21 agosto 2002

EPA, EPA, EPA!

Estava andando na praia, agora há pouco, quando o moço que vende Biscoito Globo - pronúncia: bixcoito-globo - me parou com a seguinte frase:

- E a loirinha vai levar um doce ou um salgado pro namorado, noivo ou marido?

Levei um susto. Loirinha?? Fiquei olhando para ele com cara de tacho. Ele atacou:

- Está namorando, está solteira ou está casada, loirinha?

Loirinha, de novo. Rebati - "estou dura!!" -, e segui a minha caminhada. Ora, bolas.

Parei na farmácia que fica ali perto do postinho, e fui direto à prateleira dos tonalizantes. Ok, estou precisando de retoques. O último foi o Terra, número 22 da Casting, mas ali não tinha. Tinha só o Noz - um tom mais grave, digo, mais escuro. Vai esse mesmo. Tenho urgência.
Ora, bolas.

Nada contra as lindas loirinhas - sou fã do jeitinho meigo da Meg Ryan, por exemplo. Dou todo meu apoio. Mas, eu? Poxa, vocês não sabem o tempo que eu gasto em frente ao espelho, a tingir minhas madeixas da cor TERRA, empapando cada fio como se fosse o único, louca de medo de fazer mechas sem a mínima intenção.

Aí, vem o tio do bixcoito-globo, e me acusa de LOIRINHA?? Comigo, não.

Sou muito morena, morena tropicana (pelo menos de cabelo): ai, ai, iô, iô.


FUSCA PRATEADO

Hoje eu ia dirigindo pela Av. das Américas, quando avistei à frente um fusca prateado, a coisa mais lindinha do mundo. Todo limpinho, brilhando, cuidadíssimo - coisa rara e bonita de ver.

Quando olho a placa: Porto Alegre. Olha, que bacana! E uma mulher dirigindo. Conterrânea!!

Já fiquei toda faceira. Vou ultrapassar, e buzinar. Vou acenar! O fusca é perfeito!

Ainda outra surpresa: na bundinha do fusca, um adesivo com a bandeira do RS. Vou sorrir, e vou aumentar o volume do Vitor Ramil para ela ouvir! Tem jeito de gente boa, a moça...

Antes de ultrapassar, ainda olhei mais uma vez para a bunda do carro. E vi. Vi o que não poderia ter visto. O terrível, o inoportuno, o descabido: um adesivo do Internacional. Acreditem, a moça era colorada.

Nada pode ser perfeito.

O fusca nem era prateado, pensando bem; era cor-de-cinza. E feio, o coitado. Muito feio.

Ultrapassei reto, e fui-me embora.
Minha gente,
não é que pintou insônia?? Pudera, fui deitar cedo demais... como vão vocês?

Eu vou bem, obrigada.
Um tanto de saudade do Sul - e seus respectivos -, mas tudo bem. Às vezes, bate um banzo melancólico... mas isso é coisa de madrugada insensata.

Aliás, toda madrugada é insensata, desde que me conheço por coruja.

Eu sabia que tinha alguma coisa estranha no ar, mesmo antes de constatar que meu irmão havia lavado a louça que eu deixei na pia, assim que voltou do trabalho, à noite.

(Um parênteses: aqui, mais certinho seria "meu irmão havia lavado a louça que eu DEIXARA na pia...", mas eu fico meio assim de usar o pretérito mais que perfeito, pode soar formal demais. Sabe o que é isso? - Trauma de ter sido obrigada a ler Guimarães Rosa e José de Alencar com 12 anos de idade. Belo incentivo ao hábito literário. 90% da turma saía com a convicção de que ODIAVA ler.

Veja bem - continuando entre parênteses -, nada contra os grandes escritores; o problema é OBRIGAR qualquer adolescente a se concentrar numa literatura lenta e rebuscada, enquanto o coitado mal consegue se concentrar nos artigos coloridos das revistas preferidas.)

Mas, voltando à louça que eu DEIXARA na pia: a surpresa da madrugada foi encontrar tudo limpinho, como num passe de mágica. Eu não disse que toda madrugada é insensata?

Meu irmão lia para mim, quando eu era pequena, uma historinha chamada "Pedrinho vai ao médico". Era de uma coleção de livros azuis que tínhamos em casa. Havia outras histórias, mas eu insistia na do Pedrinho, e, por mais que já soubesse o final, adorava ouvir de novo, e de novo, e de novo.

Se ele mudasse alguma coisa no texto, de improviso, era só para chamar minha atenção. E eu reclamava - não é assim!! Agora o médico vai ouvir o coração do Pedrinho!

Hoje eu adoro quando ele muda alguma coisa de improviso.
Na guitarra ou na pia da cozinha.

18 agosto 2002

Buenas, tchê!!
Dia lindo e ensolarado aqui no Rio. Parece verão; está quente, mas tem uma brisa gostosa.
Estou escrevendo rapidinho, recém acordei, e daqui a pouco tenho que sair para um churrasco de aniversário. Lindo dia para churrasco.
Desejo um domingo tão gostoso quanto o meu para todos os que aqui puserem os olhos, e muitas felicidades aos possíveis aniversariantes leoninos - nunca se sabe.
Estou de bem.
Beijos da
Bíbi

17 agosto 2002

Vou divagar enquanto posso.

Vou divagando enquanto intenso; o principal é o texto, o resto é verso avulso e não importa.

Inspira o teto, inspira o tato e inspira o conto, não interessa o fato. Não estou com pressa - a valsa é vida lenta, o tiro
é morte rápida.

Vamos ficando por aqui, vamos divagar, vamos deixar sair o que não pode mais ficar.

(Vocês acham que eu sou muito complicada?)

16 agosto 2002

INDO EMBORA

Estou me despedindo do solo, do fixo e do colo. Cansei da vida aflita, vida falida, falecida vida. Eu vou sem pés, sem nós; eu e eu, a sós. Vou rumo ao infinito, sem medidas, e parto normal: sempre ganho é no grito.

Deixo para trás os significados; levo só os símbolos, e bolo outras versões. Se escapar um verso, a solução está no ar. Se o cérebro parar, vou flutuar, ar. Se o coração inventar de não bater, escrevo um compasso diferente e engulo tudo.

Bate outra vez.

Estou indo embora, olha o vento. Não quero abraçar as estrelas, quero pairar com elas no espaço. Certas vidas perecem, viram adubo.

A vida ensina sem ser didática, e a dor não conhece matemática. Não tem muito segredo, a gente ganha é no grito.

Tudo aqui é muito alto; o amor é alto, a alegria é uma gritaria. Cansei de me fingir de surda-muda. Se o negócio é brulho, não falto.

Estou indo embora, pulando fora e caindo em mim.

15 agosto 2002

O PREGO


A filha de uma amiga nossa tem doze anos e quer enfiar um prego na testa.

Segundo a menina, o nome daquilo é mesmo piercing, é bonito, está na moda, e é muito... maneiro. Que fura, fura. Mas é maneiro.

No meu tempo, injeção na testa a gente não aceitava nem de graça. Mas pensava no assunto, é claro. Hoje em dia, pelo visto, pensa-se menos; fura-se mais.

Acho até bonito um piercing na sobrancelha, se combinar com o estilo da pessoa ADULTA que quiser inseri-lo acima do seu próprio olho. Mas, com doze anos??

Eu tenho o dobro da idade dessa fedelha, e a única coisa que me enfeita é Jesus Cristo, pendurado na cruz, pendurado numa correntinha pendurada ao meu pescoço. Com todo respeito. E eu passo pela porta do Unibanco, numa boa, sem apitar.

Outra coisa: furaram as minhas orelhas muito cedo, no tempo em que eu não podia me defender, de modo que penduro uns brincos nelas sempre que tenho vontade. Ainda assim, a orelha direita é chique demais para aceitar qualquer coisa que não seja de ouro, e inflama. A outra é mais humilde.

Sim, mas eu não durmo de brinco. Não tomo banho de brinco. Nem me peso de brinco, que pode dar impressão de que engordei.

O brinco a gente manipula, tira e põe na hora que bem entender. O prego, não. O prego é praticamente um anexo metálico. À noite, periga alguém bater achando que é mosquito.

Fora que dói. Muito. Sofrimento curto, na hora de colocar, mas muito intenso. Quem já fez, confirma.

Não sou tão careta assim; aceito o prego (em adultos) numa boa. Reconheço que estamos no século XXI, as pessoas são livres, etc.

E dou graças a Deus porque, por enquanto, ainda estão pendurando só os pregos. Imagine quando começarem a pendurar os quadros.

Não devo viver para tanto.

12 agosto 2002

PRATICAR A SATISFAÇÃO CONSTANTE

Eu li a frase acima nuns dizeres do Sai Baba, se não me falha a memória. Não é bonito - satisfação constante?
No mínimo, inteligente.

Experimente passar um dia sem se irritar com nada, absolutamente. Sabe um dos princícpios do budismo, né? - a intemporalidade das coisas. Tudo passa, como uma onda no mar; já dizia o Nelson Motta.

Se nada fica, meu amigo, é meio inútil sofrer. Concorda?
Como diria meu avô: você perde a lavada da bunda. Desperdício puro.

Não é inteligente ter apego a coisa alguma, que dirá se apegar ao tempo - uma coisa tão inoportuna quanto inexistente, que a gente cisma em levar ao pé da letra. Quando a lavada da bunda termina, a ação já lhe escapou por entre os dedos - com todo o respeito. Isto significa que toda lavada de bunda é única, essencial e sagrada. E passa.

Praticar a satisfação constante deve ser, pelos meus cálculos, lavar a bunda com prazer, independentemente do tamanho da sujeira. Sem ficar pensando no antes ou no depois - apenas estar ali, presente, de coração.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã - porque, se você parar pra pensar, na verdade não há.

Experimentem daí, que eu experimento daqui. E durmam com Deus, queridos. Beijocas.

11 agosto 2002

Ois!

Obrigada, Nandu! Volte sempre.

Fui ouvir jazz num barzinho chamado Taberna Diferente, lá em Santa Tereza.

Ainda não entendi como é que aquela gente não bate no bonde; vocês imaginam que há um bonde transitando por lá, e os carros andam por cima dos trilhos dele. Na rua.

É um vai-vém maluco, minha gente, quase dei de cara com o bonde duas vezes. A estrada, não bastasse, é cheia de subidas (e descidas, para quem vem de cima) e curvas.

Você pede informação, e o sujeito diz: "segue os trilhos do bonde toda a vida" - e o pior é que ele não está brincando! Você toca por cima dos trilhos, mesmo, e reza. No meu caso, rezei muito. Jesus Cristo já não agüentava mais, sorte que ele está acostumado ao fiel em desespero, que tem gente que só reza nessas horas, sabe como é.

Tudo bem que o bonde é meio devagar, mas assusta igual. A mim, assusta. Não sou de andar nos trilhos dos outros, eu me sinto invasiva, sei lá, um desconforto sem igual. É como tocar com instrumento emprestado, mas sem pedir permissão. Com o agravante que o instrumento pode te atropelar de repente.

E quando vem um ônibus, então???

Você vai subindo a ladeira, em curva, e o bonde vem de atrás (o "de atrás" é licença poética, não pude evitar, ok?). Lá de cima, embaladinho, vem um busum lotado, afoito e nem-te-ligo. Pra quê. Jesus Cristo, nessa hora, quase ficou surdo, tanto que eu implorei para esperar pelo menos eu tocar no Metropolitan - gosto do nome antigo - antes de partir.

Acredito na hora certa, mas as curvas de Santa Tereza são de abalar a fé de qualquer cristão. E eu peço mesmo.

Graças e Ele, cheguei lá em cima numa boa, apesar do susto e alguns fios de cabelo a menos. Bufava.

O barzinho é rústico, daqueles com banquinhos de tronco de árvore. E tem papel higiênico no banheiro, o que já me cativa uns 60%.

Não que haja alguma relação entre o medo do bonde e o papel higiênico; foi apenas uma observação.

Ih, acho que não convenci.

09 agosto 2002

Alou, pessoas!

Desculpem tê-los abandonado nos últimos dias. Estou envolvida com o trabalho, o que é excelente e me faz bem.

A cidade maravilhosa está cada dia melhor, lindos dias de sol e aquele ventinho - dupla infalível para secar lençóis; ando lavando roupas e minha pele vai melhorando, o sabão em pó vai acabando, o preço do amaciante está pela hora da morte, e Amélia é a senhora sua mãe.

Apaixonei-me, francamente. Ela se chama "Mandy", é uma balada maravilhosa cujo compositor agora não me ocorre - perdão, mais uma vez. Estou amando, há algumas semanas. Preciso variar um pouco, sei lá, trocar de Mandy. Essa fidelidade toda não me cai muito bem, preciso e prefiro manter a minha fama de má... luca. Sempre é mais seguro variar, no sentido enlouquecedor da palavra. Se é que me entendem. Estou variando.

Noite dessas, fui parar no Carioca da Gema, um barzinho apaixonante que fica na Lapa. Não comentem por aí, mas encontrei um bonitão cheio da ginga, e dancei samba e bossa a noite inteira. Eu, dançando samba.

O som é ao vivo, trata-se de uma batucada leve e encantadora, cheia de talento e swing. Gente "da gema", mesmo, fazendo aquilo que nasceu ouvindo. É como ir a um CTG em Bagé, mais ou menos - eu fiquei pensando. Eles fazem aquilo com um pé nas costas, e você não entende nada, mas se encanta.

Lá eu não digo que sou baixista de uma banda de rock, mas eu acho que eles desconfiam que eu não sou muito "da gema", até porque não estou podendo ir à praia nem durante a noite, com medo de que me confundam com um holofote ambulante.

Chega de conversa, hoje eu vou a Santa Tereza ouvir jazz (pronúncia: JÁIXXXX). Tenho ouvido coisas. E a minha analista também.

Beijos!!

02 agosto 2002

Muita vontade de escrever bobagens para pouco tempo...
Luis, obrigada pelos elogios! Fico feliz em fazer um Blog que sirva para alguma coisa. Parece que vai dar um fim de semana chuvoso no Rio de Janeiro. Deu na previsão. Estou com uma tossezinha tão chata... Vontade de fazer um almoço aqui em casa, chamar os amigos músicos, e obrigá-los a comer o meu macarrão integral com molho de ricota, mas acho que vou acabar criando inimizades. Ô, gente que é chegada a uma picanha!! Tive a infeliz idéia de fazer as unhas e, depois, acreditem, faxinar a minha cozinha. O resultado é que estou atrasada para tomar banho, me arrumar e retocar o esmalte, para depois ir até a Lapa - só devo chegar lá amanhã. Mesmo assim, prefiro ficar aqui teclando um pouco, porque a coisa na cozinha foi meio HARD, estou esbaforida e não gosto de fazer tudo muito correndo, parece que perde a poesia.
Poesia? Quem falou em poesia?
Não, sei, captei uma coisa de poesia, eles vivem falando aos nossos ouvidos mesmo. Quem serão eles?
Não, amigo, eu não sou louca. Louco é você, que perde a poesia no primeiro desentendimento no trânsito. O trânsito já é desentendido por si só, ninguém deveria se aborrecer. Todos concordamos com o fato de entrarmos numa caixa de lata e sairmos andando por aí, todo mundo ao mesmo tempo. Marcamos horários, inclusive, que é para ninguém perder "a hora do rush".
Depois, querem reclamar. Eu não entendo o trânsito. Ah, quero ver aquele filme com o Tom Cruise, que estreou hoje, de ficção científica. Sei lá, deu curiosidade. No filme, os carros voam. Seria uma boa, mas eu vôo mesmo sem carro.
Outro dia, fui até o RS, olhando o relevo, de barriga para baixo, enquanto o vento batia no meu cabelo. Falei com uns amigos, e voltei na mesma noite. Quando a gente dorme, é que acorda. Ou você acha que eu voaria dormindo??
Tem dó.





01 agosto 2002

PARA MARISTELA KAYSER BOCK

Tu me manda um e-mail, Maris? Ou escreve aqui no SHUOT OUT o teu e-mail, que eu não tenho aqui, e dá saudade, e quero mandar coisas, mas não consigo. Beijos no Jesué e na Pri, e beijos pra ti também!

PARA TODOS

Oi, gente, hoje estou um sem inspiração e com preguição, de modo que vou postar aqui uma crônica antiga minha que eu acabei de achar. Beijos.


Quanto vale uma escova grátis?



Bíbi Da Pieve



Imagine que o seu casamento esteja meio sem graça. Precisando de um tempero - que você cisma em chamar de "investimento".

O Adelmo anda distante, e, quando resolve chegar mais perto, você não quer saber.

As afinidades evaporaram depois do primeiro ano de convivência. Faz três anos que vocês se enfiaram nesse quarto-e-sala com paredes descascando. Tudo ia muito bem, ele até fazia as suas unhas de vez em quando. Mas, hoje em dia, o clima é de cortar com a faca: mal se olham.

Antes que as paredes desabem de vez - você pensa -, é melhor eu investir no meu relacionamento.

Pronto. Parece que o mundo inteiro adivinhou suas necessidades: internet, televisão, revistas, livros e sex-shops oferecem rápidas e práticas soluções para o seu problema.

Será que isso é um sinal? - você questiona -, ou toda essa indústria já exisitia antes do Adelmo, e já torcia para que eu o encontrasse um dia, casasse com ele, e, depois de três anos, decidisse investir num relacionamento mal das pernas?

Não importa. O Adelmo vale o investimento; você saca meia-dúzia de manuais sobre casamento, uma camisola de rendinha, faz o pé e a mão no salão mais caro, e ainda sai achando que está no lucro - ganhou uma escova grátis.

Devorados os livros, decoradas as dicas práticas, entendidos os fundamentos psicológicos das diferenças entre os sexos, alisado o cabelo e lixado o pezinho - você está pronta para mudar de vida. Afinal, o Adelmo é o príncipe que todas as suas amigas pediram a Deus (lindo, alto, louro, vinte e tantos), e você prometeu a si mesma um
happy end digno de Hollywood.

Mas faltou um detalhe: um bom vinho, para brindar à lua-de-mel do investimento.

Atrasada, você passa na delicatessen mais próxima ao quarto- e-sala descascado, desce do ônibus num pulo, quebra o salto, e cai de joelhos na sarjeta. Chove muito. O cabelo empaçoca e espiga.

É quando aparece, do nada, o gaúcho Kleiton - que você não vê há uns quinze anos -, e lhe dá a mão. Você levanta, gagueja; não sabe se ri, chora, abraça, beija ou engole o salto quebrado.

E você também não sabe há quanto tempo não sente isso, mas desconfia que faça uns quinze anos - desde que o Kleiton, seu amor platônico de adolescência, resolvera ir tocar percussão no Canadá.

Agora ele deve estar com quase cinqüenta; é baixinho, careca, meio barrigudinho, mas continua com o mesmo olhar: desconcertantemente percussivo. Durma-se.

Mas como, se você não deixou passar uma linha? Se você decorou todas as dicas, comprou os melhores perfumes, usou os melhores esmaltes - como é que pode, agora, um batuqueiro sulista vir atrapalhar o seu investimento no Adelmo?

Acontece, minha cara. Esse tipo de Kleiton não escolhe suas vítimas. E a maioria dos manuais de "felicidade" não vêm com a letra "k" no índice.

Nada contra os Adelmos, os livros de auto-ajuda e as pedicures. É que - particularmente - tenho uma quedinha pelos saltos quebrados, pelos encontros inusitados, e pelas tempestades - que são intensas justamente por serem naturalmente crespas, sem investimento algum.

E sem escova grátis.

31 julho 2002

AMENIDADES


Havia um homem correndo na ciclovia da praia.

O dia estava lindo, mas agora ameaça chover. Não se pode confiar nem mais em São Pedro.

O homem corria de sunga e tênis. Só.

Quando nós somos feios demais, o problema está no olhos do outro. Quando somos estúpidos, o outro é que está muito sensível. Quando estamos na TPM, o ciclo das outras é que está errado. Se somos violão, as outras são tábua. Se somos tábua, as outras são gordas demais. Nunca é nossa culpa. Nunca.

Sabe aquelas sungas apertadinhas? E tênis. O homem corria: um, dois, um, dois.

Se você é do tipo que encontra um menino de 18 anos, bonitinho, e fica logo se perguntando se ele tem um irmão mais velho, o Biblog oferece estatísticas e dicas: existe 50% de chance de haver um irmão mais velho. Se houver, existe 50% de chance de ele não ser casado (o que já reduz as suas chances reais para 25%). Se ele não for casado, há 50% de chance do cara ir com a sua cara (chances reais: 12,5%). Se ele gostar de você, existe 50% de chance de não querer se aproximar porque, afinal, o irmão mais novo viu primeiro e está na sua (chances reais: 6,25%). Se ele não for casado, gostar de você, e não der a mínima para os sentimentos do irmão mais novo, há 50% de chance de ser um grosso, insensível, machista e egoísta (chances: 3,125%).

Trocando em miúdos: se um irmão mais velho, que você nem sabe se existe, for solteiro, gostar de você, for sensível, mas não se importar em "tirar" você dos braços do irmão mais novo... bem, isso é muito difícil. Só 3,125% de chance.

Tudo bem, se, ainda assim, você achar que vale a pena arriscar, lembre-se: há 99% de chance do seu príncipe (que não existe) ser gay. Suas chances reais quase evaporaram.

Dica do Biblog: vai por mim, que tempo é dinheiro. Achou o garotão bonito?, tasca logo um beijo. Se quiser fazer uma introdução, para não ficar muito no seco, diga assim:

- Ok, já sei que o seu irmão é veado, então vamos acabar logo com isso.

Não falha uma.

Você sabe o que leva um homem a correr de sunga e tênis? Tudo bem, não deve querer a marca da bermuda (ou short) nas pernas. Não é que eu seja de observar essas coisas, mas, quase sempre, ocorre-me uma preocupação quanto a uma possível vida reprodutiva do homem em questão.

Não podia ser uma sunga menos apertadinha?

Fico imaginando. Depois, a criança nasce com claustrofobia, e vai para o psicólogo. Que criança mais esquisita.

Sim, a criança é que é esquisita. Aquela sunga, não.

É o que eu digo. Nunca a culpa é da sunga da gente.

30 julho 2002

Boa noite, amores!

Por falar em jam session, ontem foi dia de Severyna (um bar maneiro lá em Laranjeiras), com Guto Goffi e convidados. Mas o Guto não estava, parece que está viajando. Fazia muitos meses que eu não ia lá; coisa boa matar a saudade.

Matei também a saudade da praia. Hoje estava um dia lindo, fui dar aquela caminhadinha básica.

O Miro Fagundez me ligou no fim da tarde, para me mostrar uns pedaços do disco que está gravando. Se você não conhece esse nome, não perde por esperar. É a voz mais perfeita que eu conheço, um talento exagerado, chega a transbordar. O Miro nasceu em Angra dos Reis, está radicado em Porto Alegre há quase dez anos, fazendo muito sucesso por lá. Um dia eu vou tocar contrabaixo na banda dele, só para sentir a emoção daquele vozeirão em cima do palco. Nem vou querer ouvir o baixo, vou pedir e-monitor com 100% de voz do Miro. Hehe, só dá ele. Anota aí: MIRO FAGUNDEZ.

Estou querendo ir amanhã a um lugar, mas não sei onde é. Gaúcha perdida no Rio de Janeiro dá nisso. Sei que fica perto dos arcos da Lapa, e vai rolar um som, coisa meio jazzística. (Aqui eles pronunciam "jáixxxx", hehe, que bonitinho). Alguém dá uma dica? Duvido.

Por enquanto, era isso. E beijos a vocês.

P.s.: Era tu, Duda!! Pô, ficamos sem despedida... beijos!








28 julho 2002

Oi, fofos

Que domingão bem cinzento e preguiçoso... delícia! Friozão no Rio de
Janeiro. Liguei hoje para a minha mãe, lá no RS, dizendo que aqui está
um frio de rachar, pois estou de short e moletom. Sim, manga comprida
é Rio de Janeiro quase glacial!

Por falar em glacial, mas nada a ver com o assunto: alguém me
convide para uma roda de violão, uma canja num boteco, uma jam
session, ou para gravar um jingle, ou mesmo para fazer a locução do
carro da pamonha. Tou dentro. Precisando descongelar.

Aliás, estão todos aqui dizendo que eu voltei do sul muito branca.
Inclusive quem nunca me viu antes. Sinal que devo estar ofuscante;
podem me chamar de Gasparzinha, se quiserem. Mas vou pegar a cor
do verão, mesmo que seja no meio do inverno... ah, vou!

(Já sei, já sei, cuidado com as ondas do mar... não levo o Nei Lisboa
para a praia nunca mais. Dá azar.)

Gente, sonhei com o Wando!! Nem lhes conto. Imaginem uma reunião
no pátio de uma casa úmida e escura: eu, o Wando, o Roberto Frejat, o
Renato Borghetti e mais alguns exemplares da raça musical - que não
me recordo agora.

Era um balaio de gatos. Tinha de tudo. O Wando recém lançara um
disco, o Frejat fazia planos para a carreira solo, o Borghettinho só
olhava por debaixo do chapéu, meio alheio a tudo. Eu, das mais
participativas, conversava com todo mundo, comentando sobre os mais
variados assuntos - inclusive sobre música.

Quem mais me dava trela era mesmo o Frejat, dizendo inclusive que
estava curioso para ouvir o disco da Ana Lógica, que eu acidentalmente
havia me esquecido na outra bolsa. (Desde que comprei uma segunda
bolsa, minha dor de cabeça tem sido esquecer metade das coisas na
bolsa que deixei em casa.)

Pelo que eu me lembre, o Wando cantava "você é luz", e eu, branca
desse jeito, já achei que era gozação pro meu lado. Não quis levar
desaforo para casa, mas também não quis mexer em vespeiro, de
modo que me comportei e até arrisquei um vocalzinho amigável no tão
louca me beija na boca me ama no chão.

Ossos do ofício, minha gente.


26 julho 2002

Bueeeenas!

Nove horas da manhã, dia nublado no Rio de Janeiro. Sim, cheguei, estou debaixo de alguma asa do Cristo.
Ainda não vi o mar (de dia), mas consta que ele continua lá.
Mudaram algumas coisas, desde que viajei. A minha cozinha, por exemplo - se é que ainda posso chamar assim.
Houve uma espécie de terremoto, particularmente no piso da cozinha. Dizem que, quem vinha distraído, tropeçava num quebra-molas de lajota, coisa de outro mundo mesmo. Tiveram que mandar trocar o piso todinho.

O seu Zé já arrancou todo o piso velho, e colocou um novo, até mais bonito, branquinho. Mas falta o "rejunte". Hoje, se Deus quiser, ele vem aqui concluir a obra, e as coisas podem começar a voltar para seus devidos lugares.

Meu irmão, no entanto, se afeiçoou pela geladeira no meio da sala. Diz que é prático. Daqui do computador, para se ter uma idéia, é preciso pouco mais que uma esticada de braço, e a jarra d'água vem parar na sua mão. Coisa fina.

Por outro lado, quem vier meio animado do banheiro, é capaz de dar com o dedão do pé na porta da amiga Brastemp. Melhor devolvê-la ao lugar de origem.

Há muita poeira na cozinha, e na sala também. A cada dia que passa, eu dou uma limpadinha, e o seu Zé dá uma sujadinha. Parece estar de implicância comigo.

A pracinha aqui na frente de casa, que era só um projeto quando eu saí daqui, continua sendo só um projeto. Está certo que virou um projeto com cara de projeto de praça - coisa que, antes, não parecia -, mas a obra vai muito com calma. Meia-dúzia de homens uniformizados trabalham, pacientemente, escondidos atrás de uma gigantesca placa da prefeitura - que, julgo eu, pretende ser uma espécie de monumento para a praça, só pode. A bem da verdade, não consigo enxergar daqui se eles trabalham, se comem sanduíches de ricota, se jogam cartas, ou vôlei, ou se estão pulando corda. É que a placa esconde.

Bem, ao menos o monumento já está pronto. Desde o primeiro dia. Diz assim: "ESTA É MAIS UMA OBRA DA PREFEITURA DO RIO". Se é mais uma, significa que há outras por aí. Espero que esses homens não se cansem muito, e que eu viva para sentar num banco da praça. Bem que poderiam vender água-de-coco. Mas, aí, periga demorar mais cinco anos.

O policiamento está intenso aqui para os lados da Barra da Tijuca. Desde a morte do Tim Lopes - segundo comentam -, há mais policiais na Av. das Américas do que peixes mortos na lagoa Rodrigo de Freitas. Tenho percebido.

Minha amiga e eu voltávamos, de madrugada, de um restaurante aqui perto, quando fomos abordadas por um PM. Havia uma confusão na pista, e uns fios de luz atravessados no meio dela. O esclarecedor discurso do policial foi: "Se a senhora quiser arriscar, pode passar por cima e ir adiante, não tem problema nenhum. Mas tá tudo em curto circuito, aí é a senhora que sabe. Se quiser arriscar, pode passar."

Muito confortável. É bom saber que as autoridades respeitam o nosso ponto de vista e o nosso direito de ir e vir, mesmo que isso implique no direito de virarmos torradas de unhas pintadas.

Em todo caso, demos meia-volta, e tomamos outro rumo. Acho que o PM lastimou um pouco, pois queria ter visto alguém se arriscar naqueles fios, para depois poder esclarecer com mais precisão aos outros motoristas: "Olha, é melhor não passar, porque uma senhora resolveu arriscar, e... tá vendo aquele carvão ali??"

Enfim, o Rio de Janeiro continua lindo.

Aquele abraço!











20 julho 2002

Ah, se me permitem, hoje eu estou para conversa. Vim aqui ter com vocês, de novo. (Hein? Gostaram do "ter com vocês"?). Contudo, sugiro que passem direto para o post abaixo, que desse aqui não vai sair nada de interessante. Tenho certeza.

Estou ficando velha. Saí de casa na quinta à noite, e também na sexta. Hoje, sábado à noite, não arredo o pé daqui nem por um decreto. Deus me livre do sereno, do barulho e do cheiro de fumaça. E das minhas botas de salto, claro.

Uns cinco anos atrás, a essa hora, eu já estaria cantando "com que roupa eu vou?", toda saltitante, louca para perambular por aí até o sol raiar. E ainda achava pouco. Cruzes!, quanta disposição se tem aos dezoito ou vinte anos. (Tudo bem, estou só com 24 - mas, para quem vive DA noite, cada ano vale por dez). Ou vocês acham que eu estou pintando os meus cabelos só porque gosto de variar a cor??

Sabem de uma coisa? Eu acho que descobri de onde vem a arte. Prepara, que lá vem filosofia de amador. Já disse, o post abaixo é bem mais interessante. Mas vocês insistiram...

A arte vem do amor. E brega é a senhora sua mãe. Claro que não estou falando do amor romântico - muito embora, no caso do Wando... ops!, chega de falar do Wando.

Noite dessas, sem muito o que fazer, fui me deitar e me pus a pensar no fofo do meu irmão. (Desculpe, Mano!) Pensei bem forte, que eu tenho os miolos malhados, eles agüentam bastante pensamento. Quando percebi, estava vendo coisas: via meu irmão em casa, na rua, no palco (onde eu sempre o vejo do melhor ângulo, desculpem-me...), e no aeroporto. No saguão, a me esperar. Quando saí para o saguão, com o meu carrinho de bagagens, abracei o moço e segurei o pensamento no abraço.

Pronto. Imediatamente, como num passe de mágica, começou a chuva. Palavras, frases inteiras, versos, melodias, harmonias, uma linha de contrabaixo, um soprinho de metal ao fundo, uma batucada, umas imagens coloridas, uma floresta, uma fogueira, a lua - tudo veio, subitamente, chover nas minhas idéias. Eu que me virasse com aquele caos; que decidisse quem é texto, quem é som, quem vai, quem fica, quem faz parzinho com quem, quem é joio e quem é trigo.

Todo caos pede uma nova ordem. O turbilhão de "idéias" que saltaram do abraço no saguão do aeroporto diretamente para a minha cachola é a matéria-prima caótica da arte. Haja texto, haja melodia, haja rima e haja poesia para colocar de volta, no mundo, o que já é do mundo e ninguém tasca.

É por isso que arte é transformação, qualquer que seja a via de expressão. Há muita coisa em jogo, uma canção não é só uma canção. Vocês percebem isso, ou concordam?

A senha tem quatro letras: A M O R. Pode ser amor por um irmão, um momento, uma causa, uma árvore - qualquer coisa. Mas tem de ser verdadeiro. Aí, a passagem é livre.

É claro que não estou dizendo novidade nenhuma. "Só o amor constrói". Acontece que estou, aqui, organizando um pouco da confusão em que me meti por ter nascido mulher e louca na mesma vida. Acho que, na euforia de encarnar, marquei com "X" as duas opções ao mesmo tempo. Deu no que deu.

É muita coisa, acreditem.

Ok, o post ficou até bacana. Tchau.





ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

A banda Vide Bula - www.bandavidebula.cjb.net - sobe ao palco da São Leopoldo Fest, no Ginásio Municipal de São Leopoldo, às 20:30h de amanhã, domingo, dia 21.
Esta baixista que vos escreve vai fazer uma participação, não tocando baixo, mas dividindo um vocal com o Volnei Cavalheiro.
Conferi um ensaio, e prometo que vai ser um show DAQUELES. Apareçam!!

FALANDO NISSO...

Existe uma banda chamada Jack Brown, aqui de São Leopoldo, que toca no bar do André todas as quintas-feiras. Como eu não tenho mais nenhuma quinta-feira pela frente aqui no RS, deixo a dica para os que ficam: quase chorei de saudade ao ouvir covers bem executados de TNT, Garotos da Rua, Kleiton & Kledir - e gauchada a quatro. Show de bola.

E CHEGA DE MÚSICA!

Para mim, existem dois tipos de homem: os que vêm conversar comigo sobre música, e os que vêm conversar comigo sobre música e depois MUDAM DE ASSUNTO. Confesso que prefiro o segundo tipo. Rock'n roll é legal, mas não põe a mesa.

SHOUT OUT!

Gostaria de agradecer publicamente aos oito - até agora - SHOUT OUTS que recebi em resposta ao texto manhoso e carente do dia 18.
Vocês são uns amores, e entendem a TPM como ninguém.

A VOLTA - parte I

Ontem eu compus duas músicas, depois de quase seis meses de seca. Sorry... I'm back!

A VOLTA - parte II

Espero que o Cristo Redentor ainda esteja de braços abertos, que eu vou jogar um abraço pra ele, lá de cima, antes do pouso. E pedir algumas coisinhas...

Espero que o meu apartamento esteja em boas condições de higiene - que não haja cabelos no ralo do boxe, que não haja mais barba na pia branca do que no rosto do Lula, que a chaleira esteja brilhando, que não haja restos de comida do tempo em que eu viajei na geladeira, que a ardósia da varanda (sacada, como queiram) não tenha virado um terreno aterrado, que as almofadas estejam respeitando as suas cores originais, que não se tropece em nenhum cabo de luz ou som ou vídeo, que não se quebre o pé num amplificador pesado que esteja no meio da sala, que não haja teias de aranha e mofo no meu quarto, que meu colchão cheire muito bem, em nome do Pai, do Filho, do Espírito-Santo, amém.

Beijos!



18 julho 2002

Eu pereço!!!

Ah, sim, eu me esmero aqui escrevendo, e vocês nem deixam recadinhos no meu SHOUT OUT, já vi que este Blog é uma via de mão única mesmo, estamos fadados a apodrecer na solidão, meus escritos, eu, este velho teclado, esse computador de ponta (de estoque), minhas boas intenções, tudo, enfim, tudo bem, pelo menos eu comprei um esmalte azul, mas azul forte mesmo, já viu?, fica uma graça, estou pensando em pintar de vermelho por cima e depois de rosa e depois um roxo cintilante, só assim não me sinto tão abandonada, meus dedos me fazem companhia, dedos percussionistas que são, ficam batucando e batucando sobre as letrinhas para que eu, pobre d'eu, não fique assim tão tediosa, afundada em silêncio, logo eu, tão fofa e doce e meiga e tudo, sou até capaz de perecer nas trevas, amargurada, coitada, indignada e endividada, que já ando caindo mesmo, tipo fruta velha, outro dia despenquei de uma escada de concreto, não sei se já contei, foi aquilo, e ninguém para me acodir, se viro geléia de Bíbi ninguém se importa, capaz mesmo de me confinarem num vidro sem rótulo com a tampa enfeitada ou não, para todo o sempre, e nunca mais me abrirem, nem para me passar num biscoito ou num pão dormido, é isso que acontece com quem não recebe carinho nem atenção nem recadinhos no SHOUT OUT, a pessoa fica roxa de podre ou verde de mofo, e ninguém sabe, ninguém viu, não é comigo, isso aí já estava assim quando eu achei, esse tipo de desculpa é muito comum, deixa ela aí, mofo é coisa que dá e passa, amanhã já está boa, põe no sol, não, deixa aí mesmo, não, põe no sol, não, deixa aí, e eu vou ficando, ficando, eles vão me pisando, pisando, quando vi, já sou quase que uma gosma velha, um sub-sub-subproduto da geléia podre e mofada que um dia fui, mas vocês não me provoquem, ah, não me cutuquem não, que eu ME REVOLTO E ME VINGO E ME GRUDO NOS CABELOS DE VOCÊS TUDO!!!!!!!!!!!!

17 julho 2002

BUENAS, macacada! Tudo bem com vocês?
Aqui, esfria e nubla; hoje vamos a dígitos modestos de temperatura. Haja farda.

Estou matando a saudade do sul. Não a que já tive, mas a que terei quando voltar ao Rio, terça-feira que vem. Sim, resolvi me adiantar: se a gente mata a saudade passada, por que é que não pode matar a saudade adiantada?

Matar a saudade que já passou não tem sentido algum. Inês é morta. A saudade já foi sentida, já foi chorada, já foi vivida mesmo. Matar saudade passada é chutar cachorro morto.

Eu mato a saudade futura. Olho para o céu azul que só tem aqui, fico mirando beeeeeem forte, até doer. Quando dói, eu páro. E penso: BEM FEITO!

É que morreu a saudade. Uma a menos. A do céu.

Depois, sigo adiante. A do frio. Tiro a roupa, e fico uns minutos antes de entrar no chuveiro quente. Mas tem que doer, senão não vale!

Menos uma. Daí é ótimo, que já mato também a saudade da gripe. Gripe, no Rio de Janeiro, só se eu beijar um carioca - porque não conheço alguém de outra origem que fique gripado com aquela temperatura morna.

Pensando bem, melhor não matar aqui a saudade da gripe. Vai que passa um Pedro espirrando, e eu resolvo... enfim.

Outro dia, quis matar a saudade dos doces da padaria aqui da esquina. Comprei vários. Muitos, mesmo. E me sentei diante da televisão, a devorar negrinhos - caaaalma, que eu me defendo: aqui no RS, nós chamamos brigadeiro de negrinho.

Quando perdi a conta dos doces, percebi o óbvio: aquilo não ia doer tão cedo.

Engordei, psicologicamente, uns cinco quilos. (Mulher engorda psicologicamente, você não sabia? Depois eu escrevo um capítulo sobre isso.)

Mas não doeu. Não consegui matar a saudade dos doces da padaria. O que eu fiz? Fui ao correio, comprei várias caixas de SEDEX, voltei à padaria e pedi para a moça me fazer a gentileza de empacotar uns negrinhos por semana, e mandar lá para o Recreio dos Bandeirantes.

Que eu estou muito magrinha. Psicologicamente.

15 julho 2002

O lugar perfeito


Eu vinha andando pelas ruas, e havia um elemento que, já decidi, é absolutamente necessário para que uma cidade seja perfeita: alguém precisa estar lavando um carro pequeno, de preferência um Fiat Uno, branco ou bege ou cor-de-cinza, no quintal da sua casa, mesmo que seja um quintal apertado e sem muito verde, as portas do carro abertas, inclusive o porta-malas, os tapetes pendurados nos muros, e o rádio do carro precisa estar ligado e com o volume alto, tocando uma balada bem melosa e um pouco heróica, com gritos estridentes, algo do tipo Bon Jovi, refrões que o sujeito acaba de cantar pedindo que máscaras de oxigênio caiam sobre a sua cabeça, tamanho esforço melódico, e depois, sem aviso ou cerimônia, entra um solo de guitarra esvoaçante, a gente vê o guitarrista num penhasco, ele está entre o suicídio e o êxtase, o vento bate nos meus cabelos úmidos, o guitarrista toca mais agudo ainda, uma borboleta colorida pousa em cima do tapete preto de borracha, o dono do Fiat Uno esfrega um pano encharcado sobre o capô, o solo de guitarra vai acabar, minhas pernas amolecem, a borboleta alça vôo rumo ao infinito justamente no exato momento em que o último acorde da balada soa, a última porta do Uno se fecha, a última nuvem cobre completamente o céu e nada mais há para ser feito.

Do outro lado da rua, um cachorro abana o rabo, um passarinho estabanado dá com a cabeça numa folha de árvore, uma criança arrasta a mochila com rodinhas, um senhor desmonta as cadeiras de lata que estão na calçada, porque vai dar chuva, e os clientes vão preferir tomar as suas cachaças no balcão mesmo.

Não fosse o Fiat Uno estar sendo lavado no quintal, nada disso faria sentido, nem o cachorro, nem o Bon Jovi, nem a borboleta, nem a criança - nada seria percebido, nada teria sido escrito, talvez mesmo nada disso existisse ou merecesse acontecer.

No lugar perfeito, sempre existe um gatilho pronto para disparar a beleza: sempre há um carro pequeno a ser lavado, porque o guitarrista está lá, de plantão, à beira do penhasco, louco para libertar a borboleta do tapete preto no último acorde.

11 julho 2002

P.s.: "Quanto mais se controla uma vida excessivamente, menos vida há para ser controlada."
(Clarissa Pinkola Estés - Mulheres que correm com os lobos)
TRÊS MIL VISITAS

Estamos chegando, caríssimos, à marca de três mil visitas ao Biblog. Estamos agradecendo pela preferência. Aproveitando que estamos em ano de eleição, estamos falando na primeira do plural, e vamos usando bastante gerúndio também, que é para estar evidenciando nosso talento para a oratória, nossa credibilidade e nosso carisma. Nosso muito obrigado, e estejam voltando sempre.


PROCURA-SE PEDRO DESESPERADAMENTE

Por favor, alguém poderia me dizer de onde saiu (ou caiu) aquele ator que faz o Pedro, promotor da novela das 6h?

Valha-me Deus!, caem meus cheques na conta afundada, caem meus cabelos ralo abaixo, despencam problemas do céu bem em cima da minha testa, chove de tudo, hoje em dia - inclusive água. Só não chove um Pedro desses na minha horta, ah, isso não chove!

Se alguém cruzar (no bom sentido) com o moço por aí, por favor, digam que estou esperando por ele aqui no Biblog.

Trata-se do meu novo xodó-do-momento; depois do garoto-careca-propaganda do Veja Multi Uso, claro, que aquele ali também me cairia muito bem.


DIQUINHA DE FILME

Quem ainda não assistiu "A lenda do pianista do mar"?
Assistam!!
É um filme lindo, cheio de música, poesia e sentimento. Já assisti duas vezes.
Nas locadoras.


DIQUINHA DE LIVRO

Eduarda, Denise, Melissa, Dirce, Carolina, Maristela, Hully, Érica, Flávia e TODAS AS OUTRAS MULHERES DO PLANETA: não deixem de ler, ao menos uma vez na vida, o seguinte livro:

"Mulheres que correm com os lobos" (Clarissa Pinkola Estés).

Trata-se do melhor livro que eu já li até hoje. A autora é uma psicoterapeuta junguiana de talentos múltiplos e sensibilidade raríssima.

Ela fez um estudo sobre a vida e o comportamento dos lobos, e resolveu escrever um livro sobre as semelhanças desses animais com o que ela chama de Mulher Selvagem - ou "a mulher que sabe", ou "La Loba", ou o self instintivo, ou... enfim, aquela criatura que habita o nosso inconsciente, e que começa a ser podada e censurada exatamente no primeiro dia da nossa vida em sociedade.

Com certeza, vocês se lembram de vários casos em que, ao analisarem um fato ocorrido, pensaram: "Mas, lááá no fundo, eu sabia que era para ter feito assim... e fiz assado." Pois a Mulher Selvagem é o "lááá no fundo". Mas está longe de ser só isso.

A autora do livro usa de simbologia, através das histórias que conta - histórias da mitologia, contos de fadas, etc - , e vai discorrendo sobre cada tema, interpretando cada pedacinho, envolvendo o leitor numa deliciosa trama que, de ficção, não tem nada. É pura vida, é para se reconhecer em cada parágrafo das seiscentas páginas bem escritas, cheias de beleza e arte.

Nada tem a ver com aqueles manuais de auto-ajuda, do tipo "seja feliz em dez passos rápidos". Aliás, a palavra "felicidade" é usada com muita cautela neste livro. Só aparece quando você já está pedindo por ela há alguns minutos de leitura.

E, para os homens que pretendem - um dia, quem sabe, talvez - tentar entender um pouco da "alma feminina", o livro cai como uma luva. Para aqueles que só querem passar horas agradáveis lendo a respeito da própria condição humana, idem.

Enfim, estou encantada - como percebem.

Beijos!

06 julho 2002

BAILEI NA CURVA - mas... será???

Ok, vamos acabar logo com isso. Não há como negar, o texto publicado aqui embaixo ("Tragédia na orla") é mesmo meu; tem o meu sotaque, meus cacoetes literários e minhas manias ortográficas.

A "oposição" (que já vem com a pochetezinha) me pegou na curva, estou humilhada e desacreditada, eu, logo eu, pobre aprendiz de cronista, aqui, no meu próprio Blog - o nome já diz: BIBLOG! -, espinafrada diante dos meus leitores cibernéticos.

Certas vicissitudes da vida têm seu lado poético. Outras, seu lado patético. É o caso.

Se é que se pode explicar um acidente desses, eu vos imploro que acreditem: não tive culpa nenhuma. A onda do mar estava claramente adiantada e impedida, meu último zagueiro era um siri cego, manco e ruim de bola, que nada percebeu ou sentiu na hora em que o alto-mar fez o lance lá para a última espuma - que, praticamente, estava na cara do gol.

O bandeira não viu, o juíz não apitou, e a onda veio com tudo, driblou o Nei Lisboa (que é o goleiro mais frango que já conheci), chutou para dentro e correu para o abraço. O abraço foi em mim, evidente, que saí da praia prontinha para ser frita e confundida com bolinho de bacalhau.

Agora, eu pergunto a vocês: num caso desses, onde o impedimento era claro e inegável, será mesmo que o bandeirinha não viu? Vamos ver no tira-teima.

Bem, vocês podem notar que o bandeira tira um cisco do olho EXATAMENTE na hora em que o passe é feito. Haverá, efetivamente, um cisco?

E o juíz, esperem!, é impressão minha, ou o juíz está usando uma... POCHETEZINHA!!???

Meus caros, sinto informar, mas o nosso esporte favorito já não é mais o mesmo. Caiu nas garras da corrupção. O árbitro foi comprado, aquele filho da FIFA, bem que eu desconfiei desde o princípio.

Nada mais tendo a declarar, encerro aqui meu discurso de defesa. Acho que tudo está muito claro.

04 julho 2002

Faltava um compasso, para desenhar nos dias tortos, quando a gente olha no espelho e vê uma mola curva, de cabelo fraco, boca murcha e pés indecisos. Faltava uma régua, um esquadro; qualquer instrumento desses que ajeitam os traços à força, e nos impedem de desviar.

Qualquer farelo gruda no carpete, e qualquer vento assobia pelas frestas dos cupins, e qualquer pensamento vadio se instala nas idéias quando o dia amanhece assim, meio tremido. Tudo entra, fica, incomoda e permanece.

Mesmo as coisas que não são reais, mesmo os mais frágeis produtos do inconsciente, aqueles fiozinhos de melancolia, tudo isso vem à tona quando o primeiro raio de sol risca torto no céu. Não se sabe se foi Deus que acordou ruim de braço, ou se é o diabo quem está guiando. O fato é que as horas correm em zigue-zague, e quem quiser que se ajuste ao balanço.

Se ainda houvesse um metrônomo, uma bússola ou um velocímetro. Mas não. Ninguém controla e ninguém mede; a poeira vai acumulando, e ninguém enxerga.

De vez em quando, portanto, há que se controlar a delicadeza do estômago e a angústia da vida; é só esperar, que passa. Com calma, que passa.

Amanhã a poeira baixa, o sol se levanta redondinho, e o horizonte se estica como lençol passado a ferro.

Foi só um probleminha. O tempo tossiu, e o mundo deu um tapinha nas costas dele. Pronto, pronto, a vida segue em linha reta.

E vai pela sombra.

03 julho 2002

CARTA AO PRESIDENTE

Leiam, leiam, leiam a coluna do Mario Prata, de hoje, no Estadão - http://www.estado.estadao.com.br/colunistas/prata.html
Vale a pena.


NÃO ME OFEREÇAM TORTA DE REQUEIJÃO

Deve ter sido o pecado da gula. Eu não estava com fome, mas adoro aquela torta de requeijão do mercadinho que fica aqui perto.

Fui fazer umas coisas no centro, e, na volta, parei ali. Comprei um pedaço generoso da torta, e saí, empolgada, com o pacotinho na mão.

Tão empolgada, que me estabaquei no chão. Na saída do mercadinho, há uma escada de concreto. Não sei quem tirou o último degrau da minha frente, só sei que eu fui com tudo, e, quando dei por mim, estava de quatro no chão. Minha calça jeans ficou da última moda: com um rasgo imenso no joelho, toda esfarrapada.

A tal tortinha, amigos, acho que tomou RedBull - porque criou asas, imagino, e se lançou ao meio do asfalto, esborrachando-se, despedaçada, numa queda cinematográfica. Pena que não disponho de um replay; seria de muito valor.

Quanto a mim, tratei de me recompor o quanto antes, dei aquela olhadinha básica para trás (ufa, ninguém viu), e saí assobiando "come as you are", do Nirvana, para condizer com meu novo visual grunge-detonado. Foi o que pude fazer.

Meu joelho parece um repolho roxo. Saia, não posso mais usar. Periga alguém querer colher o repolho e fazer uma salada com o meu joelho, imagina.

Mesmo de calça, a lesão fica evidente - estou renga da perna esquerda; pareço um ponto-e-vírgula, pisando firme com o pé direito (ponto), e meio duvidoso com o outro (vírgula). Minha estabilidade se esmigalhou junto com a torta de requeijão, e a credibilidade, que já não era muita, ficou no último degrau daquele concreto ordinário. Quem é que vai confiar num ponto-e-vírgula?

Repito, só pode ter sido o pecado da gula. Nunca me ofereçam torta de requeijão, por favor. Estou francamente arrependida de ter desejado aquele doce, sendo que mal havia acabado de almoçar - veja que abuso, só poderia acabar de joelhos, mesmo. Sim, foi a gula, disso não tenho dúvida.

Mas, em todo caso, peço também desculpas sinceras ao Wando. Antes que o forte santo desse safado, quando tão louco, me beije na boca e me derrube de novo no chão.

02 julho 2002

Salve-salve!, e me desculpem o atraso. Como vão vocês, fulanos? Eu vou bem, obrigada.


FIM DA PICADA

Hoje de manhã eu saí, em jejum, e fui encarar umas agulhas. A primeira foi para colher sangue (nada de mais, exames de rapina), e a outra foi a bendita vacina contra rubéola. Entrei no posto de saúde, e logo avistei a fila. De duas, uma: ou era um show do Wando, ou era a tal da vacina. Só mulher.

Fui devidamente picada, e doeu um pouco. Mas aí eu me acalmei, pensando que poderia ser bem pior. Poderia ser, por exemplo, uma injeção na testa. Ou, pior ainda, bem pior: poderia ser mesmo um show do Wando!! (Hoho, que maldade).

Graças a Deus, foi o fim da picada. Por um bom tempo, mantenho-me longe dessas furadas.



SHOUT OUT!

Sabia. Eu sabia que esse negócio de comentários nos meus textos iria dar margem para que a oposição se instalasse.

Não quero citar nomes, mas há um rapaz, a quem sou ligada por laços sangüíneos, que veio aqui me acusar de ter "podres" a serem revelados. Pois me defendo, em público, afirmando que não tenho "podre" algum, que nem sequer amadureci direito ainda, estou na flor da idade, praticamente adolescendo, de tão menina que sou. Já outros, que beiram três décadas de vida, vêm aqui tecer comentários maldosos e indigestos, a fim de comprometer minha imagem virtual. Amigos, não dêem olhos a essas letras traidoras.

Há também uma moça cujo nome, no diminutivo, "já vem com a pochetezinha". Ela aparece, sorrateiramente, e se põe a insinuar coisinhas. Que eu teria levado o (cantor e compositor) Nei Lisboa para a praia do Recreio, e, pior, que eu o teria perdido no mar. Imagina. Sequer conheço pessoalmente o Nei Lisboa, jamais estive com ele em qualquer lugar, muito menos o extraviei no meio do oceano. Isso são calúnias, intrigas da oposição.


APELO A LUIS SAGUAR

Venho, por meio deste, solicitar, em rede internacional, que o designer Luis Saguar, muito meu amigo, gente fina e talentoso, por gentileza, faça a caridade de presentear meu irmão com os arquivos originais da arte gráfica desenvolvida especialmente para encarte de nosso CD. O tempo ruge!!!

Hehe, nada como ter um Blog para sujeitar os amigos aos mais variados constrangimentos...


PENTA

Claro que eu não poderia deixar de falar sobre a copa do mundo. Adorei o último jogo, e julgo que o melhor lance foi o daquele moço tentando vestir a camiseta da seleção. Que exemplo de persistência!! Assim, o país vai pra frente.


ARREPENDIMENTO: MEU IAIÁ MEU IOIÔ

Ok, confesso que estou culpada por ter escrito que o show do Wando deve ser pior que injeção na testa. Não deve ser. Deve ser melhor. Deve ser um ótimo show, inclusive. Pronto, estou redimida.

Mas a vacina contra rubéola tem uma vantagem: não se precisa voltar lá durante 10 anos. Se o show do Wando for assim também, eu juro que vou ao próximo; mas, depois, só em 2012. (Dizem que o mundo acaba antes disso mesmo...)

27 junho 2002

BUENAS!

Pensaram que eu tinha abandonado vocês, né? Arrá, tou de volta!

Querem um gole de café com açúcar mascavo? Delícia. Hoje não está tão frio aqui no sul; um solzinho de esquentar os miolos na rua. Mas dura pouco - lá pelas 4:30h da tarde, o negócio é puxar as mangas do blusão até o pulso de novo, e enfiar o casaco por cima. Coisa buena!

Por outro lado, estou começando a sentir saudade do Rio de Janeiro, sobretudo do Recreio dos Bandeirantes e suas belezas naturais. Aquela rapaziada jogando "futivôlei" na praia, por exemplo, e o sol fazendo brilhar os bíceps, tríceps, e outros íceps mais.

Certa feita, andava eu, distraída, pelo calçadão da praia, quando fui atropelada por um íceps definido, destes beirando a perfeição - não bastasse íceps, ainda havia cabeça, tronco e membros: tudo incluído no pacote do atropelamento. É fato: de beleza, o Rio de Janeiro redunda. E outras undas mais.

Já contei a vocês daquele fatídico verão em que me dispus a retornar à adolescência, e me meti a pegar onda? Pois foi. Boadyboard, pés de pato, eu, meus vinte e poucos anos, e minha cara-de-pau. Mar adentro.

Foi um fiasco, evidente. Quem olhava de longe, via dentro d'água, não uma, mas três ou quatro moças se afogando - tamanha espuma que eu fazia, no afã de cruzar a arrebentação. Tive que fazer amizade com o salva-vidas daquele posto, e jurar pela alma da minha avó que eu sabia nadar, que estava tudo sob controle, e que não era necessário ele sair correndo atrás de mim cada vez que eu entrasse na água.

Quando consegui me livrar do salva-vidas, foi a vez dos "brothers-marinhos" quererem me resgatar com vida. Sim, os surfistas são todos "brohters", e, assim, sem saber, acabei virando uma também.

Teve um brother, um dia, que resolveu me perguntar se estava tudo bem, se eu queria ajuda. Olhei pro lado, havia vários íceps avantajados sobre uma prancha. Pensei na relação custo-benefício, e, com um meigo sorriso, aceitei a ajuda.

Uma vez em terra, agradeci enfaticamente, ainda bufando, enquanto o salva-vidas me olhava sem entender nada. Perdi a credibilidade naquele dia, mas valeu pelo íceps - também, não se pode ter tudo.

Depois eu fui perceber, acanhada, que os meus brothers, na verdade, preferiam me ver na areia mesmo. Não que se admirassem pelos meus íceps e undas, nada disso: é que eu, dentro d'água, mais atrapalhava que ajudava.

Como eu era uma novata-veterana-um-tanto-sem-prática, seguidamente me enfiava na frente de uma prancha bem maior que a minha, e impedia o sujeito de pegar justamente a melhor onda. Na maioria das vezes, eu tomava um caldo dela, rolava uns metros em direção à praia, bebia uns litros d'água, e depois ainda saía xingando a onda: VAI BRIGAR COM ALGUÉM DO TEU TAMANHO, Ô!!!

Muito me diverti. Até que, um dia, conheci um senhor de certa idade, muito simpático, que me ofereceu uma água-de-coco. Não era lááá uma Brastemp de íceps, mas era bem menos arriscado, e cansava menos.

Foi assim que eu pendurei os meus pés-de-pato, para a alegria geral da praia do Recreio.

Mas, não se iludam: no verão que vem, eu voltarei...

24 junho 2002

DOZE GRAUS

Oi, queridos. Aqui em São Leopoldo, às 17h, faz um friozinho de 12 graus, com céu de brigadeiro pairando sobre nossas cabeças. "É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor... onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor".

O fim de semana foi longo - desde o jogo do Brasil, pouca coisa funcionou até hoje, segunda-feira, dia de São João. A não ser as choperias e o turismo na serra, claro.


VIDE BULA

Ontem à noite, dei uma canja lá no Bar do André, como de costume, no meio da apresentação dos meninos da banda Vide Bula (na verdade, eles estavam em versão reduzida, fazendo um som-Brasil superbacana). Hoje em dia, a Vide Bula é a banda cover que mais vejo fazendo shows aqui pelo RS - e não é à toa.

Trata-se de um sexteto hipercompetente, entrosadíssimo e afinado; sem dúvida, um programão para fim de semana nenhum botar defeito. Vale a pena conferir, virei fã de carteirinha. Se você não gostar, eu me visto de odalisca e danço um xote no meio da praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, em horário de pique.

Mas você vem junto, que xote não se dança sozinha... e não se deixa uma dama sem par, cavalheiro, caso você ainda não saiba. (Também, eu tenho que ensinar tudo!)

Visitem o site dos garotos - www.bandavidebula.cjb.net -, vejam as fotos, a agenda, as letras das músicas (eles também compõem), etc... está dado o recado. Posologia e contra-indicações, VIDE BULA.


DIQUINHA

Dica do dia: seja honesto com você mesmo.

23 junho 2002

SHOUT OUT!!!

Alou, navegantes! Surpresa (até pra mim): JÁ temos linkzinho para comentários dos textos! :o)
Chama-se "shout out", e aparece aqui embaixo. Você clica nele, coloca ali o seu nomezinho, e manda um beijo para o papai, para a mamãe e para você. Ou o que tiver vontade! Não é ótimo?
A-D-O-R-E-I ! Agora vou poder falar com vocês mais seguidamente, e uns vão poder ler os comentários dos outros.
Coisas de Melissa...

MEG & LEOPOLD

Na verdade, o nome do filme é "Kate and Leopold", mas, para mim, a Meg Ryan é sempre Meg Ryan - com aquela carinha de Meiga Ryan, aquele cabelo ralinho, braços fininhos, olhos de anjo e sorriso de criança.

Kate & Leopold é uma comédia romântica (como não poderia deixar de ser) bem levezinha, daquelas de sair do cinema suspirando "ai, ai...". Levem suas namoradas, mas depois não reclamem se elas se lamentarem: "Aaaah, bem que você poderia ser um Leopold, de vez em quando...".

Leopold é um amante à moda antiga - com o diferencial de ter vindo do passado, de fato. Um homem de 200 anos, com corpinho de 30. Um sonho de príncipe encantado, com cavalo branco e tudo.

Kate (Meg Ryan) é uma mulher moderna, trabalhadora, de gestos frenéticos e cabeça confusa. Mais ou menos o que todas nós somos, mas com os olhos azuis que nem todas nós temos. Nada mais justo, afinal, Hollywood sempre foi mais charmoso do que as nossas reles vidas.

O filme une uma mulher independente e moderna com um príncipe encantado dos velhos tempos. De minha parte, sagitariana, baixista e vocalista de uma banda de rock, só posso mesmo assistir ao filme, dar boas risadas com meu tom irônico característico, e sair de lá balançando os meus cabelos tingidos, saltitante, como quem diz: eu, hein? Cara chato, esse tal de Leopold...

Sim, porque a minha mãe não me educou para ficar me derretendo por qualquer príncipe encantado, não senhora. Com sete anos de idade, eu pegava um pirralho do meu tamanho, daqueles bem irritantes, segurava no kimono dele, e o derrubava no chão. Depois, imobilizava o moribundo, e só soltava quando o professor de judô gritava "CHEGA!!!". Aí, o menino voltava a si, e me fitava com os olhos esbugalhados de horror - assim, me tornei uma mulher inesquecível... a meu modo, vá lá.

Leopold que se cuidasse comigo; que eu, de Meg ou Kate, não tenho nada. Sou dura na queda, meu filho, tá pensando o quê? Comigo, não. Se o vivente vier sozinho, há de se ver comigo. Se vier a cavalo, derrubo os dois.

Ok, digamos que o Leopold me apareça, vamos dizer, de calça jeans branca (em vez do cavalo), botinhas de couro marrom, e uma camisa qualquer. E que me atraia pela voz, pelo papo, pelos braços ou pelo furinho no queixo. Tudo bem, é só uma hipótese, admito que posso até me sentir um pouco balançada, embora trate de disfarçar o ocorrido em tempo recorde, por exemplo, chamando um táxi ou a minha mãe mesmo - o importante é saltar fora dessa situação constrangedora o quanto antes.

Se, por acaso, ele me convidar para sair antes da minha mãe aparecer, sou até capaz de aceitar. Talvez, talvez. Quando ele for abrir a porta do carro para eu entrar, vou fingir que nem vi, porque puxou um fio da minha meia, eu fiquei ali distraída, e quando percebi... ora, a porta do carro já estava aberta. Tudo bem, eu entro, sem reclamar. Dessa vez, passa.

Se estiver um frio de rachar, ele tirar o seu casaco e colocar nas minhas costas, vou fazer de conta que nem precisava, que sou resistente a baixas temperaturas, ora bolas. Leopold irá sorrir, doce, como quem diz: imagina se eu vou deixá-la pegar esse frio nas costas, depois é capaz de ficar gripada e não poder cantar...

Nem vou ligar para a preocupação desnecessária de Leopold. Se ele me fizer entrar antes dele no restaurante, e me abraçar na cintura, e for gentil com o garçom, e segurar na minha mão antes do prato chegar, e pedir o melhor vinho tinto, e me olhar nos olhos, e arrumar o meu cabelo que está caindo na testa, ainda assim eu não vou lhe dar a mínima. Homenzinho mais bobo, este.

Algum tempo depois, quando estivermos na Itália, passando a lua-de-mel e conhecendo a origem dos meus antepassados (ele fez questão de escolher a Itália por isso), eu não estarei lá muito certa do meu amor por Leopold. Provavelmente, estou só dando uma chance para que esse camarada aprenda como lidar com uma mulher moderna de verdade. Sim, deve ter sido por isso que eu casei com ele.

Quando, alguns anos depois, a Laura nascer (nossa primeira filha), eu talvez decida continuar vivendo com Leopold, afinal, ele terá a chance de ser o pai da minha filha, e não deve ser direito privá-lo de poder exercer essa tarefa.

Mas, uma coisa é certa: eu já terei aprendido a lição, e tratarei de educar a Laura de um modo totalmente diferente de como fui educada.

Mais ou menos assim:

Segunda-feira: judô.
Terça-feira: caratê.
Quarta-feira: bateria e percussão.
Quinta-feira: jiu-jitsu.
Sexta-feira: boxe.

Quero ver algum Leopold se meter a besta com a Laura, quero ver!

22 junho 2002

É BUSH!

Saiu hoje no jornal: "Bush sugere exercícios e dieta".

Sim, o presidente dos Estados Unidos convocou a nação para malhar, comer direito, e visitar os médicos regularmente. Por quê? Segundo o próprio, "a evidência é clara: um EUA mais saudável é um EUA mais forte."

Depois dessa pérola de afirmação - quase bélica -, o ilustre manda-chuva ainda disse que o descuido com a saúde debilita a nação, devido aos altos custos dos serviços médicos. Os EUA gastam U$ 183 bilhões só para combater doenças cardíacas.

Aaaah, bom. Tá explicado. Os americanos devem suar a camiseta e ficar sem o Big-Mac-nosso-de-cada-dia, mas não é em vão. O esforço terá valido: o país economizará seus preciosos dólares, e todos viverão felizes para sempre, graças aos conselhos do mestre Bush - praticamente uma fadinha do Walt Disney, de pureza e bondade.

Obesos do primeiro mundo, cuidem-se. Visitem o doutor, comprem uma esteira elétrica e façam alguma coisa pela nação. Sim, porque o papai também não pode fazer tudo, não é? Papai já disse o que deve ser feito; agora é com vocês.

Inacreditável. O sujeito já nem disfarça. Em vez de aconselhar o povo a se exercitar para viver bem, para sofrer menos com as doenças cardíacas ou até para parecer mais bonito, não: vamos emagrecer para engordar o cofrinho, e vamos malhar para fortalecer a nação.

Veja a que ponto chegamos. Raciocínio é uma palavra que começa e termina no mesmo lugar: o bolso. Se você, por acaso, acabar baixando o nível do seu colesterol, isso será apenas uma conseqüência, um "plus". Mas o importante, mesmo, é reduzir os gastos.

Enquanto isso, nós, felizardos filhos desta pátria mãe gentil, não esquentamos a cabeça com despesas de serviços médicos - afinal, não temos problema nenhum, a saúde vai bem, obrigado, somos belos e nossas bundas já são bonitas por natureza.

De mais a mais, nosso coração está funcionando bem, aquecido pelo amor que temos pela nossa seleção-canarinho. Somos um país livre, somos organizados (principalmente o tráfico), temos o carnaval, a alegria, a simpatia e - não um, mas dois! - Ronaldos.

Querem mais o quê?

Esses americanos é que arrumam muito problema. Comem muito bacon, ficam fora de forma, e depois saem correndo atrás do prejuízo - literalmente. E só pensam em dinheiro, coitadinhos.

Vou te contar, esse Bush é uma crônica que já vem pronta.

20 junho 2002

ESQUECIMENTO

Buenas, minha gente! Apareceram amigos de Jundiaí e Brasília, conectados ao BiBlog e não citados no texto em que eu falava das cidades. Bem-vindos, e me desculpem pelo esquecimento! :o)

REIVINDICAÇÃO

Já teve gente me pedindo encarecidamente que eu colocassse aqui no blog aquele linkzinho para vocês comentarem os textos.
Aproveito e explico, envergonhada e insatisfeita, que não entendo patavina desta coisa high tech - para mim, até um simplório web-blog é complicado, acreditem. Tanto que não fui eu quem fez o meu. Foi uma amiga, paciente e generosa, que arrumou tudinho e depois só me mandou um e-mail com todas as instruções, assim como quem explica para criança: "aperta aqui, depois aperta ali, escreve, e aperta ali." (Eu sou do tempo em que se apertava, não se clicava).
Decorei as lições dela, e até hoje eu me viro. Mas o meu é sem linkzinho, infelizmente, porque eu não cheguei até essa parte da lição. Rodei antes.

NOVELA DAS SETE

Isso mesmo, desocupado assiste. Eu assito, e cheguei a uma conclusão: a Regina Duarte é beeeem melhor vendendo sanduíche na praia, n'é não?
Por Deus, como aquela mulher sofre! E sofre de se atirar no chão, aos prantos, espremendo os olhinhos e tudo.
A pior parte da novela é o núcleo principal...

RUBÉOLA

Vamos lá, gurias, que as vacinas vão só até o dia 5 de julho!! (Ui, ainda não fiz a minha.)

MANO

Meu cabiludo preferido, como vai? Te mandei um e-mail, mas não respondeste. Vai por aqui, mesmo. Tou com saudade! Tinhas que ver, ontem, no Bar do André, o Marius e eu cantando "More than words"... acreditas nisso? Hehe.
Hoje vamos jantar lá na casa dele, depois vamos ao Factory ouvir a Vide Bula e esperar até a hora do jogo, para assistir nos telões. Amanhã, não presto pra nada.
Vê se faz uma festa por aí também!
Beijo, beijo, beijo!

F U I!
Boa sorte, Felipão, meu ídolo! Hohoho...

19 junho 2002

UTOPIA DE ÉDIPO

A Marília e o Reinaldo são um casal moderno. Ele - moreno, alto, beleza previsível e irretocável, moço, modelo e ator. Ela - loura, alta, beleza imprevisível e quase agressiva, madura, jornalista e apresentadora.

Ela tem a voz grave e um discurso marcante. Ele tem a fala doce e leve. Ela transmite autoridade e segurança; ele, sensibilidade. Cada qual com sua personalidade, combinam muito bem, mas parecem ter saído de mundos diferentes. E saíram.

A Marília é símbolo de uma geração de mulheres que lutou por seus direitos, repudiando o tricô e o bordado, fazendo escolhas, transgredindo as normas. Tudo isso, numa época em que transgredir dava cadeia.

O Reinaldo é, de certo modo, filho da Marília. Cresceu no tempo em que homem chorar já não era mal sinal, como bem ensinavam as Marílias - ainda tontas pelo atropelamento dos tempos modernos, sem saber exatamente que tipo de revolução estava havendo. Mas certas de seus objetivos; incansáveis, educando seus Reinaldos para serem homens de verdade, com choro e tudo.

O encontro do Reinaldo com a Marília é quase uma utopia edipiana; o amor entre duas gerações, exercendo plenamente o produto que surgiu da interação entre elas. É como se o destino abençoasse a evolução das relações entre os sexos, aprovando o resultado, e incentivando a continuidade desse processo ainda não terminado.

É claro que as filhas das Marílias também são belas esposas de outros Reinaldos; também os pais dos Reinaldos são excelentes maridos de outras Marílias. Contudo, enquanto os frutos ainda não se acomodaram em suas novas identidades, parece que os Reinaldos e as filhas das Marílias têm uma tarefa a cumprir: cada qual precisa redefinir a sua própria imagem no espelho, o que dá um certo trabalho, gera angústia e estranhamento em relação ao outro.

Por isso, a união da Marília com o Reinaldo é uma bênção entre gerações. Ela, já definida; ele, fruto dessa definição. Ambos se entendem - e não poderia ser diferente.

Se tiverem filhos, haverá três gerações em duas. Será a história fazendo resumo, evolunido a passos largos, simbolizando a rapidez da modernidade.

Se não tiverem filhos, não importa: já tiveram.

18 junho 2002

Oi, queridos. Como é que vocês estão, no Rio, em Floripa, em Sampa, em Minas, no RS, em Sorocaba e nos EUA? (Se houver algum leitor de algum outro lugar, por favor se manifeste, pois não é do meu conhecimento - ou é do meu esquecimento, perdão!).

Aqui em São Leopoldo, o dia foi de chuva, nuvens, sol, friozinho e Ivani. A Ivani chegou às 9h da manhã, creio eu. E se agarrou no carpete, tratando de aspirar toda e qualquer poeira que tivesse teimado em repousar por ali na última semana. Que a Ivani veio na terça passada, meus amigos, e só não arrancou o carpete a dente porque eu não deixei.

Que mulher competente, a Ivani!

Imagine que ela faz os azulejos brilharem tanto, mas tanto, que posso perfeitamente me maquiar na parede do banheiro. Nem uso mais espelhos, porque tenho pena de embaçá-los, um pouquinho que seja, com a minha respiração.

Não, eu não faria isso com as obras da Ivani. São impecáveis. O espelhão da sala, então, fica um luxo. Já pensei em arrumar uns cones (aprecio muito) e sinalizar as áreas próximas a ele, para evitar que um desastrado enfie o dedo e acabe cometendo um crime contra a impecabilidade da Ivani. Mantenhamos distância e respeito, portanto.

É verdade que, em dia de Ivani, há que se tomar certos cuidados dentro de casa. Precauções corriqueiras, coisinha à toa.

Eu me tranco, por exemplo, dentro de um dos quartos. Passo a chave, por cautela. E coloco, em frente à porta, um móvel bem pesado - a cama vai bem -, no intuito de evitar que a Ivani, empolgada e ágil, além de forte como um touro, entre com tudo e aspire o meu nariz pensando que é tomada.

Já combinei com ela: três batidinhas na porta, se precisar de alguma coisa, e eu saio do quarto para atendê-la. As batidinhas da Ivani, contudo, são um tanto intensas, de modo que eu fico em dúvida se um terremoto ameaça destruir a minha casa, ou se algum caminhão perdeu o rumo e veio dar com a carroceria na parede da sala. Mas, normalmente, é só a Ivani.

Um dia eu perdi a Ivani. Saí pelos quatro cantos da casa, angustiada, procurando-a. Já tinha escurecido, chegava de faxina!

Não achei. Pensei que ela tinha ido embora sorrateiramente, talvez pensando em não me incomodar no quarto - a essa altura, já percebeu que eu arrasto a cama de parede a parede e saio esbaforida toda vez que ela pede alguma coisa.

Fui fazer, então, o meu jantar. Quando abri a geladeira, a Ivani caiu para fora, deu com a testa no chão, e depois se pôs de joelhos, atordoada e indignada:

- E a lei das três batidinhas, pelo jeito, só vale pro quarto da patroa!!!

Desculpei-me, naturalmente, por ter invadido a privacidade da Ivani. Depois disso, nunca mais abri a minha geladeira sem bater antes. Nem o freezer, nem o microondas, nem o fogão, nem mesmo as gavetas da casa.

Nunca se sabe de onde a Ivani pode surgir.
Confesso que ando bebendo refrigerante dietético vez por outra - o que vai contra os meus princípios. Qualquer refrigerante vai extremamente contra os meus princípios.
Confesso que tenho comido carne de galinha morta, às vezes. O que vai radicalmente contra os meus princípios.
Confesso que tenho comido menos frutas e vegetais do que deveria.
Confesso que tenho pensado besteiras. Mas isso eu sempre fiz.
Confesso que estou com as unhas mal lixadas, por conta de ter tocado guitarra sem palheta durante meia hora ontem à noite.
Confesso que nunca entendi por que raios eu recuso a palheta, se já sei que vou terminar a noite com as unhas puxando o fio da meia-calça, e o esmalte todo descascado.
Confesso que o meu quarto está mais bagunçado que o time da seleção brasileira de futebol.
Confesso que, hoje, saí com meu moletom preto-desbotado, pensando "ah, não vou encontrar ninguém mesmo". E foi então que eu ouvi a buzina, seguida por um grito "OOOI, SUMIDA!!!".
Confesso que eu quis sumir.
Confesso que estou sentindo umas fisgadas indesejáveis nas costas, por ter saído - na sexta à noite - com aquelas botas de salto altíssimo que me deixam com mais de 1,80m (sem exagero). Trata-se de uma estupidez ortopédica, e minha coluna reclama enfaticamente, enquanto ainda tem "voz" para issso.
Confesso que estou bem melhor da gripe, embora só tenha sossegado o facho dentro de casa no sábado. (Essa eu devo a vocês). Deu pra cantar ontem à noite, e tudo.

Confesso que mudaram as estações, mas nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim tão diferente, se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre sempre acaba...?

Sorry, friends. Confesso que estou sem inspiração.

16 junho 2002

KÉLI KI - Parte II

O Luis me mandou um e-mail, lembrando mais um trecho da célebre canção aqui abordada ontem. Segue abaixo, entre aspas (que é para evidenciar que a autora NÃO sou eu):

"... você quis me iludir, me enganar isso é caô...!"

Caô, segundo o próprio Luis, é "o máximo do desenvolvimento linguístico dessa menina".

Pois fui aos dicionários, e a palavra mais parecida com "caô" que eu encontrei foi mesmo "cão - animal quadrúpede..." sem ofensas, gente.

Caô, pelo que pude perceber até hoje, deve ser uma enganação, alguma coisa fajuta que alguém tenta passar adiante ou aplicar em alguma pessoa. Daí se conclui que a palavra "caô" é que, realmente, é um caô. Bem empregada, por sinal. Providencial.

Pensando bem, no entanto, talvez a menina tenha querido chamar o seu "baby-avô" de cão, tendo em vista a cachorrada que ele aprontara ao não lhe dar a devida atenção. Acontece que "cão" não rimava, e, para fins estéticos - técnica de poeta, meus amigos! -, ela resolveu acentuar o cachorro no final: virou um caô.

Caô, portanto, deve vir mesmo do cachorro - já que é uma cachorrada, em última análise. Com isso, a menina Kéli Ki nos presenteia, mais uma vez, proporcionando-nos a apreciação da vanguarda lingüísica, uma espécie de neo-língua que deve estar surgindo para causar uma verdadeira revolução na nossa comunicação.

Sejamos receptivos aos tiros de canhão. Só não vale aparar no peito.

15 junho 2002

TIPO ASSIM... KÉLI KI.

Poucas coisas grudam tanto no ouvido quanto a música daquela menina, a Kelly?, Keli?, Ke? - ah, vamos escrever como se lê: KÉLI KI, e pronto.

Por outro lado, tipo, há expressões que, tipo, também grudam muito no ouvido, e depois, tipo, assim, acabam grudando também na boca da gente. Tipo.

Essas duas, vamos dizer, tipo assim, essas duas mazelas da comunicação, aparentemente, nada têm em comum. Mas, se formos pensar, tipo, são exatamente idênticas na função - que é, justamente, não ter função alguma.

Expressões pouco recheadas de significado, como "tipo assim", ou "baba, baby, baba" são quinquilharias da linguagem coloquial, adornos que mais atrapalham do que enfeitam, mas... vá lá, adornos.

"Tipo assim" é uma pausa de raciocínio, um lapso voluntário (que, depois, torna-se involuntário), uma paradinha para descanso do cérebro. A pessoa pensa, fala, e depois inclui um "tipo assim" enquanto não sabe ainda o conteúdo da próxima frase. Um "tipo assim..." reticente pode levar minutos, horas ou até dias - se o usuário já for dependente químico e tiver seqüelas, o "tipo" pode durar meses. Trata-se de um caminho sem volta.

O sujeito começa usando um "tipo assim", vez por outra, na maior inocência. Quando vê, um "tipo" só já não lhe basta, e é preciso espalhar, tipo, no discurso, tipo assim, várias vezes essa expressão; caso contrário, tipo, o vivente sequer consegue chegar ao final da frase.

Quando finalmente a frase termina, então o usuário acaba fraquejando - e usa o "tipo assim" para iniciar um novo assunto; aí, começa tudo de novo.

Do mesmo modo, mas em proporções maiores, o "baba, baby, baba" é um mal que assola a linguagem musical - outrora conhecida como "poesia musicada" -, transferindo os sintomas do "tipo" para as linhas melódicas, e levando o vácuo cerebral aos palcos e danceterias das grandes cidades.

Contudo, não acho que deva ser proibido o uso do "tipo", nem tampouco do "baba". O problema é o excesso. Se a pessoa usar um "baba" no fim de semana, entre amigos, num ambiente saudável, até tudo bem. Vez por outra, tipo assim, que mal tem?

Muito cuidado, no entanto, com os abusos. Passando de dois "tipo assim", não dirija. Se dirigir, não use o "baba".

Tive conhecidos, infelizmente, que ingressaram pelas bandas ingratas dessas mazelas da comunicação, e nunca mais voltaram. Perderam-se, coitados, e seus cérebros foram comidos por cupins. Ainda vivem, ou sobrevivem, mas são tipólatras compulsivos, e passam os dias inteiros cantando aos seus avôs:

"Vô, cê não acreditou / Vô, cê sequer me olhou..."

14 junho 2002

NOSSO "DÉCIMO-TERCEIRO"


Outro dia eu escrevi que músico não tira férias, mas "férias" - entre aspas, porque não recebe por elas, e também porque, na verdade, nunca consegue parar de tocar ou cantar.

Hoje eu vim falar a respeito do nosso "décimo-terceiro". Claro que também entre aspas, e bota entre aspas nisso. Décimo-terceiro de músico, meu amigo, funciona assim: se quiser uma graninha extra, que vá arrumar trabalho extra. E não reclame.

Certa feita, resolvemos arrumar um décimo-terceiro lá pelas bandas do interior rio-grandense. Era Natal. E chovia.

Show marcado, depois de muita negociação, lá fomos nós. Sete horas de viagem, mais ou menos. Pegamos de tudo: neblina, garoa, chuvarada, aguaceiro na pista, lama, vento, árvore caída, buraco e vaca distraída. Mas chegamos.

O dono do estabelecimento, muito simpático, recepcionou a banda com abraços e sorrisos de orelha a orelha. Já desconfiei: aí tem.

Proprietários de casas noturnas e crianças levadas, quando sorriem de graça, é que boa coisa não fizeram. Pé atrás com eles.

Vamos direto ao assunto: o problema era o hotel. O combinado era um três estrelas, o melhor que havia na cidade. Mas "estava lotado" - entre aspas, é claro. Desculpa esfarrapada.

Resolveram colocar a banda, então, num "alojamento". Entre aspas. Na verdade, era o quartel da cidade.

O "camarim" - também entre aspas - era, imagine, o próprio quartel. E o "restaurante" onde faríamos a nossa "ceia de Natal" era, adivinhe? O refeitório do quartel.

Para chegarmos ao "camarim", deveríamos atravessar um campo de futebol, pular um muro de um metrinho, virar à esquerda e pronto. Ali, era o portão de entrada do quartel. Mais uma estradinha de chão batido, e chegávamos ao quarto dos meninos. Soldados simpáticos e prestativos nos acompanhavam. Cerca de meia-dúzia.

Eu, única menina da banda, tinha justamente o quarto mais distante ainda. Era escuro, chovia, e aquilo mais parecia um labirinto de filme de terror. Mas eu ia tomar banho, trocar de roupa e me maquiar (sem espelho), acompanhada por seis doces milicos que, entre risadinhas e comentários que preferi nem ouvir, levavam-me até o quarto e esperavam, de prontidão, do lado de fora da porta. Ainda bem.

A "ceia de Natal", acredite, era um churrasco tão duro e queimado, que até hoje não sei dizer se aquilo era vaca, porco, galinha, ovelha ou... nem quero pensar nisso.

O show, nem preciso dizer, foi um fiasco absoluto. Eu queria muito cantar, mas estava engasgada, com pedaços de sei-lá-o-quê entalados nos mais diversos cantos da minha garganta. Era impossível.

Sem contar que o palco era ao ar livre, e a chuvarada tratou de invadir a tímida lona que cobria nossas cabeças. Meu irmão - guitarrista - saiu com fama de drogado, por causa da performance estranha: mas era apenas choque elétrico, o povo não entendeu.

Minha maquiagem, então, era algo entre Bozo e "mulher da vida" - entre aspas, porque a delas é bem melhor.

Foi assim que, a duras penas, embolsamos nosso décimo-terceiro daquele ano. E voltamos para casa, no outro dia, embarrados, humilhados, famintos, exaustos, quebrados. E cantando:

- Noite feliz... Noite feliz...
UBA CORRENTE BELO FIM DA GRIBE

Nunca pedi nada a vocês, mas sempre há uma primeira necessidade. Pois hoje eu peço uma corrente pelo fim da gripe. (Ali, no título, meu nariz estava um pouco congestionado).

Anoiteci com aqueles sintomas típicos - dor de cabeça, coceira na garganta, calafrios, etc -, e amanheci completamente gripada. O problema, queridos, é que eu simplesmente ODEIO estar gripada. Não existe coisa mais horrível do que estar assim. Respeitem a minha dor. Ajudem-me.

Além do mal-estar, há o problema da voz. A voz da gente fica simplesmente horrível, e, como sabem, para quem trabalha com a voz (mesmo estando em "férias"), isso é o fim da picada. É um transtorno, é uma ameaça à vida, é um incômodo quase insuportável. Acreditem, não estou exagerando - mesmo sendo sagitariana e descendente de italianos.

Imaginem, por exemplo, um maratonista. Ele vai dormir com uma coceirinha na garganta, uma dorzinha de cabeça, e, na manhã seguinte, acorda... PARALÍTICO!! Mesmo que ele fique paralítico só por uma semana, já é o suficiente para que entre em desepero, não é?

Uma modelo, manequim, linda-e-maravilhosa, dessas que desfilam em Paris e Milão. Ela vai deitar com uma febrezinha quase de nada, e acorda... PESANDO 120 QUILOS!!

Mesmo que ela emagreça tudo de novo em poucos dias, e mesmo que nem dê estrias, ainda assim é de pensar em suicídio antes da gripe ir embora. Vai que algum jornalista metido acaba descobrindo, fotografa a beldade com as formas francamente arredondadas, e - babau carreira, dólares e mocinhos do Titanic.

Pois bem, acho que já me fiz entender. Estou me sentindo uma Gisele com 120kg, um corredor paralítico, um pianista maneta. Já os comovi?

Aqueles que não tiverem um coração de pedra, portanto, que me façam a gentileza de rezar uma Ave Maria ou duas, pode ser no horário do cafezinho mesmo, pedindo aos céus que eu saia desse estado deprimente o mais rápido possível. Por "mais rápido possível", expliquem lá à Santa Maria Mãe de Deus, eu quero dizer qualquer coisa milagrosa, eficaz, surpreendente. Esteja bem entendido.

Sim, porque, em cinco ou seis dias, eu saio dessa sem reza mesmo. De nada me adianta. Quero coisa inacreditável, de exclamar "óóóóóhhh!!!!".

Quem não souber rezar, não faz mal. Façam um pensamento positivo, acendam uma vela, mandem-me boas vibrações, o que for.

O importante é eu sair dessa cadeira de rodas, entrar correndo no meu biquíni vermelho, e depois tocar um Mozart emocionado para vocês.

13 junho 2002

MÁ FAMA

E-mail que recebi do meu irmão hoje, referente àquela história do cara da farmácia (ler abaixo):

****
"Se eu não aparecer mais por aqui, já sabem: o moço se ofendeu.
Desejem-me sorte." AHAHAHAHAHA!!
Pra quem te conhece, convenhamos, o certo seria:
"Se a farmácia não abrir amanhã, já sabem: o moço me ofendeu.
Desejem-lhe sorte."
****

Viram?
Estou com uma fama... tudo mentira, gente.
PARA OS RECÉM-CHEGADOS

Tenho recebido e-mails de gente que eu não conhecia, dizendo que achou link para o meu blog aqui e ali, que anda me visitando regularmente, e tal. Há quem pergunte quem eu sou, de onde vim, para onde vou, e coisas mais importantes - como a cor do cabelo, por exemplo.

Sendo assim, resolvi postar (acho postar muito feio, posso usar publicar?), digo, publicar aqui algumas coisas que sirvam para me identificar, no caso do sujeito não saber a que se destina estes escritos, os versinhos, as besteirinhas, e o raio da minha vida.

Pois bem. Meu nome é Bíbi Da Pieve, com o primeiro Bi mais forte que o segundo; por isso, adotei o acento (desde pequenininho, que me veio ainda berrando e envolto em fraldas gráficas. Eduquei e tudo, de modo que não sai mais de cima do meu Bi, nem por um decreto.) Incomodo-me quando me chamam de Bibiiiiii, como a buzina de um carro, por exemplo. Sou Bíbi.

Tenho 24 anos (mas isso é coisa que muda com o tempo). Sou sagitariana, com ascendente em câncer e a lua em touro. Moro no Rio de Janeiro há quatro anos. No presente momento, entretanto, acho-me tirando "férias" na minha cidade natal, São Leopoldo, que fica a uns 30 km de Porto Alegre, mais ou menos.

E por que é que ela tira "férias" entre aspas, se todo mundo tira sem aspas?

Explico: é que trabalho com música - sou baixista e vocalista de uma banda chamada Ana Lógica, e músico não tira férias (sem aspas) nunca, porque o diacho da atividade vicia, e a pessoa pode até tentar, mas não pára de tocar nunca. Pode não ser em público, mas continua tocando.

E outra coisa: não recebemos nas nossas "férias". Convenceram-se, agora, das aspas?

Não escrevo profissionalmente; minha profissão é a música, desde meus 13 anos, quando tive a idéia de me meter numa banda de rock. Por isso eu escrevo aqui; porque adoro escrever, e me divirto demais.

Vocês podem perceber que não tenho personalidade como escritora, por exemplo, porque hoje eu ando exagerando no tamanho das frases, enchendo de vírgulas, deixando o ponto para bem longe, transferindo o final. Sabem por quê? Ando lendo João Ubaldo.

Outro dia, aqui mesmo, usei termos regionalistas exageradamente - estava lendo Verissimo. E, assim, sigo pegando o sotaque os escritores, inspirando-me em quem sabe fazer a coisa de verdade, e mentindo pra vocês que também faço. Sei, sei que não convenço ninguém, mas o brinquedo é meu, dá licença?

Findo aqui a minha breve autodescrição, certa de que ajudei uns e outros a saberem onde é que andam pisando, para que, então, possam ter, quem sabe, um surto de lucidez, e decidam se arrepender amargamente do momento insensato em que lhes veio à veneta a idéia torta de estacionar o mouse por aqui. Ou não, vai saber.

Tenho dito.

12 junho 2002

DIA DOS NAMORADOS

Parabéns aos pombinhos, aos beijinhos e aos abracinhos; parabéns aos casais felizes, aos nem-tanto e aos tristinhos; muita alegria aos princepezinhos delas, muito amor às princezinhas deles, muito respeito, muita amizade, muita compreensão e muito carinho.
Aproveitem o friozinho, façam um foguinho,
e passem a noite bem juntinhos, bebendo um bom vinho.
Meus parabéns, também, a todos os sozinhos.
Eu só peço um favorzinho: deixem os diminuitivos, tão lindinhos, para eu escrever meus versinhos.
Vocês, que já são bem grandinhos, vão rimar as suas vidas com adjetivos melhores, superlativos - os maiores -, e aumentativos grandalhões.
Parabéns a vocês. Um abraço apertado, e vários beijões.


FOI MAU

BatZ, Hully, Denisinha e cia: desculpem por ontem, no chat. Caí, e não pude mais voltar. Obrigada pelas visitas ao meu Blog, e pelo carinho todo. :o)

VENCEU O TAMPAX

Queria comunicar que, no "causo" da farmácia, venceu a opção do Tampax. Por unanimidade!! Quem leu, sabe do que estou falando. Se eu não aparecer mais por aqui, já sabem: o moço se ofendeu.

Desejem-me sorte.

11 junho 2002

SEU ZEQUINHA E SEUS PROBLEMAS


O seu Zequinha é o senhor que corta a grama aqui de casa. Volta e meia ele aparece, com sua carrocinha e seu cavalinho, e pergunta se quer que corte a grama, vizinha? Quero, sim.
Então ele entra, liga a máquina barulhenta na tomada, e faz barulho e cheiro bom no pátio todo. Mas não pode estar chovendo, como agora.
Entretando, seu Zequinha me apareceu hoje, com chuva e tudo. Não quis fazer barulho nem cheiro bom, a vizinha entende, olha o mau tempo, e parece que a coisa ainda vai longe, tem visto a previsão? Quis foi um dinheirinho adiantado, que lhe falta para comprar o remédio da perna.
A perna do seu Zequinha sofre de um inchume crônico, por conta de uma mordida - segundo ele - de aranha. Já quiseram operar, mas ele não deixou ninguém meter a mão ali, com medo de que dê alguma zebra e acabem decidindo arrancar a perna fora, imagina, como é que ele vai cortar a grama? Não confia.
Então, o jeito é passar um remedinho cada vez que a perna ameaça explodir de tão inchada.
Se bem que a perna nem vale muito, ele comenta, porque já falta um dos dedos do pé. Que a máquina barulhenta pensou que fosse grama, passou em cima, e levou embora junto.
O filho dele, o mais moço, Juquinha, também tem problemas de saúde. Asma, o doutor disse. A Mariana, filha do meio, volta e meia fica anêmica, pobrezinha. E trem problemas de estômago, seu Zequinha acha, porque não pára comida nenhuma lá dentro. Só o filho mais velho, cujo nome nem sei, é que goza de plena saúde. Vai preso de vez em quando, mas, quando solto, é um bom moço. Até prenderem de novo, e aí o coitadinho fica obrigado a pensar besteiras, lá na cela, junto de maus elementos.
Este último, que costuma se hospedar nesses lugares não convencionais, tem até uma filha. Mas a mulher morreu, e o seu Zequinha cuida também da netinha, que ainda precisa de fraldas, muito leite e cuidados especiais. Imagina cuidar de tudo isso, vizinha, só com o dinheirinho que vem da grama?
Seu Zequinha nem sabe, mas acaba fazendo uma bela e utópica metáfora, afirmando que o dinheiro vem da grama.
Na verdade, na verdade, eu nunca via a perna dele, nem o dedo que não tem, nem o Juquinha, nem a asma, nem a Mariana, nem a anemia, nem o estômago, nem o moço que vai preso, nem a netinha, nem o leite, nem as fraldas: nada. Mas contribuo, mesmo assim. Pode ser que ele esteja sendo sincero.
Ou tudo isso é verdade, ou o seu Zequinha acha que o meu dinheiro também dá em grama!!

INSÔNIA DAS BRABAS

São duas e meia da manhã. Eu estava lá, na cama, tentando dormir, desde pouco antes da meia-noite. Rolava, e rolava. Rolei tanto, que caí da cama e vim parar aqui no Blog. Paciência, vamos brincar de contar "causo".

Sabe o que me aconteceu hoje? Fui à farmácia, e havia lá um atendente - desses que ajudam a gente a escolher o remédio. Moço simpático, e tudo. Sorriu, perguntou o que eu queria.

- Tem sabonete Sastid? - perguntei.
- Não, senhora.
- Tem algum outro, para acne?
- Temos só esses dois aqui... (mostrando)
- Ah... não conheço nenhum deles, nunca usei. Você tem alguma sugestão sobre qual seria o melhor?

Sabe o que ele me respondeu? "Não, senhora. Eu também nunca usei nenhum deles."
É mole???

Fiz uma cara de "ah, claro...", peguei o primeiro que eu vi, paguei e saí correndo de lá. Sei lá, já pensou se ele resolve me dar outra opinião forte com essa? Não sei se meu coração agüentaria. O pior é que ele deve ter ficando pensando "credo, que mulher tapada, será que ela não viu que eu não tenho problema de acne?"

Depois, fiquei rindo da situação. E estou decidindo o que fazer amanhã. Vocês me ajudam? Vamos lá: o que vocês acham que eu devo fazer?

a) Voltar lá amanhã, e sugerir que o moço dê uma estudadinha nos produtos que vende, para poder opinar mesmo sem ter tido 1.234.563.698 doenças diferentes;

b) Voltar lá, meter o dedo indicador no umbigo do moço, dar uma risadinha, e comentar: "arrá, você me pegou direitinho, hein!?" (Podia ser que ele estivesse brincando, eu que não entendi);

c) Sugerir que ele nunca trabalhe numa casa que venda bebidas alcoólicas (vai que ele resolve experimentar tudo, e é demitido no segundo dia);

d) Levar o meu sabonete lá e fazê-lo lavar o rosto com ele, para evitar que a cena se repita com outro cliente;

e) Pegar na prateleira um OB e um TAMPAX, e perguntar se ele sabe qual é o melhor. (Estou inclinada a decidir por esta opção, o que acham?)

E por falar em besteira, vamos ao segundo assunto. Ando encafifada com a mania que as pessoas têm de acentuar palavras como "nu", "tu", e - principalmente - aquela outra.
Gente, nu não tem acento. Tu não tem acento. Pode-se concluir, então, que aquela outra também não tenha! Por que insistir num acento inexistente? - pensei.
Eu tenho uma hipótese, não sei se procede; acho que deve ser para efeito psicológico. O xingamento seria mais enfático, por exemplo: "Ora, vá....ú!!!!"
Pois a idéia é equivocada, minha gente, porque acento é sinal gráfico, e nada tem com o tamanho do desaforo. Vamos nos desprender dessas dependências; vocês conseguem xingar mesmo sem acento, e fica forte. Querem uma dica? Eu dou: quando pronunciarem a palavra em questão, aumentem meio tom. Pronto, o seu nu (cansei de escrever "aquela palavra", vou substituir por "nu") vai ficar lá em cima, e vai se destacar. Esqueça o acento do nu. Libere o seu nu!
Um nu acentuado fica, além de incorreto, deselegante. Ora, aquele canudo pendurado no seu nu, que coisa mais feia. Um nuzinho puro, sem canudo, se basta. Vamos respeitar.
Desculpe tocar (sem trocadilho) nesse assunto do seu nu, mas é que me preocupo de verdade com ele. Andam cuidando mal do nu, alguém tem que fazer a defesa.
Tá entendido?
E outra: se quiser acentuar alguma coisa, use o ânus - que é muito mais fino, está presente na literatura científica, e é quase um protagonista da anatomia humana, uma vez que é insubstituível para fins... para fins, justamente.
Entretanto, se me permite, uma sugestão: para fins agressivos, prefira o nu. Nada como um nu bem empregado, certeiro, praticamente um nu artístico.
Exceto, é claro, no caso de querer xingar o patrão. Aí, prefira a suavidade do ânus - que o nu dá demissão por justa causa; já com o ânus, acredito eu, ainda é possível uma negociação. Acho eu, acho eu.
---
Quanta besteira. Viram o que acontece quando estou com insônia? Azar de vocês. Se eu tivesse um maridão do lado, maridão companheiro de todas as horas, compreensivo e tal, então teria com quem debater - alta madrugada - sobre a acentuação indevida do nu. Comigo é assim: alto nível.
Chega. Tchau. Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.........

10 junho 2002

VAMOS FICAR NUMA BOA, GURIAS.

Hoje o papo é sério. Mas não é sisudo. Muito pelo contrário; vim aqui escrever uma carta contra os impecilhos criados pela nossa razão, essas pequenas impurezas que resolvemos, por algum motivo, colocar na vida. São pedrinhas que não enfeitam. Acumulam-se, com o tempo, e vão se tornando rochas capazes de esmagar boa parte do tempo que temos por aqui.

Rapazes, sintam-se à vontade, mas eu quero me dirigir especialmente às gurias - prometo que é só por hoje, ok? No entanto, o assunto é unissex, e serve a todos.

Meninas, moças, mulheres, senhoras, eu vos imploro: não percam mais tempo. Esqueçam exatamente TUDO que as faz sentir mal. É bobagem. Não existe motivo algum para que vocês se sintam mal. É tudo coisa inventada.

Da celulite ao mal-estar gerado pelo estresse no trabalho, do trânsito engarrafado à chuva na escova recém feita no cabelo: tudo balela. Eu garanto que não existe nada disso. São pedras criadas por nós mesmas, e, exatamente por isso, não podem nos destruir. Mas é preciso estar muito atenta para não levar uma tijolada na testa a qualquer momento.

Há uma campanha mundial contra a auto-estima. Querem que você se sinta feia e gorda. Querem que você pense que não deveria ter o cabelo tão enrolado assim, que compre chapinhas, que pinte, que esfregue, que dance, que pule, que arrume, que vista, que use... que vida???

Querem que você não seja você. Não entre nessa roubada, deixando que lhe tirem a capacidade de se gostar inteira, completa, mesmo sem anexos de silicone ou sorrisos sedutores. Amor próprio não é direito nenhum - é básico, é pré-requisito para qualquer vida que se preze.

Queridas, ninguém vai fazer por vocês. Saiam do ovo, estourem as cascas, rompam barreiras, pensem, critiquem, olhem-se no espelho de manhã cedo, sorriam, e digam: eu sou a pessoa mais linda que eu tenho. Porque é a única, e vai continuar sendo.

Tratem-se com a exclusividade que merecem. Vocês são de vocês, são belíssimas, e está decidido. Virem-se! Do avesso, se for preciso; mas chega de perder tempo com pedras invisíveis.

Não entrem na campanha anti-vocês. É fria. Freqüentem as academias por saúde mental e física, cortem o cabelo por vontade ou para fazer uma graça. Não digam "hoje à tarde eu tenho que fazer as unhas", porque ninguém TEM que fazer as unhas. Elas já estão feitas; vocês as enfeitam se quiserem.

Cuidem-se muito, sintam-se, estejam presentes de todo coração nas suas próprias vidas. Respirem, e percebam que o único movimento vital que os seus corpos fazem, que os liga ao mundo externo, é absolutamente involuntário. E ele não cobra nada por isso. Agradeçam, acarinhando-se.

Queiram qualquer coisa com muita força, esforecem-se, batalhem, rezem muito; mas é proibido fazer da vida uma espera, porque toda vitória é filha de uma vitória, neta de outra, bisneta de outra, e assim sucessivamente. Portanto, a vitória de HOJE é fundamental para o nascimento das seguintes. Engravidem de seus sonhos, façam a melhor cara que puderem, e saiam exibindo o barrigão - porque eles nascerão a cara da mãe, isso é certo.

Vamos ficar numa boas, gurias. Temos gerado a humanidade há milênios; suamos dentro das nossas casas, fomos às ruas, trabalhamos duro. Até hoje, lutamos contra preconceito e febre de criança, fazemos reuniões complicadas e leite morno, falamos no telefone com uma mão e seguramos a barra com a outra. Todo esse parto constante não pode ter outra finalidade que não a nossa felicidade.

Vocês sabem dar à luz um pimpolho melecado e gritante, e transformá-lo num advogado comportado e limpinho. De gravata e tudo! Não vão saber, então, transformar vocês próprias em seres humanos felizes, livres de pedras autodestrutivas? Deixem de frescura. Relaxem, mas não para evitar rugas.

Estamos combinadas?