16 dezembro 2004

Meio cafona

É sempre assim. Chega essa época do ano, a cidade fica perua. Luzes, laços, fitas, bolinhas, arranjos – tudo junto, gritando. Reparou, não?

Até tolero esses supershoppings com mania de grandeza; ali a cafonice brilha e ofusca, mas é por uma boa causa: o consumismo desenfreado, claro. O que não pode é ser “meio” cafona. Isso é pra matar. Aqueles estabelecimentos de médio porte, que já não vão lá muito bem das pernas, e resolvem improvisar uma luzinha aqui, um brilhozinho ali – tipo da coisa que, além de não fazer efeito, faz defeito.

Quando chega a noite, o prédio some, e o que se vê é aquela precariedade natalina; mistura de muita boa vontade com pouca grana, você sabe no que dá.

Eu aqui não providenciei um sino sequer. Mas, a julgar pelo texto, vê-se que estou ficando com inveja.
(Pausa para reflexão).

Comprar umas bolas ali no Carrefour, e já volto.

***

O motivo da cobradora

A cobradora do ônibus - loura mel, penteado equivocado, sobrancelha grossa, unha lascada – ria fora de hora, e ria solto. Quanto é? Ela ria. Quer 20 centavos? Ela ria de novo. Passa no Barrashopping? Ela ria e confirmava, passava.

Sentei dois bancos atrás e fiquei observando, curiosíssima. Chegava a lhe escorrer um doce mistério qualquer pelo meio dos dentes; e sorria, a danada, como se ostentasse uma piscadela cúmplice a si mesma.

Não demora cinco quadras, entra no ônibus um negão de quase dois metros. Afoito e visivelmente alegre, dá dois pulinhos na direção da cobradora e tasca aquele beijo babado de novela; deixa a mulher sufocada e o povo todo besta, olhando. Salta no próximo ponto, a meio quarteirão dali, como se nada tivesse acontecido. Pela porta da frente.

Agora ela ria mais ainda, e o motivo estava bem revelado. Pois o negão trajava bermudas.

15 dezembro 2004

De volta

Minha pretensão e eu esperamos que você não tenha desistido de visitar este blog, mesmo depois de tantos dias de ausência de post.

Isto post, quero agradecer a todos que me mandaram e-mails, recadinhos no Orkut, cartões virtuais, e que deixaram mensagens nas secretárias eletrônicas me felicitando pelo aniversário. Obrigada, obrigada!

Um amigo me telefonou um dia depois:

- E aí? Como foi de aniversário?
- Foi tudo tranqüilo...
- Ah, coisa bem boa. Envelheceu tranqüilamente, não foi?

E tem outro jeito?

***

Reflexão de fim de ano


Esse ano eu adquiri uma hérnia de disco, tive alguns resfriados fortes, rompi os ligamentos do pé direito – além de algumas pequenas doenças paralelas. Nunca visitei tanto médico nesta minha vidinha ordinária.

Portanto, gostaria de sugerir à indústria farmacêutica que criasse uma espécie de colírio diet ou light. Não pra mim, of course, mas para pingar nos olhos gulosos dos que nos cercam. Ia vender horrores. Já posso imaginar, no programa do Leão Lobo, a seguinte chamada:

Acabe de vez com a obesidade ocular do seu vizinho. Colírio diet nele!

Um sucesso, você não acha?

***

Menos uma, menos duas...


Eu falo mal de dezembro, mas sou chegada a um planinho de fim de ano. Anoto tudo num caderno - vou praticar exercícios físicos, boas ações etc. Nunca me ocorrera antes, mas, olha, pode dar certo: que tal virar uma personal-atravessadora-de-velhinhas pelas ruas da cidade?

Assim eu mato dois coelhos. E algumas velhinhas, claro (não sei atravessar a rua nem sozinha, que dirá conduzir alguém).

***

É verdade, tenho fama de não saber atravessar rua. Como meu irmão me dava a mão quando eu era pequena, acabei concluindo que aquilo de olhar para os lados era função dele, não minha. Depois que ele largou a minha mão, um anjo deve ter assumido o cargo. Só pode. Ou eu não estaria mais aqui.

Frase da minha mãe, semanas atrás, ao notar minha cara de desesperada diante dos carros numa avenida movimentada:

- Cruzes! Tu AINDA não aprendeu???

Taí mais um plano para 2005. Nunca é tarde.

20 novembro 2004

Crença

Acredito no amor
Porque já houve noites
Em que me suspirei inteira
E me acordei metade.

Acredito na vida
No sonho, no sexo e na arte.

Só não acredito em deus
Porque aí já seria muita coincidência.

***

Lago

Afoga logo um termo
Pra ver se vira verso
Submerso azulejo
Haja metro,
Haja metro.

Afunda logo um beijo
Pra ver se vira sexo
Submerso desejo
Haja metro,
Haja metro.

Nunca dá pé
o amor raso.

Afoga, logo.
Afunda, lago.

16 novembro 2004

Engorda, logo!

Passava da meia-noite. Eu traçava, sem culpa nenhuma, um sanduíche de salmão defumado com cream cheese no ciabatta. Louca de fome que estava, comia com necessidade de mendigo e prazer de rei. Uma loucura.

Até que a garçonete simpática não se agüenta, e se aproxima:

- Hehe... tem dia que bate aquela fominha, e a gente tem mesmo é que comer alguma coisa que engorda, né? Senão nem tem graça, né? Hehe. Se vai comer na madrugada, pra quê comer light? Tem que engordar, mesmo! Engorda, logo!

Sei. E você tem noção do quanto eu malhei hoje? Sabe o que eu almocei? Sabe o que eu jantei? Tem aí as minhas medidas? Sabe o meu IMC de cor? Conversou com o meu médico? Vasculhou a minha genética? Sabe onde eu acumulo gordura, onde não acumulo? Tem noção de quantas calorias tem nesse prato? Sabe se eu vou a pé de Ipanema ao Recreio, depois que terminar essa orgia gastronômica? Sabe? Sabe?

Não disse nada disso a ela, claro. Apenas consenti e engordei, conforme o sugerido.

Volto lá, não.

***

"Peço a todos com licença
Vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço"

[Luiz Tatit]

***

Tempo/Vida
[Viviane Mosé]

“Eu acho que a vida anda passando a mão em mim
Eu acho que a vida anda passando a mão em mim
Eu acho que a vida anda passando
Acho que a vida anda passando
Acho que a vida anda
A vida anda em mim
A vida anda
Acho que há vida em mim
Há vida em mim
Anda passando
Eu acho que a vida anda passando
A vida anda passando a mão em mim
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Se bem que já faz tempo mas eu escondia
Por que ele me pegava à força
E por trás
Até que um dia resolvi encará-lo de frente
E disse: Tempo, se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento
E me olhando nos olhos
Eu acho que eu ganhei o tempo
De lá pra cá ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando...”

***

Coisa de gaúcho

Diz-se do sujeito que anda desnorteado:
“Mais perdido que filho da puta em dia dos pais”.

Hoho, boa.

***

Riso

O riso solto é um boi esbelto, atlético, quase olímpico, que se foi. Com a corda.

13 novembro 2004

Conhece a do macaco?


Eu não sou boa nisso, mas vou contar uma piada. É velha, tá?

O sujeito viajava de carro, de madrugada, sozinho. A estrada era vazia, zona rural, nada de civilização. Tudo escuro. De repente, fura o pneu.

O cara desce do carro e começa a procurar o macaco; e nada do macaco. Bate um desespero: estou sem macaco, meu Deus, e agora?

Olha em volta, avista uma fazenda com uma casa de madeira ao fundo. Pensa em bater lá e pedir um macaco emprestado, claro. E começa a andar em direção à casa.

No caminho, vai resmungando: “Que azar o meu, furar o pneu no meio desse fim de mundo e ficar sem macaco. Sabe lá quem é que mora nessa fazenda, também... Garanto que o fazendeiro não vai ter um macaco, ou, se tiver, não vai nem querer me ouvir... afinal, um forasteiro batendo à porta no meio da madrugada... vai é me receber a tiros, isso sim... Capaz de eu morrer furado, ou então a pancadas mesmo. Duvido que esse cara tenha um macaco. (E vai se aproximando da casa). Duvi-de-o-dó! (Chega perto). Fazendeiro chucro desses, vai nem saber o que é um macaco... (Bate à porta, enfim).”

Nisso, abre a porta um doce senhor, que pergunta: “Pois não?”

E o viajante responde, no embalo:

“AH, QUER SABER? ENFIA O MACACO NO *$&@#&$¨!!!!!!!!!”

***

Eu acho essa piada muito ilustrativa.

Às vezes, a gente passa dias, semanas, meses, anos pensando na falta do macaco. E resmungando com os próprios botões. Ninguém sabe que a gente sente falta do macaco. Ninguém sabe sequer que o pneu furou. Ninguém sabe que estamos viajando na madrugada escura, talvez.

Lá pelas tantas, quando já estamos prestes a explodir, aí é que resolvemos colocar uma pobre vítima no roteiro. O fazendeiro, coitado, não sabe de nada. Abre a porta no maior carinho, mas aí já é tarde. Vai ouvir desaforo, e de graça.

E xingar o fazendeiro não resolve absolutamente nada.

***

Filosofia de piada. Valha-me Deus.
Não sei como vocês me agüentam.

12 novembro 2004

Agora eu estou com internet banda larga e vocês vão ter que me engolir on line 24h por dia que beleza de vida escrever mais no blog acesso rápido linha telefônica livre e-mails pulando na minha caixa postal a cada minuto sites carregando - ploft – arquivos baixando – ploft – eu aqui lendo comentários de vocês e respondendo – ploft – corra Bíbi corra que maravilha tecnológica meus bichos sendo saciados é como se antes eu bebesse água de conta-gotas e agora estou bebendo direto do gargalo.

Assim que eu gosto.

***

Falar em gargalo

O garçom do restaurante foi me servir de cerveja e inclinou o copo com o gargalo – sabe como eles fazem, né? Pra quê: eu dei um pulo e me grudei no copo com as duas mãos, tipo ‘vai cair esta merda, ô!’...

Risadas gerais. Caaalma, Bíbi!

Calma nada. Calma era no tempo do conta-gotas.
Agora é fiasco banda larga, ninguém me segura mais.

***

Placa do dia

“VENDE-SE ESTE
RCO”


Perguntaram o que, afinal, era o tal RCO.
Resposta:

“RCO??? Sei disso, não. Olha, moço, nós aqui vendemos esterco...”
Tava explicado.

***

Vem cá, qual é a idéia do Lulu Santos com aquele cabelo, digamos, meio crescido – para cima?
Algumas coisas me assustam um pouco.

***

Meu irmão traz na mão uma cicatriz que ele jura ter sido causada por uma espécie de palito de ferro que eu teria cravado – a palavra que ele usa, imagina – ali, entre o polegar e o indicador dele. A cada encontro com alguma pessoa nova nas nossas relações, ele acha uma oportunidade e relata o feito. Como ele pensa que ocorreu, claro.

Na verdade, eu apenas arremessei o ferro em direção à mão dele – que estava parada. Então ele se distraiu, sei lá, mexeu a mão, o ferro pegou um vento e se animou, a mão de lá, o ferro de cá, o ferro indo, a mão vindo, algum fenômeno físico que não sei explicar, pronto, resumindo: o ferro entrou na pele dele e, vá lá, furou um pouco.

Mas foi a mão, poxa, não foi o olho.

08 novembro 2004

Sagitário

Sabe aquelas frases que ilustram a personalidade de um signo?
A minha eu nunca esqueci.

Diz que o sagitariano está andando em linha reta, convicto, decidido, o passo firme, o olhar certeiro. Todo mundo que está em volta se admira: nossa, olha só a determinação do sagitariano! Onde será que ele vai?

Até que alguém , morrendo de curiosidade, resolve perguntar:

- Sagitariano, desculpe me meter, mas... onde é que você está indo, com toda essa determinação?

E ele, casual:

- Hein? Ah... tô só atravessando a rua mesmo.

***

Eu sinto a mesma coisa quando alguém me ouve falando e comenta:
“Nossa, mas ela tem um vozeirão, né?...”

Fachada, meu bem. Pura fachada que Deus me deu.
Não mato uma barata.

***

Placa do dia (verídico)

“AQUI VENDE PEIXE-SE”


***

Tédio – mas nem tanto

Um tédio colossal nos atormentava neste ordinário domingo chuvoso. Um olhando pra cara do outro. Cada qual leu o jornal e a Época três vezes. O telefone simplesmente parou de funcionar. Nossa conexão com a internet, ainda discada, babaus. Fiz comida. Comemos. Comemos mais. Comemos outra vez. Sair não resolveria – domingo chuvoso, imagina a fila dos cinemas. DVD? Já vimos todos os lançamentos. Comemos mais um pouco, então.

Saio-me com a seguinte reflexão:

- Puxa vida... a gente aqui, nesse tédio. Veja só, se nós fôssemos sócios de uma dessas academias de bacanas, essas que parecem clubes, poderíamos estar, numa hora dessas, malhando... sei lá...

E ele franziu a testa.

- É verdade. É para a gente ver como as coisas poderiam ser piores. Bem piores.

- Ô, nem me fale...

E comemos outra vez. Graças a Deus.

07 novembro 2004

O telefone toca às 2h da manhã:

- Eu te acordei?
- Não.
- Não mente...
- Não!
- Não mesmo?
- Não, pô!
- E O QUE È QUE VOCÊ FAZ ACORDADA A UMA HORA DESSAS?

Depois, a mulher é que é um bicho complicado.

***

E a resposta:

“De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo”
...
[Vinicius de Moraes]

***

Diquinha Biblog do tipo auto-ajuda

Sabe aquilo que você anda remoendo?
Em vez de remoer, passe a remover.
Tiro e queda.

***

Você sabe que essas pessoas que trabalham com a escrita não são muito certas da cabeça. Eu outro dia acordei, no meio da manhã (imagina), com uma frase “genial” estourando na mente. Anotei no caderninho - isso aqui dá crônica, ou poesia, sei lá.

Quando acordei e fui conferir, era uma bosta de frase.
Dava insônia, e olhe lá.

***

Tinha uma mulher com saia pelo joelho, sandália fina, cabelo impecável, blusinha delicada. Sentada elegantemente, pernas cruzadas, comia uma salada e bebia água mineral.

Sentei atrás dela.

Quinze minutos depois, ela pediu a conta. Não veio. Pediu de novo. Não veio. Terceira vez:

- CARALHO, DÁ PRA TRAZER A PORRA DESSA CONTA HOJE AINDA, OU TÁ DIFÍCIL???

E o restaurante inteiro ouviu a classe dela se espatifando no chão. Acontece, né.

05 novembro 2004

Sobre os sacos aqui de casa


Dividimos um apartamento há 7 anos, meu irmão e eu.

Ele pediu alguma coisa na padaria, e está guardando as compras. Eu fico observando. Ele pega um saquinho plástico e fica enrolando com aquilo na mão, passa de uma mão para outra, devolve, amassa, estica. Não saio dali. Ele desiste, me olha:

- Tá bom. Eu não tenho a mínima idéia de onde se guarda isso.
- Isso o quê?
- Isso! (Esticando o saquinho na minha frente).
- ISSO se chama saco plástico, e se guarda no puxa-saco, o nome já diz. É esse treco de pano pendurado aqui na parede há uns 7 anos, mais ou menos. Tá vendo?

Ele olha o puxa-saco na parede, assustado, como se tivesse visto uma aranha.

- Tá bom, mas é que você enrola de um jeito que eu não sei enrolar. O saco.
- Pode enrolar de qualquer jeito, isso não importa.

Ele enrola de tal modo que, ao invés de diminuir o volume do saco, aumenta. Incrível. Ninguém mandou eu dizer que não importava. E guarda o saco no puxa-saco, como quem realiza uma operação delicadíssima. Em seguida, começa a fazer o mesmo com um saquinho menor.

- Não, esses pequenos eu guardo noutro lugar.
- Jura?? Por quê?

O sujeito não entende nada de sacos. Viveu 7 anos, numa boa, sem saber da existência do puxa-saco. E agora vem questionar o porquê do meu tratamento diferenciado aos tipos de saco. Eu mereço.

- Porque sim, porque os menores eu uso para cascas de frutas e legumes, prefiro que fiquem aqui desse outro lado, assim já vou direto com a mão no saco desejado.
- Se tu diz...

Começa a olhar um saco que veio com um furinho. Ele ameaça um desdém, eu me adianto:

- Esses furados ficam aqui junto com os pequenos...
- Ah, não! Saco furado também se guarda???
- Eu guardo, sim senhor! Dá licença?
- Pra quê?
- Para as garrafas vazias de refrigerante!
- É??? Eu jurava que as garrafas vazias de refrigerante sumiam depois que a gente colocava ali naquele cantinho...!!!

Respiro beeeeem fundo.

- Não é que elas sumam. Sou eu que ponho tudo no saco furado, depois abro a porta, saio no corredor e – uau! – derrubo no duto do lixo.
- Nossa. Impressionante. E eu, há 7 anos, sem conseguir parar ali naquele cantinho sinistro. Medo de sumir também, sei lá.

Medo de colocar meu irmão num saquinho furado, abrir a porta, sair no corredor e... vocês sabem.

PS: Tá bom, não deve ser fácil viver com uma pessoa que separa os sacos e guarda os furados, admito. Mas só guardo se o furo for mínimo. Se for um rasgo, escondo numa gaveta no meu quarto. Um dia eu vou achar utilidade, tenho certeza.
E mão-de-vaca é a mãe.

04 novembro 2004

Pobreza é relativo


Um amigo lá do Sul me telefona para matar as saudades. Entre outras barbaridades geniais, solta a seguinte:

- É para tu veres como pobreza é um conceito relativo. Hoje eu fui à farmácia. À minha frente, na fila, um guri contava moedinhas, com dificuldade. Que judiaria, pensei. Gurizinho novo, de chinelo gasto, bermuda puída. A despesa era maior que ele. E eu, aqui atrás, comprando meus luxos sem sentir coceira no bolso. Bateu aquela consciência social, sabe?

- Sei, sei... é triste, mesmo.

- Triste, né? Pois tu sabes o que o desgraçado estava comprando?? CAMISINHA! CAMISINHA, Bíbi! Pobre sou eu, isso sim!!! Sabe há quanto tempo eu não tenho precisado comprar camisinha???

Achei melhor nem saber.

03 novembro 2004

As palavras
d a n ç a m
ou é só impressão?

A palavra
amor
dança lento

A palavra
tesão
dança colado

A palavra
saudade
tem pisado no meu pé

E a palavra
esperança
amanhece varrendo o salão.

02 novembro 2004

Finados


Diz pra mim que amanhã é quarta-feira útil e que tudo vai funcionar direitinho, da padaria ao meu intestino, dos bancos ao meu bom humor institucional, da faxineira ao colégio das crianças, do consultório dentário ao caos no trânsito. Tudireitinho. Diz pra mim, vai.

Tô agüentando esse feriado espichado dedicado aos falecidos, não.

Adiantamos uma hora, mas não adiantou lá muito. Meu tédio tá me olhando - com cara de você sabe o quê -, e me cutuca de hora em hora pra dizer:

- Assunta alguma cousa, tchê.

Estou quase estrangulando alguém. Sai da frente, meu anjo.
Sai da frente, que é pro teu bem.


Coquetel trash

Aproveitei que a minha mãe foi viajar nesse feriado e jantei, ontem, um coquetel explosivo: Baconzitos com Fandangos.

O detalhe é que a minha mãe mora no RS e eu, no Rio. Há 7 anos.

Mas, sei lá, sempre é bom dar uma radicalizada quando os pais viajam.
Teste. Funciona, blogzinho de uma figa.

01 novembro 2004

DVD - Cristina quer casar

Depois de hooooooooras perambulando pela locadora sem conseguir um filme decente que eu ainda não tivesse visto – e que não estivesse locado neste domingo de feriadão -, cheguei no nacional “Cristina quer casar”. Com Denise Fraga, Marco Ricca (que eu adoro) e Fábio Assunção. A expectativa era zero, confesso. Voltei para casa bufando; está bem, o calorão de hoje X minha disposição para andar a pé pelo bairro às 3h da tarde ajudaram...

Trata-se de uma comédia romântica pouco original – mulher de 34 anos quer casar e resolve procurar uma agência matrimonial, blá blá blá -, mas sabe que é bem bonitinho? Denise Fraga encarna uma Cristina do tipo poderia-ser-qualquer-uma-de-nós; cheia de contas para pagar, desempregada e boa gente. Tipo da coisa que ela faz com um pé nas costas, estamos acertados?

Marco Ricca e Fábio Assunção completam, com ela, um triângulo cheio de humor e quase sem surpresas, e assim o filme se dá: fofo e previsível, como 90% das comédias românticas que se prezem. Se querem saber, acompanhou muito bem o meu porre de Coca Light no fim de tarde do domingão pré-finados.


Churrascaria (o nome já diz, né?)

Convidei meu irmão para ir a uma churrascaria. Na fotinho da propaganda, havia um enorme buffet de comida japonesa. Não como carne. Meu interesse culinário era claramente nipônico, não escondi isso de ninguém. Nem da moça que atendeu ao telefone quando liguei, à tarde, para me certificar de que não ficaria só na saladinha:

- Tem comida japonesa, não tem?
- Tem no buffet, sim, senhora.
- E é bem variada, certo?
- É o nosso buffet, senhora. A senhora já esteve aqui, não já?

Não-já. Essas moças têm mania de “não-já”. Não, eu não-já nunca tinha ido. Se tivesse ido, não-já teria ligado para pedir informações sobre algo que eu já conhecesse. Não-já seria óbvio?? Desliguei. Bem feito pra mim.

Não só não-já era óbvio, como tive ingrata surpresa ao conferir, ao vivo e em (poucas) cores, o tal buffet japa. Sem mentira: três ou quatro bandejas, se tanto, com meia dúzia de sushizinhos murchos em cada. Só.

Fiquei com tanta raiva, mas tanta raiva, que nem a salada eu pude aproveitar direito. Murcha também, te digo. Mano se esbaldava numa carnificina contagiante, passou até mal depois. (Não foi olho gordo, juro).

Eu devia ter imaginado. Churrascaria. O nome já diz, né.


É fantástico

Reportagem no Fantástico sobre adolescentes que estão “pendurados” nas notas da escola neste fim de ano. “Especialistas orientam” (sempre eles): mais diálogo em casa. Adolescentes, por sua vez, desorientam: não estou nem aí, quero mais é fazer festa; se tomar bomba, f***-se.

Sinceridade?

Se o pirralho chega à adolescência com esse tipo – sem esse tipo? – de idéia na cachola, é bem feito para os pais.

Ou será que o Fantástico é que foi omisso nos últimos 13 anos?

Mais provável é que tenha havido overdose de Fantástico, isso sim.

30 outubro 2004

Chiripá – Indumentária Gaúcha



A ilustração acima é do amigo Gilnei Silva, um publicitário de Novo Hamburgo. O cara faz de tudo um pouco, em se tratando de arte. Descobri o site dele meio por acaso, e adorei.

Quem quiser, é clicar para ver as outras ilustrações. Vale a pena!

***

“Felicidade se acha é em horinhas de descuido.”
(Guimarães Rosa)

***

“Eu sou bom de cama
sei fazer café
E ninguém reclama
Do meu cafuné
Mas
Artista é o caralho
É o caralho”


(Rubinho Jacobina)

***

Não sei com vocês. Pra mim, chega finados e é sempre assim, parece até piada de mau gosto: daqui a pouco, jaz o corrente ano.
Flores, please.

29 outubro 2004

Como eu

Minha amiga e eu curtíamos um show num desses bares/boate com música ao vivo. Sujeito se aproxima dela e manda uma cantada. Ela dispensa, mas o cara é do tipo vendedor de seguros - não aceita não como resposta. Insiste. Um mala.

Ela vira pra mim:

- Pelo amoooor de Deus, me livra desse encosto.
- O que é que eu faço?
- Sei lá, qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo, mas me livra.

Solidariedade instantânea. Homem pegajoso é pior que sarna. Mas estou sem imaginação; pergunto a ela, outra vez, o que fazer.

- Sei lá, pô! Diz que a gente é namorada!
- Tá doida?
- Que é que tem? Muito comum, hoje. Manda essa, vai colar.

Eu, quando dou para ser cara-de-pau, é com dedicação esportiva. Me estiquei toda e mirei o rapaz. Um e setenta, se tanto. Eu + meu salto = 1,80m, e passando. Cheguei bem perto e olhei nos olhos dele:

- Boa noite. (Séria) Eu não queria ser indelicada, mas a moça tá acompanhada.
- Jura??? (Ele, olhando para os lados)
- Sim. E muito bem acompanhada, por sinal.
- Ué... mas estou aqui há meia hora, e ainda não vi ninguém...
- Tem certeza? (Olhando fixo) Ninguém mesmo?

Ele titubeou um pouco. Olhou para os lados. De repente, me olhou e deu um pulo:

- Ai meu Deus!!! Sério??? Não pode ser...
- Não pode ser o quê? (Aumentando o tom de voz, ameaçando me sentir ofendida).
- Não, quer dizer, não é isso, claro que pode ser, mas, você sabe, eu jamais ia imaginar, vocês duas, que dizer, nada contra, ou seja, mas é estranho, estranho não, diferente, quer dizer, hoje é muito comum, você olha e nem diz, veja bem, que coisa, eu, eu... me desculpe.

Dei um tapinha nas costas dele e uma piscaldela.

- Imagina, amigo... isso acontece toda hora. Esquece.
- É, deve acontecer mesmo (secando o suor do rosto, parecendo um pouco aliviado)... a propósito, que belo casal!
- Muito obrigada.
- E você tem muito bom gosto... aliás, como eu... (e, súbito, resolveu se corrigir) Ops! Quer dizer, COMO EU, não! Come você, que tem mais sorte. Hehe.

Depois dessa pérola infame, os três caíram na risada.

Mas ninguém comeu ninguém.

27 outubro 2004

Curtinhas

* Conforme acabo de ser informada, este blogue está entre os destaques da semana no Jornal do Blogueiro.
Obrigada!

* O Orkut ressuscitou os meus 99 amigos. Logo, não eram 100, nem tampouco estou sem.
Foi só um deslize do servidor + minha TPM = genocídio.
Normal.

* Taxista me trouxe em casa. Deu oito reais, e ele não tinha troco para os meus cinqüenta. Eu: “O que é que eu faço agora?”
Ele: “Ah, me paga outro dia!”. (Nunca vi mais gordo).
Não consegui. Pedi que me levasse à padaria, comprei uma Coca, troquei o dinheiro e paguei na hora.
Ora, “me paga outro dia”. Te dei essa intimidade, nêgo?
Comigo, não.

* Mario Prata, hoje, no Programa do Jô. Sempre, sempre é bom.

* Tinha um belo compromisso em Copacabana, mas cancelei porque estava ameaçando chuva. Chama o meu analista, urgente: estou virando carioca. Se minha mãe sabe...
Cultura de salão


Perua 1 (entrando no salão): Oi, amiga! Você tem ido à academia?
Perua 2 (fazendo as unhas): Oi, querida. Faz tempo que não vou! Com essa gripe que está pegando todo mundo, fica aquele povo lá enfurnado no ar condicionado, eu sou doida? Quero esse vírus pra mim, não.
P 1: É... Também não vou faz tempo.
(Silêncio para reflexão de ambas).

P 1: O diabo é que começa a cair tudo, né?
P 2: Rapidinho.
P 1: Passou dos trinta, a corrida é contra.
P 2: Se é.
(Silêncio para reflexão de ambas).

P 1: Homem não tem isso, né?
P 2: Homem não tem nada! Deve ser uma festa ser homem.
P 1: Pode crer. E a gente aqui, fazendo cabelo. Homem lá faz cabelo? Se um homem não tem cabelo, pode ir a uma festa, normal. Mulher, Deus o livre!
P 2: Peruca! Mulher paga o mico da peruca, se for preciso.
P 1: Peruca. E mais, é capaz do sujeito fazer sucesso. Olha lá aquele careca, que charme!!
P 2: Fazer o quê. Nosso nível de exigência com eles é bem menor. E mulher se arruma pra mulher, também tem isso...
P 1: Tá certa. Já viu um homem olhar pro outro e fofocar com o amigo: olha que cara desleixado, olha a cor do sapato dele, nada a ver com nada, olha o cabelo...? Nunca!
P 2: E homem lá sabe diferenciar cor? Tudo daltônico!
(Risadas gerais).

Interferência totalmente inusitada da depiladora, que grita, lá do outro lado do salão:

- Broxa!!!!!!

(Interrogação geral).

- Homem fica broxa. É o castigo de Deus.

(Silêncio total, em respeito à verdade irrefutável. P 1 faz o sinal da cruz e bate na madeira. Isola.)

***

A manicure 1 está de saída, cumpriu o horário e vai embora. Sozinha, enche de fita adesiva uma caixa enorme escrito: Arno. Um ventilador.

Manicure 2: Vai levar isso, mesmo?
M 1: Se eu vou levar? É claro que vou levar! Ganhei na rifa, vou levar.
M 2: De ônibus???
M 1: Que jeito?
M 2: E o Henrique?
M 1: Não teve conversa. Fiz de tudo, ele não quis vir me buscar. Diz que é muito contramão.
M 2: E você vai de ônibus, com esse trambolho?
M 1: Vou sim. Mas vou ficar um mês sem dar pra ele.
M 2: Aaaah, bom!

De modo que concluo: o problema nem era levar uma caixa enorme no ônibus. O problema era continuar dando pro sujeito que permitiu isso.

E não é que faz sentido?

De cem amigos a sem amigos

Acreditem: o Orkut matou todos os meus amigos. Entrei lá hoje, e tive a ingrata surpresa de saber que estou sem amigos. Logo eu, que beirava os cem. Duvida? Entra lá. No campo dos meus amigos, aparece a singela expressão: “add friends”. Mais nada.

Olha a minha cara de quem vai sair pescando os amigos, um a um, pedir desculpas pelo incômodo e adicionar tudo outra vez. Se pudesse marcar um chopinho e reunir a galera, tudo bem. Mas é cada qual de um canto, vocês sabem, essa maravilha virtual que nos une a todos, o Orkut, tão caloroso, tão humano, tão... assassino. Matou cem. Para falar só dos meus!

Eu já soube de casos semelhantes, e você também deve ter ouvido falar – ou já lhe aconteceu, se é que você ainda não se encheu daquela porcaria e caiu fora. Era o que eu deveria ter feito há meses, eu sei. Mas não fiz.

Há coisas que eu deveria ter feito há anos e ainda não fiz; não seria a saída do Orkut um acerto isolado na minha vida, seria?

Agora com licença, que eu vou ali providenciar os jazigos.

Um a mais, pro meu finado bom humor.

23 outubro 2004

Pela hora da morte

A chuva aqui no Rio deu uma trégua. Hoje o sol brilha outra vez, e o vento está proseando com as árvores lá fora – vejo aqui, através da varanda, a pracinha. O fato de ter uma varanda e uma praça sobre o meu ombro esquerdo me conforta um pouco, parece que o apartamento (apertamento?) é maior. Ilusões de ótica muito úteis, já que o aluguel está pela hora da morte.

Mas vamos parar de reclamar, e pensar um pouco na hora da vida - que é a única coisa que se tem, afinal.


Pela hora do rock



Ontem à noite a Lagoa estava particularmente bonita, não sei por quê. Um climão. Assisti a um show de rock – anos 70, 80 e 90 – bem entrosado. O guitarrista era o Fernando Magalhães (Barão Vermelho); só ele já valeria o ingresso. O baterista e o baixista eram da banda do Gabriel O Pensador, cada qual melhor que o outro. O vocalista (e motivo da minha ida) era o amigo Márvio Fernandes, uma figura assídua no circuito rock cover aqui do Rio. É bom ver as feras afinadas, fazendo rock’n roll com um pé nas costas, com prazer e sem frescuras. O palco é míni, mas o prazer que proporciona...

O bar é muito charmoso, e tem um nome que já diz tudo: Partitura. E o cardápio é no mesmo tom. Tem lá um risoto de nome Sibemol (assim, tudo junto), e outro Sustenido. As massas: Rock, Reggae, Soul... Música para ouvidos e estômago.


Pela hora dos 2.7

Faltando quase um mês para esta blogueira fazer aniversário. Já coloquei a lista dos presentes nas melhores lojas do ramo. Do ramo áudio. Do ramo vídeo. Do ramo flores. Do ramo roupas. Do ramo jóias. Do ramo automóveis. Do ramo imobiliário, inclusive.

Viram como eu sou facinha de agradar? Qualquer coisinha à toa me satisfaz.
Hoho. (Do ramo cínica).