20 junho 2001

Tragédia na orla - arrastão!
Bibi Da Pieve

Vão dizer que é mentira, cascata minha. Mas não é. E, dessa vez, eu tenho a prova - está aqui na minha frente; a minha carteira de habilitação, completamente enrugada. Estou, portanto, encarando-me com 98, 99 anos de idade. Até que sou uma velhinha simpática, mas acho que preciso dar um corte nesse cabelo. Até lá, terei tempo.
Terça-feira de sol, quase junho, Rio de Janeiro. Peguei as minhas coisinhas e fui à praia. Quase dez da manhã, e eu atirada na areia, toda relaxada, branca como folha de ofício, e nem te ligo.
Ouvir Nei Lisboa no walkman é uma redundância, porque o cara já tem uma voz que vai direto ao ouvido, parece que ele canta grudado na orelha da gente. E como canta, esse compositor porto-alegrense! E como compõe, esse cantor gaúcho! Mas eu, que sou exagerada, estava com o Nei enfiado no walkman, e o walkman enfiado no ouvido. Lá na praia, bem tranqüila.
Tudo bem, eu senti que a areia estava um pouco úmida. Bastante úmida, vá lá. Mas, juro, aquela umidade era uniforme, ia quase até o quiosque. Pensei que aquilo era coisa da ressaca do mar, e eu não tenho nada a ver com ressaca alheia, que já bastam as minhas. Achei que ele tinha brincado ali a noite toda, mas agora era a minha vez. Nunca imaginei o que estava por vir.
Eis que, musiquinha vem, musiquinha vai, o lado A terminou. O lado B é mais relaxante ainda, coisa boa. Virei o lado, e me virei também. A bunda pra cima, e vá Nei. Acordei cedo, hoje. Cedo demais; acho que estou com sono. E o Nei já dizia "cochila, cochila, imagina uma luz violeta, puxa um cochilinho..." puxei.
A tragédia estava prestes a começar; o chifrudo e seus capangas já enxergavam, pelo monitor do inferno, a cena que aconteceria cá comigo. Meus inimigos, se soubessem com antecedência, teriam comprado convites de camarote. Não importaria o preço; valeria a pena. E como.
A bela adormecida que vos escreve, então, teve o despertar mais sinistro de todas as suas encarnações nesta Terra. Sem exagero nenhum, posso dizer que uma puta de uma onda, literalmente, me abocanhou. Já imaginou, ser engolido por uma onda do mar, no meio de um sono ingênuo? E ouvindo Nei Lisboa?? Foi assim.
Sobressaltada, apavorada, levantei-me como pude, e aí começou a pior parte da guerra: tastaviando, ainda meio sonhando, saí em busca dos meus esparramados pertences. Avistei o walkman a uns quatro metros, e quis fazer bonito - saí no pinote, o passo largo, vem cá que eu te pego. Foi pior; na segunda pernada, enfiei o pé numa concha quebrada e me estabaquei no chão.
Bunda pra baixo, pernas pra cima. Foi bem nessa hora que eu resolvi olhar para os lados, calcular o tamanho do mico. Duas senhoras com cara de "eu avisei!", um cachorro com jeito debochado, uma menina gargalhando escancaradamente, e um cover do Ricky Martin. Aí, parei de calcular o estrago. Era o meu fim.
Mas não desisti de recuperar as minhas coisas, claro que não. Fui de quatro mesmo, que era mais rápido, àquelas alturas do campeonato. Aliás, fui de três, porque mancava do pé que a concha cortou. Imagine a cena.
O resultado do arrastão, pra encurtar a história, foi: um relógio, um par de chinelos, uma canga e um protetor solar - perdidos. O mar, definitivamente, levou. Não os pude recuperar.
O walkman, com a fitinha do Nei Lisboa, ainda consegui agarrar. Mas trouxe pra casa só de lembrança, mesmo, que o aparelho veio empaçocado de areia e água salgada, coitado. Minha sacolinha com a chave do carro e a carteira de habilitação, felizmente, recuperei também. Mas a carteira, como já disse, está mostrando uma previsão 3X4 daquilo que serei aos 99 anos.
Isto é, se eu chegar lá. Se eu tiver a sorte de escapar com vida. Porque, da violência, ninguém está livre. É muito perigoso ir à praia.

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