bem na minha frente, e foi o fim do meu cooper. Meti o pé naquele tijolo gelado, de modo que não vi mais nada.

Devo ter voado uns metros. Quando despertei daquele pesadelo, enfim eu me achava absolutamente parada; literalmente abraçada, pernas e braços, num cabide giratório recheado de – pasmem! – Havaianas.

Minha sorte, se é que se pode assim dizer, foi o providencial defeito do cabide: ele estava emperrado, não girava. Caso estivesse funcionando, provavelmente eu estaria, até agora, naquela órbita de chinelos.

Mas, Deus é pai. Depois de uns minutos agarrada àquelas que, comprovadamente, não soltam as tiras, caí de bunda no chão. Quanto prazer eu sentia em estar esborrachada naquele corredor, imóvel, livre daquela sensação de “Velocidade Máxima” que me afligia desde o salão de beleza. Quanto alívio.

Refeita do susto, levantei-me, não sem antes experimentar um belo par de Havaianas – que já saí calçando, mui agradecida e tranqüila. Nada como um produto de confiança.

Chegando em casa, pendurei os tamancos. Eles estão mais seguros na parede do meu quarto.

E eu, mais segura bem longe deles.

22 fevereiro 2003

Tem dias em que acordo com aquele gás: zero. Preguiça até do fio dental, sabe como é? Hoje foi assim.

Um sábado lento, tenebroso. Ensolarado lá fora. Banhistas se debatendo no engarrafamento rumo à orla – a “boa vida” do fim de semana. Tumulto e mais tumulto. Tô fora.

Aqui dentro de casa, contrariando a preguiça, rolou uma faxina daquelas. Hoje eu ouvi muito rock’n roll, que também acordei com preguiça daquele pessoalzinho da (gravadora) Trama - que virou prato-feito das rádios MPB. Tem dó!

Acordei e já virei um copão de Nescau, energia que dá gosto, para ver se deixava de me arrastar e passava a viver um dia normal, tipo pessoa-humana mesmo. Necas. Meu estômago embrulhou com aquele achocolatado triplo; senti que a peleja estava só começando.

O sol acenou lá fora, eu rebati com um bocejo imenso. Não estou pra brinquedo, não sei se notas.

Caí na cama de novo, dessa vez com a cabeça para o lado dos pés e os pés para o lado da cabeça. A posição invertida muito me agradou – dormi mais um tanto.

Acordei de novo, crente que estava em Garibaldi, num hotel onde costumávamos nos hospedar quando íamos tocar no Bar do Joe (que saudade!). Hotel Pieta. Mas o friozinho que eu sentia não era da serra gaúcha; era do ar condicionado, mesmo. Lá fora, uns 40 graus me lembravam do verão carioca. “Caracas, ninguém merece”.

Voltei a cochilar, e do cochilo fui ao ronco mais profundo, e do ronco a Garibaldi. Outra vez, do verão carioca à serra gaúcha em menos de dez minutos. É por essas e outras que eu sou tão boa de cama...

Quando o “carro das mantas” passou aqui em frente, tornei a encarar a realidade barulhenta e infernal que me aguardava.

Contra o barulho, só mais barulho: Fluminense FM.

Vassoura, pano, luvas, água sanitária, Pinho, Sapólio, escova, esfregão... enfim, um sábado realmente rock’n roll. Quase trash metal, eu diria.

Só parei quando o piso brilhava de modo a ofuscar o sol, que já se punha lá fora, envergonhado. Optimum.

Banho tomado, tracei um caldo de feijão para repor as energias. Quer mais?
Me deixa, que agora vou ver o Zé Mayer na tevê.

Porque hoje é sábado.

21 fevereiro 2003

FIM DA GREVE

Buenas!

Minha polêmica greve era somente para confirmar o óbvio: vocês não me dão o mínimo apoio! Recebi ONZE protestos contra o meu próprio protesto, e, incrível, NINGUÉM me perguntou onde estava minha insatisfação, quais eram minhas reivindicações, minhas exigências...

Vocês não têm vergonha?

Eu nem deveria ter terminado a greve. Prometi a mim mesma que só voltaria a escrever quando alguém me perguntasse o que eu estava querendo. Nada. Ninguém deu pelota para os meus sentimentos, ninguém quis saber. Só queriam protestar.

Estou carente, oras! Que mulher não fica carente uma vez ou outra, ainda que seja moderníssima, independente, forte, segura, confiante, invulnerável, antiderrapante, firme, convicta, sagitariana e, talvez, um pouco mentirosa?

Quis um afago virtual, mas, em lugar dele, o que recebo? Pedras.

Está certo. Quem mandou eu inventar carência numa hora dessas? Quem mandou?

Viram como está meu texto hoje? Cheio de interrogações, todo inseguro. Viram? Culpa de vocês. Sou contra isso, sou contra. Não gosto desse tipo de texto que dialoga consigo próprio, mais parecendo que o leitor não está ali para formular suas próprias perguntas.

Não sou muito de interrogações, e ponto final.

Mas o que eu posso fazer? Vocês me obrigam! Onde estão vocês, quando eu mais preciso? Quando eu questiono a nossa relação, analisando tudo, desde o dia em que nos conhecemos até o momento presente, onde estão vocês?

Ausentes.

Assim fica difícil. Queria que vocês se olhassem no espelho agora, para verem exatamente o que eu estou vendo: esse ar casual, mera ruguinha no meio da testa, pensamento meia-boca - estou aqui, mas não é muito comigo...

É nisso que eu penso, quando ponho a cabeça no travesseiro, e me pergunto se não poderia ser melhor. É sobre essa ruga descompromissada que eu reflito, diante da telinha, enquanto vejo o furdunço que uma paixão “made in Manoel Carlos” pode causar. Nos outros.

E o nosso furdunço, cadê? (O mouse comeu).

Não sei se poderemos levar adiante deste modo. Sinceramente? Não sei.

(Baixo a cabeça, faço círculos com o dedo numa poeirinha que caiu sobre o mouse pad, suspiro... longo silêncio...).

Sinais do tempo, gente. Poeira no mouse pad.

(Coço o nariz, fungo duas ou três vezes para deixá-los na dúvida entre a alergia ao pó ou um choro compulsivo que pode começar de uma hora para outra...).

Hein? Como?

(Faço cara de desentendida enquanto vocês começam a dizer o quanto me amam, como eu sou maravilhosa, e outras quinquilharias verbais do tipo.)

Ah. Sério?

(Olho no relógio, entediada).

Ok, ok. Então eu vou dar mais uma chance à relação.

(Vocês se sentem aliviados, como se recém tivessem escapado da guilhotina. Vocês suam horrores. Vocês tremem, não sabem onde colocar as mãos).

(Eu, superior, publico tudo isso).

(E vocês?).

18 fevereiro 2003

14 fevereiro 2003

Mas o que há com o meu BLOG?
É só comigo, ou só está visível até a metade do segundo texto?
Ai, não sei, hoje acordei com uma disposição incomum para a vida, para as pessoas, para as flores, para os céus, para os abdominais, para os agachamentos, para os glúteos, para os bíceps, tríceps, e até para a Lívia, da novela das 7h! Não é incrível?

Estou vestida com o mesmo short vermelho de sempre, aquele que ganhei de minha mãe na última visita, mas me sinto absolutamente em trajes festivos. É como se eu usasse uma saia rodada, colorida, florida, fresca e repolhuda ao mesmo tempo, e um top de cetim azul celeste. Já pensou, cetim?

Faz o mesmo calor repugnante das últimas semanas nesta cidade maravilhosa, mas, não sei, a brisa sopra de um jeito que me faz lembrar a infância nos verdes pampas de Encruzilhada do Sul, onde aprendi a cavalgar em nossa égua Pitanga, muito antes do pocotó fazer tanto fuzuê nessas rádios crudelíssimas que insistem em... mas vamos mudar de assunto, ou acabo esquecendo o bom humor.

Valha-me Deus, há muito tempo eu não começava o dia tão otimista! Deve ter sido por conta dos meus sonhos m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s da noite passada, mas esses eu não conto nem sob tortura... hohoho, tenho direito a meus mistérios, não tenho?

E vocês, que mistérios andam escondendo por aí? “Que mistérios trago no peito...”, dizia a canção “Meu Pago”, que eu cantava com meu tio nos tempos da MPG. Quase participei de um festival, mas ainda era muito novinha.

Há sempre qualquer coisa escondida aí dentro de você, amigo, que o faz sorrir de cantinho quando alguém dá “a deixa”. Não vá negar, que é feio.

A deixa é a senha – aquela palavrinha mágica, que é mágica só para a gente. Um sinalzinho bobo; alguém come uma letra na palavra, e você se lembra daquela namorada de infância que falava errado... pronto, lá vem o mistério. Você desvia o olhar da conversa, perde o tom da canção, vira a cabeça, faz um biquinho desentendido, mas não controla o sorriso bobo. Nem que dure só um segundo.

Na televisão, você vê uma roupa, você ouve uma frase, você sente um sotaque carregado lá daquela cidade onde esteve há tanto tempo, e nunca mais voltou. É a deixa. Ninguém vai compartilhar da sua comoção relâmpago: o mistério é só seu, pode suspirar à vontade.

Alguns mistérios desta vida eu já desfiz; contei à melhor amiga, deixei escapar nos altos papos da madrugada ou nos versos de uma canção. Fraquezas da condição humana, talvez. Você jura nunca entregar o ouro, mas, quando vê, dá com a língua nos dentes. No fundo, estava louco para desabafar e ouvir algo a respeito do mistério – só para cristalizá-lo, dar a ele um “certificado de existência”.

Outros mistérios ainda se encontram lá no fundo da minha alma, onde a razão não dá pé. Intactos.

Mistérios desacreditados, abandonados, difamados pela consciência e humilhados pela autocensura. Mistérios depravados, proibidos, encarcerados lá no sub-sub-subconsciente, que é para não haver perigo de fuga.

Mistérios não vão às compras, não andam de ônibus, não saem de viagem. Quando ameaçamos sair, eles ficam escondidos atrás da orelha. Como a pulga.

A maioria se nega a ir à terapia, inclusive.

Os mistérios são o nosso subtexto, as nossas entrelinhas. Aquilo que não se vê e não se ouve, mas vem à tona nas horas mais impróprias, involuntariamente. É só dar a deixa.

Ou vai dizer que você não tem algum?

13 fevereiro 2003

ECO-CHATA É A MÃE!

Preciso comentar isto: ontem, enquanto eu tomava sol na pacata (em dia de semana) praia do Recreio, um casal bem apresentado relaxava a poucos metros de mim. Ela estava grávida, falava alto num celular chique; ele tinha pose de burguês.

Ambos bebiam água-de-coco, refestelados em suas cadeiras, enquanto o cachorrinho brincava ali em volta – apesar das inúmeras placas de “não traga seu cachorro para a praia”.

Já achei um insulto. Muito bonitinho, o animal. Fofo, até. Mas, ainda um cachorro.

Quando resolveram levantar para ir embora, homem e mulher deixaram para trás seus cocos vazios, canudos coloridos e uma garrafa plástica de água mineral. Tudo na areia pública; ali mesmo, onde também o cachorrinho pode ter deixado algum sinal nada higiênico de sua presença.

O pior é que eu olhei em volta, e havia inúmeras cenas parecidas com aquela: gente despreocupada - ou, pior, MAL EDUCADA - deixando rastros de uma ignorância injustificável a essa altura do campeonato. Francamente!

Eu estou doida, ou não custa nada andar uns metros até a lixeira mais próxima?

Será que eles pensam que o lixo “some” dali, como num passe de mágica, assim que a noite cai? Será mesmo que, nem diante da imensidão do mar, manifestação explícita da natureza, é possível notar que meio-ambiente e resíduos plásticos não formam um belo par? Impossível não perceber o disparate.

Não se trata de eco-chatice; é questão de simples bom senso e coerência. Sim, porque aquela mulher grávida vai ter um filho, que vai crescer e ir para a escola, onde aprenderá as primeiras noções de cidadania e respeito ao ambiente. Chegará em casa, um dia, com um lindo trabalhinho: a figura de uma árvore cheia de folhas saudáveis, e uma placa ao lado, na qual se lerá - “jogue o lixo no lixo”.

Os pais vão sorrir, orgulhosos, e não haverá ninguém para lembrá-los que, em pleno momento de gestação do pimpolho, ambos viviam cometendo crimes contra a natureza.

Minto: infelizmente, a própria natureza vai se encarregar de lembrá-los.

12 fevereiro 2003

ATRASADA

Em tempo: o arquivo cujo link eu recomendo, ali embaixo, é o que está no pé da página - "Mico Jornalístico", aquele conhecido, da Lilian Wite Fibe...
VIDAS ALTERNATIVAS – parte I


Às vezes eu desejo me transformar numa mulher de 1,58m, 46kg, cabelos pretos bem curtinhos – um penteado bagunçado, com gel – pele clarinha, canceriana com ascendente em aquário e a lua em peixes. 29 anos. Morando num apartamento de dois quartos na Alameda Lorena, Jardins, São Paulo, vaga na garagem preenchida por um Gol verde 1.8, ano 2001.

Eu seria uma publicitária que faz ioga às 6h da manhã, depois come meio papaia e iogurte com granola. Jamais tomaria banho; tomaria duchas, demoradas e relaxantes, usando sabonete Dove e qualquer xampu – afinal, meu cabelo é tão curtinho que não carece dessas frescuras. Duchas!

Teria um tapete na minha sala acarpetada com móveis modernos, mesa baixinha em frente ao sofá vermelho, mas um vermelho bem fechado. Ali, meus cinco amigos e eu beliscaríamos uns queijos e torradinhas com patê, e bebericaríamos vinho tinto.

Duas ou três tacinhas e eu já estaria sonolenta, pronta para mais uma noite confortável no meu quarto de paredes cor-de-pêssego.

No dia seguinte, um sábado ensolarado de março, eu faria jogging no Ibirapuera, com uma calça de moletom preta e uma blusa azul de lycra, enquanto ouviria “Where the streets have no name”, do U2, no walkman, sem jamais pensar que o timbre ou o delay da guitarra do The Edge poderiam entrar na introdução de alguma música em lá menor que eu comporia para o próximo disco.

Em vez disso, eu apenas ouviria, e ainda pensaria “uau! Estou correndo bem no ritmo da canção!”. É claro que não estaria.

Talvez essa fosse mesmo uma boa alternativa: ter uma vida atribulada em São Paulo, e correr no parque para relaxar - ou seja, correr para parar.

Acho que meu nome seria Cíntia Lemos, ou melhor, Ana Cíntia Lemos – para conjugar o verbo do sobrenome na(s) pessoa(s) certa(s).


Pensando bem, melhor continuar sendo eu mesma, que esse meu humor cafajeste jamais me deixaria virar uma pessoa séria, decente.

E, outra: eu não sou do tipo que toma ducha, muito menos que beberica!!!

11 fevereiro 2003

BiBlog recomenda - chovendo no molhado, mas tudo bem:
Você NÃO PODE, em hipótese alguma, deixar de baixar este arquivo aqui.
src="http://www2.humortadela.ig.com.br/site7/soft/thumbs/soft_f_vid_0126.jpg">
Assombra-me o tempo, que me escapa do couro cabeludo, fino e branco, e arranco. Assombra-me a minha própria incompetência de lidar com essas coisas que andam; coisas que não me perguntam, não pedem, sequer avisam: apenas andam.

Há movimentos que só percebemos porque o cabelo daqui voa com algum vento de lá, nos fazendo coadjuvantes de uma história inevitável qualquer. Assombra-me, também, a impotente relação que temos com as coisas que não pedem passagem: apenas passam.

E ninguém avisa, ninguém protesta, ninguém adverte, ninguém, palavra nenhuma, nada.

Engraçada essa fobia infinita que me acende um alarme, que ainda me presto a idéias como assombração, não durmo, e ainda divulgo. Engraçado isso do susto que a cronologia às vezes nos prega, se o passar dos anos não se dá como em pulos, mas de forma absolutamente homeopática, comedida - como em dias, oras!

Parece que não importa, porque é naturalmente, que vamos indo, frouxos, no embalo...
e pronto.

Mas não é bem assim.

A pista é meio torta, porque é feita pela gente, às vezes eu vou indo, solta, entalo...
e tombo.

09 fevereiro 2003

Buenas!

Tudo ok com vocês, minhas poucas e boas (leitoras)? Aqui, tudo azul. Literalmente; céu e mar. É pena que...
O RECREIO NÃO É MAIS O MESMO

O Recreio dos Bandeirantes é uma praia que fica ao lado da Barra da Tijuca – em direção ao lado mais longe. Para quem não conhece o Rio, funciona mais ou menos assim: a Barra é um bairro grande, que fica “muito longe” – como dizem todos que moram, ou perto do Centro da Cidade, ou perto da Zona Sul (Copacabana, Ipanema, Lebon...).

Mas o “muito longe” é relativo, claro. Quando morei em Ipanema, por exemplo, demorava meia hora para atravessar três quadras de carro até chegar em casa. Isso, para mim, era muito “longe”. Dava vontade de descer do carro e ir a pé. Tudo é lento na Zona Sul.

O Recreio, onde moro hoje, é realmente muito longe do Centro da cidade. Dependendo do trânsito, pode-se levar uma hora ou mais. O caso é que, aqui no Rio, o “Centro” não é como na maioria das cidades brasileiras – um bairro onde se precisa ir quase que diariamente, para se fazer qualquer coisa importante.

Nem me lembro da última vez em que fui ao Centro (graças a Deus, porque aquilo ninguém merece). “O Rio é uma cidade de cidades misturadas”; desse modo, os bairros são relativamente auto-suficientes, como se fossem cidades mesmo.

Quando pus meus pés aqui no Recreio pela primeira vez, no verão de 89/90, tratava-se de uma prainha-matagal pacata, simpática e pouco povoada. Viemos – meus pais, meu irmão e eu – num táxi desses com guia turístico, um homem muito simpático que perguntou se queríamos conhecer a praia onde era filmada a novela Top Model.

Eu tinha 12 anos e era fã daquela novela. Queria ser a Malu Mader quando crescesse. Já contei isso a vocês, né?

Pois bem. Chegamos na tal prainha, cujo nome me agradava, não sei por quê: Recreio dos Bandeirantes. Soava tão bem!

Quando chegamos em frente à “Casa do Gaspar” (Nuno Leal Maia vivia um surfista quarentão super boa gente), eu me derreti. Além de ser a Malu Mader, eu queria morar bem ali quando crescesse, naquela praia com cara de interior, mar imenso e uma brisa que seguiu soprando nos meus ouvidos durante os próximos anos em que eu virava gente no Rio Grande do Sul.

Pois, que ironia, vim parar justo aqui. No Recreio.

Infelizmente, treze anos depois, o Recreio já não é mais o mesmo. Hoje eu fui à praia, que está mais suja do que nunca, e me deparei com o “progresso” do meu bairro. No caminho até lá, a brisa que vem do mar é misturada ao cheiro desagradável que sai dos canos de descarga. Dezenas e dezenas de carros barulhentos amontoam-se pelas ruas – e até pelas calçadas – em busca de um lugarzinho; coisa que está cada vez mais difícil por estas bandas.

Pior, muito pior é a constatação de que a desgraça está instalada, e daqui para frente só tende a piorar: vários homens, com seus isopores, vendiam bebidas no engarrafamento!! Isso é o fim.

Bebida no engarrafamento é um péssimo sinal. Sinal de precisamos achar outra casa para o Gaspar.

08 fevereiro 2003

Comendo duas fatias de queijo minas
(as últimas, finas),
bebendo cappuccino
(gole sim, gole não),
escrevendo
(tem alguém aí?),
esperando o Jô Soares
(déjà vu de verão),
ouvindo o barulhinho do ventilador
(sopro elétrico),
imaginando ter um apartamento mais bonitinho e decoradinho
(spot futuro),
lembrando os sonhos da noite anterior
(passado dormente),
esquecendo o que é preciso
(presente inconveniente),
precisando de alguém que diga que,
mais dia,
menos dia,
os gerúndios serão bem outros,
e as fatias serão menos finas,
e os goles serão todos,
e os verões serão inéditos,
e os sopros serão humanos,
e os spots serão agora,
e o passado será memória,
e o presente não precisará de explicações
(entre parênteses).

02 fevereiro 2003

DELÍRIOS DOMINICAIS DE UMA BAIXISTA GAÚCHA EM CRISE


Alô, ouvintes, hoje por favor* peço que me leiam em voz alta, porque o meu texto vai ficar melhor em áudio que em vídeo, uma vez que estou despreocupada com os pormenores literário-gramatiacais e coisinhas de hábito, se é que me entendem, de quem lida melhor com a palavra escrita que com a falada, a frigideira, o interfone, o porteiro, os vizinhos e até mesmo as próprias unhas.

* notem que o “por favor”, na primeira linha, não está entre vírgulas. Vejam como me permito relaxar, não sou uma escriba careta, presa às normas, encarcerada na gramática; meu vôo é livre, leve, solto. E me desculpem o ponto-e-vírgula, antes que eu me esqueça.

Então, continuando, não esperem versos ordenados, parágrafos coerentes, idéias sólidas. Hoje o papo é torto, estou em crise, não sei se já disse.

Vocês sabem qual é a diferença entre uma cantora e uma vocalista/instrumentista? As unhas. Por isso é que me revolto quando alguém diz “aquela cantora”, referindo-se a mim, pobre de mim, que há anos carrego o peso grave do contrabaixo nas costas, e privo minhas unhas de um tratamento digno de uma donzela, a donzela esta, justamente aquela donzela que sou. (Sobre o texto: eu avisei).

Nada contra as cantoras de belas unhas, segurando seus microfones com a delicadeza e o glamour que lhes convém, usando saias curtas ou médias ou longas, tecidos leves, maquiagem rósea, sorrisos carismáticos, dançando conforme a música. Muito pelo contrário, até muito admiro esses canários de belas ou médias ou feias pernas, que muito encantam seu público, e muito me inspiram, na verdade.

O caso é que há uma diferença entre nós, e o equívoco foi se convencionar que qualquer elemento feminino que esteja sobre um palco é, invariavelmente, uma cantora. Não o é. Aliás, não o somos. (Ou seria “não os somos?” Ossomos?? Não interessa, hoje o texto é o de menos, já avisei).

Foi-se o tempo, meu amigo, em que os barbados seguravam suas guitarras, seus contrabaixos, ou sentavam-se a batucar em suas baterias, e depois chegavam em casa, exaustos, às seis da manhã, e esperavam que suas esposas lhes tirassem os chinelos e preparassem o jantar – nesse caso, o café da manhã. Estão rindo de mim, mas a classificação errada de que qualquer mulherzinha no palco é cantora, e não vocalista ou instrumentista, veio desse tempo mesmo!

A diferença, repito, está nas unhas e nos calos.

O que quero dizer, com esse manifesto, é que o serviço pesado há muito já não é feito só por eles. Estamos no mesmo palco, dividindo melodias e acordes, ritmos e levadas, no aplauso e na vaia, até que a morte nos separe.

Não é muito mais bonito assim?

01 fevereiro 2003

Absoluto calor no primeiro dia de fevereiro - tem carnaval - no Rio de Janeiro. Céu sem nuvens, praias lotadas, engarrafamentos bem próximos. Pagodinho no quiosque. Cervejinha na areia, empada, paquera, canga, bronzeado cremoso, descanso.

Não participei de nada disso.

Ao contrário – estou enfurnada dentro de um apartamento cujo piso verde e liso me dá muito prazer em andar descalça, e só. Um pouco de tela, confesso, além de boas tecladas com amigos distantes.
Um monitor quadrado, sossego, vento artificial. Nada de sol. Sal, só o das batatas fritas. Ok, você venceu: batata frita!
Foi um sábado sem barulho de chuva, como há muito não tínhamos. Para não dizer que não festejei o fim do mau tempo, sim, eu fui até a varanda. Olhei em volta, mas o sol não me deu a mão. E eu ando meio orgulhosa; se não formalizar o convite, não aceito.
Fiquei.
Não que eu não goste de sol, areia da praia e mar. O caso é que há momentos, não?
Primeiro dia de fevereiro. Primeiro sábado de sol. Primeiro sábado meu, em 2003, no Rio de Janeiro, com bom tempo.
Não dava. Essas estréias todas me inibem.

Como dizia um amigo nosso, guitarrista - depois de passar anos tocando com uma guitarra horrível por falta de grana, enfim comprou uma nova, maravilhosa, impecável. Mas continuava tocando com aquela tralha velha.
Cobrava-se:
- E aí??? Não vai tocar hoje com a guitarra nova???
Ao que ele respondia, sério, quase cochichando:
- Ainda não. Não é o momento. Deixa passar o clima.

“Deixa passar o clima”. Ninguém entendia.
Parecia que, se ele fosse com muita sede ao pote, a guitarra nova iria se desmanchar nas mãos dele, ou coisa assim. Era o jeito que ele tinha de respeitar o momento nobre – comprara, com muito sacrifício, depois de anos de peleja nos bares da cidade, uma guitarra zerinho. Uma Gibson legítima. Imagine.

E o pessoal, afoito, querendo que ele inaugurasse aquela preciosidade, assim, num boteco qualquer!

Podem me chamar de antiga, “nerd” ou bobalhona, mas eu acho mesmo que certas coisas merecem respeito.

Claro que um sábado de sol é só um sábado de sol, e não fui à praia porque deu preguiça, ou porque estou mesmo lesionada das pernas, quem me conhece sabe que ainda estou mancando e toda dura. Mas o pretexto é bom, e o argumento aqui é o que vale: pensar no respeito das coisas. Respeito, palavra antiga, em desuso.

Eu respeito muito as coisas que estão vindo à luz pela primeira vez. E até temo atitudes recém-nascidas, muitas vezes – minhas, inclusive.

São embriões de hábitos, e a gente nunca sabe...

30 janeiro 2003

Tive pesadelo com assalto, mas fui salva no final por um carro de segurança particular, um Gol branco com um homem esperto dentro. O menino que tentava me assaltar era muito novinho; ele tinha uma arma de brinquedo só para disfarçar – e outra, de verdade, dentro da mochila.

Fiquei desesperada na hora em que o homem descobriu que o menino estava armado de verdade, e mais desesperada ainda quando ele cochichou para mim “vou te dar um revólver, mas é só para te defender, não vai ser preciso usar...”.

Se não fosse preciso, ele não me daria uma arma – foi o que eu pensei na hora, enquanto pegava aquilo com a mão esquerda, tentando evitar que o assaltante percebesse a manobra. Deu certo, e não foi mesmo preciso atirar.

Só lembro que, no final da história, o segurança conseguiu evitar o assalto, imobilizando o menino e tirando tudo dele.
Não se ouviu um disparo, mas o clima era tenso demais, e eu acordei agitada.

***

Quando dormi de novo, sonhei que meus dentes (todos) estavam caindo, um a um. Eu tentava disfarçar, porque estava em público. Levava a mão à boca, retirava um dente, e punha no bolso. E assim por diante, até que fiquei totalmente banguela.

O ponto alto do sonho foi quando meu punhado de dentes foi parar dentro do MOCOTÓ que um amigo do meu pai estava preparando num panelão, ao ar livre. O acidente se deu quando meu irmão me pediu a chave do carro, e eu, num gesto desajeitado, enfiei a mão no bolso errado, apanhei os dentes achando que era o molho de chaves, estendi o braço por cima da panela, e... derrubei tudo lá dentro.

Eu não sabia se chorava mais de vergonha pela patacoada no meio do evento, ou pela banguelice em si. Motivos não faltavam, enfim.

Acordei, ainda apavorada, e só sosseguei quando senti os dentes com a língua.

***

Andam bulindo no meu jornal.

O entregador aparece sempre bem cedinho, pouco antes das 6h. Hoje, acordei às 8h e fui pegar o jornal na porta. Em vão.

Eu já desconfiava, e meu irmão também já me havia advertido do problema. O vizinho não-assinante madruga, surrupia o folhetim alheio, e toma seu cafezinho ao desfrutar da leitura gratuita. Muito bonito.

Lá pelas 9h ou 10h da manhã, quem aparece em frente à minha porta? Todo arrumadinho – mas, evidentemente, desvirginado. Sim, porque o periódico, quando ainda é donzelo, a gente percebe de longe.
Jornaleco devasso é muito diferente.

Por mais que esteja dobrado reto, nunca está lisinho. Sempre há alguma ruga, uma manchinha aqui e ali; enfim, claras denúncias da infidelidade.

Já aconteceu, algumas vezes, de eu chegar de algum trabalho noturno – música, música! -, junto com o jornaleiro. Nesses casos, levo a melhor, e acabo inibindo a traição do vizinho com as minhas imaculadas notícias. Mas, na maioria das vezes, confesso que tenho sido chifrada e não paga.

Diante de tamanha cara-de-pau desse misterioso maníaco do primeiro andar, só posso concluir: preciso bolar uma arapuca para pegar o cretino.

Já pensei em ficar de tocaia, entrincheirada no quartinho do lixo, só esperando o arrastar dos textos para a porta ao lado. No momento do ato, eu pularia em cima dos dois, e acabaria de vez com essa farra matinal.

Mas eu não me prestaria a tal papel. Não sou do tipo que faz escândalos; costumo agir com classe.

Primeiro, preciso saber quem é o crápula. Para isso, contrato uma faxineira, que se fingirá de funcionária do prédio, e madrugará limpando a ardósia dos corredores do primeiro andar. Em poucos dias, ela desmascarará o traidor, e me dará o serviço completo.

De posse da identidade do bandido, telefono para alguma editora de revistas de mulheres peladas, e peço que me venham oferecer assinatura, pessoalmente. Na porta do vizinho, é claro.

O tarado, certamente, não vai resistir. Se gosta de bolinar jornal, que dirá revista de mulher nua.

Ele assinará na hora. No dia da primeira entrega, eu confiscarei o exemplar, e devolverei, minutos depois, no capacho do vizinho. Claro que vou procurar alguma celulite ou estria naquela turma de beldades, só para não perder o hábito, mas nem vou me demorar: o mais importante é lavar a revista com bastante água corrente, página por página.

Nada como pagar na mesma moeda. O corno do meu vizinho, quando esperar encontrar suas mulheres peladas intactas, terá a grande surpresa - elas estarão todas desvirginadas, e, pior, dando a maior bandeira: quem aparece de cabelinho molhado é porque sequer respeita o cônjuge!

28 janeiro 2003

CHUVA E MAIS CHUVA

Gente amiga, confesso que não agüento mais essa água toda. Chega, perdeu a graça. Justo eu - uma gaúcha que adora quando pinta um céu cinza-chumbo aqui no Rio de Janeiro, para brincar de pampas -, justo eu.

Minha avó ensinava a fazer promessas, mas, mui discreta e cuidadosa com os termos, arriscava um eufemismo: “é uma troca de favores, minha filha”.

Nunca entendi direito o porquê de Deus se sentir, de certo modo, acarinhado por minhas reles atitudes politicamente corretas – como usar o fio dental todos os dias, por exemplo -, mas minha avó garantia que Ele se satisfazia, e muito. Vá lá.

Pois faço uma negociação com São Pedro: ele pára de mandar água, e eu paro de fingir que a minha varanda verde não existe. Caio de quatro, vou com tudo naquela ardósia empoeirada. Juro. Vassoura, pano e cera. Tou dizendo.

Há dias que eu olho, meio de lado, para a sacada, e depois pigarro, pigarro, pigarro... hein? O que eu estava fazendo, mesmo? Ah, sim, telefonar para a mãe, urgente!

A rua aqui em frente, acreditem se quiser, ainda não foi asfaltada. Imaginem. Cada carro que passa é mais poeira que levanta, sendo que aqui, no primeiro andar, amparamos boa parte da areia voadora.

Não bastasse o pó, parece que São Pedro adivinha: no horário de pique, manda chuva e vento varanda adentro, transformando aquela inocente sujeirinha em ardósia com cobertura de lama. Delícia.

Está prometido, portanto. São Pedro, se fizer a sua parte, terá os olhos ofuscados – com todo respeito – pelo brilho impecável da minha varanda. Que trate de comprar óculos escuros.

Segundo a previsão do tempo, no entanto, as chuvas durarão até o fim da semana. É isso que enfraquece a amizade, São Pedro. Se o senhor insistir nessa insossa campanha nebulosa, eu deixarei que a minha sacada marrom, outrora verde, crie bichos. Não estou nem aí!

(Minha avó diria que São Pedro e demais seres celestiais estariam, a essa altura, comovidos com meu apelo higiênico. De modo que prossigo).

Ouviu bem, São Pedro? Ou quer que repita?

(Minha avó diria – não se exalte, minha filha, não se exalte que Deus não gosta!).

Ah, não gosta? E que direito tem Ele de mandar esse aguaceiro para me atormentar a vida, além de esmagar pobres criaturas inocentes debaixo da lama que despenca, a torto e a direito, por aí? Fora a minha ardósia, claro!

(Querida, já me arrependi de tê-la ensinado a trocar favores com os santos! Não é assim que uma moça deve proceder diante de...)

Cala a boca, vó! O negócio aqui é entre A e B!

(Minha Santa Maria...!!)

Opa, não mete a mãe do Cara no meio! Pega leve, só estou fazendo um protesto, não precisa ofender também!
Olha aí, São Pedro, é ela quem está baixando o nível, o senhor tá vendo. O senhor tá vendo.

Depois disso, o que era para ser uma conversa informal passa a ser um debate descarado e exaltado. Já vi que a chuva vai continuar, minha ardósia vai seguir cada vez mais imunda, e nada mais pode ser feito.

Tudo culpa da minha avó, que não entende nada de administração de empresas.

Hoje em dia, quem não tiver uma postura ativa e agressiva vai ficar comendo poeira!


* * * * *

A RODA

De vez em quando pinta uma fraqueza de encarar a luz, de freqüentar o óbvio, de folhear os fatos, ler às pressas as coisas dos dias.

Como é necessário ir andando, mais que tudo!

Como é necessário só passar; e não importa a impressão – porque o registro é tão inútil, que se apaga em dois tempos.
E quanto tempo é gasto em constatação, quantos anos perdemos tentando traduzir a simplicidade das coisas, terminando por complicá-las, definindo, catalogando, organizando...

Bobagem.
A roda segue esmagando a estrada.E o rastro não dura quase nada.

25 janeiro 2003

EU QUERO ENTRAR NO ROUGE

Está decidido - eu quero entrar no Rouge. Estou aqui ensaiando o Ragatanga e tudo. Meu sonho é entrar no Rouge. Chega dessa vida ingrata de compor e não conseguir gravar, gravar e não conseguir lançar, ensaiar e não conseguir tocar. Chega de escrever letras e mais letras, riscar, rasgar, escrever tudo de novo, rasgar de novo por achar que não está legal.

Ragatanga é o sucesso!

Meninas, me ajudem. Eu tive uma infância muito difícil. Andava de chinelos no inverno sulista, comia canja de galinha rala porque não havia dinheiro suficiente. É verdade. Mas canto desde que morava na barriga de minha mãezinha, porque acredito que a alegria está no coração da gente, não importa o financeiro.

Nunca sonhei com fama e dinheiro. Só quero mostrar o meu trabalho, sabe? Acho que todo mundo deveria ter uma oportunidade, é por isso que estou aqui, ensaiando o Ragatanga para fazer bonito diante desse Brasil lindo, cheio de gente maravilhosa e trabalhadora.

O meu público é assim, bem variado. As crianças gostam de mim, não sei bem por quê. Minha mãe diz que eu tenho carisma, e meu namorado afirma que sou bonita, mas eu acho que beleza não é tudo nesse mundo, tem que ter talento. Porque a minha beleza um dia vai acabar, eu sei, tenho conhecimento disso. Não adianta ser só bonito por fora.

Cantar? Ah, pra mim, cantar é tudo! Eu acordo cantando, durmo cantando, faço esteira cantando... cantar alivia a alma por dentro, tudo. Como dizem, quem canta seus males espanta.

Sim, eu estudo muito. Terminei o ensino médio e fiz alguns semestres da faculdade de jornalismo, depois tranquei tudo para me dedicar ao que eu gosto mesmo de fazer, que é cantar, não sei se eu já disse. Ah, e agora estou estudando o Ragatanga.

Sou uma pessoa muito honesta e também humilde. Pretendo estar ajudando muita gente com o dinheiro que eu ganhar na minha carreira. O que eu desejo para o mundo é muita paz e alegria, é por isso que eu insisto em ser cantora, para levar um pouco de alegria a esse povo pobre a nível material, mas muito rico de espírito.

Eu quero e preciso e vou entrar no Rouge, porque as pessoas precisam parar de dizer que não existe nada de original no meio musical brasileiro. Pretendo estar mostrando que nós estamos aqui, de peito aberto, mostrando a cara e pagando para ver, porque acreditamos que temos muito que acrescentar na cultura em termos de opinião e até mesmo no tocante ao gênero espiritual, tão esquecido hoje em dia, com todas essas guerras, num mundo onde os valores são distorcidos, a família é menosprezada, só se fala em silicone, as meninas precisam ter o bumbum malhado e o que importava antigamente nem sempre volta a importar, o que é um erro grave, se pensarmos que tudo pode vir à tona um dia e então estaremos nos deparando com desastres ecológicos, dos quais só podemos nos livrar com muito pensamento positivo e amor ao próximo e compreensão.

Ainda mais agora, com a globalização.

24 janeiro 2003

Uma mulher sozinha e ociosa, numa noite de sexta-feira chuvosa, pensa em pedir uma pizza.

Observa a porta da geladeira, onde pequenos objetos pecaminosos disputam espaço, insinuando que a solução para esta noite estaria num código de sete dígitos. Do cofre, geralmente localizado em alguma esquina próxima, saltará um motoqueiro com capa de chuva e botas, que trará na garupa aquela peça redonda e gordurosa, coberta de queijos amarelos - alguns tão furadinhos quanto irão se tornar as coxas e as nádegas daquela que tiver a audácia de saborear a massa do pecado.

A mulher recua, hesitante. Carboidrato, depois das seis da tarde? – ela ouve vozes , sente um arrepio. Esquenta um pouco de água. Camomila e aspartame.

Meia hora depois, impaciente, cruza e descruza as pernas. Camomila, o cacete. Meia calabresa, meia portuguesa... meia-noite? Já??

Sujou. Se não pode carboidrato depois das seis, depois da meia-noite a pena deve ser dobrada. Imagino que todos os furos da lua na minha bunda, assim, por baixo. Nem pensar.

A mulher sobe na esteira e anda muito rápido, parada, como se quisesse fugir do moto-boy – que nem foi chamado. Ela anda em direção à televisão, onde vê propagandas de liquidação de biquínis, adoçantes dietéticos, clínicas estéticas e uma redonda pizza Sadia. Só pode ser um complô.

Num pulo, agarra o telefone sem fio e digita os sete números da perdição. Antes de atenderem, no entanto, ela tem a idéia que a salvará de todos os pecados, e a levará direto ao reino dos céus.

- Boa noite, faça seu pedido, por favor.

- Boa noite. O senhor tem salada de frutas?

- Não, senhora. Só entregamos pizza.

- Ah, que pena. Então me manda uma gigante, de calabresa com cebola e queijos, muitos queijos.

- Pois não.

A pizza chega, ela devora num tapa, sem culpa. Já é quase uma da manhã.

Ela bem que tentou, mas não pôde fazer nada. Onde iria achar salada de frutas a essa hora?

23 janeiro 2003

Respostas:

O da foto abaixo é o ator Ângelo Antônio, e o da foto mais abaixo ainda é o ator (gaúcho) Werner Schünemann - que interpreta Bento Gonçalves na série A Casa das Sete Mulheres, na Globo.

A poesia (mais abaixo ainda) é minha mesmo. :o)

E aí, Melissa, quanto aos bofes... melhorando ou piorando?


Dúvida cruel... (suspiro)


Ai, ai... já me apaixonei de novo.
Não me gosto
didática,
exemplar,
categórica,
correta,
protocolar,
metódica.

Prefiro-me às voltas, às moscas, aos prantos;
que o eixo seja semi-reto, que a margem saia meio torta,
que a letra esqueça a palavra, que esqueça o verso,
que esqueça o texto e todo o resto.

Já me basta a fama de implacável,
que disfarço com olhar disperso;
e já me chega a marca de insensível,
que mantenho pra evitar conversa.

Não me gosto
elétrica,
ávida,
pulsante,
enérgica,
falante,
corrente.

Prefiro passos lerdos, próximos, prestes;
que a foto seja sempre um susto, que a pose saia indecente,
que o olho supere a fala, que desbanque o verbo,
que destranque o beijo e todo o resto.

Pois já me basta a fama de arrogante,
que combato com sorriso doce;
e já me chega a fome de um abraço,
que contenho enquanto ainda posso.

20 janeiro 2003

No fritar dos miolos


De vez em quando bate repentina vontade - eu diria quase que uma gana – de escrever alguma coisa útil mesmo, não só útil a mim e a meus botões. Aí eu penso bem forte, e me fascina o dom que o ser humano tem de esquentar a cuca até chegar, invariavelmente, à mesma conclusão: De NADA vale o fritar dos miolos. E nada vale a fritada deles.

Duvido que alguém aqui tenha decidido um grande pepino de sua vida, fosse de ordem financeira, emocional ou vegetal mesmo, a partir do raciocínio compulsivo e ininterrupto acerca do objeto pepinoso. O fim da linha, quando se envereda para os lados mui frenéticos da atividade cerebral, é um só: justamente o ponto inicial. Ou seja - anda-se, anda-se, mas não se chega a lugar algum.

Contudo, milhares de seres humanos – nós (quase) todos -, ainda embalados por um sotaque cartesiano e mecanicista, pensam que têm acima de seus pescoços as respostas certas para todas as perguntas do mundo. Sua cabeça é seu mestre.

Parece mentira, mas, por mais que digamos que não, ainda estamos absolutamente deslumbrados e apaixonados por nossas próprias cacholas. O cérebro, como é incrível!

Tive uma idéia. O cérebro. Estou sendo sensato. O cérebro. Pensa bem. O cérebro. Sou inteligente. O cérebro.

E o resto?

Partes menos nobres da anatomia humana recebem tratamento de segunda ou terceira classe. Algumas são até sinônimo de palavrão, tamanha má fama. Outras, coitadas, são completamente ignoradas durante boa parte da vida. Uns até morrem sem saber.

O que é mesmo um clitóris?

O clitóris veio à tona depois da “revolução sexual”. Mas o cérebro nunca precisou de revolução nenhuma.

Caberia, a essa altura do campeonato, uma verdadeira revisão: afinal, até que ponto eu devo minha vida às engrenagens da razão?

Quantas vezes eu gastei neurônios, insistentemente, achando que resolveria um problema enorme - quando a resposta estava na asa da borboleta colorida que pousou, sem querer, na roupa branca que secava ao varal?

As coisas estão por aí, vagando; muito mais do que aprisionadas na nossa caixa craniana. O tutano pode ser muito, mas o mundo é mais.

Às vezes, uma simples olhada em volta revela o que o raciocínio lógico jamais conseguiria compreender. Yes, nós temos antenas, e elas servem para captar o que não caberia dentro de nós, mas tem passe livre para entrar e sair na hora em que bem entender.

O problema de superestimar o cérebro é justamente dar um nó nas antenas, e obstruir caminhos alternativos de percepção. Fecha-se um círculo vicioso, forma-se um entra-e-sai contínuo de informação, e não há espaço para RENOVAÇÃO.

A única forma de renovar o ar é expirando, para depois inspirar de novo.

Assim funciona com as idéias: não adianta fritar os miolos, se não houver espaço para as antenas brincarem de nariz da alma.

09 janeiro 2003

BUENAS!

Tudo tri com vocês? Espero que sim.

Têm acompanhado A Casa das Sete Mulheres, na Globo? Eu assisti aos dois primeiros capítulos, e achei legal, apesar do sotaque sulista soar bem apenas em dois ou três atores. Sinceramente - não é bairrismo, não -, bem que a Samara Felippo, por exemplo, poderia ser mais esforçada e parar de misturar "tu foste" com o chiado característico dos cariocas (que acho uma graça, mas fica ridículo numa situação dessas).

"Bah, tu foxxxxte à guerra?" - é, no mínimo, esquisito.

Tudo bem que deve haver alguma dificuldade em se adequar ao sotaque dos outros, mas eu pensei que o trabalho de ator/atriz fosse justamente este: vencer as dificuldades, representar, ser aquilo que não se nasceu sendo.

E não é só o sotaque, não. Alguém poderia cuidar para que a Nívea Maria, por exemplo, não segurasse a cuia de chimarrão como se fosse um coco verde, e a bomba como se fosse um canudinho de plástico. Não é preciso agarrar com as duas mãos - uma na cuia de porongo e a outra na bomba de metal. Os materiais são suficientemente resistentes, não é qualquer vento que vai levar o mate amargo embora.

O ato de segurar a cuia como se ela fosse fugir a qualquer momento tira toda a elegância da cena. O significado vai embora, fica uma coisa vazia.

São detalhes como esses que fazem a diferença; são pequenos cuidados que, se estiverem presentes, ninguém percebe. Já, se estiverem ausentes, saltam aos olhos.

Outra coisa que salta aos olhos, verdade seja dita, é o Tiago Lacerda de barba por fazer e cabelo por cortar. O bonitão aparece sem o rosto de bundinha de bebê e o cabelinho bem cortado, como convém a bons moços de horário nobre, e cresce uns 100 pontos na minha escala estética que clama por alguma imperfeição no reino dos galãs convencionais - os "tudo-de-bom" que têm aparecido por aí.

Acho que esse pessoal da estética "global" pensa que é preciso retornar a 1800 para que se possa mostrar um homem de verdade. Aliás, Ângelo Antônio e Murilo Rosa também estão melhores do que nunca em 1800!

Estivesse eu em meio àquela guerra, ficaria realmente confusa, indecisa, e talvez sequer diferenciasse aquelas fardas.

E acho que acabaria atirando para todos os lados.



07 janeiro 2003

BOM ANO BOM ANO BOM ANO BOM ANO BOM!

Que vergonha... meu último post foi no dia 27 de dezembro do ano passado. Que feio. Sei que vocês devem estar super decepcionados comigo, mas explico, se é que ainda tenho algum crédito aqui: estive fora. Passei a virada do ano em Tramandaí "Beach", "a capital das praias do sul do Brasil" - segundo o folder do hotel informava.

A pobre Tramandaí está imunda e superlotada, porém ainda simpática. Adorei rever, recordar.

Voltei para São Léo, minha terra, com o humor de quem perdeu os últimos dias de sol na praia aboletada numa cama de hotel, por conta de uma gripe ordinária e inoportuna que resolveu me freqüentar os pulmões, logo nos primeiros dias de 2003. Acontece.

Passei alguns dias me recuperando, tossindo e espirrando - como, aliás, ainda estou.

Desculpem o final do post tão corrido, mas estou sendo chamada de urgência para um almoço na Vó.

Acontece.

27 dezembro 2002

LAY OUT NOVO

O BiBlog comemora o Natal, e quem ganha o presente é você! Aliás, nós, porque também eu fiquei surpresa ao me deparar com o novo lay out - a responsável pela arte é a minha amiga Melissa.
Valeu, Me!! Adoramos!

A propósito, eu também achei que estava no lugar errado até reconhecer meu próprio blog, vestido de nova cor... caiu-lhe muito bem, ali(L)ás!

É bom entrar o ano de roupa nova, dizem. Estou nessa, agora, até virtualmente.

Vocês já entraram no clima de réveillon? Eu recém comecei a me animar e a pensar a respeito. Não sei de vocês, mas eu não sou daquelas pessoas que têm pavor das festas de fim de ano, não. Eu sempre gostei, principalmente da virada.

No Natal a gente ganha presente; na virada a gente ganha futuro. Tem aquela coisa meio ilusória de virar a vida de cabeça para baixo, chutar um balde ou outro, arrumar de vez o que nunca esteve lá muito certo. Gosto dessa promessa, ainda que fique só na intenção. Não me incomodo com as fantasias que não se concretizam nunca; para falar a verdade, acho mesmo que são elas as mais interessantes.

O concreto deixa de ser infinito no momento em que vira fato, não? Que graça?

Eu gosto de ter um pezinho sempre no infinito, no ilimitado, no - por que não? - inatingível. Nunca fui muito de cercar as idéias com tijolos; depois dá muito trabalho para pular e ver o que há do lado de fora delas.

É por isso que eu não me incomodo com a inquietude da possibilidade, com a insensatez da ilusão, com o não cumprimento de alguma coisa que parecia fadada ao êxito. Melhor estar sempre em aberto.

Em 2003 eu quero abrir exceções, fazer concessões, criar possibilidades. Posso sair da rotina, experimentar novas sensações, selecionar hábitos inusitados e incorporá-los. Incorporar hábitos é preciso.

Vou abrir algumas lacunas e deixar ventilando, sem me preocupar em tapar furos, cobrir frestas, definir, socar, sufocar, resolver. Um pouco de ar, em 2003, não fará mal a ninguém.

Só isso já vai ser trabalho duro, mas cavalo que corre por gosto não cansa. E ninguém mandou eu não gostar de cercas.







25 dezembro 2002

Vocês são uns amores! Mesmo na minha ausência, apareceram para registrar votos de bom Natal. Obrigada! Retribuo com sinceros desejos de paz e felicidades para o próximo ano.

A minha noite de Natal foi ótima. Comecei tocando violão e cantando com a parentada, e terminei às 6h da manhã de hoje, chegando em casa acabada de uma festa com minha incansável prima de 18 anos.

Chegamos na cervejaria/boate pouco depois da meia-noite. Olhares inquietos, expectativas, esperanças, vestidos de vários tamanhos e estilos. Homens de camisa vermelha, cumprimentos, sorrisinhos ensaiados e improvisados. Aquela coisa.

"O que será que eles procuram aqui?" - meu lado sagitariano-filosófico-enfadonho ameaça botar as garras sobre a minha saudável noite fútil. Controle-se, é apenas uma noite. Fútil.

Resolvo me distrair com as belezas humanas desta terra abençoada por Deus, e me encanto por um daqueles vários meninos de vermelho - que, para meu desânimo, engata-se de súbito a uma loura monumental, e desaparece entre os cachos dourados para nunca mais retornar a este reles mundo dos mortais.

Pronto. Menos um.

Relaxe, aconselho a meus neurônios mais afoitos, é Natal. Minha prima pergunta se eu quero dançar, eu pergunto quando vai começar a música, ela responde que é aquilo ali mesmo. Achei que estavam consertando alguma coisa na boate, pois o barulho mais se parecia com um martelo insistente do que, propriamente, com alguma canção. Mas ela reafirma: é isso aí que tem.

Pronto. Menos uma.

Não sou de dar carão; aceitei o convite e fui à luta. No início, me senti um pouco ridícula. Depois, foi piorando. Mas o importante é competir - eu me consolava, enquanto uma adolescente descompassada e meio bêbada se sacudia do meu lado, e depois ia se agachando até o chão, com as duas mãos na cabeça, e fazendo biquinho. Não estou tão mal assim, afinal.

Depois de uma "música" vinha outra, e outra, e ainda outra. Aquele aglomerado ia ficando cada vez mais parecido com uma coisa só. À medida que ia entrando mais gente na pista, a sensação era de que eu ia perdendo o controle sobre os meus próprios movimentos, passando a fazer parte de uma massa nervosa e compulsiva, ali, quicando ao bater de cada martelada. Era a dança.

- Quando não agüentar mais, é só falar... - ela me advertia, com olhar quase piedoso.

- Imagina! - eu tentava disfarçar.

- É só falar... - eu não conseguia disfarçar.

Joguei a toalha quando meus calcanhares já estavam dormentes, meus dedos pisoteados e esborrachados de inchaço, meus quadris apenas mexendo uma vez a cada duas ou três marteladas.

- Vamos dar uma voltinha? - ensaiei um sorriso e dei uma piscadela, como quem quer ver se encontra algum pretendente ou coisa parecida. Colou.

Ela saiu na frente, ainda rebolando ao ritmo da massa. Eu saí atrás, gemendo em silêncio e pisando manso, para ver se a sola dos pés latejava um pouco menos, se eu voltava a sentir as pernas, se a minha cabeça parava de clamar por duas aspirinas e silêncio.

O pretendente? Se meu travesseiro me aparecesse montado num cavalo branco, eu casava na hora. Com qualquer um dos dois.

Demos várias voltas pela boate, mas adiantou muito pouco. As minhas dores foram piorando; minha prima foi se animando. A morte era questão de tempo.

Agüentei no osso equanto deu. Passava das quatro da manhã quando eu sugeri que fôssemos indo, ela teria que viajar hoje ainda com a família, podia se sentir cansada... mas errei o alvo. Ela sorriu, tranqüila:

- Que nada! Tenho gás para virar a noite aqui dentro e depois sair de viagem, numa boa!

Mais uma hora quicando numa pista de luzes piscantes e fumaças variadas. Quem mandou eu não ser sincera? Bem feito.

Cinco horas, abri o jogo: o papo (?) está bom, mas a carroagem tá virando abóbora. Mais cinco minutos, e eu só saio daqui de cadeira de rodas.

Fim de combate. Chegamos em casa ao clarear do dia de Natal. Tirei a farda e a sandália, deitei na cama e ainda quis iniciar uma oração, mas confesso que o sinal da cruz foi só até o nome do filho.

Capotei com a mão no peito, como uma guerreira esgotada, porém feliz.
E já prometi a mim mesma: da próxima vez, vou de coturno. Muito mais adequado a esse tipo de enfrentamento pesado.


19 dezembro 2002

NEM TODA CATARINA É SANTA

O quê?? Tá brincando! Santa Catarina é o paraíso perdido, ou melhor, achado. Da última vez em que estive lá, foi preciso um guindaste para me levar de volta ao Rio. O máximo a que eu chego é Torres, perto do fim do ano, que infelizmente não vai dar para atravessar a fronteira e me meter na ilha da magia desta vez. Desta vez!

11 SHOUT OUTS

Qual não foi minha surpresa ao me deparar, hoje, com onze recadinhos de vocês! Muito obrigada, muito "agradicida mêsss"... adoro receber vocês aqui, do contrário seríamos apenas eu e meu eco eu e meu eco eu e meu eco eu e meu eco... ad infinitum.

FAMÍLIA, Ê, FAMÍLIA, AH, FAMÍLIA!

Tem coisa mais gostosa no mundo?
Eu tenho o maior prazer em reservar minhas horas e meus dias somente para o convívio familiar. Quem tem família sempre por perto pode não dar tanta importância, mas a gente, que mora longe, acaba se deliciando ao som das vozes que sempre estiveram ali, desde sempre. Soa como canção de ninar.

Eles dizem, família é coisa complicada. É nada. Não há nada mais simples neste mundo do que essa bagunça generalizada, vozes altas, crianças estabanadas puxando a toalha da mesa, a vó não vai deixar o cigarro, Vó? Cuide da sua vida! Como cresceu! Pintou o cabelo, foi? Está mais magro, ou é impressão minha? Põe os óculos, mãe, não assina o cheque assim, sem ver nada, pode ser perigoso... falar nisso, e o Rio de Janeiro?

Ontem eu vi o olhar da minha prima numa foto minha. Pode haver generosidade mais espontânea do que essa? Ela nem sabe, nem pensou em permitir, nunca pensou no assunto. Mas está lá, para quem quiser ver. Há uma cumplicidade implícita nisto; há mais que parentesco, mais que parceria.

Família é isso, simples assim; é dividir até o olhar.

17 dezembro 2002

Oi, meus queridos e minhas queridas.

Peço que não reparem n'algum possível erro de digitação. São duas da manhã, e estou sonolentamente me encaminhando a meus aposentos; só vim aqui mesmo para não deixá-los mais um dia órfãos de minhas sandices pseudo-literárias.

Escrevo do Rio Grande do Sul, mais precisamente de São Léo, Minha Terra. Vim passar as festas de fim de ano com minha família, embora tenha deixado boa parte dela no Rio de Janeiro - mas, tudo bem, nada é perfeito mesmo. Minto: o céu azul do Rio Grande do Sul é perfeito.

Desculpem minha crise de paixonite declarada ao estado que me pariu - juro, é temporário, e não é fruto de bairrismo algum. Apenas coisa de gaúcha que se auto-exilou dos pampas, por livre e espontânea vontade, e agora deixa de ser fiel: tem um marido gaúcho e um amante carioca, cada qual com suas belezas e seus sotaques inconfundíveis, fazendo com que meu coração bata em samba e milonga ao mesmo tempo.

Ops!, espero que entendam a minha metáfora: meu marido é o meu doce Rio Grande - casório registrado na minha certidão e tudo -, com quem me envolvo amorosamente desde que me conheço por carne e osso duro de roer, como convém a toda gaúcha que preze as tradições pampeanas.

Meu amante é um carioca, digo, um estado chamado Rio de Janeiro, onde instalei minhas letras e músicas assim que fiz 20 anos - e de onde não pretendo sair tão cedo. Claro que dou minhas escapadelas, que ninguém é de ferro, e o maridão sulista acaba recebendo o ar da minha graça volta e meia.

E chego sem aviso prévio, que é para pegar o peão no pulo, se for o caso. Ai dele!

Mulher é bicho bem sonso, mesmo.
Daqui a uns dias eu volto, com a maior cara de paisagem, e dou "aquele abraço" no Redentor. Finjo que só fui ali na esquina comprar pão...
Ele acredita, e fica tudo bem.

Isso se vocês não derem com as teclas nos dentes, né???