02 dezembro 2001

É uma sacanagem, mas vá lá:
Tudo muito bonito, mas é a terceira vez que eu me levanto da cadeira num pulo, empolgada, e não consigo sequer concluir o giro da prenda. Fala sério, a introdução da página é bem intencionada, mas passa muito rápido, pô!!!
Quem é o webmaster do gadelhudo?
...
Mas visitem, visitem.
Este é um Blog de varaliedades não vestíveis.
Varaliedades são variedades penduráveis no varal (vide figura acima).
O que difere varaliedade de roupa molhada é que a roupa, quando seca, é vestível.
Varaliedade, não. Quando seca, é feito folha de árvore: cai.
Penduro aqui todas as varaliedades que julgo blogáveis, dizíveis, tragáveis (ou nem tanto assim).
Uma vez que cai no chão, tudo é confundido com esterco mesmo - o que muito me agrada, porque é sinal de renovação. Na natureza, tudo se transforma.
Minhas varaliedades não vestíveis são, como toda cousa deste mundo, totalmente merdáveis.
E viva as leis da natureza, meu rei.

01 dezembro 2001

Valeu, Me!!!!!
Agora só falta me ensinar a colocar figura (foto) aqui... tou tentando há tempos, mas não consigo. Sabes?
Gente, vam'colaborar.
Aceito dicas de sites, com flash e musiquinha. Agora estou podendo.
Está um dia cinzento e delicioso no Rio de Janeiro. Chega de derreter os gaúchos, né, Pai do céu?
(Té parece)
Não estou para muita conversa, minha irritabilidade está batendo lá no teto, e não é nem TPM.
Gente, vam'colaborar - já disse.
Ontem ouvi aquele disco do Renato Russo cantando em italiano, que transforma irritação em choradeira, e depois entrei no carro, a luz da (falta de) gasolina acendeu, a choradeira se transformou em preocupação, saí na rua, a preocupação se tranformou em medo, parei no sinal, o medo virou pânico, gritei, o coiso ficou verde, acelerei, o grito sentiu o vento batendo na minha testa e se transformou em música. Inevitável.
Cantei até chegar em casa. Em italiano - equilíbrio distante. Idioma desconhecido. Mico. Mas o carro é meu, a goela é minha, tá olhando o quê?
Se eu botei gasolina?
Me dá o dinheiro, que eu ponho.
Tá olhando o quê, ainda, cara-pálida?
Esperando eu concluir o texto?
Tó, conclusão:
eu acho que a irritação é mera questão de falta de combustível, a bem da verdade. E o Renato Russo é um furo no tanque - só faz pingar mais ainda.
Desperdício?
Desperdício é andar por aí sempre com o tanque cheio. Cadê graça? E cadê ar???
Muito preenchimento sufoca. Tem de haver uns buracos. Lágrima e gasolina, é tudo combustível. Tem de vazar.
Precisando de uma traça, Renato Russo é o que há.
Fui.

28 novembro 2001

Estou de mudança, tá sabendo?

Micro velho para micro novo. Um caos. Minha vida está toda armazenada no HD ao lado, e este computador aqui mais parece um pastel de vento; windows sem vista para o mar, para coisa alguma. Ninguém merece.

E o teclado, então? Sabe quantos segundos eu levei para achar o til do então? Então, então, então, então... (treinamento, pode? Pareço um bebê da informática, a essa altura da vida.) Quase meto as chaves pelos parênteses, agora há pouco.

Mudança é isso mesmo. Vou levar uns dias até me habituar à nova rotina. Mas preciso mobiliar este micro modernoso, antes que eu enlouqueça de vez. Sou pobre - não consigo viver com muito espaço, nem no HD. Meu negócio é esbarrar; do contrário, me perco.

É favor que os amigos me mandem fotos e textos, de modo que eu vá enchendo a casinha nova, e não me sinta muito só. E-mail é como imã de geladeira: quanto mais, melhor.

Por enquanto, era isso. Vou continuar na lida, aqui, arrastando alguns pedaços da vida para as janelas novas.

Mas não tudo, que é areia demais pro meu disquetinho.
Alou... testando...
Não é possível! Será que isto vai funcionar a partir de hoje?
Grande Lori, que me emprestou um micro novo! ADEUS 3.11 !!!!!!!!!

03 novembro 2001

30 setembro 2001

Engarrafados na Nossa Senhora
Bíbi Da Pieve


Tive de ir a Copacabana, num domingo à noite. Dirigi até lá, e, assim que cheguei no bairro, o trânsito parou.

Quarenta minutos depois, quando entrei na R. Nossa Sra. de Copacabana, descobri: havia uma procissão. E eu estava engarrafada na Nossa Senhora.

Lentamente, fui seguindo aquela multidão de fiéis. Não havia outro caminho possível para mim, a não ser perseguir a imagem da santa, e rezar para não chegar tão atrasada ao meu compromisso.

Os fiéis, animadíssimos, iam cantando - "quem é que vai nessa barca de Jesus?" -; como se eu tivesse alguma opção.

Aproveitei, rezei o que eu sabia e o que não sabia. Pedi perdão pelos pecados cometidos, bem ali, em meio àquela atmosfera religiosa regada a monóxido de carbono e maresia.

No início, a situação até parecia sustentável. Mas, com o tempo, fui me vendo dentro de um cenário absurdo, quase surreal; alguma coisa cinematográfica ia tomando conta daquela realidade. A partir de então, os fatos viraram cenas:

Cena I - Lá pelas tantas, enquanto a multidão vai louvando a Deus, aparece uma sirene desesperada, de uma ambulância que também está ali, conosco, engarrafada na Nossa Senhora.

Cena II - Mas os fiéis não arredam o pé. E ainda suplicam: "Senhor, levai as almas para o céu!"

Cena III - Eu fico pensando que, assim, eles estão mesmo prestando um grande auxílio a Deus; naquela ambulância engarrafada, certamente deve haver uma alma prestes a decolar. Sobretudo se não chegar logo ao hospital.

Cena IV - Num muro grande, à minha esquerda, vejo um cartaz: "Tarô e búzios. Trago a pessoa amada em três dias."

Cena V - Na sarjeta, alheio à multidão, ao tarô e à sirene, um mendigo devora um pedaço de pão. E só.

Estamos, todos nós, engarrafados na Nossa Senhora. Não achei imagem mais apropriada para representar a nossa realidade do que uma procissão no asfalto duro, na decadência evidente de Copacabana.

A multidão que segue a santa é a mesma que ignora a prostituição e a miséria, e também é a mesma que se desespera com a decadência. Porque o desespero é comum a todos.

Somos cartomantes, prometendo soluções rápidas; somos mendigos, comendo o pão que o diabo amassou; somos fiéis, pedindo piedade divina; somos prostitutas, somos assaltantes, somos vítimas e somos cegos, porque estamos completamente perdidos, loucos de desespero: somos uma enorme sirene, gritando em cima de uma ambulância parada, dividida entre a fé e o caos, sem saber se vai ou se fica, se ainda há tempo, saída, salvação.

Enfim, peguei uma carona na barca de Jesus, e cheguei muitíssimo atrasada. Mas o problema não está nele, e muito menos na Nossa Senhora. O problema está na falta de opção, que acaba obstruindo os caminhos - quando a fé engarrafa as vias, é sinal de que há muita louvação e pouca ação.

E o Senhor há de convir comigo que, se continuarmos aqui parados, a tendência é afundarmos cinematograficamente em substâncias mal-cheirosas: isso, sim, seria o fim do mundo em 36mm.
Sobra homem no mercado - parte II
Bíbi Da Pieve



A Mariana tinha conhecido o Antônio na seção dos congelados, no supermercado, e jurava amor eterno.

Tinha até uma tese, que ia virar livro: sobra homem no mercado. Segundo a pesquisa, o principal ponto de aglomeração de material masculino disponível era, justamente, o supermercado.

O príncipe encantado estaria, veja só, bem na frente de um freezer, escolhendo o sabor da lasanha. Bastaria um pouco de intuição, e a moçoila esbarraria direto no homem da sua vida, como quem bate o olho e aponta - enfim, encontrei o atum em água e sal!

Mas, infelizmente, a Mariana não deu muita sorte. Veio me contar, meses depois de ter conhecido o Antônio, ex-homem da sua vida, que não haveria mais casamento algum.

- Não vingou! - ela fez uma cara de quem estava mais preocupada com a derrota da tese do que, propriamente, com o fim do Antônio.

Senti que o problema era mais teórico do que sentimental, e peguei leve. Aliás, aquilo era quase um caso acadêmico.

Mariana que se preze, como é sabido, nasceu lá pelo final da década de 70, com a mãe ouvindo Geraldo Vandré, e Belchior na voz da Elis Regina. E com isso não se brinca.

Uma vez ferida a intelectualidade da Mariana, a casa vem abaixo. Ou ela não se chama Mariana.

- Eu sinto muitíssimo, amiga. Nem sei o que dizer...

- Não se preocupe, eu vou ficar bem.

- Olha, eu sou péssima em conselhos. E nem somos assim tão íntimas.
Mas pode se abrir comigo. Claro, não precisa entrar em detalhes. Mas, afinal, o que há de errado com esse Antônio?

- Beija gelado e duro. Para lasanha congelada, só falta beijar à bolonhesa.

- Tão ruim assim?

- Pior. Na cama, então, é um fiasco.

- Credo!

- Fora isso, tem mania de grandeza. Não sabe ouvir. Repete sempre a última frase, pra ganhar tempo pensando em outra. Aperta o tubo de pasta de dente bem no meio. Pergunta "entendeu?", fica estressado no trânsito, batuca na mesa, vive com pressa. E cutuca.

Cheguei a ficar sem jeito, tamanha a desenvoltura da Mariana para debulhar a intimidade do pobre Antônio, assim, na minha frente. Parecia até que ela tinha catalogado os defeitos do ex-príncipe, pelo modo prático e eficiente com que discorrera sobre eles.

Quis mudar de assunto rápido; perguntei se, então, ela tinha desistido da tese e do livro.

- O quê? De jeito nenhum!!! O livro já está pronto, a tese segue valendo. Só porque não deu certo comigo, não quer dizer que não funcione com as outras pessoas. Sobra homem no mercado, e vai continuar sobrando! Não abro mão do meu livrinho, não!

- Mas você não se sente culpada por publicar uma tese que não pode comprovar? E se todas as Marianas se derem mal, como é que fica? O que é que você vai escrever, por exemplo, no prefácio desse livro?

- O Antônio é o prefácio. E depois não digam que eu não avisei. Pronto, isso é o máximo da minha honestidade literária!

- Que horror! Não acha que já está exagerando?? Você namorou com esse cara quase meio ano, e agora vai expor toda a intimidade do sujeito nas primeiras páginas de um livro?

- Tolinha. Namorado, mesmo, ele foi durante uns três dias. Depois do centésimo "entendeu?", o Antônio deixou de ser sujeito, e passou a ser mero objeto da minha pesquisa. Minha mãe já dizia: tudo bem, o amor é lindo, mas alguém tem de estudar aqui nesta pocilga!!!

A mãe da Mariana largou tudo, e foi exercer o seu jornalismo lá na África do Sul. O marido - que já é o quarto, depois do pai da Mariana, que morreu jovem - ainda está tentando achá-la. Quando conseguir, pretende trazê-la de volta à pocilga, doce pocilga onde viviam.

05 agosto 2001

Defeito é defeito
Bíbi Da Pieve

Tenho ouvido algumas pessoas se referirem às próprias virtudes como se defeitos fossem. E vice-versa.

- Tenho o péssimo hábito de persistir em tudo o que eu quero, até o fim. Ai, como eu sofro por isso. Nunca desisto! Até que consigo. Mas é um defeito, eu sei, tenho consciência disso.

- O meu pior defeito é ser prestativa demais. Impressionante, as pessoas acabam extrapolando, porque sabem que eu nunca digo não. E é verdade, não adianta, eu sempre acabo dando um jeitinho de ajudar os outros... que defeito horrível, mas, fazer o quê? Sou assim, tá em mim.

- Tá vendo esses meus enormes olhos azuis? Que defeito horrível... ninguém presta atenção no que eu estou dizendo, nunca!

E por aí vai. Garanto que você já ouviu esse tipo de "confissão", várias vezes, principalmente dos amigos mais próximos.

Ou será que você também faz isso?

Há duas maneiras muito comuns de "assumir" defeitos: uma delas é essa, acima citada. A outra, o famoso "pedir elogio":

- Ai, como estou gorda...

- Que isso!, olha aqui, a calça está até folgadinha! Deixa de ser boba!

Enfim, sinceridade, que é bom, nem pensar. Depois, reclamamos das dificuldades nas relações interpessoais.

A humanidade está cada vez mais hipócrita, e sequer assume a culpa. Nós, brasileiros, reclamamos "do brasileiro" - como se ele fosse uma terceira pessoa.

Aquela mulher que se acha gorda, lá no fundinho, se orgulha de não ser uma tábua. Mas trata as qualidades como defeitos, e os verdadeiros defeitos - ela é egocêntrica! - como qualidades: ela se orgulha da "boa autoestima", e ainda fala mal da vizinha, que, além de ser uma tábua, ainda não se gosta.

- Você viu? Ela não passa nem um batonzinho!

Todos nós somos especialistas no batonzinho alheio. Se é vermelho demais, tá carente; quer coisa. Se é de menos, não se gosta.

A psicologia de boteco tem dúzias de capítulos referentes a bundas, batonzinhos e trejeitos. Dos outros. Sempre dos outros.

Se houvesse um pouco mais de transparência nas cabeças modernas, talvez tudo ficasse menos complicado. Inclusive o casamento.

Ele reclama, por exemplo, que ela não consegue dizer por que ficou chateada e brigou com ele. Mas é meio difícil - ela reclama - falar com uma ostra.

Volta e meia, como boa ostra, ele larga uma pérola. Aí ela se derrete, mas, horas depois, ele reclama que ela já está grudenta demais; ela então fica revoltada, ele não sabe por quê, pergunta, ela não responde, e ele se fecha como uma ostra. De novo.

Quando estão fazendo as pazes, às vezes, ele até assume que é muito fechado. Mas, na verdade, orgulha-se de ser reservado. E quer morrer assim.

Ela, com jeitinho, assume que poderia ser mais direta e objetiva. Mas, no fundo, pensa que a culpa é do animal insensível, que já está com ela há dez anos, e ainda não consegue adivinhar os seus pensamentos.

Defeito é defeito, e ponto final. Defeito é pessoal e intransferível.

Eu, por exemplo, pinto as sobrancelhas com lápis marrom, e fico me iludindo, pensando que assim você não vai reparar nas manchas que eu tenho nos dois lados do rosto, próximas às orelhas. Besteira. Não adianta disfarçar os buracos da bochecha colorindo a sobrancelha.

Não me leve a mal, mas, se você me disser que tem algum defeito, seja lá qual for, eu vou concordar. Não espere que eu vá dizer que a calça está folgadinha, porque não está. Já chega de tanto rodeio, tanto disfarce. Não vou compactuar com a hipocrisia.

Até porque este é meu maior defeito: sou muito sincera. Modéstia à parte.

22 julho 2001

Sobra homem no mercado

Mariana é bem nome de menina que nasceu no final dos anos 70, início dos 80. O que tem de Mariana com vinte e poucos, hoje em dia, não é
brincadeira. As Marianas, atualmente, são mulheres jovens, bonitas, charmosas, simpáticas e solteiríssimas.

Mariana meio ruiva, com sardinha no nariz, então, é coisa típica. Eu disse meio ruiva. Castanho-avermelhado, o cabelo. Se for totalmente ruiva, aí já pende mais pra Viviane, Elisabete, Solange (se bem que Solange é mais anos 70, mesmo).

A Mariana, de fato, é só quase ruiva.

Pois fui almoçar com a Mariana, que eu não via há quatro anos. E ela continua jovem - que Mariana, de verdade, só vai começar a envelhecer lá por 2030. E solteira. Mas em vias de reverter o quadro.

- Conheci o Antônio no mercado!

Não entendi nada. Primeiro, que Mariana casar com Antônio já é de se estranhar. Mariana casa com Marcelo, Guilherme; no máximo, Maurício! Esse Antônio tá me cheirando a coisa mais antiga.

- Antigo, coisa nenhuma! O Antônio vai fazer 39, mês que vem. Estou com 26, olha aí, não dá nem quinze anos...

- E conheceu o quarentão onde, mesmo?

- Quarentão, coisa nenhuma! O Antônio é um guri! E, de mais a mais, hoje em dia, não dá pra ficar escolhendo muito, não...

A Mariana diz que homem é peça rara no mundo atual. Até os 20 anos, ela me conta, era uma festa só. Saía, beijava na boca, e achava tudo uma maravilha. Não se preocupava com os Marcelos, nem com os Guilhermes, que dirá com os Maurícios. Esnobava todos eles.

Só que, depois dos 20, a coisa foi ficando feia. Meia-dúzia de Marcelos viraram Marcelas. Os Guilhermes foram encontrando as suas Cíntias; os Maurícios, casaram-se com as suas Patrícias. E a Mariana foi sentindo que alguma coisa estava mudando. Para pior.

- Menina, nos últimos anos, é um tal de salve-se quem puder, que só vendo! Quando cheguei aos 23, depois de muito relutar, resolvi partir para uma pesquisa mais profissional. Encarei o assunto com seriedade, mesmo!
Levei três anos, catalogando daqui, experimentando dali, mas valeu a pena: finalmente, achei o Antônio!

Quando perguntei que tipo de pesquisa ela havia feito, não acreditei no relato quase científico que a Mariana me fez. Não era brincadeira; ela tinha se tornado uma expert no assunto.

Três anos depois de entrar no mundo profissional da garimpagem de homens disponíveis, minha amiga concluiu a frase irônica que define, afinal de contas, onde é que eles estão: "sobra homem no mercado". Ela vai lançar um livro com esse título, inclusive.

Milhares de Marianas irão comprar o livrinho da minha Mariana, e descobrirão, como eu descobri, que a moça não brinca mesmo em serviço: a mina de ouro, segundo ela, está no mercado. O super. Mais precisamente, na prateleira dos congelados.

- É verdade! Conheci o Antônio nos congelados. Antigamente, eu me arrumava toda, e saía à noite. Tolice. Coisa de gente que não entende nada do assunto. Amadorismo! Assim que me profissionalizei, descobri o óbvio: eles estão na prateleira dos congelados! Estão todos ali, disponíveis... homens solteiros, homens separados, amantes do microondas, afogando suas
mágoas solitárias numa lasanha à bolonhesa... nada pode ser mais romântico!

Realmente, a Mariana vê romantismo numa lasanha congelada. E vai publicar conselhos quentíssimos para as amigas que procuram um parceiro; coisas do tipo: passe um batom, tome uma vitamina "C" (para evitar o resfriado!), e fique horas desfilando diante das portas mais geladas dos supermercados.

Cedo ou tarde, aparece um Antônio, apressado, que vai empilhar nos braços algumas dúzias de lasanhas; aí, é só esbarrar nele. Sim, também você não vai esperar que o Antônio olhe para os lados, né?

Antônio, o nome já diz, é um sujeito extremamente compromissado e afoito. Cabe à Mariana, portanto, derrubar as lasanhas dele no chão. Depois disso, é só correr para o abraço.

- Mas como é que você consegue escolher o Antônio só pelo sabor da lasanha?

- Ah, minha filha, hoje em dia, não se pode querer escolher muito, não! Se ficar com frescura, vai lá outra Mariana, e derruba as lasanhas do partidão! O negócio é ser rápida!

- Sim, mas... algum critério, você tem que ter! Pelo amor de Deus! Não acredito que você possa escolher o marido, assim, no corredor do supermercado, sem critério algum! Nenhuma exigência???

- Vai por mim, amiga: com o meu tempo de serviço, já aprendi que exigência é meio caminho andado para a solteirice crônica. Claro, ninguém é
de ferro. Uma exigência eu tenho, confesso. Mas só uma!

- Qual?

- Não falar "menas". Se falar "menas", eu sinto muito, pode ser a melhor lasanha do freezer, que eu não encaro.

- E "a nível de"? Pode falar?

- Segunda exigência. Abro uma uma exceção: se falar "a nível de", só se for a nível de sexo. Mais que isso, nem pensar!

13 julho 2001



Chega uma hora, na vida, em que a gente cansa de tentar achar explicações para as coisas. Cansa de procurar respostas. Enche o saco de escrever "cansa" no lugar de "enche o saco", e escreve "enche o saco", mesmo.

Chutado o pau da barraca, o que vier é sempre lucro.

Sem-vergonha dessa vida, viu? Parece que a gente vive na "peia", como diz um sábio amigo, mas, a bem da verdade, deixando-se de frescuras, o que sobra da batalha é justamente aquilo a que viemos. E a luta, não sendo lá muito sangrenta, já vale só pelo movimento que proporciona. E a vida - que até sangra, mas não morre! - é o quê, se não essa bagunça crônica, que, pouco a pouco, vai servindo para nos organizar por dentro?

Até a hora de nossa morte, amém.

Feliz do bebê que já viesse ao mundo com o pezinho pronto pra derrubar o primeiro balde que encontrasse pela frente. Sim, porque o melhor gol é aquele em que a gente entra com balde e tudo, ou vai me dizer que não?

Nunca comemorei nada sentadinha ao lado das minhas neuroses; nunca gritei de alegria enquanto passava a mão na cabeça dos meus limites.

Custei a entender que os dias mais cinzentos da minha vida não foram injustiça dos céus; o que eu via era só o cinza do asfalto, enquanto andava... e andava... louca de medo de me desequilibrar.

11 julho 2001

Não precisava

Em Porto Alegre, agora, dez graus. E vem caindo. E chove que Deus manda. O que foi que eu fiz, hein?

07 julho 2001

Aqui no Rio Grande, tchê, a cousa é muito outra

Aqui no Rio Grande, tudo funciona. Mentira! - diz a minha mãe -, que nada presta aqui também. Não vê o jornal da cidade, por exeplo? Não vê mesmo, claro que não vê, porque não tem.

A mãe até assinava, mas, um dia, chegava às 6h da matina; no outro dia, chegava às 9h. Aí ela já tinha saído; imagina se é mulher de ler jornal à noite. Reclamou três vezes. Cancelou a coisa.

Aliás, a coisa tem sido bastante cancelada, ela me diz, em todos os sentidos. As melhores lojas do shopping fecharam. Os restaurantes preferidos faliram. A maior casa noturna se mudou para outra cidade. Nada funciona! - ela insiste.

Mas tem uma coisa que, aqui no R.S., é bem melhor do que no Rio de Janeiro. E não se discute sobre isso: é o micro da minha mãe. Com Windows 95...

Você imagine que esta é a minha primeira publicação no meu próprio Blog. Sim, porque tive que deixar tudo nas mãos da Melissa, minha paciente (não no sentido de eu ser médica, mas no sentido de ela ter muito saco mesmo) amiga.

Tchê, aqui no Rio Grande a coisa é muito outra. Eu tenho um Blog vivo, bem ao meu alcance, direto dos pampas. Nem consigo acreditar, de tão bom. Melhor que isso, só o chimarrão que estou tomando.

Vais?

05 julho 2001

Vamos escorrer para onde?
Bíbi Da Pieve

No Rio Grande do Sul, nós chamamos macarrão de massa. Tá bom?

É que já vi gente achando estranho; por isso, vou explicando logo na entrada. Muitos dizem, cá um pouco mais para cima do país, que massa é aquilo de que se faz o pastel, a lasanha e a pizza. Enfim, querem me dizer que massa é, imagine!, massa.

Tudo bem que massa seja, de fato, massa. Mas, se assim for, então eu não vejo por que não admitir que aquelas tripinhas feitas de - de novo! - massa também sejam, ora, massa!

Se massa em forma de quadrado (lasanha) é massa, se massa em forma de bolotinha chata (pastel) é massa, e, se massa em forma de bola grande achatada (pizza) também é massa, então, desculpem-me, mas massa em forma de tripinha (macarrão, vá lá!) também há de ser massa, e muito massa.

Tudo isso foi para dizer que, aqui em casa, não temos escorredor de massa. Eu sei que é meio humilhante confessar essas deficiências domésticas, mas, convenhamos, eu sou uma mulher moderna. Compro comidinhas congeladas - light, que não sou boba! -, aperto dois ou três botões, e elas deixam de ser picolé salgado em quatro minutos. Eu disse quatro minutos! Quem é que precisa de escorredor de massa, hoje em dia?

Não fosse esse aborrecido racionamento de energia, ninguém precisaria, realmente, de um escorredor. Acontece que, nos últimos tempos, mulheres e homens modernos voltaram à idade da pedra, das velas e dos escorredores de massa. Eu, de minha parte, acho frustrante ter que aposentar aquela linda caixinha modernosa que descongela picolés salgados, transformando-os em almoço, e ainda - bip!, bip!, bip! - me chamando para a refeição. Mas, fazer o quê?, aposentei.

Não tenho vergonha nenhuma de confessar: comprei vários pacotinhos de massa instantânea (leia macarrão instantâneo, se quiser). Vou fazer almoço, pensei. Imagine que também passei a mão numa lata de atum, e, não bastasse, comprei ainda uma latinha de molho de tomate. Pronto, claro. Tudo muito pronto.

Quando fui ler o manual de instruções da massa-rápida, já me deparei com a primeira surpresa: três minutos? Não pode! Estão mentindo. Como é que vou cozinhar esta coisa em três minutos, e jogar por terra toda a minha teoria de mulher moderna? Não admito que alguma comida feita no fogão fique pronta antes dos meus congelados light.

Deixei cinco. Cinco minutos, só de raiva. E não quero conversa com essa massa metida a besta. Vai ficar cozinhando um minuto a mais do que o meu almoço moderno, sim senhora, ou a minha - bip!, bip!, bip! - caixinha mágica ficará ofendidíssima. Está aposentada, mas não está morta.

Ficou uma papa, é verdade. Mas isso não é nada, perto das minhas convicções.

Tudo prontinho. Atum e molho de tomate já se encontravam juntos, e eu já ia gritando "bip!, bip!, bip!", quando, de repente, dei-me conta do óbvio: havia uma quantidade exagerada de água dentro daquela massa empapada e pretensiosa. E eu não tenho escorredor; essa é a verdade, nua e empaçocada.

Fui com a tampa. Sabe como é? Pega-se a tampa da panela, coloca-se sobre ela, e vira-se o recipiente, com cuidado, dentro da pia. Deixa-se uma pequena abertura, naturalmente, para que a água possa escorrer, deixando a massa em paz, sequinha, lá dentro.

Na teoria, sou uma ótima escorredora de massa. Na prática, choro só de lembrar: foi-se tudo para dentro da pia. O raio da massa antipática, a água, a tampa, a panela, e a minha disposição para afazeres domésticos! Nunca mais.

Quando enxerguei a desgraça acontecendo, juro, pensei no presidente da República. Tinha que botar a culpa em alguém, e não sou modesta a ponto de xingar ministros, senadores; enfim, vou direto ao cume da hierarquia. Ia pelo ralo, naquele momento, toda a minha boa vontade com essa ordinária administração pública, que já vem cozinhando o país inteiro há vários anos - coisa mais antiga!

Perdoe a minha metáfora culinária, mas não pude evitar de ver aquela massa toda entrando pelo cano, e pensar - meu Deus, e agora? Vamos escorrer para onde?

29 junho 2001

Estou em obras
Bíbi Da Pieve

Desculpe o transtorno, mas é que estou me sentindo o próprio asfalto esburacado, em carne e concreto. Não posso escrever um texto agradável. Sinto muito. Estou em obras.

Se não for pedir demais, por favor, não perturbe. Não se deve provocar a ira de uma mulher em obras. E depois não diga que eu não avisei.

Por falar em aviso, já tratei de encomendar dois cones, daqueles bem chamativos, para colocar em volta de mim. Assim, ninguém vai poder se queixar da falta de sinalização.

Quatro! Dois cones é pouco sinal, para muita obra.

Seria ótimo se os helicópteros também colaborassem, mandando informações sobre o trânsito que vem a mim. Se todos ouvirem rádio direitinho, sabe como é, há outras vias, outros acessos, outros viadutos, enfim, torço para que a grande maioria se perca no meio do caminho e vá
parar, de preferência, na extremidade oposta à minha (para não dizer coisa pior). Evitarão, assim, os engarrafamentos quilométricos. Sim, porque estou em obras.

Seis! Estou achando que seis cones seria a quantidade mais acertada. Isso mesmo. Está decidido: seis cones.

Perdoe alguma vírgula mal colocada, alguma palavra não acentuada, alguma letra trocada. Não é fácil escrever uma crônica quando se está em obras. Prometo que dou um jeito nisso tudo, assim que as britadeiras pararem de fazer tanto barulho em mim. Impossível me concentrar desse jeito.

Sete cones, e não se fala mais no assunto. Um pra enfiar na cabeça.

Eu sei que não é a coisa mais agradável do mundo ler um texto esburacado, interrompido, sinalizado e engarrafado, mas, fazer o quê?, é o que temos, e acabou-se. Quem não gostar, eu sinto muito, pode acessar outra crônica, outra coluna, outro site, enfim, vá rodar em outras estradas, porque aqui a coisa ainda vai demorar um bom tempo para se resolver.

Estou em obras, meu amigo, e se dê por satisfeito - que ainda não estou cobrando pedágio. Por enquanto, mantenho a sanidade mental, e tenho plena consciência de que, infelizmente, a culpa é toda minha. Eu que me vire, portanto.

Não investi o suficiente? Resolvi economizar no material? Não me preocupei com a manutenção? Então. Eu que me vire.

Morar no Rio de Janeiro é maravilhoso, mas tem um fator negativo quase fatal - você pode estar passeando pelo shopping, inocentemente, e topar com a Carolina Ferraz, deslumbrante, bem ali, na sua frente. Isso é
como assalto: a gente sempre pensa que só acontece com os outros.

E não há mulher que não se sinta em obras depois de um tiro desses.

Tudo bem, confesso que exagerei. Foi só um ataque passageiro de futilidade, uma coisa momentânea e boba. A beleza é uma coisa muito relativa. Já ouvi dizer que a beleza está na cabeça das pessoas. Beleza interior. Ora, a estética. Logo eu. Coisa mais superficial. Cada pessoa tem um tipo diferente de beleza, é isso mesmo; passou, passou o susto, passou o transtorno, passou o congestionamento, passou tudo. Foi só uma crise. Estou muito bem, obrigada, e até a próxima crônica.


P.s.: E se eu mandasse fazer um cone do tamanho do Pão de Açúcar, e me enfiasse ali embaixo até o último dos meus dias?

25 junho 2001

Lori, querido. Faça alguma coisa pela nossa amizade que cheira a
mofo. De tão antiga, entenda-me bem.

Ocorre o seguinte: eu tenho um blog. Sabe o que é um blog? Calma,
não é maligno. Blog é a nova "mania" da internet. Um site bem simplesinho,
para e-gnorantes. Tudo é extremamente rápido e fácil num blog. Você publica
o que quiser lá, sem precisar de entender essas web-linguagens.

Maravilha, né?

Acontece que um blog não faz milagre, meu amigo, e o meu micro-leão
não suporta, não entende, não publica e não edita nada. Só complica, o infeliz.

A Melissa Mattos - www.enghaw.com.br -, minha amiga e paciente (não
no sentido de eu ser médica, mas no sentido de ela me aturar), foi quem fez
o meu blog. Lindamente, como tudo o que ela faz. Está lá, a coisa; pronta e
eficaz. Mas eu não consigo publicar nada, porque, segundo a própria Melissa,
"desse jeito esse micro nao entra nem como parte na troca..." (ela usa muito
as reticências, já observei; as reticências são ou não são o Comfort de uma
frase? São, sim. Amaciante... amaciante... amaciante... Viu?)

Venho, por meio deste e-mail, pedir encarecidamente que você
publique qualquer coisa minha lá no blog. Não; qualquer coisa, não. Publique
isso aqui, e nada mais. Pode ser? Mui grata. E, de mais a mais: não basta
ser baterista; tem que participar. Um abraço,

24 junho 2001

testando o Blog