22 julho 2001

Sobra homem no mercado

Mariana é bem nome de menina que nasceu no final dos anos 70, início dos 80. O que tem de Mariana com vinte e poucos, hoje em dia, não é
brincadeira. As Marianas, atualmente, são mulheres jovens, bonitas, charmosas, simpáticas e solteiríssimas.

Mariana meio ruiva, com sardinha no nariz, então, é coisa típica. Eu disse meio ruiva. Castanho-avermelhado, o cabelo. Se for totalmente ruiva, aí já pende mais pra Viviane, Elisabete, Solange (se bem que Solange é mais anos 70, mesmo).

A Mariana, de fato, é só quase ruiva.

Pois fui almoçar com a Mariana, que eu não via há quatro anos. E ela continua jovem - que Mariana, de verdade, só vai começar a envelhecer lá por 2030. E solteira. Mas em vias de reverter o quadro.

- Conheci o Antônio no mercado!

Não entendi nada. Primeiro, que Mariana casar com Antônio já é de se estranhar. Mariana casa com Marcelo, Guilherme; no máximo, Maurício! Esse Antônio tá me cheirando a coisa mais antiga.

- Antigo, coisa nenhuma! O Antônio vai fazer 39, mês que vem. Estou com 26, olha aí, não dá nem quinze anos...

- E conheceu o quarentão onde, mesmo?

- Quarentão, coisa nenhuma! O Antônio é um guri! E, de mais a mais, hoje em dia, não dá pra ficar escolhendo muito, não...

A Mariana diz que homem é peça rara no mundo atual. Até os 20 anos, ela me conta, era uma festa só. Saía, beijava na boca, e achava tudo uma maravilha. Não se preocupava com os Marcelos, nem com os Guilhermes, que dirá com os Maurícios. Esnobava todos eles.

Só que, depois dos 20, a coisa foi ficando feia. Meia-dúzia de Marcelos viraram Marcelas. Os Guilhermes foram encontrando as suas Cíntias; os Maurícios, casaram-se com as suas Patrícias. E a Mariana foi sentindo que alguma coisa estava mudando. Para pior.

- Menina, nos últimos anos, é um tal de salve-se quem puder, que só vendo! Quando cheguei aos 23, depois de muito relutar, resolvi partir para uma pesquisa mais profissional. Encarei o assunto com seriedade, mesmo!
Levei três anos, catalogando daqui, experimentando dali, mas valeu a pena: finalmente, achei o Antônio!

Quando perguntei que tipo de pesquisa ela havia feito, não acreditei no relato quase científico que a Mariana me fez. Não era brincadeira; ela tinha se tornado uma expert no assunto.

Três anos depois de entrar no mundo profissional da garimpagem de homens disponíveis, minha amiga concluiu a frase irônica que define, afinal de contas, onde é que eles estão: "sobra homem no mercado". Ela vai lançar um livro com esse título, inclusive.

Milhares de Marianas irão comprar o livrinho da minha Mariana, e descobrirão, como eu descobri, que a moça não brinca mesmo em serviço: a mina de ouro, segundo ela, está no mercado. O super. Mais precisamente, na prateleira dos congelados.

- É verdade! Conheci o Antônio nos congelados. Antigamente, eu me arrumava toda, e saía à noite. Tolice. Coisa de gente que não entende nada do assunto. Amadorismo! Assim que me profissionalizei, descobri o óbvio: eles estão na prateleira dos congelados! Estão todos ali, disponíveis... homens solteiros, homens separados, amantes do microondas, afogando suas
mágoas solitárias numa lasanha à bolonhesa... nada pode ser mais romântico!

Realmente, a Mariana vê romantismo numa lasanha congelada. E vai publicar conselhos quentíssimos para as amigas que procuram um parceiro; coisas do tipo: passe um batom, tome uma vitamina "C" (para evitar o resfriado!), e fique horas desfilando diante das portas mais geladas dos supermercados.

Cedo ou tarde, aparece um Antônio, apressado, que vai empilhar nos braços algumas dúzias de lasanhas; aí, é só esbarrar nele. Sim, também você não vai esperar que o Antônio olhe para os lados, né?

Antônio, o nome já diz, é um sujeito extremamente compromissado e afoito. Cabe à Mariana, portanto, derrubar as lasanhas dele no chão. Depois disso, é só correr para o abraço.

- Mas como é que você consegue escolher o Antônio só pelo sabor da lasanha?

- Ah, minha filha, hoje em dia, não se pode querer escolher muito, não! Se ficar com frescura, vai lá outra Mariana, e derruba as lasanhas do partidão! O negócio é ser rápida!

- Sim, mas... algum critério, você tem que ter! Pelo amor de Deus! Não acredito que você possa escolher o marido, assim, no corredor do supermercado, sem critério algum! Nenhuma exigência???

- Vai por mim, amiga: com o meu tempo de serviço, já aprendi que exigência é meio caminho andado para a solteirice crônica. Claro, ninguém é
de ferro. Uma exigência eu tenho, confesso. Mas só uma!

- Qual?

- Não falar "menas". Se falar "menas", eu sinto muito, pode ser a melhor lasanha do freezer, que eu não encaro.

- E "a nível de"? Pode falar?

- Segunda exigência. Abro uma uma exceção: se falar "a nível de", só se for a nível de sexo. Mais que isso, nem pensar!

13 julho 2001



Chega uma hora, na vida, em que a gente cansa de tentar achar explicações para as coisas. Cansa de procurar respostas. Enche o saco de escrever "cansa" no lugar de "enche o saco", e escreve "enche o saco", mesmo.

Chutado o pau da barraca, o que vier é sempre lucro.

Sem-vergonha dessa vida, viu? Parece que a gente vive na "peia", como diz um sábio amigo, mas, a bem da verdade, deixando-se de frescuras, o que sobra da batalha é justamente aquilo a que viemos. E a luta, não sendo lá muito sangrenta, já vale só pelo movimento que proporciona. E a vida - que até sangra, mas não morre! - é o quê, se não essa bagunça crônica, que, pouco a pouco, vai servindo para nos organizar por dentro?

Até a hora de nossa morte, amém.

Feliz do bebê que já viesse ao mundo com o pezinho pronto pra derrubar o primeiro balde que encontrasse pela frente. Sim, porque o melhor gol é aquele em que a gente entra com balde e tudo, ou vai me dizer que não?

Nunca comemorei nada sentadinha ao lado das minhas neuroses; nunca gritei de alegria enquanto passava a mão na cabeça dos meus limites.

Custei a entender que os dias mais cinzentos da minha vida não foram injustiça dos céus; o que eu via era só o cinza do asfalto, enquanto andava... e andava... louca de medo de me desequilibrar.

11 julho 2001

Não precisava

Em Porto Alegre, agora, dez graus. E vem caindo. E chove que Deus manda. O que foi que eu fiz, hein?

07 julho 2001

Aqui no Rio Grande, tchê, a cousa é muito outra

Aqui no Rio Grande, tudo funciona. Mentira! - diz a minha mãe -, que nada presta aqui também. Não vê o jornal da cidade, por exeplo? Não vê mesmo, claro que não vê, porque não tem.

A mãe até assinava, mas, um dia, chegava às 6h da matina; no outro dia, chegava às 9h. Aí ela já tinha saído; imagina se é mulher de ler jornal à noite. Reclamou três vezes. Cancelou a coisa.

Aliás, a coisa tem sido bastante cancelada, ela me diz, em todos os sentidos. As melhores lojas do shopping fecharam. Os restaurantes preferidos faliram. A maior casa noturna se mudou para outra cidade. Nada funciona! - ela insiste.

Mas tem uma coisa que, aqui no R.S., é bem melhor do que no Rio de Janeiro. E não se discute sobre isso: é o micro da minha mãe. Com Windows 95...

Você imagine que esta é a minha primeira publicação no meu próprio Blog. Sim, porque tive que deixar tudo nas mãos da Melissa, minha paciente (não no sentido de eu ser médica, mas no sentido de ela ter muito saco mesmo) amiga.

Tchê, aqui no Rio Grande a coisa é muito outra. Eu tenho um Blog vivo, bem ao meu alcance, direto dos pampas. Nem consigo acreditar, de tão bom. Melhor que isso, só o chimarrão que estou tomando.

Vais?

05 julho 2001

Vamos escorrer para onde?
Bíbi Da Pieve

No Rio Grande do Sul, nós chamamos macarrão de massa. Tá bom?

É que já vi gente achando estranho; por isso, vou explicando logo na entrada. Muitos dizem, cá um pouco mais para cima do país, que massa é aquilo de que se faz o pastel, a lasanha e a pizza. Enfim, querem me dizer que massa é, imagine!, massa.

Tudo bem que massa seja, de fato, massa. Mas, se assim for, então eu não vejo por que não admitir que aquelas tripinhas feitas de - de novo! - massa também sejam, ora, massa!

Se massa em forma de quadrado (lasanha) é massa, se massa em forma de bolotinha chata (pastel) é massa, e, se massa em forma de bola grande achatada (pizza) também é massa, então, desculpem-me, mas massa em forma de tripinha (macarrão, vá lá!) também há de ser massa, e muito massa.

Tudo isso foi para dizer que, aqui em casa, não temos escorredor de massa. Eu sei que é meio humilhante confessar essas deficiências domésticas, mas, convenhamos, eu sou uma mulher moderna. Compro comidinhas congeladas - light, que não sou boba! -, aperto dois ou três botões, e elas deixam de ser picolé salgado em quatro minutos. Eu disse quatro minutos! Quem é que precisa de escorredor de massa, hoje em dia?

Não fosse esse aborrecido racionamento de energia, ninguém precisaria, realmente, de um escorredor. Acontece que, nos últimos tempos, mulheres e homens modernos voltaram à idade da pedra, das velas e dos escorredores de massa. Eu, de minha parte, acho frustrante ter que aposentar aquela linda caixinha modernosa que descongela picolés salgados, transformando-os em almoço, e ainda - bip!, bip!, bip! - me chamando para a refeição. Mas, fazer o quê?, aposentei.

Não tenho vergonha nenhuma de confessar: comprei vários pacotinhos de massa instantânea (leia macarrão instantâneo, se quiser). Vou fazer almoço, pensei. Imagine que também passei a mão numa lata de atum, e, não bastasse, comprei ainda uma latinha de molho de tomate. Pronto, claro. Tudo muito pronto.

Quando fui ler o manual de instruções da massa-rápida, já me deparei com a primeira surpresa: três minutos? Não pode! Estão mentindo. Como é que vou cozinhar esta coisa em três minutos, e jogar por terra toda a minha teoria de mulher moderna? Não admito que alguma comida feita no fogão fique pronta antes dos meus congelados light.

Deixei cinco. Cinco minutos, só de raiva. E não quero conversa com essa massa metida a besta. Vai ficar cozinhando um minuto a mais do que o meu almoço moderno, sim senhora, ou a minha - bip!, bip!, bip! - caixinha mágica ficará ofendidíssima. Está aposentada, mas não está morta.

Ficou uma papa, é verdade. Mas isso não é nada, perto das minhas convicções.

Tudo prontinho. Atum e molho de tomate já se encontravam juntos, e eu já ia gritando "bip!, bip!, bip!", quando, de repente, dei-me conta do óbvio: havia uma quantidade exagerada de água dentro daquela massa empapada e pretensiosa. E eu não tenho escorredor; essa é a verdade, nua e empaçocada.

Fui com a tampa. Sabe como é? Pega-se a tampa da panela, coloca-se sobre ela, e vira-se o recipiente, com cuidado, dentro da pia. Deixa-se uma pequena abertura, naturalmente, para que a água possa escorrer, deixando a massa em paz, sequinha, lá dentro.

Na teoria, sou uma ótima escorredora de massa. Na prática, choro só de lembrar: foi-se tudo para dentro da pia. O raio da massa antipática, a água, a tampa, a panela, e a minha disposição para afazeres domésticos! Nunca mais.

Quando enxerguei a desgraça acontecendo, juro, pensei no presidente da República. Tinha que botar a culpa em alguém, e não sou modesta a ponto de xingar ministros, senadores; enfim, vou direto ao cume da hierarquia. Ia pelo ralo, naquele momento, toda a minha boa vontade com essa ordinária administração pública, que já vem cozinhando o país inteiro há vários anos - coisa mais antiga!

Perdoe a minha metáfora culinária, mas não pude evitar de ver aquela massa toda entrando pelo cano, e pensar - meu Deus, e agora? Vamos escorrer para onde?