24 janeiro 2003

Uma mulher sozinha e ociosa, numa noite de sexta-feira chuvosa, pensa em pedir uma pizza.

Observa a porta da geladeira, onde pequenos objetos pecaminosos disputam espaço, insinuando que a solução para esta noite estaria num código de sete dígitos. Do cofre, geralmente localizado em alguma esquina próxima, saltará um motoqueiro com capa de chuva e botas, que trará na garupa aquela peça redonda e gordurosa, coberta de queijos amarelos - alguns tão furadinhos quanto irão se tornar as coxas e as nádegas daquela que tiver a audácia de saborear a massa do pecado.

A mulher recua, hesitante. Carboidrato, depois das seis da tarde? – ela ouve vozes , sente um arrepio. Esquenta um pouco de água. Camomila e aspartame.

Meia hora depois, impaciente, cruza e descruza as pernas. Camomila, o cacete. Meia calabresa, meia portuguesa... meia-noite? Já??

Sujou. Se não pode carboidrato depois das seis, depois da meia-noite a pena deve ser dobrada. Imagino que todos os furos da lua na minha bunda, assim, por baixo. Nem pensar.

A mulher sobe na esteira e anda muito rápido, parada, como se quisesse fugir do moto-boy – que nem foi chamado. Ela anda em direção à televisão, onde vê propagandas de liquidação de biquínis, adoçantes dietéticos, clínicas estéticas e uma redonda pizza Sadia. Só pode ser um complô.

Num pulo, agarra o telefone sem fio e digita os sete números da perdição. Antes de atenderem, no entanto, ela tem a idéia que a salvará de todos os pecados, e a levará direto ao reino dos céus.

- Boa noite, faça seu pedido, por favor.

- Boa noite. O senhor tem salada de frutas?

- Não, senhora. Só entregamos pizza.

- Ah, que pena. Então me manda uma gigante, de calabresa com cebola e queijos, muitos queijos.

- Pois não.

A pizza chega, ela devora num tapa, sem culpa. Já é quase uma da manhã.

Ela bem que tentou, mas não pôde fazer nada. Onde iria achar salada de frutas a essa hora?

23 janeiro 2003

Respostas:

O da foto abaixo é o ator Ângelo Antônio, e o da foto mais abaixo ainda é o ator (gaúcho) Werner Schünemann - que interpreta Bento Gonçalves na série A Casa das Sete Mulheres, na Globo.

A poesia (mais abaixo ainda) é minha mesmo. :o)

E aí, Melissa, quanto aos bofes... melhorando ou piorando?


Dúvida cruel... (suspiro)


Ai, ai... já me apaixonei de novo.
Não me gosto
didática,
exemplar,
categórica,
correta,
protocolar,
metódica.

Prefiro-me às voltas, às moscas, aos prantos;
que o eixo seja semi-reto, que a margem saia meio torta,
que a letra esqueça a palavra, que esqueça o verso,
que esqueça o texto e todo o resto.

Já me basta a fama de implacável,
que disfarço com olhar disperso;
e já me chega a marca de insensível,
que mantenho pra evitar conversa.

Não me gosto
elétrica,
ávida,
pulsante,
enérgica,
falante,
corrente.

Prefiro passos lerdos, próximos, prestes;
que a foto seja sempre um susto, que a pose saia indecente,
que o olho supere a fala, que desbanque o verbo,
que destranque o beijo e todo o resto.

Pois já me basta a fama de arrogante,
que combato com sorriso doce;
e já me chega a fome de um abraço,
que contenho enquanto ainda posso.

20 janeiro 2003

No fritar dos miolos


De vez em quando bate repentina vontade - eu diria quase que uma gana – de escrever alguma coisa útil mesmo, não só útil a mim e a meus botões. Aí eu penso bem forte, e me fascina o dom que o ser humano tem de esquentar a cuca até chegar, invariavelmente, à mesma conclusão: De NADA vale o fritar dos miolos. E nada vale a fritada deles.

Duvido que alguém aqui tenha decidido um grande pepino de sua vida, fosse de ordem financeira, emocional ou vegetal mesmo, a partir do raciocínio compulsivo e ininterrupto acerca do objeto pepinoso. O fim da linha, quando se envereda para os lados mui frenéticos da atividade cerebral, é um só: justamente o ponto inicial. Ou seja - anda-se, anda-se, mas não se chega a lugar algum.

Contudo, milhares de seres humanos – nós (quase) todos -, ainda embalados por um sotaque cartesiano e mecanicista, pensam que têm acima de seus pescoços as respostas certas para todas as perguntas do mundo. Sua cabeça é seu mestre.

Parece mentira, mas, por mais que digamos que não, ainda estamos absolutamente deslumbrados e apaixonados por nossas próprias cacholas. O cérebro, como é incrível!

Tive uma idéia. O cérebro. Estou sendo sensato. O cérebro. Pensa bem. O cérebro. Sou inteligente. O cérebro.

E o resto?

Partes menos nobres da anatomia humana recebem tratamento de segunda ou terceira classe. Algumas são até sinônimo de palavrão, tamanha má fama. Outras, coitadas, são completamente ignoradas durante boa parte da vida. Uns até morrem sem saber.

O que é mesmo um clitóris?

O clitóris veio à tona depois da “revolução sexual”. Mas o cérebro nunca precisou de revolução nenhuma.

Caberia, a essa altura do campeonato, uma verdadeira revisão: afinal, até que ponto eu devo minha vida às engrenagens da razão?

Quantas vezes eu gastei neurônios, insistentemente, achando que resolveria um problema enorme - quando a resposta estava na asa da borboleta colorida que pousou, sem querer, na roupa branca que secava ao varal?

As coisas estão por aí, vagando; muito mais do que aprisionadas na nossa caixa craniana. O tutano pode ser muito, mas o mundo é mais.

Às vezes, uma simples olhada em volta revela o que o raciocínio lógico jamais conseguiria compreender. Yes, nós temos antenas, e elas servem para captar o que não caberia dentro de nós, mas tem passe livre para entrar e sair na hora em que bem entender.

O problema de superestimar o cérebro é justamente dar um nó nas antenas, e obstruir caminhos alternativos de percepção. Fecha-se um círculo vicioso, forma-se um entra-e-sai contínuo de informação, e não há espaço para RENOVAÇÃO.

A única forma de renovar o ar é expirando, para depois inspirar de novo.

Assim funciona com as idéias: não adianta fritar os miolos, se não houver espaço para as antenas brincarem de nariz da alma.

09 janeiro 2003

BUENAS!

Tudo tri com vocês? Espero que sim.

Têm acompanhado A Casa das Sete Mulheres, na Globo? Eu assisti aos dois primeiros capítulos, e achei legal, apesar do sotaque sulista soar bem apenas em dois ou três atores. Sinceramente - não é bairrismo, não -, bem que a Samara Felippo, por exemplo, poderia ser mais esforçada e parar de misturar "tu foste" com o chiado característico dos cariocas (que acho uma graça, mas fica ridículo numa situação dessas).

"Bah, tu foxxxxte à guerra?" - é, no mínimo, esquisito.

Tudo bem que deve haver alguma dificuldade em se adequar ao sotaque dos outros, mas eu pensei que o trabalho de ator/atriz fosse justamente este: vencer as dificuldades, representar, ser aquilo que não se nasceu sendo.

E não é só o sotaque, não. Alguém poderia cuidar para que a Nívea Maria, por exemplo, não segurasse a cuia de chimarrão como se fosse um coco verde, e a bomba como se fosse um canudinho de plástico. Não é preciso agarrar com as duas mãos - uma na cuia de porongo e a outra na bomba de metal. Os materiais são suficientemente resistentes, não é qualquer vento que vai levar o mate amargo embora.

O ato de segurar a cuia como se ela fosse fugir a qualquer momento tira toda a elegância da cena. O significado vai embora, fica uma coisa vazia.

São detalhes como esses que fazem a diferença; são pequenos cuidados que, se estiverem presentes, ninguém percebe. Já, se estiverem ausentes, saltam aos olhos.

Outra coisa que salta aos olhos, verdade seja dita, é o Tiago Lacerda de barba por fazer e cabelo por cortar. O bonitão aparece sem o rosto de bundinha de bebê e o cabelinho bem cortado, como convém a bons moços de horário nobre, e cresce uns 100 pontos na minha escala estética que clama por alguma imperfeição no reino dos galãs convencionais - os "tudo-de-bom" que têm aparecido por aí.

Acho que esse pessoal da estética "global" pensa que é preciso retornar a 1800 para que se possa mostrar um homem de verdade. Aliás, Ângelo Antônio e Murilo Rosa também estão melhores do que nunca em 1800!

Estivesse eu em meio àquela guerra, ficaria realmente confusa, indecisa, e talvez sequer diferenciasse aquelas fardas.

E acho que acabaria atirando para todos os lados.



07 janeiro 2003

BOM ANO BOM ANO BOM ANO BOM ANO BOM!

Que vergonha... meu último post foi no dia 27 de dezembro do ano passado. Que feio. Sei que vocês devem estar super decepcionados comigo, mas explico, se é que ainda tenho algum crédito aqui: estive fora. Passei a virada do ano em Tramandaí "Beach", "a capital das praias do sul do Brasil" - segundo o folder do hotel informava.

A pobre Tramandaí está imunda e superlotada, porém ainda simpática. Adorei rever, recordar.

Voltei para São Léo, minha terra, com o humor de quem perdeu os últimos dias de sol na praia aboletada numa cama de hotel, por conta de uma gripe ordinária e inoportuna que resolveu me freqüentar os pulmões, logo nos primeiros dias de 2003. Acontece.

Passei alguns dias me recuperando, tossindo e espirrando - como, aliás, ainda estou.

Desculpem o final do post tão corrido, mas estou sendo chamada de urgência para um almoço na Vó.

Acontece.

27 dezembro 2002

LAY OUT NOVO

O BiBlog comemora o Natal, e quem ganha o presente é você! Aliás, nós, porque também eu fiquei surpresa ao me deparar com o novo lay out - a responsável pela arte é a minha amiga Melissa.
Valeu, Me!! Adoramos!

A propósito, eu também achei que estava no lugar errado até reconhecer meu próprio blog, vestido de nova cor... caiu-lhe muito bem, ali(L)ás!

É bom entrar o ano de roupa nova, dizem. Estou nessa, agora, até virtualmente.

Vocês já entraram no clima de réveillon? Eu recém comecei a me animar e a pensar a respeito. Não sei de vocês, mas eu não sou daquelas pessoas que têm pavor das festas de fim de ano, não. Eu sempre gostei, principalmente da virada.

No Natal a gente ganha presente; na virada a gente ganha futuro. Tem aquela coisa meio ilusória de virar a vida de cabeça para baixo, chutar um balde ou outro, arrumar de vez o que nunca esteve lá muito certo. Gosto dessa promessa, ainda que fique só na intenção. Não me incomodo com as fantasias que não se concretizam nunca; para falar a verdade, acho mesmo que são elas as mais interessantes.

O concreto deixa de ser infinito no momento em que vira fato, não? Que graça?

Eu gosto de ter um pezinho sempre no infinito, no ilimitado, no - por que não? - inatingível. Nunca fui muito de cercar as idéias com tijolos; depois dá muito trabalho para pular e ver o que há do lado de fora delas.

É por isso que eu não me incomodo com a inquietude da possibilidade, com a insensatez da ilusão, com o não cumprimento de alguma coisa que parecia fadada ao êxito. Melhor estar sempre em aberto.

Em 2003 eu quero abrir exceções, fazer concessões, criar possibilidades. Posso sair da rotina, experimentar novas sensações, selecionar hábitos inusitados e incorporá-los. Incorporar hábitos é preciso.

Vou abrir algumas lacunas e deixar ventilando, sem me preocupar em tapar furos, cobrir frestas, definir, socar, sufocar, resolver. Um pouco de ar, em 2003, não fará mal a ninguém.

Só isso já vai ser trabalho duro, mas cavalo que corre por gosto não cansa. E ninguém mandou eu não gostar de cercas.







25 dezembro 2002

Vocês são uns amores! Mesmo na minha ausência, apareceram para registrar votos de bom Natal. Obrigada! Retribuo com sinceros desejos de paz e felicidades para o próximo ano.

A minha noite de Natal foi ótima. Comecei tocando violão e cantando com a parentada, e terminei às 6h da manhã de hoje, chegando em casa acabada de uma festa com minha incansável prima de 18 anos.

Chegamos na cervejaria/boate pouco depois da meia-noite. Olhares inquietos, expectativas, esperanças, vestidos de vários tamanhos e estilos. Homens de camisa vermelha, cumprimentos, sorrisinhos ensaiados e improvisados. Aquela coisa.

"O que será que eles procuram aqui?" - meu lado sagitariano-filosófico-enfadonho ameaça botar as garras sobre a minha saudável noite fútil. Controle-se, é apenas uma noite. Fútil.

Resolvo me distrair com as belezas humanas desta terra abençoada por Deus, e me encanto por um daqueles vários meninos de vermelho - que, para meu desânimo, engata-se de súbito a uma loura monumental, e desaparece entre os cachos dourados para nunca mais retornar a este reles mundo dos mortais.

Pronto. Menos um.

Relaxe, aconselho a meus neurônios mais afoitos, é Natal. Minha prima pergunta se eu quero dançar, eu pergunto quando vai começar a música, ela responde que é aquilo ali mesmo. Achei que estavam consertando alguma coisa na boate, pois o barulho mais se parecia com um martelo insistente do que, propriamente, com alguma canção. Mas ela reafirma: é isso aí que tem.

Pronto. Menos uma.

Não sou de dar carão; aceitei o convite e fui à luta. No início, me senti um pouco ridícula. Depois, foi piorando. Mas o importante é competir - eu me consolava, enquanto uma adolescente descompassada e meio bêbada se sacudia do meu lado, e depois ia se agachando até o chão, com as duas mãos na cabeça, e fazendo biquinho. Não estou tão mal assim, afinal.

Depois de uma "música" vinha outra, e outra, e ainda outra. Aquele aglomerado ia ficando cada vez mais parecido com uma coisa só. À medida que ia entrando mais gente na pista, a sensação era de que eu ia perdendo o controle sobre os meus próprios movimentos, passando a fazer parte de uma massa nervosa e compulsiva, ali, quicando ao bater de cada martelada. Era a dança.

- Quando não agüentar mais, é só falar... - ela me advertia, com olhar quase piedoso.

- Imagina! - eu tentava disfarçar.

- É só falar... - eu não conseguia disfarçar.

Joguei a toalha quando meus calcanhares já estavam dormentes, meus dedos pisoteados e esborrachados de inchaço, meus quadris apenas mexendo uma vez a cada duas ou três marteladas.

- Vamos dar uma voltinha? - ensaiei um sorriso e dei uma piscadela, como quem quer ver se encontra algum pretendente ou coisa parecida. Colou.

Ela saiu na frente, ainda rebolando ao ritmo da massa. Eu saí atrás, gemendo em silêncio e pisando manso, para ver se a sola dos pés latejava um pouco menos, se eu voltava a sentir as pernas, se a minha cabeça parava de clamar por duas aspirinas e silêncio.

O pretendente? Se meu travesseiro me aparecesse montado num cavalo branco, eu casava na hora. Com qualquer um dos dois.

Demos várias voltas pela boate, mas adiantou muito pouco. As minhas dores foram piorando; minha prima foi se animando. A morte era questão de tempo.

Agüentei no osso equanto deu. Passava das quatro da manhã quando eu sugeri que fôssemos indo, ela teria que viajar hoje ainda com a família, podia se sentir cansada... mas errei o alvo. Ela sorriu, tranqüila:

- Que nada! Tenho gás para virar a noite aqui dentro e depois sair de viagem, numa boa!

Mais uma hora quicando numa pista de luzes piscantes e fumaças variadas. Quem mandou eu não ser sincera? Bem feito.

Cinco horas, abri o jogo: o papo (?) está bom, mas a carroagem tá virando abóbora. Mais cinco minutos, e eu só saio daqui de cadeira de rodas.

Fim de combate. Chegamos em casa ao clarear do dia de Natal. Tirei a farda e a sandália, deitei na cama e ainda quis iniciar uma oração, mas confesso que o sinal da cruz foi só até o nome do filho.

Capotei com a mão no peito, como uma guerreira esgotada, porém feliz.
E já prometi a mim mesma: da próxima vez, vou de coturno. Muito mais adequado a esse tipo de enfrentamento pesado.


19 dezembro 2002

NEM TODA CATARINA É SANTA

O quê?? Tá brincando! Santa Catarina é o paraíso perdido, ou melhor, achado. Da última vez em que estive lá, foi preciso um guindaste para me levar de volta ao Rio. O máximo a que eu chego é Torres, perto do fim do ano, que infelizmente não vai dar para atravessar a fronteira e me meter na ilha da magia desta vez. Desta vez!

11 SHOUT OUTS

Qual não foi minha surpresa ao me deparar, hoje, com onze recadinhos de vocês! Muito obrigada, muito "agradicida mêsss"... adoro receber vocês aqui, do contrário seríamos apenas eu e meu eco eu e meu eco eu e meu eco eu e meu eco... ad infinitum.

FAMÍLIA, Ê, FAMÍLIA, AH, FAMÍLIA!

Tem coisa mais gostosa no mundo?
Eu tenho o maior prazer em reservar minhas horas e meus dias somente para o convívio familiar. Quem tem família sempre por perto pode não dar tanta importância, mas a gente, que mora longe, acaba se deliciando ao som das vozes que sempre estiveram ali, desde sempre. Soa como canção de ninar.

Eles dizem, família é coisa complicada. É nada. Não há nada mais simples neste mundo do que essa bagunça generalizada, vozes altas, crianças estabanadas puxando a toalha da mesa, a vó não vai deixar o cigarro, Vó? Cuide da sua vida! Como cresceu! Pintou o cabelo, foi? Está mais magro, ou é impressão minha? Põe os óculos, mãe, não assina o cheque assim, sem ver nada, pode ser perigoso... falar nisso, e o Rio de Janeiro?

Ontem eu vi o olhar da minha prima numa foto minha. Pode haver generosidade mais espontânea do que essa? Ela nem sabe, nem pensou em permitir, nunca pensou no assunto. Mas está lá, para quem quiser ver. Há uma cumplicidade implícita nisto; há mais que parentesco, mais que parceria.

Família é isso, simples assim; é dividir até o olhar.

17 dezembro 2002

Oi, meus queridos e minhas queridas.

Peço que não reparem n'algum possível erro de digitação. São duas da manhã, e estou sonolentamente me encaminhando a meus aposentos; só vim aqui mesmo para não deixá-los mais um dia órfãos de minhas sandices pseudo-literárias.

Escrevo do Rio Grande do Sul, mais precisamente de São Léo, Minha Terra. Vim passar as festas de fim de ano com minha família, embora tenha deixado boa parte dela no Rio de Janeiro - mas, tudo bem, nada é perfeito mesmo. Minto: o céu azul do Rio Grande do Sul é perfeito.

Desculpem minha crise de paixonite declarada ao estado que me pariu - juro, é temporário, e não é fruto de bairrismo algum. Apenas coisa de gaúcha que se auto-exilou dos pampas, por livre e espontânea vontade, e agora deixa de ser fiel: tem um marido gaúcho e um amante carioca, cada qual com suas belezas e seus sotaques inconfundíveis, fazendo com que meu coração bata em samba e milonga ao mesmo tempo.

Ops!, espero que entendam a minha metáfora: meu marido é o meu doce Rio Grande - casório registrado na minha certidão e tudo -, com quem me envolvo amorosamente desde que me conheço por carne e osso duro de roer, como convém a toda gaúcha que preze as tradições pampeanas.

Meu amante é um carioca, digo, um estado chamado Rio de Janeiro, onde instalei minhas letras e músicas assim que fiz 20 anos - e de onde não pretendo sair tão cedo. Claro que dou minhas escapadelas, que ninguém é de ferro, e o maridão sulista acaba recebendo o ar da minha graça volta e meia.

E chego sem aviso prévio, que é para pegar o peão no pulo, se for o caso. Ai dele!

Mulher é bicho bem sonso, mesmo.
Daqui a uns dias eu volto, com a maior cara de paisagem, e dou "aquele abraço" no Redentor. Finjo que só fui ali na esquina comprar pão...
Ele acredita, e fica tudo bem.

Isso se vocês não derem com as teclas nos dentes, né???

13 dezembro 2002

Ontem me deu vontade de sair de maria-chiquinha, mas não tive coragem. Eu tenho coragem para tanta coisa, desde escrever uma música boba e assinar embaixo até gostar de rúcula, mas me pelo de medo de um penteado infantil. Talvez eu tenha receio de que alguém ria de mim; mesmo assim é estranho, porque eu passo boa parte da vida fazendo ou dizendo ou escrevendo coisas para que os outros riam de mim. Mas, não sei, o penteado me pegou de jeito.

Claro que eu não fiz aquela maria-chiquinha inteira, sabe como é, deixei boa parte do cabelo solto, como quem diz que eu sou adulta e tal. Mesmo assim, quem olhasse de frente ia perceber que eu reparti com pente, e não reparto com pente há vários anos. Tanto é verdade, que não consegui deixar lá muito retinho. Pelo menos isso eu tinha a favor, o repartido estava meio indeciso, coisa de gente que não sai de maria-chiquinha todos os dias.

E ficaram uns fiapos rebeldes, escapando do elástico, e eu peguei uma presilha, mas uma só ficava assimétrico, peguei duas, não deram conta, peguei logo quatro, e o pior estava por vir, quando olhei no espelho, eu, ali, duas chiquinhas, uma de cada lado, quatro presilhas, duas de cada lado, putz!, não é que ficou ótimo?

Ficou tri bonitinho – eu diria.

Ainda assim, o espelho me encorajando, o horário da saída estourando, o rímel ajudando, o batom enfeitando, eu não pude, eu não sei, eu ando tão... sem chiquinhas.

Arranquei tudo num só golpe, e saí com o cabelo solto, como de adulta, como de praxe. Mas as chiquinhas foram comigo, só que do lado de dentro da cabeça. Como quase tudo que eu tenho.

Olhava no espelho, e não era mais uma mulher de cabelo solto. Era uma mulher sem maria-chiquinha. Havia um desfalque, sim, e não era coisa da minha cabeça, apesar de ser. Cadê que eu me sentia inteira, cadê que eu esquecia o acontecimento de não ter saído enfeitada?

Estava feia, velha e gorda. E pálida, e abatida, o sorriso era flácido, o olho cansado, o gesto era lerdo e o passo era torto. Sem brilho, sabe?

Também, com esse meu nome! Se eu me chamasse Kátia com K, talvez ficasse mais fácil andar por aí de maria-chiquinha, até porque, se for reparar, o próprio K já vem com esse penteado no desenho, olha aí. O Y é outro.

Quando resolvi voltar para a casa, com aquele ar fracassado e até meio doentio, ocorreu-me, de súbito, uma idéia que revolucionaria o meu passeio para todo o sempre. Não devo ser tão extremista, já diria minha terapeuta e o próprio Buda. Devo ir com calma, uma coisa de cada vez, uma coisa de cada vez, uma coisa de cada... vez!!!

Olhei-me no reflexo do vidro mesmo, não podia esperar um espelho. E puxei um naco de cabelo com a mão direita, e dei uma enroladinha com o dedo, e prendi com elástico, ali mesmo, em meio ao burburinho, dane-se.

Passei o resto da noite com meia-maria-chiquinha, um só belo rabo, assimétrico mesmo, feito um Y perneta. Uma coisa de cada vez.

Assim eu vou me acostumando e perco a timidez. Hoje, vou com o rabo esquerdo.

Por enquanto eu nem chamo atenção e ninguém ri de mim, ou, se ri, só pode rir pela metade. Mas eu vou me preparando, vai chegar o dia em que vou chutar o balde, não quero nem saber, saio de maria-chiquinha completa e minhas presilhas todas.

Se alguém olhar torto, ponho a língua mesmo. Aí vai ser um Y e um P.

12 dezembro 2002

Óóó, pobres BiBlogólatras Anônimos, quer dizer que sentiram minha falta, foi? Pois, que peninha, também agora estou sem tempo de acarinhá-los como deveria.

Das últimas notícias que me vieram perturbar os ouvidos, a pior foi – e está sendo – a tragédia em Angra dos Reis, é claro. Se bem que, aqui pensando, é de causar semelhante mal-estar a seguinte novidade: “Kelly Key lança REMIXES INÉDITOS”.

Não estou de brincadeira, e o termo não é meu (eu não seria capaz de criar tal pérola). Acreditem, “REMIXES INÉDITOS”. Eu me ponho a refletir sobre o que poderia vir a ser um REMIX INÉDITO. A julgar pelo prefixo “RE” - que, salvo engano, significa tudo, menos algo NOVO! -, então a expressão me parece seriamente equivocada. Para dizer o mínimo.

No entanto, quem inventou a pérola tem minha honesta admiração, e até minha peçonhenta inveja, se quiser. Está aqui estampado o supra-sumo desse vácuo criativo em que se encontram os artistas “top” das nossas “paradas radiofônicas”: REMIXES INÉDITOS!

Aliás, não existe coisa mais PARADA, de fato; com perdão do trocadilho inevitável.

Estou ansiosa para conhecer o novo-lançamento-re-inédito-mixado da cantora Kelly Key. Há de ser surpreendente.

O mercado fonográfico brasileiro encontrou a chave (key?) do sucesso; desde então, eu ouço rádios gagas e gagás, re-re-re-re-repetindo as mesmas paradas e babando, baby, babando no molhado.

Valha-me Deus, quisera isso tudo fosse apenas uma crônica ácida de alguma baixista solitária, rejeitada e mal amada, soterrada numa clave de fá. Seria menos dolorido, pois com a minha rabugice eu já me entendo há décadas.

O que não dá para entender é essa usina de re-novidades re-inéditas.
Re-voltante, não?

04 dezembro 2002


www.renatoborghetti.com.br

Agora que aprendi a postar fotos aqui, ninguém me escapa.
Confiram a beleza incalculável desse gaúcho talentoso (suspiros) e seu companheiro pingo (cavalo, em gauchês).
Não sei se tudo isso é saudade dos pampas, mas... BARBARIDADE, COMO DEUS É CAPRICHOSO !!!
Conflitos


Não tem graça nenhuma você, com a chave na mão, como quem vai embora, conferindo a carteira e os bolsos para ver se lembra onde escondeu a alegria.

Fosse eu mais romântica um pouco, tascava um beijo de despedida e mandava o outro olhar no espelho, ver se acaso achava ali a alegria perdida. Em vez disso, careço da meiguice apropriada; já nasci assim meio desajeitada, nunca sei o que fazer com as flores. Tenho medo de apalpá-las demais e aquilo me queimar, eu derreter, Deus me livre, derreter.

Pior você, que não ajeita nem desajeita, não parte e não ata, não chora, não implora e não se evapora logo embora. Pior você, pouco honesta, indo e vindo, a emoção balançando no céu e a razão atirando pra matar.

O último coração que amou e a cabeça mandava dizer que era mentira e era mentira, o pobre batucava mais que tamborim no sambódromo, mesmo assim era mentira e era mentira. Até que o vivente se achou exausto do bate-boca e ordenou: decidam vocês!

Não deu meia hora, saíram abraçados – cabeça e coração. Que briga sem platéia não tem graça.

Ora, o conflito sempre vai haver; o que não pode é ficar dando trela pra ele.

03 dezembro 2002


Os meninos e eu. :o)

Ana Lógica