07 junho 2002

MOMENTO "MEU QUERIDO DIÁRIO"

Meu querido diário: São Pedro, hoje, está com incontinência urinária. Chove que Deus manda, desde a madrugada - se bem me lembro, se bem que durmo. Vim escrever aqui porque estou com uma preguiça homérica de ir para o banho; acordei tarde, tive pesadelos, e tudo em mim anda devagar feito cágado manco.

Meu querido diário: não adianta enrolar, terei mesmo que ir para o banho. Hoje o almoço é na Vovó, aquele peixinho confirmado que a Marisa faz e eu me esbaldo. No último dia, teve até suflê de brócolis. Havia vários brócolis (eu digo sempre no plural, porque não sei dizer o nome desta coisa verde no singular. Mas não faz mal, porque eles vêm sempre todos juntos, mesmo, é difícil separar. Vai ver é por isso, o singular nem existe. Ah, deixa eu pensar assim, pelo menos num rompante adolescente de sexta-feira chuvosa e melancólica...).

Meu querido diário: se eu fosse um pouquinho mais distraída, já teria grudado umas figurinhas coloridas na tela do micro. Estou amando este momento cor-de-rosa num dia cor-de-cinza.

Meu querido diário: quer saber como foi o pesadelo que eu tive? Eu conto. Eu estava fazendo uma faculdade de produção fonográfica, mas o local era o colégio onde eu fiz o segundo grau, e as pessoas eram estranhas. A maioria. Enquanto eu fazia um trabalho no computador, uma moça veio me importunar - queria usar o micro, e "tem que ser agora". Eu me irritei, ela implicou mais ainda, eu me irritei muito mais, e avisei: Pára com isso, ou eu vou bater em ti.

Olha que sonho violento, meu querido diário; eu nem sou assim de verdade.

Continuando. Ela não parou. Mas acabou tudo bem, minhas amigas me acalmaram.
No dia seguinte, porém, a cena se repetiu. Ela piorou a situação, porque começou a me xingar de vários nomes feios.
Aí, meu querido diário, permita-me o termo, mas tenho que ser honesta: fiquei p. da vida com a moça. Meu querido diário, ela estava impossível. Sabe o que eu fiz? Nem posso lembrar, que me irrito. Acordei com dor de cabeça e tudo.

Pois foi assim, diário, eu peguei a moça pela gola e pelo braço, dei-lhe um golpe de judô, e a derrubei no chão. O povo gritou, quis apartar. Nem bola. Continuei. Esperei a ordinária olhar bem na minha cara, fechei a mão e fui direto no nariz dela, que sangrou muito. Não contente, continuei esbofeteando a cara deslavada daquela sonsa, segurando com a outra mão pelos cabelos - para que a cabeça não me escapasse.

Diário, e você não diz nada? Tou contando uma história emocionante, pô! Diário panaca, sem graça.

Bom, foi aí que a filha da mãe ainda tentou se levantar, desaforada, e respirou com uma arrogância providencial. Respirou na hora errada e do jeito errado, diário boboca. Tá me entendendo?
Pensei em chutar-lhe a bunda, mas concluí que seria pouco. Para terminar, então, fui com as duas mãos ao pescoço da vagabunda, estrangulei bem apertado, e disse as palavras mágicas: NUNCA MAIS MEXA COMIGO !!!

Fui expulsa da faculdade no dia seguinte, por conta de um abaixo-assinado que os alunos fizeram, onde afirmavam que "a colega tem reações violentas e pode prejudicar o bom andamento da classe". Todos assinaram, sem exceção.

Escuta aqui, diariozinho mixuruca, você não acha que foi uma injustiça tremenda? Acha, sim! Alguém aqui não acha? Quem é que está a favor daquela sem-vergonha implicante? Agora eu quero saber. Alguém? Alguém? Pois não descanso enquanto não souber.

Alguém vai querer encarar???
MINHA LISTA DE PRESENTES PARA O DIA DOS NAMORADOS:

- 1 bolsa marrom;
- 1 par de botas marrom (para combinar com a bolsa);
- 1 batom marrom (para combinar com as botas);
- 1 blusinha marrom (para combinar com o batom);
- 1 relógio marrom (para combinar com a blusinha);
- 1 jaqueta de couro marrom (caso faça frio - haha, te peguei!);
- 1 namorado inteligente, sensível, carinhoso, compreensivo, charmosérrimo, criativo, bem humorado, espirituoso, divertido, gente boa, trabalhador, meigo, doce, educado, surpreendente, brilhante, fascinante. E com um furinho no queixo.
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Pensando bem, melhor mudar a lista de presentes:

- 1 bolsa verde;
- 1 par de botas verde;
- 1 batom verde;
- 1 blusinha verde;
- 1 relógio verde;
- 1 jaqueta de couro verde.

Tudo isso para combinar com o novo namorado. Marciano, com toda certeza.


05 junho 2002

COMPRO MÁQUINA DE ESCREVER - MOTIVO: INDIGNAÇÃO.

Minha gente, não pode ser tão difícil assim. Não está correto. Eu só quero escrever, pegar um papelzinho e bater as teclas, registrar os meus pensamentos, as minhas cartas, meus versos, minha... indignação!!

Chegou o tal do Kit Terra, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fiz todo um ritual místico, coloquei Enya no CD player ali da sala, acendi um incenso, tomei um bom banho, passei óleo "Paixão" no corpo todo, enrolei uma toalha no cabelo, sentei-me em frente ao micro. (Já tinha feito as unhas ontem). Abri a embalagem do Kit. Li as instruções. Abri o drive do CD, que ejetou-se, simpático e receptivo. Dei-lhe o CD ROM, e pressionei o botãozinho recomendado; cheirosa e iludida da vida.

Nada. Absolutamente nada.

"Caso o CD não abra automaticamente...", patati patatá - diziam as instruções.

Mas, como assim? Estamos em 2002, somos praticamente obrigados a comprar um computador, e ainda estamos sujeitos a "caso não abra"?? Como assim, caso não abra? Mas o negócio aqui não está ligado na tomada?

Está, mas tem "caso não abra". E não abriu.

Lá fui eu executar o plano B do manual de instruções. Casualmente, não abriu de novo.

Liguei para o suporte técnico do provedor, para ouvir a moça me dizer: "É melhor chamar um técnico de sua confiança..."

Não existe técnico. Como assim, técnico? A senhorita sabe quanto é que custou esse computador? Pelo preço, deveria ter um técnico aqui dentro, encolhidinho, 24 horas por dia, esperando as minhas ordens. E o "caso não abra" seria sempre culpa dele.

Na falta de um técnico - coisa absurda, técnicos não existem -, liguei para o meu irmão. Interurbano para o Rio de Janeiro. Mais de meia hora de tentativas frustradas: clique aqui, clique ali, desligue, ligue de novo, tecle isso, tecle aquilo. Funcionou?

Não. A conclusão foi a seguinte: o programa não pode ser instalado, porque o meu Windows é 95.

Uma pessoa, com 7 anos, é criança. Um cachorro, é adulto. Pois o tal do Windows, com 7 anos, é praticamente um inválido. Acreditem, o mundo da informática é o mais preconceituoso de todos.

E nós estamos todos nas mãos dessa tecnocracia deslavada e sem-vergonha!!

Estou indignada, como podem perceber. Vou comprar uma boa e velha máquina de escrever, daquelas bem duras e barulhentas - que assim eu exercito os dedos também, faz bem para o contrabaixo. Quem quiser me vender uma, por favor, entre em contato.

MAS PELO CORREIO CONVENCIONAL!! Estou de mal com a informática.

04 junho 2002

-- "Trem-Bala" É LIVRO DE SEGURAR O XIXI --

Declaro, em blog internacional, minha admiração pela escritora gaúcha Martha Medeiros - que coluna (do verbo "colunar") no jornal Zero Hora e no site Almas Gêmeas, do Terra.

Ontem à noite eu li o livro que a Martha publicou em 99 pela L&PM Editores, chamado "Trem-Bala". 259 páginas de uma literatura que derrete na boca, dessas que fazem a gente segurar o xixi até o último parágrafo, e ainda se perguntar: já acabou?

Acaba, mas é bom demais enquanto dura. São crônicas e mais crônicas que nos fazem entrar numa viagem intensa e ágil, sem querer parar no sinal, sem querer desviar a atenção um minuto sequer, e, principalmente, sem querer parar para aquele xixi - que, afinal, pode esperar.

Se vale um conselho: por via das dúvidas, não beba muita água antes de entrar no trem.

A Martha é uma escritora de palavras certeiras. A crônica vem sem rodeios e sem gorduras; é praticamente um texto desnatado, recomendável a qualquer vivente que queira cuidar da saúde - sobretudo a mental.

Sim, porque o Trem-Bala cutuca e faz pensar. Trata de assuntos corriqueiros, do interior ou das capitais, da alma ou da unha encravada, tanto faz: são particularidades universais, e você também está ali. Todos nós estamos.

O pensamento da autora é curioso e intrigante, como o dos melhores escritores que conheço. Aquele estranhamento diante da vida é traço fundamental do bom cronista, e a Martha sai cronicando com um pé nas costas, bem como deve ser. Quem quiser que corra atrás.

E a danada ainda dispõe de todo talento da poesia que Deus lhe deu (os primeiros livros publicados foram de poesia), conferindo ao texto aquele algo-mais, adoçando as idéias, quase que transoformando em música o que já soaria muito bem só no preto-e-branco literário.

Ok, chega. Para quem gosta de literatura, faz bem. Para quem não gosta, faz melhor ainda.

02 junho 2002

Destranca, blog maluco.

01 junho 2002

Entrei numa lojinha de produtos naturais, e fui dar uma olhada nas novidades. Duas moças, jovens atendentes do único caixa do estabelecimento, fofocavam, entre risadinhas e expressões animadas.

Achei aquilo bonitinho. Não era vulgar, nem nada. Não era alto demais. Era apenas uma conversa entre amigas, um inocente bate-papo que conferia ao ambiente um arzinho despretensioso, informal, gostoso.

Peguei as minhas barrinhas de fibra, e fui em direção a elas; já sorrindo, também. O clima era bom.

Para a minha surpresa, bastou eu colocar os produtos em cima do balcão, para que as duas fechassem a cara e me olhassem com expressões sisudas, quase militares:

- Pois não, senhora?!

Cheguei a ouvir o barulho da corneta.

Desfiz meu frustrado sorriso, paguei o que devia, e fui-me embora pisando duro, numa marcha involuntária. Fazer o quê?

Ah, o mundo anda mesmo muito protocolar e sem graça. Vivemos consultando os manuais de como viver em sociedade, lendo bula de remédio e livro de auto-ajuda - a corrida em busca da "felicidade".

E perdemos o senso de humor, a capacidade de improvisação, o natural, o simples. Nós estamos em algum canto, por aí, rindo de nós mesmos - por termos nos perdido em meio a personalidade das máquinas.

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Querem um exemplo? Pois eu dou.
Leiam, logo abaixo, o e-mail que eu mandei para o suporte do meu novo provedor. Em seguida, leiam a resposta que eu recebi:

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Caríssimos,

faz mais de UM MÊS que eu assinei o Terra. No dia da assinatura, me
disseram, ao telefone, que eu receberia dentro de alguns dias o Kit
Terra para atualização dos meus programas. E eu acreditei.

Tenho o Oulook 4.0, e não posso usá-lo, como sabem, porque o Terra
não funciona com ele.

Já refiz o pedido do Kit umas três vezes, usando de todos os meios
possíveis e imagináveis - por telefone, suporte on line, e-mail...

Venho, por meio deste, pedir a vocês, pelo amor que têm ao Grande
Patrão dos Céus, que ME ENVIEM O TAL KIT o mais breve possível. Estou
apelando a todos os santos, rezando noite após noite, acendendo velas
e incensos ininterruptamente. Tenho fé que, desta vez, o Kit há de
chegar antes que eu incendeie a minha própria casa - ou mate uma
galinha bem preta e me ponha, de cócoras, numa encruzilhada dessas
bem escuras, a implorar aos espíritos (do bem ou do mal, já não
importa) que consigam a façanha de me arrumar um Kit Terra.

Por favor, peço providências. Sei que vocês devem dispor de vários
Kits aí, um só não deve fazer falta.

Agradecida e munida de fé, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo,

Bibi Da Pieve

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Prezada sra. Bibi,

Estamos direcionando a sua mensagem ao departamento competente para que
possamos lhe enviar o Kit de Acesso o mais breve possivel.

Atenciosamente,
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Theo Zelanis
Suporte E-mail
SAN - Servico de Atendimento Nacional
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Viram?
"Prezada senhora, estamos direcionando" - com aquele gerúndio inconfundível do pessoal do telemarketing.

Então eu me esmero, uso de toda minha boa vontade e senso de humor, e escrevo uma carta amalucada ameaçando fazer macumba para que apareça aquilo que já deveria estar na minha casa há mais de um mês, e o que recebo em troca é... um tratamento formal e um gerúndio vago, desnecessário e pobrezinho que só.

Assim, não há jeito. Nenhuma referência à minha galinha preta, nenhum comentário sobre as almas penadas, nem mesmo um recado para Jesus Cristo! Nada.

Prezados senhores: se continuarmos neste caminho extremamente sóbrio e formal, muito em breve as relações humanas ESTARÃO SENDO tão profundas quanto o sentimento que une um teclado ao seu monitor - ou a outro qualquer, afinal, é tudo igual mesmo.

E reduziremos o nosso raciocínio ao sistema binário, tal como nossos irmãos quadrados - tão úteis quanto descartáveis.
Atenciosamente,
Bibi Da Pieve

31 maio 2002

Eu acho MODA um assunto interessante, mas sempre encontro alguma coisa mais atrativa para comprar, e acabo me acoMODAndo.

Essa calça marrom, por exemplo. Eu sei que deveria ter uma bolsa da mesma cor para combinar. Vejo os programas de TV, leio as revistas, e todos são unânimes em afimar: calça e sapato marrom, bolsa marrom.

E cadê que eu compro?

Sou uma mulher - talvez a única - que não tem bolsa marrom. "Acessórios dão aquele toque final no visual" , eles dizem. Pronto. O meu é sem toque final.

Essas pequenas coisas me fazem sentir marginalizada no mundo "fashion". Tenho medo de cometer crimes, de modo que me recolho à minha ignorância no assunto, e assumo uma postura quase monocromática nas peças que visto. Elegi o preto, o vermelho e o marrom - e raramente saio disso.

Em dias ousados, estou de azul. Mas tudo com bolsa preta - ou tipo mochila, ou aquela atravessada (do ombro direito ao quadril esquedo), pequenininha.

Entretanto, confesso, admiro e até invejo aquelas mulheres coloridas e impecáveis, um modelito para cada dia da semana, sem reservas nem receios. E as bolsas, então?

Há quem troque de bolsa como quem troca de roupa, e saia exibindo a ousadia de uma combinação imprevisível: tudo cor de vinho, e uma bolsa... bege!

E ficam lindas, cheias de classe. Que raiva.

Se eu me vestisse toda de vinho, não passaria do portão sem rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso. De culpa. E seria capaz de me esquecer da bolsa, tamanha angústia, e enfiar o carro no primeiro poste.

É por isso que nem arrisco.

Ah, se eu tivesse talento... seria daquelas bem peruas. Usaria saia de oncinha, blusa de zebrinha e duas argolas verdes do tamanho de bambolês. Sairia por aí, bem faceira, de sapato bico fino e bolsa com alça de chifre, só pra dar um tchan.

Pink! Abusaria do pink, com direito a variações em roxo e rosa-bebê, conforme a ocasião pedisse. Ousaria na cor do esmalte, nos detalhes das meias e até nos saltos inusitados. Arriscaria sobreposições com tecidos nunca antes combinados; rendas, sedas, paetês e jeans...

Se eu tivesse talento, faria da minha vestimenta uma verdadeira obra móvel da minha criatividade inesgotável, criando meu próprio estilo inconfundível de expressão.

Pensando bem, Deus é sábio.





29 maio 2002

Alguém anda visitando o meu Blog, porque, cada vez que eu chego aqui, o contador denuncia várias visitas.

Alguém anda me lendo.

Ou será que é o contador?

Seja como for, agradeço. Voltem sempre - leitores, contadores, parentes e amigos.

Por falar em amigos, estou revendo os meus. Ontem, por exemplo, foi o dia de ver o Duda tocando no Koloss (Independência, número...? - na sinaleira! Ou sinal, como queiram. Ou semáforo, ou farol - para os paulistas que vierem a São Leopoldo fazer turismo.)

Recomendo Duda e seu parceiro (de PALCO, ô!) chamado... Fininho. Ou algo assim. O moço canta muito bonito, coisas que vão de João Bosco a Djavan, passando por Caetano e Gil, algumas baladas do tipo You’ve got a friend - incluindo a própria -, e outras coisas bem escolhidas e bem executadas.

Tudo isso, ali, pertinho da sinaleira. E vão reinaugurar a pista de dança. Se eu fosse você, não perdia.

E atenção para aquela voz doce e super afinadinha, que parece vir do Além. Não é o Além; é o "back" vocal do Duda, descendo certeiro e justo, como se fosse mesmo um anjo da guarda para a canção.

Aliás, toda "segunda voz" (bem feita) tem algo de Além, não tem? Trata-se de uma voz que não canta: PAIRA. É uma sobre-linha vocal, um Comfort para o refrão. Amacia, suaviza; e, ao mesmo tempo, fortifica.

Isso não vale para os sertanejos, claro. Os sertanejos não usam Comfort - eles "amaciam" no grito. Lá do jeito deles.

Nada contra, gente. (Agora eu ia fazer uma piada de mau gosto sobre algumas duplas que têm a voz do Além - literalmente -, mas aí já seria muito humor negro... hoho.)

Preste atenção, você que nunca reparou nos (nas) vocalistas das bandas.

Agora me ocorreu uma dúvida, que vergonha: "Backing vocal" é a PESSOA que faz a segunda voz, ou é A PRÓPRIA segunda voz?

Alguém me socorra no inglês, please.

Que o meu inglês - não é de hoje - is going to the brejo.

27 maio 2002

Este texto é do meu irmão, achei hilário e resolvi postar aqui:


"Taha falando ca Creonice esses dias, sobre o pobrema desse menino, o Tóxico.

Ninguém segura mais esse menino, não! Ninguém segura!

E os pessoal daqui não sabe nem de quem é o menino, não. Dizem que é do Cleisson, da rua ali de
cima, mas o Cleisson diz que não, que é do Adelmir. Adelmir, sabe como é, não fala com os pessoal daqui da rua: diz que os pessoal é bem mais ou menos, coisa que ele aprendeu com os grão-fino lá de baixo.

Taha doida pra ver eles fazerem um teste desses de DNA, que tem aí, pra ver de quem é o menino. Danado... já não chega o que tá fazendo com a Mel, do Crone, tem visto o Crone?

Pelo menos, que dizem né, que lá no Projac, onde é o Crone, anda tudo perfumado porque a Mel aquela anda peidando cherôso, tanto de perfume que ela toma. Pelo menos isso, né vizinha?"

25 maio 2002

Faz um dia azulão aqui em São Leopoldo, um sábado cinematográfico.

Coisas dos pampas.

O vizinho da esquerda ouve Zélia Duncan; o da direita, Gaúcho da Fronteira. E eu acordei com o Nei Lisboa. No rádio.
Na Maternal Santa Margarida, ali em frente, eles dão aulas de dança do ventre, violão, teclado, yoga e recreação para a terceira idade. Além das crianças, claro.
Também tem massagem, segundas e quintas.

Coisas do Brasil.

Daqui a pouco, nós vamos comer um peixinho ali na casa da Vó. Esperando a mãe voltar da caminhada, só.
Não fui com ela, porque ontem nós fomos fazer os pés numa moça que é "calista", e ela cutucou fundo no meu dedão - tirou uns 20% dele, e botou fora, sem perguntar se eu ainda ia precisar. Eu achei que era assim mesmo, de tirar coisinhas, mas não imaginei que a moça fosse tão... calista.
Resultado: tenho um buraco considerável, bem ali, no cantinho do dedão, onde a carnezinha ficou vermelha como cereja. E me dói tanto.

Coisas de calista.

Meu dedão sempre foi bom de bola; ia muito bem, obrigada. Nunca precisei de ninguém cutucando ali. Mas tinha uma enorme placa, aqui pertinho de casa, escrito assim: "CALISTA". Quem é que resiste?
Fui lá.
O que é a publicidade. Paguei (caro) para uma mulher me arrancar o couro, literalmente. A gente pode não perceber, mas tem um pouco de masoquismo. Lá no fundo, tem.

Não que isso tenha alguma importância, mas quis postar aqui.

Coisas de Blog.

Pensamento do fim de semana: Em dedão que está ganhando, não se mexe.

Beijos.

22 maio 2002

MANO'S DAY

Hoje é o aniversário de um dos homens da minha vida - meu irmão: guitarrista, cabeludo, e (pior!) geminiano. Aliás, o mapa dele tem gêmeos para tudo que é lado. Uma confusão organizada; a cara dele, por sinal.

Mantenho um respeito considerável pelos geminianos - nativos de um signo que é complementar ao meu (sagitário), e, portanto, oposto. Dizem que os opostos se atraem. No nosso caso, foi acidente mesmo. Coisa de berço, literalmente. Calhou.

O geminiano do meu irmão é irritantemente inteligente. Lê todas as publicações do universo, e pouco se importa com o assunto. É o de menos. O bacana é ler, e depois sair comentando. Como comentam, os geminianos!

Ele também é muito convicto. Em tudo (o assunto é o de menos, já disse). E o mais curioso, no caso, é a convicção contraditória - oriunda da dupla personalidade, característica marcante dos geminianos. Eles são dois em um. Portanto, num dia, odeiam palmito. São alérgicos, inclusive. E, no dia seguinte, são capazes de devorar um vidro inteiro de palmitos, afirmando, enfaticamente: "Eu? Alérgico? Nunca! Sempre adorei palmito! A vida toda!"

Se você pensa em conviver com um geminiano, o palmito é um problema a ser discutido. Minha sugestão: faça-o assinar um documento, com data e tudo, no qual ele se declare apaixonado (ou não) pelo palmito. Guarde uma via, numa pasta lacrada. Quando surgir o primeiro sinal de dupla personalidade em relação ao palmito, abra a pastinha e prove ao geminiano que ele está "variando". Pra variar.

Naturalmente, você será acusado de falsificação de assinatura - até porque, a essa altura, o geminiano já assina o próprio nome de modo totalmente diferente. Se é que já não mudou de nome.

Palmito à parte, outra peculiaridade aparece nas horas de lazer - é praticamente impossível manter um geminiano parado, por exemplo, em frente à televisão. Parado e quieto. Imóvel, eu digo.

Meu irmão tem compulsão por apertar, freneticamente, os botões do controle remoto. Quando não está mudando de canal, está pressionando os botõezinhos com o controle apontado para baixo - só para exercitar a compulsão, mesmo. Sentado, com as pernas cruzadas, balançando o pé. O tempo todo.

Já perdemos alguns controles assim; ele afunda os botões em poucos meses. Pensei em comprar-lhe uma bolinha de silicone, mas ele diz que "não tem a mesma graça". Pensei num chocalho, mas aí o barulho vai ser infernal. Cheguei a olhar com carinho para um osso de borracha quando passei em frente a uma pet-shop, mas fiquei com medo da reação dele. Podia me morder, sei lá. Nunca se sabe.

Contudo, o geminiano é super indicado para quem deseja sair da rotina. Se você acha a sua vida monótona, case com um geminiano. Mas depois não diga que eu não avisei.

Reações adversas: muito cuidado; se você não tiver uma cabeça cem por cento lúcida, há grandes chances de se deparar com questões do tipo: será que o doido aqui sou eu??

Não entre nessa. É ele, garanto.

Jamais espere que um geminiano repare que você cortou o cabelo, ou que está usando um vestido diferente. A não ser que você raspe a cabeça, ou apareça de batina na frente dele, os "detalhes" do seu visual jamais serão percebidos espontaneamente. Acostume-se.

Pensando bem, ele pode achar que a batina é um "pretinho básico", e nem ligar. Melhor ousar mais.

Quando o geminiano está "no mundo da lua", esqueça. Ele costuma se demorar por lá. Meses, às vezes. O bom é que, não raro, costuma trazer de lá alguma idéia genial, que pode inclusive mudar a sua vida. São idéias "de outro mundo", realmente. Mas não se assuste, e não fuja da raia. À primeira vista, parece loucura completa. Não descarte; aprenda a expandir seus limites - abra a sua cabeça.

Se já tem uma cabeça aberta, ótimo. Você vai precisar dela para acompanhar um geminiano. Só cuide para não perdê-la no meio do caminho.

Conviver com o geminiano é um risco constante. Praticamente uma gincana, eu diria. Vai ver é por isso que o sagitariano (aventureiro) topa o desafio. Outra característica do sagitariano é o senso de humor: esqueça o batom, mas não esqueça o senso de humor.

É fundamental, por exemplo, para conseguir assistir a um documentário inteiro sobre os parafusos das rodas dos carros de corrida de mil novecentos e guaraná de rolha, sem querer voar no pescoço do agitado e concentrado (ao mesmo tempo!) sujeito que está ao seu lado, exclamando "que interessante!" a cada dois minutos.

PARABÉNS, MANO!!!
Beijos da
Bíbi
p.s.: ele ganhou uma camiseta do Internacional. Pena que nenhum dos dois lados da dupla personalidade é gremista.
Ele responderia: "Sou louco mas não sou burro!!!".










19 maio 2002

Pequenas doses (homeopáticas) de VENENO:

-> Antes da novelinha Malhação, na Globo, vem outra novelinha: Malhação da Goela. Lá, alguns artistas - que não entraram na casa do Sílvio Santos porque foram considerados "muito talentosos" - passam todo o tempo do mundo malhando as suas ricas goelas potentes. Tal como o Fat Family (e tantos outros adeptos da goelização da música), os artistas praticam o "canto" como se estivessem condenados à forca: os três minutos da canção são os últimos de suas vidas; portanto, praticamente não respiram. Fazem da linha melódica uma montanha russa, entram dentro dela e se contorcem em gritos e gemidos, malhando a goela e mostrando todos os músculos, ininterruptamente, sobretudo na hora das (saudosas) pausas.

-> Ouvir uma música goelizada equivale, mais ou menos, a olhar para o corpo da Feiticeira. Você sabe que tem alguma coisa inchada ali, mas não sabe precisar onde. É que a coisa é generalizada; para qualquer canto que se olhe (ouça), ali está o exagero.

-> Deus que livre meus ouvidos de estarem sobre esta Terra quando inventarem os anabolizantes para goela. Já pensou?

-> É por essas e outras que, no próximo fim de semana, estarei assistindo ao Carijo - festival de música gaúcha, em Palmeira das Missões. Vou me lembrar dos bons tempos em que a arte não tínha músculos, e, sobretudo, não era apresentada pela Angélica e pelo Toni Garrido. Meu pai até comprou uma roupa campeira.

-> Acho que os participantes do Carijo não devem interpretar suas canções como se fossem a última oração antes da morte. Assim, evitarão que também nós, ouvintes, sintamos uma proximidade desconfortável com o chifrudo. (Sim, porque o paraíso é que não deve ser feito de frenéticos grunhidos vocais, e assustadoras reviravoltas melódicas que assassinam a composição. Isso deve ser até pecado.)

-> Agora eu entendo por que é que a cordeona (sanfona) chora há tantos anos.

-> Aliás, mais um belo título de livro: "A profecia da cordeona - goelização da música brasileira". Ainda escrevo. Se os anabolizantes não chegarem antes, claro.

17 maio 2002

Fórmula Um

Vão me desculpar, mas eu não entendo coisas do tipo "se fosse eu, não deixava passar", ou chamar o cara de bobalhão porque segurou a taça de primeiro lugar sem ter ganho os tais pontos. A Fernanda Young, no programa Saia Justa (GNT), dizendo: "Pra mim, para praticar esse esporte o cara tem que ser WILD."

Selvagem, a Fernada quis dizer (mas disse em inglês, porque - de certo - é mais "wild"...)

Selvagem?

Ser selvagem não é para quem quer correr - e ganhar a vida, aliás - na F1, não. WILD MESMO é correr de táxi ou de ônibus, e estar sujeito a receber um passageiro torto das idéias que, sem mais nem menos, enfia um cano frio na sua cabeça e estoura os seus miolos por dinheiro.

Bem pior que a Ferrari, não é?

Ora, pneus. Então o Rubinho, o Zezinho ou o Luisinho (tanto faz) não assinaram lá um contrato com o Tio Patinhas? Não fizeram uma boa corrida? Não estavam em primeiro?

Não... tinham que mostrar que são raçudos, ir contra o contrato, e receber a primeira bandeirada, só para mostrar para o povo brasileiro que nós somos... nós quem, cara-pálida?? Nós, torcedores verde-e-amarelos daquele carrinho vermelho??

Desculpem, mais uma vez. Mas eu não entendo, e não vou entender.

12 maio 2002

A primeira cena da minha manhã foi o alemão cedendo o lugar no pódium.

Não sou dada a assistir às corridas - de nenhuma espécie -, sempre fico com a impressão de que estão perdendo alguma coisa no meio do caminho... essa ânsia de chegar logo não me seduz. Até porque sou demorada; não sei se por falta de talento ou excesso de zelo com as circunstâncias - não sei, fato é que não sou de fazer o cabelo voar.

Isto posto, a cena do pódium foi triste e cheia de beleza - cá na minha ótica sentimentalóide e ignorante do esporte. Paciência.

Hoje foi o dia das mães, e eu tive o privilégio de curtir a minha. Depois de quatro anos de abstinência, tomando apenas doses homeopáticas de mãe, digamos que o domingo foi tão precioso quanto preciso. E ainda não sei como é que ela cabe ali dentro.

Pensando bem, deve ser de família. Minha Vó Maria, mãe dela, também é de miúdas medidas, e meio que se transborda toda - tamanho encanto.

Acho que foi isso que sempre me surpreendeu naquelas mulheres da família; uma delicadeza de traços e dimensões, uma doçura espontânea e incansável - unhas feitinhas, pés macios, carinhos, carinhos... e, por outro lado, a força exuberante que transcende a forma, explodindo e jogando para o alto qualquer semelhança com a meiga e frágil mocinha que o espelho teimasse em refletir diante de seus olhos.

Desde pequenininha, eu sempre vivi entre um afago e um susto. O afago da doçura, do conforto e do aconchego do abraço; o susto da ruptura, do gesto brusco, da (quem sabe?) loucura. Era o susto da evolução.

Hoje eles dizem - vai passear, vó, curtir a vida!

E ela vai mesmo. Mas não é que esteja paradinha, não. Ela já está passeando, porque nasceu passeando - ora intuitiva, ora inteligentemente - por entre os caminhos malucos da transformação. De ter nascido numa época, ter crescido noutra, ter parido noutra, ter criado noutra, e noutra, e noutra, e noutra. E passeou, colhendo flores e pedras de todos esses tempos, sorvendo as décadas, os filhos, os netos. Absorvendo a vida.

Todas elas têm nos olhos a ternura e a luta, todas se derretem e se solidificam conforme a mais absoluta necessidade. Nunca vi nenhum sentimento fútil, nenhuma dor gratuita, nenhum carinho vazio. São mulheres de motivos concretos, de atitudes certeiras e de corações convictos.

Assim são as mulheres da família, assim é a Vó Maria. Doce feito um afago. E doida de pedra.




04 maio 2002

O YAHOO tem umas salas de bate-papo com voz. O Mano foi quem me deu a dica, ontem - "experimenta, não custa".

O interessante, a meu ver, é quando você tem um parente ou amigo que mora longe (pais com filhos no exterior); pode criar uma sala só para vocês, e ficar matando a saudade quase de graça, quanto tempo quiser, ou a conexão permitir.

Aqui em casa não funcionou lá essas maravilhas. Ficou tipo rádio amador, meio precário. Mas dá.

Você entra, clica no "viva voz", e fica ouvindo os diferentes sotaques discutindo sobre os mais diversos assuntos. É curioso. Também dá para compartilhar uma musiquinha: tem gente que põe o MP3 pra tocar, e fica curtindo com os demais.

Tinha uma moça baiana, mais animada, que cantava junto e tudo. Tascou Ivete Sangalo a mil por hora, e, volta e meia, gritava: "TIRA O PÉ DO CHÃÃÃÃO!!!!!!!". Isso às 2h da madrugada, de sexta para sábado. Garanto que ainda molhava o bico, lá do outro lado, e chacoalhava os gelinhos do copo, dando risada. Diversão a pulso único - sem consumação ou couvert.

(É "pulso" ou "impulso" que se diz? Já vi dos dois jeitos.)

"Impulso único" é bonito, não? Bom nome para... para... sei lá, filme, livro, qualquer coisa - menos filho, claro.

Livro de suspense: Impulso único. Nas melhores casas do ramo.

Hein?

02 maio 2002

RAIOS!!!
As cifras ficaram todas grudadinhas no início das frases...
Desculpe a minha falha. Faz assim: vai na intuição, tá? Vai por mim, que rola.
Se não rolar, também não tem problema. O que vale, nesses casos, é o lá menor. Um bom lá menor diz tudo; e, se bobear, canta também.

Um - e - dois - e...
Tem coisa, my dear, que só um lá menor e uma melodia arrastada, mesmo. Puxa aí:

VERDADE CHINESA (Emílio Santiago)

Tom: Am

Am A7
Era só isso que eu queria da vida
Dm Bm E7
Uma cerveja, uma ilusão atrevida
Am C7
Que me dissesse uma verdade chinesa
B7 E7
Com uma intenção de um doce beijo na boca
Am A7
A tarde cai, noite levanta a magia
Dm Bm E7
Quem sabe a gente vai se ver outro dia
Am C7
Quem sabe o sonho vai ficar na conversa
B7 E7 Am
Quem sabe até a vida pague essa promessa
Dm
Muita coisa a gente faz
G7 C
Seguindo o caminho que o mundo traçou
F Bm
Seguindo a cartilha que alguém ensinou
E7 Am
Seguindo a receita da vida normal
Dm
Mas o que é vida afinal?
G7 C
Será que é fazer o que o mestre mandou?
Am F#m
É comer o pão que o diabo amassou
B7 E7 A7
Perdendo da vida o que tem de melhor

Dm G7 C
Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa
Dm E7 Em A7
Toma um copo, dá um tempo, que a tristeza vai passar
Dm G7 C
Deixa, pra amanhã tem muito tempo
F Bm
O que vale é o sentimento,
E7 Am
E o amor que a gente tem no coração

01 maio 2002

Foi a primeira vez, em toda vida, que eu joguei tinta no telhado.

Cortei minhas longas madeixas, revoltadas e pós-adolescentes que só. E pintei de uma cor que a moça chamou de "rubino" - ou algo assim, porque recordo que era parecido com "rabino", mas acho que mudava uma ou duas letras. E vários tons, em direção ao roxo-avermelhado... coisa assim.

Existe cor rubino, mesmo? (Respostas por e-mail, please. E muito cuidado, porque disso depende toda a parte externa da minha cabeça.)

Enfim, aquela cabeleira cor-de-burro-quando-foge era muito do meu agrado, mas devo confessar que o rabino (?) da moça me caiu, modestamente, muito bem. E o corte, idem.

Sabe o que ela fez? Puxou meu cabelão todo para a frente, fez um só rabo, e tascou uma tesourada certeira: morte súbita. Eu, com o pescoço inclinado, alheia ao golpe. O primeiro sinal da coisa foi a queda brusca de um naco de cabelo, molhado e ainda quase vivo, na ardósia verde daquilo que elas chamam de salão de beleza. A partir daí, eu entreguei para Deus.

Quando dei por mim, já era tarde. O repicado armou um reboliço nos fios, de modo que há uma espécie de franja - ou sei lá o quê - aqui na frente, e depois uma camada, e outra, e outra, e mais outra. Até que os fios descem, lisos e modestos, até os ombros. E só.

Já acostumei, mas levei vários sustos, todas as manhãs, até entender que o meu rosto deixou de ter uma moldura reta, marrom e comprida - para ter uma revolta, vermelha e (parcialmente) curta.

As minhas amigas dizem que não é necessário combinar a cor dos sapatos e das bolsas com a do cabelo, mas eu estou animadíssima, de loja em loja, tentando achar um acessório que faça parzinho com o rabino do telhado novo.

E sabe que não tenho achado?

Por favor, se alguém achar uma bolsa de cor "rubino", mande-me o endereço da loja.

Esmalte também, ok?

Obrigadaíssima.

26 abril 2002

Acabei de ler a coluna do Mario Prata no Estadão de hoje; a conferir:

http://www.estado.estadao.com.br/colunistas/prata.html

Eu mato a cobra e mostro o link.

O assunto da coluna sempre me interessou muito: direito autoral na web. Você já deve ter recebido, por e-mail, dezenas de textos "assinados" por escritores famosos, e deve ter ficado se perguntando se realmente aquele texto era do autor citado. Eu, por exemplo, já recebi textos com a "assinatura" do Verissimo que continham um intrigante sotaque, sei lá, carioca. Não pode.

Eu sei que o assunto é sério, mas - que o Lobão e o Mario Prata não me ouçam -, convenhamos, há uma graça em tudo na vida. Confesso que me divirto, há tempos, brincando de adivinhar o autor do texto. (Podem me acusar, que pirataria no dos outros é refresco...)

A história do "sotaque" do Verissimo é pura verdade. Você já reparou no sotaque escrito? Já sacou a "voz" do autor?

Sabe como foi que nós - que éramos obrigados a ler Graciliano Ramos com 12 anos de idade, e pensávamos que leitura era uma atividade enfadonha e sem fundamento - nos demos conta da enorme besteira que estávamos pensando? Quando nos deixamos seduzir pela rede mundial de computadores, embasbacados com a mais moderna das tecnologias - que, ironicamente, foi nos colocar frente a frente com aquilo que já se praticava no pergaminho.

A escrita nos chamou para o tatame. Era escrever ou não se comunicar, e a coisa foi ficando preta para quem não tinha intimidade com as teclas.

As "vozes" da escrita, na minha vida, começaram a aparecer com a Internet. Não que eu tenha orgulho disso; deveria era tê-las ouvido muito antes. Mas foi o jeito.

Comecei ouvindo os sotaques escritos dos meus amigos e parentes próximos, depois passei a compará-los com os breves diálogos dos chats da vida; quando vi, já estava ouvindo crônicas e livros, estabelecendo graves e agudos para qualquer frase que me aparecesse à frente.

Comecei a escrever uns textos, e percebi, pasma, que também ouvia uma vozinha, lá no fundo, ditando as minhas próprias palavras. E, pior: a vozinha ia ficando mais agudinha quando o texto era doce e inocente, e mais grave e profunda quando o texto era filosofante, tenso, crítico ou pessimista.

Nenhuma das minhas vozes escritas corresponde à minha voz falada - a verdade é essa. Eu não sei que voz você acha que eu tenho, mas não se engane: meu tom deve ser bem outro.

Aí é que está a graça da coisa. O Verissimo fala (pouco!) num tom, e escreve (muito!) noutro. Mas é o sotaque escrito dele, e ninguém tem igual. Essa é a verdadeira assinatura do autor.

Portanto, a minha sugestão é que o senhor, delegado dos crimes pela Internet, vá mandar os seus técnicos darem um jeito de inventar um sensor - hoje em dia tudo é sensor, mesmo - que "capte", como num passe de mágica, a voz escrita do autor. Já não existe um que capta a voz falada? Então.

A delegacia não foi criada para isso? Ou o senhor fica o dia inteiro aí jogando paciência? Tenha a santa paciência!!!

25 abril 2002

Acabei de ler a coluna do Mario Prata no Estadão de hoje; a conferir:

http://www.estado.estadao.com.br/colunistas/prata.html

Eu mato a cobra e mostro o link.

O assunto da coluna sempre me interessou muito: direito autoral na web. Você já deve ter recebido, por e-mail, dezenas de textos "assinados" por escritores famosos, e deve ter ficado se perguntando se realmente aquele texto era do autor citado. Eu, por exemplo, já recebi textos com a "assinatura" do Verissimo que continham um intrigante sotaque, sei lá, carioca. Não pode.

Eu sei que o assunto é sério, mas - que o Lobão e o Mario Prata não me ouçam -, convenhamos, há uma graça em tudo na vida. Confesso que me divirto, há tempos, brincando de adivinhar o autor do texto. (Podem me acusar, que pirataria no dos outros é refresco...)

A história do "sotaque" do Verissimo é pura verdade. Você já reparou no sotaque escrito? Já sacou a "voz" do autor?

Sabe como foi que nós - que éramos obrigados a ler Graciliano Ramos com 12 anos de idade, e pensávamos que leitura era uma atividade enfadonha e sem fundamento - nos demos conta da enorme besteira que estávamos pensando? Quando nos deixamos seduzir pela rede mundial de computadores, embasbacados com a mais moderna das tecnologias - que, ironicamente, foi nos colocar frente a frente com aquilo que já se praticava no pergaminho.

A escrita nos chamou para o tatame. Era escrever ou não se comunicar, e a coisa foi ficando feia para quem não tinha intimidade com as teclas.

As "vozes" da escrita, na minha vida, começaram a aparecer com a Internet. Não que eu tenha orgulho disso; deveria era tê-las ouvido muito antes. Mas foi o jeito.

Comecei ouvindo os sotaques escritos dos meus amigos e parentes próximos, depois passei a compará-los com os breves diálogos dos chats da vida; quando vi, já estava ouvindo crônicas e livros, estabelecendo graves e agudos para qualquer frase que me aparecesse à frente.

Comecei a escrever uns textos, e percebi, pasma, que também ouvia uma vozinha, lá no fundo, ditando as minhas próprias palavras. E, pior: a vozinha ia ficando mais agudinha quando o texto era doce e inocente, e mais grave e profunda quando o texto era filosofante, tenso, crítico ou pessimista.

Nenhuma das minhas vozes escritas corresponde à minha voz falada - a verdade é essa. Eu não sei que voz você acha que eu tenho, mas não se engane: meu tom deve ser bem outro.

Aí é que está a graça da coisa. O Verissimo fala (pouco!) num tom, e escreve (muito!) noutro. Mas é o sotaque escrito dele, e ninguém tem igual. Essa é a verdadeira assinatura do autor.

Portanto, a minha sugestão é que o senhor, Sr. Delegado dos crimes pela Internet, vá mandar os seus técnicos darem um jeito de inventar um sensor - hoje em dia tudo é sensor, mesmo - que "capte", como num passe de mágica, a voz escrita do autor. Já não existe um que capta a voz falada? Então.

A delegacia não foi criada para isso? Ou o senhor fica o dia inteiro aí jogando paciência? Tenha a santa paciência!!!



12 abril 2002

Mudei de idéia. Vou deixar mais esse texto, antes de viajar. Beijos!
*******


Quanto vale uma escova grátis?



Bíbi Da Pieve



Imagine que o seu casamento esteja meio sem graça. Precisando de um
tempero - que você cisma em chamar de "investimento".

O Adelmo anda distante, e, quando resolve chegar mais perto, você não quer
saber.

As afinidades evaporaram depois do primeiro ano de convivência. Faz três anos
que vocês se enfiaram nesse quarto-e-sala com paredes descascando. Tudo ia muito
bem, ele até fazia as suas unhas de vez em quando. Mas, hoje em dia, o clima é de
cortar com a faca: mal se olham.

Antes que as paredes desabem de vez - você pensa -, é melhor eu investir no
meu relacionamento.

Pronto. Parece que o mundo inteiro adivinhou suas necessidades: internet,
televisão, revistas, livros e sex-shops oferecem rápidas e práticas soluções para o seu
problema.

Será que isso é um sinal? - você questiona -, ou toda essa indústria já exisitia
antes do Adelmo, e já torcia para que eu o encontrasse um dia, casasse com ele, e,
depois de três anos, decidisse investir num relacionamento mal das pernas?

Não importa. O Adelmo vale o investimento; você saca meia-dúzia de manuais
sobre casamento, uma camisola de rendinha, faz o pé e a mão no salão mais caro, e
ainda sai achando que está no lucro - ganhou uma escova grátis.

Devorados os livros, decoradas as dicas práticas, entendidos os fundamentos
psicológicos das diferenças entre os sexos, alisado o cabelo e lixado o pezinho - você
está pronta para mudar de vida. Afinal, o Adelmo é o príncipe que todas as suas amigas
pediram a Deus (lindo, alto, louro, vinte e tantos), e você prometeu a si mesma um
happy end digno de Hollywood.

Mas faltou um detalhe: um bom vinho, para brindar à lua-de-mel do
investimento.

Atrasada, você passa na delicatessen mais próxima ao quarto-e-sala
descascado, desce do ônibus num pulo, quebra o salto, e cai de joelhos na sarjeta.
Chove muito. O cabelo empaçoca e espiga.

É quando aparece, do nada, o gaúcho Kleiton - que você não vê há uns quinze
anos -, e lhe dá a mão. Você levanta, gagueja; não sabe se ri, chora, abraça, beija ou
engole o salto quebrado.

E você também não sabe há quanto tempo não sente isso, mas desconfia que
faça uns quinze anos - desde que o Kleiton, seu amor platônico de adolescência,
resolvera ir tocar percussão no Canadá.

Agora ele deve estar com quase cinqüenta; é baixinho, careca, meio
barrigudinho, mas continua com o mesmo olhar: desconcertantemente percussivo.
Durma-se.

Mas como, se você não deixou passar uma linha? Se você decorou todas as
dicas, comprou os melhores perfumes, usou os melhores esmaltes - como é que pode,
agora, um batuqueiro sulista vir atrapalhar o seu investimento no Adelmo?

Acontece, minha cara. Esse tipo de Kleiton não escolhe suas vítimas. E a
maioria dos manuais de "felicidade" não vêm com a letra "k" no índice.

Nada contra os Adelmos, os livros de auto-ajuda e as pedicures. É que -
particularmente - tenho uma quedinha pelos saltos quebrados, pelos encontros
inusitados, e pelas tempestades - que são intensas justamente por serem naturalmente
crespas, sem investimento algum.

E sem escova grátis.

Deu pra ti
baixo-astral
vou pra Porto Alegre
tchau!
*******

Caros navegantes: estou com os dedos cheirando a bergamota (também chamada de "tangerina" e outros nomes). Acabei de tomar o café da manhã - duas bergamotas lindas, faltando um dia para pousar na Porto Alegre linda que não vejo há quase um ano.
Vou ficar lá por uns tempos. Portanto, não estranhem se eu me ausentar por uns dias; ainda não sei quando terei acesso à rede, pois o micro da minha mãe não anda muito coerente das ciber-idéias.

Dou notícias do Rio Grande do Sul (céu, sol, sul, terra e cor) assim que puder, prometo.

Ah, sim: se estive ausente nos últimos dias, foi porque uma infecção das brabas veio parar justo na minha garganta - o pedacinho de que eu mais gosto no meu corpitcho... oh!, que meigo, já posso ir para a Casa dos Artistas!

Da noite para o dia, literalmente, minha goela se dividiu ao meio - uma couve-flor de cada lado -, e a dor não era brincadeira, não. Você já teve as amídalas comparáveis à couve-flor? Nem queira. Dá até febre.

Hoje de manhã, acorei bem melhor. Febre nenhuma, e couve-flor já com ares de cereja novamente. Graças a Deus e aos meus exercícios energéticos com luz verde.

Mas ainda dói bastante; por isso, nem vou falar muito hoje. He-he.

Beijos a vocês, e até o sul.

09 abril 2002

Pois, ainda falando em mascavo: coincidentemente, assisti a uma palestra com um médico e cientista biológico, Dr. Augusto Vinholis, muito interessante.
Sabe o que é doença degenerativa, né? Diabetes, cistos e tumores diversos, artrite, e outras coisinhas do tipo.

Diz o doutor que o açúcar mascavo contém selênio - ótimo no combate aos radicais livres, que, quando produzidos em excesso, acabam oxidando as nossas céulas, e causando os males acima citados.

Já o açúcar refinado, o branquinho (e o cristal entra na roda, sim!), além de não conter selênio, ainda conta com diversos produtos químicos - e, pasmem!, CAL. "Sim, CAL de pintar parede, mesmo!" - enfatiza o médico. Coisa que é cancerígena; alías, não é muito difícil imaginar por quê. Fico aqui incomodada com a imagem das minhas tripas sendo pintadinhas de branco. Acho que vou comer uns quadros, para completar a "decoração do interior". E uns pregos, claro. He-he.

Saindo um pouco dessa apologia ao mascavo, vamos falar de vacas.

Dr. Vinholis atenta para o fato de não existir, no planeta, uma vaca sequer com osteoporose. Como se sabe, vacas só comem capim. E produzem leite, que é rico em cálcio!!

Como assim??

É o seguinte: anote aí uma expressão que está sendo muito difundida na biologia moderna - energia vital dos alimentos.

Doze horas deopois da colheita, os alimentos mantém as vitaminas e os sais minerais, mas perdem o que há de mais rico: justamente a energia vital. (Aliás, existe uma mulher genial, professora - de design! - aqui da PUC-RJ, chamada Ana Branco. Ela desenvolve pesquisas e faz experiências interessantérrimas envolvendo alimentos, que vão além das suas meras qualidades nutricionais. Eis a nutrição do futuro.)

Voltando à vaca fria, então o segredo da Mimosa é este: comer capim fresquinho, recém colhido - por ela mesma, aliás. Quanta eficiência!

Se comêssemos frutas, verduras e hortaliças algumas horas após a colheita, teríamos ossos mais rígidos que os seios da Feiticeira. Tá bom, quase mais rígidos. Mas já é lucro!

Eu sei que não dá para ter uma horta dentro do apartamento. Mas, se pudéssemos ter uma dentro do condomínio, já seria uma boa. Inclusive - e sobretudo - para as crianças.

E o Dr. Vinholis adverte: nunca é tarde para mudar. Não existe essa coisa de "estou muito velho, agora não adianta mais". Pesquisas recentes atestam que os seres humanos são extremamente receptivos às transformações. Nossas células se regeneram rapidinho; mesmo as pequenas mudanças são sentidas sensivelmente pelo organismo.

Para terminar: aquelas vitaminas de farmácia têm uma eficácia de apenas 5%. Sabia disso??

Eu nem imaginava. Jurava que era pá-pum. A indústria farmacêutica-me-engana-que-eu-gosto faz parecer tão bom... e os preguiçosos, aqui, preferem ingerir pílulas mágicas - assim como preferem ganhar dinheiro no show do milhão, ficar famoso através da casa dos artistas, almoçar Mac Pronto, etc... pena que o atalho sai caro.

Beijos!
Bíbi.

07 abril 2002

O último post foi duplamente postado. Que posta.

Queria agradecer às visitas ao Biblog; tenho recebido e-mails gentis e carinhosos. Continuem visitando.
Prometo que a coisa vai ficar mais animada com o passar do tempo.

Beijos,
Bíbi

06 abril 2002

Músico, quando chega de show, parece que não vive: paira.

Aquela barulhenta combinação de sons - bumbo, caixa, pratos,
guitarra, teclado, baixo, vozes e gritos da platéia
- é a própria receita
para a loucura desmedida e crônica. Afe!!

Acabei de tomar meu leite morno (com uma colherinha de açúcar
mascavo); vou dormir.

Por falar em mascavo: viva o mascavo. Viva o não-refinado, viva o grão
grosso, e viva o tosco.

Amor e arroz, só se for integral. O nome já diz: in-te-gral.

Salve a decoração rústica, os tons terra, e os momentos não-lapidados.
Abaixo a farinha branca, abaixo os conservantes, os estimulantes, os
fortificantes - e outros antes mais.

Essa indústria dieticida já foi longe demais... o mascavo é um bom
caminho de volta.
Músico, quando chega de show, parece que não vive: paira.

Aquela barulhenta combinação de sons - bumbo, caixa, pratos, guitarra, teclado, baixo, vozes e gritos da platéia - é a própria receita para a loucura desmedida e crônica. Afe!!

Acabei de tomar meu leite morno (com uma colherinha de açúcar mascavo); vou dormir.

Por falar em mascavo: viva o mascavo. Viva o não-refinado, viva o grão grosso, e viva o tosco.

Amor e arroz, só se for integral. O nome já diz: in-te-gral.

Salve a decoração rústica, os tons terra, e os momentos não-lapidados. Abaixo a farinha branca, abaixo os conservantes, os estimulantes, os fortificantes - e outros antes mais.

Essa indústria dieticida já foi longe demais... o mascavo é um bom caminho de volta.

04 abril 2002

Pior que a fome, pior que o tiro, pior que o câncer, pior que a
depressão, pior que o tráfico, pior que a inveja, pior que o próprio ódio
desmedido que alguém possa ter por outro alguém ou por muitos, ou
por todos - é pior.

Pior que tudo isso, sem dúvida, são esses programas de televisão que
expõem seres humanos se engalfinhando por qualquer motivo baixo,
não interessa qual. Não importa.

E conseguem incentivar o que há de mais podre no mundo - o deliciar-
se com a desgraça alheia. O inacreditável fato de alguém se deleitar
observando os conflitos dos outros, por puro esporte, por pura opção.

E não digam que é falta de opção, porque qualquer mico escalando
árvore é meio mais saudável de se entreter numa tarde ociosa.

E não digam que é falta de opção, porque eles, sim, têm opção: estão
com as câmeras nas mãos, dispõem da tecnologia e dos talentos
necessários. Poderiam criar qualquer coisa. Poderiam filmar o que
quisessem, são "livres" - aí, cometem o CRIME de tirar da cartola um
punhado de lama, e atiram na nossa cara.

Por pura opção.

Fariam menos mal à humanidade se filmassem micos escalando
árvores, a tarde toda.

Desculpem o meu espírito suíno - foi a lama que me deixou assim.

31 março 2002

Feliz Páscoa pra vocês!!
Já estou com o micro novo em casa. O difícil é pegar o hábito de escrever regularmente, de novo, mas eu chego lá.
Faz um calor de derreter gaúcho aqui no Rio de Janeiro; o sol não está de brincadeira.
Se a cidade não virar lava, haverá show da Ana Lógica, na Nuth, sexta-feira (05/04). A Nuth fica ali na Armando Lombardi - Barra da Tijuca.
Se a cidade virar lava, vai ser a primeira vez que eu vou me bronzear no Rio de Janeiro, desde que cheguei, há quatro anos.
Tudo tem seu lado bom, vejam.
Você imagina como está a praia, hoje? Tenho preguiça até de sair de casa. Deve ter guarda-sol de dois andares, de tanto que a galera gosta de se amontoar ali quando tem sol forte.
Ontem eu fui, mas já passava das 6h da tarde. Agradável. Um pouco sujinho, mas agradável.

Taí coisa que eu não entendo: na sua casa, você deixa a latinha de cerveja atirada no chão, e depois vai embora?

Mas a Terra tá virando a casa da Mãe Joana, mesmo. Criamos um mundo de mentirinha, e estamos acreditando nele. Como eu dizia ontem a uma amiga: é pena que as balas também não sejam de festim.

22 março 2002

- Alô?
- Vontade nenhuma de falar contigo agora.
- Sara...
- O interfone está tocando.
- Não mente, não estou ouvindo nada!
- Se você ouvisse alguma coisa, teria me ouvido quando eu pedi. Insisti. Quase implorei por sinceridade. (...) É a pizza, Marco Antônio. Deixa eu ir lá.
- Sou menos importante que uma calabresa, então?
- Rúcula. Há dois anos que eu sou vegetariana, e vivemos juntos há três. No entanto, você ainda está no tempo da calabresa. Ficou lá. No passado. Marco Antônio: pega você, a Moniquinha e a sua calabresa, e...
- Te amo.
- Mas acabou. Tchau.

22 janeiro 2002

Pessoal,

que coisa chata. E eu vinha me divertindo com isto.

Aos navegantes: ainda estou sem micro. Não foi só o modem que queimou - complicou geral, e agora só comprando outro computador.
Sinto muitíssimo! Mas vou comprar outro, e volto em breve.
Beijos,
Bibi.

29 dezembro 2001



Esta foto está em http://www.olivieranquier.com.br/

Se tem uma mulher feliz de marido neste mundo - além da minha mãe, é claro -, esta mulher se chama Débora Bloch. Tudo bem, a Marília Gabriela não conta, que aquilo nem é marido - é uma ostentação em perna e osso.

Olivier Anquier é o nome do maridão da Débora. Um francês de tirar o fôlego.

Já assistiram ao Dário do Olivier, no GNT? Não perco um. Com todo respeito. Trata-se de um programa culinário - acreditem se quiser, o homem ainda cozinha.

Cá estava eu, ontem, observando atentamente a explicação do Olivier acerca do fermento. Nunca tive tanto interesse pelo fermento antes. De uma hora para outra, o fermento tomou conta da minha noite. Ah, o fermento... (suspiro)

Dizia aquela doce criatura de qualidades redundantes, bem dentro da minha telinha, que o fermento é uma bactéria. "Um ser vivo, como eu e você". De repente, passei a enxergar as bactérias com outros olhos - tudo tem seu charme, não é verdade? Ah, a bactéria... (suspiro)

E o Deus da culinária prosseguiu: "Vocês sabem como é que o fermento faz o pão crescer? Pois ele se alimenta dos açúcares presentes na farinha. E, como tudo que entra tem de sair, o bichinho elimina o que comeu..."

Cocô de bactéria. Eis o princípio do crescimento do pão. Segundo o maridão da felizarda Débora, o bicho-fermento come o açúcar da farinha, e "libera" - para não usar outra palavra - gás carbônico. Isso mesmo. O excremento do fermento é - veja que amor! - gás. Não é lindo? (suspiro)

Em outras palavras, poder-se-ia dizer que o pum da bactéria é que faz o pão crescer. Ah, o pum da bactéria... (suspiro)

Desliguei a TV, e fui dormir contando bacteriazinhas. Hoje, bem cedinho, fui à padaria e comprei meia-dúzia de pãezinhos franceses.

Ah, as metáforas da vida... enquanto a Débora saboreia um pão francês de cerca de 80kg, eu me contento esfarelando bactérias - e furando bolhas de pum com os dentes.

Não há nada mais romântico nesta vida.

*Notícia importante: agora, você encontra os pães do Olivier somente nos supermercados Pão de Açúcar!

28 dezembro 2001

Belém abaixo de zero

Hoje estava pensando nas vicissitudes da vida, quando recebi uma carta. Tudo bem, não foi carta - foi e-mail -, mas dizer carta é tão mais romântico. Se me permite a ficção, vou de carta mesmo.

O selo era de Belém do Pará, e o garrancho tinha o sotaque do desgraçado que ficou de telefonar, e nunca mais. Vicissitude usa rabo-de-cavalo - pensei -, e manda carta. Como se isso me bastasse.

Meu filho, feliz ano novo por quê?

Eu acho de uma graça certos homens do Pará. Aliás, alguns rapazes que usam rabo-de-cavalo deveriam pensar, pelo menos duas ou três vezes, antes de enviar e-mails do tipo “corrente positiva” no fim do ano.

Pronto, esculhambei com a minha ficção. Não estou nos meus dias úteis. Não era nem um e-mail pessoal; era amplo e irrestrito. Eis a verdade, dura e completamente virtual.

O sujeito foi passar uns tempos em São Paulo, e foi lá que nos conhecemos. Em território neutro. Essas histórias nunca acabam bem, justamente porque nunca acabam. Não há uma lágrima, uma briga, não há o pé na bunda tradicional. Um belo dia, cada qual retorna ao seu local de origem, e o romance fica parecendo um ponto suspenso no tempo; uma coisa do além, algo que nunca aconteceu, de fato, nesta dimensão.

A tragédia é que o cheiro do xampu dele resiste à Via Dutra, e nem o calor do Rio de Janeiro derrete a minha sádica memória.

Por outro lado, parece-me que os paraenses são seres desmemoriados e insensatos, criaturas geladas que se aproveitam do espírito natalino e ferem o coração dos outros a facadas cibernéticas. E-mail coletivo, a essa altura, já é demais. Cúmulo da frieza.

Pensei em todas as maneiras possíveis de responder à altura ao desaforo; optei pelo seguinte texto:

“Olá, somos gratos pela sua preferência. Aguarde um momento, já lhe desejaremos um feliz ano novo. O seu e-mail é muito importante para nós”.

Se não o Pará inteiro, com essa, espero congelar – no mínimo! – Belém.
Natalzinho bem chuvoso, este. Rio, 24 graus. Pode?

Hoje é o dia. Eu quase posso tocar o silêncio.
Tudo que vai deixa o gosto, deixa as fotos - quanto tempo faz?
Deixa os dedos, deixa a memória - eu nem me lembro mais.


O Panetone não acaba, e tem um vinho italiano na geladeira. Periga eu me
perder no meio daquelas frutas cristalizadas, e acabar até me colorindo um
pouco. Amanhã é dia de batente, mas nem parece. E o vinho é tinto, me
parece. Podiam cristalizar o feriado, também.

Eu fico à vontade com a sua ausência... eu já me acostumei a esquecer.

Sonhei que tocava contrabaixo, enveredava pelos slaps da vida, e três (das
cinco) cordas rebentavam ao mesmo tempo. Inédito! - três cordas do baixo
rebentando juntas. Ainda bem que isso só me acontece em sonho.

7 dias para 2002...

A música que eu tocava - no sonho - era Mercedita. A família Ferrettitocava junto, e o Renato Borghetti fazia uma participação também. Quem
cantava era uma senhora de cabelo enroladinho, pele escura, olhar meio
sofrido. Cantava muito bem, cantava doce.

Depois que praticamente debulhei o meu contrabaixo, fiz cara de decepção,
larguei o instrumento no chão e desci do palco. Parece que um outro
baixista iria me substituir - tinha um Yamaha de 6 cordas, se não me
engano. Mas saí correndo, chorando, parecia que o mundo tinha desabado. Nem
quis ver o fim da festa.

Vai ver eu estava era de olho no vinho tinto, tanto que acordei.

Italiano!!

22 dezembro 2001

O Far Up, ontem à noite, estava ABARROTADO de gente. Foi o último dia da temporada - aliás, que delícia de temporada! Vai deixar saudade.
Pô, Luis, faltou tu... ***

Não vou passar o Natal em família, mas em banda. Não haverá peru, porque a cozinheira aqui é vegetariana, e os outros que engulam a minha pizzazinha bem mais ou menos.
Alguém quer encarar? Aceitamos reservas, até porque a banda é pequena. Tecladistas, percussionistas, sopristas e demais istas serão aceitos - mas só para o Natal. Depois, segue o power trio velho de guerra.
***

Sugestão de presente de Natal: CD do Nei Lisboa - Cena Beatnik. Só tenho ouvido isso e Enya, nos últimos tempos. Ah, e Cesar Passarinho, claro.
***

Ho Ho Ho, a vida é bela. E tenho dito.

20 dezembro 2001

"Não sou o dono do mundo, mas sou filho do Dono."

Acabei de ler essa, num adesivo grudado na bunda de um Golzinho branco. Quase morri de rir. Já conhecia, mas sabe quando te pega de jeito? Tem coisa que pega a gente de jeito, e tem coisa que não pega agora, mas vai pegar daqui a pouquinho. Loucura, isso de pensar em momentos.

Passou o meu espírito suíno. Entrei no clima. Imagine uma mensagem de Natal assim: "UM PUTA ANO PRA VC. Afinal fizemos quase tudo por merecer." Isso não dá uma música?? Tem que ser em acorde menor, pra enfatizar a melancolia do "quase".

Quase é brabo; pior que nada.

Uma balada em ré menor, é isto. Não! Já sei: uma QUASE-balada. Quer coisa que derrube mais do que uma QUASE-balada? Não chega a ser triste, a desgraçada. Tem um quezinho saltitante, lá no fundinho, sugerindo que "hope has a place in a lover's heart".

As quase-baladas sugerem. E as milongas sul-gerem (o que é ainda pior).

Feliz Natal a todos os filhos do Dono do mundo, de coração, em franco ré maior. E que 2002 seja uma nova fase - com MAIS tudo, e MENOS quase.

19 dezembro 2001

Mas nós devemos estar todos muito bem de vida, mesmo, neste país. Sim, porque ninguém mais quer encarar o batente. Estão percebendo?
O Rio de Janeiro, pelo menos, está engarrafado até as bordas. Faz um calor do cão, e o clima é de festa geral, ampla e irrestrita.
"Me liga depois do carnaval" - é a frase mais constante.
Onde é que está a fortuna dessa gente, que eu não vejo? Deus, ainda nem chegou o Papai Noel!!!
Estou indignada, me perdoem a acidez. Nada funciona, tudo é fila, e a gente aqui, latindo para economizar cachorro.
Vou parar por aqui, que vocês já devem estar sentindo que meu espírito está mais suíno do que natalino. Fui. (Trabalhar).

17 dezembro 2001

Estou virada numa marqueteira virtual. Vamos lá.
Pessoal do Rio, essa semana (de terça 18 a sexta 21) tem uma temporada de Ana Lógica no Far Up - COBAL do Humaitá. R. Voluntários da Pátria, 448
- loja 10, sobrado. Tel: 2537-2421.


H o r á r i o s:
Terça, dia 18 : 21:30 h
Quarta, dia 19 : 21:30 h
Quinta, dia 20 : 22:30 h
Sexta, dia 21 : 23:30 h

Apareçam!

16 dezembro 2001

Também, não precisava chover tanto.
(Eterna insatisfeita)

Ontem, no Alternativa Saúde - da Patrícia Travassos -, uma moça chamada Marta Viana, terapeuta metafísica, falava a respeito de TPL: Transmutação dos Padrões de Limitação.
Gente, que coisa interessante.
Segundo ela, o nosso campo energético se forma desde o momento da concepção até os sete anos de idade. O sistema neurológico, idem.
A criança, até os sete anos, é pura absorção. Tudo o que os pais (ou pessoas mais próximas) vivem durante esse período é "puxado" para dentro da criança, e aquilo vai se tornar um bolo energético que acompanhará até o final dos seus dias.
Transmutação dos padrões de limitação, pelo que pude entender, é uma terapia que visa a auxiliar as pessoas a saírem desse vício involuntário que é causado pela repetição eterna dos mesmos padrões de comportamento. Exemplo: o sujeito escolhe sempre as mesmas situações na vida, e se depara sempre com as mesmas dificuldades, sem entender por quê.
A resposta pode estar lá na formação do campo energético, e a solução pode ser a tomada de consciência e a limpeza da aura (as duas coisas estão ligadíssimas).
Tudo isso é interessante, mas não consigo deixar de pensar, acima de tudo, no seguinte: quantas pessoas, no mundo, têm noção da responsabilidade que é criar um filho, muito além de fraldas e convênios com médicos e farmacêuticos?

15 dezembro 2001

O ceú se vestiu de cinza, está fresquinho no Rio de Janeiro. Até venta. Deus ouviu as minhas pressas.
Demorasse muito, acho que eu fugiria para os pampas - como se lá estivesse menos abafado. Não importa. A memória é que refresca.
Ia passar o Natal no sul; não vou mais.
Vai fazer quatro anos que a gente mora aqui.
Quando a gente se afasta, as lembranças começam a aparecer, em série, nos sonhos, em frente ao espelho, nas esquinas, nos cheiros. Lembrei tanta coisa que nem tinha mais importância, achei que não teria cabeça para guardar tanto. Tive.
As novidades vão respingando, dia após dia, mas as antigüidades brotam do subsolo inconsciente, de um jeito quase anti-ético.
Gotas de presente, já notou? Momentos.
Parece que o passado sempre é mais sólido. Brotos de memória.
Besteira, na verdade. Tudo é tão nada sólido... passado, presente e futuro são apenas estados diferentes das mesmas partículas - é só ar.
Vai ver que é por isso, então. Venta no Rio de Janeiro: o arzinho anti-ético resolve balançar os meus cabelos sagitarianos justo nesta época do ano.
E a minha filosofia vive de brisa.
Eu que me vire.

Não resisti. Saudade.

14 dezembro 2001

Acordei com o cara martelando ali em cima. Obras no apartamento. E o sujeito é tão rímtico com a tortura, que eu sonhava com um metrônomo gigante me obrigando a tocar baixo no andamento da canção. Ai, que neura, não posso lembrar.

(Será que esse sonho tem a ver com Saturno - o planeta do tempo -, ou só com o martelo mesmo? Jung explica.)

A esta hora da tarde, o rapaz já está meio descompassado. Deve ter almoçado, vai que tomou até um chopinho, taí, perdeu o tempo. Músico que toma umas e outras, não raro, atravessa tudo.

Tínhamos um baterista, nos tempos jurássicos da banda, que ia atrás das palmas do público. Estivesse o público animado, andava a bateria atrás, a mil por hora, e deixava a banda toda suando para acompanhar. Música de quatro minutos, por exemplo, terminava em dois. E o repertório era curto, de modo que começávamos a repetir tudo, certa feita, quando a coisa apertava.

Vê como são as coisas; sempre se aprende. Foi com ele que aprendi a segurar o ar lá dentro, muito ar, muito tempo. Técnica vocal, que nada. Arrume um baterista desse tipo meio afoito e influenciável, que você aprende rapidinho (literalmente) a cantar uma música inteira respirando só duas vezes: no início e no fim.

E não precisa se preocupar com troca de figurino, porque começa-se a cantar de uma cor (a natural), e termina-se (invariavelmente) azul. Ou roxo, no caso das canções mais extensas.

Acho que o vizinho daquele baterista não fazia obras no apartamento.

13 dezembro 2001

Decidido: o nome do meu cágado é Vi. Ontem ele me veio com essa:
- My name is Vi. Vi Torugo.
***
E o pessoal que faltou ao show da Ana Lógica, na terça, não tem nada a declarar? Só sei que me diverti. No próximo, levo o Vi e coloco em cima do meu amp de baixo. Para ir se acostumando à Vi-bração do instrumento...
***
Ainda não aprendi a inserir um link aqui nesta coisa. Ando muito lenta com essas situações práticas. São as Vi-companhias, desconfio.
***
Que nada. "Tô me guardando pra quando o carnaval chegar" (Chico - o Buarque, claro.)
***
Transmissão virtual de pensamento. Recém reclamei da não-manifestação dos ausentes no show de terça, chegou aqui um e-mail de um ausente arrependido. Fizeste falta. Aliás, fizeste pênalti.

10 dezembro 2001

Estou faceira com as visitas ao meu BiBlog - obrigada a vocês!

Aproveito a deixa, e os convido para o show da minha banda (Ana Lógica), amanhã, terça-feira, no Far Up - Cobal do Humaitá, Rio de Janeiro. R. Voluntários da Pátria, 448 - loja 10, sobrado. Tel: 2537-2421.
O show começa às 21:30, cedinho mesmo.

Convém reservar uma mesinha, tá?

Não deixem de falar com esta baixista/vocalista que aqui escreve.

Para o pessoal que sempre me pergunta sobre o site: a Ana Lógica ainda não tem site, mas já tem a equipe que eu pedi a Deus. Estamos aguardando o projeto gráfico do CD, essas coisas são assim mesmo. Creio que, em breve, abriremos as portas virtuais, e serão todos muito bem-vindos.

Diquinha de hoje: www.carlosmaltz.com

09 dezembro 2001

Não sei se foi a Enya, na vitrola, ou aquele mamãozinho bem maduro e doce que eu achei na volta da praia. Ou será que foi o clima, mesmo?

O fato é que há alguma coisinha muito boa pairando sobre as nossas cabeças. Passamos o ano todo trabalhando; passou voando. Agora eu me pus a curtir um pouquinho, com mais responsabilidade, dar um solavanco nas idéias e tomar consciência da dinâmica do universo.

Nada como um bom dezembro no Rio de Janeiro, com o sol queimando a cuca e derretendo os conceitos criados até novembro.

Como é que pode, o mamão deixar de ser verde? - por exemplo. Se tem fruta amadurecendo, também tem cabelo mudando de cor, e também tem unha crescendo, isso deve ser algum sinal muito expressivo da natureza. Do tipo: pega a tua pranchinha, e te deixa levar.

Mania que a gente tem, às vezes, de querer ancorar em qualquer ponto do tempo ou do espaço, fincar os pés, e achar que é durão. Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Confundir estabilidade com mesmice: sou assim, e pronto. (Para não ter o trabalho de mudar?)

"O tempo é infinito; a cronologia é que é limitada".

Cronologia é querer contar com quantas chegadas do Papai Noel se faz uma canoa, ops!, uma vida. Tempo é o marzão imenso, infinito. Não existe um número certo de Papai Noel; aliás, a contagem do bom velhinho só faz dar peso à canoa, e é assim que muita gente acaba afundando.

Imagine um Papai Noel, louco de faceiro, surfando em cima de uma prancha enorme, numa onda do Hawaii. Observar o tempo sem se prender à cronologia. Perceber o amadurecimento do mamão, e utilizar isso a favor: vou comer exatamente quando estiver mais doce.

Sem fazer força nenhuma, dá para sacar a hora mais doce de tudo na vida.

O CIO DA TERRA - Milton Nascimento e Chico Buarque
Debulhar o trigo
Recolher cada bago de trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, propícia estação
De fecundar o chão.

05 dezembro 2001

O Luis Saguar sugeriu Torugo.
Torugo, Luis?
E não é que é um interessante nome de cágado budista com dupla personalidade? Gostei da sugestão!
Alguém dá mais?

04 dezembro 2001

Vamos dar nomes aos cágados.

Ganhei um cágado de pelúcia - presente de aniversário -, e o bicho ainda não tem nome. Mas o pior é que a Melissa, que me deu o cágado, diz que quem tem nadadeira e olho puxado é tartaruga, muito tartaruga - e não cágado.

Tentei convencer o animalzinho, mas está difícil. Ele diz que é um cágado, ele acha que é um cágado, e pronto, e ainda argumenta que o olho puxado é questão de origens orientais. Cágado budista, ainda por cima.

Alguém tem sugestão de nome para o meu cágado? Se tiver, por favor me mande por e-mail - bdapieve@centroin.com.br

Não posso continuar dormindo com um cágado anônimo.

02 dezembro 2001

Com todo respeito à cutícula


Bíbi Da Pieve


Sabe a cutícula? Eu fico pensando.

Depois dizem que eu penso demais, mas a cutícula da gente é coisa de se
pensar, não é? O nome já diz: cu-tí-cu-la. Veja bem!

Toda proparoxítona tem um quezinho de não-me-toque: prótese. Apêndice.
Mesóclise. Átila (nome próprio, então, chega a ser metido a besta, mesmo).

Úrsula Ávila. Já imaginou o tamanho da perua? E a cutícula dela, então?

Eu acho uma falta de respeito, fora de brincadeira, a pessoa querer mexer
na cutícula alheia. Cutícula é coisa muito pessoal. Não bastasse, ainda
inventaram uma ferramenta de nome insultante: alicate de cutícula. Absurdo.

Alicate, no meu tempo, era para cortar arame, fazer cerca. Vê lá se a mão
do rapaz que lidava com o alicate iria ter tempo de criar intimidades com
cutículas e demais proparoxítonas pedantes?

A cutícula é algo só da gente; não tem de haver uma segunda opinião. As
pessoas estão se perdendo um pouco nos termos, e até nas vias de fato. Não
se pode nem querer privacidade entre a própria unha e a carne, que o
sujeito já é considerado grosso, anti-social.

Onde raios está escrito que eu devo permitir que me cutuquem a cutícula
com um alicate que eu nunca vi mais gordo? Para seu governo, o último
alicate que me invadiu os dedos arrancou sangue, e não estou de brincadeira.

Assim é que a situação vai degringolando. O povo vai permitindo. Depois do
alicate de cutícula, aparece um martelo de sobrancelha, como quem não quer
nada. Quando vê, pregam a sua língua no céu da boca, e não adianta nem
abrir o berreiro - que é tétano na certa.

No afã de evitar uma corrosão generalizada é que eu imploro: cuidem muito
bem das suas cutículas, e tirem o olho da proparoxítona do vizinho.

Úrsula Ávila, por exemplo, se não fosse para ser tão pomposa, teria
nascido Berê, Cacá, ou outra oxítona qualquer. Cutícula, da mesma forma -
se não fosse coisa séria, teria vindo ao mundo com outro nome. Talvez cocô.

No mais, cada qual que se entenda com suas próprias tônicas, acentuando o
que achar que deve, e se identificando com a sílaba que lhe sorrir mais
simpática.

De minha parte - com todo respeito às cutículas dos dedos e às Úrsulas da
vida -, sou muito mais o bom e acessível cocô da Berê.

Eu estava me referindo a www.renatoborghetti.com.br
Ainda não estou me entendendo suficientemente com esta máquina...
É uma sacanagem, mas vá lá:
Tudo muito bonito, mas é a terceira vez que eu me levanto da cadeira num pulo, empolgada, e não consigo sequer concluir o giro da prenda. Fala sério, a introdução da página é bem intencionada, mas passa muito rápido, pô!!!
Quem é o webmaster do gadelhudo?
...
Mas visitem, visitem.
Este é um Blog de varaliedades não vestíveis.
Varaliedades são variedades penduráveis no varal (vide figura acima).
O que difere varaliedade de roupa molhada é que a roupa, quando seca, é vestível.
Varaliedade, não. Quando seca, é feito folha de árvore: cai.
Penduro aqui todas as varaliedades que julgo blogáveis, dizíveis, tragáveis (ou nem tanto assim).
Uma vez que cai no chão, tudo é confundido com esterco mesmo - o que muito me agrada, porque é sinal de renovação. Na natureza, tudo se transforma.
Minhas varaliedades não vestíveis são, como toda cousa deste mundo, totalmente merdáveis.
E viva as leis da natureza, meu rei.

01 dezembro 2001

Valeu, Me!!!!!
Agora só falta me ensinar a colocar figura (foto) aqui... tou tentando há tempos, mas não consigo. Sabes?
Gente, vam'colaborar.
Aceito dicas de sites, com flash e musiquinha. Agora estou podendo.
Está um dia cinzento e delicioso no Rio de Janeiro. Chega de derreter os gaúchos, né, Pai do céu?
(Té parece)
Não estou para muita conversa, minha irritabilidade está batendo lá no teto, e não é nem TPM.
Gente, vam'colaborar - já disse.
Ontem ouvi aquele disco do Renato Russo cantando em italiano, que transforma irritação em choradeira, e depois entrei no carro, a luz da (falta de) gasolina acendeu, a choradeira se transformou em preocupação, saí na rua, a preocupação se tranformou em medo, parei no sinal, o medo virou pânico, gritei, o coiso ficou verde, acelerei, o grito sentiu o vento batendo na minha testa e se transformou em música. Inevitável.
Cantei até chegar em casa. Em italiano - equilíbrio distante. Idioma desconhecido. Mico. Mas o carro é meu, a goela é minha, tá olhando o quê?
Se eu botei gasolina?
Me dá o dinheiro, que eu ponho.
Tá olhando o quê, ainda, cara-pálida?
Esperando eu concluir o texto?
Tó, conclusão:
eu acho que a irritação é mera questão de falta de combustível, a bem da verdade. E o Renato Russo é um furo no tanque - só faz pingar mais ainda.
Desperdício?
Desperdício é andar por aí sempre com o tanque cheio. Cadê graça? E cadê ar???
Muito preenchimento sufoca. Tem de haver uns buracos. Lágrima e gasolina, é tudo combustível. Tem de vazar.
Precisando de uma traça, Renato Russo é o que há.
Fui.

28 novembro 2001

Estou de mudança, tá sabendo?

Micro velho para micro novo. Um caos. Minha vida está toda armazenada no HD ao lado, e este computador aqui mais parece um pastel de vento; windows sem vista para o mar, para coisa alguma. Ninguém merece.

E o teclado, então? Sabe quantos segundos eu levei para achar o til do então? Então, então, então, então... (treinamento, pode? Pareço um bebê da informática, a essa altura da vida.) Quase meto as chaves pelos parênteses, agora há pouco.

Mudança é isso mesmo. Vou levar uns dias até me habituar à nova rotina. Mas preciso mobiliar este micro modernoso, antes que eu enlouqueça de vez. Sou pobre - não consigo viver com muito espaço, nem no HD. Meu negócio é esbarrar; do contrário, me perco.

É favor que os amigos me mandem fotos e textos, de modo que eu vá enchendo a casinha nova, e não me sinta muito só. E-mail é como imã de geladeira: quanto mais, melhor.

Por enquanto, era isso. Vou continuar na lida, aqui, arrastando alguns pedaços da vida para as janelas novas.

Mas não tudo, que é areia demais pro meu disquetinho.
Alou... testando...
Não é possível! Será que isto vai funcionar a partir de hoje?
Grande Lori, que me emprestou um micro novo! ADEUS 3.11 !!!!!!!!!

03 novembro 2001

30 setembro 2001

Engarrafados na Nossa Senhora
Bíbi Da Pieve


Tive de ir a Copacabana, num domingo à noite. Dirigi até lá, e, assim que cheguei no bairro, o trânsito parou.

Quarenta minutos depois, quando entrei na R. Nossa Sra. de Copacabana, descobri: havia uma procissão. E eu estava engarrafada na Nossa Senhora.

Lentamente, fui seguindo aquela multidão de fiéis. Não havia outro caminho possível para mim, a não ser perseguir a imagem da santa, e rezar para não chegar tão atrasada ao meu compromisso.

Os fiéis, animadíssimos, iam cantando - "quem é que vai nessa barca de Jesus?" -; como se eu tivesse alguma opção.

Aproveitei, rezei o que eu sabia e o que não sabia. Pedi perdão pelos pecados cometidos, bem ali, em meio àquela atmosfera religiosa regada a monóxido de carbono e maresia.

No início, a situação até parecia sustentável. Mas, com o tempo, fui me vendo dentro de um cenário absurdo, quase surreal; alguma coisa cinematográfica ia tomando conta daquela realidade. A partir de então, os fatos viraram cenas:

Cena I - Lá pelas tantas, enquanto a multidão vai louvando a Deus, aparece uma sirene desesperada, de uma ambulância que também está ali, conosco, engarrafada na Nossa Senhora.

Cena II - Mas os fiéis não arredam o pé. E ainda suplicam: "Senhor, levai as almas para o céu!"

Cena III - Eu fico pensando que, assim, eles estão mesmo prestando um grande auxílio a Deus; naquela ambulância engarrafada, certamente deve haver uma alma prestes a decolar. Sobretudo se não chegar logo ao hospital.

Cena IV - Num muro grande, à minha esquerda, vejo um cartaz: "Tarô e búzios. Trago a pessoa amada em três dias."

Cena V - Na sarjeta, alheio à multidão, ao tarô e à sirene, um mendigo devora um pedaço de pão. E só.

Estamos, todos nós, engarrafados na Nossa Senhora. Não achei imagem mais apropriada para representar a nossa realidade do que uma procissão no asfalto duro, na decadência evidente de Copacabana.

A multidão que segue a santa é a mesma que ignora a prostituição e a miséria, e também é a mesma que se desespera com a decadência. Porque o desespero é comum a todos.

Somos cartomantes, prometendo soluções rápidas; somos mendigos, comendo o pão que o diabo amassou; somos fiéis, pedindo piedade divina; somos prostitutas, somos assaltantes, somos vítimas e somos cegos, porque estamos completamente perdidos, loucos de desespero: somos uma enorme sirene, gritando em cima de uma ambulância parada, dividida entre a fé e o caos, sem saber se vai ou se fica, se ainda há tempo, saída, salvação.

Enfim, peguei uma carona na barca de Jesus, e cheguei muitíssimo atrasada. Mas o problema não está nele, e muito menos na Nossa Senhora. O problema está na falta de opção, que acaba obstruindo os caminhos - quando a fé engarrafa as vias, é sinal de que há muita louvação e pouca ação.

E o Senhor há de convir comigo que, se continuarmos aqui parados, a tendência é afundarmos cinematograficamente em substâncias mal-cheirosas: isso, sim, seria o fim do mundo em 36mm.
Sobra homem no mercado - parte II
Bíbi Da Pieve



A Mariana tinha conhecido o Antônio na seção dos congelados, no supermercado, e jurava amor eterno.

Tinha até uma tese, que ia virar livro: sobra homem no mercado. Segundo a pesquisa, o principal ponto de aglomeração de material masculino disponível era, justamente, o supermercado.

O príncipe encantado estaria, veja só, bem na frente de um freezer, escolhendo o sabor da lasanha. Bastaria um pouco de intuição, e a moçoila esbarraria direto no homem da sua vida, como quem bate o olho e aponta - enfim, encontrei o atum em água e sal!

Mas, infelizmente, a Mariana não deu muita sorte. Veio me contar, meses depois de ter conhecido o Antônio, ex-homem da sua vida, que não haveria mais casamento algum.

- Não vingou! - ela fez uma cara de quem estava mais preocupada com a derrota da tese do que, propriamente, com o fim do Antônio.

Senti que o problema era mais teórico do que sentimental, e peguei leve. Aliás, aquilo era quase um caso acadêmico.

Mariana que se preze, como é sabido, nasceu lá pelo final da década de 70, com a mãe ouvindo Geraldo Vandré, e Belchior na voz da Elis Regina. E com isso não se brinca.

Uma vez ferida a intelectualidade da Mariana, a casa vem abaixo. Ou ela não se chama Mariana.

- Eu sinto muitíssimo, amiga. Nem sei o que dizer...

- Não se preocupe, eu vou ficar bem.

- Olha, eu sou péssima em conselhos. E nem somos assim tão íntimas.
Mas pode se abrir comigo. Claro, não precisa entrar em detalhes. Mas, afinal, o que há de errado com esse Antônio?

- Beija gelado e duro. Para lasanha congelada, só falta beijar à bolonhesa.

- Tão ruim assim?

- Pior. Na cama, então, é um fiasco.

- Credo!

- Fora isso, tem mania de grandeza. Não sabe ouvir. Repete sempre a última frase, pra ganhar tempo pensando em outra. Aperta o tubo de pasta de dente bem no meio. Pergunta "entendeu?", fica estressado no trânsito, batuca na mesa, vive com pressa. E cutuca.

Cheguei a ficar sem jeito, tamanha a desenvoltura da Mariana para debulhar a intimidade do pobre Antônio, assim, na minha frente. Parecia até que ela tinha catalogado os defeitos do ex-príncipe, pelo modo prático e eficiente com que discorrera sobre eles.

Quis mudar de assunto rápido; perguntei se, então, ela tinha desistido da tese e do livro.

- O quê? De jeito nenhum!!! O livro já está pronto, a tese segue valendo. Só porque não deu certo comigo, não quer dizer que não funcione com as outras pessoas. Sobra homem no mercado, e vai continuar sobrando! Não abro mão do meu livrinho, não!

- Mas você não se sente culpada por publicar uma tese que não pode comprovar? E se todas as Marianas se derem mal, como é que fica? O que é que você vai escrever, por exemplo, no prefácio desse livro?

- O Antônio é o prefácio. E depois não digam que eu não avisei. Pronto, isso é o máximo da minha honestidade literária!

- Que horror! Não acha que já está exagerando?? Você namorou com esse cara quase meio ano, e agora vai expor toda a intimidade do sujeito nas primeiras páginas de um livro?

- Tolinha. Namorado, mesmo, ele foi durante uns três dias. Depois do centésimo "entendeu?", o Antônio deixou de ser sujeito, e passou a ser mero objeto da minha pesquisa. Minha mãe já dizia: tudo bem, o amor é lindo, mas alguém tem de estudar aqui nesta pocilga!!!

A mãe da Mariana largou tudo, e foi exercer o seu jornalismo lá na África do Sul. O marido - que já é o quarto, depois do pai da Mariana, que morreu jovem - ainda está tentando achá-la. Quando conseguir, pretende trazê-la de volta à pocilga, doce pocilga onde viviam.

05 agosto 2001

Defeito é defeito
Bíbi Da Pieve

Tenho ouvido algumas pessoas se referirem às próprias virtudes como se defeitos fossem. E vice-versa.

- Tenho o péssimo hábito de persistir em tudo o que eu quero, até o fim. Ai, como eu sofro por isso. Nunca desisto! Até que consigo. Mas é um defeito, eu sei, tenho consciência disso.

- O meu pior defeito é ser prestativa demais. Impressionante, as pessoas acabam extrapolando, porque sabem que eu nunca digo não. E é verdade, não adianta, eu sempre acabo dando um jeitinho de ajudar os outros... que defeito horrível, mas, fazer o quê? Sou assim, tá em mim.

- Tá vendo esses meus enormes olhos azuis? Que defeito horrível... ninguém presta atenção no que eu estou dizendo, nunca!

E por aí vai. Garanto que você já ouviu esse tipo de "confissão", várias vezes, principalmente dos amigos mais próximos.

Ou será que você também faz isso?

Há duas maneiras muito comuns de "assumir" defeitos: uma delas é essa, acima citada. A outra, o famoso "pedir elogio":

- Ai, como estou gorda...

- Que isso!, olha aqui, a calça está até folgadinha! Deixa de ser boba!

Enfim, sinceridade, que é bom, nem pensar. Depois, reclamamos das dificuldades nas relações interpessoais.

A humanidade está cada vez mais hipócrita, e sequer assume a culpa. Nós, brasileiros, reclamamos "do brasileiro" - como se ele fosse uma terceira pessoa.

Aquela mulher que se acha gorda, lá no fundinho, se orgulha de não ser uma tábua. Mas trata as qualidades como defeitos, e os verdadeiros defeitos - ela é egocêntrica! - como qualidades: ela se orgulha da "boa autoestima", e ainda fala mal da vizinha, que, além de ser uma tábua, ainda não se gosta.

- Você viu? Ela não passa nem um batonzinho!

Todos nós somos especialistas no batonzinho alheio. Se é vermelho demais, tá carente; quer coisa. Se é de menos, não se gosta.

A psicologia de boteco tem dúzias de capítulos referentes a bundas, batonzinhos e trejeitos. Dos outros. Sempre dos outros.

Se houvesse um pouco mais de transparência nas cabeças modernas, talvez tudo ficasse menos complicado. Inclusive o casamento.

Ele reclama, por exemplo, que ela não consegue dizer por que ficou chateada e brigou com ele. Mas é meio difícil - ela reclama - falar com uma ostra.

Volta e meia, como boa ostra, ele larga uma pérola. Aí ela se derrete, mas, horas depois, ele reclama que ela já está grudenta demais; ela então fica revoltada, ele não sabe por quê, pergunta, ela não responde, e ele se fecha como uma ostra. De novo.

Quando estão fazendo as pazes, às vezes, ele até assume que é muito fechado. Mas, na verdade, orgulha-se de ser reservado. E quer morrer assim.

Ela, com jeitinho, assume que poderia ser mais direta e objetiva. Mas, no fundo, pensa que a culpa é do animal insensível, que já está com ela há dez anos, e ainda não consegue adivinhar os seus pensamentos.

Defeito é defeito, e ponto final. Defeito é pessoal e intransferível.

Eu, por exemplo, pinto as sobrancelhas com lápis marrom, e fico me iludindo, pensando que assim você não vai reparar nas manchas que eu tenho nos dois lados do rosto, próximas às orelhas. Besteira. Não adianta disfarçar os buracos da bochecha colorindo a sobrancelha.

Não me leve a mal, mas, se você me disser que tem algum defeito, seja lá qual for, eu vou concordar. Não espere que eu vá dizer que a calça está folgadinha, porque não está. Já chega de tanto rodeio, tanto disfarce. Não vou compactuar com a hipocrisia.

Até porque este é meu maior defeito: sou muito sincera. Modéstia à parte.

22 julho 2001

Sobra homem no mercado

Mariana é bem nome de menina que nasceu no final dos anos 70, início dos 80. O que tem de Mariana com vinte e poucos, hoje em dia, não é
brincadeira. As Marianas, atualmente, são mulheres jovens, bonitas, charmosas, simpáticas e solteiríssimas.

Mariana meio ruiva, com sardinha no nariz, então, é coisa típica. Eu disse meio ruiva. Castanho-avermelhado, o cabelo. Se for totalmente ruiva, aí já pende mais pra Viviane, Elisabete, Solange (se bem que Solange é mais anos 70, mesmo).

A Mariana, de fato, é só quase ruiva.

Pois fui almoçar com a Mariana, que eu não via há quatro anos. E ela continua jovem - que Mariana, de verdade, só vai começar a envelhecer lá por 2030. E solteira. Mas em vias de reverter o quadro.

- Conheci o Antônio no mercado!

Não entendi nada. Primeiro, que Mariana casar com Antônio já é de se estranhar. Mariana casa com Marcelo, Guilherme; no máximo, Maurício! Esse Antônio tá me cheirando a coisa mais antiga.

- Antigo, coisa nenhuma! O Antônio vai fazer 39, mês que vem. Estou com 26, olha aí, não dá nem quinze anos...

- E conheceu o quarentão onde, mesmo?

- Quarentão, coisa nenhuma! O Antônio é um guri! E, de mais a mais, hoje em dia, não dá pra ficar escolhendo muito, não...

A Mariana diz que homem é peça rara no mundo atual. Até os 20 anos, ela me conta, era uma festa só. Saía, beijava na boca, e achava tudo uma maravilha. Não se preocupava com os Marcelos, nem com os Guilhermes, que dirá com os Maurícios. Esnobava todos eles.

Só que, depois dos 20, a coisa foi ficando feia. Meia-dúzia de Marcelos viraram Marcelas. Os Guilhermes foram encontrando as suas Cíntias; os Maurícios, casaram-se com as suas Patrícias. E a Mariana foi sentindo que alguma coisa estava mudando. Para pior.

- Menina, nos últimos anos, é um tal de salve-se quem puder, que só vendo! Quando cheguei aos 23, depois de muito relutar, resolvi partir para uma pesquisa mais profissional. Encarei o assunto com seriedade, mesmo!
Levei três anos, catalogando daqui, experimentando dali, mas valeu a pena: finalmente, achei o Antônio!

Quando perguntei que tipo de pesquisa ela havia feito, não acreditei no relato quase científico que a Mariana me fez. Não era brincadeira; ela tinha se tornado uma expert no assunto.

Três anos depois de entrar no mundo profissional da garimpagem de homens disponíveis, minha amiga concluiu a frase irônica que define, afinal de contas, onde é que eles estão: "sobra homem no mercado". Ela vai lançar um livro com esse título, inclusive.

Milhares de Marianas irão comprar o livrinho da minha Mariana, e descobrirão, como eu descobri, que a moça não brinca mesmo em serviço: a mina de ouro, segundo ela, está no mercado. O super. Mais precisamente, na prateleira dos congelados.

- É verdade! Conheci o Antônio nos congelados. Antigamente, eu me arrumava toda, e saía à noite. Tolice. Coisa de gente que não entende nada do assunto. Amadorismo! Assim que me profissionalizei, descobri o óbvio: eles estão na prateleira dos congelados! Estão todos ali, disponíveis... homens solteiros, homens separados, amantes do microondas, afogando suas
mágoas solitárias numa lasanha à bolonhesa... nada pode ser mais romântico!

Realmente, a Mariana vê romantismo numa lasanha congelada. E vai publicar conselhos quentíssimos para as amigas que procuram um parceiro; coisas do tipo: passe um batom, tome uma vitamina "C" (para evitar o resfriado!), e fique horas desfilando diante das portas mais geladas dos supermercados.

Cedo ou tarde, aparece um Antônio, apressado, que vai empilhar nos braços algumas dúzias de lasanhas; aí, é só esbarrar nele. Sim, também você não vai esperar que o Antônio olhe para os lados, né?

Antônio, o nome já diz, é um sujeito extremamente compromissado e afoito. Cabe à Mariana, portanto, derrubar as lasanhas dele no chão. Depois disso, é só correr para o abraço.

- Mas como é que você consegue escolher o Antônio só pelo sabor da lasanha?

- Ah, minha filha, hoje em dia, não se pode querer escolher muito, não! Se ficar com frescura, vai lá outra Mariana, e derruba as lasanhas do partidão! O negócio é ser rápida!

- Sim, mas... algum critério, você tem que ter! Pelo amor de Deus! Não acredito que você possa escolher o marido, assim, no corredor do supermercado, sem critério algum! Nenhuma exigência???

- Vai por mim, amiga: com o meu tempo de serviço, já aprendi que exigência é meio caminho andado para a solteirice crônica. Claro, ninguém é
de ferro. Uma exigência eu tenho, confesso. Mas só uma!

- Qual?

- Não falar "menas". Se falar "menas", eu sinto muito, pode ser a melhor lasanha do freezer, que eu não encaro.

- E "a nível de"? Pode falar?

- Segunda exigência. Abro uma uma exceção: se falar "a nível de", só se for a nível de sexo. Mais que isso, nem pensar!

13 julho 2001



Chega uma hora, na vida, em que a gente cansa de tentar achar explicações para as coisas. Cansa de procurar respostas. Enche o saco de escrever "cansa" no lugar de "enche o saco", e escreve "enche o saco", mesmo.

Chutado o pau da barraca, o que vier é sempre lucro.

Sem-vergonha dessa vida, viu? Parece que a gente vive na "peia", como diz um sábio amigo, mas, a bem da verdade, deixando-se de frescuras, o que sobra da batalha é justamente aquilo a que viemos. E a luta, não sendo lá muito sangrenta, já vale só pelo movimento que proporciona. E a vida - que até sangra, mas não morre! - é o quê, se não essa bagunça crônica, que, pouco a pouco, vai servindo para nos organizar por dentro?

Até a hora de nossa morte, amém.

Feliz do bebê que já viesse ao mundo com o pezinho pronto pra derrubar o primeiro balde que encontrasse pela frente. Sim, porque o melhor gol é aquele em que a gente entra com balde e tudo, ou vai me dizer que não?

Nunca comemorei nada sentadinha ao lado das minhas neuroses; nunca gritei de alegria enquanto passava a mão na cabeça dos meus limites.

Custei a entender que os dias mais cinzentos da minha vida não foram injustiça dos céus; o que eu via era só o cinza do asfalto, enquanto andava... e andava... louca de medo de me desequilibrar.

11 julho 2001

Não precisava

Em Porto Alegre, agora, dez graus. E vem caindo. E chove que Deus manda. O que foi que eu fiz, hein?