10 março 2005

As pontas do tempo


Vieram muitas coisas à minha memória nesses dias. Sempre tive a sensação (ilusão? - eu gosto igual) de que, em determinados momentos da vida, as pontas dos lençóis vão se encontrando - e a gente vai dobrando o tempo, aqui e ali, unindo passado e presente num só gesto, numa só reflexão, sacada. Às vezes, num só golpe.

Mas tudo isso é fazer a cama dos dias. Não importa se mais ou menos doces, mas dias, dias e dias – é o que temos por aqui.

Em alguns dias, parece que a coberta encolhe a ponto de se tornar um lenço - e aí se aproveita para chorar. Noutros, sentimos como a navegar por lençóis d’água tão imensos, tão frescos e tão macios, que nos resta relaxar e gozar o balanço. Sem questionar a estrutura da cama, se há cama, se há guarda, se há chão, céu, qualquer porcaria que se crie para submergir de um sonho bom. Épocas de lençóis d’água, das quais herdamos memória aquática - aquela imagem sutil, azulada, tenra, difusa. Bêbada. Algumas coisas eu nem sei se aconteceram de verdade, em qual verdade se deram, em qual colchão ou espuma de realidade. Mas juro que vivi.

Unir as pontas do tempo é lembrar uma fantasia de infância, sem pé nem cabeça, que um dia então inventa de cair – cabeça, pé, corpo, saias, rendas e babados – na sua fase adulta, na maturidade, na velhice. Você arruma um emprego qualquer e o lençol apresenta suas pontas: cai uma pluma do passado no agora, e o barulho produzido é coisa que não se explica. Se apavora, se estranha, se reza, se benze, se admira e se convence. Ou não se convence. Mas a cama vai se fazendo igual, independente da crença.

Eu já me peguei tropeçando nas minhas tranças de menina. Desavisada, achei que eram cobras. Atrevida, quis matar no tapa mesmo.

Só percebo
que são as pontas do tempo
quando abro o berreiro
e não sei mais se sou
a mulher
que chora pelo medo das cobras que não morrem
ou a menina
que chora pela dor dos tapas que não matam.

08 março 2005

Felicidade:
O quadro perfeito
sem a moldura

Às vezes espalha
por tudo

Às vezes escapa
por nada.

03 março 2005

Estou digitando direto aqui na página do Blogger, sem editor de texto e num teclado estranho. Perdoem qualquer letra trocada, please.

Chove sem parar aqui no Rio. A temperatura baixou um pouco, chegou a um nível em que a gente até consegue variar um pouco o pensamento. Nos último dias, vinha pensando uma palavra só: quero-me-atirar-num-poço. Ponto final.

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Vocês viram o Oscar?

A moça do Titanic (que também fez o ótimo "Bilho eterno de uma mente sem lembranças"), vestido e olhos azuis, era a mais bonita do fandango. (Fandango é melhor que "cerimônia", não é? Mais animado).

Johnny Depp tenta fazer o tipo estiloso, coitado, mas acaba ridículo mesmo. Julia Roberts continua linda, e não dá sinais de desistir. No DiCaprio eu não vejo qualquer graça.

Al Pacino, ô, envelhece bem.

Melhor ator para Jamie Foox (Ray Charles), achei superjusto.

01 março 2005

Saudade


Não essa saudade de longe, de um passado remoto, da infância, dos doces, das mãos macias da mãe na nossa testa conferindo a febre. Saudade de perto. Saudade só de rosto, saudade preto e branco e 3x4.

Saudade do que se viu no espelho do banheiro um dia desses - num desses dias que não sabem se vestir conforme a idade que têm: pernocas de fora, teimam em parecer eternamente ontem.

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Agarrou


Não sei de outros estados, mas o carioca diz uma coisa muito engraçadinha que é “agarrou” – para quando alguma coisa ficou presa, trancada, mesmo enguiçada em alguns casos. Então, diz-se:

- Ih! Cuida ali, que o portão ficou agarrado...
- Abre o vidro (do carro), que o cabelo dela agarrou na janela!
- Puxa com força, que essa porta é assim meio agarrada mesmo...

No RS, agarrar é muito mais usado em casos onde o sujeito é um elemento humano; ou, pelo menos, um ser vivente. Dois namorados se agarram. Vá lá, o cão agarra a cadela também. Mas, esse negócio de porta agarrar, primeira vez que vejo é aqui no Rio.

Minto. Minha avó (gaúcha) já dizia:

- Fulano era um baita vagabundo. Foi a mulher engravidar, ele garrô a trabalhar feito um cavalo!

Mas aí não é agarrou. É garrô. E tem o cavalo, né.

Enfim, regionalismos.

24 fevereiro 2005

Pazes

Voltamos às boas, o servidor e eu, como podem notar. Sempre por intermédio de amigos, claro, porque eu não converso diretamente com ele. E – devo dizer - muito menos ele comigo.

***

Da Conceição, minha manicure predileta, que voltou a trabalhar no salão – não o meu predileto, mas o mais próximo:

- Negócio é o seguinte, dona Bíbi. Quando eu amo, eu amo. Quando eu odío, eu odío!

***

Olha a folga do cara da farmácia. Fui pagar uma vitamina C e uma pasta de dente. Ele, animado:

- A senhora é assinante do jornal O Globo?
- Sou, sim.
- Está com a carteirinha aí?
- Estou. Tem desconto, é?
- 12%, senhora. Não é legal?
- Muito.

Enquanto ele mexia no computador, observei que havia também desconto para segurados do Bradesco Saúde.

- Tem também desconto para o Bradesco Saúde?
- Ah, tem sim, mas é só para alguns medicamentos.
- Vitamina C, não?
- Deixa eu ver aqui... olha, tem! E o desconto é ainda maior: 20%! Olha que máximo!

“Olha que máximo”. Tá bom.

- Não quer aproveitar e levar mais uma, senhora?

Caí na cantada dele. Aceitei mais uma vitamina C. Pra quê? Parecia que eu tinha aceito um drinque num barzinho de beira de estrada. Ele era só sorriso. E tinha um par de dentes da frente que, por Deus, ofuscava o resto do elenco. Quase as finadas torres gêmeas. Eu só queria ir embora dali.

- Já viu o nosso catálogo? Tem muita coisa com desconto...
- Obrigada, mas estou com um pouquinho de pressa...
- Ah, vai! Dá uma olhadinha!
- Realmente, preciso ir.
- Os protetores solares estão suuuuper em conta. Você gosta de ir à praia?
- Eu? Com essa cor? Tá bom.
- Eu reparei! Com essa pele branquinha, tem que se proteger...

Aí eu não agüentei, e baixei o tom da voz (em uma oitava):

- É. TENHO QUE ME PROTEGER MESMO. TCHAU, MOÇO, TCHAU.

E vim-me embora, me protegendo da vontade de detonar o casal de protagonistas daquela arcada dentária mal projetada. Ele ia ver o que a minha mão branquinha fechada seria capaz de fazer na fachada odontológica dele.
Ah, ia bem ver.

***

Socorro. O Barrashopping está in-tei-ro em liquidação. Pena que a moda verão é/foi tão coloridinha-floridinha-viadinha-sandalinha-rasteirinha-vestidinho-esvoaçante-rosinha-azul-bebê. Passei só olhando as faixas: “60% OFF”.

Estou 100%.

***

Minha faxineira saiu daqui indignada, que não sabia o que estava havendo, se era a cera ou o quê: a ardósia tinha ficado toda marcada. Das pegadas dos meus tênis, aliás.

Dona Leida – eu tive vontade de dizer -, se a senhora não tivesse me avisado, eu jamais teria percebido. Marcas? Pra mim, tava um espelho.

Ando mesmo precisando ir ao dermatologista.

16 fevereiro 2005

Testando. Problemas. Testando. Um. Dois. Alou.

15 fevereiro 2005

Trabalho sujo
* da série: nós não vale um avulso, mas se ama de balaio.

Estamos olhando um daqueles programas de “transformação” (antes e depois) de um canal a cabo. Aparece a mulher sendo transformada. Maquiagem. Cabelo. Roupas.

De repente, entra uma imagem dela “antes”. Meu irmão olha, compenetrado. Suspira lento, e reflete:

- É... alguém tem que fazer o trabalho sujo.
Insônia em 15 marteladas


1. Deram para fazer obras no apartamento vizinho. Começam às 9h da matina. Todo dia. Sábado incluso. Show de bola.

2. Fui jogar o lixo no duto hoje, e dei uma espiadela para dentro. Estão derrubando é tudo. Vai sobrar pouco. Olha, nota 10.

3. À tarde, não bastassem as marteladas – que deveriam produzir um efeito relaxante, ao menos neles -, deram para brigar. Bem alto. Um se pôs contra o outro, a gritar.

4. “TU AGORA VAI MANDAR NI MIM? VAI MANDAR? TU AGORA É QUE VAI MANDAR NI MIM, É ISSO???” (Furioso, o do ni mim. Do outro – aquele que, supostamente, mandava - não ouvi palavra).

5. Fiquei aqui bem quietinha, com medo do pior.

6. E o pior se sucedeu. Ou seja, ninguém matou ninguém, e a destruição das paredes prosseguiu. Na mais perfeita paz.

7. Mas podia ter sido diferente. Tivesse o Mandão Mudo alterado – ou sequer emitido! - a voz com o Gritão Ni Mim, quiçá eu acabasse testemunhando uma tragédia grotesca. Martelo em punho, um ofendido Ni Mim estraçalharia a cuca do colega Mandão (agora Fônico, ex-Mudo), dó nem piedade, até que o sangue do atrevido se misturasse à tinta amarelo-manga cuidadosamente selecionada pelos...

8. Cruzes! A propósito, quem foi que escolheu essa tinta???

9. Não vem ao caso, deixemos o mau gosto de lado. Eu contava sobre a sangueira do Mandão (maldita boca!) esparramada pela ardósia do vizinho, atacado que fora pela mão nervosa do parceiro Ni Mim – a essa altura, já ex-parceiro, uma vez que vivo não trabalha com morto; ou, ainda, no caso do Mandão ser do tipo que agoniza-mas-não-faz-a-passagem, na certa não ia mais querer Ni Mim a martelar tão perto.

10. Fosse eu, não ia querer.

11. Tragédia por tragédia, melhor completa. Vamos que Mandão morra. Ni Mim vai preso, e, na cadeia, desprovido de ferramentas para quebrar tijolos e/ou abrir cocos, acaba também se desapegando desses conceitos rígidos - ni mim ninguém manda, ni mim ninguém isso, ninguém aquilo. Com o tempo, esquece.

12. Mas fica o apelido: Ni Mim. Um dia, a psicóloga da penitenciária pergunta se ele guarda alguma mágoa, ou se lembra quem lhe deu tão ímpar codinome. E a ferida se abre outra vez.

13. “Foi a mulher do 103. A metida que me dedurou. Por isso estou aqui.”

14. Comecei a escrever esta merda de madrugada. Agora mesmo é que não durmo mais.

15. E o pior é que as obras começam às 9h. Em ponto.

10 fevereiro 2005

Closer – Perto Demais
Com: Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen


Vocês assistiram?

Eu gostei muito. Bom texto, boas atuações, ótima música. Desconcertante em alguns momentos, cruel, sensível, sobretudo: curioso.

Um nó na garganta se instala logo no início, com uma palhinha da balada “The Blower´s Daughter” - do irlandês Damien Rice -, e termina quando sobem os créditos, com a execução da canção inteira.

Me chamou a atenção, e fiquei curiosa para ouvir mais Damien Rice. A música é triste e bela; é despretensiosa, mas o cantor parece honesto e não tem vergonha de soltar a garganta em certos momentos – diferente daqueles vocalistas depressivos-por-encomenda que a gente está cansado de ouvir desde os anos 90, e que se proliferam, cabelinho de recém-acordado, entrevistas para a MTV com aquele tom aborrecido, pés para cima, tipo: estou no sofá da minha sala e minha mãe me traz torradas quando eu grito.

Para isso, não tenho saco. E não tenho filho desse tamanho – por mim, morre sem torrada.

Não conheço Damien Rice, mas a primeira impressão foi boa. Se alguém tiver curiosidade, pode ouvir “The Blower´s Daughter" aqui (clique para entrar no site do filme, depois procure a música - embaixo, à direita).

04 fevereiro 2005

Folia


Passando por aqui para desejar boa folia aos foliões, e boa folga aos (ops!) folgados.

Eu sou da ala da folga. Gosto de sono espichado, conversa arrastada e calça caindo.

Conto um causo. Teve um carnaval aqui em casa, há uns dois ou três anos, que decidimos “cair na folia”. Sim. Apelidamos os nossos colchões de “folia”. Jogamos a folia toda no chão da sala, compramos litros de sorvete e caímos de boca.
Foi um sucesso.

Ano passado, contudo, inventei de ir ao famoso baile do Scala. Não tinha a menor graça morar no Rio e nunca ter ido ao Scala. Adorei, claro. Mas paguei muito caro, explico: a exagerada aqui foi com um salto deeeeesse tamanho, e pulou a noite toda. “Quicar” seria a palavra exata – sambar, não sambo, me falta talento. No dia seguinte, minha coluna - que já não andava nada boa - deu sinal de que ia pedir demissão.

Fui ao médico, e o diagnóstico me tirou do salto: hérnia de disco. Puxa, como isso maltrata a pobre foliã... judiaria.

Portanto, neste ano não estou para briga. Não me chamem, que eu não vou!

Prefiro manter a hérnia sob controle e os dois pés firmes no chão. Sempre no salto, claro.

Que nóis enverga mas não quebra!
Big Mac

Eu sei! Eu sei que vocês estão cansados de passar por aqui e encontrar, em vez de croniquetas engraçadas do dia-a-dia, um ou outro poeminha-fast-food (com a diferença de que ninguém aqui pediu pelo número, mas eu jogo no balcão mesmo assim). Eu sei que vocês estão fartos da minha comidinha sintético-literária. Mea culpa.

Minha sorte é ter cultivado amigos leitores - e leitores amigos - que voltam, faça chuva ou faça sol, ainda que eu não mereça. (Bolero ao fundo - fade in).

Ah, eu sei que vocês voltam. Meu contador denuncia. Almoçam em outros restaurantes, mas dão uma passadinha aqui para o cafezinho. E ainda saem sem fazer barulho, para não me acordar.
(Bolero – fade out. E sobem os créditos).

***

DVD

Diquinhas de filme? Estou um pouquinho atrasada com os lançamentos. Os últimos dois que eu vi (e valem a pena!) são:
Cold Montain – com Nicole Kidman e Jude Law, ambos em brilhante atuação. Drama de amor e guerra, filmão, não percam.
Sobre Meninos e Lobos – suspense barra pesada, com Sean Penn no papel principal. Aplausos mil.

***

Cinema

Faz tempo que não vejo algo realmente empolgante. A continuação de Onze Homens e um Segredo (que eu adorei), Doze Homens e Outro Segredo, vale pelas “estrelas” e pela trilha sonora. Pouco mais do que isso. Meu irmão observou: as tomadas também são muito bem feitas. Vá lá, é verdade. No mais... menos.

Outra experiência pouco feliz foi Os Sonhadores – o último do Bernardo Bertolucci. Aí vocês vão me desculpar, porque eu sei que não pega bem falar mal de filme do Bertolucci, mostra que a pessoa... bem, não sacou a poesia. Para dizer o mínimo.

E eu não só não saquei a poesia, como achei o filme chato, aborrecido. Diálogos do tipo “para causar efeito”, frases jogadas como quem dá uma cartada. Dois meninos pelados e uma menina peluda – pelada -, num jogo sexual que até podia ser interessante, do ponto de vista psi-qualquer-coisa, mas, sorry, ficou muito aquém. E olha que não sou de usar “aquém” gratuitamente.

Várias citações do cinema (uau, clássicos!) funcionam como uma piscadela cúmplice para o expectador cinéfilo, que aí se identifica total. Para completar – já ia me esquecendo -, o filme é sobre o famoso maio de 1968 em Paris, protestos estudantis etc. Outra coisa que funciona. E a trilha é recheada de estrelas do rock dos anos 60. Funciona.

No fim, é muita coisa que funciona - que quer mostrar, que quer dizer, que quer chocar, que quer... o filme quer muito.

Nada contra querer, mas o resultado final não me pegou – nem pela poesia, nem pela crítica, nem pela garganta, nem pelo sexo... Não bateu.

Ou vai ver que eu não peguei, sabe, a poesia.

***

Livros

* Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século

Eis um livrinho fofo, de bolso, que o escritor Marcelino Freire teve a boa idéia de lançar e fez bonito. Nele, 100 escritores foram desafiados a escrever “algo relevante” de até 50 LETRAS. (Isso mesmo, 50 letras!).

O resultado é uma delícia. Você abre em qualquer página e se põe a aperitivar pequenas pérolas literárias contemporâneas – despretensiosas, bem humoradas, e, sobretudo, enxutas.

Tem Millôr Fernandes, Adriana Falcão, Xico Sá, Glauco Mattoso, Márcia Denser, Moacyr Scliar, Fabrício Carpinejar, Jorge Furtado... (e mais 92, naturalmente).
Podendo, comprem!

* Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria – organização: Joaquim Ferreira dos Santos

Mas eu ando enamorada é do Antônio Maria (1921 – 1964), com esse livro de crônicas que é uma aula do gênero – quase todas dos anos 60, publicadas no Última Hora, mas atualíssimas. Pelo jeito, ele era mesmo uma figura. Olha só o que eu tirei do site Releituras, sobre o próprio:

(...)
Carlos Heitor Cony dizia que se o autor fosse mandado para cobrir a posse do papa, voltaria cardeal.

Cony conta: "Um dia, Maria me telefona: — Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou." Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias, de Cony. Aproximou-se, se apresentou como o autor do livro, e a mulher, uma típica apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso, que as mulheres o abandonavam. "— Mas, Maria..." era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. "— Fica tranqüilo, Cony, fica tranqüilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama." E Cony, curioso: "— E ai?" "— E aí foi que aconteceu o problema" — gargalhava Maria. "— E ai você broxou, Cony, você broxou!"

02 fevereiro 2005

Singela

Tinha, na vida,
necessidade singela:
uma janela com vista pro mar
um homem com vista pra ela.

22 janeiro 2005

1 X 0

Então ele vinha
E me cochichava:
Sentia a minha falta.

(que modéstia –
eu apito!)

Falta
Ao pé do ouvido
É pênalti.


2 X 0

Então ele chutava
Minha cor preferida
Acertava
Meu prato
Acertava
Meu filme
Acertava
Bebida
Acertava
Carinho
Acertava

Parou na minha frente,
Ajeitou,
Concentrou,
Bateu.

Abri bem os braços
Errei o canto
Aliás, nem pulei
Não deu.

15 janeiro 2005

O sangue era de Patrícia


O elenco do meu salão de beleza favorito entrou na guilhotina: rolou a cabeça da minha manicure-nota-dez, Conceição, eu me lembro muito bem, uma negrona alta de traços belíssimos e cachos aplicadíssimos – do tipo olhando-ninguém-diz.

Que judiaria.

Mandaram embora também outras tantas, simpáticas, risonhas, um pouco indelicadas, é verdade, mas ninguém é perfeito. Indelicadas no trato, eu digo. Porque, no alicate – vamos ao que interessa -, eram todas muy competentes. Bife meu, ninguém jamais arrancou ali.

Hoje, mudado o time, tive o prazer de estrear uma novata. De nome Patrícia. E foi só o que ouvi dela durante o serviço todo; ainda assim, depois de muito esforço.

- Como é o seu nome?
- Patrícia.
(Sabe a pessoa que fala para dentro? Impossível ouvir).
- Hein?
- Patrícia...
(Agora, para dentro e com a cabeça baixa).
- HEIN??
- Patrícia.
(Corou. Que meigo. Enfim, ouvi o nomezinho da moça).

- Prazer, Patrícia, eu sou a Bíbi.

Mas ela nem tchuns pra mim.

Patrícia Hein?, para meu desespero ainda maior, levou uma hora e quinze minutos para fazer a minha mão. Eu bufava, sonolenta e quase criando remelas, quando ela foi ao pé.

Duas horas depois de eu ter sentado à sua frente (juro!), Patrícia finalmente terminava o serviço. E eu abreviava aquele tormento quanto podia:

- Deixa só a base, só a base mesmo. Tá óóótimo.

Aos 45 do segundo tempo, a pobrezinha se vê nervosa e fura o próprio dedo com o alicate de cutícula. E jorra sangue de Patrícia por tudo.

Então ela abre a boca, mais constrangida ainda:

- Desculpe... a senhora me desculpe... o alicate estava muito amolado, sabe como é... a senhora quer que eu pare? Não, por mim continuo, não dói nada. Eu termino rapidinho. É que tem gente que não gosta de sangue, digo, de quando sai sangue, né. Eu termino, nem dói.

Depois de perguntar se ela tinha certeza que não queria fazer um curativo (o sangue nem era tanto, e não encostava em mim), deixei que terminasse o serviço – que, afinal, já estava quase pronto mesmo.

- Só queria pedir, assim, se a senhora não se incomodasse... que avisasse à moça da recepção, na saída, que eu me cortei, e sujei a toalhinha de sangue, mas foi com o meu sangue, não o da senhora... isto é, que eu não machuquei a senhora, né... senão elas podem pensar... e eu comecei ontem no salão, sabe como é...

Claro, claro, sei como é.

Na saída, fui até a recepcionista – uma loura hiper-extra-maquiada que me olhava com dificuldade enquanto eu falava, como quem faz esforço para entender, sei lá, Sartre.

- ... então... o sangue é dela, não é meu.

Ela franziu a testa, e coçou a barba (ops!).

- Entende? A manicure pede para avisar que o sangue que está na toalha é dela...

Parece que caiu a ficha...

- Aaaaaaaaahhh! Sim...

... mas não caiu:

- Tudo bem, está avisado. Mas, também, se o sangue fosse da senhora... (faz uma cara de “não nos incomodaríamos, não somos preconceituosas, a senhora deixa o seu sangue onde quiser, não nos importamos”.

- Ok. Bom 2005 pra você.

11 janeiro 2005

Preferências


Dos dentes,
os da frente.

Dos defeitos,
Os visíveis.

Dos vícios,
Os indecentes.

Dos versos,
Os indizíveis.

Das cruzes,
As portáteis.

Dos credos,
Os mutáveis.

Das armas,
As esquecidas.

Das guerras,
As vidas.

09 janeiro 2005

A mãe fora

Descobri que este blog perde um pouco o sentido sem a minha mãe.
Volta logo, mãe!!!

Ou acha um cyber-café e vem me ler - entre uma bronzeada e outra. Hoho.


A mãe dentro

Minha mãe inventou uma brincadeirinha – e, como toda mãe que se preze, viu-se escrava dela em poucos dias. Era a brincadeira do “com o que é que parece”.

- Manhêêê! Diz com o que é que parece!!!

Foi assim. Um belo dia, tentando nos convencer a ir para a cama, ela anunciou: vistam o pijama e vão para a cama, que depois a mãe vai lá dizer com o que é que parece.

- Como assim???
- Vou dizer com o que cada um de vocês se pareceu durante o dia!

Uau! Nos empolgamos e vestimos o pijama, pronto, mãe, vem dizer com o que é que parece! E ela veio mesmo.

Disse que eu hoje pareci com uma coruja, sábia, concentrada – pois tinha passado o dia “estudando” (eu tinha uns 6 anos, aprendia a ler e rabiscava coisas ininteligíveis num bloquinho qualquer). O mano, por outro lado, tinha se parecido com uma formiga. Trabalhara duramente, ajudando o pai na organização das compras do mês.

Noite seguinte, a mesma coisa. Mas não valia repetir bicho (criança é exigente, você sabe).

Eu era uma cantante cigarra; o mano era um cão amigo. Eu era um dócil cordeiro; o mano era uma lebre veloz. Eu era um bicho-preguiça.

- Bicho-preguiça, mãe???
- Sim, senhora! Não fez nada o dia todo!!!

Sim, valia ralhar na brincadeira (mãe é implacável, você sabe).

Um dia ela ameaçou encerrar a brincadeira.

- Hoje é o último dia!
- É nada!!! (Em coro).
- É sim!!!
Beiços inconsoláveis. Fazer o quê. Se a mãe diz. Pijama. E cama.

- E então? Hoje parece com o quê??
- Hoje não parece com nada.
- ???
- Parece com nada! Não era o último dia? Então! Não parece com nada!
- Como assim, COM NADA???

Ela ficava nervosa, encabulada. Engasgava.

- Vocês são meus filhotes lindos, é isso. Não se parecem com nada, com bicho nenhum. Hoje é só pra dizer que eu amo vocês, que vocês são a coisa mais linda de mamãe, que eu tenho o maior orgulho de vocês, que nem mesmo a selva inteira seria bastante para representar quantas qualidades vocês têm, quantos carinhos vocês me fazem, quantas alegrias me dão. Nem sei o que dizer, olha, estou emocionada aqui. É que vocês são... su-pim-pas!!! E durmam bem.

E beijou a nossa testa, apagou a nossa luz, fechou a nossa porta. E saiu, de mansinho (mãe sai de mansinho, você sabe).

Cinco minutos de reflexão, no escuro. Um de nós quebra o silêncio.

- Ela não sabe o nome de mais nenhum bicho.
- Que nada, é má vontade mesmo. Tinha um monte, ainda.
- Tinha mesmo, eu sei...
- Pato, por exemplo. Pato já foi?
- Pato não foi.
- Sapo foi?
- Foi nada.
- E rato?
- Ui, rato é nojento!
- Tá, sei lá... mas é melhor que SUPIMPAS, não é?
- Ah... é, deve ser.

07 janeiro 2005

Coisa de mulher


Acho que esse calor que tem feito é uma coisa medonha, mas tem, sim, um lado feminino muito forte. E não estou falando de bundas e peitos à mostra. É outra coisa, muito mais sutil.

Quer uma imagem?

A mulher, com calor, prende o cabelo pra cima de qualquer jeito – com uma caneta, com um grampo, o que tiver pela frente. Fica aquele coque meio despetalado, improvisado; isso é feminino até o último fio. A gente sabe. Brincava de prender o cabelo assim quando estava sentada à frente do coleguinha mais bonito da turma. Sim, seduzir é isto: brincar de hipnotizar o coleguinha.

Algumas vezes na vida gente lembra que é mulher. E não é só na hora do trabalho pesado – depilação, exame preventivo, parto etc -, não. É também quando você se percebe leve como uma pluma, independente da densidade do ar. Do nada, cai na sua testa um cacho delicado que balança, e isso balança o coleguinha, que acaba balançando você de volta.

Lidar com a leveza feminina é uma delícia.
E, quase sempre, é também dureza.

06 janeiro 2005

***1 utilidade

Apareci, depois de muito tempo sumida, numa festinha entre amigos. A primeira amiga me avistou, e logo foi cumprimentando:

- Uau! Coisa mais boa te ver!!

Logo fiquei inchada.

- Ora, obrigada! Eu andava mesmo sumida...
- Verdade! Andava sentindo a sua falta!
- Jura???

E ela esclareceu:

- Juro! Até ontem, eu estava mesmo pensando que era a mulher mais branquela da turma; estava morrendo de vergonha! Não sabe como eu fico feliz em te ver! Me dá um alívio...

Tá bom.
A gente sendo útil para alguma coisa...

03 janeiro 2005

O Tempo

Quando passo a passo
É dança
Quando horas a fio
É trança
Quando em cima do laço
É pressa
Quando menos se espera
Criança

- Espera, tempo!
Apito.
- Espera, tempo!
Repito.
- Espera, tempo!
Insisto.

(O Tempo é surdo)

Desisto.

Levanto
E saio
Passado

Sento
E espero
Futuro.

02 janeiro 2005

Viramos (outra vez)


E então viramos. Quis passar aqui e desejar boas viradas a vocês, mas acabei virando antes, desculpem a minha gafe.

Virei 2004 de ponta-cabeça, agradeci a uns anjos - graça, bênção, flores no caminho etc. Em agosto, mês do cachorro-louco, virei foi o pé. No meio-fio. Fui ao chão mesmo; rompi ligamentos e me desliguei da vida uns 15 dias. Sabe que foi bom? Virei um pouco melancólica, um pouco reflexiva, pé para cima, cabisbaixa. A gente se vira como pode, né.

Em compensação, passada a virada do pé, veio a primavera. Achei até umas flores pela rua, e já virei um perfume goela abaixo. Mania de não saber contar gotas!

Veio outubro, viramos, passou novembro, viramos, e dezembro já vem meio virado. Pronto, viramos o ano outra vez.

E eu sigo achando que o mais interessante em virar as páginas não é propriamente o livro, mas aquilo que a gente vai virando depois da leitura.

Boas viradas, então, e que cada um vire aquilo que for mais divertido virar.
Beijos!