19 maio 2002

Pequenas doses (homeopáticas) de VENENO:

-> Antes da novelinha Malhação, na Globo, vem outra novelinha: Malhação da Goela. Lá, alguns artistas - que não entraram na casa do Sílvio Santos porque foram considerados "muito talentosos" - passam todo o tempo do mundo malhando as suas ricas goelas potentes. Tal como o Fat Family (e tantos outros adeptos da goelização da música), os artistas praticam o "canto" como se estivessem condenados à forca: os três minutos da canção são os últimos de suas vidas; portanto, praticamente não respiram. Fazem da linha melódica uma montanha russa, entram dentro dela e se contorcem em gritos e gemidos, malhando a goela e mostrando todos os músculos, ininterruptamente, sobretudo na hora das (saudosas) pausas.

-> Ouvir uma música goelizada equivale, mais ou menos, a olhar para o corpo da Feiticeira. Você sabe que tem alguma coisa inchada ali, mas não sabe precisar onde. É que a coisa é generalizada; para qualquer canto que se olhe (ouça), ali está o exagero.

-> Deus que livre meus ouvidos de estarem sobre esta Terra quando inventarem os anabolizantes para goela. Já pensou?

-> É por essas e outras que, no próximo fim de semana, estarei assistindo ao Carijo - festival de música gaúcha, em Palmeira das Missões. Vou me lembrar dos bons tempos em que a arte não tínha músculos, e, sobretudo, não era apresentada pela Angélica e pelo Toni Garrido. Meu pai até comprou uma roupa campeira.

-> Acho que os participantes do Carijo não devem interpretar suas canções como se fossem a última oração antes da morte. Assim, evitarão que também nós, ouvintes, sintamos uma proximidade desconfortável com o chifrudo. (Sim, porque o paraíso é que não deve ser feito de frenéticos grunhidos vocais, e assustadoras reviravoltas melódicas que assassinam a composição. Isso deve ser até pecado.)

-> Agora eu entendo por que é que a cordeona (sanfona) chora há tantos anos.

-> Aliás, mais um belo título de livro: "A profecia da cordeona - goelização da música brasileira". Ainda escrevo. Se os anabolizantes não chegarem antes, claro.

17 maio 2002

Fórmula Um

Vão me desculpar, mas eu não entendo coisas do tipo "se fosse eu, não deixava passar", ou chamar o cara de bobalhão porque segurou a taça de primeiro lugar sem ter ganho os tais pontos. A Fernanda Young, no programa Saia Justa (GNT), dizendo: "Pra mim, para praticar esse esporte o cara tem que ser WILD."

Selvagem, a Fernada quis dizer (mas disse em inglês, porque - de certo - é mais "wild"...)

Selvagem?

Ser selvagem não é para quem quer correr - e ganhar a vida, aliás - na F1, não. WILD MESMO é correr de táxi ou de ônibus, e estar sujeito a receber um passageiro torto das idéias que, sem mais nem menos, enfia um cano frio na sua cabeça e estoura os seus miolos por dinheiro.

Bem pior que a Ferrari, não é?

Ora, pneus. Então o Rubinho, o Zezinho ou o Luisinho (tanto faz) não assinaram lá um contrato com o Tio Patinhas? Não fizeram uma boa corrida? Não estavam em primeiro?

Não... tinham que mostrar que são raçudos, ir contra o contrato, e receber a primeira bandeirada, só para mostrar para o povo brasileiro que nós somos... nós quem, cara-pálida?? Nós, torcedores verde-e-amarelos daquele carrinho vermelho??

Desculpem, mais uma vez. Mas eu não entendo, e não vou entender.

12 maio 2002

A primeira cena da minha manhã foi o alemão cedendo o lugar no pódium.

Não sou dada a assistir às corridas - de nenhuma espécie -, sempre fico com a impressão de que estão perdendo alguma coisa no meio do caminho... essa ânsia de chegar logo não me seduz. Até porque sou demorada; não sei se por falta de talento ou excesso de zelo com as circunstâncias - não sei, fato é que não sou de fazer o cabelo voar.

Isto posto, a cena do pódium foi triste e cheia de beleza - cá na minha ótica sentimentalóide e ignorante do esporte. Paciência.

Hoje foi o dia das mães, e eu tive o privilégio de curtir a minha. Depois de quatro anos de abstinência, tomando apenas doses homeopáticas de mãe, digamos que o domingo foi tão precioso quanto preciso. E ainda não sei como é que ela cabe ali dentro.

Pensando bem, deve ser de família. Minha Vó Maria, mãe dela, também é de miúdas medidas, e meio que se transborda toda - tamanho encanto.

Acho que foi isso que sempre me surpreendeu naquelas mulheres da família; uma delicadeza de traços e dimensões, uma doçura espontânea e incansável - unhas feitinhas, pés macios, carinhos, carinhos... e, por outro lado, a força exuberante que transcende a forma, explodindo e jogando para o alto qualquer semelhança com a meiga e frágil mocinha que o espelho teimasse em refletir diante de seus olhos.

Desde pequenininha, eu sempre vivi entre um afago e um susto. O afago da doçura, do conforto e do aconchego do abraço; o susto da ruptura, do gesto brusco, da (quem sabe?) loucura. Era o susto da evolução.

Hoje eles dizem - vai passear, vó, curtir a vida!

E ela vai mesmo. Mas não é que esteja paradinha, não. Ela já está passeando, porque nasceu passeando - ora intuitiva, ora inteligentemente - por entre os caminhos malucos da transformação. De ter nascido numa época, ter crescido noutra, ter parido noutra, ter criado noutra, e noutra, e noutra, e noutra. E passeou, colhendo flores e pedras de todos esses tempos, sorvendo as décadas, os filhos, os netos. Absorvendo a vida.

Todas elas têm nos olhos a ternura e a luta, todas se derretem e se solidificam conforme a mais absoluta necessidade. Nunca vi nenhum sentimento fútil, nenhuma dor gratuita, nenhum carinho vazio. São mulheres de motivos concretos, de atitudes certeiras e de corações convictos.

Assim são as mulheres da família, assim é a Vó Maria. Doce feito um afago. E doida de pedra.




04 maio 2002

O YAHOO tem umas salas de bate-papo com voz. O Mano foi quem me deu a dica, ontem - "experimenta, não custa".

O interessante, a meu ver, é quando você tem um parente ou amigo que mora longe (pais com filhos no exterior); pode criar uma sala só para vocês, e ficar matando a saudade quase de graça, quanto tempo quiser, ou a conexão permitir.

Aqui em casa não funcionou lá essas maravilhas. Ficou tipo rádio amador, meio precário. Mas dá.

Você entra, clica no "viva voz", e fica ouvindo os diferentes sotaques discutindo sobre os mais diversos assuntos. É curioso. Também dá para compartilhar uma musiquinha: tem gente que põe o MP3 pra tocar, e fica curtindo com os demais.

Tinha uma moça baiana, mais animada, que cantava junto e tudo. Tascou Ivete Sangalo a mil por hora, e, volta e meia, gritava: "TIRA O PÉ DO CHÃÃÃÃO!!!!!!!". Isso às 2h da madrugada, de sexta para sábado. Garanto que ainda molhava o bico, lá do outro lado, e chacoalhava os gelinhos do copo, dando risada. Diversão a pulso único - sem consumação ou couvert.

(É "pulso" ou "impulso" que se diz? Já vi dos dois jeitos.)

"Impulso único" é bonito, não? Bom nome para... para... sei lá, filme, livro, qualquer coisa - menos filho, claro.

Livro de suspense: Impulso único. Nas melhores casas do ramo.

Hein?

02 maio 2002

RAIOS!!!
As cifras ficaram todas grudadinhas no início das frases...
Desculpe a minha falha. Faz assim: vai na intuição, tá? Vai por mim, que rola.
Se não rolar, também não tem problema. O que vale, nesses casos, é o lá menor. Um bom lá menor diz tudo; e, se bobear, canta também.

Um - e - dois - e...
Tem coisa, my dear, que só um lá menor e uma melodia arrastada, mesmo. Puxa aí:

VERDADE CHINESA (Emílio Santiago)

Tom: Am

Am A7
Era só isso que eu queria da vida
Dm Bm E7
Uma cerveja, uma ilusão atrevida
Am C7
Que me dissesse uma verdade chinesa
B7 E7
Com uma intenção de um doce beijo na boca
Am A7
A tarde cai, noite levanta a magia
Dm Bm E7
Quem sabe a gente vai se ver outro dia
Am C7
Quem sabe o sonho vai ficar na conversa
B7 E7 Am
Quem sabe até a vida pague essa promessa
Dm
Muita coisa a gente faz
G7 C
Seguindo o caminho que o mundo traçou
F Bm
Seguindo a cartilha que alguém ensinou
E7 Am
Seguindo a receita da vida normal
Dm
Mas o que é vida afinal?
G7 C
Será que é fazer o que o mestre mandou?
Am F#m
É comer o pão que o diabo amassou
B7 E7 A7
Perdendo da vida o que tem de melhor

Dm G7 C
Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa
Dm E7 Em A7
Toma um copo, dá um tempo, que a tristeza vai passar
Dm G7 C
Deixa, pra amanhã tem muito tempo
F Bm
O que vale é o sentimento,
E7 Am
E o amor que a gente tem no coração

01 maio 2002

Foi a primeira vez, em toda vida, que eu joguei tinta no telhado.

Cortei minhas longas madeixas, revoltadas e pós-adolescentes que só. E pintei de uma cor que a moça chamou de "rubino" - ou algo assim, porque recordo que era parecido com "rabino", mas acho que mudava uma ou duas letras. E vários tons, em direção ao roxo-avermelhado... coisa assim.

Existe cor rubino, mesmo? (Respostas por e-mail, please. E muito cuidado, porque disso depende toda a parte externa da minha cabeça.)

Enfim, aquela cabeleira cor-de-burro-quando-foge era muito do meu agrado, mas devo confessar que o rabino (?) da moça me caiu, modestamente, muito bem. E o corte, idem.

Sabe o que ela fez? Puxou meu cabelão todo para a frente, fez um só rabo, e tascou uma tesourada certeira: morte súbita. Eu, com o pescoço inclinado, alheia ao golpe. O primeiro sinal da coisa foi a queda brusca de um naco de cabelo, molhado e ainda quase vivo, na ardósia verde daquilo que elas chamam de salão de beleza. A partir daí, eu entreguei para Deus.

Quando dei por mim, já era tarde. O repicado armou um reboliço nos fios, de modo que há uma espécie de franja - ou sei lá o quê - aqui na frente, e depois uma camada, e outra, e outra, e mais outra. Até que os fios descem, lisos e modestos, até os ombros. E só.

Já acostumei, mas levei vários sustos, todas as manhãs, até entender que o meu rosto deixou de ter uma moldura reta, marrom e comprida - para ter uma revolta, vermelha e (parcialmente) curta.

As minhas amigas dizem que não é necessário combinar a cor dos sapatos e das bolsas com a do cabelo, mas eu estou animadíssima, de loja em loja, tentando achar um acessório que faça parzinho com o rabino do telhado novo.

E sabe que não tenho achado?

Por favor, se alguém achar uma bolsa de cor "rubino", mande-me o endereço da loja.

Esmalte também, ok?

Obrigadaíssima.

26 abril 2002

Acabei de ler a coluna do Mario Prata no Estadão de hoje; a conferir:

http://www.estado.estadao.com.br/colunistas/prata.html

Eu mato a cobra e mostro o link.

O assunto da coluna sempre me interessou muito: direito autoral na web. Você já deve ter recebido, por e-mail, dezenas de textos "assinados" por escritores famosos, e deve ter ficado se perguntando se realmente aquele texto era do autor citado. Eu, por exemplo, já recebi textos com a "assinatura" do Verissimo que continham um intrigante sotaque, sei lá, carioca. Não pode.

Eu sei que o assunto é sério, mas - que o Lobão e o Mario Prata não me ouçam -, convenhamos, há uma graça em tudo na vida. Confesso que me divirto, há tempos, brincando de adivinhar o autor do texto. (Podem me acusar, que pirataria no dos outros é refresco...)

A história do "sotaque" do Verissimo é pura verdade. Você já reparou no sotaque escrito? Já sacou a "voz" do autor?

Sabe como foi que nós - que éramos obrigados a ler Graciliano Ramos com 12 anos de idade, e pensávamos que leitura era uma atividade enfadonha e sem fundamento - nos demos conta da enorme besteira que estávamos pensando? Quando nos deixamos seduzir pela rede mundial de computadores, embasbacados com a mais moderna das tecnologias - que, ironicamente, foi nos colocar frente a frente com aquilo que já se praticava no pergaminho.

A escrita nos chamou para o tatame. Era escrever ou não se comunicar, e a coisa foi ficando preta para quem não tinha intimidade com as teclas.

As "vozes" da escrita, na minha vida, começaram a aparecer com a Internet. Não que eu tenha orgulho disso; deveria era tê-las ouvido muito antes. Mas foi o jeito.

Comecei ouvindo os sotaques escritos dos meus amigos e parentes próximos, depois passei a compará-los com os breves diálogos dos chats da vida; quando vi, já estava ouvindo crônicas e livros, estabelecendo graves e agudos para qualquer frase que me aparecesse à frente.

Comecei a escrever uns textos, e percebi, pasma, que também ouvia uma vozinha, lá no fundo, ditando as minhas próprias palavras. E, pior: a vozinha ia ficando mais agudinha quando o texto era doce e inocente, e mais grave e profunda quando o texto era filosofante, tenso, crítico ou pessimista.

Nenhuma das minhas vozes escritas corresponde à minha voz falada - a verdade é essa. Eu não sei que voz você acha que eu tenho, mas não se engane: meu tom deve ser bem outro.

Aí é que está a graça da coisa. O Verissimo fala (pouco!) num tom, e escreve (muito!) noutro. Mas é o sotaque escrito dele, e ninguém tem igual. Essa é a verdadeira assinatura do autor.

Portanto, a minha sugestão é que o senhor, delegado dos crimes pela Internet, vá mandar os seus técnicos darem um jeito de inventar um sensor - hoje em dia tudo é sensor, mesmo - que "capte", como num passe de mágica, a voz escrita do autor. Já não existe um que capta a voz falada? Então.

A delegacia não foi criada para isso? Ou o senhor fica o dia inteiro aí jogando paciência? Tenha a santa paciência!!!

25 abril 2002

Acabei de ler a coluna do Mario Prata no Estadão de hoje; a conferir:

http://www.estado.estadao.com.br/colunistas/prata.html

Eu mato a cobra e mostro o link.

O assunto da coluna sempre me interessou muito: direito autoral na web. Você já deve ter recebido, por e-mail, dezenas de textos "assinados" por escritores famosos, e deve ter ficado se perguntando se realmente aquele texto era do autor citado. Eu, por exemplo, já recebi textos com a "assinatura" do Verissimo que continham um intrigante sotaque, sei lá, carioca. Não pode.

Eu sei que o assunto é sério, mas - que o Lobão e o Mario Prata não me ouçam -, convenhamos, há uma graça em tudo na vida. Confesso que me divirto, há tempos, brincando de adivinhar o autor do texto. (Podem me acusar, que pirataria no dos outros é refresco...)

A história do "sotaque" do Verissimo é pura verdade. Você já reparou no sotaque escrito? Já sacou a "voz" do autor?

Sabe como foi que nós - que éramos obrigados a ler Graciliano Ramos com 12 anos de idade, e pensávamos que leitura era uma atividade enfadonha e sem fundamento - nos demos conta da enorme besteira que estávamos pensando? Quando nos deixamos seduzir pela rede mundial de computadores, embasbacados com a mais moderna das tecnologias - que, ironicamente, foi nos colocar frente a frente com aquilo que já se praticava no pergaminho.

A escrita nos chamou para o tatame. Era escrever ou não se comunicar, e a coisa foi ficando feia para quem não tinha intimidade com as teclas.

As "vozes" da escrita, na minha vida, começaram a aparecer com a Internet. Não que eu tenha orgulho disso; deveria era tê-las ouvido muito antes. Mas foi o jeito.

Comecei ouvindo os sotaques escritos dos meus amigos e parentes próximos, depois passei a compará-los com os breves diálogos dos chats da vida; quando vi, já estava ouvindo crônicas e livros, estabelecendo graves e agudos para qualquer frase que me aparecesse à frente.

Comecei a escrever uns textos, e percebi, pasma, que também ouvia uma vozinha, lá no fundo, ditando as minhas próprias palavras. E, pior: a vozinha ia ficando mais agudinha quando o texto era doce e inocente, e mais grave e profunda quando o texto era filosofante, tenso, crítico ou pessimista.

Nenhuma das minhas vozes escritas corresponde à minha voz falada - a verdade é essa. Eu não sei que voz você acha que eu tenho, mas não se engane: meu tom deve ser bem outro.

Aí é que está a graça da coisa. O Verissimo fala (pouco!) num tom, e escreve (muito!) noutro. Mas é o sotaque escrito dele, e ninguém tem igual. Essa é a verdadeira assinatura do autor.

Portanto, a minha sugestão é que o senhor, Sr. Delegado dos crimes pela Internet, vá mandar os seus técnicos darem um jeito de inventar um sensor - hoje em dia tudo é sensor, mesmo - que "capte", como num passe de mágica, a voz escrita do autor. Já não existe um que capta a voz falada? Então.

A delegacia não foi criada para isso? Ou o senhor fica o dia inteiro aí jogando paciência? Tenha a santa paciência!!!



12 abril 2002

Mudei de idéia. Vou deixar mais esse texto, antes de viajar. Beijos!
*******


Quanto vale uma escova grátis?



Bíbi Da Pieve



Imagine que o seu casamento esteja meio sem graça. Precisando de um
tempero - que você cisma em chamar de "investimento".

O Adelmo anda distante, e, quando resolve chegar mais perto, você não quer
saber.

As afinidades evaporaram depois do primeiro ano de convivência. Faz três anos
que vocês se enfiaram nesse quarto-e-sala com paredes descascando. Tudo ia muito
bem, ele até fazia as suas unhas de vez em quando. Mas, hoje em dia, o clima é de
cortar com a faca: mal se olham.

Antes que as paredes desabem de vez - você pensa -, é melhor eu investir no
meu relacionamento.

Pronto. Parece que o mundo inteiro adivinhou suas necessidades: internet,
televisão, revistas, livros e sex-shops oferecem rápidas e práticas soluções para o seu
problema.

Será que isso é um sinal? - você questiona -, ou toda essa indústria já exisitia
antes do Adelmo, e já torcia para que eu o encontrasse um dia, casasse com ele, e,
depois de três anos, decidisse investir num relacionamento mal das pernas?

Não importa. O Adelmo vale o investimento; você saca meia-dúzia de manuais
sobre casamento, uma camisola de rendinha, faz o pé e a mão no salão mais caro, e
ainda sai achando que está no lucro - ganhou uma escova grátis.

Devorados os livros, decoradas as dicas práticas, entendidos os fundamentos
psicológicos das diferenças entre os sexos, alisado o cabelo e lixado o pezinho - você
está pronta para mudar de vida. Afinal, o Adelmo é o príncipe que todas as suas amigas
pediram a Deus (lindo, alto, louro, vinte e tantos), e você prometeu a si mesma um
happy end digno de Hollywood.

Mas faltou um detalhe: um bom vinho, para brindar à lua-de-mel do
investimento.

Atrasada, você passa na delicatessen mais próxima ao quarto-e-sala
descascado, desce do ônibus num pulo, quebra o salto, e cai de joelhos na sarjeta.
Chove muito. O cabelo empaçoca e espiga.

É quando aparece, do nada, o gaúcho Kleiton - que você não vê há uns quinze
anos -, e lhe dá a mão. Você levanta, gagueja; não sabe se ri, chora, abraça, beija ou
engole o salto quebrado.

E você também não sabe há quanto tempo não sente isso, mas desconfia que
faça uns quinze anos - desde que o Kleiton, seu amor platônico de adolescência,
resolvera ir tocar percussão no Canadá.

Agora ele deve estar com quase cinqüenta; é baixinho, careca, meio
barrigudinho, mas continua com o mesmo olhar: desconcertantemente percussivo.
Durma-se.

Mas como, se você não deixou passar uma linha? Se você decorou todas as
dicas, comprou os melhores perfumes, usou os melhores esmaltes - como é que pode,
agora, um batuqueiro sulista vir atrapalhar o seu investimento no Adelmo?

Acontece, minha cara. Esse tipo de Kleiton não escolhe suas vítimas. E a
maioria dos manuais de "felicidade" não vêm com a letra "k" no índice.

Nada contra os Adelmos, os livros de auto-ajuda e as pedicures. É que -
particularmente - tenho uma quedinha pelos saltos quebrados, pelos encontros
inusitados, e pelas tempestades - que são intensas justamente por serem naturalmente
crespas, sem investimento algum.

E sem escova grátis.

Deu pra ti
baixo-astral
vou pra Porto Alegre
tchau!
*******

Caros navegantes: estou com os dedos cheirando a bergamota (também chamada de "tangerina" e outros nomes). Acabei de tomar o café da manhã - duas bergamotas lindas, faltando um dia para pousar na Porto Alegre linda que não vejo há quase um ano.
Vou ficar lá por uns tempos. Portanto, não estranhem se eu me ausentar por uns dias; ainda não sei quando terei acesso à rede, pois o micro da minha mãe não anda muito coerente das ciber-idéias.

Dou notícias do Rio Grande do Sul (céu, sol, sul, terra e cor) assim que puder, prometo.

Ah, sim: se estive ausente nos últimos dias, foi porque uma infecção das brabas veio parar justo na minha garganta - o pedacinho de que eu mais gosto no meu corpitcho... oh!, que meigo, já posso ir para a Casa dos Artistas!

Da noite para o dia, literalmente, minha goela se dividiu ao meio - uma couve-flor de cada lado -, e a dor não era brincadeira, não. Você já teve as amídalas comparáveis à couve-flor? Nem queira. Dá até febre.

Hoje de manhã, acorei bem melhor. Febre nenhuma, e couve-flor já com ares de cereja novamente. Graças a Deus e aos meus exercícios energéticos com luz verde.

Mas ainda dói bastante; por isso, nem vou falar muito hoje. He-he.

Beijos a vocês, e até o sul.

09 abril 2002

Pois, ainda falando em mascavo: coincidentemente, assisti a uma palestra com um médico e cientista biológico, Dr. Augusto Vinholis, muito interessante.
Sabe o que é doença degenerativa, né? Diabetes, cistos e tumores diversos, artrite, e outras coisinhas do tipo.

Diz o doutor que o açúcar mascavo contém selênio - ótimo no combate aos radicais livres, que, quando produzidos em excesso, acabam oxidando as nossas céulas, e causando os males acima citados.

Já o açúcar refinado, o branquinho (e o cristal entra na roda, sim!), além de não conter selênio, ainda conta com diversos produtos químicos - e, pasmem!, CAL. "Sim, CAL de pintar parede, mesmo!" - enfatiza o médico. Coisa que é cancerígena; alías, não é muito difícil imaginar por quê. Fico aqui incomodada com a imagem das minhas tripas sendo pintadinhas de branco. Acho que vou comer uns quadros, para completar a "decoração do interior". E uns pregos, claro. He-he.

Saindo um pouco dessa apologia ao mascavo, vamos falar de vacas.

Dr. Vinholis atenta para o fato de não existir, no planeta, uma vaca sequer com osteoporose. Como se sabe, vacas só comem capim. E produzem leite, que é rico em cálcio!!

Como assim??

É o seguinte: anote aí uma expressão que está sendo muito difundida na biologia moderna - energia vital dos alimentos.

Doze horas deopois da colheita, os alimentos mantém as vitaminas e os sais minerais, mas perdem o que há de mais rico: justamente a energia vital. (Aliás, existe uma mulher genial, professora - de design! - aqui da PUC-RJ, chamada Ana Branco. Ela desenvolve pesquisas e faz experiências interessantérrimas envolvendo alimentos, que vão além das suas meras qualidades nutricionais. Eis a nutrição do futuro.)

Voltando à vaca fria, então o segredo da Mimosa é este: comer capim fresquinho, recém colhido - por ela mesma, aliás. Quanta eficiência!

Se comêssemos frutas, verduras e hortaliças algumas horas após a colheita, teríamos ossos mais rígidos que os seios da Feiticeira. Tá bom, quase mais rígidos. Mas já é lucro!

Eu sei que não dá para ter uma horta dentro do apartamento. Mas, se pudéssemos ter uma dentro do condomínio, já seria uma boa. Inclusive - e sobretudo - para as crianças.

E o Dr. Vinholis adverte: nunca é tarde para mudar. Não existe essa coisa de "estou muito velho, agora não adianta mais". Pesquisas recentes atestam que os seres humanos são extremamente receptivos às transformações. Nossas células se regeneram rapidinho; mesmo as pequenas mudanças são sentidas sensivelmente pelo organismo.

Para terminar: aquelas vitaminas de farmácia têm uma eficácia de apenas 5%. Sabia disso??

Eu nem imaginava. Jurava que era pá-pum. A indústria farmacêutica-me-engana-que-eu-gosto faz parecer tão bom... e os preguiçosos, aqui, preferem ingerir pílulas mágicas - assim como preferem ganhar dinheiro no show do milhão, ficar famoso através da casa dos artistas, almoçar Mac Pronto, etc... pena que o atalho sai caro.

Beijos!
Bíbi.

07 abril 2002

O último post foi duplamente postado. Que posta.

Queria agradecer às visitas ao Biblog; tenho recebido e-mails gentis e carinhosos. Continuem visitando.
Prometo que a coisa vai ficar mais animada com o passar do tempo.

Beijos,
Bíbi

06 abril 2002

Músico, quando chega de show, parece que não vive: paira.

Aquela barulhenta combinação de sons - bumbo, caixa, pratos,
guitarra, teclado, baixo, vozes e gritos da platéia
- é a própria receita
para a loucura desmedida e crônica. Afe!!

Acabei de tomar meu leite morno (com uma colherinha de açúcar
mascavo); vou dormir.

Por falar em mascavo: viva o mascavo. Viva o não-refinado, viva o grão
grosso, e viva o tosco.

Amor e arroz, só se for integral. O nome já diz: in-te-gral.

Salve a decoração rústica, os tons terra, e os momentos não-lapidados.
Abaixo a farinha branca, abaixo os conservantes, os estimulantes, os
fortificantes - e outros antes mais.

Essa indústria dieticida já foi longe demais... o mascavo é um bom
caminho de volta.
Músico, quando chega de show, parece que não vive: paira.

Aquela barulhenta combinação de sons - bumbo, caixa, pratos, guitarra, teclado, baixo, vozes e gritos da platéia - é a própria receita para a loucura desmedida e crônica. Afe!!

Acabei de tomar meu leite morno (com uma colherinha de açúcar mascavo); vou dormir.

Por falar em mascavo: viva o mascavo. Viva o não-refinado, viva o grão grosso, e viva o tosco.

Amor e arroz, só se for integral. O nome já diz: in-te-gral.

Salve a decoração rústica, os tons terra, e os momentos não-lapidados. Abaixo a farinha branca, abaixo os conservantes, os estimulantes, os fortificantes - e outros antes mais.

Essa indústria dieticida já foi longe demais... o mascavo é um bom caminho de volta.

04 abril 2002

Pior que a fome, pior que o tiro, pior que o câncer, pior que a
depressão, pior que o tráfico, pior que a inveja, pior que o próprio ódio
desmedido que alguém possa ter por outro alguém ou por muitos, ou
por todos - é pior.

Pior que tudo isso, sem dúvida, são esses programas de televisão que
expõem seres humanos se engalfinhando por qualquer motivo baixo,
não interessa qual. Não importa.

E conseguem incentivar o que há de mais podre no mundo - o deliciar-
se com a desgraça alheia. O inacreditável fato de alguém se deleitar
observando os conflitos dos outros, por puro esporte, por pura opção.

E não digam que é falta de opção, porque qualquer mico escalando
árvore é meio mais saudável de se entreter numa tarde ociosa.

E não digam que é falta de opção, porque eles, sim, têm opção: estão
com as câmeras nas mãos, dispõem da tecnologia e dos talentos
necessários. Poderiam criar qualquer coisa. Poderiam filmar o que
quisessem, são "livres" - aí, cometem o CRIME de tirar da cartola um
punhado de lama, e atiram na nossa cara.

Por pura opção.

Fariam menos mal à humanidade se filmassem micos escalando
árvores, a tarde toda.

Desculpem o meu espírito suíno - foi a lama que me deixou assim.

31 março 2002

Feliz Páscoa pra vocês!!
Já estou com o micro novo em casa. O difícil é pegar o hábito de escrever regularmente, de novo, mas eu chego lá.
Faz um calor de derreter gaúcho aqui no Rio de Janeiro; o sol não está de brincadeira.
Se a cidade não virar lava, haverá show da Ana Lógica, na Nuth, sexta-feira (05/04). A Nuth fica ali na Armando Lombardi - Barra da Tijuca.
Se a cidade virar lava, vai ser a primeira vez que eu vou me bronzear no Rio de Janeiro, desde que cheguei, há quatro anos.
Tudo tem seu lado bom, vejam.
Você imagina como está a praia, hoje? Tenho preguiça até de sair de casa. Deve ter guarda-sol de dois andares, de tanto que a galera gosta de se amontoar ali quando tem sol forte.
Ontem eu fui, mas já passava das 6h da tarde. Agradável. Um pouco sujinho, mas agradável.

Taí coisa que eu não entendo: na sua casa, você deixa a latinha de cerveja atirada no chão, e depois vai embora?

Mas a Terra tá virando a casa da Mãe Joana, mesmo. Criamos um mundo de mentirinha, e estamos acreditando nele. Como eu dizia ontem a uma amiga: é pena que as balas também não sejam de festim.

22 março 2002

- Alô?
- Vontade nenhuma de falar contigo agora.
- Sara...
- O interfone está tocando.
- Não mente, não estou ouvindo nada!
- Se você ouvisse alguma coisa, teria me ouvido quando eu pedi. Insisti. Quase implorei por sinceridade. (...) É a pizza, Marco Antônio. Deixa eu ir lá.
- Sou menos importante que uma calabresa, então?
- Rúcula. Há dois anos que eu sou vegetariana, e vivemos juntos há três. No entanto, você ainda está no tempo da calabresa. Ficou lá. No passado. Marco Antônio: pega você, a Moniquinha e a sua calabresa, e...
- Te amo.
- Mas acabou. Tchau.

22 janeiro 2002

Pessoal,

que coisa chata. E eu vinha me divertindo com isto.

Aos navegantes: ainda estou sem micro. Não foi só o modem que queimou - complicou geral, e agora só comprando outro computador.
Sinto muitíssimo! Mas vou comprar outro, e volto em breve.
Beijos,
Bibi.

29 dezembro 2001



Esta foto está em http://www.olivieranquier.com.br/

Se tem uma mulher feliz de marido neste mundo - além da minha mãe, é claro -, esta mulher se chama Débora Bloch. Tudo bem, a Marília Gabriela não conta, que aquilo nem é marido - é uma ostentação em perna e osso.

Olivier Anquier é o nome do maridão da Débora. Um francês de tirar o fôlego.

Já assistiram ao Dário do Olivier, no GNT? Não perco um. Com todo respeito. Trata-se de um programa culinário - acreditem se quiser, o homem ainda cozinha.

Cá estava eu, ontem, observando atentamente a explicação do Olivier acerca do fermento. Nunca tive tanto interesse pelo fermento antes. De uma hora para outra, o fermento tomou conta da minha noite. Ah, o fermento... (suspiro)

Dizia aquela doce criatura de qualidades redundantes, bem dentro da minha telinha, que o fermento é uma bactéria. "Um ser vivo, como eu e você". De repente, passei a enxergar as bactérias com outros olhos - tudo tem seu charme, não é verdade? Ah, a bactéria... (suspiro)

E o Deus da culinária prosseguiu: "Vocês sabem como é que o fermento faz o pão crescer? Pois ele se alimenta dos açúcares presentes na farinha. E, como tudo que entra tem de sair, o bichinho elimina o que comeu..."

Cocô de bactéria. Eis o princípio do crescimento do pão. Segundo o maridão da felizarda Débora, o bicho-fermento come o açúcar da farinha, e "libera" - para não usar outra palavra - gás carbônico. Isso mesmo. O excremento do fermento é - veja que amor! - gás. Não é lindo? (suspiro)

Em outras palavras, poder-se-ia dizer que o pum da bactéria é que faz o pão crescer. Ah, o pum da bactéria... (suspiro)

Desliguei a TV, e fui dormir contando bacteriazinhas. Hoje, bem cedinho, fui à padaria e comprei meia-dúzia de pãezinhos franceses.

Ah, as metáforas da vida... enquanto a Débora saboreia um pão francês de cerca de 80kg, eu me contento esfarelando bactérias - e furando bolhas de pum com os dentes.

Não há nada mais romântico nesta vida.

*Notícia importante: agora, você encontra os pães do Olivier somente nos supermercados Pão de Açúcar!