24 março 2006

Passa ou não passa?


A rua era estreita. Está bem, nem tanto. Meio estreita. Estreitinha, vai. Eu vinha dirigindo, tranqüila, quando encontrei dois carros estacionados: um de cada lado da rua.

Quem disse que eu passava?

Fiquei ali, parada. Mirei bem, concluí que não dava. Vou arranhar um deles - no mínimo. E o meu. Não dava mesmo. Gente estúpida, estacionar em lugar proibido! Tomara que não apareça ninguém atrás de mim.

“BIIIP BIIIIIIIIIIP!!!”

Foi só pensar, que apareceu um sem-mãe querendo passar. E outro atrás dele. E outro. Eu, empacada.

“BIIIIP! BIIIIP! BIIIIIIP!”

Era uma orquestra, maestro! Regida pela minha placa traseira, imóvel, bem no meio da rua. Cristo! O que eu faço agora???

Dei uma avançadinha, e suspendi o coro. Ficaram todos em silêncio, de repente. Rufaram os tambores. Calculei o carro que sairia mais barato estragar, e me arrastei na direção dele. É nesse que eu vou. Se der m*, descasco o Gol. Raspo na trave!

Nessa altura, nenhum pedestre gentil aparecia para me dar uma força. Engraçado como os pedestres se escondem justo na hora em que mais precisamos deles. Rezei por um flanelinha. Nada.

Azar do goleiro – pensei -, vou me enfiar aqui de qualquer meio jeito. Se não houver meio jeito, um quarto de jeito já me serve. Importante é passar. Tem que passar. Tem que passar. Tem que pass...

- Eeeeeei, dona!!!

Benzadeus! Um porteiro saía da toca.

- Seu Geraldo vai puxar o Gol agorinha. Aí não passa, não!

Rá. Eu disse que não passava.

23 março 2006

Rio

Esclarecendo: tô em Buenos Aires, não. Estou no Rio mesmo. E faz calor.
:o)

As fotos que estão aí embaixo foram tiradas há um ano, quando estive lá. Não são ótimas?
---

Conta outra

Então a Caixa Econômica poderia descobrir em poucos minutos quem foi o autor da quebra de sigilo do caseiro Francenildo, mas pediu à CPI o arrastado prazo de 15 dias? Hum.

Engraçado como o jornal vem recheado de novidades que já estamos carecas de saber.

22 março 2006

Buenos Aires








21 março 2006

Tem escolha?

Eu tomava meu tradicional cafezinho, depois de ter feito as compras no supermercado, quando ouvi a seguinte pérola de um homem na fila do caixa:

- Não posso viver sem carro. Sem carro não dá. Me deixe sem mulher, mas não me deixe sem carro!

Olhei bem para a carinha dele...
Teria mesmo escolha?


Arrependidos

Comprou uma coisa e se arrependeu? Ficou p*** com os serviços prestados a você, cliente, que supostamente precisaria ser atendido – e não ficar ouvindo musiquinhas e gerúndios intermináveis?

Reclame aqui.


PS: Só não vale pôr o cônjuge. Em caso de casamento que azeda, todos sabem, a reclamação é direto com o Papa.


Ligeiramente virgem

Não é meio estranho um filme se intitular “Meu primeiro amor 2”???
Como dizia meu saudoso tio-avô: algos há...
E sempre havia mesmo.


Piadinha muito boa

An american said:
"We have George Bush, Stevie Wonder, Bob Hope, and Johnny Cash."

A Brazilian said:
"We have Lula da Silva, no wonder, no hope, and no cash."

17 março 2006

Delivery de Deus



Só vendo para crer.

O maluco aí da foto está, pela terceira sexta-feira consecutiva, plantado na pracinha que tem aqui em frente. Ele chega, abre o porta-malas do carrão, saca um microfone e começa a falar de Deus. Claro, com fundo musical adequado (?).

Diz que não pertence a nenhuma igreja, mas que veio “trazer Deus”.

Era o que nos faltava, ou não era? Tele-entrega de Deus. Resta saber quem foi o engraçadinho que fez o pedido.

Mas, falando sério. Essas pessoas que falam em nome de Deus só contribuem para a desmoralização do Cara. Aliás, eu já resolvi: não me dirijo mais a elas. Não é preconceito, não. É uma questão de gentileza. Se elas vivem falando com Deus, que Deus isso, Deus aquilo (uma intimidade!!), não sou eu quem vai interromper a conversa.

Todas as sextas-feiras, agora, sou obrigada a almoçar com uma barulhenta pregação nos meus ouvidos, porque um ambulante de Deus resolveu fazer a feira na minha praça.

Sei não, mas acho que Jesus deve estar indignado: estão pirateando a Palavra.

16 março 2006

Gaúcha

Sábado vai fazer oito anos que eu moro no Rio.

Quando dizem "ah, mas então você já está carioca!" - claro, fico furiosa. Adoro os cariocas (cariocas são alegres, cariocas são atentos, cariocas são tão sexys), mas sou e sempre serei gaúcha de nascimento e coração.

Não se preocupe, não vou engatar agora um discurso tradicionalista, tchê! Hoho.

Mas uma coisa é verdade: quando ouço alguma palavra que termina em "sul" (nome de empresa, condomínio, companhia, o raio que for), dou um suspiro satisfeito e já me sinto em casa.

Deus queira que eu não tenha um filho tão cedo. Pobrezinho ia sofrer com os apelidos.

15 março 2006

Sites confusos


Francamente: a internet já não está meio crescidinha para ficar brincando de Onde Está o Wally???

Sites confusos deveriam ir para o diabo que os carregasse – lá, sim, desfrutariam da eternidade que merecem, porque nem mesmo o diabo se encarregaria de carregá-los por completo, acredito. Ficariam, ad eternum:

“Carregando...”
“Carregando...”
“Carregando...”

Muito bem feito. Não se faz isso com o vivente apressado que precisa dar (informação) de comer ao seu afoito mouse. Esconder, camuflar, enfiar nas entrelinhas virtuais o que era para ser destaque real. Bolinhas coloridas. Lantejoulas, musiquinhas, POP UPS!

Ditado velho que acaba de ganhar upgrade: não faça na web aquilo que você não gostaria que fizessem com você na vida real!

Imagine a cena. Você pede uma torta de maçã de sobremesa. O garçom vem, todo sorridente, e põe uma bacia cheia de farinha na sua mesa.

- Cadê a minha torta de maçã??
- Caaaalma! Primeiro, vou cantar uma musiquinha!

Aí ele demora, porque está carregando a musiquinha na cabeça. E começa a cantar.

- Trá-lá-lá...
- Garçom! Ei! Eu só queria uma torta de maçã!
- Trá-lá-lá...

Engasga. Você pensa que ele travou. Mas ele continua.

- Trá-lá-lá...
- Acabou?
- Sim! Agradecemos pela sua visita!
- Tá, e a torta?
- Está vendo essa bacia de farinha na sua frente? He he! Você vai ter de achar a maçã com a boca!!
- Tá doido???
- Não sem antes, é claro, preencher o cadastro, responder à nossa enquete da semana, indicar o restaurante a um amigo...

É de matar, né?
Eleições


Eu ainda não acreditei que o PSDB desistiu do Serra (aliás, o inverso!) para colocar Geraldo Alckmin no páreo contra Lula. Choquei.

Pode ter sido instinto de autopreservação de Serra - alguns dizem -, ou esperteza mesmo (perder São Paulo e ficar chupando o dedo no caso de dar Lula II?). A Alckmin, ninguém pode dizer que faltou persistência.

Muito bem, o PSDB chega a um consenso, ainda que não se saiba exatamente até que ponto vai haver coesão dentro do partido em relação à própria candidatura de Alckmin.

Eu acho é uma coisa: perigosos esses jogos tucanos, muito perigosos. Pense comigo. Até outubro, muita água pode rolar. E se estourar mais uma bomba desmoralizante no PT? E se, dessa vez, Lula sair chamuscado?

Povo vai cair de boca no primeiro salvacionista que pintar. Deus nos livre de uma zebra, sobretudo daquela que fala em Seu nome.

--

Obs.: Não tenho partido político. Não sou tucana, não sou lulista, muito antes pelo contrário. Só estou de olho.

14 março 2006

Vamos fazer...


- Vamos fazer um blog? No caderno de economia do Globo diz que um cara ficou milionário nos EUA!
- Eu já tenho um blog. Vai fazer cinco anos.
- Hum... Então, já sei!
- Sabe??
- Sei. Vamos fazer outra coisa.
- Isso.

13 março 2006

Kramer X Kramer - lembra?


Passei a semana enfiada na web (com todo o respeito), pesquisando e fazendo um trabalho no clima "what's new?". Bom. No domingão, assisti ao filme "Kramer X Kramer", de 1979. Que, aliás, eu nunca tinha visto - apesar de saber que era um filmão imperdível, ganhou 5 Oscars, Dustin Hoffman, Meryl Streep, sem maiores comentários.

Filmaço.

A história eu resumo assim: pai (D. Hoffman) se vê obrigado a cuidar sozinho do filho de 7 anos, de uma hora para outra. Muda a vida e encara a briga.

A história não tem nada de excepcional - embora o assunto tenha dado pano para manga naquela época, conforme comentam os próprios atores nos extras do DVD -, mas as atuações são comoventes, brilhantes. O texto tem momentos ótimos, o filme é realmente bonito.


Mil e uma folhas


Chegamos, por acaso, à patisserie Kurt no Leblon. Das melhores do Rio - dizem as gulosas más línguas. Eu não conhecia, aliás, não conheço lojas de doces: julgo anti-ético. Pronto, soy contra.

Mas, assim, levada pela mão... a gente sofre, mas vai, né?

Logo na entrada, já não se tem muita saída. O lugar é pequeno, as mesas são pequenas e poucas, as vendedoras são baixinhas e sorriem curto... Não se escapa dos doces.

Decidimos dividir uma mil-folhas - 500 para cada um! -, e também a culpa. É muito bom ter alguém com quem dividir as 500 culpas.

"A gente nem exagerou, né?"

"É... foi bom, porque a gente comeu pouquinho..."

"Isso, isso... Assim que se faz, né?"

"É... Assim que se faz!"

Quando já estávamos quase auto-perdoados, um afagando a meia culpa do outro, saímos pela porta e demos de cara com uma academia ENORME do outro lado da rua. Moças malhavam. Homens suavam. Corriam. Bufavam. Emagreciam. Secavam.

Malditos desfolhados.

11 março 2006

Versos versus...

Não sei por que motivo os cantores (e as cantoras), cada vez mais, insistem em cantar coisas como “nou nou nou”, “tchu-ru-ru”, “néu réu réu” – e equivalentes. Tsc!, com tanta poesia bonita disponível...
Se beber...


Houve um acidente feio aqui no Recreio, dias atrás. Contam que o motorista ouviu atentamente as informações sobre o caminho de saída da praia – “na primeira ponte de madeira, vire à esquerda”. Só que, antes da ponte referida, havia uma para pedestres – também de madeira.

E ele foi nela.

Consta que estava alcoolizado. Pelo amor de Deus: se beber, não dirija.


Tempo

Quem, porventura, estiver ocioso: me empresta um ttttttempo aê?
Motivo: trabalho.

(Para namorar eu uso o meu mesmo, tá? Tô terceirizando o bofe, não. Xô!!)

07 março 2006

Se ele fosse eu (mas não é)


“Fui assistir a uma comédia recomendada por um blog aí, mas, francamente... tssss!”.

Francamente e tsssss significam que meu irmão não gostou, mas não gostou mesmo do filme do Daniel Filho – “Se eu fosse você” –, que eu recomendei aqui. Bom, acontece. Sempre. Sobretudo com gente que saiu da mesma barriga, hoho.


Oscar

Por falar nisso, assisti à cerimônia do Oscar, e achei tudo muito sem graça. Agora, você também reparou que as mulheres estão usando aqueles decotes(ões) com o colo nu? Digo, sem colar?

Dessa moda eu gostei muito. Valoriza o colo. Privilegia a forma feminina. E evita assalto. (Digo: se eu quisesse andar por aí com um colar su-pim-pa-mes-mo, teria de assaltar alguém.) Melhor assim.


Rapidinha


“Vou escrever rapidinho, que estou correndo”.

“Fala rápido, que estou no trânsito”.

“Ligeiro, que meu chefe tá chegando...”

Cá pra nós: a única coisa que vamos conseguir com essa correria desenfrada é criar uma sociedade absolutamente ruim de cama.

23 fevereiro 2006

Comédia – “Se eu fosse você”


É puro entretenimento. Tony Ramos e Glória Pires - que já não precisam provar coisa alguma a ninguém - dão show de atuação, ritmo, carisma. São donos do filme.

É de dobrar de rir. Eu, que adoro um cinema despretensioso e divertido-sem-compromisso, recomendo. Muito!

22 fevereiro 2006

Transgênico Vox

Se eu pudesse, separava só a Bona Voz do Bono Vox, mais um punhado de músicas que eles compuseram nos anos 80, e plantava de novo noutro vocalista, outra banda, sei lá. Porque esse sujeito que veio almoçar com o Lula e posar de estrela afetada no Morumbi, francamente. Blargh.


No táxi, em Salvador

- Aqui, doutor, passava o trio elétrico às 7h da manhã...
- Caramba! E tem gente para correr atrás do trio às 7h da matina???
- Ô, doutor, que pergunta! Pergunte se tem alguém para trabalhar... para lhe prestar um socorro na hora em que o senhor precisar... pergunte! Pergunte!!

Hoho, maldade...


No restaurante

- Garçom, por favor, de que é feito este bolinho?
- É... é doce. Coma, que é bom.

E era mesmo.

21 fevereiro 2006

E eu, que ainda não conhecia Salvador?


Sabem do que eu mais gostei? Salvador sorri com covinhas!

Explico: a orla da cidade é alegre como um riso – escancarado, solto, sensual, maroto, molhado e quente. Tudo é exposto; sujeitos, verbos e predicados dançam ao som de algum batuque que não se sabe direito identificar de onde vem, se é que vem mesmo. Mas o certo é que Salvador é estéreo, porque a gente ouve muito e o tempo todo.

Aí você parte para as ladeiras, onde a história se guarda nas construções, nos becos coloridos, nos furinhos das rendas, no silêncio das preces... enfim, nas doces sombras das covinhas de uma cidade que sorri suas carnes salgadas, suas curvas ousadas, sua alegria que embasbaca, deslumbra, comove, desconcerta, e até assusta um pouco, mas – sobretudo! – estimula a gente a sorrir também.

:o)

17 fevereiro 2006

Vista

Aqui na minha frente, em ordem de proximidade:

1. Parede de vidro
2. Homem lendo à beira da piscina
3. Avenida Beira-Mar
4. Coqueiros, coqueiros
5. O mar de Aracaju

Agora, as minhas conhecidas pílulas anti-inveja:

1. Aqui faz um calor DO CÃO. Às 7h da manhã, o termômetro marcava massacrantes 37 graus. Creia-me.
2. Nosso quarto fica praticamente à beira da piscina. Pois, ontem à noite, teve "festa" na piscina. Um sujeito empunhava uma guitarra desafinada e cantava "pois diga que irá, Irajá, Irajá" a noite toda. IRA: JÁ!!!
3. Não dormi quase nada. Se aparecer num jornal de Sergipe que um fantasma de longos cabelos, olheiras profundas e sotaque gaúcho rondava a cidade, já sabem.

Céus, vou ali beber uma coca light e já volto. Daqui a duas horas, vamos para Salvador. Na volta eu conto. Se não me derreter no meio do caminho, claro.

15 fevereiro 2006

Ficava imaginando


O táxi pára no sinal, escuto um “toc!” no capô. Motorista me olha pelo retrovisor:

- É frutinha.
- Hein?
- Frutinha. Cai sempre dessa árvore.
- Ahm...
- Todo santo dia. Impressionante.
- Sei.
- Fico imaginando se fosse uma jaca!
- Ô!
- A senhora não sabe. Na minha rua, quase em frente à minha casa, um inteligente plantou uma jaqueira.
- Que idéia!
- Pois é. O inteligente é assim, a senhora deve conhecer algum. Só tem idéia boa.
- Alguns...
- Então. Passa uma pessoa ali, já pensou se cai uma jaca na cabeça?
- Bah!
- Pior: fico imaginando se é com uma criança! Mata a coitadinha!!

Tudo que acontecia (ou que poderia acontecer) ele ficava imaginando pior, muito pior. Se era uma frutinha, imaginava jaca. Se era jaca, imaginava criança. Não me agüentei, disse:

- Mas a jaca nem caiu, e você já está imaginando uma criança morta!
- Não é isso, dona, é que pode acontecer...
- Tudo pode acontecer. Mas também pode não acontecer.
- Sim, mas já imaginou se acontece?
- Não! E nem quero imaginar!
- A senhora acha que chama??
- Sei lá se chama. Só acho que imaginar assim parece que a gente quer que aconteça.
- Não diz isso, moça! Eu sou de Jesus!!!

"Ainda bem! Já imaginou se fosse do diabo???"

Quase falei. Mas não disse mais nada, não. Fiquei com um medo danado da jaca...

13 fevereiro 2006

Feliz Ano Eleitoral


Graças a Deus, é ano eleitoral. Não sei se você também notou, mas o país não parou – como de praxe – entre o Natal e o carnaval. Seguimos direto.

As praças estão floridas, as ruas estão quase limpas, o trânsito está fluindo. A não ser quando chove, claro (também, já seria pedir demais!). De minha parte, entrei no clima. Estou, como se diz, correndo atrás do prejuízo. Mas não fica muito bem falar em prejuízo nesses tempos de campanha (ops!) – então, abafa aí.

E vamos ao que interessa, que o resto é mera perseguição da imprensa. Me prometo crescimento econômico, melhoria na habitação, mais recursos para educação e cultura. Vou baixar umas medidas, aprovar uns orçamentos, liberar verbas.

Vou reduzir os juros; mas, primeiro, vou aumentar as juras.

Todo mundo vai ver como eu sei jurar bonito e eterno. Juro, não nego, pago quando puder. Jurar não é de graça? Então, dá licença. Não estou roubando, não estou matando. Estou só jurando, me deixa aqui no meu cantinho.

Juro que esse ano enriqueço, juro que me compro um carrão zero, juro que me meto num daqueles tubos de estética e só saio de lá com o corpão da Ivete Sangalo. Juro que leio os clássicos duas vezes, juro que viajo meio mundo, aprendo cinco línguas, escrevo para dez jornais, publico três livros, lanço um disco só de sucessos, faço uma turnê pelo país de modo a não saber mais, de manhã cedo, em que lado da cama está o abajur.

Aliás, melhor jurando: juro não me acordar – e não me acordarem - de manhã cedo!

Juro de morte minha preguiça, minhas desculpas esfarrapadas para não aparar antigas arestas – que, de velhas, já se arredondam e me confundem o tato para detectá-las. Juro de vida minha astúcia, minha persistência, minha coragem.

Juro, na maior cara-de-pau, e juro mesmo; é ano eleitoral. É bom para brincar de Mulher Maravilha, faz um bem danado para o ego. Jurar em público é divertidíssimo!

Se eu fosse você, aproveitava e jurava também. Na pior das hipóteses, o material servirá à oposição no futuro.

Que belo exercício da democracia!!!

10 fevereiro 2006

1986 – o ano em que eu não conseguia ler Zoológico


Andávamos pela rua, quando minha mãe avistou uma placa enorme: “ZOOLÓGICO”. Resolveu brincar comigo:

- Filha, o que é que diz naquela placa?
- Que placa?
- Aquela, lá na frente!
- Ah... não sei.
- Claro que sabe! O que é que está escrito lá, minha filha, bem grande? ZOO...???
- Não sei. Não tenho a menor idéia. Não enxergo!

Levou-me ao oculista (naquela época, não se dizia oftalmo). Eu lia muito bem, mas não era capaz de enxergar “zoológico” a uma distância banal.

Então, conheci dois bichos novos: hipermetropia e astigmatismo. Duas palavras que eu nunca tinha lido antes, e que me pareciam horríveis. Tem cura?

- Uma delas tem. E a outra pode diminuir muito. É só usar os óculos direitinho.
- Precisa usar na aula?
- Claro!
- Até na educação física???
- Hum... não, na educação física pode tirar.

Escolhi a armação das vidraças – na base do “menos feio”, porque bonito não achava nada -, e passei a torcer para chegar logo a aula de educação física. Até entrei para o time de basquete do colégio. Jogava mal, é verdade. Será que era porque não enxergava a cestinha?

Não importa. Mesmo no banco, não precisava usar óculos. Mais do que as cestas, isso era o que me fazia feliz.

No resto das aulas, e fora delas, usei os óculos direitinho. Suportei os apelidos (desnecessário citá-los), a piedade das professoras, os primeiros namoros postergados. Ah, tirei o atraso na adolescência!

Apelidei todo mundo, quero dizer.


20 anos depois - a confissão

Livrei-me do primeiro bicho. Agora só tenho astigmatismo, mas aponto zoológicos a quilômetros (uau!), toda orgulhosa. Trato-me com o mesmo oculista, que hoje é oftalmologista e exibe as revistas com as minhas crônicas por aí: “Tá vendo? É minha paciente há 20 anos! Enxerga tudo!!”.

“NE”
“UFVP”
“CDOHRL”

Antes de fazer 30 anos, preciso confessar, senão morro de culpa: já decorei as letrinhas dele!!!

09 fevereiro 2006

08 fevereiro 2006

Só agora

Só agora eu voltei. Estive saracoteando por aí; minha vida deu uma gostosa bagunçada, estou aprendendo a dançar conforme a (boa, sempre boa) música.

(Nada a ver com carnaval, tá?)

Veio gente ótima para perto – enfim, seguiram-me os bons! -, estou animada com as novas parcerias.


Só agora - II

Cá entre nós, parece que o nosso presidente bebeu Red Bull e ganhou, só agora, um par de asas. Virou arroz de festa. Só dá ele - inaugurando, assinando, determinando, tapando os buracos que não tapou antes...

Hoje, no JN, enquanto anunciava o novo pacote bilionário de medidas para a construção civil, Lula disse que não podia ter feito antes porque as coisas no governo “ainda não estavam arrumadas”.

E agora... estão!?

25 janeiro 2006

Dois ótimos


"Revisar era assim: o camarada traduzia como a cara dele e eu emendava como a
minha."
Mário Quintana

"Tá bem, nós todos vivemos a perigo
mas meus males são piores
Acontecem comigo."
Millôr Fernandes
Periódico


Hoje o jornal está uma pancada atrás da outra; ou seja, a gente mal se levanta da cama e já toma as devidas bordoadas da realidade. Como diz um amigo: é a vida, filha.

Não. Vamos começar de novo.

Hoje o jornal está cheio de notícias horríveis – assaltos, assassinatos, traquinagens político-eleitoreiras etc. Ou seja: está muito difícil acordar, calçar os chinelinhos, pôr o café à mesa, e não se engasgar com a implacável tradução do mundo em letrinhas miúdas.

Outra tentativa (tenham paciência comigo).

Hoje o jornal está de lascar. Complicado levantar da cama, calçar as havaianas (com bandeirinha), pôr o café, e engolir (a seco) os relatos do dia. Aliás, que dia!

Última, última.

Hoje o jornal está tenebroso. Fico olhando para ele e pensando: pena que eu não tenho um gato.

20 janeiro 2006

Banda larga


É um vício. Se estou no computador e preciso ligar para a farmácia, procuro no Google – em vez de andar até o imã de geladeira.

(Você acha que eu vou morrer cedo?)

Trata-se de uma incongruência, mas é assim mesmo. Depois eu saio desvairada e vou fazer Pilates, caminhar no calçadão com a pressa das mulheres que precisam urgentemente manter a forma (ou seja: perder 3kg).

Essa banda larga é um perigo. Vai um chá diet?


São Sebastião

Hoje é feriado aqui no Rio - dia de São Sebastião, padroeiro da cidade. Tenho muita curiosidade sobre os santos, com todo respeito. Tal como os médicos, cada qual tem sua especialidade, e a gente deve buscar auxílio conforme o (como dizer?) setor da encrenca. Tudo muito organizado.

Pois consta que São Sebastião protege contra a fome, a peste e a guerra. Acho que os cariocas – e os inquilinos – devem se agarrar com afinco nas preces, hoje e sempre, porque a coisa aqui não está nada fácil.

Além disso, não sei se vocês sabem, mas São Sebastião também é considerado padroeiro dos homossexuais. A informação abaixo é de um site gay de MG:

“Os homossexuais veneram são Sebastião como protetor desde a idade Média. Na biografia do santo, consta que era o soldado preferido do Imperador Diocleciano, considerado pelos historiadores como um dos imperadores mais homossexuais de Roma.”

???

Cabe reflexão: como seriam, então, os imperadores MENOS homossexuais?

E os “mais ou menos”?

E, ainda, os ligeiramente? Os vagamente? Os dia-sim-dia-não?
...
Agora, o mais importante: a mãe deles sabia disso?

18 janeiro 2006

Recado


Tá assim de gente que manda “recadinhos” pelo blog.
Pois agora eu também vou mandar.

Deus: QUALÉ???
Nem só de pagode...

Atenção: meu vizinho agora está ouvindo Rush (YYZ). Uau!!!


Para trás?

Acabou o ano, acabou o calendário (do rádio-táxi, meu Deus!) que nós tínhamos aqui. Meu irmão não se abalou: tirou a folhinha de dezembro, e deixou por baixo a de janeiro. De 2005.

Tudo bem que a gente não gosta de envelhecer, mas... deve haver outros meios de se chegar melhor aos fins, hehe.


Urina

Hoje deu no jornal que a nossa querida praia do Recreio está impossível, veja só, por conta do extremo calor que assola o Rio. Antes eram as chuvas.

Ou seja: quando não é uma coisa, é outra.

A água do mar, dizem, anda geladérrima! - não se agüenta um mergulho.

Por outro lado, o tal “Cuca Fresca” (chuvisco que respingaria de dentro daquelas placas ENORMES da prefeitura) está seco, seco. E o chafariz que instalaram na Praia da Macumba (!!), alegria da criançada e única opção para o banhista se banhar, segundo consta, fede.

E fede muito, e fede a urina.

Um entrevistado afirma que pegou uma micose depois de ter se “lavado” ali, e que a água é reutilizada – imagina!

Ou seja: quando não é uma coisa, é outra. Na calçada é xixi. No mar... bom, o mar está gelado. (Se a prefeitura não sabe o que faz, Deus sabe. Hoho).

10 janeiro 2006

King Kong


Fui ver King Kong. Não sou a mais indicada para criticá-lo, porque não tenho saco para filmes com muita ação, mas esse foi dos piores que já assisti. Putz, que bomba!

Roteiro fraquíssimo, personagens insossos, desenvolvimento enfadonho. Pouco humor – não passa de meia-dúzia de piadas apenas razoáveis. Inspiração zero.

Quando quer ser delicado, vira piegas. Quando quer ser bruto, aí consegue (mas me dá um macaco daquele tamanho que eu também consigo).

Dois bons atores são sub-aproveitados: o primeiro é o Adrien Brody (ex-Pianista), que ficou achatado num personagem mocinho-meloso-sem-sal. O segundo é o bom comediante Jack Black (Escola de Rock), que virou uma caricatura meio lá, meio cá; tipo um traço sublinhando texto que não existe.

E não vou elogiar mais, tá?


Continua lindo

E as chuvas cessaram. E o Rio voltou a sorrir. E o dia esteve ensolarado. E vi o Cristo da janela da minha analista. E me analisei sob seu claro abraço. E minhas neuroses se sentiram acolhidas. E me inspirei, de fato. E passei duas vezes pelo aterro do Flamengo agradecendo aos céus. E vim até a Barra apreciando a paisagem.

E ainda almoçamos com um carioca que dizia: “o Rio Grande do Sul é uma coisa fantástica!!!!”.

Assim, cheio de exclamações.

Ou seja, o Rio de Janeiro continua lindo.


Mais Kong

Desculpe voltar ao assunto, é que me lembrei de uma cena que aconteceu na poltrona.
Menino de uns 10 anos assiste ao Mico Kong com a mãe. Lá pelas tantas, um personagem diz:

“Estou exausto!”

Menino lê a legenda e pergunta:

- Mãe, ele disse que está o quê?
- Exausto, meu filho.
- E o que é isso?

A mãe explica, e eu fico pensando.

(Vem cá, um piá de 10 anos já não deveria estar exausto de saber o que significa exausto???)

06 janeiro 2006

Você sabe quem é Bruna Surfistinha?


Eu também descobri há pouco. É uma garota de programa, aliás, é uma menina de uns 22 anos, que brigou com os pais e saiu de casa – acho que aos 17. E foi ser garota de programa.

Daí ela fez um blog onde contava os programas, e teve muitos acessos (o blog... E ela também, naturalmente!), e virou, mexeu, lançou um livro.

Nesta ordem: virou, mexeu e lançou. Um livro.

Que vendeu horrores!

Nessa altura do campeonato, a garota já tinha “se aposentado”. Conta que arrumou um namorado - ou namorido, sei lá -, um homem casado que começou como seu cliente, depois se apaixonou, e... enfim, praticamente um Richard Gere. Tirou a moça dessa vida, e foram felizes para sempre.

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TÁ, E O QUÉCO?


Não sei o quéco tenho a ver com isso. Nem você, nem ninguém além dos diretamente envolvidos.

Mas o fato é que muita gente está comprando as memórias das putas tristes, do García Marquez (na lista dos mais vendidos há meses!), e também as memórias da Surfistinha alegre.

Entendo a avidez pela boa literatura, no primeiro caso. E entendo a curiosidade sobre as saliências (para ser discreta), no segundo. O resto é especulação pura, e para isso estamos aqui.

Especulo, portanto, que há uma espécie de “moda” de sexo liberal pairando no ar. Mais do que isso: é como se as meninas (e as mulheres) precisassem mostrar que também podem ser adeptas do sexo casual – não são presas às meiguices da emoção, não são mais tão apaixonáveis, e não ficam se derretendo pelos cantos ao soar de uma voz mais grave ao pé do ouvido.

Tem até uma modinha enfadonha e insistente que sugere uma espécie de lesbianismo de ocasião – uma bobagem, às vezes incentivada pela mídia “esperta” (e careta, diga-se de passagem), que tem pouco ou nada a ver com tesão; é uma questão de “atitude”. Entre muitas aspas. Meninas adolescentes beijando outras meninas na boca porque é “cool”, porque homem é tudo babaca e elas podem muito bem viver sem eles.

Baita atitude.

Acordai, bonitinhas. Não era isso que as mamães (e as vovós) queriam dizer quando queimavam sutiãs.

Culpa de quem?

De ninguém. E de todas nós. Do processo.

A minha geração, por exemplo, ouve esse papo de feminismo e acha radical, démodé. Demos de ombros, queríamos mesmo saracotear. Aliás, demos também de bunda. Pior: na boquinha da garrafa!

Claro que há quem venha de frente, e sempre vai haver, cada vez mais – advogadas, juízas, professoras, publicitárias, médicas, roqueiras, artistas porretas. Mas também há muitas moçoilas rebolando fora do eixo, e isso, me desculpem: além de não ajudar, atrapalha um bocado.

E olha que não sou contra o rebolado, não. Acho ótimo que se rebole, que se transe, que se goze, que cada qual descubra o sexo – e as formas de amar, se assim fica bonito dizer – que mais lhe dê prazer. Sacanagem, sexo bilíngüe, trilíngüe, o diabo a quatro. Ora, vá ser feliz!

Mas também sou a favor de rebolar o tutano, e isso sim merece destaque. No que estão pensando as meninas das raves? Quais putas tristes estarão lendo?

O problema, como diriam os marqueteiros, é uma questão de foco. Há muita preocupação com a celulite; pouca com os buracos do cérebro. Sexo é bom, e é para dentro. Pensar pode ser para fora.

Destinar todas as capas de revista ao êxito das bundas livres? Mas, afinal, que sucesso estamos comemorando?

Ora, vá comer feijão e estudar.

04 janeiro 2006

realidade / ficção


Uma verdade belamente escrita não dá outra: toma jeito de mentira bem contada.

Já uma verdade mal escrita não toma jeito nem quando enfiada entre aspas.

--

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

(Humberto Gessinger)

--

Fui ver o filme da Bethânia. Aproveita-se mesmo é a própria. Mais parece um “making of” caprichado do show Brasileirinho (aliás, ótimo, eu tenho em DVD). Algumas coisas comoventes de Dona Canô e Caetano, mais um Chico sub-aproveitado aqui, um Gil superaproveitado ali... nada de mais, é isso. E imagens de favelas para inglês ver.

Belas são a música e a poesia. O mais é estética, conceito, vazio. Dã.

02 janeiro 2006

Eu também vi a merda


Está todo mundo dizendo que 2005 foi uma merda, e que já foi tarde. Pois eu faço parte do humilde time de pessoas que acharam 2005 um ano supimpa (está bem, está bem, eu também vi a merda, e senti o cheiro, e registrei, e publiquei, e até pisei um pouco em cima do pedaço que me cabia!). Apesar dos mortos e feridos, no entanto, respingaram coisas boas em mim e nos que me cercam. Foi bacana demais.

Agradeço em silêncio, debaixo do edredom, e agradeço também enquanto caminho pela praia (o mar tem essa cara de quem tem algo com isso; vai ver ele nem sabe de nada, mas, na dúvida, sou francamente grata).

Volta e meia até acendo uma vela.

Como já disse, é claro que eu também vi a merda. E a fedentina chegou a me embriagar um bocado. Visitei mais médicos do que pretendia. Briguei com quem não merecia. Paguei mais impostos do que minha razão pudesse compreender. Rompi e fiz as pazes com a terapia umas dez vezes. Xinguei meus defeitos, subestimei virtudes, cantei vitórias que não cheguei a ter, fiz planos que sequer tentei realizar, outros que realizei pela metade, e outros que – putz, foi quaaaaase!

Os “quase” se acotovelam no balcão me pedindo para passar na frente dos demais projetos. (Alegam já ter a senha, ou algo assim).

Esse ano tem eleições e copa do mundo, estão dizendo que a merda pode virar - para melhor. Não sei de previsões, mas sigo muito grata e confiante, mesmo sem saber direito qual é a melhor direção para se navegar neste momento.

Assim, por partes: primeiro os remos, depois os rumos e os rimos.

01 janeiro 2006

Ano Novo


Virei o ano com a família, na praia do Recreio. Pessoas de branco pulando sete ondinhas, pescoço dolorido de procurar os fogos no céu, beijos e abraços, ops, alguém mijando no muro, garotos bêbados, moças salientes, saias coloridas, isopor, pulseiras, flores, sandálias, juras de amor, planos, promessas, enfim, resumindo, um brinde triplo para este ano:

Tim-tim (saúde)
Din-din (entrando)
Tum-tum (batendo)

FELIZ ANO NOVO!!!

28 dezembro 2005

Vinícius


Fui ver o filme sobre o Vinícius de Moraes. Bons momentos, ótimas músicas, depoimentos impagáveis (meus derramados destaques para Chico Buarque e Ferreira Gullar, dois galãs!).

Sobre os momentos-de-poesia, prefiro mil vezes a Bethânia lendo os versos – e se engasgando com o próprio nó na garganta – aos atores (no caso, Camila Morgado e Ricardo Blat) declamando e tentando, a todo custo, dar nó na garganta dos outros. Na minha, não rolou.

No mais, alguns elementos que eu não entendi por que estavam ali, e outros que não entendi por que não estavam. Mas isso sempre tem.

Acho que vale o precinho.


Filosofia de vida corporativa(sorry, não sei o autor)

“Se você está trabalhando e sorrindo, é porque já descobriu em quem colocar a culpa”.

27 dezembro 2005

Planos, planos

Ah, estou mergulhada em planos. 2006 vai ser o ano, não vai?


Contagem regressiva

Faltam 5 dias para o ano novo. Eu vou passar aqui mesmo, pelas vizinhanças.
E vocês?

24 dezembro 2005

E o peru, onde vai?


Não responda. Ninguém sabe. O peru é uma coisa fadada a encalhar na ceia, a verdade é dura: ninguém gosta de peru. Por quê? Ele é duro, ué.

Nunca vi bicho para morrer seco e duro como o peru. Mas é tradicional, Natal tem que ter peru, para... enfeitar a mesa. Ninguém come. É assim porque é assado, acabou-se.

Na minha família, todo mundo começa a discutir o cardápio do Natal uma semana antes, só porque não tem outro jeito.

- Alguma coisa a gente tem que fazer, né – alguém comenta, coçando o queixo, como quem diz que é inevitável.

- É... coisinha simples. Só para não passar em branco.

Cada um sugere uma bobagem, podia ser algo diferente esse ano, uns belisquetes, uma mesa bem colorida (a gente come é com os olhos, não é mesmo?), o importante é estarmos juntos, hoje em dia vendem tanta coisa pronta...

- E o peru?

Silêncio.

- Tem que ter peru. Senão não é Natal.

Sempre tem uma voz que pronuncia a sentença, trazendo à tona o peru que todo mundo fingia esquecer. Mas, como é Natal, não pega bem recriminar o chato que se lembrou – e nos lembrou! – do triste bicho seco.

- Poxa, gente. Senão não é Natal.

Ai, todo chato redunda. Que venha o peru, pois.

Acaba entrando como astro da noite, mas não tem saída alguma. Encalha. Os chamados “acompanhamentos” vão sendo bicados, aos poucos, pelos comensais que fazem a típica cara de “vou começar por aqui”, e terminam também por ali. O peru vai ficando.

O máximo que vi levarem foi uma perna - e o peru perneta, no final da noite, é ainda mais patético.

Secretamente, todos culpam o sem-mãe que tocou no assunto do peru. Boa oportunidade de ficar quieto. Engolisse o peru, guardasse para si! Na certa é quem mais está se entupindo de salpicão, e ainda vai roubar a rodela de abacaxi que eu vi primeiro...

Mas ninguém fala nada, porque é Natal. A ceia some e o peru persiste, intacto, vitorioso. Ano que vem ele aparece de novo, como se nem tivesse pego vento, só para confirmar que é Natal.

Tenho para mim que é sempre o mesmo bicho.

FELIZ NATAL!

21 dezembro 2005

De volta

Fui conhecer Madrid e Paris, e cheguei no Brasil hoje! estou cheia de coisas legais para contar, mas também com muito trabalho e uma pá de burocracia acumulada.

Fora o con-fuso horário no cuco (e na cuca).

Beijos tontos, volto já.

03 dezembro 2005

Viventes, acordantes e dormentes,

estou saindo de viagem e só volto no final de dezembro. Se conseguir meios, prometo vir aqui revelar os fins.

Beijos graúdos desta fujona,

Bíbi Da Pieve
Mofei no shopping

Aqui chove aos cântaros. E, quando chove, a cidade literalmente empaca.

Pois empacada fiquei eu, esperando um táxi no shopping do fim do mundo, exatamente UMA HORA. Isso que tinha pedido por telefone!

Além de mim, uma família de mulheres estabanadas e esparramadas aguardava a sorte de um carro amarelo. Que divertido.

Quando, enfim, tive o privilégio de embarcar no táxi, mais surpresinha: no meio do caminho, o pára-brisa do carro virou “do avesso” (não sei como aconteceu, mas aconteceu!), e deu uma porrada no vidro – que me deixou grudada no capô, de susto.

O motorista – cheio de “hehe” – parou num posto e arrancou o aparelho, praticamente com as unhas (“hehe, desculpe senhora”). Fomos embora com o pára-brisa metade limpo, metade molhado. E todo arranhado (“hehe, isso acontece”).

Tá bom pra você?

Se ele palitasse os dentes com aquele ferro eu não levantaria nem meia sobrancelha de surpresa. Vivendo e aprendendo.

29 novembro 2005

Web log

Você sabia que eu não sabia que a palavra “blog” vem de “web log” (que significa registro na rede)? Putz...


Mundo Pequeno

Estou praticamente viciada em blogs de brasileiros que moram no exterior. Tem uma página - chamada Mundo Pequeno - que reúne dezenas deles. Textos interessantes, engraçados, curiosos; fotos lindas, amadoras, comoventes; comentários consistentes, opiniões sem pé nem cabeça, relatos sobre passeios, compras, comidas e bebidas... enfim, o mundo é pequeno, mas cabe de um tudo nele.


Figurinhas

Tô achando meu blog fraquíssimo de figurinhas. Todos os outros têm mais figurinhas que o meu. Como a inveja é uma merda, aqui vai uma foto que eu tirei de um projeto/matéria muito bacana que O Globo está fazendo sobre os 100 anos da Av. Rio Branco (Centro do Rio). Lá tem um fotolog feito de fotos enviadas por leitores.

Esta é uma vista aérea da Praça Mauá e da zona portuária (por Daniel R. Carneiro).



Ciúmes

Ele: Te contar um segredinho: o mundo não vê isso tudo que você vê em mim, sabia?
Ela: O mundo eu sei que não. Mas A MUNDA VÊ!

Hoho.

23 novembro 2005

Buenas!

Estou escrevendo muito, para depois poder tirar umas “férias”. Entre um escrito e outro, é bom vir aqui bater papo com vocês. (Papo escrito, hoho).

Fui ali almoçar no restaurante a quilo, e encontrei o dono da padaria. Gosto disso: vida de bairro. Está cada vez menos difícil fazer as coisas sem carro no Recreio. Até abriu um café aqui perto, mas ainda não experimentei. Se tiver bolo de aipim, viro freguesa.


Passa rápido

- Veja só, novembro já está terminando...
- Hein?? Como está terminando, se ainda nem começou???

Aaai, meus cabelos!


Velas

Ah, novembro é mês de envelhecer e eu fico monotemática como uma velha engasgada. Sempre tive fascínio pelo passar do tempo. Acho que o assunto é misterioso e encantador: você não vê o tempo passando, mas confere seus efeitos. Queira ou não.

Por isso, cada vez mais, gosto da sensação de me deslocar no espaço. Caminhar, andar de carro, de bicicleta, sentir o vento balançar os cabelos. A estrada é uma maneira confortável de se sentir “operando” o tempo. Cruzar fronteiras é cruzar ponteiros.

22 novembro 2005

Então não tô dizendo?

Semana passada, uma família de Realengo foi posta a correr (de susto) por um invasor inusitado: jacaré entrou na casa, assim, sem bater.

Deus-que-me-livre-duma-dessas. Já chega eu ter encontrado um, perto da praia,outro dia. De duas coisas quero distância: olho gordo e boca grande. É do que menos preciso no momento.


Celebridade 1

Estou escolhendo latas de atum no supermercado, quem eu vejo? Zeca Pagodinho. Sorridente, conversando com quem passasse e puxasse assunto. Maior simpatia.


Celebridade 2

Em São Paulo, semana passada, no caixa do estacionamento do Iguatemi: Otávio Mesquita. Usava óculos escuros maiores que o rosto, mas girava o pescoço e sorria em 360 graus. Outra simpatia.

Praticamente ao lado, entra um “bonitão” (estilo mamãe-sou-forte) e deixa uma Ferrari na mão do manobrista. Passa com o nariz cutucando o teto.

Tenho a mínima idéia de quem seja. Levava o maior jeito de ser ninguém.


Meu aniversário

Não consigo deixar de perder o entusiasmo por esta época do ano. O mês de novembro entra angustiante, é verdade (deve ser o tal inferno astral). Mas, passado o dia 20, começo a respirar aliviada e fico toda alegrinha outra vez. Obaaaa, let’s apagar velas!

Ontem me ligaram da loja onde comprei minha colcha: ganho 20% de desconto em qualquer produto este mês. Vou lá gastar um pouco, que ninguém é de ferro.

Já que parar o tempo não posso, pelo menos envelheço em bons lençóis. Hoho.


Dia do músico

Oba, hoje é dia do músico!
Parabéns aos verdadeiros.
Aos de mentirinha, meus sinceros votos de profundo e prolongado SILÊNCIO.

16 novembro 2005

Milho verde, jacaré e moita


Cariocas cansaram das chuvas (eu estava adorando, confesso), e chegou o sol. De brinde, deu dia lindão no feriado ontem.

Gaúcha aqui teve a idéia de jerico (sou mestra) de ir caminhar na praia BEM na hora do regresso dos banhistas, à tardinha, quando o sol está indo embora e o povo idem – menos a gaúcha branquela, claro, que sai às 6h da tarde com protetor 30 e ainda espreme os olhinhos.

Pois bem. A praia era a sucursal do inferno, e as adjacências estavam absurdamente engarrafadas. Não havia para onde fugir. No calçadão era criança de patins, mãe irritada, pai bêbado, milho-verde rolando no chão e servindo de bola para o futebol atrapalhado dos adolescentes – ah, quantos gambitos tive vontade de chutar!

A ciclovia era invadida por motos, claro.

Nos carros parados, funk no último. (Popozudas não fariam falta alguma, não sei por que escolhem o fofo do urso panda em vez delas...)

Falar em extinção, no canal da lagoa (aquela imundície, como fede!), sobre a pontezinha de madeira apodrecida, uma dúzia de curiosos “admiravam” um banhista tímido: jacaré. Ai, meus sais, aonde vim parar??

Ainda na beira da praia, cansei de desviar dos cocos e dos milhos, e atravessei a rua. Quando pensei que tinha me dado bem, a cena me surpreende: um filho da mãe mijando na árvore. Me deu um susto imenso – embora, a bem da verdade, o “susto” dele nem fosse para tanto.

- Por uma mera questão de proporção, se eu fosse você, mijava numa moita. Ficava menos feio.

(Por que essas coisas não me ocorrem na hora?)

10 novembro 2005

Retrospectiva


Passou finados,
é isto:

outubro
setembro
agosto
julho
junho
maio
abril
março
fevereiro
janeiro

O cotidiano
visto assim,
pelo avesso,
é muito mais
espesso.
Poesia


Ao abrirem as cortinas, o público estava eufórico: ávido pela doce fumaça que lamberia as luzes coloridas piscantes que enfeitariam o chão do palco que abrigaria premiados atores-cantores que entoariam canções lendárias cujos finais parecessem ter sido feitos – e foram mesmo – para provocar um ataque de choro compulsivo coletivo capaz de lavar as almas dos mortais presentes, bem como de seus parentes, e dos ausentes, e (aproveitando) também dos parentes dos ausentes.

Bem, deu-se nada disso.

Veio só o preto no branco: texto dito por um poeta desconhecido, calvo, de estatura mediana, sapato meio gasto, oriundo (o poeta, não o sapato) não se sabia do interior de que parte, importado (o sapato, não o poeta) certamente do raio que o partisse.

Ninguém chorou um pingo. Mas, naquela noite, foram todos (mais ou menos) até a lua – e, olha, alguns até voltaram.

Ou seja: a poesia é uma espécie de “atalho” que a gente cria para andar mais. Daí o sapato gasto.

08 novembro 2005

Papo no Pilates


- Minha filha foi convidada para a festa de aniversário de uma amiguinha, e eu estou chocada.
- Por quê?
- A festa é na suíte de um motel. Precisava ver o convite. Cada pessoa paga R$ 40,00. Vão passar a noite num motel. Meu Deus! Motel!

Os comentários que se seguiram foram os mais variados:

- É, tua filha foi escalada para um bacanal. Como são as coisas. A gente cria os bichinhos com todo carinho...

- É nada! Isso é supernormal hoje em dia. Tá na moda! Vocês estão sendo preconceituosas. Saiu até reportagem no Globo.

- E daí?? Sair no Globo é garantia que não tem sacanagem?? Pois eu acho que é muito pelo contrário!

- “Hoje é festa lá no meu apê...” Hihi, essa garotada...

- Se eu fosse você, não deixava ir. Quanto anos ela tem? 21 é muito novinha! Tranca em casa.

- Eu não me abaixava para pegar guardanapo que caísse no chão...

- Acho que eles nem dão guardanapo nessa festa. Vai fazer o que com guardanapo?

- Será que tem comida, pelo menos?

- Você diz, comida, de comer? Ou...

- Brigadeiro, cajuzinho, risólis!

- Cachorro-quente...

- Salsicha, vai ter! Quá quá quá!!!


E a pobre mãe, que entrou na aula apavorada, saiu de lá em perfeito pânico.

04 novembro 2005

Barco


Hoje eu acordei um pouco melhorzinha e fui, saltitante, ler o horóscopo no jornal. Sim, eu leio horóscopo. Mas só acredito no que me convém.

Pois ali dizia, creia você se quiser, que é melhor a sagitariana estar atenta: “às vezes, só se percebe que o barco está afundando quando já está entrando muita água”. Assim, na lata.

P***quepariu. Só pode ser perseguição.

Não dava para me rogar uma praguinha menos resfriada, não? Água?

AAAATCHIM!!!

***

Vozes de família


É interessante como, nas famílias, algumas pessoas têm um timbre de voz semelhante – às vezes, confunde-se ao telefone.

Na minha, por exemplo. Minha mãe e eu temos vozes parecidas. Outro dia, quando estava no RS, tive uma longa conversa por telefone com meu tio. Marcamos um churrasco. E ele ia se despedindo:

- Então tá, Aninha, nos vemos no sábado...

Achou que tinha combinado tudo com a minha mãe.

Como tenho um timbre mais grave, muitas vezes também me confundem com o meu irmão. Tem uma casa de sanduíches aqui perto, onde fazemos pedidos freqüentes – a atendente acha que é sempre a mesma pessoa.

Eu: Boa tarde, eu queria fazer um pedido.
Ela: Oi, Seu Adalberto! Tudo bem? Vai o de frango ou o de tomate seco, hoje?
Eu: O de tomate seco.

Eu sempre peço o de tomate seco. Meu irmão sempre pede o de frango. E a moça jura que o Seu Adalberto alterna.

Quando a confusão é com o meu irmão, é ainda mais divertido. As pessoas ficam sem jeito.

Um dia ligou um amigo dele, e já atacou com essas brincadeiras que homem faz. Atendi:

- Alô?
- Faaaaaaaaala, bundão!!!!
- ...
- Que é, não tá reconhecendo a minha voz??
- Bom... na verdade eu...
- Vai ficar de viadagem, é?
- Viadagem, não... É que eu sou a irmã dele.

Longo silêncio constrangido do outro lado. Confundi a moça com homem, chamei de bundão e viado, e ainda dei um atestado de babaca.

- Não te preocupa, isso acontece toda hora...
- Ai, me perdoa...

Como é bom ver um rapaz constrangido, hoho.

Também já atendi namorada que me chamou de apelidos... fofos. Colegas de trabalho. Músicos, produtores, contratantes. A filha dele!

- Alô?
- Oooooi, paaai!!
- Pai é a #!*@()$¨)_#!@#¨&*(()*!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ah, não. Pai já é demais, concorda?

03 novembro 2005

Me pegou


Agora eu tenho certeza que estou gripada. Porque minha voz soa como um violoncelo desafinado, tocado por um sujeito sem talento que sofre de tendinite crônica. Ah, cuja mãe chega tarde da noite em casa... sem razoável explicação.

Bom, tô p***.

02 novembro 2005

Gripe

Acho que estou gripada, mas não tenho certeza. Aliás, nunca tenho certeza da gripe, a não ser que ela esteja explodindo. Por isso, fico meio assim de tomar antigripais: estaria assumindo que estou com gripe. Tudo vai do psicológico.

Esses antigripais, a propósito, deixam a gente derrubada e imprestável. E eu prefiro ficar derrubada e imprestável na saúde, se é que me entende. Você não prestar para nada por opção é muito melhor do que não prestar para nada por falta de. O ócio é maravilhoso, mas a gente tem que poder puxar a cordinha e saltar na rua, se der na telha.

Eu gosto muito de enxergar a cordinha, nem que seja só para esnobá-la e continuar aboletada na poltrona. Dando tchauzinho pro vento.


Tato de terapeuta

E ela me tranqüilizou:

- Não, querida, claro que não. Nesse caso, você seria uma esquizofrênica completa. Mas posso te tranqüilizar: és apenas uma neurótica supercomum, desse tipo mais vagabundo que existe aos montes por aí.
- Desculpe, mas vagabunda é a senhora.
- Olha aí, não tô dizendo?


e-volução (por falar nisso)

Antes, tínhamos que guardar as coisas na cabeça. Hoje, guardamos tudo nos arquivos, e perdemos a cabeça quando eles dão pau – ou seja, toda hora.

Antes, éramos apenas neuróticos. Hoje, graças à tecnologia, temos fortes motivos.


Constrangedor

Eu estava caminhando e passou uma van cheia de estudantes. Um menino na janela fez BÚÚÚ!!!, e me deu o maior susto. Botei a língua para ele e fiz “nhéééé, seu retardado sem mãe!” (disse bem baixinho, claro).

Mas um sujeito vinha de bicicleta atrás de mim e viu/ouviu meu papelão. Afff! Pior coisa de falar sozinha é quando você está acompanhada e não sabe.

20 outubro 2005

Colo


Os filmes na estante em desordem alfabética, a janela sem cortinas filtrando raios intensos do dia que já se acabou, os cabelos esparramados em lisos cachos de um louro meio azul, meio carvão, a televisão chiando (em silêncio) repetições inéditas e velhos anúncios de lançamentos sem previsão de estréia – todo caos é uma questão de ângulo.

Um giro de 90 graus à direita - as orelhas paralelas ao teto, o horizonte perpendicular à razão. Bochecha esmagada em jeans.

Deitada no colo dele: foi assim que ela corrigiu o mundo.

11 outubro 2005

Futuro


Ameaça chover. Jantarzinho de última hora com uns amigos. Ei, essas pessoas que inventam de um tudo: quando é que vão inventar uma pílula que você toma, espera uns 20 minutinhos, e as unhas aparecem feitas?

Comprimidinho vermelho para unhas vermelhas. Comprimidinho café para unhas café. Comprimidinho chocolate para unhas chocolate...

Esse último podia vir com gostinho.

E diet, please.


Dia dos fedelhos

Amanhã é feriado - as ruas, as praias e os shoppings estarão lotados de diabinhos cheios de vontades esperneando gritando batendo pé exigindo sorvetes balas doces Mac’comidas sintéticas cama-elástica pula-pula escorregador laptop da Barbie e do Homem-Aranha mamãe eu quero eu quero eu quero eu quero ficar em casa Deus me livre sair na rua ou almoçar em algum restaurante e levar de brinde um nugget com maionese no meio da testa tô fora.

06 outubro 2005

Erro de gênero


Quando pequena, eu imaginava que meu sobrenome continha um erro de gênero. Em vez de Da Pieve, deveria ser Do Pieve – afinal, Pieve é como todo mundo chama meu pai, que é muito homem. Não entendia o Da. E mais: achava, por conclusão infantil, simplista e doce, que os sobrenomes de todas as pessoas serviam para isto - dizer de quem elas eram.

Assim, um Maurício que fosse filho de um Lopes se chamaria Maurício Do Lopes, e uma Beatriz que fosse filha de um Antunes, Beatriz Do Antunes.

Mas e as mães? Não seriam igualmente proprietárias?

Minha mãe se chama Aninha. E não é que ficaria interessante – Bíbi D’aninha?


Deutschland


E me vem à memória um episódio de infância. Tinha 10 anos, fiz uma viagem à Alemanha com um grupo de 30 colegas e uma professora de música. Minha melhor amiga foi junto, e passamos o primeiro semestre (que precedeu a viagem) fazendo planos - que delícia ia ser aquilo, viver um mês longe dos pais, morando juntas, como faziam as americanas superadultas que iam para a faculdade.

Já no vôo de ida, quebramos o pau. Terminamos aquela amizade de uma vida inteira, ou seja, dois anos. (Dois anos, naquele tempo, valiam muito mais do que valem hoje. O câmbio do tempo é implacável).

Cheguei na Alemanha com dor de cabeça, confusa do fuso, enjoada do estômago, exausta do vôo e da briga com minha ex-melhor-amiga. Pior de tudo: ia ter que dividir o quarto com aquela inimiga mortal por longos 30 dias, já que tudo estava marcado e não tinha volta. Troço desgastante.

No primeiro dia, fomos dar um lindo passeio pela cidade. Impliquei com ela o quanto pude, e ela não revidava, ou porque era mais sensata, ou vai ver que tinha poderes para prever o que eu não conseguia. Lá pelas tantas, não se agüentou e veio me arrancar os cabelos, isso em pleno solo europeu.

A maioria da turma incentivava, outra parte tentava apartar, e a professora se viu desesperada. Os alemães comportados se horrorizavam com a algazarra brasileira, Deus que me perdoe, só de lembrar me arrepio. Gritaria, balbúrdia, gargalhadas altas. Coitada da tia Fulana, uma senhora tão boazinha.

Depois de nos embolarmos no chão – a Alemanha é ótima para isso, porque os carros param na faixa de pedestres -, aos puxões das tranças e bofetões nas orelhas, além das mordidas em casos extremos (há alguma ética nisso tudo, tá pensando o quê?), por final respingamos, uma para cada lado, não sei se por cansaço ou porque o momento implorava uma pausa. Artisticamente, eu digo.

Era a deixa para a única pessoa adulta impor alguma ordem, usando de princípio mais sóbrio, afinal. Deu nem cinco segundos, senti a sóbria mão da tia Fulana pinçando minha orelha esquerda e puxando como quem vai pendurar num varal. O mesmo ela fez com aquela traíra mirim - que me insultava ainda mais, agora ferida e humilhada gravemente diante das outras crianças.

E fomos nos arrastando, conforme as orelhas apontassem o caminho, sei lá por quantas esquinas daquele velho mundo cruel.

Claro que fizemos as pazes em dois tempos, mas aí já era tarde: sofremos as devidas punições. Passamos o dia seguinte enfurnadas numa saleta de fundos, concentradas na árdua tarefa de escolher duas enormes bacias de feijão. No próximo almoço, sairia uma típica feijoada brasileira, para apreciação dos simpáticos alemães que nos hospedavam.

Acho que eles nunca comeram tanta pedra na vida.

05 outubro 2005

Estiagem


Adoro o “almoço executivo” de um restaurante japonês aqui perto. Baratinho, rápido e caprichado. Faço uma cara de cão sem dono (no caso, cã), e ainda faturo uma entrada de sashimi com salsinha e gergelim – afinal, não se deixa uma moça sozinha esperando comida. Hoho, eu e minhas tranças.

- Aqui, dona, um passatempo pr’ocê...

Outra coisa valiosa é ouvir conversa de garçom. Sai cada uma.

- Mulher só dá trabalho. E tem mais, começa já na primeira olhada. Se a beleza resolve olhar pra você, sei lá por que diabo, sendo que está acompanhada pelo namorado, é encrenca. Pode escrever que o corno é forte e vem tomar satisfação.

E o outro:

- É por isso que eu já começo a selecionar na olhada. Não é qualquer mulher que pode me olhar, não.

Olhei pra ele (curiosa).

- Só deixo me olhar se for bonita e rica.

Olhei de novo. Baixinho, atarracado, meio sem queixo, cabelo espetado. Como é?

- Só se for as duas coisas: bonita E rica. Só uma não serve.

É, vai bem chover na horta dele. Galã desse jeito.

04 outubro 2005

Estímulo


- Que coisa. Não é estranho receber um cartão com validade de 06/2008? Parece tão longe...

E meu irmão:

- Não é. 2008 chega rápido.
- Pensa bem! Dois mil e OI-TO!
- Chega rápido.
- Tá, pode ser... mesmo assim, será que até lá esse cartão não vai estar todo escangalhado?
- Nada, esse troço é resistente (dando uns petelecos no cartão).
Pausa. Refletiu um pouco.
- Tu vais chegar mais escangalhada que ele... hihi.

Botoques, rápido.

03 outubro 2005

Tecla “mute”

Tô te volta à terra dos merrmão. Gostei. Fui recebida com um lindo dia de sol. No táxi (Band News FM), já fiquei sabendo que o Garotinho vai fazer uma cirurgia nas cordas vocais e vai ter que ficar 10 dias calado.

Oba, cheguei em boa hora.


Não sei puxar assunto com taxista

Falar em calado, muda eu estava quando entrei no carro, muda permaneci o trajeto inteiro. Não adianta, não sei puxar assunto com motorista de táxi. E olha que adoraria. Fico imaginando palavras, inventando frases e deletando mentalmente em seguida. Fiasco. Direita, esquerda, atrás daquele Corsa - isso não conta, né? Zero a zero.


Pizza

Essa nem eu acreditei, mas é verdade. Uma noite, estávamos cansados e resolvemos pedir a melhor pizza da cidade (que eu já conhecia, mas não tinha o número da tele-entrega). Pedimos uma ajuda ao rapaz do hotel. Não sabia. Ligamos 102. Não havia. Achamos um catálogo telefônico na mesinha de cabeceira, oba!

Procuramos em “pizzarias” – mas cadê a página? Tinha sido arrancada.

Pensamos que algum hóspede mal educado tinha arrancado a página de pizzarias do catálogo. Por sorte, havia outro. Qual não foi nossa surpresa quando verificamos que também a outra lista tinha sido desfalcada da página das pizzarias!

Moral da história: como o hotel também fornece pizzas, deu-se ao trabalho de arrancar as páginas de pizzarias de todos os catálogos telefônicos de todos os apartamentos. Para que nenhum hóspede faminto caísse na tentação da melhor pizza da cidade (que certamente não é a deles).

Que barbaridade!

24 setembro 2005

Fôlego

Ando de saco cheio dessas pessoas. Que falam assim. Muito pausadamente. De duas, uma. Ou elas acham. Que a gente vai entender melhor. O que elas dizem. Ou lhes anda faltando. É fôlego mesmo.

Yoga nelas.


Gerações

Ele me pediu uma mãozinha no micro.

- Pai, já desinstalei o Yahoo Messenger...
- Beleza, filha! Assim que puder, desatarraxa o resto.


Ciber-cão de guarda

Sem noção esse cachorrinho vigiando a gente aqui no Word, né?
Vai me ensinar a escrever, Totó?

“Ocultar”, please.

(E Totó finge de morto).


XIS coração

Acho que eu devo registrar aqui que acabo de comer um XIS coração maravilhoso, como nos meus sonhos. (Quem acompanha o blog vai entender).

Agora, sim, sinto que cheguei nos pampas.


e-fofoca

Nunca vi terra mais fértil que a Internet para uma boa fofoca.

As pessoas “esbarram”, acidentalmente, no perfil dos outros no Orkut, e vão deslizando pelos recadinhos alheios, e derrapam nos álbuns de fotos, e comentam, sem querer, e dão uma espiadinha aqui e ali, por engano, e já que estão ali, fuçam mais um pouquinho, abrem um arquivo, por via das dúvidas, quem sabe, de repente, ops!

O mouse é a nova versão da mão-boba. Cuidado, você.

22 setembro 2005

Vim ver minha família na minha cidade. Morreu uma tia superjovem. Mencionei o caso aqui há um tempo, quando ela ainda estava doente: câncer no útero. Lutou o que conseguiu.

Pensei se escrevia aqui sobre isso, ou não...

Ninguém sabe o que dizer numa hora dessas. E nem adianta, porque a morte é uma mão muda e surda que simplesmente leva embora; não negocia. Olhando a morte assim de perto, fica uma certa impressão de que as coisas da vida (TODAS) são muito mais negociáveis do que supõe a nossa pobre consciência. Questões de jogo, equilíbrio, balanço, adaptação: são coisas da vida. Vai-e-vem. Ondas.

E ela foi cremada e quis ser jogada no mar.

15 setembro 2005

Enfim, alguém que me entende
(ah, colegas de zodíaco...)


“E porque eu não posso comer nada* minha geladeira só tem frutas e legumes. E as crianças sofrendo por um chocolate.

*Sou um pouco rebelde porque sou sagitariana. Então sábado eu tomei quatro chopes e comi um monte de pedaços de uma pizza que chegou navegando na gordura. Tudo tem um limite, afinal. Morri? Não. Então pronto.”



Comentário Geral - TVE


Para quem quiser me ver na telinha: dia 29 próximo, às 21h, vai ao ar o Comentário Geral, na TVE.

Gravei um depoimento sobre o livro da Lya Luft “Reunião de Família”. Depois eu lembro vocês de novo.


Propaganda

Quero
sua risada mais gostosa
esse seu jeito de achar
que a vida pode ser maravilhosa

(Tem uma propaganda com essa música na TV. Alguns clichês, quando bem posicionados, têm a capacidade de nos dar nós na garganta. Water, please.)

13 setembro 2005

Amnésia




Você já viu Amnésia?
(Não vale dizer que viu, mas esqueceu...)

O filme é de 2001, mas eu só assisti agora. Depois do assassinato da sua mulher, Leonard (Guy Pearce) passa a sofrer de amnésia recente, e vai tatuando o corpo com anotações – referências que o ajudam a se situar no presente.

O roteiro é muito bem construído, os atores estão ótimos, o suspense é intrigante e mantém o espectador de olhos grudados do início ao fim. Filmaço.
Bronca de pai


- Tu não vais mais atualizar aquele teu blog?
- Pô, pai, tô na maior correria, e...
- Só tem aquele do detergente econômico, já faz um tempão!
- Eu sei, desculpe, é que estou escrevendo outras coisas... Imagina que...
- Tá, tá. Mas escreve no blog também. Assim não dá. Passo lá todo santo dia, várias vezes por dia, e o texto não muda!

Engraçado ele dizendo “passo lá todo santo dia”, como se fosse mesmo um lugar – físico.

Pouco tempo atrás, por mais que mirasse, não acertava uma @ no alvo.

01 setembro 2005

Econômico MESMO!


Comprei um detergente em gel, desses cujo rótulo promete: “muito mais econômico!”

Comecei a usar. Hoje vi que, no fundo do frasco, diz assim: “Usar até: 07/2008”.

Nossa. Põe econômico nisso.
Hoho.


Publicidade na internet


Um site de vendas inventou uma mega-ultra-hiper-liquidação para o mês de agosto, e chamou de “Cachorro Louco”.

Até aí, tudo bem. Nada além de falta de originalidade.

Acabando o mês, eles mandam para os clientes um e-mail com o título: “quem perde o Cachorro Louco fica com raiva”.

Pára, aí já é mau gosto mesmo.


Sabedoria da Radical Chic


"Adoro quando os feirantes, os porteiros e os pedreiros do meu bairro me
chamam de gostosa. É a comunidade solidária!"
Quando eu estive em PQP


Eu tive um sonho assim esquisito: estava indo para Nova York quando, de repente, a minha parte do avião (?) se perdeu do resto (?). E foi parar num lugar para lá de estranho, que eu não tinha a mínima idéia de onde era.

Chegando a esse destino inusitado – que, para fins didáticos, passarei a chamar de “PQP” -, descubro que ninguém lá fala a minha língua. Tampouco inglês. Tampouco alemão. Tampouco espanhol. Tampouco francês. Espanhol já disse? Enfim, ninguém em PQP fala língua alguma que se possa, digamos, tirar de ouvido.

Apavorada, entro num restaurante (a comida PQPnesa eu nem tive chance de provar, sinto muito), e começo a perguntar a todo mundo:

- Do you speak english? Do you speak english?

Necas. Ninguém speak english em PQP. Resolvo reclamar em bom português:

- Puta que me pariu, ninguém fala inglês nesta bodega??!!

Foi quando uma senhora portuguesa me ouviu, entendeu e acudiu. Explicou que eu estava mesmo muuuuuito longe de Nova York, e me indicou o caminho até o aeroporto mais próximo. Que, aliás, também era longe para dedéu. (Como eu havia chegado a PQP a bordo de um “pedaço” de avião - que se despencara do resto do bicho original -, não tinha nem pousado em aeroporto algum. Aterrissei foi no meio da rua mesmo. Em PQP, você sabe, rola de tudo.)

Com dificuldade, andei até o aeroporto. Cheguei esbaforida, e expliquei (?), com gestos (?), a minha triste história. Que eu tinha porque tinha que ir a Nova York, e que me arrumassem um vôo, era tudo que eu pedia, pelo amor de Deus.

PQP, enfim consegui!

Voei até NY (de avião inteiro, que sucesso).

Quando entro no saguão do aeroporto, surpresinha: PQP, esqueci TODOS os meus dólares em PQP! Não tinha dinheiro nem para uma bolacha. Nem uma coca light. Nem o táxi.

7:30 da matina, o porteiro me acorda aqui com o interfone. Levanto meio tonta, assustada, e atendo.

- PQP, alouuuu!!!
- Dona Bíbi, seu táxi chegou.
- PQP! Não pedi táxi nenhum!!!
- Ah, desculpe, então foi engano.

Então é isto. O problema de ir a PQP é que chegar é fácil - qualquer pedaço de avião voa até lá.

Agora, vá tentar sair.

31 agosto 2005

Inverno rigoroso aqui no Rio. Rigorosos picos de 37 graus oficiais (44 nas ruas), e a mufa queima sem – conseguir - pensar. Cruz credo.

Ganhei de presente um ventilador de teto. Mandei colocar persianas na sala, mas ainda não chegaram. Minha vontade é fechar tudo e tacar logo um ar condicionado, mas e a conta de luz?

--

“Que ninguém se engane: só consigo a simplicidade através de muito trabalho”.
Clarice Lispector

26 agosto 2005

O bebê


Uma colega nossa vive contando histórias sobre o seu bebê. Mas não pense que é um filho. Nem um cachorro. Nem o marido. Ganha um doce...?

Eu conto: o “Bebê” é um Buggy amarelo ovo, com uma lista vermelha no meio. “Mostarda com ketchup!” – ela avisa.

Um dia ela chegou arrasada:

- Botei o bebê à venda!!!

Quem não sabia ficou apavorado.

Ontem, veio com esta:

- Menina, nem sabe o que o bebê me aprontou ontem. Tava saindo do supermercado, ali pela Av. Gláucio Gil, foi quando me distraí um pouco com um negócio que fui pegar na bolsa... não é que o bebê subiu na calçada??? Que susto!!! Ai, mas xinguei tanto... mas tanto!

É isso mesmo. Ela estava dirigindo, abaixou-se para pegar alguma coisa na bolsa, e tacou o Buggy meio-fio acima. Tomou um susto e ainda saiu xingando o carro.

Risadas gerais.

- Sua doida!! Já pensou se tivesse alguém passando na calçada??? – alguém criticou.

E ela, indignada:

- Tá maluca, é? Pirou? Acha que o bebê ia subir se tivesse alguém?? Eu, hein!?

E ela fala isso séria, ficou ofendida mesmo. Não bate nada bem...

Aliás, não me admira o bebê ter saído à mãe.



Vendedora musical


Vi uma calça jeans na vitrine e entrei na loja. Vazia. No balcão, uma moça muito compenetrada, acredite, arranhava um ré maior num violão meio desafinado.

- Oi – ela me sorriu. – Fica à vontade. Hehe. Tô aprendendo.
- Ok, obrigada...
- Essas calças estão com um preço ótimo... e vestem superbem... PORRA!
- ???
- Hehe, desculpe. É que esse fá me tira do sério! Dói meu dedo! Isso é im-pos-sí-vel de fazer. Simplesmente. Já avisei meu professor. Não dá, pestana não dá.
Não resisti.
- Dá, sim. No início parece impossível mesmo, mas vale a pena praticar. Depois, você vai fazer fácil, fácil.
- Jura?? Você sabe??
Fiz que sim.
- Ai, que tudo.
- ?
- Tudo de bom. Acho tudo! Um dia eu vou tocar direito.
Silêncio. Eu olho as calças. Ela volta ao ré maior.
- Tá meio desafinado, não tá? Você que entende.
- Tá, sim. Quer que eu afine?
- Quero!!!

Afinei o violão pra moça. E acabei não comprando calça nenhuma.

Acho que entendi por que a loja estava vazia...



Melhor frase


A melhor frase que eu li hoje no jornal O Globo foi da Miriam Leitão, em seu “Panorama Econômico”:

“A economia e a política se cruzam novamente elevando a incerteza. De um lado, a economia chega no bom momento da queda dos juros, que vai incentivar o ritmo de atividade. De outro, a crise na política, com seu festival de CPIs e ruídos diários, aproximou-se do ministro que tem sido a mais importante garantia da estabilidade. Insubstituível ninguém é, mas ele é fundamental num governo anêmico como o do presidente Lula.”

(Para quem não lembra: o ministro Palocci, em sua entrevista no último domingo, disse que “ninguém é insubstituível” – ao ser questionado sobre a possibilidade de sua saída do governo).

25 agosto 2005

TOP


Veja as 10 “Top Letras” (mais acessadas) de um site de música vinculado ao Terra. Como diriam os senadores, pela ordem:

1. Ivo Pessoa - Uma Vez Mais
2. Marjorie Estiano - A Fórmula do Amor
3. CPM 22 - Um Minuto para o Fim do Mundo
4. Tati Quebra Barraco - 69 Frango Assado
5. Tati Quebra Barraco - Atola
6. Shakira - La Tortura
7. Kelly Key - Barbie Girl
8. Black Eyed Peas - Don't Lie
9. Bruno e Marrone - Choram as Rosas
10. Akon - Lonely


Agora leia, na íntegra(?), a letra(?) da canção(?) de número 4:

69 frango assa de ladinha agente gosta se tu não ta aguëntando para um poquinho ta ardendo assopra
69 frango assa de ladinha agente gosta se tu não ta aguëntando para um poquinho ta ardendo assopra
ta ardendo assopra
ta ardendo assopra
ta ardendo assopra
fica de joelho
joelho faz um biquinho e chupa minha



Deus.
Textos & Textos

Há os que escrevem por necessidade filosófica.
E há os que escrevem por necessidades fisiológicas.

* desculpe o desabafo. Tenho lido cada m...


Ê, chuvinha...

O dia começa doce. Nada como tomar o café da manhã com a pessoa em questão.
:o)


Passo aqui mais tarde. Vou pilatar.

22 agosto 2005

OFFertas perdíveis

Domingo eu fui ver as modas, e acabei ficando meio deprimida com as vitrines. Vácuo criativo. Já passamos do inverno, e ainda não chegamos ao verão. As promoções OFFerecem o resto do resto do resto do cavalo do bandido. Clima de fim de festa, total.

Tinha sandália encalhada que, de tanto tempo que vejo, já me chamava pelo nome.

Comprei nada, não.



Comoção

Eu sempre via os mais velhos se emocionarem quando fazia um dia lindo, e pensava: ui, coisa de velho! Dias são todos iguais. Manhã, tarde, noite. Mais sol, menos sol. Tá, tanto faz.

Agora é bem feito para mim. Não só me comovo com dia bonito, como também – confesso - já andei parando para olhar passarinho bicar flor no jardim dos outros.

O tanto faz começou a fazer tanto...



Será?

Estacionei no supermercado, e fui às compras. Pus o tíquete no bolso da calça, pensando – “vou acabar perdendo isso”. Não deu outra.

Na saída, há dois guichês. Um deles é mais perto para mim. Nesse, havia uma moça. No mais longe, um rapaz.

Escolhi o do rapaz.

- Oi... puxa, acabo de me dar conta de que perdi o tíquete... (sorriso meigo)... você quer ver os documentos do carro? (sorriso mais meigo ainda).
- Precisa não, moça. Pode passar.

E eu fico pensando: óbvio, homens sempre são mais gentis com mulheres. E depois fico me culpando por não ter ido ao guichê da moça – vai ver ela ia ser ainda mais gentil, e eu é que sou preconceituosa.

Ou não.


Vírus confusos

Agora tem uma onda de vírus que vêm camuflados de cartões virtuais, mensagens misteriosas usando nomes de empresas que existem de verdade, e por aí vai. (Deleto tudo, claro).

Só dessas mensagens mais "pessoais", já recebi um punhado. Já me disseram que estou sendo traído(?) com meu melhor amigo. E que se lembraram de mim com carinho. Que estão com saudades. Que meu CPF não vale mais. E que me amam "com a alma toda".

Ora, decidam-se.

21 agosto 2005

E por falar em saudade


Faz tempo que não escrevo aqui. Tô em falta. Fazendo agora uma horinha gostosa num cyber... vai um café?
:o)

Te contei que estive em Tiradentes? Cidade gostosa mêss! Fiquei impressionada com um restaurante - cujo nome eu adorei: "Tragaluz" -, comida de primeira, um galeto defumado com arroz de não-lembro-o-quê, só sei que tinha uma noz cravada em cima. Delícia. Bom vinho. Bom clima. Velas. Uau.

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E por falar em saudade: São Leopoldo.

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Aqui do meu lado, no cyber, uma menina navega no Orkut. É engraçada essa internet. Na vida real, ninguém puxa assunto com a pessoa ao lado. No virtual, vai ver até que ela é minha amiga de infância.

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Não consigo escrever direito com barulho e gente em volta. Sorry eventuais esbarrões, mãe. Tenho só mais 10 minutos de acesso. Contagem regressiva. O cartão perece rápido.
(Eu disse perece? Coisa mais antiga...)

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09 minutos

Olho daqui um garoto de óculos fuçando livros de turismo na prateleira. Morrendo de curiosidade de saber aonde ele está indo.

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08 minutos

Tem um senhor de óculos na minha frente, usando um computador que fica de costas para o meu. Ele precisa seriamente de alguém que indique como ele deve se vestir - como NÃO deve já está sabendo com precisão. Amarelo-ovo. E esse relógio, hein?

---

07 minutos

Vou sair fora. 06 minutos. Vou postarrápido antesque nãodê maistempo.
Fui!

10 agosto 2005

Seria cômico...


... você sabe.
Olha essa (tirada do blog do vizinho do Roberto Jefferson):

“Bornhausen finge que bate, acm também, marco maciel deve ter emagrecido ainda mais pois desapareceu de vez, pedro simon dá um tapinha que não dói, o garotinho continua pequeno, heloisa helena esperneia para as paredes, frossard pensa no governo do rio e articula com jefferson que está, desde a saída, na forca mesmo.”

09 agosto 2005

Rápidas


O plágio é uma espécie de homenagem que, na hora de se creditar, cretina-se.

**

A melhor poesia da vida
é amar alguém
que vice-verso.

**
Virtua


A conexão não funciona. Ligo para a central do Virtua, e ouço a seguinte mensagem – reparem como é auto-explicativa:

“Bem-vindo à central de atendimento Virtua! Informamos que o acesso está interrompido em algumas regiões da Barra da Tijuc”
(cai a ligação)

05 agosto 2005

Bons dias :o)

Tem feito uns dias lindos, embora um pouco quentes para o meu gosto. Vejo a CPI, e meu instinto sagitariano-otimista quer acreditar que todo mundo ali está a dizer a verdade. Mas aí os dados não conferem.

Asterisco: R. Jefferson pode até estar (AGORA) prestando um grande serviço à nação, mas, pqp, como é canastrão!

***

Pênalti!


Eu estava lendo um negócio sério no Globo On Line. Passo o mouse, sem querer, por uma bola de futebol que está em algum canto, e o que me acontece? Ronaldinho Gaúcho toma conta da tela, com uma &$@#$)&¨# de uma propaganda de imóvel que não quero saber nem onde fica, nem quanto custa, nem nada.

E cadê que eu consigo terminar de ler a notícia?

Quem é que tira o craque da minha área agora, sr. juiz?

Francamente, prestenção! Pro diabo com essa publicidade inconveniente da internet. Pro diabo.

29 julho 2005

Cafezinho


Psiu, cá pra nós. Você não sente, às vezes, no fundo do gole de cafezinho, um leve gosto de cigarro?

Eu sinto. Nunca fui fumante na minha vida, mas sinto. E tenho uma explicação.

Sabe aqueles fumantes que param de fumar, e depois ficam um tempo reclamando que não conseguem tomar café sem ter gana de acender um? Pronto: eu acho que é esse o gosto que eu sinto.

Dos cigarros não fumados dos abstêmios.

Mas não é em todos os cafés, não. Acha que eu sou doida? Calma, é só em alguns...


Padelli


Descobrimos uma pizzaria ma-ra-vi-lho-sa aqui no Recreio – il forno di Padelli. Uma entradinha, sugerida pelo garçom (gentil), já ameaçava o desfecho trágico. De tão bom.

A mozarela de búfala veio se desmanchando, literalmente. Tomate seco e rúcula - não menos frescos, apetitosos. E aquele pãozinho, tipo uma massa de pizza, como se chama mesmo? Chama-se assim: tô perdida.

E a pizza não deixou por menos. Das melhores que já comi aqui no Rio (está bem, a cidade não é exatamente conhecida pelas pizzarias, mas...). Essa é realmente muito boa. Vale a pena. Palavra de gaúcha com descendência italiana!


Tamanho quê??


Cena dos sonhos: chego numa loja, vejo uma blusa linda e pergunto se tem de vários tamanhos. A moça:

- Acho que, para você, tem que ser a “P”...

Minha frase imediata:

- Já disse hoje que te amo??

Mas acabei não dizendo nada. Hehe. Mentiras sinceras me interessam.


3 frases do meu irmão


Meu irmão tem umas frases ótimas. Algumas são dele mesmo. Outras, citações. Mas ninguém citaria com tamanha propriedade. Isso já nem é mais citação: é pirataria.

1. “Tem dia que, de noite...” (com cara de preocupação)

2. “Hoje em dia, com a internet...” (essa vale para absolutamente tudo. Qualquer coisa que cause espanto, uma notícia no jornal, um banco quebrado na praça - lá vem a explicação-consolo: é... hoje em dia, com a internet...)

3. “Foi o que eu disse!!!” (quando ele acabou de dizer exatamente o contrário)

27 julho 2005

O mundo é dos vivos
O mundo é dos bancos
E os bancos dos mendigos

O mundo é de loucos
Que mundos não têm dono
E só somos vencidos pelo sono

O mundo é do novo
E o novo dos antigos
O mundo é quem sobrar no fim da noite
Dos amigos

(Nei Lisboa)
No Jô


Ontem, no Jô, o senador Delcídio “Boa Pinta” Amaral (PT-MS), presidente da CPI, respondia à relevante questão de ser considerado o galã do senado.

- Bem... Hãm... é... (risos tímidos)... ainda bem que a minha mulher está viajando, senão o bicho ia pegar, hehe...

Francamente, os homens têm cada coisa...

Então tá, devo concluir que a mulher dele vai é ficar feliz e tranqüila quando voltar de viagem e souber que o maridão declarou, em rede nacional, durante o auge de sua popularidade/assédio, que “ainda bem que ela estava viajando”.

E quantas peruas levantaram do sofá e foram calçar as botas de vinil, depois da notícia fresquinha de que a patroa andava voando bem longe?

Se o marido é meu, o bicho nem pega. O bicho já é morto.



Outra do galã


E hoje, Delcídio apareceu nos noticiários dizendo que recebia “com indignidade” as insinuações de que a CPI estaria omitindo informações.

Acho que ele queria dizer indignação, né?

Vá lá. Talvez tenha ficado com vergonha de usar, em meio a tantas patacoadas, o termo “nação”. Hoho.



Menas, presidente!


Vem cá, o máximo da humildade de Lula é dizer que foi filho de analfabetos???

Sim, porque, ainda outro dia, ele dizia que não tinha pecados. Agora que o partido que ele ajudou a fundar está visivelmente emporcalhado (e emporcalhando...), o discurso é de que não nasceu ninguém capaz de DISCUTIR ética e moral com ele.

Não cabia uma sandalinha da humildade, não?

Já tem petista com saudade do tempo em que ele falava menas laranja...

26 julho 2005

Tá ruim, mas tá bom


Meus pés estão doendo (caminhando de botas), minha coluna voltou a incomodar um pouco (hérnia, você sabe), peguei um trânsito infernal na Av. Niemeyer hoje (de ônibus!), choveu e eu não esperava (cabelo espigado – tóim!), entrei numa loja e paguei o maior mico porque achei que a sandália custava R$ 49,00 – tolinha, não tinha visto o fatídico “3x”, miudinho, acima do número.

Praticamente saí de costas, para fingir que estava entrando. Hehe (meu risinho amarelinho).

Pronto, já reclamei bastante da vida.

Um parágrafo, em blog, é uma eternidade.


Terapia


- Você já dirigiu à noite, na neblina?
- Já.
- Não se enxerga mais do que 10m adiante do pára-brisa, né?
- É.
- E aí? O que é que você faz? Pára no meio da estrada?
- Não...
- Joga o carro numa ribanceira, desesperada?
- Não...
- Vai andando, devagar, mesmo sem saber o que vem pela frente, né?
- Hum-hum.
- Então. É assim mesmo. Você não pode enxergar a estrada inteira. O negócio é ir andando, aos poucos, conforme é possível. O tanto que você vê é o tanto que você anda. E assim por diante.

Detalhe: a terapeuta é cega.
E anda muitíssimo bem.

20 julho 2005

AutoMarketing

Por acaso você já viu que a minha coluna na revista Época agora tem foto com ilustração?

A cada edição, uma figurinha nova.



Passa lá na banca. Ou faz a assinatura, melhor ainda!
:o)

15 julho 2005

O xis dos meus sonhos


Todo mundo sabe que no RS tem uma comida maravilhosa chamada “xis”. E que não tem igual aqui no Rio, e que eu vivo morrendo de saudades de um baita “xis galinha”, ou “xis coração” (sim, coração de galinha!), ou qualquer outro que me apareça em sonho. E eles aparecem mesmo.

Noite dessas, sonhei que estava no RS. Minha mãe e meu irmão sugeriram: vamos pedir um xis por telefone?

Faminta, liguei logo e fiz o pedido. Um xis galinha, um xis coração e um xis filé.

- São R$ 820,00, moça.

Dei um pulo.

- Quanto???
- Oitocentos e vinte reais.
- Acho que você não entendeu. Não estou comprando a sua televisão. Só quero três xis.
- Sim. O preço é esse mesmo.
- Mas isso é um absurdo! Nunca vi xis custar tão caro! Ou você vai me dizer que é a taxa de entrega??? Não tô no Rio, não! Estou a cinco minutos da *(#$!@% da sua barraca de xis, ô seu maluco!!!
- Moça, eu sinto muito, mas o valor está correto. Xis galinha, xis coração e xis filé. 820 pilas. Vai querer troco?

Virei para o meu irmão, procurando socorro.

- Olha a viagem do cara: tá me dizendo que os três xis dão 820 reais! Ha-ha! Doido, né?
- Ué, por quê? Acho que está certo...
- !!!!!!!!!
- Pensa bem, o xis andou subindo mesmo... e são três, né?

Indignada, mandei vir. E fui preencher o cheque. A saudade de comer xis era maior que a minha capacidade de contestar o absurdo.

Motoqueiro chega e me entrega o pacote. Despeço-me dos meus 820 reais, viro essa folha (de cheque) na minha vida. Pronto, passou.

Na mesa, já saboreando a iguaria, não resisto e toco no assunto.

- Absurdo... 820 reais pelos xis...

E meu irmão, deixando cair um naco de filé da boca:

- QUANTO????????
- 820, ué. Te falei.
- TÁ MALUCA???
- Mas eu te disse!!! E você disse que estava certo!!!!!!
- Eeeeeeeu??? Eu não me lembro de ter dito isso. Jamais eu iria dizer que está certo, imagina, 820 reais, que isso...?!

(Comentário extra-onírico: comportamento típico de geminiano. Quem tem um em casa sabe do que eu estou falando).

Mas era muito bem feito para mim. Tinha que ter caído naquela conversa do xis de ouro? Maluquice. Peguei o telefone de novo. Atende o mesmo rapaz.

- Olha, moço, eu acho que houve algum engano. Tentei engolir, mas não consegui. Ocorre que eu acabei de entregar um cheque de 820 reais para o seu motoboy, e...

- Oitocentos e vinte reais??? Caramba!!! A senhora ficou doida??? Comprou o quê, aqui, por esse valor? A nossa televisão?????

Aí eu acordei. Antes que alguém me vendesse um coração de galinha por cem reais.

Ou, sei lá, um pinto por duzentos.
Piadinha do fagote


Não resisti. A piada é ótima...
--

Na escola, a professora pergunta a cada um dos alunos:

- Aline, qual a profissão do seu pai?
- Ele é médico, tia.
- Médico, que bacana! Curando as pessoas... E o seu pai, Igor, o que ele faz?
- Tia, o meu pai é bombeiro.
- Bombeiro!!! Que profissão bonita, salvando vidas... Joãozinho, e o seu pai?
- Meu pai é músico, fessora.
- Músico? Que legal... Alegrando as pessoas, tocando os corações... O que ele faz? Canta, toca algum instrumento?
- Ele toca fagote...
- Que gracinha... hihi... Não é fagote, meu amor, é pagode. Preste atenção na boquinha da tia: pa-go-de!!
- Não, tia, ele toca na orquestra. É fagotista.
- Que imaginação... Na orquestra... Meu lindinho, não é fagote. É pa-go-de. E não é "fagotista". É pa-go-dei-ro.

14 julho 2005

Recuperação


Faz Pilates comigo uma senhora que teve derrame há uns dois anos, e ficou meio paralisada do lado esquerdo. Precisa ver a carinha que ela faz ao notar que evoluiu algum movimento (não conseguia fazer, e agora faz com facilidade). Muito bonitinho. Dá beijo nas professoras e sai, andando bem devagar, e sempre sorridente.



Paz e felicidades no gerúndio


Minha mãe aniversariou no dia 13. Diz que passou metade do dia recebendo cumprimentos de gente de verdade; a outra metade, atendendo ao pessoal do telemarketing festivo.

Telemarketing festivo é um termo que eu criei agora: não sei se você já notou, mas a última moda do telemarketing ativo é aproveitar a sua data de aniversário para, digamos, “ativar” o produto.

Maldito cadastro de preenchimento obrigatório. Fazem a gente revelar a idade no balcão da loja, e ainda vêm nos importunar no dia da festa. Dose!

Ainda se valesse a pena... Outro dia, recebi aqui uma ligação de telemarketing festivo para o meu irmão (que fazia aniversário naquele dia). Era uma “promoção” do restaurante mineiro. O premiado comia “de graça”, caso levasse cinco (eu disse cinco!) amigos para a festinha gastronômica. Pagando, claro.

Isso não é uma promoção de aniversário. Isso é uma boa idéia para quem tem cinco amigos sobrando no currículo, e quer removê-los rapidamente dessa condição.

Quanto ao teor dos cumprimentos recebidos pelo telemarketing festivo, não há muita variação: meia-dúzia de frases no maior estilão auto-ajuda.

Tudo no gerúndio.



Planejamento familiar vegetal


A planta-árvore do meu irmão continua crescendo e dando galhos, os galhos dando ramos, os ramos dando folhas, as folhas...

Já que ela quer dar tanto, vou enfiar uma pílula anticoncepcional na terra do vasinho, e não se fala mais nisso.

09 julho 2005

Pauzinhos, né?


Fui a uma mercearia oriental - mas oriental meeeesmo -, e quase fiquei tonta com tantas coisas esquisitas e potencialmente gostosas empilhadas nas prateleiras. Gosto muito de comida japonesa. Não saco nada, mas adoro. Chamo os pauzinhos de, imagina, pauzinhos.

O problema é que eu não posso ver aqueles pacotinhos com guloseimas do tipo bolinho disso, pastelzinho daquilo: tenho logo vontade de apertar. Assobio e disfarço, finjo que estou olhando outra coisa, viro de costas e - pá! -, belisco tudinho. Um por um.

É muito bom beliscar os pacotinhos alheios, sobretudo pela surpresa da consistência (que é o maior barato da beliscada, claro). Você olhar uma coisa que tem cara de biscoito, jeito de biscoito, e apostar: é biscoito. Aí você vai e belisca. Supresa! É molenga, feito massa de modelar.

O prazer de esmagar um negócio desses é quase tão intenso quanto o de ver a marca do seu dedo ali, para a posteridade, através do filme plástico. Digitais e tudo.

Imagino que o meu polegar vá parar no microondas de alguém.

Apertei também pacotes de sopa instantânea, macarrão e sei lá mais o quê. Até porque, convenhamos, não se pode ler as instruções daquilo nem com muita boa vontade: japonês, além de comer, também escreve com pauzinhos!

06 julho 2005

Registro


Chove ainda. Tempinho propício para cama, café, livros, edredom, pãozinho quente, letras e músicas...

No entanto, há a vida. A torneira do tanque deu de ter incontinência urinária – do nada. Mas o porteiro me resolveu o problema em minutos. Foi lá e comprou a pecinha, trocou, e ainda deu um polimento na danada.

- Tá nova, olhaí! – gabou-se.

Antes disso, contudo, demorei meia hora para achar o tal registro. De quatro, procurava e praguejava: quem foi o ¨$&@#$ que escondeu essa ¨#!@& desse registro, ô &$*@# !!!

Desisti. Eu nem queria mesmo (me dizia). E ia deixar a água correndo, quando me levantei e resolvi olhar para cima, tipo “Deus, me ajude!”. E Ele ajudou. O registro estava um pouco acima da linha dos meus olhos.

Fosse um bicho, me mordia.

É muito bom você sorrir amarelo quando paga um mico desses e não tem ninguém assistindo. Hoho.

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Cara-de-pau


Na aula de Pilates, tinha uma moça que se achava engraçada, e por isso se permitia falar sem parar e desconcentrar todo mundo. Andava de um lado a outro, entre os exercícios. Ia à sala da secretária, voltava, ia de novo, pegava uma bala, abria, chupava, comentava, ria alto. Ah, e tinha um sotaque espanhol muito forte. (Tô dizendo nada, não. Só para ilustrar melhor).

Sabe essas pessoas que acham engraçado se comportar como crianças? Ave Maria.

Claro que eu era a única aluna que estava quietinha no meu canto, fazendo questão de não sorrir para a moça quando ela fazia uma (sem)gracinha qualquer. Claro que eu ignorava. E é claro que, por eu ser a única a ignorá-la, ela se apaixonou logo por mim.

Ficava perguntando para as professoras como era o meu nome, de onde eu vinha, o que fazia etc. Elogiou o meu cabelo. E a minha pele. Só para ver se eu me dirigia a ela e fazia amizade.

Fiquei muda, fantasiada de pufe. Todo mundo estranhando, porque a moça só faltava pedir para eu falar com ela.

Aqui, ó. Não falo. Nem é comigo.

Eu adoro ser cara-de-pau com as pessoas que são cara-de-pau com as outras, e acham que ninguém vai ser com elas.

Esse é um dos meus maiores prazeres da vida.
Desagradável


Tentávamos jantar num restaurante bacaninha da Gávea, enquanto um grupo de #¨&*#$)_(!, na mesa ao lado, sofria de um mal que acomete parcela cada vez mais significativa da população: o desagradabilismo crônico. Conversavam (eufemismo) num volume tal, que você não me acredita. Só ouvindo – até porque, no momento, não havia outra saída possível.

O comportamento humano é algo curioso. Todo vai do psicológico - eu já dizia, outro dia, numa coluna da Época em que eu comparo o “psicológico” das pessoas com os diversos tipos de cães. Psicológico de madame (irritante). Psicológico de bêbado (cão sem dono). E por aí vai.

Pois o psicológico dos desagradáveis, sinceramente? – por mim, podia virar logo sabão. Ia fazer falta nenhuma.



Chuvinha


chuvinha
dá uma vontade
de se enroscar
na pessoa
em questão

para os
questão
felizes,
sim

para os
questão
infelizes,
não


E para os
fora
de questão,

marquises

30 junho 2005

Qualquer uma


Fui cortar o cabelo, mas a moça que eu conhecia saiu do salão, então o jeito foi encarar qualquer uma mesmo. Quando me sentei na cadeira e olhei para a cara daquela 'qualquer uma' que me arranjaram, tive vontade de sair correndo. Mas já era tarde. E o café estava ótimo, verdade seja dita.

A moça estava maquiada de arco-íris. Bochechas, pálpebras, boca, cílios - cada coisa de uma cor diferente. E falava como quem se dirige a uma criança. Sabe voz de “tia”? Estava vendo a hora de ela sacar um pirulito do bolso.

- Ooooooooi, tudo bem???
- Tudo.
- E então. Me conta, vai, me conta tuuuuuudo. Quem foi que te indicou? Como você ficou sabendo do meu nomezinho? Hein?

(O sorriso colorido era uma caricatura, parecia mastigar um cabide).

- Ah... na verdade, eu cortava o cabelo antes com a...
- E como a princesa vai querer o cabelinho?
- Quem?
- Vai querer tirar as pontinhas, vai querer fazer outro corte, vai seguir nessa mesma linha, vai...
- Só tirar as pontas.


E ela tirou mesmo. E até que ficou direitinho.

Bonita era a minha cara de alívio quando saí de lá. Vim saltitando até em casa. Afinal, não é todo dia que se enfrenta uma doida com tesoura na mão, e se escapa com vida. Graaaaaças!

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E o papo da mulher loira que fazia os pés e abanava as mãos para secar o esmalte:

- Preciso ficar linda hoje, hein? Capricha aí, porque o meu marido é perfeccionista.

(Nessa hora, quase me intrometo: “jura que o pé é dele? Tá meio maltratadinho mesmo, mas ninguém diz que é de homem... hoho, maldade).

- Maridão chega hoje de Boston. Nós moramos lá, mas eu vim primeiro com as crianças. E ele repara tu-di-nho. Impressionante. Outro dia, a gente conversando pela webcam, e ele logo disparou: fez a sobrancelha hoje, amor?? Não tô dizendo? Então não conheço a figura?

Sei. Então tá. Eu não deixava um marido que repara desse jeito solto em Boston, não...

29 junho 2005

Sonho de Valsa de Morango


Eu sei que isso pode constituir falha de caráter, mas... confesso: a-do-rei!
Experimenta.
;o)

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Reflexolítica nacional


Outro dia me peguei refletindo acerca dos recentes acontecimentos da nossa política. E, mão no queixo, concluí:

Mas, também... o que é tudo isso, diante disso tudo?

A título de reflexão, no quesito clareza, em nível de compreensão, salvo qualquer equívoco em termos de questionamento singular de cujo princípio já me olvidei faz é tempo, só posso afirmar: minha reflexão não reflete senão a própria condição da presente cena política. Ou seja, redunda.

É, pois, uma reflexão vaga. Bunda.