08 março 2003

O QUE HÁ NO MEIO?


Nunca vou me esquecer da minha avó dizendo que não ficava bem, para uma mocinha, sentar-se de pernas abertas. Mesmo que eu estivesse usando calça ou bermuda, como quase sempre, ainda assim era “feio” me espalhar na poltrona daquele jeito; uma perna lá, outra cá.

Mas, por quê? Porque é feio, e pronto.

Para uma criança de seis anos, feio significa – literalmente – feio. Então eu comecei a procurar, afinal, o que havia de tão feio ali no meio. O problema estava ali, entre as pernas, era evidente. Entre as pernas das moças.

O meio era o buraco do xixi, coisa que todo mundo tinha, exceto os meninos. Sim, porque o buraco dos meninos era muito outro, percebia-se.

Coisa que me fez pensar foi, justamente, por que motivo os meninos podiam se sentar do modo como bem entendessem, se o “meio” deles era muito maior que o nosso. Não deveria ser o contrário, então?

Não. O nosso meio era mais feio, estava decidido. E se endireite nesse sofá.

Fomos crescendo, assim, escondendo os meios. Contudo, os meios deles estiveram sempre muito à vista, sem problemas. Andavam, livres, balançando os meios. Coçando!

E foi de tanto escondermos os meios, imagino, que resolvemos revolucionar de vez aquela política injusta: fomos para a televisão e balançamos também nossos meios, nossos seios, nossos tudo. E ninguém reclamou, ninguém achou nada de feio. Muito estranho.

Minha avó não está mais aqui para conferir, mas as mulheres da minha idade, e até mais novas, e até muito mais velhas, estão por aí, digamos, um pouco desacomodadas na poltrona. E ganham bem para isso!

Muito bem, estamos quites. Homens e mulheres têm o mesmo direito de expor seus próprios meios, está ótimo, maravilha. O problema não é mais esse.

A confusão, agora, alastrou-se para as extremidades - pobres mazelas da constituição humana, hoje tão esquecidas e discriminadas. A supervalorização dos meios, sobretudo os femininos, desencadeou uma baixa nos valores menos balançáveis. Em outras palavras, a vida anda difícil para aquelas que não têm meios tão perfeitos, ou, por outra, que não desejam se sentar lá muito relaxadas nas poltronas.

É direito de cada uma, convenhamos, dar o destino que melhor lhe convier a seus atributos, estejam eles localizados onde estiverem. E ninguém tem nada a ver com isso. Mas, seria ótimo se houvesse um certo equilíbrio na distribuição das peças.

Nossos meios estão mui bem representados, fazendo-nos dar de cara, queiramos ou não, com vários latifúndios glúteos espalhados pelas ruas, dia e noite. Muito me orgulha que as mulheres tenham, enfim, conseguido liberá-los. As extremidades, contudo, carecem de representação. Acho que embolamos o meio de campo.

Por exemplo: outro dia, um repórter entrevistava uma moça de meios bem dotados e perfeitos, quando disparou a pergunta:

- E agora, você vai fazer o quê? Pretende lançar um CD?

Eis o equívoco. Alguém deveria dizer àquele jornalista que, não, os meios não compõem, tampouco cantam. Aquela belíssima moça jamais esboçara idéia alguma de se tornar uma artista da música – até porque, diferente do que muitos imaginam, ninguém se torna artista do dia para a noite. Por mais que tenha “meios” para isso.

Enquanto ninguém vier a público esclarecer que as extremidades femininas continuam atuantes e trabalhadoras como nunca - apesar dos meios, muitas vezes, fingirem-se de extremos para ganhar em dobro -, a distorção dos valores persistirá. E teremos superexposição dos meios, enquanto os extremos seguirão marginalizados.

A situação é grave, mas reversível. Acredito que melhores tempos estejam a caminho.

Assim, não precisaremos chegar ao cúmulo de pedir que nossas netas sentem-se com as pernas cruzadas sobre a cabeça, a fim de esconder o intelecto – afinal, não fica bem para uma mocinha...



P.s.: Parabéns pelo dia da mulher.

06 março 2003

COISINHAS CAPILARES


Eu preciso de um boné para proteger os cabelos do sol. Mas nunca compro um boné, afinal, boné a gente sempre ganha por aí.
E cadê que eu ganho um boné?

Outra coisa urgente é escolher, afinal, qual vai ser a próxima cor das minhas madeixas. Mesmo sabendo que aquele xampu tonalizante dura só uns quinze dias, não consigo me decidir por nenhuma cor. Ando com mania de não definir as coisas por medo de elas se tornarem definitivas demais.

Tudo bem que nunca fui lá muito boa do juízo.
Mas, mesmo sabendo que sai COM ÁGUA? Está demais.

Tenho um “preto ébano” aqui em casa, que eu comprei na farmácia, mas nunca tive coragem de usar. Minha mãe me põe medo: “não vai ficar preto demais, hein?”, depois disfarça: “ah, tudo bem, experimenta... sai em quinze dias, mesmo!”.

Desde que ela me veio com essa, por telefone, antes ainda do Natal passado, fiquei com a pulga do ébano atrás da orelha. E não tingi.

Está bem, confesso que o meu maior problema nem é com o cabelo em si; é com a porta do banheiro. Jogo a cabeça para frente, para espalhar a tinta na parte de trás do cabelo. Depois, jogo a cabeleira para trás.

A porta do meu banheiro, antes branca, está cheia de riscos coloridos – que vão do “vermelho intenso” ao “terra”.

Meu irmão entra e pergunta:
- O que é isso na porta do banheiro??

Como eu sempre coloco a culpa – de tudo que acontece de ruim nesta casa - naqueles toquinhos de barba que ele cisma em polvilhar pela pia branca, respondo:
- Isso aí é da tua barba, oras!!!

- Tá maluca? Como é que a minha barba iria fazer esta meleca na porta do banheiro?

- Ah, isso eu não sei... Mas, se ela faz o que faz com a pia, criatividade é que não lhe falta.

Ele chegou a franzir a testa, mas acho que não colou...

05 março 2003

Bom dia, gente, são 7h da manhã de quarta-feira de cinzas. Como podem perceber, não caí na gandaia neste carnaval – do contrário, acordaria só no meio da tarde, e não a esta hora de dona-de-casa que vai lavar as calçadas enquanto o sol ainda não está forte.

Não, também não vou lavar as calçadas, até porque não as tenho.

Desculpem-me, mas hoje estou com uma preguiça homérica; não vou “cronicar” – sem sob encomenda, nem sob inspiração. Sorry.

Vou fazer um momento “Meu Querido Diário”.

Pois bem. Estou decidindo se vou à padaria comprar um pãozinho francês, que acordei com desejo. Cappuccino com pão francês e margarina é tudo, ainda mais numa quarta de cinzas sem ressaca.

Vai fazer mais um dia lindo e quente aqui no Rio de Janeiro. Através da janelona (porta?) de vidro que dá para a minha varanda, vejo daqui um rapaz, com a sua pastinha, todo de preto. Vai sofrer, coitado. Uma menina passa caminhando com seu boxer pela pracinha aqui em frente. Um galo canta. Essas coisas.

Aliás, o apartamento seria bem menor sem essa janelona de vidro.

Estive pensando em ir ao cinema nesse feriado que passou, mas eu passei o feriado pensando, de modo que não houve tempo para ir ao cinema. Estive pensando, também, em pensar menos.

Mas aí eu iria gastar muito com cinema, e não estou em condições.

O último filme a que assisti foi Cidade de Deus, e não gostei. Desculpem-me se ofendo. Sei que todo mundo gostou desse filme, mas eu achei péssimo. Muito tiro e sofrimento para pouco argumento e significado. Sim, chega a dar para rir de vez em quando. O que considerei um desaforo à parte.

Não vejo muito mérito nesses filmes que têm a pretensão de “mostrar a cruel realidade”. Por mais que eu tenha boa vontade, ainda me cheira a mercantilismo de urubu. Fazer arte da miséria alheia, e ganhar prêmios.

Outra coisa: o sofrimento REAL daquela criança que, obviamente, acreditava mesmo estar sendo ameaçada de levar bala, o choro, o desespero, o pânico nos olhos dela... tudo isso não me lembra, nem de longe, o significado que atribuo à palavra ARTE. Mas, cada um...

Sim, mas isso nada tem a ver com o Meu Querido Diário!

Voltando ao tópico. O garrafão de água (20 litros) acabou, precisamos comprar mais.

Outra coisa que acabou foi a minha paciência com esse diário aguado.
Fui!

03 março 2003

Da série Textos sob Encomenda...

Tema 1 – “Como não ficar minhocando”
Determinado por – Denise
Autora – Bíbi Da Pieve


MINHOQUICE TEM CURA

Minhocar consiste em pensar excessivamente sobre um problema qualquer, criando hipóteses, elaborando soluções, prevendo desfechos, fantasiando catástrofes - sem, efetivamente, chegar a lugar algum.

Isto posto, pode-se concluir que, afinal, todos nós minhocamos. É verdade. Contudo, a diferença entre o minhoqueiro esporádico e o minhoqueiro crônico é claríssima: o primeiro reflete sobre problemas. O segundo CRIA problemas a partir de qualquer coisa que lhe apareça à mente. Vamos nos ater ao primeiro grupo, portanto.

Se você tem uma boa criatividade, gosta de exercitá-la, não se incomoda em perder meia horinha aqui e ali somente imaginando coisas, é chegado a um draminha... calma, você ainda pode ser uma pessoa normal. A minhoquice só é detectada quando a pessoa passa a reger sua vida (ou parte dela) a partir de conceitos oriundos de uma lógica completamente “torta”, equivocada.

Em outras palavras, a minhoquice desregula a bússola, e o sujeito acaba tonto, absorto num mar de conclusões que nem sabe mais de onde tirou. Perigo.

O pior minhoqueiro é aquele que acha que sabe o que os outros estão pensando. Infelizmente, o tipo é mais comum do que se imagina.

Ele é tão bom em diálogos interiores, que você está dispensado de contribuir na conversa. Silenciosamente, a partir de um simples suspiro seu, ele pode concluir que você não está satisfeita com o casamento, que ele se esforça para ser um bom marido, mas não adianta, você não dá valor, imagina, ele até te trouxe para tomar chope em plena terça-feira, está certo, o chope está meio quente, mas que culpa ele tem, se ele xinga o garçom você reclama igual, nada está bom, assim não dá, acho que chegamos a uma situação limite, alguém aqui vai ter que tomar uma decisão... Depois de minhocar tudo isso, ele verbaliza só a última frase:

- Está tudo acabado entre nós!!! – e joga a aliança dentro do chope morno.

Contrariar um minhoqueiro assim é até possível, mas dá um trabalho do cão. Até convencê-lo de que você suspirou porque viu que a farmácia estava fechando justo quando você lembrou que precisava de absorvente... Há quem afirme ser mais rápido e fácil arrumar outro marido.

Portanto, se você é um minhoqueiro de cabeça cheia, o melhor a fazer é buscar tratamento. Sim, a minhoquice tem cura, e aqui veremos algumas dicas para resolver esse problema.

O primeiro passo é ocupar seus ricos miolos com algo que não permita que seu pensamento “ande em círculos”. Pratique o linear, o racional. Ora, vá jogar xadrez!

Segundo passo: confesse cada minhoquice sua a um parente ou amigo íntimo, e ACREDITE quando ele disser que determinada conclusão não tem o menor cabimento. Um mero observador costuma detectar com sucesso quando há minhoquice naquele angu.

Terceiro passo: deixe AGORA de desenvolver qualquer pensamento com base no que você “intui” que outra pessoa esteja pensando. Cheque a hipótese; perguntar não ofende, e evita divórcios desnecessários.

Quarto passo: esqueça o “se”. Se eu fizesse, se eu comprasse, se eu deixasse... pensando, morreu um burro. Enfie na sua cachola que há um universo infinito de possibilidades; é mais fácil você derreter a sua cabeça do que esgotar todas as hipóteses da vida, ainda que em teoria.

Quinto passo: não traga situações do futuro para o seu presente. Antecipá-lo é, literalmente, envelhecer antes do tempo. E dá rugas.

Sexto e último passo: finalmente, quando aquela amiga lhe vier convidar para uma apetitosa sessão de minhoquice a duas, decline educadamente. Diga-lhe que não transa mais esse tipo de coisa, que passou a fase da farra cerebral. Agora você anda de cabeça limpa, e vive um dia de cada vez.

Ela vai estranhar, insistir, e talvez até chamá-la de careta. Não ceda. Seja forte. Diga não à minhoquice, compre essa idéia.

Se preciso, faça uma camiseta: “MINHOQUICE: TÔ FORA!”

E use sempre camisinha, para evitar a minhoquice do dia seguinte...

01 março 2003

VOCÊS NÃO ESTÃO DANDO CONTA DE MIM

Estou a mil! Ando escrevendo mais rápido que a capacidade que vocês têm de me ler, hohoho... como diria minha mãe, “te mete!”.
Manhã de sábado de carnaval ensolarada no Rio de Janeiro, eu bebo cappuccino dietético quente para ajudar no clima. É verão nos meus gorgomilos. (Gostaram de “gorgomilos”?).

Não sei o que fazer de almoço, por isso acho que vou comer peixe na churrascaria. Lá tem peixe, sim. Ou comerei dois ovos mexidos, mesmo. Mãe, favor fingir que não leu isso, ok?

Uma coisa confortável de se morar longe dos pais é poder comer ovos mexidos ou um pacote de Cebolitos no almoço, sem ter que ouvir o nome completo uma oitava acima do que seria suportável aos ouvidos.

Meu pai, por exemplo, foi capaz de passar três anos me atormentando a vida porque eu não comia carne – leu em algum caderno de saúde do jornal dominical que me faltaria vitamina B12, e não parava de insistir em que, cedo ou tarde, eu estaria anêmica.

Cansada de tanta ameaça, fui ao médico e pedi: “Quero fazer todos os exames possíveis e imagináveis para saber se estou anêmica, ou melhor, para mostrar a meu pai que não estou. É que não como carne”.

Enfrentei a picada, e passei no vestibular do sangue. Voltei ao médico, que examinou os resultados e ainda me disse: “parabéns, você tem uma dieta invejável, e está tudo bem por aqui. Um dia eu chego lá!”.

Mostrei os exames ao meu pai, e contei do médico. Ele retrucou – “esse médico não presta. Deve faltar B12 em algum canto aí, ele é que não procurou direito”.

Está certo. Se um pai diz que está faltando B12, é porque está faltando B12.

Voltei para casa, certa de que jamais convenceria aquele jovem senhor ariano de que minha saúde andava bem, apesar de eu não comer carne.

Menos de um ano depois, meu papai descobriu-se diabético, e adotou hábitos alimentares mais saudáveis – segundo ele mesmo anuncia, orgulhoso.

- Parei de comer carne vermelha -, ele me afirma, na maior cara-de-pau.

- O QUÊ??? Mas e a B12???

- Ora, a B12 está presente também noutros alimentos, não só na carne!

E começou a me “explicar”, detalhadamente, como eu deveria fazer para não ficar anêmica sem comer carne vermelha.

É pena que ele ainda não tenha descoberto os benefícios do Cebolitos.
COMO tem sido confortável sair pela cidade, agora que nossa governadora cor-de-rosinha tratou de despachar o único bandido do Rio de Janeiro para o interior de São Paulo. Sabe, sinto-me tão segura!

Na MADRUGADA de hoje, por exemplo, vários homens metralharam um ônibus da 1001 que se dirigia à cidade de São Paulo. Eu mesma já tomei esse ônibus algumas vezes; a viagem sempre foi muito confortável, com lanchinho e tudo. Só não havia balas.
Será que, hoje em dia, a passagem está mais cara por conta do chumbo?

Neste CARNAVAL, vou ficar por aqui mesmo, alimentando minh’alma com algum livro velho e tomando porres de leite gelado com Nescafé (sim, eu gosto disso, e daí?).

Quando muito, darei uma voltinha na praia, para não dizer que não falei das ondas. E só.

Não irei ao sambódromo, não saracotearei ao som dos tamborins n’algum bloco carnavalesco, desses que arrastam multidões suadas e embriagadas pelas avenidas da cidade, nem tampouco me renderei à modesta marchinha que, por certo, reinará absoluta nos quiosques do Recreio dos Bandeirantes. Não.

Provavelmente, o máximo da minha folia será uma corridinha no calçadão - providência muito bem cabida em dias de fuga, no caso, fuga das próprias marchinhas, dos quiosques e de banhistas exaltados e desafinados gritando mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero, sabe-se lá com quais intenções.

A meteorologia promete tempo bom, e eu prometo não atrapalhar a festa de ninguém, desde que não venham mexer comigo, que não estou boa. Tenho pensado em voltar a praticar artes marciais, atividade esta que me acompanhou pela infância e adolescência, e da qual tenho sinceras saudades há muito.

Não que a minha adolescência seja uma coisa assim tão remota, bem entendido fique.

Caso é que, munida de meus impulsos marcianos, digo, marciais, ainda mais em tempos de violência urbana tão intensa, confesso que ando mesmo investindo contra meu próprio travesseiro, no intuito de me preparar para eventual combate, nunca se sabe. Penduro o penoso pelo pescoço, digo, por uma ponta, ato ao mais alto local das grades de minha janela, de modo que o inimigo fica ameaçadoramente parado diante de mim, encostado na parede, mais ou menos à altura da minha cabeça.

A partir daí, começo a esmurrar o canalha, digo, o meu travesseiro, e não paro enquanto o infeliz não pedir água. Está certo, ele não pede água. Mas é como se fosse.

Meu treino não tem sido muito intenso, posto que recém estou no início. Coisa de duas horinhas, e me dou por satisfeita. Tende a melhorar.

Portanto, estou avisando. Meu plano é não boicotar a folia de ninguém. Vou dar uma corridinha na praia. Na minha.

Contudo, o primeiro safado que vier com “QUE SAÚÚÚDE!” vai ficar sem a sua.


p.s.: Denise, decida logo o tema, que assim eu tenho o que fazer no carnaval!

27 fevereiro 2003

COMPRIDAS

Hoje estou assim, de compridas.

Deve ser porque meu cabelo acordou de bom humor, leve e sedoso e organizado, que também eu estou faceira, cheia de viço, prevendo sorte grande.
Eu disse viço? Foi mau, nem sei direito o que é isso.

Afinal, onde já se viço?

Foi-se o viço do cacho castanho escuro que desenha no travesseiro, que se deita no ombro esquerdo, que amanhece amassado e duro.

Viu-se no espelho o cacho inteiro; como se viu caído, achou-se muito maduro.

Serviu-se de escova enorme, armou-se um primeiro penteado, mas que não servia, não surtia brilho, não havia viço, que agonia!

Serviu-se então de uns lenços, uns rolos e uns grampos, que escondia, que enrolava, que prendia. Quem olhasse de longe via até uma alegria, mas quem olhasse de perto via certo que sofria.

Viu-se um cacho de cabelo seco, cabisbaixo. Servia-se de tudo que aparecia, mas nada lhe rendia viço, e quase desistia.

De súbito, achou uma graça qualquer naquela batalha estética patética, e ouviu-se um riso relaxado e franco: era o próprio cacho que sorria, debochando.

E ali surgiu o viço - justamente no timbre do riso, no gesto impreciso da boca do cacho.
Era só isso.

26 fevereiro 2003

DEZ MIL

Estamos com quase 10.000 visitas.
Acho o número tão bonito, que proponho: o visitante que chegar aqui e registrar dez mil visitas pode - e deve - sugerir um tema, qualquer tema. Serei obrigada a escrever uma crônica sobre esse tema.
Que tal?
Beijos, até as 10 mil visitas !!
(Tem que ser honesto, hein?)

25 fevereiro 2003

CURTAS

- Hoje estou assim. De curtas.

- Filosofia de coturnos gaudérios: não tamanco quem peleja, tchê. (Inspirado no último texto, sobre os tamancos).

- O Rio de Janeiro teve uma “segunda sem lei”, como anunciava o jornal O Globo de ontem. Que bom se fosse só a segunda.

- Sentou-se ao meu lado no ônibus, ontem, um cara com a maior cara de Evandro. Calça jeans, pastinha, camisa de botão, óculos de sol. Bronzeado, cabelo curtinho. Trinta e poucos.

- Seria um perfeito Edu, mas, como era um pouco malandro demais, era Evandro. Ou devia ser.

- Evandro fez uma ligação. Evandro visivelmente era um desses apaixonados carentes, mas tratava a moça com uma formalidade broxante, usando “ok” e “correto” quando queria concordar com algo.

- Como é que eu sei que Evandro era apaixonado carente? Ora, porque ele pediu, quase implorou que a moça ligasse para o escritório dele naquela manhã, a fim de “combinarmos algo para logo mais, ok, correto, ok”.

- Homens dificilmente sabem o que dizer. E NUNCA sabem o que NÃO dizer.

- Como não querem passar por inseguros, preenchem frases vazias com “ok, correto e ok”.

- Estou sendo injusta. Cabe definir a faixa etária: apenas homens com mais de 30 e menos de 50 são assim.

- Parece que eles têm vergonha do jogo da conquista e da sedução – a não ser, é claro, que sejam casados. Os casados são sem-vergonha, mesmo.

- Os homens com menos de 30 são deliciosamente adolescentes.

- Os homens com mais de 50 são deliciosamente adolescentes.

- Essa fase aí do meio é que é problemática, porque eles acham que são “gente grande”.

23 fevereiro 2003

Meu (prometido) episódio com os tamancos


Eu sempre fui uma menina sem frescuras, sem papas na língua e sem tamancos. No tempo em que morávamos na casa emprestada da Vó Manoela, eu vestia camiseta do Grêmio e chinelos Havaiana, e ia andar de bicicleta com meu pai e meu irmão. Íamos até a pracinha, onde eu andava em círculos e sonhava em linha reta.

Cresci assim, desprovida de vestidinho e salto, mas sem jamais soltar as tiras.

Foi no Natal passado, e somente no Natal passado, que minha madrinha Maristela, aquariana e amalucada (com perdão do pleonasmo), deu-me de presente o meu primeiro par de tamancos. Belíssimo. Altíssimo. Chiquérrimo. Praticamente um móvel a serviço de meus pés.

Tão feliz e afoita fiquei, que já calcei o presente ali mesmo - deixando meus habituais tênis humilhados, num canto, à espera de pés menos afortunados que os meus. E fui ao salão de beleza mais próximo, a fim de lavar, pintar e polir meus dedinhos outrora enfurnados na minha mais absoluta falta de tamancos.

- Olá, quero fazer os pés! – eu disse à moça do salão, enquanto girava suavemente um dos tornozelos, como quem diz – sabe como é, estou de tamancos...

Parece que ela entendeu o recado. Meus pés ficaram viçosos e brilhantes como nunca.

Agradeci e saí rebolando; fui ao supermercado estrear meu novo “look” – como diria alguém do mundo “fashion”. E era assim que eu estava me sentindo: “fashion”.

Já nos primeiros 100m de calçada, contudo, notei que alguma coisa não ia tão bem naquele Natal de salto alto. Andar num par de tamancos imensos requer certas habilidades que as Havaianas nunca me exigiram, e, pior ainda: havia óleo na pista. Muito óleo.

A moça do salão, evidentemente mal intencionada, tinha empaçocado meus pés com um ordinário creme hidratante que, misturado ao suor que escorria do meu nervosismo óbvio, àquelas alturas, transformava-se numa ameaça à minha posição vertical. A cada passo dado, eu ia empinando o corpo, como quem tem pressa, e iniciava uma luta inútil em direção contrária – inclinando-me para trás, no afã de travar aquele desequilíbrio que, fatalmente, me levaria à capotagem.

Quanto mais brigava contra o óleo na pista, mais deslizava tamanco abaixo. O nariz no chão era questão de minutos.

Cheguei ao supermercado em tempo recorde, e me agarrei ao primeiro carrinho que havia. Foi minha perdição. O amigo-da-onça, ao invés de me brecar, dava-me mais velocidade ainda.

Apavorada, fui troteando como podia. Se soltasse o carrinho, àquela velocidade, certamente andaria uns dois ou três corredores lambendo o chão. Segurei-me ainda mais forte nele, e fosse lá o que Deus quisesse.

Nem preciso dizer que não comprei uma lata de milho. Naquela pressa, era impossível.

Quando cheguei à prateleira dos congelados, esbaforida e desiludida, topei ainda com maior falta de sorte: uma senhora desastrada deixara cair uma lasanha à bolonhesa bem na minha frente, e foi o fim do meu cooper. Meti o pé naquele tijolo gelado, de modo que não vi mais nada.

Devo ter voado uns metros. Quando despertei daquele pesadelo, enfim eu me achava absolutamente parada; literalmente abraçada, pernas e braços, num cabide giratório recheado de – pasmem! – Havaianas.

Minha sorte, se é que se pode assim dizer, foi o providencial defeito do cabide: ele estava emperrado, não girava. Caso estivesse funcionando, provavelmente eu estaria, até agora, naquela órbita de chinelos.

Mas, Deus é pai. Depois de uns minutos agarrada àquelas que, comprovadamente, não soltam as tiras, caí de bunda no chão. Quanto prazer eu sentia em estar esborrachada naquele corredor, imóvel, livre daquela sensação de “Velocidade Máxima” que me afligia desde o salão de beleza. Quanto alívio.

Refeita do susto, levantei-me, não sem antes experimentar um belo par de Havaianas – que já saí calçando, mui agradecida e tranqüila. Nada como um produto de confiança.

Chegando em casa, pendurei os tamancos. Eles estão mais seguros na parede do meu quarto.

E eu, mais segura bem longe deles.

22 fevereiro 2003

Tem dias em que acordo com aquele gás: zero. Preguiça até do fio dental, sabe como é? Hoje foi assim.

Um sábado lento, tenebroso. Ensolarado lá fora. Banhistas se debatendo no engarrafamento rumo à orla – a “boa vida” do fim de semana. Tumulto e mais tumulto. Tô fora.

Aqui dentro de casa, contrariando a preguiça, rolou uma faxina daquelas. Hoje eu ouvi muito rock’n roll, que também acordei com preguiça daquele pessoalzinho da (gravadora) Trama - que virou prato-feito das rádios MPB. Tem dó!

Acordei e já virei um copão de Nescau, energia que dá gosto, para ver se deixava de me arrastar e passava a viver um dia normal, tipo pessoa-humana mesmo. Necas. Meu estômago embrulhou com aquele achocolatado triplo; senti que a peleja estava só começando.

O sol acenou lá fora, eu rebati com um bocejo imenso. Não estou pra brinquedo, não sei se notas.

Caí na cama de novo, dessa vez com a cabeça para o lado dos pés e os pés para o lado da cabeça. A posição invertida muito me agradou – dormi mais um tanto.

Acordei de novo, crente que estava em Garibaldi, num hotel onde costumávamos nos hospedar quando íamos tocar no Bar do Joe (que saudade!). Hotel Pieta. Mas o friozinho que eu sentia não era da serra gaúcha; era do ar condicionado, mesmo. Lá fora, uns 40 graus me lembravam do verão carioca. “Caracas, ninguém merece”.

Voltei a cochilar, e do cochilo fui ao ronco mais profundo, e do ronco a Garibaldi. Outra vez, do verão carioca à serra gaúcha em menos de dez minutos. É por essas e outras que eu sou tão boa de cama...

Quando o “carro das mantas” passou aqui em frente, tornei a encarar a realidade barulhenta e infernal que me aguardava.

Contra o barulho, só mais barulho: Fluminense FM.

Vassoura, pano, luvas, água sanitária, Pinho, Sapólio, escova, esfregão... enfim, um sábado realmente rock’n roll. Quase trash metal, eu diria.

Só parei quando o piso brilhava de modo a ofuscar o sol, que já se punha lá fora, envergonhado. Optimum.

Banho tomado, tracei um caldo de feijão para repor as energias. Quer mais?
Me deixa, que agora vou ver o Zé Mayer na tevê.

Porque hoje é sábado.

21 fevereiro 2003

FIM DA GREVE

Buenas!

Minha polêmica greve era somente para confirmar o óbvio: vocês não me dão o mínimo apoio! Recebi ONZE protestos contra o meu próprio protesto, e, incrível, NINGUÉM me perguntou onde estava minha insatisfação, quais eram minhas reivindicações, minhas exigências...

Vocês não têm vergonha?

Eu nem deveria ter terminado a greve. Prometi a mim mesma que só voltaria a escrever quando alguém me perguntasse o que eu estava querendo. Nada. Ninguém deu pelota para os meus sentimentos, ninguém quis saber. Só queriam protestar.

Estou carente, oras! Que mulher não fica carente uma vez ou outra, ainda que seja moderníssima, independente, forte, segura, confiante, invulnerável, antiderrapante, firme, convicta, sagitariana e, talvez, um pouco mentirosa?

Quis um afago virtual, mas, em lugar dele, o que recebo? Pedras.

Está certo. Quem mandou eu inventar carência numa hora dessas? Quem mandou?

Viram como está meu texto hoje? Cheio de interrogações, todo inseguro. Viram? Culpa de vocês. Sou contra isso, sou contra. Não gosto desse tipo de texto que dialoga consigo próprio, mais parecendo que o leitor não está ali para formular suas próprias perguntas.

Não sou muito de interrogações, e ponto final.

Mas o que eu posso fazer? Vocês me obrigam! Onde estão vocês, quando eu mais preciso? Quando eu questiono a nossa relação, analisando tudo, desde o dia em que nos conhecemos até o momento presente, onde estão vocês?

Ausentes.

Assim fica difícil. Queria que vocês se olhassem no espelho agora, para verem exatamente o que eu estou vendo: esse ar casual, mera ruguinha no meio da testa, pensamento meia-boca - estou aqui, mas não é muito comigo...

É nisso que eu penso, quando ponho a cabeça no travesseiro, e me pergunto se não poderia ser melhor. É sobre essa ruga descompromissada que eu reflito, diante da telinha, enquanto vejo o furdunço que uma paixão “made in Manoel Carlos” pode causar. Nos outros.

E o nosso furdunço, cadê? (O mouse comeu).

Não sei se poderemos levar adiante deste modo. Sinceramente? Não sei.

(Baixo a cabeça, faço círculos com o dedo numa poeirinha que caiu sobre o mouse pad, suspiro... longo silêncio...).

Sinais do tempo, gente. Poeira no mouse pad.

(Coço o nariz, fungo duas ou três vezes para deixá-los na dúvida entre a alergia ao pó ou um choro compulsivo que pode começar de uma hora para outra...).

Hein? Como?

(Faço cara de desentendida enquanto vocês começam a dizer o quanto me amam, como eu sou maravilhosa, e outras quinquilharias verbais do tipo.)

Ah. Sério?

(Olho no relógio, entediada).

Ok, ok. Então eu vou dar mais uma chance à relação.

(Vocês se sentem aliviados, como se recém tivessem escapado da guilhotina. Vocês suam horrores. Vocês tremem, não sabem onde colocar as mãos).

(Eu, superior, publico tudo isso).

(E vocês?).

18 fevereiro 2003

14 fevereiro 2003

Mas o que há com o meu BLOG?
É só comigo, ou só está visível até a metade do segundo texto?
Ai, não sei, hoje acordei com uma disposição incomum para a vida, para as pessoas, para as flores, para os céus, para os abdominais, para os agachamentos, para os glúteos, para os bíceps, tríceps, e até para a Lívia, da novela das 7h! Não é incrível?

Estou vestida com o mesmo short vermelho de sempre, aquele que ganhei de minha mãe na última visita, mas me sinto absolutamente em trajes festivos. É como se eu usasse uma saia rodada, colorida, florida, fresca e repolhuda ao mesmo tempo, e um top de cetim azul celeste. Já pensou, cetim?

Faz o mesmo calor repugnante das últimas semanas nesta cidade maravilhosa, mas, não sei, a brisa sopra de um jeito que me faz lembrar a infância nos verdes pampas de Encruzilhada do Sul, onde aprendi a cavalgar em nossa égua Pitanga, muito antes do pocotó fazer tanto fuzuê nessas rádios crudelíssimas que insistem em... mas vamos mudar de assunto, ou acabo esquecendo o bom humor.

Valha-me Deus, há muito tempo eu não começava o dia tão otimista! Deve ter sido por conta dos meus sonhos m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s da noite passada, mas esses eu não conto nem sob tortura... hohoho, tenho direito a meus mistérios, não tenho?

E vocês, que mistérios andam escondendo por aí? “Que mistérios trago no peito...”, dizia a canção “Meu Pago”, que eu cantava com meu tio nos tempos da MPG. Quase participei de um festival, mas ainda era muito novinha.

Há sempre qualquer coisa escondida aí dentro de você, amigo, que o faz sorrir de cantinho quando alguém dá “a deixa”. Não vá negar, que é feio.

A deixa é a senha – aquela palavrinha mágica, que é mágica só para a gente. Um sinalzinho bobo; alguém come uma letra na palavra, e você se lembra daquela namorada de infância que falava errado... pronto, lá vem o mistério. Você desvia o olhar da conversa, perde o tom da canção, vira a cabeça, faz um biquinho desentendido, mas não controla o sorriso bobo. Nem que dure só um segundo.

Na televisão, você vê uma roupa, você ouve uma frase, você sente um sotaque carregado lá daquela cidade onde esteve há tanto tempo, e nunca mais voltou. É a deixa. Ninguém vai compartilhar da sua comoção relâmpago: o mistério é só seu, pode suspirar à vontade.

Alguns mistérios desta vida eu já desfiz; contei à melhor amiga, deixei escapar nos altos papos da madrugada ou nos versos de uma canção. Fraquezas da condição humana, talvez. Você jura nunca entregar o ouro, mas, quando vê, dá com a língua nos dentes. No fundo, estava louco para desabafar e ouvir algo a respeito do mistério – só para cristalizá-lo, dar a ele um “certificado de existência”.

Outros mistérios ainda se encontram lá no fundo da minha alma, onde a razão não dá pé. Intactos.

Mistérios desacreditados, abandonados, difamados pela consciência e humilhados pela autocensura. Mistérios depravados, proibidos, encarcerados lá no sub-sub-subconsciente, que é para não haver perigo de fuga.

Mistérios não vão às compras, não andam de ônibus, não saem de viagem. Quando ameaçamos sair, eles ficam escondidos atrás da orelha. Como a pulga.

A maioria se nega a ir à terapia, inclusive.

Os mistérios são o nosso subtexto, as nossas entrelinhas. Aquilo que não se vê e não se ouve, mas vem à tona nas horas mais impróprias, involuntariamente. É só dar a deixa.

Ou vai dizer que você não tem algum?

13 fevereiro 2003

ECO-CHATA É A MÃE!

Preciso comentar isto: ontem, enquanto eu tomava sol na pacata (em dia de semana) praia do Recreio, um casal bem apresentado relaxava a poucos metros de mim. Ela estava grávida, falava alto num celular chique; ele tinha pose de burguês.

Ambos bebiam água-de-coco, refestelados em suas cadeiras, enquanto o cachorrinho brincava ali em volta – apesar das inúmeras placas de “não traga seu cachorro para a praia”.

Já achei um insulto. Muito bonitinho, o animal. Fofo, até. Mas, ainda um cachorro.

Quando resolveram levantar para ir embora, homem e mulher deixaram para trás seus cocos vazios, canudos coloridos e uma garrafa plástica de água mineral. Tudo na areia pública; ali mesmo, onde também o cachorrinho pode ter deixado algum sinal nada higiênico de sua presença.

O pior é que eu olhei em volta, e havia inúmeras cenas parecidas com aquela: gente despreocupada - ou, pior, MAL EDUCADA - deixando rastros de uma ignorância injustificável a essa altura do campeonato. Francamente!

Eu estou doida, ou não custa nada andar uns metros até a lixeira mais próxima?

Será que eles pensam que o lixo “some” dali, como num passe de mágica, assim que a noite cai? Será mesmo que, nem diante da imensidão do mar, manifestação explícita da natureza, é possível notar que meio-ambiente e resíduos plásticos não formam um belo par? Impossível não perceber o disparate.

Não se trata de eco-chatice; é questão de simples bom senso e coerência. Sim, porque aquela mulher grávida vai ter um filho, que vai crescer e ir para a escola, onde aprenderá as primeiras noções de cidadania e respeito ao ambiente. Chegará em casa, um dia, com um lindo trabalhinho: a figura de uma árvore cheia de folhas saudáveis, e uma placa ao lado, na qual se lerá - “jogue o lixo no lixo”.

Os pais vão sorrir, orgulhosos, e não haverá ninguém para lembrá-los que, em pleno momento de gestação do pimpolho, ambos viviam cometendo crimes contra a natureza.

Minto: infelizmente, a própria natureza vai se encarregar de lembrá-los.

12 fevereiro 2003

ATRASADA

Em tempo: o arquivo cujo link eu recomendo, ali embaixo, é o que está no pé da página - "Mico Jornalístico", aquele conhecido, da Lilian Wite Fibe...
VIDAS ALTERNATIVAS – parte I


Às vezes eu desejo me transformar numa mulher de 1,58m, 46kg, cabelos pretos bem curtinhos – um penteado bagunçado, com gel – pele clarinha, canceriana com ascendente em aquário e a lua em peixes. 29 anos. Morando num apartamento de dois quartos na Alameda Lorena, Jardins, São Paulo, vaga na garagem preenchida por um Gol verde 1.8, ano 2001.

Eu seria uma publicitária que faz ioga às 6h da manhã, depois come meio papaia e iogurte com granola. Jamais tomaria banho; tomaria duchas, demoradas e relaxantes, usando sabonete Dove e qualquer xampu – afinal, meu cabelo é tão curtinho que não carece dessas frescuras. Duchas!

Teria um tapete na minha sala acarpetada com móveis modernos, mesa baixinha em frente ao sofá vermelho, mas um vermelho bem fechado. Ali, meus cinco amigos e eu beliscaríamos uns queijos e torradinhas com patê, e bebericaríamos vinho tinto.

Duas ou três tacinhas e eu já estaria sonolenta, pronta para mais uma noite confortável no meu quarto de paredes cor-de-pêssego.

No dia seguinte, um sábado ensolarado de março, eu faria jogging no Ibirapuera, com uma calça de moletom preta e uma blusa azul de lycra, enquanto ouviria “Where the streets have no name”, do U2, no walkman, sem jamais pensar que o timbre ou o delay da guitarra do The Edge poderiam entrar na introdução de alguma música em lá menor que eu comporia para o próximo disco.

Em vez disso, eu apenas ouviria, e ainda pensaria “uau! Estou correndo bem no ritmo da canção!”. É claro que não estaria.

Talvez essa fosse mesmo uma boa alternativa: ter uma vida atribulada em São Paulo, e correr no parque para relaxar - ou seja, correr para parar.

Acho que meu nome seria Cíntia Lemos, ou melhor, Ana Cíntia Lemos – para conjugar o verbo do sobrenome na(s) pessoa(s) certa(s).


Pensando bem, melhor continuar sendo eu mesma, que esse meu humor cafajeste jamais me deixaria virar uma pessoa séria, decente.

E, outra: eu não sou do tipo que toma ducha, muito menos que beberica!!!

11 fevereiro 2003

BiBlog recomenda - chovendo no molhado, mas tudo bem:
Você NÃO PODE, em hipótese alguma, deixar de baixar este arquivo aqui.
src="http://www2.humortadela.ig.com.br/site7/soft/thumbs/soft_f_vid_0126.jpg">
Assombra-me o tempo, que me escapa do couro cabeludo, fino e branco, e arranco. Assombra-me a minha própria incompetência de lidar com essas coisas que andam; coisas que não me perguntam, não pedem, sequer avisam: apenas andam.

Há movimentos que só percebemos porque o cabelo daqui voa com algum vento de lá, nos fazendo coadjuvantes de uma história inevitável qualquer. Assombra-me, também, a impotente relação que temos com as coisas que não pedem passagem: apenas passam.

E ninguém avisa, ninguém protesta, ninguém adverte, ninguém, palavra nenhuma, nada.

Engraçada essa fobia infinita que me acende um alarme, que ainda me presto a idéias como assombração, não durmo, e ainda divulgo. Engraçado isso do susto que a cronologia às vezes nos prega, se o passar dos anos não se dá como em pulos, mas de forma absolutamente homeopática, comedida - como em dias, oras!

Parece que não importa, porque é naturalmente, que vamos indo, frouxos, no embalo...
e pronto.

Mas não é bem assim.

A pista é meio torta, porque é feita pela gente, às vezes eu vou indo, solta, entalo...
e tombo.