14 abril 2005

Propaganda de uma pousada (para o feriado):

"Tiradentes cai na quinta-feira. Para comemorar, enforque a sexta."

Hoho.

***

Mandei o sofá velho para o estofador. Quinze dias depois, o sofá voltou - novinho, novinho. E vermelho!

Ontem, batia papo no Messenger com as amigas, e não me continha:

- Posso te mandar umas fotos do meu sofá??? Diz que sim...

As pessoas mandam fotos dos sobrinhos, dos gatos, da filha com roupinha de ballet etc. Eu mando do meu sofá.

Fiz um e-book do sofá. Sofá com almofadas. Sofá sem almofadas. Sofá visto de cima. Sofá visto de lado. Sofá com zoom. Sofá sem zoom. Sofá e poltronas. Sofá com abajur aceso. Sofá sem abajur. Modéstia à parte, meu sofá fotografa bem pra dedéu. Ih, abalou.

Esperem só para ver quando eu colocar as cortinas...
Quanta bobagem a gente recebe por e-mail, não? Não agüento mais aumentar o tamanho do meu pênis, por exemplo. E o trabalho que vai dar, depois, para erguer esse monstro do prazer? Haja comprimido-guindaste. Tô fora.

(Está bem que não tenho pênis. Trata-se de licença poética, meu bem).

***

Estávamos no mezanino do restaurante. Lá embaixo, em mesas separadas, dois casais. Brincávamos de adivinhar a idade deles.

- A morena tem 40. O marido, 40 e poucos.
- Tá doida? Aquele cara tem mais de 50! E ela, menos de 40.
- É, ela pode ter uns 39...
- E ele passou dos 50! Lógico! Um absurdo você achar que ele tem 40 e poucos!
- Pode ter 49...
- Mais de 50. Mais!
- Como é que você tem tanta certeza? É porque é meio careca? É porque está grisalho? Nem dá pra ver direito o rosto dele!
- Cabelo branco no braço. Um homem só tem cabelo branco no braço depois dos 50.

É de se pesquisar.

***

TERÇA INSANA

Passando pela sua cidade, não perca. É um grupo de atores de São Paulo (se bem que reconheci sotaque gaúcho em, pelo menos, duas atrizes) que começou fazendo experimentação num teatro pequeno, depois ganhou mais espaço e agora viaja pelo país apresentando os melhores momentos dos quase 300 espetáculos já realizados. É de chorar de rir.

Os (seis) atores também são autores, e a peça consiste em pequenos monólogos hilários – cada personagem retrata um “tipo” da sociedade atual, carregando na ironia, no humor, na maquiagem, no figurino. Tudo é exagerado, e tudo é bom demais.

Para mais detalhes (inclusive agenda), visite o site oficial.

08 abril 2005

Buenos Aires

Então eu fui a Buenos Aires, cidade que eu não conhecia e pela qual me apaixonei, de pronto, assim que saí do aeroporto e um vento geladinho bagunçou meus cabelos. Nota da produção: “bagunça” gera uma sensação-relâmpago de - ooooops, cadê as coisas, cadê eu? -, e o que se segue a isso é, geralmente, friozinho na barriga (mais) disposição para criar uma nova ordem (mais) ânimo (mais) inspiração (mais) excitação. Ou não! – isso depende do vivente.

De qualquer modo, fui muy feliz ao chegar lá, com “bons ares” – captou o trocadilho? - me recebendo antes mesmo de questionar a minha graça. Gracias! - respondo a tudo, até porque não sei dizer outra coisa em castelhano.


E quantas graças!

E por falar nas graças e nas gracias, quantas praças! Buenos Aires é uma grande praça florida com uns pedaços de cidade no meio. Árvores velhinhas, pero enxutérrimas, abraçam os desavisados, aqui e ali, e não se pode escapar do colo dessas vovós verdes – algumas com lindas pulseiras cor-de-rosa enfeitando e perfumando todo ambiente. Muitas, muitas graças a Deus.


Cafés cenográficos

Inventaram a máquina do tempo, e não me haviam contado!

Entrar num café tradicional, bem no centrão de Buenos Aires, é uma roleta com sinal verde para o passado; até parece tudo de mentirinha. As senhorinhas bebendo chá, os senhores com seus petiscos, os garçons mal humorados... pensando bem, tudo combinava ali. Eu é que entrei de penetra. Uma mulher cenográfica num café de verdade – era isso que eu (não) era.


Pecadinhos

Minha-Nossa-Senhora, como se come bem naquele lugar!!! E barato. O número de padarias, confeitarias, cafés e demais lojinhas pecaminosas que exibem, sem vergonha alguma, quilos e quilos de doces coloridos, cremosos e açucarados nas vitrines – eu disse vi-tri-nes! – é algo impressionante. A gula é um pecado inevitável. Com a graça de Deus, pude cometer outros. Amém.


Não é proibido fumar

Em lugar nenhum. E sabe o que os argentinos fazem? Fumam em todos!

Em ambientes pequenos e fechados, inclusive. O motorista do táxi fumava enquanto dirigia. E não usava cinto de segurança. Aliás, nenhum deles usa. E os carros são velhos, muito velhos. Alguns, caindo aos pedaços.

Cruzar a cidade num táxi é ter a sensação de tê-la cruzado a cavalo. A bunda, eu digo.

Ai, que exagero.


Ai, que exagero! – O Tango

São as influências do tango. Que eu já conhecia, claro, e gostava muito – porque, de tango, ou se gosta muito, ou não se gosta nada. Aliás, é primo da nossa velha e boa milonga dos pampas. Mas eu nunca tinha ido a um show de tango. De modo que aproveitei a virgindade e dei logo dobrado: fui a um show só de música, e a outro de dança. Te mete.

Que delícia, o tango! Um exagero de bom. No palco, um bailarino sacode uma mulher de borracha no ar, e segundos depois ela está firme e tesa no chão, a dividir compassos como quem negocia a vida, como quem decide um amor. Me dá um arrepio gelado; o tango é emocionante. Me dá um calorão súbito; o tango é sensual. Me dá uma sensação de força e leveza ao mesmo tempo.

O vôo da mulher de borracha e o pouso da mulher de ferro – a mesma mulher, macia e contundente, frágil e bruta, flexível e fixa.
Me dá uma baita comoção.
...
Me dá o prazer desta contradança?


Língua

Tá bem, todo mundo arrisca um portunhol. A gente sai daqui certo de que vai abafar. Chega lá, babaus: aquele povo fala muito rápido! Várias vezes, tive vontade de voltar a fita. Algumas vezes, de perguntar – TÁ COM PRESSA? Eeeeeu, hein?

Não ia adiantar nada. O argentino não é muito bom ouvinte; assim como não respeita as faixas de segurança no trânsito (aliás, como nós outros), também atropela as suas pobres investidas – si... pero... como? – e segue falando como se não houvesse interlocutor vivo. Sobretudo se a pessoa for meio tímida, como esta que vos fala.

Melhor é fazer como eu. Disse “gracias”, ininterruptamente, e me senti absolutamente segura com as únicas duas palavras que aprendi em espanhol durante a estada – e que foram suficientes para a minha sobrevivência na Argentina. Mas pronunciei sempre com atitude, não raro com o dedo em riste (juro):

- COCA LIGHT!

O quê?? Precisa ver como me respeitaram.

06 abril 2005

Estive viajando desde a Páscoa. Já estou de volta.
Peço desculpas aos leitores mais fiéis, e prometo fidelidade aos mais relapsos. E vice-versa.
Principalmente, pô!

Já volto. Inspiração não me falta. Falta tempo.
Beijocas apressadas.

26 março 2005

Coelho etc

Eu gosto de Páscoa. Tinha aquele negócio de procurar os ninhos - meus pais enfeitavam caixas de sapato e enchiam de ovos de chocolate, depois escondiam pela casa e punham a culpa no coelho. Era divertido; eu quase não dormia na noite anterior, imaginando que o bicho, distraído, podia não me ver e passar correndo pelas minhas costas – aí eu ia morrer de susto, e o bicho idem, coitado, de nervoso, vai ver até que podia evacuar chocolate em cima de mim. Fresquinho!

E eu, que sou gente, ia evacuar coisa de gente mesmo. Sempre tive a barriguinha sensível para sobressaltos - puxei a meu pai.

Aliás, eis aqui um dado importante que talvez explique muita coisa. Diz-se que, quando minha mãe começou a sentir que eu estava querendo sair da barriga dela, meu pai sumiu e não houve quem o encontrasse nas próximas horas. Foi achado, tempos depois, vigiando a porta de um banheiro público. Se alguém se aproximasse, ele punha a mão no trinco, do lado de fora, e fazia uma cara de quem diz – “está ocupado há hoooooras, haja paciência... tem certeza que vai querer?”

Estava ocupado, nada. Estava era ele com medo de que o sujeito usasse o banheiro por, sei lá, cinco minutos, e aí o azar teria sua chance. Melhor era garantir o lugar vago; nunca se sabe exatamente a periodicidade do, digamos, do nervoso da pessoa.

Chegou a tempo de me ver estrear neste mundo, é verdade. Mas não abandonou o banheiro amigo antes do terceiro sinal.
Dão sei o que foi que eu fiz bara berecer isso

Santo Deus, como chove neste feriado santo!
E eu peguei aquela gripe. Aquela, sabe? Eu espero, sinceramente, que você dão saiba.
Atchim!


Ponto P

É muito bom aquele programa “Ponto P.”, da MTV. A voz da Penélope é esganiçada, o jeitão dela é escancarado, as tatuagens são exageradas, os decotes são... enfim, tudo combina com tudo ali: tudo é over-sexy-plus-a-mais. Hilário.

Para quem não sabe, trata-se de uma espécie de nova versão (sem trocadilho com Penélope Nova) do Erótica MTV. As pessoas ligam para lá pedindo conselhos e dicas sobre sexo. A Penélope foi escalada, sabe Deus por quê, para ajudar os aflitos. E mais atrapalha que ajuda, claro.

Mas hoje eu fiquei com pena de uma moça. 23 anos, nunca havia beijado na boca. Disse que ainda não encontrou um cara legal para namorar, e não está a fim de beijar qualquer um. Penélope não ouviu nem mais um pio. Desandou a esculachar a menina, dó nem piedade.
“Na boa, você não é desse mundo!”
“Você devia entrar, sei lá, para um convento!”
“Porra, você é BV (Boca Virgem), gíria de adolescente!!!”

Sacanagem, isso. No mau sentido.


Dino, eeeeu???

Nunca me esqueço, faz uns dois anos, eu estava em São Leopoldo – RS, minha terra. Encostei o cotovelo no bar e me pus a trocar uma idéia com um guitarrista, amigo de outros carnavais - tocávamos juntos na noite, rivalizávamos entre as bandas, falávamos mal das canções alheias, enfim, essas coisas de músico. O papo estava bem gostoso, até. Foi quando chegou um rapaz, e nos reconheceu a ambos. Apontou com o dedo, admirado:

- Mas olha só, que super coincidência! Dois dinossauros do rock se encontrando nesse bar hoje! Data histórica, hein? Vamos tirar uma foto?

Sorri amarelo, enrugado, desidratado, opaco, insosso. Murchei. O pior (e o que mais envelhece) é o não-poder-dizer.

Camarada, dinossauro é a senhor sua mãe.

Não sei por que me lembrei disso agora. Maldita memória jurássica, a duelar com minhas cosméticas boas intenções. (Será que o creme não compinsa?)


Visita de mamãe

Minha mãe me encoraja a fazer as coisas. Acho que este é mesmo um papel fundamental da maternidade: ao ver que o filho está à beira de um abismo, ajudá-lo a dar um passo adiante. Hoho.

Mas ela em muito me ajuda, é verdade. Ultimamente, tem me estimulado a gastar. Indireta e suavemente, claro, como toda mãe deve proceder. Jogou metade das minhas coisas fora, praguejou sobre as minhas panelas, botou defeito na vassoura, veio abanando a pá do lixo no ar: “isso aqui não presta, filha, põe fora e compra outra!”.

Realmente, a pá do lixo não se prestava a recolher a poeira mais fina. Faz sentido substituí-la, e eu vinha pensando no assunto. Havia meses. Confesso, quase um ano. Mas era um pensamento que ia e vinha, ia e vinha, ia e... minha mãe veio e acabou com a brincadeira. Mãe serve para a gente parar de pensar na pá do lixo. Põe fora e compra outra, pô. E ela diz isso com um desprendimento que só as mães têm.

Para ser sincera, a única novidade na minha casa que mereceu elogio foi uma cumbuca de louça branca... que eu ganhei de presente. Linda, é vero, mas eu não achava outra utilidade – além de fazer molho para saladas, e não sou craque nisso. Nem um pouco. Está bem, meus molhos empelotam. Ou ficam aguados. Ou os ingredientes não se dão bem entre si, não pegam amizade, sei lá, que inferno, não se entrosam – e me perdoem, mas não tenho paciência para discutir a relação com temperos temperamentais e azeites escorregadios!

Pois bem, minha mãe achou umas dez utilidades para a tal cumbuca. Assim, ó, com o pé nas costas. Ê, raiva!

Mas não tem nada. Ainda cresço e apareço, vou bem botar defeito lá na pá da casa dela, vai ver só.

E ainda meto a mão na cumbuca.

20 março 2005

Entrevista

Saiu uma entrevista comigo no site Webwriters Brasil - edição de março.
Para acessar, clique em mim aqui embaixo.

18 março 2005

História de taxista


O motorista desandou a falar feito uma matraca. Contou que, quase 20 anos atrás, foi levar uma cantora famosa (não digo o nome, ando pegando tudo que é gripe, vai que pego também um processo, Deus me livre) até a casa dela, que era aqui no Recreio, e quase morreu de arrependimento. Diz que a mulher bebeu todas e veio aprontando da Lagoa até aqui, passou na gravadora (Barra) e xingou meio mundo, depois xingou a mãe de três policiais que pararam o táxi – e ele, claro, morrendo de medo.

Resumo da ópera: saíram da Lagoa às 3h da tarde, chegaram no Recreio perto das 5h da manhã. Ela o mandava parar em tudo que era boteco, e arrumava uma confusão maior que a outra. Sem contar que fazia xixi na rua, na frente de todo mundo. Váááárias vezes.

Quando, finalmente, ele parou o táxi em frente à casa dela e pensou que tinha cumprido a missão, ouviu o seguinte:

- Seu filho da puta, some daqui e eu não vou te pagar nada!!!

Foi embora. “Queria mais era me ver livre dela mesmo”.

No outro dia, ele teve que passar na gravadora para devolver umas coisas que ela havia esquecido no táxi. Ela estava lá, pediu mil desculpas e pagou a corrida. Umas funcionárias foram consolá-lo, dizendo que ela era assim mesmo. Aprontava todas, bebia fiado, brigava com todo mundo. No dia seguinte, fazia todo o trajeto de novo – pedindo desculpas e pagando o povo.

No fundo, era gente boa.

Trata-se de uma mulher que usava drogas pesadas, como era sabido. Hoje em dia, parou com tudo. Benzadeus.


?Hein?

- Uma coca light e um guaraná diet, por favor.
O garçom vai lá dentro e volta:
- Olha, o guaraná diet só tem do normal.


Chico

Ela veio passar uns dias aqui no Rio conosco. Meu pai, marido atento:

- Cuidado aí com o tal de Chico. Foge desse cara, que ele não tá respeitando mais ninguém!
Hoho.

13 março 2005

Não sei explicar

Mas é muito legal. Clique aqui e confira.

***

Calor tremendo por aqui. Meu irmão disse que, em vez do ônibus, tomou uma van para o centro da cidade. Adorou. Diz que é ótimo ficar ouvindo as conversas das pessoas dentro da van.

Um sujeito fazia o seguinte discurso:

- A pior classe é a classe média. Nunca vi. Comem sardinha e arrotam salmão. Um horror. Tá vendo esses carros na rua? Tudo classe média. Compram carros a perder de vista, sabem que não podem pagar, mas compram assim mesmo. Olha esse, olha aquele outro! Tudo no carnê!!!

E o outro emendou:

- É por isso que eu gosto da morte. Não faz diferença de raça, classe social, cor. Leva todo mundo embora do mesmo jeito.

E esbanjava tal intimidade com “a morte”, quem olhava dizia até que já havia estado com ela.

***

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite e a chuva que cai lá fora

Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece no quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

(Caetano)

11 março 2005

Sina


A Cíntia me contou que saiu na rua um dia, de bicicleta, e tinha tanta tristeza por dentro que imaginou que as demais pessoas do mundo tinham a obrigação – ela gritava, obrigação! – de consolá-la. O que fazia aquele estranho garoto de dez anos, arrastando um skate, perdido, suado e desgrenhado, que não estava lhe oferecendo colo? Por Deus, ela só queria um colo!, e tinha tanta gente na rua. E nenhum consolo, nenhum colo.

O que é que fazem as pessoas lá na rua, afinal, enquanto a gente sofre aqui por dentro?

Ela saiu pedalando, assim, do nada, por desaforo mesmo. Quero ver a cara do povo numa hora dessas. Quero só ver a cara deles. Quem vai ter a explicação, quem vai me pedir desculpas por estar distraído olhando as árvores – enquanto eu, tonta de ódio, choro, perda, inconformada, insana, tresloucada, doida varrida, eu não consigo sequer desviar os olhos de mim - e, mesmo assim, fixa e obcecada em mim, sigo não enxergando absolutamente nada?

O pior do sofrimento é a cegueira repentina que ele provoca. Some o chão, some o céu, somem as árvores. Sumiu a vida, sumiu a bicicleta. E a Cíntia sofria de uma terrível falta de tato. Coitada, além de cega era míope.

Não achou consolo nas entranhas nem nos estranhos, não encontrou razão, motivo, nem uma pista, indício. Botou a culpa na sina. Sua avó dizia, é sina, tudo era sina, e a Cíntia também tinha essa doença, então estava resolvido, era como um vírus: pobrezinha, está com sina. Que pecado, uma guria tão bonita.

Voltou para casa, às cegas, mal e porcamente tateando o portão, o caminho, as grades, a porta, o cachorro e a caixa de correspondência. Não havia correspondência alguma. Nada correspondia, ninguém era correspondido. Zero.

O caminho era escuro, o cão era mudo, a porta era dura. As fechaduras que a Cíntia nunca soubera mesmo manipular. Não sabia se abrir, não cabia se fechar. Sentou-se então na varanda - à beira da rua e à beira de casa, no meio, onde não é lá nem cá, no quase, no praticamente, no não concluído e nem começado, no caso abortado, na desistência da experiência, ali onde a vida se insinua e se renuncia ao mesmo tempo, egoísta, não oferecendo chance de avanço ou retrocesso aos mortais.

Ali não existia ninguém, e nem poderia, porque ali não há. Ali se aguarda, nunca se parte. Ali já se partiu, mas ninguém pôde provar. Não há rastro, poeira, dor, história. Ali se anestesia, e só.

Ali a Cíntia encontra paz.

E as pessoas da rua nunca mais a viram por lá.

10 março 2005

As pontas do tempo


Vieram muitas coisas à minha memória nesses dias. Sempre tive a sensação (ilusão? - eu gosto igual) de que, em determinados momentos da vida, as pontas dos lençóis vão se encontrando - e a gente vai dobrando o tempo, aqui e ali, unindo passado e presente num só gesto, numa só reflexão, sacada. Às vezes, num só golpe.

Mas tudo isso é fazer a cama dos dias. Não importa se mais ou menos doces, mas dias, dias e dias – é o que temos por aqui.

Em alguns dias, parece que a coberta encolhe a ponto de se tornar um lenço - e aí se aproveita para chorar. Noutros, sentimos como a navegar por lençóis d’água tão imensos, tão frescos e tão macios, que nos resta relaxar e gozar o balanço. Sem questionar a estrutura da cama, se há cama, se há guarda, se há chão, céu, qualquer porcaria que se crie para submergir de um sonho bom. Épocas de lençóis d’água, das quais herdamos memória aquática - aquela imagem sutil, azulada, tenra, difusa. Bêbada. Algumas coisas eu nem sei se aconteceram de verdade, em qual verdade se deram, em qual colchão ou espuma de realidade. Mas juro que vivi.

Unir as pontas do tempo é lembrar uma fantasia de infância, sem pé nem cabeça, que um dia então inventa de cair – cabeça, pé, corpo, saias, rendas e babados – na sua fase adulta, na maturidade, na velhice. Você arruma um emprego qualquer e o lençol apresenta suas pontas: cai uma pluma do passado no agora, e o barulho produzido é coisa que não se explica. Se apavora, se estranha, se reza, se benze, se admira e se convence. Ou não se convence. Mas a cama vai se fazendo igual, independente da crença.

Eu já me peguei tropeçando nas minhas tranças de menina. Desavisada, achei que eram cobras. Atrevida, quis matar no tapa mesmo.

Só percebo
que são as pontas do tempo
quando abro o berreiro
e não sei mais se sou
a mulher
que chora pelo medo das cobras que não morrem
ou a menina
que chora pela dor dos tapas que não matam.

08 março 2005

Felicidade:
O quadro perfeito
sem a moldura

Às vezes espalha
por tudo

Às vezes escapa
por nada.

03 março 2005

Estou digitando direto aqui na página do Blogger, sem editor de texto e num teclado estranho. Perdoem qualquer letra trocada, please.

Chove sem parar aqui no Rio. A temperatura baixou um pouco, chegou a um nível em que a gente até consegue variar um pouco o pensamento. Nos último dias, vinha pensando uma palavra só: quero-me-atirar-num-poço. Ponto final.

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Vocês viram o Oscar?

A moça do Titanic (que também fez o ótimo "Bilho eterno de uma mente sem lembranças"), vestido e olhos azuis, era a mais bonita do fandango. (Fandango é melhor que "cerimônia", não é? Mais animado).

Johnny Depp tenta fazer o tipo estiloso, coitado, mas acaba ridículo mesmo. Julia Roberts continua linda, e não dá sinais de desistir. No DiCaprio eu não vejo qualquer graça.

Al Pacino, ô, envelhece bem.

Melhor ator para Jamie Foox (Ray Charles), achei superjusto.

01 março 2005

Saudade


Não essa saudade de longe, de um passado remoto, da infância, dos doces, das mãos macias da mãe na nossa testa conferindo a febre. Saudade de perto. Saudade só de rosto, saudade preto e branco e 3x4.

Saudade do que se viu no espelho do banheiro um dia desses - num desses dias que não sabem se vestir conforme a idade que têm: pernocas de fora, teimam em parecer eternamente ontem.

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Agarrou


Não sei de outros estados, mas o carioca diz uma coisa muito engraçadinha que é “agarrou” – para quando alguma coisa ficou presa, trancada, mesmo enguiçada em alguns casos. Então, diz-se:

- Ih! Cuida ali, que o portão ficou agarrado...
- Abre o vidro (do carro), que o cabelo dela agarrou na janela!
- Puxa com força, que essa porta é assim meio agarrada mesmo...

No RS, agarrar é muito mais usado em casos onde o sujeito é um elemento humano; ou, pelo menos, um ser vivente. Dois namorados se agarram. Vá lá, o cão agarra a cadela também. Mas, esse negócio de porta agarrar, primeira vez que vejo é aqui no Rio.

Minto. Minha avó (gaúcha) já dizia:

- Fulano era um baita vagabundo. Foi a mulher engravidar, ele garrô a trabalhar feito um cavalo!

Mas aí não é agarrou. É garrô. E tem o cavalo, né.

Enfim, regionalismos.

24 fevereiro 2005

Pazes

Voltamos às boas, o servidor e eu, como podem notar. Sempre por intermédio de amigos, claro, porque eu não converso diretamente com ele. E – devo dizer - muito menos ele comigo.

***

Da Conceição, minha manicure predileta, que voltou a trabalhar no salão – não o meu predileto, mas o mais próximo:

- Negócio é o seguinte, dona Bíbi. Quando eu amo, eu amo. Quando eu odío, eu odío!

***

Olha a folga do cara da farmácia. Fui pagar uma vitamina C e uma pasta de dente. Ele, animado:

- A senhora é assinante do jornal O Globo?
- Sou, sim.
- Está com a carteirinha aí?
- Estou. Tem desconto, é?
- 12%, senhora. Não é legal?
- Muito.

Enquanto ele mexia no computador, observei que havia também desconto para segurados do Bradesco Saúde.

- Tem também desconto para o Bradesco Saúde?
- Ah, tem sim, mas é só para alguns medicamentos.
- Vitamina C, não?
- Deixa eu ver aqui... olha, tem! E o desconto é ainda maior: 20%! Olha que máximo!

“Olha que máximo”. Tá bom.

- Não quer aproveitar e levar mais uma, senhora?

Caí na cantada dele. Aceitei mais uma vitamina C. Pra quê? Parecia que eu tinha aceito um drinque num barzinho de beira de estrada. Ele era só sorriso. E tinha um par de dentes da frente que, por Deus, ofuscava o resto do elenco. Quase as finadas torres gêmeas. Eu só queria ir embora dali.

- Já viu o nosso catálogo? Tem muita coisa com desconto...
- Obrigada, mas estou com um pouquinho de pressa...
- Ah, vai! Dá uma olhadinha!
- Realmente, preciso ir.
- Os protetores solares estão suuuuper em conta. Você gosta de ir à praia?
- Eu? Com essa cor? Tá bom.
- Eu reparei! Com essa pele branquinha, tem que se proteger...

Aí eu não agüentei, e baixei o tom da voz (em uma oitava):

- É. TENHO QUE ME PROTEGER MESMO. TCHAU, MOÇO, TCHAU.

E vim-me embora, me protegendo da vontade de detonar o casal de protagonistas daquela arcada dentária mal projetada. Ele ia ver o que a minha mão branquinha fechada seria capaz de fazer na fachada odontológica dele.
Ah, ia bem ver.

***

Socorro. O Barrashopping está in-tei-ro em liquidação. Pena que a moda verão é/foi tão coloridinha-floridinha-viadinha-sandalinha-rasteirinha-vestidinho-esvoaçante-rosinha-azul-bebê. Passei só olhando as faixas: “60% OFF”.

Estou 100%.

***

Minha faxineira saiu daqui indignada, que não sabia o que estava havendo, se era a cera ou o quê: a ardósia tinha ficado toda marcada. Das pegadas dos meus tênis, aliás.

Dona Leida – eu tive vontade de dizer -, se a senhora não tivesse me avisado, eu jamais teria percebido. Marcas? Pra mim, tava um espelho.

Ando mesmo precisando ir ao dermatologista.

16 fevereiro 2005

Testando. Problemas. Testando. Um. Dois. Alou.

15 fevereiro 2005

Trabalho sujo
* da série: nós não vale um avulso, mas se ama de balaio.

Estamos olhando um daqueles programas de “transformação” (antes e depois) de um canal a cabo. Aparece a mulher sendo transformada. Maquiagem. Cabelo. Roupas.

De repente, entra uma imagem dela “antes”. Meu irmão olha, compenetrado. Suspira lento, e reflete:

- É... alguém tem que fazer o trabalho sujo.
Insônia em 15 marteladas


1. Deram para fazer obras no apartamento vizinho. Começam às 9h da matina. Todo dia. Sábado incluso. Show de bola.

2. Fui jogar o lixo no duto hoje, e dei uma espiadela para dentro. Estão derrubando é tudo. Vai sobrar pouco. Olha, nota 10.

3. À tarde, não bastassem as marteladas – que deveriam produzir um efeito relaxante, ao menos neles -, deram para brigar. Bem alto. Um se pôs contra o outro, a gritar.

4. “TU AGORA VAI MANDAR NI MIM? VAI MANDAR? TU AGORA É QUE VAI MANDAR NI MIM, É ISSO???” (Furioso, o do ni mim. Do outro – aquele que, supostamente, mandava - não ouvi palavra).

5. Fiquei aqui bem quietinha, com medo do pior.

6. E o pior se sucedeu. Ou seja, ninguém matou ninguém, e a destruição das paredes prosseguiu. Na mais perfeita paz.

7. Mas podia ter sido diferente. Tivesse o Mandão Mudo alterado – ou sequer emitido! - a voz com o Gritão Ni Mim, quiçá eu acabasse testemunhando uma tragédia grotesca. Martelo em punho, um ofendido Ni Mim estraçalharia a cuca do colega Mandão (agora Fônico, ex-Mudo), dó nem piedade, até que o sangue do atrevido se misturasse à tinta amarelo-manga cuidadosamente selecionada pelos...

8. Cruzes! A propósito, quem foi que escolheu essa tinta???

9. Não vem ao caso, deixemos o mau gosto de lado. Eu contava sobre a sangueira do Mandão (maldita boca!) esparramada pela ardósia do vizinho, atacado que fora pela mão nervosa do parceiro Ni Mim – a essa altura, já ex-parceiro, uma vez que vivo não trabalha com morto; ou, ainda, no caso do Mandão ser do tipo que agoniza-mas-não-faz-a-passagem, na certa não ia mais querer Ni Mim a martelar tão perto.

10. Fosse eu, não ia querer.

11. Tragédia por tragédia, melhor completa. Vamos que Mandão morra. Ni Mim vai preso, e, na cadeia, desprovido de ferramentas para quebrar tijolos e/ou abrir cocos, acaba também se desapegando desses conceitos rígidos - ni mim ninguém manda, ni mim ninguém isso, ninguém aquilo. Com o tempo, esquece.

12. Mas fica o apelido: Ni Mim. Um dia, a psicóloga da penitenciária pergunta se ele guarda alguma mágoa, ou se lembra quem lhe deu tão ímpar codinome. E a ferida se abre outra vez.

13. “Foi a mulher do 103. A metida que me dedurou. Por isso estou aqui.”

14. Comecei a escrever esta merda de madrugada. Agora mesmo é que não durmo mais.

15. E o pior é que as obras começam às 9h. Em ponto.

10 fevereiro 2005

Closer – Perto Demais
Com: Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen


Vocês assistiram?

Eu gostei muito. Bom texto, boas atuações, ótima música. Desconcertante em alguns momentos, cruel, sensível, sobretudo: curioso.

Um nó na garganta se instala logo no início, com uma palhinha da balada “The Blower´s Daughter” - do irlandês Damien Rice -, e termina quando sobem os créditos, com a execução da canção inteira.

Me chamou a atenção, e fiquei curiosa para ouvir mais Damien Rice. A música é triste e bela; é despretensiosa, mas o cantor parece honesto e não tem vergonha de soltar a garganta em certos momentos – diferente daqueles vocalistas depressivos-por-encomenda que a gente está cansado de ouvir desde os anos 90, e que se proliferam, cabelinho de recém-acordado, entrevistas para a MTV com aquele tom aborrecido, pés para cima, tipo: estou no sofá da minha sala e minha mãe me traz torradas quando eu grito.

Para isso, não tenho saco. E não tenho filho desse tamanho – por mim, morre sem torrada.

Não conheço Damien Rice, mas a primeira impressão foi boa. Se alguém tiver curiosidade, pode ouvir “The Blower´s Daughter" aqui (clique para entrar no site do filme, depois procure a música - embaixo, à direita).

04 fevereiro 2005

Folia


Passando por aqui para desejar boa folia aos foliões, e boa folga aos (ops!) folgados.

Eu sou da ala da folga. Gosto de sono espichado, conversa arrastada e calça caindo.

Conto um causo. Teve um carnaval aqui em casa, há uns dois ou três anos, que decidimos “cair na folia”. Sim. Apelidamos os nossos colchões de “folia”. Jogamos a folia toda no chão da sala, compramos litros de sorvete e caímos de boca.
Foi um sucesso.

Ano passado, contudo, inventei de ir ao famoso baile do Scala. Não tinha a menor graça morar no Rio e nunca ter ido ao Scala. Adorei, claro. Mas paguei muito caro, explico: a exagerada aqui foi com um salto deeeeesse tamanho, e pulou a noite toda. “Quicar” seria a palavra exata – sambar, não sambo, me falta talento. No dia seguinte, minha coluna - que já não andava nada boa - deu sinal de que ia pedir demissão.

Fui ao médico, e o diagnóstico me tirou do salto: hérnia de disco. Puxa, como isso maltrata a pobre foliã... judiaria.

Portanto, neste ano não estou para briga. Não me chamem, que eu não vou!

Prefiro manter a hérnia sob controle e os dois pés firmes no chão. Sempre no salto, claro.

Que nóis enverga mas não quebra!