07 abril 2004

Cinema: alguém tem que ceder


Você já viu? Eu vi ontem. Comédia romântica bem legal, rende boas risadas e admiração aos atores principais – Jack Nicholson e Diane Keaton -, impagáveis nas cenas de comédia, honestos nas emotivas, sem cair na canastrice. Taí, gostei do filme.

Ok, a cena em que Erica (personagem principal) envereda numa crise de choro que acaba se transformando numa espécie de transe é, no mínimo, dispensável. Soa como “pelo amor de Deus, riam!!!”. E já estávamos rindo antes disso. Whatever.

No cinema, comigo, meia-dúzia de casais. E a solteirona aqui, única cabecinha que não aparecia com o respectivo par ao lado.

Quando saí, um consolo: uma dupla de cabecinhas que estava logo atrás de mim não era um casal, mas uma dupla de duas. Mulheres.

Se bem que, hoje em dia, não quer dizer que não fossem.


Estética e paciência

Hoje eu vou cortar o meu cabelão, que já está abaixo da cintura, e seja o que Deus quiser. Claro que não farei um corte estilo (new look) Giovana Antonelli, que tenho pavor de imaginar meu cabelo um dedinho acima dos ombros, jamais ousaria. Vamos devagar com isso.

Cortar o cabelo é coisa delicada. Ir a um salão de beleza já é complicado. Um mal necessário, eu diria.

Não sei de você, mas eu jamais me senti à vontade em meio àqueles espelhos todos, mulheres falantes, ruídos suspeitos – como o do secador de cabelos, por exemplo -, cadeiras esquisitas e velhas Caras revistas (em todos os sentidos).

O assunto geral vai de Giseles a Lumas, passando pelas vicissitudes diárias – um marido preguiçoso aqui, uma filha saliente ali, uns quilos a mais, uns reais a menos. E hoje, mais do que nunca: a babá Gecilda, que ganhou o Big Brother.

Além do básico, o acontecimento mais repetido na minha vida desde que me mudei para esta cidade maravilhosa:

- Oi, eu marquei uma horinha para cortar o...
- Seu nome?
- Não, o cabelo.
- Seu nome?
- Bibiana.
- Hein?
- Com “B” de bola. Bibiana.
- Gozado, não tô achando aqui...
- Tenta Viviana ou Viviane. Soletrei ao telefone, mas, às vezes... (sempre)
- Nadinha.
- Já sei: Fabiana. Deve ter aí, marquei para as 16h.
- Ah, correto. Achei. Desculpe, Fabiana, eu...
- Bibiana.
- Hein?
- Com “B” de bola. Bibiana.

E então vem a clássica:

- Seu nome é esse mesmo?

Minha resposta de sempre, com um sorrisinho: “Sim”.
Comentário dela: “Nossa, que diferente...”.
Minha vontade de responder:

a) Não. Bibiana é o nome do meu marido, eu me chamo João.

b) Nada! Estou fazendo uma pesquisa para melhorar o áudio na telefonia, por isso soletro esse nome e depois venho conferir se ouviram certo. Raramente conseguem ouvir. Não é um absurdo? Prazer, eu sou Maria, melhorando o áudio na telefonia.

c) Não, Bibiana é um nome falso, porque sou procurada pelo FBI, tal como nos filmes. Meu crime? Chacinas em salões de beleza. Acertou: o que eu tenho aqui dentro não é um violão.

Escolha a sua preferida, ainda dá tempo.

06 abril 2004

As sobras


Viva a intensidade de cada momento. Viva cada dia como se fosse o último. Viva agora, já.

Se me permitem a ousadia: um pouco a gente vive no ato, outro pouco deixa pra depois. É assim, assim sempre foi, e assim será. E que nos perdoem os livros de auto-ajuda e os consultores de felicidade.

Ninguém sabe dar de si a quantia exata do que seria o “ideal” para aquele momento. Do contrário não haveria os nadadores – que, não podendo encurtar o caminho a percorrer, tentam espremer o instante, e insistem nessa auto-superação ad infinitum.

É o jeito. Fazer planos, criar expectativas, esperar. A última que morre vem daí; esperança tem quem espera. Embora se saiba que a única certeza é a morte, a verdade é esta: ninguém sequer cogita o próprio fim – porque somos humanos, falíveis e, graças a Deus, bastante tolos.

Todas as vezes que estive num momento importante, apenas me virei como pude. Para conter as lágrimas, para não querer engolir alguém de alegria, ou mesmo tentando “aproveitar ao máximo”: tão somente me virei, dei meu jeito. E passou.

Depois fiquei revivendo o recém-ocorrido, com a quantia que sobrou de mim naquele ato. E digo mais: às vezes o que sobra na panela, remexido, requentado, é ainda melhor que o próprio almoço servido ao meio-dia. Tem o gostinho do nosso aprendizado, o tempero de alguma fantasia, uma ou outra frase acrescida de última hora – mesmo que não a tenhamos dito antes, mas caberia muito bem ali, que mal há? Pode vir com alguma saudade (condimento capaz de transformar o trivial em banquete).

Tudo isso é graças à capacidade que temos de burlar o instante, e levar pela vida algumas sobras de nós mesmos. Aquilo que não foi totalmente usado naquele momento, e que, apertando um pouquinho ali perto da tampa, ainda sai.

Ou alguém pode dizer que não sentiu o mesmo arrepio quando ouviu no rádio a música de ontem à noite?

Sem querer fazer um elogio ao ficar-esperando-sentado, ou ao famoso “quando eu me aposentar, serei feliz”, nada disso. Apenas poderíamos nos livrar um pouco dessa obrigação de ir a todas as festas, estar em todos os lugares, ler todos os cadernos de todos os jornais de todos os dias, seguir todas as tendências, e ainda meditar para ficar (acredite!) zen.

Sei que é difícil; que a roda não pára e, às vezes, ameaça passar por cima. Ainda assim, insisto nas sobras. São aquelas respiradas, as pausas, uma ou outra bobeada: os momentos em que “saímos” do momento. Ali, nos guardamos um bocadinho para depois. São elas, as sobras, que nos permitem passar pela vida e observar, refletir, contemplar. Não só correr, fazer, passar.

E, se nada disso lhe parecer convincente: são elas que nos permitem ser jovem aos 80.

04 abril 2004

Rapidinho, enquanto o frango termina de descongelar

Estou melhorando da coluna. Também, já fiz cinco sessões de RPG! Quando parecia que o inferno nunca ia terminar, enfim, saí animada da última sessão. Parece que as dores estão mesmo diminuindo. Não tá morto quem peleja.

DVD

Sex and the City – Divertidíssimo! Assisti aos episódios com a participação da Sônia Braga. Só não entendi por que ela fala português de Portugal, se a personagem é uma artista plástica brasileira.

A isca perfeita (“Birthday Girl”, com Nicole Kidman e Ben Chaplin) – a história se arrasta durante os primeiros 40 minutos, depois melhora e acaba. Filmezinho para passar o tempo, só.

Chocolate com Pimenta

Quando é que os produtores de elenco da Globo vão se dignar a colocar a (lindíssima) Mariana Ximenez no único papel em que ela realmente arrebenta - o papel fotográfico?

Da cor do Pecado

Impressão minha, ou eles estão mesmo queimando cartuchos valiosíssimos – como Vanessa Gerbelli, Francisco Cuoco e Matheus Nachtergaele numa caricata fórmula de sobrenaturalice pastelão, batida e sem graça nenhuma?

Pai Helinho, quanta criatividade...

Celebridade

Enfim, uma novela que dá para assistir do início ao fim. Com escorregadas, claro, que ninguém é de ferro.

Volta e meia, parece que a trama dá uma rebolada e sai dos eixos. Depois volta, mas esquece alguns pedaços.

A Laura, por exemplo, não tinha decidido conquistar o Fernando? Nunca mais falou no assunto... e olha que não se pode dizer que é uma moça que desiste fácil das coisas!

01 abril 2004

Reprise


Dirty Dancing




Quando o Patrick Swayze me olhou com aqueles olhos de quem sabe alguma coisa que a gente não sabe, achei que nunca mais seria a mesma. Enganei-me: estava era começando a descobrir a pontinha do topete das anteninhas do iceberg daquilo que, ora bolas, já nasci sendo: uma mulher comum, fruto da flor que me pariu na primavera de 77.

Uma guria que usou Havaianas no tempo em que ainda não era moda. Uma fedelha que jogava futebol de botão e brincava de Playmobil com o irmão, enfim, uma seja-lá-quem-fosse, apenas e orgulhosamente qualquer mulher, como você e as outras – e até aquelas, ainda outras.

Patrick foi um amor fugaz, admito. Nem cheguei a colecionar meia-dúzia de fotos da revista Capricho. O que mais me abalou naquele verão que não era meu, com aquelas danças que não eram minhas, foi o sopro que veio junto com She’s like the wind.

Aaaah! Esse, sim, era de todas nós.

Dirty Dancing, um filme bobinho e comercial - com uma trilha sonora, ora melosa, ora dançante, com atores tecendo a história munidos de expressão corporal, coreografias e algum carisma. Só.

Não para nós, quaisquer meninas da época. Para nós era o clima: um sopro entorpecente que nos tirava de onde quer que estivéssemos e nos punha dentro de um lago, nos braços de Mr. Swayze, ao primeiro acorde de She’s like the wind.

Outros Patricks vieram, noutros lagos mergulhamos – em muitos, nos afogamos. Tivemos que endurecer um tanto, em respeito aos sutiãs que nossas mães queimaram, ou por necessidade mesmo.

Algumas de nós estão por aí, cravejadas de piercings e com o cabelo vermelho espetado para assustar o Patrick mais ortodoxo. Outras, mais contidas, enfiadas em suas teses de mestrado ou num chat de namoro. Somos meio antenadas, meio fashion, meio siliconadas. Algumas estão casadas com eles; outras, com elas – aquelas, que também somos nós.

Muitas de nós estão atarefadas demais para pensar no Patrick de suas vidas. Preferem o sexo sem compromisso, doses de caipiroska e anos de análise.

Mesmo assim eu duvido que, na calada da noite, alguma de nós ainda não tenha sido atropelada pelo furacão em que aquele humilde sopro é capaz de se transformar – passados 15, 20 anos.

Bobagem de amor romântico, dirão as mais céticas. Tanto faz. Eu prefiro chamar de sopro – ou vento, ou furacão. Um bocadinho de ar que assume a dimensão que damos a ele, mas se movimenta à nossa revelia.

E te digo mais: sou do time que ainda acha que um sopro a mais não faz mal.

28 março 2004

Curtas de um domingo longo


New links

Por acaso as minhas leitoras já conferiram as novidades da lista de links (ao lado)? Para quem não tem absolutamente NADA a fazer, vale o link “plástico de bolha”. Inventam de um tudo, não? Ligue as caixinhas de som e brinque de estourar as bolhas virtuais – ploc! ploc! -, além de se divertir com as mensagens inusitadas (em inglês) que aparecem na tela vez por outra.

Outra pérola anti-tédio é a “bonequinha de papel”. Lembram? Quem foi guria nos anos 80 não deixou escapar uma revistinha dessas, que vinham com a bonequinha de papel para recortar e as roupinhas para ir trocando indefinidamente. Pois, agora, eis a moçoila peladona e suas vestes virtuais – em vez da tesoura, use o mouse. Ainda bem que eu avisei, né?

Na lista de blogs, o primeiro da fila é o da minha cunhada – está atualizadíssimo e de roupinha nova! Beleza Mundana, lindo, lindo.


Ídolo

Meu ídolo da hora (como se vê, mudei pouco desde os 16 anos) é o escritor gaúcho Sérgio Faraco. Comprei um livro de bolso no aeroporto de Florianópolis há dois anos – Melissa: favor não reavivar o episódio, não vamos começar tudo outra vez! -, chama-se “Viva o Alegrete – Histórias da Fronteira”. São contos impecáveis e impagáveis, escritos com classe, humor gaúcho-irônico e muita propriedade.

Agora ando atrás dos outros livros dele – que, aliás, eu já deveria ter lido há muito tempo. Deve ser um melhor que o outro.


Prato do dia: lasanha da cunhada ao molho misterioso.

Estupenda. Magnífica. Suculenta. Picante e suave no ponto certo. Macia, belíssima, enfim: um atentado à boa forma que vem em camadas - e vai em comidas.

Nunca fiz uma lasanha na minha vida. Mal sei do que é feita essa iguaria tentadora, e nem quero saber, Deus me livre de entrar em contato com essas coisas perigosas. As poucas que comi (sem ser de microondas) foram de minha vó Maria, meu pai ou alguma cunhada. Lasanha de cunhada é o que há, devo admitir.

Das poucas qualidades que uma cunhada pode ter (hahahahahahahah!!), fazer lasanha é, sem dúvida, a principal. Lavando a louça depois, então, é quase para abençoar o casório. Eu disse quase.

Acordei com meu irmão cara-de-pau anunciando que fizera uma lasanha. Sei. Obviamente, tratava-se de uma pré-comunhão de bens culinários: meu irmão não faz mais que um churrasco delicioso, obrigação de qualquer gaúcho que se preze, e talvez um miojo com ovo nas horas de desespero. Tinha sido ela, que se calava, num momento de modéstia repentina.

Fingindo acreditar naquela lorota de quinta, fui provar o grude. Qual não foi minha surpresa ao constatar: a lasanha era um escândalo de boa.

Ainda falsamente crédula, fiz o que qualquer leigo faria: perguntei ao suposto autor da obra de que era feito aquele molho vermelho.

- Isso aí? Isso aí é simples. Pega a galinha, taca no liquidificador com uma lata de Pomarola e bate tudo junto.

- Galinha crua??? – duvidei.

- Calma! Bateu tudo? Então põe na panela e ferve. Tudo tem de ferver, pra tirar as bactérias.

- Sei. E o molho branco?

- Branco? É requeijão com maionese light. Põe no liquidificador, bate tudo e depois...

- Depois joga na panela e ferve.

- Isso! Ferve bem.


Depois da receita apurada e detalhada, convido a todos vocês para experimentarem a minha primeira lasanha, no próximo fim de semana.

Quem vem?

27 março 2004

Faz 10 anos, eu tinha um Uno vermelho...


Hoje me dei conta: já faz dez anos. Que absurdo as coisas fazerem dez anos na vida da gente. Faz dez anos que eu tinha um Uno vermelho, e entrava para a faculdade (que ainda não terminei, diga-se de passagem). Uma década.

São Leopoldo, minha eterna paixão em forma de cidade, era muito maior. Pra mim, claro - que estava no meio de uma adolescência tão cheia de buscas, tão sonhadora, tão arrasadora e tão alegre ao mesmo tempo. Parecia que era o começo de tudo: faculdade de jornalismo, viajar com uma banda pelo interior do estado, aulas de baixo.

Nunca me esqueço de algumas fichas que caíram há dez anos. Comprei a Zero Hora, entrei na Unisinos com meu Uno vermelho, fui até uma cantina e pedi um café preto. Coloquei os óculos (que usava raramente, mas era uma necessidade, naquele momento, mais estética que oftalmológica), abri o jornal e, ploft!, caiu: Sou uma universitária.

Outra ficha caiu no dia em que meu Uno estava ausente (emprestei a alguém, ou estragou, não lembro), e eu tinha ensaio marcado num estúdio no centro da cidade. Fui a pé, levando o baixo na mão. Ploft! Sou musicista, quero viver disso aqui.

Impressionante como, com 16 anos, temos certeza absoluta de tudo. Somos amigos de infância de pessoas que conhecemos ontem. Somos fãs de carteirinha de um artista que fez um único show na vida – e não vimos, só ouvimos falar. Queremos ficar junto de alguém até que a morte nos separe – e morremos de 15 em 15 dias, mais ou menos. Que ninguém é de ferro, nem mesmo no alto de seus 16 anos.

Nossas certezas são como rojões na virada do ano – fortes, vibrantes, ai de quem ousar questioná-las. Passada aquela noite, porém, podemos virar a casaca tranqüilamente, como se nada tivesse acontecido. E ainda dizemos: sou gremista desde criancinha!

Por falar nisso, também há dez anos eu fiz um show com uma camiseta do Grêmio (meu irmão/guitarrista vestiu a do Internacional, combinamos a brincadeira). Desci do palco e um colega de escola me puxou o cabelo: “Tá doida? Vai tirar isso! O show está ótimo, mas tá na hora de você se vestir de mulher nos shows!”.

Ploft! Sou mulher.

E foi como recém-mulher que comecei a namorar um guitarrista cabeludo, sensível, um tanto maluco. Segundo meus pais, feio que era um raio. Segundo minhas amigas, tinha lá seu estilo. Segundo eu? Nada disso importava: parecia que ele tinha saído de um filme dos anos 70, calça jeans desbotada, cabelão de samambaia, magro de parecer que ia quebrar, e pronto. Meu ídolo.

Idolatria definitiva, dessas que duram pouco mais de dois meses. Rompi com o sujeito, que se encarregou de se tornar inesquecível: armou um barraco, jurou ser menos ciumento, e mandou flores no dia seguinte, com um pedido de desculpas.

Tudo em vão, claro. Eu já estava sofria pelo próximo homem da minha vida – cujo nome não lembro; esse devia ser avesso a barracos e flores.

Tudo ia muito bem, dez anos atrás, até que dez anos se passaram. Rápida e cruelmente, assim, do nada.

Ploft! Sou uma pré-balzaquiana solteira no Rio de Janeiro, sem Uno vermelho, sem rojões e sem flores. Minha voz ficou mais grave, meu baixo ganhou uma corda a mais; no mais, tudo igual.

Exceto pelo tempo, que passa mais rápido à medida que passamos por ele. Uma sacanagem cronológica, com toda certeza, que nos obriga a armar uns barracos vez por outra – pra mó di pontuar a vida com algum sabor que não seja o trivial.

26 março 2004

Diagnóstico: hérnia de disco. E só!


Logo eu, que mal tenho um disco gravado – ainda não lançado -, agora arrumei uma hérnia no disco. Acreditem, deu no resultado da ressonância.

Querem saber? Estou é de saco cheio dessa minha coluna mal projetada (teria sido obra do nosso amigo Sérgio Naya?). Faz um mês que estou nesta condição ingrata, dói, senta, dói, levanta, estende, comprime, respira... estou quase solicitando às autoridades minha auto-implosão. Quem sabe, reduzindo minhas vértebras a pó, eu possa me livrar mais rápido desse tormento fisioterápico.

(Cara de choro).

Falar em saco cheio, descobri finalmente que tenho um. Saco, sim senhoras. Diz no laudo da ressonância: “Pequena protrusão discal focal póstero-mediana de L5-S1, provocando leve endentação na face ventral do saco dural.”

Meu irmão e eu, dois ignorantes completos, tentando decifrar o laudo – antes de mostrá-lo ao médico, claro:

Eu: Olha aqui... rapáááiz, olha isso...

Ele: Saco? Que saco?

Eu (orgulhosa): Tá aqui, ué. Saco, sim senhor. E mais: saco dural! Tá pensando o quê? É mole não! Saco du-ral! Te mete!

Ele (invejoso): Não pode. Isso tá errado.

Eu: Errado, nada! Saiu na ressonância, é fato.

Ele: Quem diria...

Eu: É, Freud que se morda na tumba... eu também tenho o meu! E, se eu tenho, todas nós temos!!!

Ele: Tu vê...

Eu: Só não entendi isso aqui: “...provocando leve endentação na face ventral do saco dural.” Como assim?

Ele (solícito): Xiiii... não sei. Mas, vai por mim: qualquer coisa esmagando o saco - ainda mais esse teu aí, que é dural! - deve doer pra cacete! Sem trocadilho.

Eu: Agora você entende a minha dor! Finalmente!

Ele (respeitoso): Ô!


Pena que o mistério não durou dois dias.

Minha fisioterapeuta: Aah! Isso é só o nome que se dá à membrana que envolve a medula...

Alarme falso.

Eu, com isso, suspendo as buscas . Afinal, onde não há saco, não há... você sabe.

20 março 2004

Guapo Loko

Fui conhecer o restaurante mexicano Guapo Loko da Barra. Afora o taco (espécie de pastel crocante, aberto, bem recheado, delicioso) e a decoração (doida e legal), o resto difere pouco de um restaurante/boate desses que pululam pela zona sul e quejandos.

Está certo, havia aquelas moças malucas, as “tequileiras”, jogando tequila pura na boca dos viventes que se atrevessem, munidas de um apito estridente - que sopravam, a plenos pulmões, enquanto sacudiam a cabeça da vítima. Divertido, embora um pouco assustador e barulhento.

Para quem não é de tequila e apitos, a long neck (só Miller ou Sol) custa atrevidos R$ 4,00.

Comemos, e fugimos logo. Das moças e dos preços.


Pérola

De um amigo que trabalha numa dessas entidades de serviço social, ao comentar sobre a parte mais chata do trabalho: as reuniões com os políticos locais.

- Impressionante como eles conseguem gastar horas do (meu!) tempo discorrendo sobre inutilidades, considerações que nos servirão para absolutamente nada. Generalidades desconexas, discursos vazios sobre relacionamentos ótimos com fulanos e mais fulanos, e tome cafezinho tarde adentro!

Quando perguntei, afinal, para que serviam as tais reuniões, resumiu bem:

- No fim, é para o seguinte: eles mandam cortar as árvores da nossa fachada, e nós lhes damos convites cortesia para os shows e teatros. Ponto.

Fosse ele o condutor dessas reuniões, na certa não levariam cinco minutos.


Gerando gerúndios

Ouvindo Kleiton & Kledir, aproveitando a trégua do calorão carioca, revendo antigos sonhos, deletando umas convicções, aprimorando outras, esquecendo de me sentir triste (faz tempo), recuperando a coluna e a aura, alimentando alguns planos, desnutrindo outros, rabiscando os versos, arranhando as cordas, tocando e cantando e seguindo as canções, e, sobretudo e incessantemente, procurando a pá do lixo - que a faxineira escondeu não sei onde.

17 março 2004

Pelos tubos!


Ressonância magnética da coluna vertebral.
Segmento: lombar.
Data: 16/03, às 21h.


- Senhora Fab... Bab... Bibiana, por gentileza. Por aqui, senhora.
- Pois não (desconfiada. Era a terceira ou quarta pessoa que gaguejava e chamava o meu nome em menos de vinte minutos. Tudo em vão.)
- Seu vestiário, senhora. É por aqui.
- Sei.
- Um minuto. Pode esperar aí dentro, que eu já vou trazer sua roupinha.

Roupinha? Quem esse médico pensa que é? Olha o meu tamanho! Roupinha?

- Aqui está. Pode vestir o roupão, a abertura é para frente. Fique de calcinha, mas sem sutiã. E tire os metais que tiver pelo corpo. O médico já virá falar com a senhora.

O médico virá? E quem é esse cara de branco, então?

Ah, claro: nas clínicas médicas, os médicos são sempre os últimos a falar conosco. É como no mundo do showbiz, sendo que, aqui, o médico é o artista.

Antes dele, há dúzias de pessoas fingindo ajudar, mas que, na verdade, estão é escoltando – ainda que elegantemente – o “artista”. “Posso ajudar?” “Pois não, senhora?” “Por aqui, por favor.” “Tire a roupa.” “Fique só de calcinha.” – tudo são subterfúgios utilizados para que não perturbemos o doutor-artista antes da hora certa: a última.

- Boa noite, moça!

Aquele era o médico. Só pela cara de quem tinha recém saído do camarim. Roupinha enxuta, engomada, sorriso de cabide.
Eu, em desvantagem: só de calcinha, sim, mas com um envelope branco – que eles chamam de roupão – por cima. E só de meias. (Eles fazem a gente se sentir a última das mulheres, acho que é de propósito).

- Oi, doutor.
- Então, o que houve?

Explico o problema. Em 30 segundos, ele se vai. Para todo o sempre – como os artistas. Fica só o perfume.
Volta o moço que me orientou sobre a calcinha:

- Senhora, tranque seu vestiário e traga a chave.

Lá vou eu, devidamente envelopada.

- Deite-se aqui, de barriga para cima. Vou te dar uma campainha na mão. Se você precisar, é só apertar que eu tiro.
- Tira o quê??? De onde?? (Apavorada).
- Tiro você. Do tubo. Você tem fobia?
- Não sei, vamos descobrir juntos. (Ele ri amarelo).
- Olha só. Vou apertar um botãozinho, e você vai entrar naquele tubo.
- Ali eu não caibo...
- Cabe, sim (impaciente). É melhor que não se mexa. Respire calmamente, sim?
- Quanto tempo eu vou ficar entubada?
- Uns 25 minutos, isso se a senhora me ajudar.
- Vin-te-e-cin-co-mi-nu-tos?
- Sim. Não se preocupe, tudo vai correr bem. Qualquer coisa de que precisar...

Nisso, eu já ia adentrando o tubo do moço, sem muito poder de argumentação. Suspirei.

- Evite suspirar.
- Desculpe, não está mais aqui quem...
- A partir de agora, não se mova, não fale, não suspire. Apenas respire calmamente.

Essa gente é engraçada. Primeiro, testam a paciência da pessoa, chamando para mil perguntas, fichas e assinaturas. Depois, humilham, ordenando: “por aqui”, “por ali”, “só de calcinha” etc. Envelope branco. Médico relâmpago. Finalmente, colocam a pessoa num tubo estreito, ouvindo estalos e ruídos mil, e proíbem qualquer movimento ou atitude característica de um ser vivo.

E tome meia hora lá dentro, fazendo e refazendo mentalmente a lista de compras da semana, contando os estalos, imaginando que se está numa rave ouvindo música eletrônica – tomando o devido cuidado para não xingar o DJ, senão a respiração se altera!

(Meia hora depois)

- Prontinho, senhora!
- Graças a Deus...
- Foi muito ruim?
- Por quê? Foi bom pra você?
- Bom, o exame ficou ótimo. A senhora se manteve calma, o tempo que utilizamos foi o mínimo necessário, e...

- Eu sei, já me disseram: eu fotografo muito bem.

15 março 2004

Estou absolutamente com ela:

“Não gosto muito de homens que pagam uma nota pra cortar o cabelo. Gosto de homens que pagam 5 reais, acho muito masculino e tal.”


DVD



Deixe-me viver (título original: White oleander)

Baseado num romance de Janet Fitch. Drama americano de 2002. Com Michelle Pfeiffer, Alison Lohman e outros.

Sinceramente? Era para ser um drama daqueles de mãe-e-filha, com relações doentias, competição e muito lixo emocional. Na minha opinião é fraco, e carece da síndrome do “baseado-em-livro-que-perdeu-uma-boa-oportunidade-de-ficar-quieto”.

Não sei o que esses produtores e diretores de cinema têm na cabeça, de achar que contratar uma estrela para o papel principal vai lhes salvar de todo ridículo que é forçar uma história que nasceu para ser contada de outra forma. Ou, pelo menos, de forma melhor que a que lhes ocorre na veneta.

Pra mim, ficou apenas o lixo emocional e algumas boas cenas (contadas nos dedos).

Mas eu sou suspeita. Não suporto filme em que um personagem atira em outro só porque não vai com a cara dele, ou porque desconfia de alguma coisa, ou porque está de pileque. Acho que a gente merece um pouco mais do que acordar com o barulho do tiro, e pensar:

- Ué! Será que eu perdi alguma coisa?

A resposta é sempre a mesma: perdeu. Tempo.

12 março 2004

Pingos d’euzinha


Saquê: fim do mistério

Tanto fiz, que consegui. Meu irmão e minha cunhada, leitores assíduos deste blog, não resistiram aos meus apelos (in)diretos: numa passadinha pelo supermercado, passaram a mão numa garrafinha de saquê e me deram de presente. Está certo que tinha pouco mais de 200ml (sagitariana gosta de tudo exagerado, hehe!), mas matou minha curiosidade: até que é bom, tem um gostinho suave. Um pouco enjoativo, talvez.
Pensando bem, que bom que eram só 200ml!

Saúde “como um todo”

Ando almoçando bife de soja, arroz com brócolis, espinafre, peixe grelhado, grão-de-bico, feijão branco... essas delícias naturebas de que gosto. É que arrumei uma empresa de comida congelada que entrega em casa – claro que eu não faço todo esse cardápio, digamos, sozinha comigo mesma! Tem quebrado o maior galho, sobretudo nesses dias em que a coluna não ajuda. Com tanto exercício fisioterápico, correção postural e outras atitudes, digamos, politicamente corretas, a gente acaba pensando um pouco em saúde “como um todo”. Deve ser o tal lado bom da cousa.

TVzeira

É claro que eu ando acompanhando, diariamente, toda a vasta programação que a nossa riquíssima TV aberta nos proporciona. Virei uma TVzeira assumida. Quer saber quem está pegando quem no BBB, quais são os entrevistados do Sem Censura, quantos tostões faltam para a Maria Clara ter que ir vender sanduíches na praia? Pergunte à tia Bíbi. Sem falar no caso Luma, claro!

Baranga, não!

Acreditem. Semana passada, mal podendo me levantar da cama de tanta dor, inventei de passar autobronzeador neste corpitcho desbotado. Quando dei por mim, estava me contorcendo na cama, mais parecia um polvo cheio de braços, no afã de espalhar bem o produto pelas costas (senão fica manchado). Pasmem: obtive êxito! Tanto foi, que já fiz uso desse cosmético milagroso outras vezes – o que tem me permitido manter a peruice, ainda que debilitada fisicamente. Hoje foi a vez da máscara de pepino (Avon, cheirosérrima!) no rosto. Quebrada, sim. Baranga, não!
P.s.: Minha mãe diria: “Filhota, autobronzeador a gente até usa, mas jamais confessa! Que graça?”. Mas eu sou muito confessional, acho mais graça no contar que no fazer. Hoho.


Pessoas que sofrem

Gianechinni sofre de beleza indestrutível (por mais que queira se enfeiar, não consegue).

Clodovil sofre de não dizer nada com nada, em tempo integral, ainda que pareça se esforçar e acreditar – inacreditavelmente! – no que (não?) diz.

Cauã Raymond (o eterno Mau-Mau de Malhação) sofre de ter escolhido a profissão errada, e corre sério risco de ser um eterno um mau-mau-ator – aqui, sofro eu de trocadilho infame!

Gilberto Barros (o “Leão”) sofre de ser o sujeito mais canastrão do horário nobre.

Malu Mader sofre de ser a perfeição em forma de mulher. O interessante é que conheço mais mulheres que concordam com esta sentença do que homens, o que confirma a minha tese: homens não entendem nada de mulheres inteiras; apenas amam esquartejadamente suas “deusas”: picanha de uma, maminha de outra, coxão de dentro, e assim por diante.

Marcos Palmeira sofre de não ser nem um pouco bonito, mas, inexplicavelmente, exalar sensualidade. Deveriam lhe colar um adesivo na testa: “150% Charme”.

Luís Fernando Verissimo sofre de ser o único escritor brasileiro com cara de jazz: você olha a cara dele, e não entende absolutamente nada. É a coisa mais fofa que há. E ainda toca sax (jazz, é claro!).


Reflexão do dia: não há o que não haja...

11 março 2004

COLUNA DO MEIO


Oi, pessoas. Sim, ainda estou lutando contra esse problema na coluna que me surpreendeu há algumas semanas, e tem me deixado num tédio sem tamanho. Hoje é o primeiro dia em que consigo ficar alguns minutos sentada em frente ao micro. Os exercícios de RPG têm me ajudado muito.

Para quem não sabe, RPG (Reeducação Postural Global) é uma fisioterapia feita em cima de uma maca – ou num banquinho, às vezes -, em que você fica alongando e buscando fortalecer a musculatura nas partes mais críticas, digamos assim, que é onde se concentra o problema. O meu problema é na lombar, ou seja, tenho achatamento de disco na base da coluna. Mais do que isso: o meu disco da base simplesmente não existe mais. Desidratou, escafedeu-se.

O tal disco é uma rodinha gelatinosa que temos entre as vértebras. Em não havendo disco, uma vértebra fica encostando-se à outra, o que provoca uma compressão no nervo ciático, causando uma dor absurda que se estende pela perna – no meu caso, a esquerda.

Agora eu tenho que esticar, esticar e esticar a coluna vertebral, além de criar uma musculatura que sustente esse “esticamento”. Só assim, segundo a fisioterapeuta, o nervo vai se sentir mais à vontade e parar de doer.

Todos dizem que eu tenho que ter muita paciência, e só agora me dou conta do quanto sou afobada, logo eu, que criticava os afobados do mundo. Não agüento mais essa situação. E também não agüento mais ouvir amigos, parentes e médicos dizerem que eu sou muito nova para ter esse tipo de problema – portanto, se alguém for comentar o post, poupe-me dessa pérola. Só faz a pessoa se sentir mais acabada, derrubada (e a auto-estima de alguém debilitado fisicamente já não é lá essas coisas, lembrem-se disso).

Agora vou me deitar (mais) um pouco, que não posso abusar da cadeira. Beijos.

P.S.: Se quiserem me enviar livros velhos, catálogos de cosméticos, gibis da Mônica, revistas de fofocas de 1990 com fotos do Humberto Martins (para verem como estou topando tudo mes-mo!), vou adorar. Ler na cama é dos meus principais passatempos.

03 março 2004

LESÃO

01 escoliose +
01 lordose +
horas a fio em frente ao micro +
má postura...

= 01 lesão por "achatamento" (sumiço) de disco na base da coluna vertebral +
01 dor insuportável no nervo ciático +
01 impossibilidade de andar/sentar/levantar/abaixar +
R.P.G e remédios.

:o(

Sorry, leitores... estou dodói.
Até breve.

29 fevereiro 2004

Da série “nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”:

1. Homem de corpo super-hiper-malhado, cujo papo não dê vontade de SUMIR em dois minutos.

2. O tal “nhoque da fortuna”. (???)

3. Magro bebendo refrigerante diet.

4. Saquê.

5. Pobre dizendo que se deu conta de que “dinheiro não é tudo na vida”.

6. Porteiro “carioca” que não seja nordestino.

7. Gaúcho que não seja bairrista.

8. Homossexual careca, rico e quarentão que não seja arrogante.

9. Evangélico, Flamenguista e Beatlemaníaco que não seja fanático.

10. Caviar.
Como gaúcha e admiradora – mais: apaixonada! – dos homens gaúchos, devo admitir que reafirmei minha antipatia pelo carnavalesco Milton Cunha (São Clemente, para quem não sabe) quando ele quis criar uma ala chamada “os viadinhos de Pelotas” no seu desfile.

Hoje, no Globo, ele diz que “deve ter sido praga de Pelotas” (o fato da escola dele ter sido rebaixada neste carnaval). Quer saber?
BEM-FEI-TO.
Um broto zelando pelos seus...



... que maravilha seria viver!

26 fevereiro 2004

CD “Para Sempre Clara” – Clara Nunes, na Saraiva: R$ 13,90.

CD “Diamond Life” – Sade, na Saraiva: R$ 12,90.

Tomar café com leite no meu home-office, pleno Rio de Janeiro em fevereiro, chuvinha lá fora e as pessoas vestindo moletom: não tem preço.

Existem coisas que o dinheiro não compra. Para todas as outras, existem planilhas orçamentárias, apresentação de projetos, cálculos de borderô, planos de comunicação e marketing, assessoria de imprensa, e o mais difícil (sem o qual não adianta Mastercard): o patrocinador.

Pena que o Lineu morreu.

25 fevereiro 2004

Nem Freud, nem Prozac


Defensor da "medicina integral" ("mind-body medicine"), a "nova medicina emocional", Servan-Schreiber baseou suas pesquisas nas teorias de Damásio sobre a divisão do cérebro em duas partes: a cognitiva —relacionada à linguagem— e a emocional —responsável pelo controle da fisiologia do corpo (ritmo cardíaco, tensão arterial, apetite, sono, libido e sistema imunológico).

Para combater de forma mais eficaz o estresse, a depressão e a ansiedade, três conhecidos males dos tempos modernos, ele descarta os ensinamentos de Freud ou Jung e as proezas químicas do celebrado Prozac e de seus sucessores. Seu receituário propõe sete métodos testados por cinco anos no Centro de Medicina Complementar. Os métodos naturais que sugere, a maioria conhecida há muito tempo, não podem ser definidos como revolucionários, como ele mesmo admite. Na sua opinião, o repentino sucesso obtido pela sua "cartilha" se deve ao fato de as técnicas propostas terem, cada vez mais, sua eficácia comprovada de forma científica.

Saiba muito mais.

24 fevereiro 2004

Caí na folia


Eu me rendi e caí na folia, é isso mesmo. Fui ao baile de carnaval do Scala, um dos tradicionais do Rio, e agora vem o pior: a-do-rei.

Tem alguns momentos em que a gente precisa esquecer as coisas sérias da vida, não tem jeito. Entrar naquele salão e dar de cara com uma decoração coloridérrima já é um bom começo. Depois tem o samba, muito bem feito por uma banda enorme e animada, que também colabora na sensação de que se está em algum outro lugar que não a realidade nossa de cada dia. É legal, sim.

As fantasias são um atrativo à parte. Não só as vestimentas, mas sobretudo as “sentimentas”. É a gente se sentir uma outra coisa, diferente do que a gente é. Uns se esforçam mais, é claro.

Tinha mulheres de 50 anos que se sentiam (e vestiam) de 15. Tinha homens maquiados, gringos mascarados, turistas branquelos esforçados, coroas babões, garotões bêbados desequilibrados (em todos os sentidos), mulatas rebolativas provocantes, loiras popozudas, magricelas vestidas de enfermeiras, e o melhor de tudo: travestis de dois metros de altura tecendo filosofias sexuais no banheiro feminino. E pedindo opinião a cada uma que entrasse!

- VIVA AS LOIRAAAAAA !!! – Gritava um(a), enquanto ajeitava o decote (para aparecer mais, não menos.)

- VIVA AS MORENAAAAAAAA!!! – Provocava outro(a), às gargalhadas. E completava:

“Ih, bicha, cê tá por fora... tá mais que provado: é c’as loira que eles saem pra zoar, mas é c’as morena que eles casam, tá bom??”.

E a loura ria de se escabelar, na certa preocupadíssima com a tese da outra... medo de ficar pra titio(a)?

Minha cunhada foi fantasiada de ZEN novamente, ou seja, “zen nada”. Que injustiça eu estou fazendo: havia purpurina!

Nos meus primeiros momentos de folia, veio um rapaz me fazer a corte. Ele, por sua vez, já devia estar há muitos momentos na farra, pois mal tinha coordenação para segurar o copo. Mirou-me à distância, e percorreu o trajeto como pôde:

- Oi, gata! Posso levar uma idéia contigo???

Não pensei duas vezes, mandei a idéia:

- Excuse me!? Are you American?

- Hein? Ô, gata, será que a gente podia...

- Sorry, man! I don’t... do you speak English?

- Não, não... no! No! Eu sou BRASILEIRO! BRA-SIL! (Como quem trata gringo como se fosse surdo, gesticulando e falando cada vez mais alto, apavorado).

E minha cunhada sentiu o pepino, deu um corridão nele, mas veio me perguntar se o cara era gringo (me ouviu falando inglês)... contei a ela que a “gringa” era eu, hehe.

É ou não é uma boa dica para se livrar dos chatos? Aqui no Rio, pelo menos, cola certinho. Sou mais branca que a maioria, e a cidade vive cheia de turistas mesmo. O cara deve ter saído chateado: “que gringa maluca, depois o bêbado sou eu...”.

Bom, hoje é terça-feira gorda, mas eu vou ficar em casa me recuperando. Que um baile já está mais que bom para uma foliã iniciante, ainda por cima americana como eu.

23 fevereiro 2004

Carnabalito e coisas de perua


Hoje encarei um momento perua, e pintei as unhas de vermelho escuro. Vai uma dica pras comadres duras como eu: Colorama Water Shine (Brilho Noite). Por R$ 3,00 você compra um produto que colabora em todos os sentidos, é fácil para qualquer desajeitada pintar as unhas, cobre bem a superfície, e tem realmente um brilho ótimo.

Outra maravilha de dica (essa é da minha cunhada) é a base 4 em 1 do Avon. Passe uma camadinha antes para proteger, e uma depois do esmalte – para dar mais brilho e duração.

E por falar em vermelho, estou de olho naquele cabelo da Fernanda Lima. Acho que a franjinha eu não vou encarar, mas o vermelho pica-pau estou a fim de experimentar, sim. Alguém é contra? Fale enquanto é tempo.

Quanto à folia, resolvi relaxar e aproveitar. Não pulei noite alguma, mas ainda tenho duas chances. Depois, só no ano que vem!

Estou aqui ouvindo a reprise dos desfiles de ontem (como eu queria uma TV a cabo nessas horas!), vou ver se me animo e tiro o pé do chão. Ou não.

22 fevereiro 2004

Quase 20 mil motivos


Estou muito emocionada porque agora você tem quase vinte mil motivos para visitar o meu modesto blog. Isso mesmo, quase vinte mil visitas! Não que seja muito, sei que sou lida por poucos e bons, mas vale uma comemoração com... saquê? (Idéia fixa, liga não).

Para quem ainda não notou: dei uma recauchutada básica na minha listinha de links, ao lado. Ainda estou me lembrando de outros para colocar ali, mas esses são os primeiros que me vieram à mente, os meus links quase diários mesmo.

Em Música, o primeiro deles é o da minha banda (ordem alfabética, o que vou fazer?). Lá você encontra Fernanda Lima pelada mulheres bundas peitos Daniela Cicarelli Juliana Paes Débora Secco nuas gostosas, calma, caaaaaaaalma!!! Nada disso, hehe. Apenas coloquei aqui algumas palavrinhas-chave para ver se pego algum desavisado nos sites de busca – a propaganda é a alma do negócio.

Senhores desavisados que procuram moças peladas na internet (tsc, tsc, que feio...), eu tenho uma banda que se chama Analógica. Clique aqui e saiba mais.

Ainda em Música, links de duas rádios do RS – uma é a Pop Rock, rádio universitária que começou super underground e foi ganhando espaço ao longo dos anos, trajetória louvável. A outra é a Unisnios FM, que está se preparando para traçar o mesmo caminho, rádio da minha adorada ex-universidade.

Tem também o site da banda Vide Bula, que está passando por uma reforma (o site, não a banda), mas não deixem de visitar. Eu me derramo em elogios sempre que falo deles mesmo, porque é uma galera talentosa que batalha muito e faz um som super honesto, além de competente. Dentre as bandas gaúchas atuais, eu fico com eles, que ainda não têm projeção nacional nem gravadora, mas daqui a pouco vão estar nas paradas. Vocês vão ver.

No site Samba & Choro eu só vou bisbilhotar sobre quem está tocando onde, na noite carioca, sobretudo Lapa e adjacências. De vez em quando, dou um pulo em alguma casa dessas e rebolo um pouco, que ninguém é de ferro.

Tem também um site de cifras, onde eu me esbaldo quando ninguém está vendo e toco uma modinha dessas do Tribalistas, tipo “você é assim um sonho pra mim”, e viro a Bibizinha romântica-melosa-derretida. Mas só quando ninguém está vendo. Outro xodó do momento é a gostosíssima “Vou deixar”, do Skank, que já tocava a mil por hora nas rádios do RS antes de virar abertura de novela. É uma delícia!

Tá, não vou comentar todos, senão algum engraçadinho ainda vai argumentar que tem 20 mil motivos para não ler os meus posts enormes... é que estou meio tagarela hoje.

21 fevereiro 2004

Eu fiz o teste:



Eu sou o Matthew Perry


Assim como o Chandler , sou sarcástico mas também
sou fofo e preferido das mulheres ! Apesar dos problemas eu ainda estou a
procura de um grande amor !



Faça você também: Que ator de Friends eu sou ?



Da arte de morar com o irmão

(Hierarquia)

Bilhete grudado no armário do banheiro, depois de uma faxina:

“Favor colocar o fio-dental babado DENTRO da lixeira.
A gerência.”


Bilhete dele, na manhã seguinte (escrito no verso do meu):

“Favor ir à merda.
A superintendência.”



Das coisas que eu nunca fiz

Estou encasquetada: nunca bebi o famoso saquê.
Ando atrás de receitas de drinques - agora que finalmente superei o medo do barulho do liquidificador, pois achei que já estava bem grandinha – que contenham saquê. De preferência com suco de abacaxi, que é a minha paixão, e tenho polpas congeladas aos montes no freezer.
Será que saquê combina com abacaxi?

E que não engorde muito. Leite condensado, estou fora!


Das coisas inusitadas da vida

Onze e meia da noite, toca a campainha: minha vizinha, nervosa, que a gatinha dela se atirou da sacada – isso não é novidade, ela tem por hábito. Mas, o pior: enfiou-se dentro do motor do meu carro. E não saía de lá por nada do mundo.

“É que deve estar quentinho lá dentro...” – explicou.

Descemos. Fui abrir o capô, e paguei o mico do ano: a não ser puxar aquela alavanca que fica dentro do carro, eu não sabia fazer mais nada. Não sabia abrir o capô completamente. Aliás, o nome daquilo é capô? Ou é tampa do motor? Sei lá.

Sim, eu sei que é de meter a mão ali por baixo e achar um negocinho que destranca, mas, no nervosismo, a gata miando asfixiada, a vizinha afobada, cadê que eu achava?

E o superintendente não estava em casa.

Fiquei pensando em como seria se o carro escangalhasse na Linha Amarela, uma noite em que eu estivesse voltando da Lapa, no meio da madrugada, e eu tivesse que abrir aquela tampa, a fumaça saindo pelos cantos, a ventoinha desarmada, eu também... bom, mas voltemos à gata.

Demorou uns minutos – que felizmente não foram fatais -, e consegui abrir o capô. A gata tinha se enfiado sei lá onde. E continuo sem saber, apesar de ter visto, porque não sei diferenciar um parafuso de uma porca, que dirá distinguir algum objeto naquele emaranhado de parafernália mecânica. Bem, dizem que ali tem um motor, e já me basta. Havia também uma gata, que, por sorte, era branca feito neve, e ainda miava.

Minha vizinha, com aquela propriedade que só quem tem gatos pode ter, não tardou em puxar a bichana por meio de uma fresta – por onde nós, leigos, jamais poderíamos imaginar que a gatinha fosse capaz de passar. Mas os gatos têm disso, pulam de sacadas, reduzem de volume, escondem-se no motor dos outros, etc.

Enfim, tudo acabou bem, e pude continuar vendo o Big Brother (ooops, contei!).
Carnavaleco


Tempinho enjoado para os cariocas: chuvinha. De minha parte, um pouco irritada, como sempre, com essa época em que todo mundo simplesmente pára de fazer tudo - e o que antes já não funcionava direito, agora, então, nem pensar.

Está certo, ninguém pode pensar em trabalho ininterruptamente (meu “bico” de voz-e-violão num barzinho foi cancelado hoje... por que mesmo?), ainda que se esteja com as calças na mão, como estou, como estamos todos nós, ou quase todos. Mas, cá entre nós, não venha Domenico Di Masi querer incluir a gandaia desenfreada e a manguaça pré-quarta-feira-de-cinzas no rol das (não-)atividades carinhosamente por ele apelidadas de “ócio criativo”. Sem querer ofender, já não vejo muita coisa de criativo nos carnavais há vááários anos.

A propósito, noite dessas a TVE exibiu um belo programa sobre samba – o verdadeiro -, mas garanto que ninguém viu, porque a cadência era um pouquinho mais lenta do que os frenéticos rebolados pré-carnavalescos que as outras emissoras mostravam no mesmo horário, por sinal, nobre. Pois ali, na TVE, personalidades do samba, estudiosos e fiéis observadores (são sempre os mais interessantes) discorriam sobre o tema dois-por-quatro, sem pudores e sem jargões, como se contassem a história de uma vizinha de porta.

Entre outras coisas, eles lembraram que a “vizinha”, quando desfilava na avenida há alguns anos – nem muitos! -, rebolava muito mais gostoso, mais swingado. Até que resolveram atropelar a vizinha.

É isso mesmo. Aceleraram o andamento do samba-enredo até não mais poder, e hoje ele é o único que não desfila: corre. Uma judiaria, como dizia minha avó.

Parece que o balanço, outrora um pré-requisito para se falar em samba de qualquer espécie, agora perdeu o sentido. Pelo menos o sentido auditivo; que, no visual, tudo balança cada vez mais.

20 fevereiro 2004

Aula de Garotinho e Rosinha

A natureza da mulher, tal como Deus a criou, é ser conduzida, ser dependente. Ela não é verdadeiramente feliz quando, casada, rejeita a liderança do marido e assume a própria vida, sem compartilhá-la com ele e sem ouvi-lo. Pior fica quando tenta dominar o marido. Em um congresso mundial de mulheres, realizado recentemente no Brasil, algumas “feministas” famosas repensaram esse movimento, confessando que as mulheres “liberadas” estão muito frustradas e infelizes...

Sem comentários. Clique aqui e veja você mesmo. Se tiver estômago, claro.

18 fevereiro 2004

15 fevereiro 2004

Por um fio


Fui tocar num barzinho cujo ponto “forte” seria um punhado de mesinhas do lado de fora. O dia estava lindo. Foi eu chegar e plugar meu violão, desandou a chover e não parou mais.

Pelo menos o palco era na parte de dentro.

Quer mais? Meu violão deu pau. Acho que é Osmar (os-mar-contato: termo técnico que designa o mau contato de um fio com o... com ele próprio, digamos. Um fio que não se dá com ele mesmo, imagine.)

Quando o Osmar entra em cena, o jeito é você achar uma posição onde ele se comporte, e dali não sair nem por decreto. No meu caso, depois de uns tapas desesperados no violão, consegui aquietar o Osmar. E ali criei raízes, para não alertar os gansos. Funcionou. Só que me custou uma dor incalculável na coluna e uma fama de cantora-estátua.

Não se pode ter tudo.

Depois de horas a fio (sem trocadilho), finalmente desci do palco, e pus fim ao sofrimento. Havia quem perguntasse por que motivo eu não fazia um ou dois intervalos, já que o tempo de cantoria era extenso. Meu irmão, orgulhoso e mentiroso, respondia com uma piscadela:

- Ela gosta assim. É pra não perder o pique...

Mané pique. Só dava eu e o Osmar no palco, a evitar música mais animada para não cair na tentação da sacudida fatal – que poria fim ao musical, brindando a platéia (?) com um sonoro BRRRRRRRRRRRR! ad infinitum, e terminando por me avacalhar a estréia.

Quase que chamo o Osmar para uma contradança, mas receio que ele se ofenda e seguro a minha onda.

Concluo: entre roncos e ruídos, salvaram-se todos.

14 fevereiro 2004

Tocando

Estarei tocando hoje, sábado, no Barra World Shopping – Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro. Quem quiser chegar, não há couvert artístico. E fazem uns crepes (no Sul, chamamos de panquecas) deliciosos. Procurem pelo cartaz: Bibi Da Pieve. Não tem outra. Não tem erro.

Engraçado é eu dizer meu nome aqui no Rio. Por telefone. Tele-pizza, por exemplo:

- Eu gostaria de fazer um pedido, por favor.
- Pois não. Qual o seu nome?
- Bibiana.
- Hein? (rindo)
- Bibiana.
- Viviane?
- Não. Com “b” de Brasil. Bibiana.
- Bibiane?
- Não. Bibianaaaaaa. Com “a” no final.
- Aaah, sim. Bibiana de quê?

Respiro fundo.

- Da Pieve.
- De onde?
- É o meu sobrenome: Da Pieve.
- Dábliu-érre (W R)??? (rindo)
- Vou soletrar, tá?
- W R ou Soletrar?

Respiro duas vezes. Fundo.

- Eu vou soletrar, dizer letra por letra, o meu sobrenome. Pode ser?
- Claro, senhora Babiane.
- Ok. “D” de dado, “A”, “P” de pato, “I”, “E”, “V” de vela, “E” de novo.
- De novo é com “D”, senhora. Termina com “D”?
- Não. Meu nome é Bibiana Da Pieve.
- Aaaah! A senhora é parente daquele colunista do O Globo?

Respiro aliviada. Mais ou menos.

- Isso!!! O Arthur Dapieve!
- Arthur de onde?

Doce ilusão.

- Querida, somos parentes distantes. O Dapieve dele é tudo junto, o meu Da Pieve é separado. Mas é tudo italiano, mão-de-vaca, gringo, branquela, Vamos ao que interessa – no caso, a pizza.

- Aaah, me desculpe, senhora Babiane WR. Nosso serviço delivery funciona só até as 22h.

- Mas eu liguei há 20 minutos !!!

- Sim, mas até que eu anotasse o seu nome... sinto muito, senhora WR. Fica para uma próxima oportunidade.

09 fevereiro 2004

Que vontade de ser a Laura

06 fevereiro 2004

Tenho impressão que ninguém me lê, com esse raio de blog estragado – ninguém pode conversar comigo aqui, nem se meter nos meus escritos... coisa triste.

Chegou uma frente fria e voltou a chover no Rio. Sabe que eu gostei? O calor estava insuportável, desumano, chegava a ser obsceno. Não que agora esteja frio – doce ilusão! -, mas deu uma amenizada básica.

Vi um homem mais que maravilhoso no supermercado, mas ele deu tanta atenção a mim quanto a uma lata amassada de atum sólido. Empoeirada. Esquecida na prateleira.

Nem quis saber meu preço. Nem minha validade, minhas calorias por metro cúbico, meu colesterol, meu teor de sal. Nem se tivesse uma promoção estampada na minha testa, leve duas, pague uma, acho que nem assim ele me notaria.

Inconformada, dei a volta na prateleira e passei por ele outra vez, mas de frente. Empinei o nariz como quem não quer nada com nada, mas, na verdade, quer tudo com tudo. Nada. Ele só queria saber da mostarda escura – mais intensa, mais apimentada, mais... tchan. E mais escura.

Acho que preciso pegar um bronze.

04 fevereiro 2004

Meu vizinho e seu gato


Vocês não vão acreditar, mas é real: hoje meu irmão abriu a porta do nosso apartamento, e me mostrou um capacho. Um capacho normal, formato meia-lua, cor meio verde. Só que nós não temos um capacho em frente à porta. Nunca tivemos. E o capacho apareceu ali.

Fiquei olhando sem entender direito, e logo reconheci: era o capacho do vizinho do 104, aqui do lado. Aquele mesmo vizinho que, há alguns meses, tinha o péssimo hábito de roubar o meu jornal de manhã cedo, ler tudinho, e depois devolvê-lo, meio despetalado. Até que armei um esquema com o porteiro – que passou a arremessar o jornal direto para a minha varanda, evitando escalas indesejadas.

Mas, voltando ao capacho, observamos que o vizinho estava sem; óbvio, o capacho dele viera parar na nossa porta. Por que seria?

O mistério não durou dois segundos: imaginem que, sob o capacho, escondia-se uma extensão que saía por debaixo da porta do vizinho em questão, e terminava atrevidamente conectada à tomada do corredor do prédio.

Meu vizinho está fazendo um gato.

Deve estar deixando o ar refrigerado ligado o dia todo (não sem razão, aqui tem feito um calor do cão!), e atravessa a sala com um fio branco que abocanha a energia do condomínio – que, diga-se de passagem, anda mesmo um absurdo de caro. Reconheçamos, não foi má idéia.

O que mais gostei foi do cuidado com o gato: não que bastasse para esconder o fio (enorme, por sinal!); mas, gentilmente, o vizinho nos emprestou o seu capacho para evitar que tropeçássemos no rabo do bichano.

É ou não é uma gentileza?

24 janeiro 2004

Lendo

Quem gosta de leitura, boa leitura, clique aqui e se divirta.

É nada de mais, não. Apenas um site que eu achei por acaso, procurando crônicas, contos e pequenas poesias de escritores nacionais. Ali tem gotas de Veríssimo (pai e filho), Adélia Prado, Millôr, Clarice Lispector, Olavo Bilac, João Ubaldo, Mário (Quintana e Prata) e muitos outros bons, divertidos, talentosos, brasileiros.

***

Filmes

Ontem eu assisti ao delicioso “O barato de Grace” (em inglês, Saving Grace). Uma comédia inglesa despretensiosa, com um roteiro inusitado e atores carismáticos, desses do tipo gente-como-a-gente. Sem aquele ritmo alucinante-explosivo-verborrágico, característico de 99% das comédias americanas, sem sexy-girls, sexy-boys e outros artifícios para manter o sujeito vidrado na tela – na falta de coisa melhor.

Tudo ao contrário. Em “O barato de Grace”, a protagonista é uma senhora de cinqüenta e poucos, cujo marido morre na primeira cena do filme. A pobre viúva herda, assim, de surpresa, uma quantidade absurda de dívidas, e nenhum consolo.

Falando assim, poderia ser o mais comum dos roteiros. O barato começa quando ela se vê diante da única possibilidade de salvar a própria casa: transformar o seu belíssimo jardim numa rentável – e perigosa - plantação de maconha.

Então você imagina a confusão daí por diante. E pode preparar a pipoca, que o divertimento é garantido.

***

Outro filme que eu peguei, confesso, por pura curiosidade, foi o tal Harry Potter e a Pedra Filosofal. Desse eu não gostei.

Talvez eu estivesse esperando uma aventura infanto-juvenil tal qual o belíssimo “A história sem fim” (1984), e acabei me decepcionando. Achei vazio, sem ritmo; muitos elementos fantásticos para pouco conteúdo. Um filme sem alma, mesmo.

***

Música

Alguém ainda agüenta ouvir “Amor e Sexo”, da Rita Lee?

Eu soube que ela havia feito uma música a partir de um artigo do Arnaldo Jabor, sobre amor e sexo, antes de conhecer a dita canção. Fiquei curiosa, claro.

Acho a música boa, é uma crônica musicada, pronto. Mas implico um pouco com esse tipo de artifício, a não ser quando é desenvolvido a partir de um trabalho quase artesanal, manufaturado mesmo, tão bem acabadinho que você, no final, não sabe ver a letra sem a música e vice-versa. Aí é gol! (Vide Luiz Tatit, para quem conhece, e quem não conhece deveria conhecer).

Eu fico ouvindo essa “Amor e Sexo” e quase enxergo o texto escrito num papel enquanto ela vai pondo as palavras na melodia repetitiva e meio infantilóide, do tipo que gruda descaradamente nos nossos ouvidos sem pedir licença.

É claro que é um bom trabalho. É claro que é Rita Lee, afinal de contas. Mas é só. Pra mim, o tema é tão bacana, tão sublime e tão sem-vergonha (no bom sentido!) ao mesmo tempo, que mereceria um calorzinho a mais, talvez uma... alma. De novo.

21 janeiro 2004

Mercado fonográfico

O ano de 2003 foi o fundo do poço na longa crise que assola o mercado fonográfico. Mas as gravadoras, que muitos já condenaram à morte, finalmente começam a se adaptar aos novos tempos e apostam numa retomada.

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20 janeiro 2004

Tão sonhado cocô no shopping

Mal sabem eles, mas o verdadeiro prazer de uma mulher, ao evacuar – nos pampas, diz-se “ir aos pés” -, é justamente o de se sentir subitamente mais magra. Com a barriga chupadinha.

Irei ao shopping comprar roupas. Dizendo assim, parece um ato corriqueiro, sem importância. Não é. Trata-se de um verdadeiro ritual, para o qual me preparo com cerca de quinze dias de antecedência – física e psicologicamente, claro.

Vou beber mais líquidos, ingerir frutinhas, iogurtes e demais alimentos sem graça depois das seis da tarde. Vou meditar, à noite, usando mantras que eu mesma criei; são mantras temáticos, por exemplo: “Ooooooommmmmeu-corpo-é-oooooommmmmmmais-magro-dooooooommmmmundoooooo...”

Isto feito com assiduidade impecável, estou finalmente pronta para provar micro-saias, tops ousados e calças de cintura baixa. Chego ao shopping escolhido, e vou me dar ao luxo de almoçar. Afinal, mereço. Alface, tomate, agrião, rúcula, cenoura e repolho. Beterraba, no máximo. Bebo um cafezinho, em seguida, para fazer a digestão.

E saio a bater perna, no intuito de que meu intestino se encarregue de eliminar, tão breve quanto possível, o material recém armazenado. O momento em que a barriga começa a ensaiar movimentos de trabalho é, sem dúvida, o início do alívio. O processo está se iniciando. Estou olhando vitrines, em paz comigo mesma, muito grata ao meu aparelho digestivo. Estou tranqüila.

Disfarçadamente, com um sorrisinho maroto nos lábios, localizo o banheiro mais próximo. Entro, assobiando e balançando a bolsa nos quadris. E vou direto ao que interessa.

Serviço concluso, lavo minhas mãos. E que venham os espelhos, sempre injustos, mas necessários. Que venha o jeans 42, que vai fazer saltar um pneuzinho aqui e ali; vou xingar a confecção pequena da loja, em silêncio, abrir a cortina, e a vendedora assim dirá:

- Nossa, ficou lindo! Valorizou o seu corpão, hein!?

Mulheres não querem ter corpão. Mulheres querem fechar a calça 42, e ela cair lá no pé. Querem que seus namorados as descrevam para um amigo: “ela é alta e magra”, porque corpão tem a mãe da moça da loja, e violão era a sua avó. Admitimos o peito, tudo bem. Corpão, aí já são outros quinhentos. Corpão é eufemismo para termos menos polidos, como balofa, gorducha, cheinha e o pejorativo “gostosona” – que, para mim, também não passa de: “você é gorda, de fato, mas eu quero levá-la para a cama mesmo assim”.

Portanto, o merecido cocô no shopping é um elemento tão importante quanto o próprio ato de provar roupas, ou quanto as roupas, ou mesmo quanto o shopping inteiro e suas redondezas. Fazer cocô no shopping é renovar o organismo, aprontar-se para mais uma missão quase impossível - a de se sentir linda e maravilhosa num espelho ordinário de provador de loja.

É que, na verdade, quando provamos as roupas, estamos colocando nós mesmas à prova. De minha parte, o nível de aprovação sobe muito quando aplico o truque do cocô prévio. Recomendo enfaticamente, e me escrevam se não der certo – que eu ensino outro truque; o do encolhimento permanente da barriga.

Mas o do cocô é melhor, que não deixa a gente azul.


18 janeiro 2004

Domingão

Sonhei que um avião caía, mas depois não caía mais. Perdia altitude pra caramba, mas acabava por fazer um pouso forçado - muito bem sucedido, de modo que os passageiros até começaram a estourar champanhes (ops! espumantes!) quando a nave finalmente deslizava em solo firme.

Achei simbólico. Mas não saquei o símbolo ainda.

***

Hoje o dia está muito bonito no Rio, finalmente. Limpei a casa, lavei roupas, e estou com TPM. Abafa.


17 janeiro 2004

Nem precisava dos onze: com Brad Pitt, George Clooney e Andy Garcia eu já me dava (ops!) por satisteita...



Fora de brincadeira, adorei o filme. Três locações para este fim de semana. Por enquanto, o páreo está duríssimo: Onze Homens e Um Segredo e Procurando Nemo.

Quem não se encanta com aquela peixinha azul desmiolada??

16 janeiro 2004



BACK IN RIO

Alou, macacada! Finalmente, estou de volta ao Rio. Depois de dois meses perambulando pelos pampas, matando saudades, revendo lugares, pessoas e sonhos (realizados e esquecidos), cá estou, serena na proteção ilusória das barbas do Cristo. Menos mal.

Infelizmente, o céu carioca só faz chover. Devo confessar que o calor insuportável dos últimos dias no RS não deixaram saudade alguma; pelo menos, aqui está bem mais fresquinho.


MINHA MINI RETROSPECTIVA 2003

O ano passado foi muito fértil, em todos os sentidos. Plantei algumas sementes que, antes mesmo da virada, tornaram-se simpáticas mudinhas. Bem que eu havia falado muito em flores, lembram?
Algo me diz que elas virão.


MEUS PENSAMENTOS

Ando pensando em fazer de tudo um pouco, tudo ao mesmo tempo, e acho que, a isso, dá-se o nome de disposição. Ou vai ver que é maluquice e desorganização. Mas aqui se deve lembrar que o sagitariano, sujeito privilegiado, jamais carece de responsabilidade e/ou senso de organização. Antes, é apenas otimista, bem humorado, aventureiro, autêntico, sincero, comunicativo e dotado de um carisma cuja amplitude não conhece limites.

Contudo, se mal interpretado, pode ser confundido com um falastrão, enrolador, 171, arrogante, mandão, metido a sábio, fábrica de lorotas, filósofo de almanaque, irresponsável, inconveniente, grosso, nômade e caloteiro.

E essa história de carisma, segundo más línguas, é galinhagem mesmo.

20 dezembro 2003

O espaço


Vivemos falando em falta de tempo, que os anos estão voando, que a vida mais parece um atropelo crônico e que não há jeito: 24 horas por dia são um insulto às práticas saudáveis de trabalho, família, saúde e lazer. Mas e o espaço nosso de cada dia, mês, semana... o espaço da vida?

Ninguém fala muito no espaço (a não ser naquele espaço físico que anda escasso nos grandes centros urbanos, claro). Mas eu me refiro às portas e janelas internas, à brisa que deixamos entrar – ou não – no nosso imbróglio emocional cotidiano, nas relações, enfim, nas instalações do sentimento humano. Não vou falar no “espaço do coração”, que já seria brega demais. Mas é mais ou menos isso que eu quero dizer.

Esse espaço também anda em falta. Andamos nos ocupando demais em preencher coisas, e, de dez anos pra cá, convencionou-se chamar o velho e bom “vazio” de depressão. Pronto, jogaram no lixo o último resquício de arejamento interior. Urbanizamos a alma.

Agora, o bom é deixar tudo bem fechadinho, de preferência a vácuo – que é para não escapar nada de dentro. Está faltando lembrar que a mesma janela que libera o gato também recebe a brisa, e lacrar todas as aberturas é terminar com as possibilidades, enclausurar, sufocar. Vale a pena?

Nunca antes ouvi falar tanto em “medo de se entregar”. Como se conviver com um parceiro ou assumir um “compromisso” – outro termo de efeito duvidoso, parece algo chato e com hora marcada! – fosse entregar a ele ou a ela um braço, e ficar sem. Conceitos que a gente leva pela vida afora, mesmo sem trazer à consciência, e se esquece de arejar, abrir espaço para questionamentos ou experiências que parecem inconvenientes à primeira vista.

Trancamos tudo, e ainda dizemos que é autopreservação.

Um pouquinho de brisa, mesmo que a maresia venha corroer alguns eletrodomésticos das nossas entranhas, deve ainda ser de boa valia. Deixar as minhocas da cachola respirarem; circular as idéias, desafogar as vias de uma consciência tão exigida e confinada pela culpa e pelos medos - sempre os mesmos!

Uma vozinha apita no meu ouvido há alguns meses, dizendo assim: “renovação”.

Ou estou muito enganada, ou a primeira coisa a ser renovada deve ser mesmo o ar que respiramos, em todos os sentidos. Para isso, haja espaço.

Espaço!


PS: Ouvindo Clara Nunes

18 dezembro 2003

Mudanças... NO AR!

Visitem o novíssimo site da Analógica.

Em breve estarei com o blog somente lá, aguardem!

Beijos da
Bíbi

17 dezembro 2003

Coisas do pago

No Rio Grande nosso de cada verão, as chuvaradas deram uma trégua, e amanhecemos com um céu de brigadeiro sobre nossas cabeças - ainda úmidas dos últimos dias. A temperatura, no entanto, chegou a três graus (isso mesmo, 3 GRAUS!) na serra. Em pleno dezembro.

Aqui no Vale dos Sinos, puxamos o cobertor e viramos para o outro lado, tranqüilos e serenos (sem trocadilho, please!): dias melhores virão.

Esta que vos fala, já há seis anos desacostumada ao temperamento confuso e até meio geminiano – perdão da palavra – do clima gaúcho, não hesitou em curtir um belo resfriado, desses de assar o nariz (se estivessem me ouvindo, seria “dariz”). Acho que São Pedro estava com TPM nos últimos dias, e, solícita ao conhecido período crítico, até lhe concedo meu amoroso perdão.

Desde que não se habitue, claro.

Como estive ausente da vida social nos últimos dias, fui informada ainda agorinha de que, logo mais, à noitinha, dar-se-á um churrasco daqueles bem buenos, e que minha parte da carne já fora gentilmente encomendada por um grupo de amigos que conta com minha humilde presença no festejo. E vou mesmo.

Apenas me esqueci de avisá-los sobre minhas restrições alimentares: sou adepta do quase-vegetarianismo (um dia chego lá!), não como carne nem por decreto. Coisa que, aqui no Sul, o churrasqueiro já leva pro lado pessoal.

Não há de ser nada. Como boa sagitariana diplomata que sou, tratarei de solicitar um naco de cadáv..., digo, de carne bovina ao assador, e passarei parte da noite remexendo com aquilo dentro do meu prato, lá e cá, enquanto mordisco uma saladinha qualquer. Até que acharei um cãozinho guaipeca, desses bem gente-boa, doido para devorar parte de um semelhante. Eu lhe derrubarei a carne, silenciosamente, a tempo de suas presas estraçalharem com minha reprovável conduta de gaúcha em dia de festa, e ninguém haverá de dizer nada a respeito.

A menos que esse vira-lata ordinário me denuncie.

30 novembro 2003

Juvenal rescindiu o contrato


Meu último post foi há um mês. Que vergonha.

Desde então, fiz uma infinidade de coisas. Algumas publicáveis, outras nem tanto, outras nem pensar, outras nem isso. Fato é que estou sem tempo agora de escrever – o preguiçoso sempre escolhe os piores momentos para iniciar as tarefas, que aí já tem a desculpa para não prosseguir.

Vou me despedir outra vez, na cara-de-pau. Volto amanhã ou depois. Beijos.

P.s.: o título foi mera jogada de marketing, nada a ver com o assunto.


30 outubro 2003

Vocês viram o novo apelido do salário mínimo?
Se vira nos trinta.

***

Hoje eu vi numa loja, de relance, um porta-retratos cujas bordas eram forradas de uma plumagem rosa-choque. Fiquei doida, amei aquilo. Sou louca por porta-retratos. O retrato é o de menos.
Agora, cá entre nós: porta-retrato com plumas rosa-choque? Onde é que eu estou com a cabeça???

***

Minha amiga me mostrou, na FNAC do Barrashopping, um brinquedinho assim: você coloca os fones de ouvido, e encosta o código de barras de qualquer CD da loja no aparelho. O CD então começa a tocar nos seus ouvidos, como num passe de mágica, e você pode navegar faixa a faixa, até decidir se é uma boa opção investir seu rico dinheirinho nele ou não.

Jura que alguém aqui não sabia ainda disso, né? Só a camponesa aqui, pobre diaba, se vê como pinto no lixo diante dessas coisas mudernas.

Sou tão objetiva, que me esqueço de olhar para os lados. Se eu entrar numa loja de instrumentos musicais para comprar uma mísera palheta, pode estar rolando um evento lá dentro, com músicos renomados tocando jazz a todo volume, que eu entro e saio sem ver e ouvir nada. Depois, quando alguém comentar, respondo:

- Poxa, e eu estive naquela loja nesse mesmo dia, mas não vi nada... vai ver ainda não tinham começado.

Cansei de ser cobrada por amigos: não me conhece mais? Passei do seu lado ontem, quase nos esbarramos, e você sequer me cumprimentou!

Desculpe, eu digo, sofro de uma coisa meio tacanha mesmo. Mas acham que estou de sacanagem, que sou esnobe.

E sempre acham que é só com eles, impressionante. Mas não é. Não tenho muita visão periférica.

A não ser que a pessoa esteja, como o porta-retratos, vestido de plumas rosa-choque.

26 outubro 2003

Gerundiando


Lendo: Perdas e Ganhos – Lya Luft
Ouvindo: Paixão no Peito – Renato Borghetti
Vendo: o Rio de Janeiro continua lindo.
Acendendo: velas amarelas.
Apagando: velas (26) no dia 24.
Bebendo: Coca Light.
Comendo: pouco (vomitei no meio da semana).
Assistindo: DVD Casamento Grego (comédia legal!).
Meditando: meus chakras.
Medicando: Florais de Bach.
Tocando (no violão): Agora só falta você - Rita Lee.
Tocando (no baixo): Why can’t this be love - Van Halen.
Cantando (no chuveiro): A festa – Milton, por Maria Rita.
Torcendo: pro dia nascer feliz (o mundo inteiro acordar, e a gente dormir).
Tecendo: planos e artes.
Rezando: pro Vô Petronius sarar logo.
Perdendo: uns medos.
Ganhando: uns outros.
Brincando: pouco.
Banindo: hábitos.
Procurando: o fio da meada.
Achando: té parece.
Interrogai por nós


Sabe quando você precisa relaxar, para pensar, para entender, para aceitar, para então conseguir... relaxar?

E sabe quando você se sente pressionado a realizar, para ganhar, para subir, para crescer, para, enfim, conseguir... realizar?

Você já foi a algum encontro importante, de negócios ou não, para o qual se preparou durante dias, semanas ou meses, e aquilo gerava uma certa ansiedade que você abominava, e você tentava convencer a si mesmo de que estava calmo, mas o medo crescia, e você, com raiva do medo, acabava por promovê-lo a pânico, e ele se refestelava ainda mais nas suas entranhas, e você o esmurrava em pensamento, e ele se fortalecia, e você golpeava, e ele insistia, e você acabou esmagado por uma coisa que começou da simples necessidade que você tem de não aceitar que uma boa oportunidade pode apenas ser uma boa oportunidade, e pronto?

Quando foi a última vez que você soube aceitar um presente de Deus, ou seja lá a entidade que você cultue, sem pensar na responsabilidade que iria incidir diretamente sobre você - como raios de sol ao meio-dia, sem direito a protetor ou chapéu – e que, sem dúvida, você não daria conta disso?

Quantas vezes você se viu diante de alguma coisa realmente grande, e pensou naquela história da areia e do caminhãozinho, imediatamente, antes que a coisa grande e bonita ameaçasse lhe tocar, Deus do céu, e lhe tirar a condição com a qual você se acostumou a conviver há anos - a condição de reles criatura mediana desprovida de qualquer qualidade admirável?

Quem é que realmente merece a felicidade do brilho dos cabelos das propagandas de xampu? Quem são os ricos que flutuam nos seus iates, ano velho após ano novo, a brindar seus sucessivos sucessos, enquanto você se espreme entre mágoa e despeito, achando que não tem mais jeito?

Se eu tivesse essas respostas, escreveria um livro de auto-ajuda, venderia milhões, e, com certeza, me auto-ajudaria muito. Não tenho. Só tenho as perguntas: Santa Maria, mãe de Deus, interrogai por nós.

Algumas coisas da vida não dão direito ao último parágrafo, aquele que explica tudo e não resta dúvida. É pena. Eu aprendi tão direitinho a concluir textos, nas aulas (que eu ia) da faculdade.

Lembro que um professor dizia: jamais termine um texto com um ponto de interrogação!

Mas, pensando bem: e se eu escrevesse mesmo um livro de auto-ajuda???
(Espero que, com três, possa).

21 outubro 2003

Bons dias!

Diquinha de filme, para não dizerem que só falo mal das obras alheias: “Os outros”.
Está certo que quase todo mundo já viu, mas eu só vi ontem, e gostei muito. O interessante é que, no final... (pensou que eu ia contar? Hehe).

Tenho uma amiga, não vou dizer quem é, mas ela é conhecida por contar o final dos filmes – e não é má intenção, não! É daquelas que juram nunca mais fazer, mas, quando vê, escapuliu... Outro dia, na locadora, um casal lia a sinopse de um filme, decidindo sobre a locação dele. Minha amiga (não adianta, não vou dizer quem é!), de súbito: “Amor, olha ali, eles estão decidindo sobre aquele filme que a gente viu, lembra? Aquele que, no final, descobrem que a mulher blá blá blá...” (contou tudo, bem alto, a locadora inteira ouviu).

Meu irmão virou um pimentão de cabelo comprido. (Ooops!).

O casal devolveu o filme na prateleira, como quem diz que agora não precisa mais...

E meu irmão é tão gentil que a convenceu, depois de muito argumento (ela fica culpada depois que “descobre” o que fez), que ela tinha ajudado o casal a economizar sete reais.

***

Acabo de derramar cera quente de vela verde no monitor do micro.
Abafa o caso.
Falar dos outros dá nisso.

***

Hoje vou ver outro filme de catálogo. “Anna and the king”.
Alguém quer contar o final?

20 outubro 2003

Segunda-feira, sete da matina (hoje parecendo 6h), aquela rotina. Ao redor da praça, observo daqui uma jovem senhora caminhando, apressada, enquanto faz exercícios de bíceps com um pesinho em cada mão, ouve alguma música no walkman – e, provavelmente, ainda respira. Tudo ao mesmo tempo agora.

Hoje consegui tomar um café da manhã demorado, antes de ligar o micro. Raro. Comi mamão (há quem seja contra), biscoito água-e-sal com queijo branco, bebi café pingado com leite. Gastro-inutilidades no blog nosso de cada dia.

Feriado, dia do comércio. Espero que o trânsito esteja um pouco melhor na direção contrária, ou seja, sentido oposto ao dos cariocas afoitos pela praia do Recreio dos Bandeirantes - já que as demais estão imundas há tempos. Aliás, aqui já difere pouco, e, em breve, jaz de fezes muitas. (Cruzes, acordei poética hoje! Hohoho...).

Dormi pouco, é verdade. Noite passada, assistimos a mais um abacadevedê – alimento geneticamente modificado, oriundo da mistura de abacaxi com DVD, que resulta num filme enfadonho e extremamente nocivo ao bom gosto de qualquer ser humano dotado de faculdades mentais, no mínimo, medianas. Mas, cabe lembrar, é imune às pragas (uma vez que já vem com tanta porcaria embutida em si, que nem as pragas têm coragem de lhe experimentar as folhas).

Rotulado de “Suspense – Drama”, o abacafilme era uma produção francesa pobre de roteiro e carente de ritmo, baseada numa sinopse mal intencionada e estrelada por meia-dúzia de atores cujo constrangimento era evidente. Metade do elenco era morto-vivo; outra metade, vivo-morto. Não se entendiam nem entre si, que dirá fornecer alguma base de coerência nos diálogos para quem visse de fora.

E mais não digo, que periga ficar parecendo que estou querendo falar mal do filme.

Hehehe.

17 outubro 2003

Como é boa a vida ávida, de texto, de som, de verso, de tom, de tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum (coração).

Como é boa a vida prática, de gesto, de plexo, de nervos, desejos, cores, pele, sensações.

Como é boa
a vida.
Ah, vida
ávida!

13 outubro 2003

Begônias virtuais não murcham


Uma versão atualizada para o clássico “As flores de plástico não morrem”, hehe.

Bons dias!!! Segunda-feira, 7h da matina, um Rio de Janeiro nebuloso e até meio manhoso ameaça derrubar suas lágrimas em frente à minha, à sua, à nossa pracinha. Estive um tanto ocupada durante a semana que passou – nem tanto regando begônias, mas, muito, plantando planos e artes.

Na verdade, o fim de semana passou e eu nem vi. Ontem teve ensaio da Analógica, o dominical de sempre, eu me senti bem, e me lembrei do que me diz uma amiga: cante sempre! Você respira corretamente enquanto canta... serve para equilibrar os chakras, bobinha!

Taí. Eu, que sou uma moça cheia de chakras, nunca havia pensado nisso. Cantar para equilibrar os chakras. Ontem eu levei os meus chakras para o estúdio e praticamente joguei futebol de botão com eles: o cardíaco, que fica aqui bem no meio do peito, agradeceu. O som do baixo vibra é bem nele, já notou?

(Na verdade, reverbera um pouco ali no plexo solar – que fica uns quatro dedos abaixo do estômago).

Estou falando grego, não, né? Quando eu estiver, me avisem.

Um dia eu fui a uma astróloga que me disse que eu deveria procurar trabalhar com musicoterapia. Achei aquilo até bonito, mas tão careta... ela disse que eu me sentiria melhor se pudesse ajudar os outros com o dom-que-Deus-me-deu (clichê?, eu?).

Perguntei a ela se eu não podia continuar tocando meu baixo e cantando por aí, dizendo umas besteiras para as pessoas rirem entre uma música e outra, essas coisas das quais não consigo me livrar, nem me esforçando. Mas ela disse que não: é mu-si-co-te-ra-pi-a! E, de preferência, com crianças.

Foi então que me assustei e resolvi nem considerar. Gosto de crianças, claro, mas não consigo me ver reunida com um grupo delas, a dirigir um trabalho com fins terapêuticos. É demais para a minha bolinha.

Certa feita, já aqui no Rio, eu falava com uma moça cuja filha pequena me olhava torto. Esperou eu respirar, e perguntou à mãe (bem alto):

- Manhê! Por que é que essa moça fala tudo errado??

Era o meu sotaque. A mãe explicou, com carinho e um pouco de constrangimento, que eu era gaúcha. E a menina olhou ainda mais torto, como quem pensa: “cruzes, e isso pega?”.

Este foi o primeiro episódio com crianças. O segundo foi em São Paulo, eu estava visitando um namoradinho (ou quase isso, ou pretendia eu que assim fosse), ele me levou para visitar uma prima, o marido, e o filho pequeno.

Mal cheguei, beijinhos, sofá, cafezinho etc. Tímida no início, resolvi me soltar, afinal, que mal haveria? Falei meia-dúzia de frases, nem lembro o quê, e o guri me olhando, sério. Parei, ele disparou:

- Mãe, ela é menino ou menina?

Era a minha voz grave, de recém acordada. Mau humorada e injuriada, respondi na lata:

- Ainda estou me decidindo, dá licença?

Todos me olharam com os olhos arregalados, e eu ri para descontrair.

Tá bom pra vocês?
E ainda querem que eu vá fazer musicoterapia nessas pestinhas... tem graça!

07 outubro 2003

Comprei begônias



Hoje fui ao supermercado e comprei begônias. Begônias e uvas verdes. Uvas verdes e mamão papaya. Mamão e begônias.

Estou mudada. Para melhor.

06 outubro 2003

BOM DIA !!!

Para iniciar a semana, uma câmera para você ver como está o Rio de Janeiro neste instante. É primaveraaaaa! Beijos, beijos!

04 outubro 2003

Querer alguma atenção ao vivo e receber um correio eletrônico mudo, reto, formal, branco no preto. Cores, cores. Mexi um pouco na terra hoje, terra de verdade, sem arroba.
Flores, flores.

Estive pensando e bebendo muita água, que ajuda um tanto. Acendi uma vela violeta, chama, chama, chamei Deus pro tatame: “e aí, tchê?” - como dizemos lá no sul.
Nadica de nada. Nem me ouviu.
(Quanta heresia, Sofia, Sofia...).


Falando nisso

Também quero chegar por últimoooooooo!!!
Se quem chega por último é mulher do padre (Pedro)...
Sus-pirando, aqui.

03 outubro 2003

Os 10 mandamentos da Anti-malhação:


1. Minha avó começou a andar 5 km por dia aos 80 anos. Hoje ela tem 97 e ninguém sabe onde ela está.

2. Me inscrevi numa academia no ano passado e não perdi um quilo sequer...
Parece que é preciso participar das atividades...

3. Tenho que fazer exercícios de manhã, antes que meu cérebro perceba o que estou fazendo.

4. Não faço nenhum exercício. Se Deus quisesse que tocássemos nossos dedos do pé, Ele os teria feito mais próximos das mãos.

5. Gosto das longas caminhadas, principalmente quando feitas por pessoas que me aborrecem.

6. Se quero correr mais, compro um carro mais potente.

7. A vantagem de fazer exercícios todos os dias é que você vai morrer com boa saúde.

8. Eu não corro porque derruba o gelo do copo.

9. Tartaruga não faz nada, anda bem devagar e dura 200 anos.

10. Se nadar emagrece, por que a baleia é gorda?

02 outubro 2003

O Globo – terça, 30 de setembro
(O MUNDO)


Megaorgia causa crise entre China e Japão


Pequim – As delicadas relações entre China e Japão sofreram um novo golpe com um escândalo de turismo sexual.Quase 400 japoneses e 500 prostitutas chinesas participaram por três dias de uma orgia num hotel de luxo na província de Guang Dong, no sul da China, de 16 a 18 de setembro. A data coincidiu com o aniversário da invasão do norte da China pelo Japão em 18 de setembro de 1931.

***

Meu irmão, reflexivo: “É... anos depois, lá estavam os japoneses invadindo o norte da China novamente... o norte ou o sul, no caso, aí vai do gosto do freguês.”

(Gargalhadas gerais)

01 outubro 2003

LEIAM, LEIAM E LEIAM!

O texto abaixo é hilário, está rolando na internet e eu não resisti; postei aqui para vocês rirem (e pensarem!) também.

---

Nossas músicas de ninar


Eu, uma Brasileira morando nos Estados Unidos da América, para ajudar no orçamento, estou fazendo "bico" de babá e, ao cuidar de uma das meninas de quem eu "teoricamente" tomo conta, uma vez cantei "Boi da cara preta" para ela, antes dela dormir. Ela adorou e essa passou a ser a música que ela sempre pede para eu cantar ao colocá-la para dormir.

Antes de adotarmos o "boi, boi, boi" como canção de ninar, a canção que cantávamos (em Inglês) dizia algo como:

Boa noite, linda menina, durma bem.
Sonhos doces venham para você, Sonhos doces por toda noite...
(Que lindo, né mesmo!?)

Eis que um dia Mary Helen me pergunta o que as palavras em português da música "Boi da cara preta" queriam dizer em Inglês:

Boi, boi, boi, boi da cara preta,
pega essa menina que tem medo de careta... (???)


Como eu ia explicar para ela e dizer que, na verdade, a música "boi da cara preta" era uma ameaça, era algo como "dorme logo, caralho, senão o boi vem te comer"? Como explicar que eu estava tentando fazer com que ela dormisse com uma música que incita um bovino de cor negra a pegar uma cândida menina?

Claro que menti para ela, mas comecei a pensar em outras canções infantis, pois não me sentiria bem ameaçando aquela menina com um temível boi toda noite...

Que tal! "nana neném que a cuca vai pegar..."?

Caramba... outra ameaça! Agora com um ser ainda mais maligno que um boi preto!

Depois de uma frustrante busca por uma canção infantil do folclore brasileiro que fosse positiva e de uma longa reflexão, eu descobri toda
a origem dos problemas do Brasil. Trauma de infância!

Trauma causado pelas canções da infância. Vou explicar: Nós somos ameaçados, amedrontados e encaramos tragédias desde o berço! Por isso levamos tanta porrada da vida e ficamos quietos. Exemplificarei minha tese:

Atirei o pau no gato-to-to
Mas o gato-to-to não morreu-reu-reu
Dona Chica-ca-ca admirou-se-se
Do berrô, do berrô que o gato deu
Miaaau!


Para começar, esse clássico do cancioneiro infantil é uma demonstração clara de falta de respeito aos animais (pobre gato) e crueldade. Por que atirar o pau no gato, essa criatura tão indefesa? E para acentuar a gravidade, ainda relata o sadismo dessa mulher sob a alcunha de "D. Chica". Uma vergonha!

Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, marré, marré.
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré de si.
Eu sou rica, rica, rica,
de marré, marré, marré.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré de si.


Colocar a realidade tão vergonhosa da desigualdade social em versos tão doces!! É impossível não lembrar do seu amiguinho rico da infância com um carrinho cabuloso, de controle remoto, e você brincando com seu carrinho de plástico... Fala sério!!!!

Vem cá, Bitu! vem cá, Bitu!
Vem cá, meu bem, vem cá!
Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá!
Tenho medo de apanhar.


Quem é o adulto sádico que criou essa rima? No mínimo ele espancava o pobre Bitu.

Marcha soldado,
cabeça de papel!
Quem não marchar direito,
Vai preso pro quartel.


De novo: ameaça. Ou obedece ou você vai se fu... não é à toa que brasileiro admite tudo de cabeça baixa...

A canoa virou,
Foi deixar ela virar,
Foi por causa da (nome de pessoa)
Que não soube remar.


Ao invés de incentivar o trabalho de equipe e o apoio mútuo, as crianças brasileiras são ensinadas a dedurar o dedo e condenar um
semelhante.Bate nele, mãe!!

Samba-lelê tá doente,
Tá com a cabeça quebrada.
Samba-lelê precisava
É de umas boas palmadas.


A pessoa, conhecida como Samba-lelê, encontra-se com a saúde
debilitada, necessita de cuidados médicos mas, ao invés de compaixão e apoio, a música diz que ela precisa de palmadas! Acho que o Samba-lelê deve ser irmão do Bitu...

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou.
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou...


Como crescer e acreditar no amor e no casamento depois de ouvir essa passagem anos a fio?

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada;
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada.
O cravo ficou doente,
A rosa foi visitar;
O cravo teve um desmaio,
A rosa pôs-se a chorar.


Desgraça, desgraça, desgraça!!! E ainda incita a violência conjugal (releia a primeira estrofe).

Precisamos lutar contra essas lembranças, meus amigos!!! Nossos
crianças merecem um futuro melhor!!!!

29 setembro 2003

Segunda-feira


O fim de semana foi calmo. Sábado à noite, DVD e um pouco de violão. Não vou lembrar o nome do filme (bonzinho), mas era um suspense cuja personagem principal, uma psicóloga que trata de presidiários, sofre pela obsessão que um deles, recém solto, resolve manter por ela. Crime, investigação, paixão e um pouco de drama. Nada de humor.

O domingo foi mais uma espécie de pré-segunda-feira, com muito trabalho e pouco tempo livre.

À noite, perdi o Brasília Music Festival que a Globo passou. Minto; peguei só o finalzinho, da última do Pretenders em diante. Pelo menos deu para ver o Roger (Ultraje a Rigor) cantando “Nós vamos invadir sua praia”, e me lembrar dos shows que fazíamos no litoral gaúcho há uns 6 ou 7 anos.

Mais do que um bom bronzeado, nós queremos estar do seu lado.

Faz algum tempo que não viajo. Um tempo maior do que deveria. Preciso dar um jeito nisso, entre outras coisas. Como a vida é curiosa, não?

28 setembro 2003

Alanis Morissette




De cabelos curtos! Quem diria?

Confesso que fiquei na maior vontade. O show aqui no Rio aconteceu (ou está acontecendo) hoje, no ATL Hall, mas os ingressos custam de R$ 90,00 (o mais barato!) a R$ 200,00.

R$ 90,00 é mais do que eu gasto em supermercado por semana. É mais do que eu gasto em faxina por mês. É mais do que... bom, eu adoraria ver a Alanis ao vivo. Mas fica para outra vez.

26 setembro 2003

Brasília Music Festival 2003

Numa hora dessas, eu queria estar em Brasília. Live, Pretenders, Alanis e Simply Red? Eu ouvi direito?
E vocês viram que a Alanis cortou os cabelos?
Tô boba!



Falando nisso...



Mick Hucknall, vocalista do Simply Red, fazendo uma pontinha na próxima novela das 8h.
Aliás, a Malu Mader bem que poderia nos fazer a gentileza de parar de ficar mais linda a cada dia, não?
E, a propósito, a próxima a contracenar com a Malu é ninguém menos que Alanis Morissette.



Nada a ver com o assunto, mas...

A estrela Lya

Muita gente ficou de "Perdas & ganhos" na mão, sem conseguir lugar para ver a concorridíssima palestra de Lya Luft no Rio. Os sem-autógrafo da noite de terça-feira (23/9) retratam o sucesso da autora gaúcha, transformada surpreendentemente em best-seller aos 65 anos.

25 setembro 2003

idas úmidas (mas não chore)


mas não chore
eu não estou
sumida
(é só uma ilusão de ótica)
.
.
.
mas não chore
(eu não estou)
.
.
.
sumida
(é só uma ilusão de ótica)
.
.
.
eu não estou
(sumida)
.
.
.
eu não estou
(sum ida)
.
.
.
s um ida
.
.
.
s um idas
.
.
.
umidas um
.
.
.
idas umidas
.
.
.
idas úmidas
(mas não chore).

19 setembro 2003

SHOW - Dançando no campo minado



Ontem eu fui ao show dos Engenheiros do Hawaii no Canecão, e saí de lá com a minha usual cara-de-tacho, a pensar na vida e no rock, no tempo passando e na cadência de uns, na decadência de outros; na boa vontade de uns, na mesmice pouco generosa de outros. E na minha crônica sensibilidade de fã incondicional da boa música, que não se prende a convicções impostas pelos sábios, ou padrões impressos nos suplementos especializados. Minhas impressões são bem outras.

Meu papel era claro: sentar a bunda numa cadeira, assistir a um show, e depois voltar para casa pelo mesmo caminho. Mas nem isso eu consegui fazer.

De fato eu me sentei onde pude, mas, assim que o show começou, passei a estranhar a presença de gente indesejada ao redor da minha mesa. A primeira foi uma menina de nove anos, vestida com a camiseta do Grêmio, que eu conhecia de outros carnavais, mas com a mesma fantasia. A segunda foi uma de dez, cuja usual cara-de-tacho não me era estranha. A terceira tinha onze anos e se aboletou ali sem pedir licença, assim como a de doze, a de treze, a de catorze, e todas as próximas - adolescentes, estudantes, roqueiras, universitárias, rebeldes, apaixonadas...

Não sei se foi obra do acaso, ou se alguém armou isso de propósito, mas calhou de eu adolescer e adultecer vendo aquele alemão pouco paparicado pela mídia tecer suas letras e melodias, como quem não quer nada, disco após disco, palco a passo. E durma-se, com um barulho desses.

O que eu menos queria, a essa altura do campeonato, era um congresso dos meus pedaços não convidados, que foram chegando involuntariamente à minha mesa - e, quando vi, já estavam pedindo uma bebidinha. Mas não tive outra saída senão acolher essa gente toda, e ainda pagar a conta no final.

Aluguei uma van e trouxe a galera aqui para casa, aonde viemos terminar o congresso (não vejo a hora). Até lá, ficaremos – as meninas e eu - envoltas nessa aura quase mística de reflexão e sensibilidade, às vezes pouco conveniente ou confortável, mas sempre enobrecedora.

Resumindo, eu acho que a arte serve é para isto: para nos puxar o tapete do individual, e nos fazer universais, ainda que por um momento, e ainda que à força. Ainda que tenhamos a ingênua fantasia de que os “nossos” pedaços são, realmente, só nossos.

15 setembro 2003

Puxando a brasa pro assado do vizinho


Vou fazer uma propaganda descarada, mas super bem intencionada: visitem o site da banda gaúcha Vide Bula , e não se arrependerão.

Há músicas disponíveis em MP3 (inteiras!), e já vou avisando que se trata de um pop tão cativante quanto despretensioso – coisa muito rara hoje em dia -, cuja parte musical vai muito bem, obrigada, mas sem perder a ternura jamais. Eu recomendo, de verdade. Acho que as bandas de pose and roll têm muito a aprender com caras assim, que não cospem no chão e não cantam como se estivessem à beira de um suicídio e/ou ataque epilético.

Música e filosofias à parte... meninas, não percam a seção de fotos!