23 janeiro 2003

Não me gosto
didática,
exemplar,
categórica,
correta,
protocolar,
metódica.

Prefiro-me às voltas, às moscas, aos prantos;
que o eixo seja semi-reto, que a margem saia meio torta,
que a letra esqueça a palavra, que esqueça o verso,
que esqueça o texto e todo o resto.

Já me basta a fama de implacável,
que disfarço com olhar disperso;
e já me chega a marca de insensível,
que mantenho pra evitar conversa.

Não me gosto
elétrica,
ávida,
pulsante,
enérgica,
falante,
corrente.

Prefiro passos lerdos, próximos, prestes;
que a foto seja sempre um susto, que a pose saia indecente,
que o olho supere a fala, que desbanque o verbo,
que destranque o beijo e todo o resto.

Pois já me basta a fama de arrogante,
que combato com sorriso doce;
e já me chega a fome de um abraço,
que contenho enquanto ainda posso.

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