22 novembro 2002

Buenas!

Vejo que gostaram do meu álbum virtual, e – especialmente – da minha prova de honestidade, mostrando, em cores, a performance de minha cunhada Erica e sua sombrinha do frevo.

Muito bem, também concordo que ela é lindíssima, “fofa”, e os demais adjetivos que foram justamente postos no nosso muralzinho de recados para elogiá-la. Quem não concorda com isso, naturalmente, carece de saúde mental e/ou necessita comparecer com urgência a um oftalmologista. (Eu escreveria “oculista”, mas minha mãe Aninha viria, toda autoritária, no “shout out” – onde ela só aparece para me dar broncas ou enfatizar seu gosto pelos quilômetros que nos separam, bradando: NÃO É OCULISTA, MINHA FILHA! DIZER OCULISTA É FEIO!!! DIZ-SE OFTALMO, OFTALMO!!).

Em tempo: onde minha mãe diria “é feio”, leia-se É CRIME. Para ela, dá no mesmo.

Mas, voltando. Rasgo-me em elogios à minha cunhada Erica, sim, sem vergonha de parecer que estou puxando o saco ou coisa que o valha, pois nem teria motivo algum para isso, e não é do meu feitio, todos sabem.

Está certo que, terça-feira passada, véspera de feriado aqui no Rio, Eriquinha – uso diminutivos somente quando prezo a pessoa além da média – convenceu meu sensato irmão a atravessar a Av. das Américas, em pleno horário de pico, cruzando Barra da Tijuca, São Conrado, Leblon, Ipanema e Copacabana (dando então uma paradinha estratégica num quiosque à beira da praia, onde havia uma maluca com cabelo de piaçava gritando com seu ex-marido e ameaçando chamar a polícia), depois ir até o tradicional bairro de Botafogo, encarando um trânsito de querer chutar o guarda, tudo isso somente para quê?

PARA ME LEVAR AO “BAR DO ACARAJÉ”!!!

Sim, caros amigos, eu não farei 25 anos sem ter provado um saboroso, apetitoso, cheiroso e crocante... acarajé. Digo-lhes, com franqueza absoluta, que o salgado me cativou logo de início, quando me apareceu, dividido ao meio, transbordando de recheio, aboletado naquele felizardo pratinho.

O que pude entender do petisco – para quem eventualmente o desconheça - foi o seguinte: tratava-se de uma massa, com uma gosma por cima, mais um molho colorido e uns camarões. Não sei que tipo de massa, nem o que era a gosma, nem o nome do molho, e nem bem tenho certeza de que aqueles animais eram, de fato, camarões. Mas, garanto: o conjunto da coisa funciona. E como.

É algo mais ou menos como ouvir jazz: você não entende nada, mas concorda – só por via das dúvidas.

A diferença entre o acarajé e o jazz, contudo, fica por conta da rebordosa. Meus queridos, não queiram saber o quanto passei mal naquela noite – e, juro, comi somente UM bolinho daqueles. Foi o suficiente.

Cá entre nós, é praticamente uma bomba gástrica, cuja digestão não acontece antes de, no mínimo: uma noite em claro, umas colheradas generosas de sal de frutas, dois litros de água mineral com gás, quatro voltas na quadra e dezenas de visitas (frustradas ou não) ao vaso sanitário.

No dia seguinte, não acordei – porque sequer havia dormido -, mas levantei-me ainda com a nítida impressão de estar grávida de uma dinamite querendo explodir a qualquer hora.

No entanto, era pior: eu paria de quinze em quinze minutos. (Sem querer entrar em detalhes, claro).

Mas nada disso me surpreende, amigos. Eu nasci há dez mil anos atrás. Já vi de tudo nesta vida.

Só não vi (e desafio que me mostrem) presente de cunhada que não acabe em bomba.

Hihihi...

19 novembro 2002

MEU ÁLBUM DE FOTOS PARA VOCÊS

Quem quiser dar uma olhadinha nas minhas fotos, enquanto eu não consigo publicá-las aqui (por falta de talento mesmo), vá em http://fotos.terra.com.br/album.cgi/304717

Atenção especial deve ser dada à foto entitulada "erica frevo", pois depois dizem que eu estou mentindo... mas, como vêem, eu mato a cobra e mostro o pau.

Espero os shout outs, hehe.
Beijocas,
Bíbi

16 novembro 2002

Só um adendo à frase do véio Einstein, homenzinho muy inteligente que era, mas, com licença, eu também sou, e ainda tenho a vantagem de estar viva.
A frase correta seria: "a mente que se abre a uma nova idéia, esta sim terá um tamanho ORIGINAL."

Não acham? (risos bobos e infames)
“A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho
original.”

Albert Einstein


Vocês acreditam que eu nunca comi um acarajé na minha vida? E acreditam que eu nunca fui a Grumari (uma praia que fica aqui perto da minha casa, que dizem ser ótima, mas nunca me ocorreu de passar ali e conferir)?

Imaginem uma pessoa que nunca presenciou uma enchente: sou eu. Que nunca puxou assunto com um desconhecido, num banco da praça, só para falar uma gracinha e fazê-lo sorrir. Sou eu.

Eu nunca me prestei a acordar e pensar: pára tudo, que hoje vou fazer algo de novo, algo que nunca fiz. Eu nunca fiz isso.

Nunca na vida eu fui a um salão de beleza e pedi que me inventassem algo de diferente, para mudar de visual. Desde que me conheço por gente, meu cabelo cresce, e do mesmo jeito eu corto, e do mesmo jeito cresce de novo, e assim vou sendo a mesma pessoa, com a mesma cara que o espelho já sabe de cor - acho mesmo que nem preciso aparecer na frente dele para que ele me reflita, com todos os meus detalhes antigos e alguns novos que surgem, não pela minha interferência, mas pelo tempo.

Acreditam que eu nunca subi num palco de rabo-de-cavalo? Em onze anos de palco, todas as vezes que me apresentei eu estava lá, com o cabelo do mesmo jeito. O penteado da lei da gravidade. De novo, sem a minha interferência.

Parece até que eu espero que alguém vá me apresentando as novidades, assim, como num passe de mágica, e eu vá então me adaptando... sem perceber.

Sem perceber, faço 25 anos num domingo ao final de mais um novembro quente, e me dou conta de que tenho me privado do acarajé por esse tempo todo.

Sem perceber, deixei meu rabo-de-cavalo na mão do desconhecido da praça, ou na praia de Grumari, ou em outro qualquer lugar dos muitos em que nunca estive.

Deixei a minha ausência lá, porque estive ocupada demais, presente em minhas já conhecidas manias. Andei envolvida nas mesmas histórias, nas mesmas lamúrias e em algumas ilusões que calharam de acontecer na realidade. E eu me assustei, claro.

O novo vem com sotaque estrangeiro, e a gente fica como bobo, fazendo mímica, tentando compreendê-lo... sem saber que ele veio justamente para nos tornar poliglotas, e não para que o façamos aprender a nossa língua. (Que sentido haveria?)
Com vontade de dar uma invertida, trocar de tom, de pele, de fala ou de gesto. Achar uma moça que não sou eu, por aí, dando bandeira na rua, e aprender a sê-la, só para experimentar. Chutar um balde, sentar numa pedra.

Quem me conhece sabe que sou exagerada e me atravesso no tempo, de modo que declaro aberta a minha temporada de “crise dos 30”, antes mesmo de completar 25.

Durma-se, com um barulho desses.

Aceito sugestões de coisas que nunca fiz, prometo analisar com carinho as propostas. A propósito, quem é que vai me levar para comer o tal acarajé? (Se é que isso existe mesmo, porque eu nunca vi, desconfio de tudo que é novo, estou sempre com um pé atrás, e desafio quem não me dê razão.)

Mas essa parte da arrogância a gente deixa para a crise dos 50, tá bom??
Até lá, aturem-me assim mesmo.
Se quiserem!! Se quiserem!!!

14 novembro 2002

Nem conto a vocês: acabou a TPM.

Estou feliz como pinto no lixo. Vem chegando o verão, como já dizia a Marina Lima, nos bons tempos em que eu era só uma criança que se achava adulta – e não o contrário, como agora.

Vou contar uns causos. Aprendi a ler e a escrever com meu irmão (e guru). Um dia, minha mãe pediu a ele que não esclarecesse minhas dúvidas ortográficas tão prontamente; que eu deveria aprender a pensar, descobrir se casa era com “s” ou com “z” por via de meu próprio raciocínio.

- Mano, casa é com “s” ou com “z”? – perguntei, certa feita.

- Você acha que é com “s” ou com “z”? – ele questionou.

- Não sei, Mano! Me responde!

- Não posso responder.

- Pode, sim, responde!

- Está bem, é simples: se você quer que seja com “s”, então será. Se quiser que seja com “z”, assim será também. Você tem de escrever como pensa que deve ser!!

Fiz uma cara de surpresa-abobalhada-meio-desconfiada que ele não deve ter entendido por anos; até que, já adolescente, confessei que aquele momento fora, para mim, verdadeira iniciação espiritual.

Lembro-me, como se fosse ontem, de ter pensado: “Uauu!! Se o Mano diz que ‘casa’ se escreve como EU quiser, então quer dizer que tudo que EU quiser se tornará realidade!! Logo, EU SOU DEUS!!!”

Sim, porque minha avó dizia, sempre que podia, que Deus era todo-poderoso: o único ser a quem o universo ouvia e respondia sempre com obediência.

A partir daquela revelação precoce, eu saía pela casa, com um sorrisinho de canto, decretando normas secretas e dando ordens explícitas aos anjos – sempre com muito cuidado, é claro, para que ninguém percebesse meus superpoderes divinos. Poderiam se sentir diminuídos perante a minha magnitude, ou mesmo temer futuros castigos (minha avó também dizia que Deus castigava, mas eu ainda sequer havia estudado esse capítulo, o de como castigar).

Não. Não era isso que eu queria. Queria só respeito e amor dos próximos a mim-Deus. (Pelo que eu entendia, os “próximos” eram todos aqueles que não eram Deus; ou, por outra: todos os outros - que não Eu. Por isso se chamavam “próximos”, porque eram os próximos a partir de mim – Deus.)

Não sei se me fiz entender.

E assim fui seguindo, certa de que faria milagres com um pé nas costas, e ajudaria a quem necessitado estivesse, contanto que me prestassem a obediência devida e, volta e meia, acendessem uma vela em Meu nome.

Caí do cavalo quando o meu primeiro pretendente – era eu quem o pretendia! -, uns vinte e cinco anos mais velho que eu, casado e com três filhas, não fez menção alguma de me atender quando, confiante, ordenei: APAIXONA-TE OU MORRERÁS!!!

Nem uma coisa, nem outra.

Como Deus, eu era um fracasso. Caí na maior fossa, vivia arrasada pelos cantos, mal dormia, mal comia, mal falava. Não rezava. (Rezar a quem?)

Aí foi que eu caí na real, resolvendo: de duas, uma. Ou eu não dou Deus, ou o Bicho Homem é que é o Diabo.

Claro que fiquei com a segunda opção.

;oP
Oi.
Meu cabelo acordou esquisito, minhas olheiras se elevaram à décima potência, minha pele está oleosa demais nuns lugares e seca demais noutros, minha orelha amanheceu inflamada por causa do diacho do segundo brinco, levantei meio manca da perna esquerda, os dentes amarelaram, o tempo está úmido, o ar está pegajoso, o assobio do vento está fora do tom, as árvores estão balançando sem o devido gingado, os carros passam mais nervosos do que nunca, parecem atrasados, as pessoas estão todas com cara feia, e cara feia pra mim é fome, por falar em fome, o nhoque apodreceu, o frango assado acabou, a tele-entrega de pizza demora muito, falta água potável em casa, tenho sede e pressa e fome e fúria, me arrasto pela casa, pesada e lerda, penso coisas desconexas, falo sozinha, xingo minha falta de sanidade mental, tento me espreguiçar, dou com a mão na quina do armário, grito, corro ao banheiro, abro a torneira, o telefone toca, corro, atendo, não, não quero assinar revista nenhuma, e não interessa o motivo, desligo na cara da moça, ligo a TV, assalto, acidente, traficante, desligo rápido, vou até a sacada, olho para baixo, miro uma moça com uma barriga imensa, quase parindo, e um vestidinho florido, parece feliz, a desgraçada, é claro: QUEM NÃO FICARIA FELIZ DEPOIS DE NOVE MESES SEM TPM ?????

11 novembro 2002

Buenas !!

Espero que estejam todos na boa. O show de sábado foi, digamos, cansativo. Aquela coisa de bar, tocamos das 9:30 às 3h da manhã, com alguns intervalos para esfriar os dedos e as cordas. Bar lotado, animado, e tal.

Mas o ponto alto da noite ficou por conta da minha cunhada Erica, aniversariante do dia, que levou uma penca de amigos para lá, e acabou “pagando o maior mico” – segundo ela. Mentira. Esteve ótima, dançando frevo.

Explico: Erica foi chamada, de última hora, na semana passada, para dançar frevo num hotel chiquérrimo aqui do Rio... adivinha para quem? Para os gringos, claro!

(Vocês já sentiram que todo mundo entrou pelo cano com essa dos gringos, né? Hehe, o que a gente não faz pelo leitinho das crianças.)

O evento era de responsabilidade da A L Eventos & Multimídia, empresa da qual meu irmão é sócio-fundador-produtor, etc. Na hora do frevo, eis que a moça contratada deu problema, e não havia outra disponível a pagar um mic..., digo, dançar frevo para os gringos, com sombrinha colorida, roupinha, maquiagem, e um bofe bailarino do lado. Mó micão, enfim, sejamos francos.

Quem foi solicitada? Ela mesma. A morena mais bela do Rio de Janeiro (não sou eu nem meu irmão quem diz, não, os gringos saíram no lucro e aprovaram!!), Erica. Tal fosse uma bailarina profissional, foi ensaiar uns passos com o bofe – que, aliás, é dono de uma academia de dança em Copacabana. E o bofe aprovou o gingado da morena. Quem não aprovaria?

Deram-se as mãos, e foram ao saguão abafar. Dizem que Erica terminou a noite com a boca que era um cabide, de tanto sorrir para as câmeras dos gringos, e com o polegar dolorido, de tanto beliscar os gringos mais animados que se aproveitavam do momento “flash” para conferir mais de perto o doce balanço da morenaça.

Fama adquirida, fama sofrida.

Nós, que não somos bobos nem nada, fizemos o esforço de aprender a tocar aquele frevo mais conhecido de todos, e paramos o show no momento mais animado para homenagear a aniversariante, convidando-a para fazer uma apresentação aos amigos.

A morena tropicana, alheia àquela sacanagem toda, viu-se tímida pela primeira vez – creio eu – em sua agitada vida. Um amigo sacou a sombrinha colorida (que conseguimos emprestada com o próprio bofe do frevo) e lhe ofereceu, num gesto tão convincente que a pobrezinha não teve alternativa: quando viu, já estava empunhando o instrumento da dança, em pé, com aquele povo todo em coro: DANÇA! DANÇA!

Eu, num impulso de cunhada-típica-venenosa, fazia um discurso inflamado ao microfone, exaltando as qualidades da bailarina, e oferecendo seus serviços aos possíveis contratantes. E o povo: DANÇA! DANÇA! – que sombrinha no dos outros é refresco, claro.

O frevo rolava solto, e, lá pelas tantas, Erica deve ter pensado que ficaria mais feio fixar raízes no chão que, enfim, saciar a sede dos afoitos. Foi então que se despiu de vergonha, e encarou a frente do palco, onde saltitava, exuberante, arrancando fervorosos aplausos de todos os freqüentadores do bar. Era a glória. (A minha, pelo menos).

O resto do show foi até chocho, se comparado à apresentação que transformou a Ana Lógica em trio-elétrico por alguns minutos, aliás, coisa que era um sonho antigo. Sobretudo, eu evitava o olhar ameaçador daquela que bailara, morrendo de medo de descer daquele palco e ter meu estômago perfurado por um salto dourado.

Tudo está sob controle, pelo menos até agora, muito embora eu ainda ande um tanto cabreira, sentindo que paira uma atmosfera esquisita pelos corredores da minha própria casa. Não sei, não, é capaz de eu amanhecer, qualquer dia, com uma sombrinha entalada na garganta (na melhor das hipóteses).

Notem que esta publicação é praticamente uma carta-denúncia, ou a crônica da morte anunciada. Se eu sofrer algum mal, vocês já sabem.

(E, se ela fugir, procurem no Recife. Onde mais ganharia a vida??)

09 novembro 2002

Oi, queridos, só passei aqui para deixar o convite: hoje, sábado, tem Ana Lógica no Downtown (Espírito do Chopp), a partir das 21h. O pessoal do Rio poderia bem fazer uma forcinha e aparecer por lá para prestigiar esta relapsa blogueira que vos escreve, não é?

Prometo que não irão se arrepender... pois o chopp realmente é muito bom. Hehe.
Beijos.

04 novembro 2002

É o tal negócio.

A gente começa a dar intimidade, fazer política de boa vizinhança virtual, e dá nisso. Pequenos movimentos organizados vão se formando, aqui e ali, como quem não quer nada. Eu, que não sou boba, desconfio.

Não é de hoje que venho notando que essas exigências de novos textos no blog têm passado de brincadeirinhas à toa, implicâncias carinhosas, mimo cibernético. Nada disso. Basta perceber que, outro dia, o nosso mural de recados – que já virou a casa da mãe Joana, diga-se passagem – simplesmente bateu o recorde: onze mensagens. Tudo por conta das organizações desse tal de MST (Movimento dos Sem Texto).

Daqui a pouco, estou até vendo, vão querer ditar os tópicos: escreva sobre isso! Escreva sobre aquilo! Eu vi o fulano na TV dizendo tal coisa, escreva sobre ele! Escreva sobre o seu pânico de pés descalços! Escreva sobre a onda que se ergueu no mar! Afinal, que fim levou a feira, o vestido, o Capitão Rodrigo, a pelada na praia e o carnaval?

Aqui pra vocês!

Eu que mando nessa bodega virtual, ou não me chamo Bíbi Da Pieve, com acento no primeiro “i”.

E, por falar em bodega, minha cunhada Erica (assim, sem acento mesmo, culpa da dona Maria, mãe dela, que tem por hábito sumir cinco dias sem dar notícias, e depois voltar, na maior cara deslavada, ainda convidar pra comer peixe na casa dela e tudo... me perdi nos parênteses, sempre faço isso).

E, por falar em bodega, minha cunhada Erica mandou que eu escrevesse aqui sobre o meu jogo de bilhar – citado por ela no mural de recados, dia desses. Está bem, eu explico.

Antes que a pequena comunidade aqui formada vá pensando que sou freqüentadora assídua de botequins no maior estilo “pé-sujo”, que fico enchendo a cara até as 4h da manhã e jogando bilhar com o Mario do Boné, o Zé Pascoal e o Bola Oito, esclareço: não é nada disso. Aninha, acalme-se. Ainda não cheguei a esse ponto.

O referido “jogo de bilhar” nada mais é do que um código de família. Nós usamos, cá entre paredes, a expressão “jogar bilhar” para o ato de trabalhar com música – o que mais faço, como todos sabem.

Mas o que tem a ver? – irão questionar.

Simples, minha gente. O jogo de bilhar consiste em encaçapar sete bolinhas. Como todos sabem, a música é representada graficamente por bolinhas (as notinhas no pentagrama, já viram?, lembram-se do caderno de música? – pois então).

Curiosamente, são sete as bolinhas do bilhar, exatamente como: DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ e SI.

Eis a explicação para a minha mania de “jogar bilhar” – ou seja, fazer música, pois estou atarefada até os cabelos com essa história de tocar para 200 gringos amanhã, e depois tocar cinco horas a fio, num bar, sábado à noite.

Satisfeitos?

É por isso que tenho escrito pouco. Não que eu deva explicações (droga!, viram só?, vocês acabam me confundindo!!!), mas, só para constar mesmo.

Tchau, vou “jogar bilhar”...

02 novembro 2002

Eles vão te pegar!


Não sei se já notaram, mas o tempo do fulano "ficar" com a fulana já é coisa do passado. Atualmente, os fulanos “pegam” as fulanas, e - o que é ainda mais animador! - as fulanas também pegam os fulanos.

É um tal de pegue-se quem puder, e o critério há muito também não aparece como protagonista da trama. É só um mero detalhe. O importante é pegar.

“Pegar” refere-se ao ato de beijar alguém na boca, sem compromisso, e depois experimentar algum tipo de relação sexual com a pessoa. Também "sem compromisso" - como diria o vendedor de cangas na beira da praia, na tentativa de lhe vender uma peça. E a intimidade entre os “pegantes” também regula com a que você tem com o vendedor de cangas.

Por relação sexual, hoje em dia, entende-se uma vasta gama de possibilidades. Já não se mostra eficaz o termo "ir para a cama", porque o local da “pegação” é o de menos.

Também não se pode fazer nenhuma alusão à posição horizontal, outrora a principal evidência de sexo entre duas pessoas, porque as criaturas andam se pegando em diversas posições, das estapafúrdias às inimaginárias, da criatividade ao verdadeiro contorcionismo. O motivo do “pegar diferente” está estampado, geralmente, nas revistas femininas, onde a sacanagem (com perdão do termo) aparece revestida de pomposas explicações psicológicas - "investir na relação" e "sair da rotina" são dois dos principais disfarces para a pegação, digamos, não ortodoxa.

Tampouco o pegar fica limitado à quantidade de indivíduos envolvidos no ato. Percebo que a multiplicidade sexual, se é que existe o termo, está cada vez mais presente entre os seres. Eu diria "casais", mas eis que também esse termo já soa obsoleto, pela conotação de gênero - um masculino e um feminino - que, tenho observado, cheira a poeira do século passado.

Uma vez extrapolados os limites de gênero, número e grau, há dois modos pelos quais podemos interpretar a nova atitude sexual dos seres humanos. O primeiro é otimista e romântico, além de quase religioso (do termo religare, lembram?): talvez estejamos passando por uma fase de descoberta universal, e, muito em breve, o amor não conhecerá fronteira de espécie alguma. Amaremos ao próximo, e ao seguinte, e ao seguinte, e ao seguinte - um passinho à frente, por favor. Olha que já estamos quase lá.

O outro modo de interpretação, não tão romântico – mas tão divertido quanto – sugere que essa pegação desenfreada entre os homens (exclua o gênero, claro) se trata mesmo de uma imensa PEGARIA – substantivo que surge da junção entre os termos “pegação” e algum outro que comece com “p” e termine em “utaria”.

De qualquer maneira, vale o alerta: se ficar, o bicho pega. E, se correr, o bicho come – o que dá no mesmo. Salvo pormenores da terminologia sexual e/ou anatômica, tanto faz se você é homem, mulher, moça, velha ou coisa que o valha: fatalmente, você tem algo que interessa a quem pega. E eles vão te pegar.

Caso queira se abster da “pegaria” vigente, um único conselho: cuide bem do seu. E depois não diga que eu não avisei.


29 outubro 2002

Os cientistas descobriram, com quase 100% de certeza (vai saber o que é isso), que existe, no centro da Via Láctea – galáxia da qual nosso rico planeta faz parte -, um imenso buraco negro que funciona como um redemoinho, sugando os corpos sólidos para dentro de si.

Ou seja, a Via Láctea tem um ralo. E já puxaram a tampa.

Mas a Terra não corre risco de entrar pelo cano, segundo eles, porque estamos muito afastados do buraco. Devemos suspirar aliviados, portanto.

Eu fico a pensar, inevitavelmente, no paralelo que pode se traçado entre a galáxia – ou seja o que for – e as nossas próprias entranhas. Somos poeira cósmica, está correto, mas alguma função aqui nós devemos ter.

Estamos longe demais do ralo da pia gigante, mas temos nossas próprias piazinhas, e nossos redemoinhos também não são de se jogar fora. Com todo respeito à Via Láctea, a vida terrestre já dá trabalho suficiente, de modo que não vou me preocupar com o encanamento da galáxia. Já seria demais.

O meu problema, por enquanto, é achar o tom correto para a canção. E isso pode ser muito complicado, tão complicado quanto me equilibrar na dança cósmica dos planetas, cuidando para não resvalar.

Se eu não fosse tão careta e covarde, ouviria o vento dos meus ralos internos assobiando, e seguiria aquele tom, ainda que não soasse exatamente como eu gostaria. O tom da intuição, à sombra da razão, que sempre canta os mesmos versos... mas eu finjo que não escuto.

E você não vá tirando o seu da reta, porque – tenho certeza – é igualzinho a mim. Ou quase.

Ah, mas a esperança equilibrista... é a última que entra pelo cano.

Será que estamos girando para algum sentido, ou só estamos correndo em volta do rabo? Eu voto no sentido, mas, volta e meia, volta o rabo e me derruba no chão. Complicado. (Ninguém disse que seria fácil. Simples, eles me dizem a toda hora. Mas, fácil... não).

Quando eu me sinto girando ralo abaixo - é quando estou encucada com dívidas, dando voltas em torno das mesmas dúvidas, achando que me falta talento, que envelheço e me desoriento cada vez mais e mais. É quando me pego fazendo contas nas pontas dos dedos, mesquinharia de sentimentos, quando me esqueço de abraçar meu irmão, por exemplo, e durmo pensando que estou só (mentira, estamos todos girando juntos).

Eu me sinto ralo adentro quando penso em medir emoções, catalogar os endereços dos beijos que me dão, com medo de dobrar a próxima esquina sem uma segurança, sem uma garantia qualquer, sem um papel, sem nada, sem nada. E, cada vez em que grudo as etiquetas nos vidros, eu me esqueço do verdadeiro sabor que eles tinham. A burocracia evapora o conteúdo.

Quando eu me sinto girando para o alto – é quando me desapego, eu me despeço dos medos, não quero saber das minhas convicções. É quando dou a mão ao simples, ao óbvio, quando me permito o ócio, e me entrego ao coração. Sem culpa, sem mania de perfeição.

Eu giro para dentro do ralo quando passo horas discursando sobre qualquer coisa, e me dói o peito enquanto tento ser verdadeira, mas não consigo.
Eu giro para fora do ralo quando, em vez de discursar, percebo que todo texto do mundo cabe todo dentro de um gesto.

E a Via Láctea vem parar bem no meio das minhas duas mãos.

27 outubro 2002

VOTOS DE UM BOM DOMINGO DE BONS VOTOS


Estou só escrevendo para aqueles choramingões que reclamam que visitam meu Blog três a quatro vezes por dia, no afã de encontrar novidades, e se decepcionam ao verem posts "antigos" - ante-ontem, para vocês, já é antigo.

A biblogueira aqui faz outras coisas da vida, caso não saibam, e não pode vir dar o ar de sua graça de cinco em cinco minutos, ok? Vocês bem que poderiam se organizar, fazer tipo academia: visitarei o BiBlog três vezes por semana, assim que acordar, e pronto.

O BiBlog não deixa a bunda durinha, mas diverte um pouco mais, e também é cultura. Estamos aqui cuidando da nossa saúde, afinal, quem ainda não leu sobre os benefícios do riso?

Estamos combinados, então? (Garanto que não...)

Deixo votos de bom domingo, e não se esqueçam de levar o título.

Beijinhos d'eu.

26 outubro 2002

Bons dias!

O pessoal do Rio já vai aprontando a caravana, que estaremos tocando no Espírito do Chpp – shopping Downtown -, no dia 9 de novembro, sábado. A “parada” (como se referem os cariocas a QUALQUER coisa, seja viva ou morta, real ou imaginária, etc) começa por volta das 9h da noite, e extrapola todos os limites do bom senso e da solidariedade com quem usa um contrabaixo pesado pendurado no pescoço, esticando-se até as 3h da manhã. Creiam vocês ou não, assim está determinado, e assim faremos.

Não contem comigo para nada no dia 10 de novembro, portanto. Estarei, com toda certeza, aboletada nos meus aposentos, imaginando uma luz violeta entrando pelo meu chakra frontal (ou terceiro olho), incenso aceso, inspirando e expirando lentamente, e só abrindo a boca para entoar canção de uma nota só, aquela que diz assim: “OOOOooooommmmmmmmm...”

E, por falar em saudade, onde anda você?

Antes disso, no dia 4, farei um violão-e-voz chiquérrimo, num evento para 200 gringos, onde cantarei baladas melosas e alguma coisa de bossa, o que me permitir o conhecimento harmônico e, sobretudo, os dedos. Entre uma canção e outra, encherei a boca para dizer: “Welcome to Rio” – e está feita a saudação da noite, que não esperem mais nada do meu inglês tupiniquim, porque já faz anos que não estudo, e prefiro silenciar a deixar escapar um mico qualquer.

E prefiro que não me aplaudam, porque o meu “THANK YOU” já está mais para TÊM-KIU, de tão enferrujada a minha prática no idioma.

Pois é, amanhã é o dia “D”, e eu vou justificar o voto, ou seja, a ausência dele. Há quase cinco anos morando nesta cidade, vergonhosamente ainda não regularizei minha situação de eleitora, de modo que apenas me abstenho e ainda assino embaixo, na cara dura mesmo.

A gente nunca sabe quando algo é definitivo. Deve ser porque nada o é. Minha vontade é casar e ter o Breno (filho) aqui no Rio de Janeiro mesmo, mas não sei se o Capitão Rodrigo (marido) vai amarrar o cavalo num poste carioca, ou se vai preferir se ausentar da minha vida nesta encarnação, e me aparecer, na próxima, irreconhecível – talvez gay, inclusive. A gente nunca sabe.

Até agora, garanto a vocês que os capitães (bela palavra!) da minha vida não têm sido, nem lá muito capitães, nem tampouco Rodrigos. E o cavalo branco, que é bom, nem sinal dele.

Já cruzei com belos moços, sim, mas, no decorrer da história, revelavam-se portadores de pangarés mixurucas, ou seja: eram falsos Rodrigos, evidente. E aí não me serve.

O Rodrigo tem de ser original de fábrica, do bom mesmo, com cavalo incluído, furinho no queixo, boca grande e alguma sensibilidade. Do contrário, não quero nem conversa.

Dizem as más línguas que sou uma sagitariana arrogante, metida a besta e até seletiva demais, mas eu não acho que a crítica tenha fundamento. Ocorre que, até o presente momento, nenhum Rodrigo que se preze cruzou meu caminho.

Um ou outro até cruzou, mas não me convidou para a cavalgada.

Na certa, esqueceu-se. E vai ligar mais tarde.

23 outubro 2002

ESTRADA

A estrada que somos na tempestade, a estrada que temos nas veias, a estrada que tece a arte, a estrada de Deus e do diabo a quatro - onde tudo se registra, onde tudo se alcança com sonho e alguma pegada; onde tudo aqui fica, mas também tudo lá passa.

A estrada das migalhas de pão de João e Maria - ilusão de retorno -, a estradinha de papel do primeiro caderno - ilusão de adorno. A estrada imaginária que sai da casinha e leva ao lago, convencional e bidimensional infância, sem ganância, ainda sem aquela ânsia do preto no branco racional.

A estrada giz-de-cera, aquela curva colorida certeira - o ponto de partida ideal.

A estrada que para dentro se embrenha - a estrada-entranha -, uma senha abstrata e estranha do interno de todos nós. A estrada a sós, eterna montanha-russa sem trilhos, vida, ida, vinda, ida, vinda - inferno e céu.

A estrada-trajetória do tiro, a estrada-história da guerra, a estrada-suicídio abismo: a droga.

E a estrada-folga, a pausa; à beira da certeza, a surpresa desagrada: causa errada.

A estrada se contorna, mas não se retorna. A estrada se torce, mas não se move. A estrada se passa, não se pára; não se sabe se terra, se barro, se pedra – nunca se sabe se a estrada é pronta, porque a estrada não se pensa, e não se espera nada.

A estrada é a recompensa.
AOS BIBLOGUEIROS CONVICTOS - e aos nem tanto

NÃO deixem de dar uma passadinha no belo site desenvolvido pela artista ANA PELUSO - www.officinadopensamento.com.br

Estou lá, na coluna musical.
Beijos.

22 outubro 2002

Sempre acho que vou acordar, um dia, com o barulho da chuva, virar de lado e puxar um pouco mais o edredom, sentir o cheiro do chá de erva-doce que ele vem trazendo devagar, com biscoito integral e mel e um sorriso bobo que eu sempre vejo, e sempre me encanta, mas nunca sei dizer o próximo compasso daquela sempre mesma situação que cisma em acabar diferente a cada chuva, a cada chá e a cada beijo integral com mel.

Eu me desligo das coisas como são, e me detenho às coisas como SER.

A chuva é água, mas o ser da chuva é muito mais; o ser da chuva é o barulho e é o gosto e sou eu mesma, enquanto mulher, enquanto mundo e como chuva ser.

O chá também foge da erva que é, e vem ser aqui no vapor do hálito dele, e no meu calor, e no orvalho do amanhecer chá.

Assim é que tudo perde o sentido e ganha os sentidos, assim é que o doce vem antes do mel, o barulhinho é o pai da chuva, o vaporzinho é que tem o chá – e não o contrário -, tal como o amor nos tem, não pelo poder, nem por assim dizer, mas simplesmente pelo nosso próprio SER.

20 outubro 2002

EU, SEM BOLA

Boa tarde, moçada. O Rio de Janeiro está escaldante, e dizem que, no sul, chove que Deus manda. Aqui Deus manda nas eleições, e o chifrudo manda no tráfico. Mas isto não interessa no momento, vim falar de coisas boas, estou de muito bom humor, e o Mano já está chegando com o sorvete mesmo.

Passo na praia e morro de vontade de jogar BOLA - poderia ser vôlei ou futebol -, mas me falta a companhia. Vejam como uma sagitariana com mania de auto-suficiência pode quase tudo na vida, mas, o mais importante, não pode: jogar BOLA. Ando com esta fixação. Não estranhem se me virem, dia desses, a jogar BOLA na parede, empolgada e saltitante, ainda gritando “deixa que eu chuto!!!” e xingando a mãe do juiz.

As pessoas que eu conheço não jogam BOLA, e isto me deixa assim, a me sentir só, acorrentada a um futuro meio insosso, um futuro sem BOLA e sem apito. Imaginem uma pessoa que não pode jogar BOLA. Esta sou eu.

Outra, outra da solidão. Lembram-se do show do Pepeu, sim? Pois trouxe, do bar, vários papeizinhos – guardanapos, na verdade -, que me serviam de conforto enquanto o Pepeu não aparecia para cantar que também queria beijar. (A propósito, já descrevi aqui a BOCA do Pepeu? Só de pensar, já me esqueci dessa besteira de jogar BOLA. Há tanta coisa melhor por aí, ora, bolas!).

Transcrevo, aqui, fielmente alguns dos meus rabiscos daquela noite solitária:

Guardanapo UM:

Essa gente da arte é que paga o pato
é quem sofre o impacto
e, se pisa em falso, não se cansa:
segue reto, certa de que a vida
não carece de convicção.
Com a graça de Deus,
À fé não interessa razão.


Guardanapo DOIS:

Essa gente da arte é de pouco papo
é quem sente o atrito
e, se vê o perigo, não se assusta:
segue em frente, certa de que a vida
desconhece a previsão.
Com a graça da fé,
a Deus não interessa razão.

Guardanapo TRÊS:
Uma menina com a cara e o jeito da Melissinha na produção de um show... é BÁSICO. Se não houver, boa coisa não é.

Guardanapo QUATRO:

Escrever é como dialogar com as próprias entranhas, com a vantagem de que elas não têm direito de resposta. (Ou será que têm?).
O que está entre parênteses é de autoria das entranhas, evidente.

Guardanapo CINCO:

Todo artista tem uma dívida que não será sanada nesta vida.

Guardanapo SEIS:

O perigo do verso não é o conteúdo, mas os filhos que o conteúdo jogará no mundo, irresponsavelmente.

Guardanapo SETE:

Nada há de mais romântico, no mundo, que um baixista semi-careca, vestindo preto desbotado, a dedilhar melodias inusitadas, apaixonadamente, jamais desrespeitando a HARMONIA. (AMORnia?)
Olha as entranhas, olha as entranhas...


Era isso, por hoje. Vou ao sorvete, beijocas geladas a todos e a todas que me aturam virtualmente.

18 outubro 2002

PEPEU E EU NA BARRA – eu também quero beijar!



Ninguém quis ir comigo ao show do Pepeu Gomes, ontem. Num rompante de mulher moderna e independente, tomei meu moderno banho, enfiei minha moderna roupa, peguei meu Bibimóvel e rumei para a Barra. Eu vou só.

O show estava marcado para as 21:30, num bar/restaurante chamado República Gourmet – já muito freqüentei, toquei, etc. Chego lá antes das 21h, e consigo vaga bem em frente. Mal termino de estacionar, o flanela dá um grito. Puxo o freio de mão, e pergunto: desculpe, o que disse?

- Eu só mandei a senhora não ir mais pra frente, que senão ia arrebentar a frente do carro na mureta!!! – Ele me responde, num mau-humor absurdo, ainda gritando, como quem me xinga por, talvez, querer bater meu próprio carro num muro (?).

- Ah, muito obrigada, mas não se preocupe, que eu sei o que estou fazendo.

- Mas ficou DOIS DEDOS da mureta!! – Ele rebate, mostrando a distância com os dedos.

- Eu sei, meu anjo. Problema seria se tivesse ficado dois dedos para dentro da mureta, não acha?

Ele se complicou para responder, acho que não entendeu. Entrei no bar.

Pepeu e banda só começaram depois das 23h – o que achei um desrespeito, mas tudo bem. Perdoado estava o novo baiano, que já começava cantando “eu também quero beijar”, com a boca imensa, o cabelo preso, a língua presa, e o charme solto que só.

(Aqui vai um parêntese: às moças que acham o Pepeu Gomes feio que é um raio, já vou logo admitindo que não sou exatamente conhecida pelo meu bom gosto estético, o que é uma pena, mas nada posso fazer. Acho o Pepeu mais bonito, autêntico, swingado, sexy e irreverentemente mais interessante do que o aguado e azulado Mel Gibson, por exemplo).

Atributos físicos à parte, musicalmente o garoto-cinqüentão também agrada, e muito. Também por “eu só quero você e mais nada” (falsete preciso e um pouco estridente no “e mais nada”, como lhe convém), mas, sobretudo, pelas seis cordas muito bem tocadas - com elegância e segurança de quem sabe o que está fazendo.

O que me chama atenção no instrumental bem entrosado da banda é a brasilidade muito bem casada com o “peso” quase “duro” (no sentido de forte) – aquele que é facilmente perceptível nas boas bandas de rock’n roll, por exemplo. Pepeu é roqueiro com swing, consegue ser HARD e BALANÇO ao mesmo tempo. Empolga e impressiona.

Toca choro com guitarra distorcida e faz convenções inusitadas, sempre com muito bom senso, e sem rompantes exagerados. Tudo como manda o figurino, eu diria.

O final ficou aquela coisa meio “sai do chão, galera”, apelando para a manjadinha “ora bolas, não me amole com esse papo de emprego” – particularmente, acho desnecessária e fracote das pernas, mas o povo gosta e aprova, levantando e dançando ao redor das mesas. Aplaudo também. (Quem sou eu?)

Os destaques do público foram mesmo as três filhas do Pepeu – as meninas têm um grupo de dança que canta, ou um grupo de canto que dança, não sei bem, vocês lembram? É algo como KLB, mas com as letras delas. Cada qual com a carinha da Baby, mas a cor do cabelo é o que diferencia. Todos fluorescentes, mas cada qual num tom... fluorescente.

E o pessoal do FAMA (não sei qual versão do programa, mas havia um bocado deles) também estava numa das mesas da frente.

P.S.: Ah, sim. Minha mãe, no primeiro dia em que passeava aqui pelo Barrashopping, deu de cara com o Pepeu Gomes e exclamou: NOSSA! Que cara parecido com o Pepeu Gomes!!

“Mãe, este É o Pepeu Gomes”.

“Credo, minha filha, mas como está FEIO !!!”

Logo, não tenho por quem puxar.

17 outubro 2002

APELO AOS NAVEGANTES

De todos os apelos que fá fiz, o que se segue é o mais imporante: ESQUEÇAM, pelo amor de Deus, que eu escrevi a pérola
"(...)pois que escolhi vim logo parar debaixo do braço do Redentor".

Foi erro de digitação, vamos dizer assim. O calor, enfim. Sei lá. Escolhi VIR. VIR, VIR, VIR.
Jamais escolhi VIM.
Desse jeito, não vou VIM a lugar algum. Argh.

16 outubro 2002

Alou, macacada.
Em casa, já recebi críticas rígidas em relação ao meu fraco desempenho aqui no BiBlog nos últimos dias.
Culpo o calor e a (conseqüente) falta de inspiração. Pode ser?

Não se vive mais no Rio de Janeiro; derrete-se, aqui, dia após dia. Hoje eu fui dar uma caminhadela na praia, à noite. À noite! Suava em bicas. Vento nenhum. Até o mar, acostumado que deve estar às temperaturas exageradas desta cidade, pareceu-me suspirar de calor – posto que as ondas, cá de longe, pareciam-me mesmo velhas baianas, com seus vestidos rodados de espuma branca, a balançarem, em suas redes, para um lado e outro, com a lua na cabeça e alguma preguiça justa no coração.

Eu digo justa, sim, porque “o calor vem desumano” – como cantam Djavan e Cássia -, e ninguém merece movimento algum, por estes dias, que não seja o vaivém ondulatório, ou pendular, ou qualquer outro vaivém que vocês imaginem aí em suas mentes sujas, mas depois não me venham dizer que a pervertida aqui sou eu!

Na calada da noite, só para variar um pouco, os bandidos metralham os prédios públicos e detonam bombas nos shoppings da cidade. O tal Palácio Guanabara está virado num queijo suíço, e não é de hoje que os traficas andam planejando transformar a cidade maravilhosa em Tábua de Tiro-ao-Álvaro – não tem mais onde furar.

Mas, para não dizer que não falei das flores, nossa futura governadora, Rosinha Garotinho, não poderia ter nome artístico mais apropriado aos cidadãos que temem pelo futuro disto aqui. Rosinha Garotinho: uma flor e uma criança – oh, quanta esperança.

Deve soar mesmo esperançoso à maioria da população, pois a moça está eleita, de fato, e nada mais se pode fazer. A não ser, é claro, reclamar para o bispo.

Mudando de assunto - até para não terminar tão doce quanto limão estragado -, hoje eu comi um feijãozinho caseiro que lembrou minha Vó Manoela, mãe de meu pai, já falecida. Foi com ela que aprendi a rezar, quando ainda achava que Ave Maria era, realmente, alguma parenta das galinhas, pombas e patas que minha vó criava no sítio. Eu achava uma ótima piada: “Ave Maria, cheia de graça”. E imaginava, sei lá, uma garça desajeitada, divertida e muito boazinha, que ficava voando lá pelo céu (?), a rogar por nós, agora e na hora de nossa morte, amém.

Mal sabia a Vó Manoela que eu iria precisar tanto dos cuidados da garça-mãe de Deus, pois que escolhi vim logo parar debaixo do braço do Redentor, e, quanta ironia: o cenário aqui anda quase beirando a perfeição daquilo que um dia fora imaginado pelo, desculpe-me a governadora, mas pelo chifrudo mesmo.

Já sei, já sei: era preferível que eu terminasse o texto na acidez do limão que nas guampas do diabo. Mas essas coisas a gente não escolha. (Governadoras, sim).