04 agosto 2004

Rápidas


Essa novelinha das 6h é uma gracinha, e eu vou querer um daqueles Tobias (Tubía, como eles dizem) pra mim. Alguém sabe onde vende, a granel?

Vou querer, igualzim. Bem xucro, mess. Às vezes a gente também quer só um tra-bíceps-vesseiro pra encostar a cabeça e babar, tá? Numa noite fria de chuvinha fina. Quem disser que não, é mentira.

***

Minha faxineira é uma fofa. Perguntando, hoje, se eu tinha a tampa daquela panela de pressão. Não tenho. Que, se tivesse, ela podia cozinhar um feijão pra mim da próxima vez, enquanto fazia a faxina, e depois separar tudo em potinhos e pôr a congelar.

Agradeci, sensibilizada. E, orgulhosa, disse ter cozinhado o feijão mesmo sem panela de pressão (ou sem a tampa, o que dá no mesmo). E ela, no ato:

- Eu percebi. Comi hoje. Feijão bem duro.

***

Meu irmão me incomodando para achar a página dos quadrinhos no jornal de domingo, em meio àquela bagunça de jornal espalhado – que, diga-se de passagem, ele faz e eu condeno.

- Não vai achar! Não vai achar! – eu disse, pondo a mão em cima da pilha.

Ele procurou mesmo assim, e achou. Ao que me surpreendi com a minha atitude de mulher madura, enquanto ele ia levando os quadrinhos:

- NO FINAL, O CEBOLINHA VAI PULAR N’ÁGUA E A PISCINA ESTÁ VAZIAAAAA!

Depois me arrependi. Não se faz.

***

Ele saiu, e, na volta, ouvi um barulho embaixo da porta do meu quarto. Era um almanaque da Turma da Mônica, todinho só pra mim.

Tapa de luvas.

***

Hoje, pagando o extrato do meu cartão de crédito, observei a seguinte ironia: pago R$ 40,00 para receber todos os dias, na porta da minha casa, assassinatos, assaltos, desrespeito ao cidadão e ao meio-ambiente, roubo de dinheiro público, chacinas e impunidade.

Quanto será que me cobrariam para assinar só o João Ubaldo, hein?
Pai é pai

26 anos na cara, morando fora (noutro estado) desde os 20. Sexta-feira, depois de ter suado em bicas durante o show, fui comer pizza na varanda do bar e peguei um resfriado. Contei à minha mãe, por e-mail, entre um espirro e outro. E ela, lá, contou pro meu pai, que não hesitou em observar:

- A falta que um pai faz...


Pai é pai - II

1992. Eu tinha recém começado com essa história de banda. Tocávamos na praça de alimentação do shopping da cidade – que, por sua vez, também tinha recém começado com esse negócio de shopping. Eu tinha torcido o pé jogando basquete um dia antes, mas estava ótima, não tinha sido nada.

Minutos antes do início do “show”, a galera já reunida, abarrotando as cadeiras da praça de alimentação; a banda, naquele nervosismo e silêncio pré-primeiro-acorde. Contagem regressiva.

Lá detrás, afoito, meu pai vem abanando alguma coisa no ar. Não quero crer que é ele. Quanto mais se aproxima, mais reconheço o grave esbaforido da voz:

- Filhaaaaa! Filhotaaaaaa! Pera!!!! O pai trouxe um Gelol pro teu pezinho!!!

Como eu queria que houvesse outra filha, outra filhota, outro pezinho, e outro pai maluco que não fosse o meu, a gritar sandices à beira do palco. Como eu era a única menina de banda, olhei para os lados, mas não adiantou disfarçar. O jeito foi sorrir amarelo:

- Não precisa, pai. Pode ir. Não precisa, estou bem. Vai...

Ele não se intimidou diante da minha cara feia (afinal, foi ele quem fez!), e me tirou do sério: com a outra mão, sacou, de súbito, um Toddynho (!):

- Então pelo menos pega o Toddynho que o pai trouxe, faz tempo que não te alimentas...

Bufei, e ele sumiu no vapor da minha bufada. Quem não o conhecesse poderia até dizer que fui áspera com o pobre pai cuidadoso. Que nada.

Cheguei em casa e fui tirar satisfações. Ele se refestelava no sofá, às sonoras gargalhadas:

- Quáquáquáquáquáquáquáquá!!! Essa do Toddynho eu tinha planejado há uma semana! Mas aí pintou esse improviso do teu pé, e eu não tive dúvida: comprei um Gelol e aperfeiçoei o número! Quáquáquá! Foi ou não foi de mestre? Quáquá! Morreu de vergonha! Bem feito! Quáquá!

01 agosto 2004

Minha mesa meia-lua de vidro


Estava aqui, diante do micro, atualizando meus contatos cibernéticos e dando de comer aos vícios virtuais. Foi quando, de repente, um bom pedaço da minha mesa de vidro se foi ao chão, sem a menor cerimônia, como criança que quer alguma coisa e não ganha. Só faltou bater os pés.

O barulho produzido pelo suicídio da mesa foi tamanho, que só não me grudei no lustre porque não tenho lustre. Susto passado, fiquei me perguntando o que teria feito a metade da mesa se indispor com a outra metade desse jeito tão dramático, rompendo abruptamente num divórcio certamente sem chance de volta. Uma pena. Juntas, as metades formavam uma bonita lua cheia. Agora, tenho apenas uma mesa meia-lua de vidro.

Está certo que eu nunca havia entendido direito como encaixar uma mesa redonda nalgum canto da sala, de modo a criar um ambiente (não é assim que os decoradores dizem, ambiente?) charmoso, à minha altura. E ficava arrastando, de lá para cá, a pobre da mesa arredondada, girando, girando, até que ela me parecesse um pouco mais... quadrada. E nada.

Com o divórcio das partes, ao menos consigo encostar a parte reta na parede também reta, e a meia-lua parece estar embutida no concreto. Posso fazer minhas refeições solitárias de frente para a parede, ou até pendurar um quadro com o rosto do Richard Gere para me fazer companhia.

Do café da manhã à ceia, estarei apoiada sobre a metade cheia da mesa, e Richard preencherá lindamente a outra metade.

Quando eu estiver de dieta, inverto a mesa.

31 julho 2004

O show de ontem

O som, no palco, estava muito melhor do que nas últimas vezes em que tocamos lá. A bateria ficou no canto, e disso eu não gostei - ficou meio “torto”. Eu tinha de olhar para o lado direito para enxergar o baterista, e para o lado esquerdo para ver o guitarrista. Enfim, detalhes cênicos.

Depois do show, veio um moço dos dentes bonitos (conforme observou depois a minha cunhada, que não perde um detalhe odontológico):

- Muito obrigado, você salvou a minha noite! Raramente venho aqui, mas hoje tinha um amigo deprimido, você sabe... a mulher dele, você sabe... (fiz que sabia) E aí me aparece essa surpresa, você! (Fiz que não sabia) Uma mulher que é puro rock’n roll!

Fiquei feliz; mais pelo prazer proporcionado do que, propriamente, pela veracidade do título. Se ele me pega tocando Canto Alegretense (ouve um canto gauchesco e brasileiro / desta terra que eu amei desde guri) e cantando a plenos pulmões aqui na minha sacada, estou perdida. Ou, pior: cantando Besame Mucho (como si fuera esta noche la ultima vez) para a minha mãe rir... já pensou?



Simancol

Pouco antes do show começar, meu irmão já em cima do palco acertando o equipamento, duas moçoilas pedem para subir. Querem tirar uma foto em frente ao microfone, fingindo que estão cantando. Sobem e começam a rebolar, fazendo caras e bocas para a outra amiga, lá embaixo, bater a foto. Se estão atrapalhando a banda que está prestes a começar? Não pensaram nisso. Uma delas tem uma idéia brilhante e cutuca meu irmão, toda sorrisos:

- Ei! Você pode fingir que está tocando a guitarra pra gente bater a foto??

Resposta dele:

- Não. Estou aqui a trabalho.

Ploft-ploft! (Barulho da cara delas caindo no chão). Hoho.
Beeeeeeeeeeem feito.



Bodas

Meus pais comemoraram, na quinta-feira que passou, 32 anos de casados. Saíram para jantar e dançar.

- A banda era ótima. Sobretudo quando os músicos tocavam, os três, a mesma música.
- Como assim?
- Ah, não sei. Volta e meia eles discordavam, saía cada qual tocando uma coisa diferente, principalmente no início da música. Depois, se olhavam e acertavam o passo. Aí, dava pra gente dançar e tudo!

Sei como é. Já aconteceu comigo. Abafa o caso.

28 julho 2004

Para quem é do Rio
 

Sexta-feira (30/07) tem show no Far Up!
Endereço: R. Voluntários da Pátria, 448 - Cobal do Humaitá.
Horário: 23h

Estarei, acompanhada de minha banda, fazendo covers de rock nacional e internacional, além de alguma música própria.
No repertório: Barão Vermelho, Rita Lee, Alanis, James Brown, Creedence, Kenny Loggins, Cardigans, etc etc etc...

E aí? Você vem?

 

19 julho 2004

Caetano por Marina W

 
Poramordedeus, leiam no blog da Marina as impressões sobre o show de Caetano no Municipal (sensação da semana aqui no Rio), entre as quais destaco a seguinte sacada:

"Com exceção dos aplausos demorados, a platéia do Municipal foi fria, muito fria. Os cafonas acharam que onde tem orquestra - maravilhosa, regida por Jacques Morelembaum - há de haver um respeito fúnebre. Até no bis, quando ele canta Mamãe eu Quero, talvez a música mais contagiante do Brasil, ninguém canta com ele."

E ainda diz Marina:

"Paula Lavigne dava ordens antes do show começar, vocês me entendem."
 
Entendo, Marina. E como entendo.

Frase
 
 
Essa é do João Ubaldo, tentando reproduzir uma frase atribuída a Nelson Rodrigues :
 
"Se todo mundo soubesse da fantasia sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém."
 
É ou não é uma maravilha?
 
 
 
Constatação
 
 
Quando o sol bater
na janela do teu quarto
lembra e vê
que o caminho é um só.
 
Por que esperar
se podemos começar tudo de novo
agora mesmo?
 

18 julho 2004

Deus abençoe os programas de auditório!
 
 
Pois pude extrair hoje a seguinte pérola, dita por Luciano (do Zezé):
 
"Acabou de ser filmado as filmagens do nosso filme."
 
 

16 julho 2004

DVD
 
Não tenho visto muitos filmes ultimamente, mas tem dois que recomendo:
 
O júri

Se é que alguém ainda não viu. Como o nome já diz, é um filme de tribunal. Mas não é só isso. Tem um roteiro envolvente do início ao fim, um suspense interessante e boas atuações. Filmão, assistam!
 
 
O quinto passo (em inglês, Levity
 
Com Billy Bob Thurnton e Morgan Freeman. Esse não é um filme comum, e também não é um “filmão”. Mas eu gostei muito. Trata-se de uma história sensível - sem ser chata! - que fala de perdão e destino. Traz um olhar interessante sobre a condição humana; mas não espere lições de moral ou um filme pretensioso. 
  
  
Feijão cibernético 
  
Aconteceu comigo. Fui cozinhar 1 kg de feijão (para congelar). Tudo ia bem, até que resolvi provar o sal – como sempre -, e tive uma desagradável surpresa: estava salgado DEMAIS!
 
Nunca tinha colocado tanto sal numa comida antes. Era insuportável, certamente eu tinha estragado o feijão. Fiquei desesperada. Procurei batata (todo mundo sabe o truque da batata – ela “chupa” o sal da comida), mas não tinha. Joguei duas cenouras, no desespero. E vim ligar o computador. Santa internet, deve haver alguma solução.
 
Digitei no Google: “muito sal comida”. Como quem faz uma prece digital. Muito sal comida. E o feijão fervendo. E as cenouras. E o meu suador. E a minha vontade de rir, e o meu abafo do riso – em respeito a mim própria e à tragédia que se instalava na boca maior do meu fogão. Ai, Jesus.
 
“Se você colocou muito sal na comida, experimente pingar algumas gotas de limão, depois deixe ferver mais um pouco” – achei no Google!
 
Limão? É pra já! Cortei um limão e espremi, não apenas algumas gotas, mas o limão inteiro – afinal, era “muito sal comida”!
 
Confesso que já estava descrente. Meu feijão estava arruinado, era um caso perdido. Por mais que eu jogasse cenoura ou limonada, ou mesmo adoçante (confesso que não fiz, mas quase, quase!), nada resolveria. Era o fim da feijoada, eu tinha de me conformar.
 
Que nada! O Google (pra variar!) tinha razão. E o limão resolveu o caso do meu feijão salgado, como num passe de mágica.
 Quem quiser provar o meu feijão cibernético está mais que convidado.

14 julho 2004

Se é que me permite...


Às vezes eu tenho vontade de chegar perto das pessoas, com esta minha cara de “se é que me permite”, e me permitir algumas coisas - mesmo sem esperar ser permitida.
Se é que me entende, mesmo sem ser entendida.

Não digo apoiar o queixo na mão e franzir a testa - que isso eu já faço há anos -, e discutir alguma relação, ou criticar alguma atitude, sugerir melhoria de comportamento. Muito pelo contrário; cultivo uma gana silenciosa de atropelar certos padrões da sociedade e cometer uma indiscrição digna de burburinhos paralelos. Sem base, mesmo.

Abordar uma mulher que nunca vi mais gorda e me oferecer para carregar as suas sacolas. Dar um beijo na testa do motorista do ônibus. Passar a mão no cabelo de um adolescente com cara de rebelde. Cutucar um senhor barrigudo e pedir que observe como é ainda maior a barriga daquele outro.

Se é que me permite, eu adoraria perguntar tudinho sobre a sua vida, e ainda fazer observações a respeito dos seus parentes. E vou falando (se é que me entende) como se eu fosse a mais íntima das criaturas (mesmo sem você entender patavina), e dou pitacos na herança dos seus pais, no corte de cabelo da sua tia ruiva, e ainda sugiro que seu afilhado mude de colégio – assim, no meio do ano letivo.

Ninguém entenderia uma mulher desgovernada como eu, distribuindo ações descabidas a quem visse pela frente. E ninguém gostaria de ser abordado de maneira diferente daquela usual, aprovada e garantida do dia-a-dia.

Primeiro, porque não se usa gostar de nada que nos tire do prumo.

Segundo, porque as pessoas hoje se armam mais e se amam menos.
Mó legal!


Essa eu chupei do blog da Marina.

Clique aqui e se divirta! Você digita o texto que quiser, e "eles" falam o que você digitou.

Ps: tem que lembrar de ligar as caixinhas, né, meu anjo?

10 julho 2004

Faço minhas...

...as sábias palavras do Arthur Dapieve, no Globo de ontem, sobre o mais recente lamentável episódio do mundo BRock (é meu o grifo na última frase):

“Não curto Charlie Brown Jr., mas minha filha adora. Acho fraco de música e de letra, mas simpático e honesto em “Proibida pra mim” ou “Eu não uso sapato”. Diante da agressão de Chorão a Marcelo Camelo, porém, passo a achar fraco de espírito também. Típico de um país que acha que cabeça só serve para dar cabeçada. Ter atitude, no Brasil, é romper o ciclo da truculência e atar o ciclo da paz.”



A perguntar que não quer calar

O que é que Marcos Menna, o bonitinho vocalista do L S Jack, fazia numa mesa de lipo?



Nã-nã-nã-não entendo

Definitivamente, há algo de muito estranho no mundo da publicidade. Onde diabos foram parar os bons jingles? Aqueles que “grudavam” no ouvido da gente, com boas melodias, letras sintéticas (como devem ser) e apelo emocional eficaz?

Para vocês terem uma idéia, até hoje, quando vejo a marca da Brahma, lembro daquela musiquinha adaptada: “Pensou cerveja, pediu Brahma Chopp... etc” -, fora de circulação há não sei quanto tempo -, que consagrou o bordão “número 1”, Ronaldinho na copa, e tal. Depois disso, o que é que se viu/ouviu?

O bordão “refresca até pensamento” até foi uma boa sacada, mas não acho que tenha sido bem executado. Agora, essa do “na-na-na-na” devia levar um prêmio... francamente, acho que refrescaram o pensamento demais - até que ele congelou.

E aquelas campanhas lindas da Parmalat? E aquela menina que descrevia a caixinha de leite: “você corta o biquinho da vaca, e aí, vira a vaca de cabeça para baixo”! Cadê?

Sem falar nas campanhas do Bom-Brill, claro.

Agora, que pobreza é essa de “Ace todo branco fosse assim”? O sujeito cata o primeiro trocadilho infame que achar pela frente, e está feita a campanha? Então eu vou me candidatar.

Outra pérola: “Dúvida por quê? Detergente é Ype!”. Só de raiva, vou direto ao concorrente.

E o “mala das Casas Bahia”, que acabou virando mesmo celebridade? Em terra de cego...

E o cara que tem a língua “pgesa”, protagonista de uma peça publicitária cujo ápice do texto é quando ele diz: “Agagaquaga” em vez de Araraquara!!! Onde é que nós estamos?

Só posso concluir que, depois que liberaram geral as bundas e os peitos na publicidade, o povo se empolgou tanto que acabou perdendo o jeito com as palavras (faladas e cantadas, diga-se de passagem). Agora, estão tateando no escuro de uma criatividade cada vez mais impalpável.

06 julho 2004

Frente em verso


Viva a frente fria
Que chegou no fim de tarde
Invadiu nossa cidade
E me encheu de alegria

Viva a frente fria
Mal querida e mal falada
Nem um pouco ensolarada
Encoberta, recatada

Viva a nossa frente
Que eu escrevo em verso
Viva a nossa fonte
De inspiração

Viva à sua frente
Que eu refresco em rima:
Viva a sua sina
Com todo coração!


(Aqui eu quase puxei um refrão em lá maior, como num repente, mas achei que já bastava de pieguice, hoho...)
Frente em verso


Viva a frente fria
Que chegou no fim de tarde
Invadiu nossa cidade
E me encheu de alegria

Viva a frente fria
Mal querida e mal falada
Nem um pouco ensolarada
Encoberta, recatada

Viva a nossa frente
Que eu escrevo em verso
Viva a nossa fonte
De inspiração

Viva à sua frente
Que eu refresco em rima:
Viva a sua sina
Com todo coração!


(Aqui eu quase puxei um refrão em lá maior, como num repente, mas achei que já bastava de pieguice, hoho...)

05 julho 2004

Coisas que ficam


Estava fazendo uma “faxina” quando encontrei uma velha caixa de sapato; dentro dela, alguns bilhetes, cartas antigas (do tempo das cartas!), postais de gente querida. Lá no fundo, um papel timbrado do estado do RS, carimbado e tudo mais, com uns escritos que estão quase se apagando... apertei os olhos para ver se era alguma certidão importante. E era. Diz assim:

Estado do Rio Grande do Sul
Polícia Civil
Depto. de Polícia Metropolitana
Centro de Operações
Área judiciária

(Carimbo da Polícia Civil)

(Outro carimbo, escrito “VISTO: URGENTE”)

Bibi

Certamente ele quis deixar o mundo mais bonito há 17 anos. Com certeza ele exagerou na dose. Além de mais bonito, fez o mundo mais inteligente, mais carinhoso, mais amigo e principalmente muito mais alegre para se viver.

Ele não precisava, pois é justo, e acabou abrindo uma exceção e foi bondoso comigo, deixando que eu pudesse te embalar, te ouvir, te admirar e viver junto de ti.

Tudo que me ensinaste nesses 17 anos, jamais eu teria aprendido com outra pessoa. Sou grato por isso, não merecia tanto dele!

Te adoro e te admiro e sei que podes, ainda, dar ao mundo tudo que ele nunca teve.

Feliz Aniversário


(Carimbo e assinatura): Luiz Da Pieve
Delegado de Polícia

***

Fechei a caixa, e um nó se instalou na garganta de uma filha que resolveu morar longe e ainda não tem dinheiro para comprar um avião.

02 julho 2004

O Rio de Janeiro anda muito, muito chato


Assuntos fervilhantes do Rio:

- A nudez de Vera Fischer numa peça de teatro - que não me interessa;
- A ausência total de pêlos em pernas e partes de Vera Fischer que não me interessam (apesar de ela declarar que jamais se depila);
- Aliás, quero deixar bem claro – pelo sim, pêlo não (não resisti ao trocadilho!) - que nenhuma parte da Vera Fischer me interessa;
- A derrota do Flamengo, na última quarta-feira, para o Santo André;
- A soltura do empresário-e-ex-deputado-Sérgio-Naya, após 106 dias de prisão;
- O debate dos candidatos à prefeitura, na Rede Globo;
- A ameaça de mais uma guerra entre Rocinha e Vidigal;
- As “festas-temáticas-e-nostálgicas-sobre-os-anos-80” que pipocam pela cidade (misteriosamente, trazendo apenas o que a década produziu de mais bizarro e podre e vazio);
- O “veranico de inverno”, que assola a cidade, elevando as temperaturas e instigando milhares de cariocas a se aglomerarem nas praias da Região dos Lagos – infelizmente, o “evento” não é suficiente para deixar as praias da zona sul/oeste menos abarrotadas nos fins de semana (o que seria, de longe, a única vantagem);
- O Fashion Rio, ou coisa que o valha – que não me interessa;
- A primeira semana da nova novela das 8h-que-começa-às-9h – e que não me interessa, porque só assisti a um pedaço do primeiro capítulo, e achei muito chato;
- O aumento abusivo/absurdo/podre/podre de novo/e podre outra vez dos preços na telefonia fixa;
- ... e por aí vai.

Agora, fala sério: tá difícil achar alguma graça nisso tudo, né? Há que se ter qualidades circenses!

01 julho 2004

FAMA

Ouvi na propaganda do Fama a seguinte frase, dita por uma participante:
“Essa música é maravilhosa. Com certeza eu poderei, não só cantá-la, mas dar um verdadeiro show!”

É bom que eles já vêm com a modéstia embutida. Hoho.

***



Padre não julga


Minha Vó Manoela punha um vestido azul-marinho com bolinhas (na verdade, eram bolotas) brancas, com o cintinho combinando (que ela mesma devia ter feito), e me levava à missa. Eu tinha um jeito estranho que se dividia em achar graça daquilo, mas, ao mesmo tempo, sentir uma paz enorme quando entrava na igreja de mãozinha com ela.

Um dia eu disse a ela que queria me confessar, mas estava com medo. Medo de quê? – perguntou.

Estava com medo do tamanho da penitência, pronto, falei.

Vó Manoela deu risada e me garantiu que, na minha idade, ninguém cometia pecado que pudesse resultar em penitência gigante. Mas eu relutei mais alguns quarteirões; ela ia me arrastando pela mão, eu ia travando o passo e a conversa, já achei que tinha falado mais que a boca, queria esquecer esse papo de confissão, mas não achava outro assunto, e a vó insistia, que era bobagem ter medo do padre etc.

Quando ela perguntou, enfim, qual era o meu pecado horrendo, resolvi contar:

- Tenho medo de estar com a Doença de Chagas!

Eu tinha estudado, nas aulas de biologia, sobre a tal doença - provocada por um protozoário cujo nome científico agora uma busca na internet me ajuda a lembrar: Trypanosoma Cruzi! Esse bicho é transmitido por um inseto conhecido como “barbeiro”, que tem o design assemelhado ao de uma barata, só que mais mirradinho.

Bastaram algumas ilustrações nos livros didáticos, e eu achar uma barata qualquer em casa (ou mesmo uma formiga meio crescida): daí a imaginar que eu estava com a Doença de Chagas, foi um pulo. E, daí a me sentir culpada, foi um abraço.

- Como assim? Por que é que você pensa que é pecado ter medo de estar doente?

Essa resposta foi fácil. A Vó tinha me ensinado que Deus queria que a gente confiasse nele, sempre, até de olhos fechados. Dizia ela que, em tempos difíceis, não deveríamos enfraquecer; apenas rezar e confiar, que o mal iria embora. E que deveríamos temer somente a Deus.

Pronto. Se Deus achava certo que só temêssemos a Ele, seria, no mínimo, um desaforo ter medo de uma baratinha raquítica cujo cocô (literalmente) pudesse me deixar doente!

O padre certamente iria me excomungar. Eu, uma fedelha desclassificada que, em vez de ajoelhar e rezar por saúde, temia a doença possivelmente trazida por um bicho que eu achava que talvez lembrasse um pouco aquele das ilustrações dos livros.

Mas, não, ela me tranqüilizou: o padre não ia achar ruim “Até porque padre não julga.” Falou assim, rapidinho: padnãojulga.

Agora essa: padnãojulga. E eu tinha elaborado um discurso todo meticuloso, ia começar transferindo um pouco da culpa para a professora de biologia... mas, padnãojulga. Droga, ia ser sensacional. Mas, padnãojulga.

Então nem teve graça, eu fui lá e resumi – negócio é o seguinte, estou com medo de uma barata que pode ser barbeiro e pode ter me passado a Doença de Chagas. Quantas Ave-Marias dá isso?

E o padnãojulga me receitou, sei lá, meia-dúzia.

27 junho 2004

Buenas!


Nem vou falar aqui do final de Celebridade, porque o assunto já está muito batido. Pronto, esnobei.

Queria agradecer às moças que declararam, nos comments, que vêm aqui atrás de inspiração (Paula e Carol), adorei saber! Imagina, logo eu, que ando tão carente de inspiração nesses tempos bicudos. Aliás, “bicudos” é uma palavra e tanto. Inspiradas, agora? Hoho.

***

Quanto ao Bíbi-Quiz, apareceu por lá gente suspeitíssima... quem são “anônimo” e “gasparzinho”, por exemplo?

A superintendência quer muito saber.

E já imagino a Melissa pensando: “tsc tsc... a bíbi ainda não entendeu que a internet definitivamente não é um ambiente familiar...” (Ela pensa sempre com reticências).

***

Voltei de Campos num ônibus executivo da 1001, desses que deitam o banco bem deitado. Uma mulher grávida veio do meu lado. Ela na janela, eu no corredor. Grávidas precisam fazer xixi toda hora. Quando eu estava começando a esticar as pernas, ela me sorria: você me daria uma licencinha? Eu, muy generosa, dava.

Pensei em trocar de lugar com ela, mas ela se adiantou: “Hehe. Vou pegar minhas coisas e ir sentar lá atrás, fica mais fácil para ir ao banheiro toda hora. Hehe, você sabe (mostrando a barriga). Aí você pode ficar mais à vontade, hehe, pode dormir sossegada. Hehe. Hehe.”

Antes, eu nem tinha me incomodado muito. Mas dei graças a Deus quando ela resolveu pipocar dali assim que percebi o quanto ela era uma pessoa do tipo “hehe”. Desconfio muitíssimo dessas pessoas, e não me sinto nem um pouco na obrigação de dialogar mantendo esse gentileza “hehe” o tempo todo. Tipo da gentileza amarela, forçada, padrão. Hehe. Hehe. Hehe. Toda hora, hehe.

Comigo, não.

Ora, eu prezo muito meus interlocutores - e suas individualidades particulares de cada um -, e não saio dando o meu hehe para qualquer um, não.

***

Algo me diz que acordei com espírito de porco hoje.
E o primeiro que se manifestar dizendo que isso não é digno de nota vai levar e-bomba.

25 junho 2004

Queridas e queridos,

faz uns dias que não passo por aqui...
E hoje estou mesmo de passagem. Vou ali ganhar o leitinho das crianças (em Campos, RJ) e já volto, ok?

Tenham todos um ótimo final de semana, e não percam o último capítulo do Lineu! Eu também não vou perder, uma vez que o show só começa depois que subirem os créditos. :o)

Beijos, fui!

21 junho 2004

Moda-praia o ano inteiro


Tenho pavor de mostrar os pés, e também de conviver com os pés dos outros à mostra. Não devia morar neste balneário. Povo aqui vai ao banco de chinelo, na maior.

Não agarre nojo de mim; faz parte de um processo psi-(alguma-coisa-para-a-qual-eles-sempre-acham-um-nome): quando pequena, cinco ou seis anos, comecei a ter um pesadelo recorrente. Via apenas os pés de um homem, mais nada. Mas sabia que era de um homem mau, muito mau. E aquilo me dava uma aflição horrível.

Cresci rejeitando sandálias, para o desespero de minha mãe, vó Maria e minhas tias: “com esse calorão, de tênis?” – essa passou a ser a frase mais ouvida por mim.

Já crescidinha (13, 14 anos), ouvi, ao sair para uma festinha:

- Filha, a mamãe vai ter que te dizer: não se usa bota no verão. Não tens uma sandalinha?

Mané sandalinha. Eu só tinha um chinelo havaianas, que usava para tomar banho (evitava o choque no chuveiro). Fui de botas mesmo.

Só comecei a usar - e, pior: a comprar! - sandálias depois de dois anos morando no Rio de Janeiro. Aí eu não agüentei mais; muito calor mesmo, e esse negócio de orla confunde a gente. Até para se vestir.

Passei a andar mais à vontade, admito. Lembro que fui ao RS num verão desses, depois de uns quatro anos morando no Rio. Meu pai fez um churrasco e eu desci para comer de short e um mini-top (quase a parte de cima de um biquíni). Minha mãe olhou:

- Que linda! Tá usando menos roupa, finalmente, né?
- É... calorão desses...

Meio segundo depois:

- Tá certo. Mas tu não vais sair na rua assim, né?
- Por quê? Pessoal aqui vai achar ruim?

E ela, suuuuper tranqüila:

- Nada! Só vão achar que tu é puta.

Hoho.


PS: Você já fez o Bíbi-Quiz?

20 junho 2004

ANALOGIA: Com qual celebridade você se parece?


Depois de cinco fotos testadas, consta que eu sou uma generosa mistura de:


Nicole Kidman


Andie MacDowell


Judi Connelli

E você? Passa lá!




19 junho 2004

Bibômetro

Criei um Bíbi-quiz! Dez perguntas e respostas para testar os seus conhecimentos a respeito da minha pessoa.
Tá esperando o quê?

Vai lá!
As coisas do meio


Alguma coisas são poéticas. Algumas, patéticas.

E algumas outras coisas são apenas outras coisas - que não são nem belas, nem feias; nem lindas, nem escabrosas; nem divinas, nem diabólicas. Não podemos jogar a culpa em ninguém, porque não há culpa. Não podemos sequer nos culpar. São coisas do meio.

Dessas coisas eu fujo como diabo da cruz, porque elas me tiram o sono. Diante dessas coisas, que chegam pelo meio, sem fazer alarde, eu me sinto impotente – uma burra farta de pensamento, mas fraca da cabeça.

E não há como desviar. Quando o tiro é silencioso e certeiro, não há esperneio e não há ataque epilético que te livre da bala. Coisas do meio.

Aí nos damos conta de como vivemos pelos cantos, acomodados em extremos, o stress e o relax, o ódio e a paixão. Nossos cantos da vida, os becos, as quinas, confortáveis esquinas da nossa falta de intimidade com o meio. Nossa percepção se acomoda fácil nas vielas; não somos lá de muita expansão.

As coisas do meio são as melodias que não se encaixam. Nos cantos.

18 junho 2004

E Chico faz sessenta



O Rio está em polvorosa: Chico faz sessenta amanhã. Brilhante. Azul. Lindo. E Buarque, ainda por cima.

Se tenho alguma frustração na vida é morar seis anos no Rio de Janeiro e nunca ter interceptado uma caminhadela de Chico no calçadão do Leblon.

Mas dei uma interceptada no site dele e me diverti horrores com a história do Julinho da Adelaide – o personagem que ele inventou para dar uma enrolada na censura. Chico contado (e “Julinho” entrevistado) por Mario Prata, então, é o melhor dos mundos.

Abaixo, o trecho final da entrevista que Julinho concedeu ao Prata, no jornal Última Hora, em 74:

MP - O Chico tem cantado a sua música e tem dado a entender que a música é dele. Ele se refere a você como se você fosse uma figura mitológica.

JA - Não sei, rapaz. Este pessoal que tem o nome feito, pode fazer muita coisa e não adianta eu ficar aqui reclamando, entende? Como eu já disse, eu sou pragmático. Eu preciso dele e ele de mim. Então eu não vou me colocar contra ele como você está querendo. Talvez o dia que eu for mais conhecido eu faça a mesma coisa. As pessoas têm que tirar proveito do que lhe cai nas mãos, não é? O Leonel que me disse isso.

MP - Eu queria que você se definisse, já que usa tanto a expressão pragmática.

JA - Eu não sei. Pra falar a verdade, o Leonel que mandou eu dizer que eu sou pragmático. Quando perguntassem coisa mais complicada, pra dizer isto. Por exemplo: "O que você acha da Censura?" Sou pragmático. Ele falou ecumênico, também. Disse que quando me perguntassem o que eu acho de Cuba, para eu responder que sou pragmático e ecumênico. Senão eu me meteria em complicações. Mas eu não posso definir exatamente como eu sou. Eu sou pragmático, pô!

Leia toda história – e a entrevista na íntegra - aqui

17 junho 2004

Mais Cazuza


Agora falando racionalmente, li e concordei em gênero, número e grau com esta crítica:

“Acompanhando a trajetória de Cazuza desde o início da década de 80 (e sua entrada no Barão Vermelho), O Tempo Não Pára quase naufraga em sua primeira metade, quando, justamente por evitar aprofundar-se na alma de seu protagonista, acaba retratando-o como um jovem pretensioso e mimado que, fruto de um lar excessivamente liberal, dedica-se a ofender seus pais e à auto-destruição. O Cazuza visto neste segmento é antipático e detestável; um projeto unidimensional de 'artista maldito'. Além disso, o fraco roteiro, em sua errônea ambição de retratar um mito, jamais permite que o personagem simplesmente 'converse': tudo o que sai da boca do compositor é lírico - como, se em vez de 'falar', Cazuza apenas 'declamasse'.”

(Leia na íntegra)

Não, não estou detonando o filme. Gostei de ter assistido; é um filme triste e chega a emocionar em vários bons momentos – a trilha sonora do biografado ajuda, e muito, claro. O Daniel Oliveira dá um show, isso é incontestável.

Mas há muito a ser contestado, e o crítico do site Cinema em Cena, a meu ver, vai com precisão cirúrgica às, digamos, pisadas de bola que o filme dá.

A primeira coisa que me chamou atenção foi justamente a impressão de que o Cazuza devia ser um mala. Garotinho mimado, rebelde sem causa, revoltado e egocêntrico – além de pernóstico e inconseqüente. E se torna chato, muitas vezes, ao interromper o que seria o ritmo normal de uma conversa para pinçar, como que do “mundo mágico das inspirações”, frases poéticas nem sempre cabíveis no momento, soando um discurso vazio e pretensioso.

Parece que a Lucinha Araújo não acha isso – se fosse meu filho, eu não ia gostar nada de um roteiro que retratasse o cara desse jeito. Mas, como o filme é baseado no livro da própria mãe, está tudo em casa.

Outra coisa que me chamou atenção (e isso não consta na crítica acima) foi uma certa esnobada no Frejat. Além de ter poucas falas, fica parecendo, em alguns momentos, que ele era o bundão da história. Que não estivesse preparado para a genialidade do Cazuza - verdadeiro artista/poeta/astro - e, por isso, tivesse ficado comendo poeira quando o cantor decidiu sair do Barão. Pelo pouco que sei da história, acho que não foi bem assim.

Por fim, a cena em que ele descobre que está doente realmente merecia ao menos uma preparação para que o espectador entendesse que ali viria chumbo grosso. Do jeito como é colocada, no seco, o que poderia ser uma bonita comoção acaba virando uma espécie de susto de mau gosto – como quando alguém chega por trás e: “BUUUUUU!”.

16 junho 2004

Cazuza





Vocês já viram?

Eu vi ontem. Chorei em bicas.
Vida louca, vida...

15 junho 2004

O Rio Grande se cobre de gelo

Nostalgia capilar


Ando com saudades do meu cabelão desgrenhado, pontas duplas, politicamente incorreto e esteticamente questionável.

No dia em que cortei um naco considerável das minhas madeixas, até comentei com todo mundo, estava feliz de ter cedido ao moderno e ao apelo de minha mãe, e tias, e comadres, e amigas que olhavam meio torto, como se quisessem endireitar um quadro na parede, sabe quando incomoda? Podia repicar aqui, ali, dar um volume, um jeito, um corte – sugeriam, enquanto eu pensava no quanto de vida escabelada elas também tinham, e não faziam escova, mas não seria eu a chata de ficar lembrando, com meu bafo quente de secador elétrico, inútil, inconveniente.

Está bem, eu disse. Depois de muito tempo, mas disse. E fui ao salão com uma frase decorada: “eu queria dar um volume, um jeito, um corte...”

E veio a moça, acredite, com uma pá de revistas especializadas de cuja existência eu nem sabia, e cuja utilidade até admito que exista (não sem apertar os beiços, assim, do meu jeito, vá lá, mas admito). Pus os olhos naquelas variadas beldades, metade de horário nobre, metade nem tanto, mas todas muito ajeitadas, de fios colaborando com rosto e corpo e riso e pose e tudo, tudinho em harmonia e concordância. Quanta beleza para eu escolher ser!

Fiquei verdadeiramente empolgada, isso não posso negar. Tive de esconder o riso infantil que me soltava os beiços numa hora que até era para algo, mas não era para tanto. Não para as outras, com aquelas caras emolduradas. Não para as outras, com aqueles cabelos assíduos de tesouras e tinturas; não para elas, habituadas aos catálogos de bocas e unhas, outono, inverno, primavera, verão, quadradinha, francesinha, entra franja e sai franja etc. Não para elas.

Para mim, unidunitê, as moçoilas das revistas me sorriam, quem eu seria, quem eu seria, unidunitê, eu me divertia, eu escolhia, todas me olhavam, apreensivas, quem eu seria, unidunitê - e eu me lembro muito bem de quando, enfim, elegi aquela por quem metade do meu rabo iria pelos ares:

- Camila Pitanga!

Depois desse veredicto, o que se viu foi um misto de horror e excitação: Alice no país das beldades fashion. Eu queria acreditar, a cada sonora tesourada, que o resultado seria, não justo, não apenas adequado, “um volume, um jeito, corte”, mas um must: estupendo. (Exclamações).

Quando muito, ganhei um ar mais jeitoso. (Reticências).

Nem guardei o rabo morto que a moça me ofereceu, solícita, ao final da tosquia. Mas guardo uma saudade imensa daquele tempo de fartura capilar desgovernada, démodé, quando eu era ponto de referência, aquela morena do cabelão, e havia sempre o pretexto para a cantada: nossa, dá muito trabalho para cuidar? Dava nada.

Guardo saudade, e até me arrependo um pouco de ter feito mau juízo dele nalgum momento. Que o meu cabelão já ia lá na bunda, sim. Mas, poxa, era com todo respeito.

13 junho 2004

No ICQ

- E o teu blog, menina! Que loucura, hein?
- Loucura?
- Sim! Tem que aparecer mais por lá, ou vai haver uma revolução...
- Revolução??? Mas eu fiquei só DEZ DIAS sem postar! Dez dias!

-(ela, profunda): "Onde dois ou mais estão reunidos em teu nome... lá TU TENS QUE ESTAR!” Já dizia... sei lá, Jesus.

Hoho. Tão tá, né.

Mais tarde, no telefone

- (ela, se despedindo): Então tá, né. Te cuida. E te anima! Pô, é São João!

- É mesmo! Ah! E hoje é Santo Antônio... dia 13, n'é não??

- (Ela, puta): Ah, eu sei lá! Aí já é muito santo pra mim!


É. Quando a esmola é demais...
Ilusões

Quando não se precisa de aperto de mão
- é quando as mãos estão mais próximas.
Quando dispensamos tudo aquilo que se usa dizer antes, dizendo só o mínimo
– é quando dizemos mais.
Quando não fazemos jogo algum
– é quando marcamos os melhores pontos.
Quando nos soltamos sem medo da queda
– é quando voamos mais alto.
Quando nos distraímos dos cálculos
– é quando somamos mais.
Quando nos livramos de nossa própria culpa
- é quando somos desculpados.
Quando temos a intenção de dar um abraço
- é quando ele já foi dado.
Quando questionamos se algo tem graça
- é quando a graça já foi embora.
Quando ponderamos sobre alguma emoção
- é quando ela não é mais emoção.

E, por fim: enquanto pensamos no café da manhã seguinte –
é quando o presente nos é dado, agora, de bandeja.
Duas e meia da madruga

Acabei de ler O ponto cego - Lya Luft, 1999.

Quem é que lê Lya Luft e consegue manter o pensamento quieto logo em seguida?

Vim dar uma relaxada, uma digitada, uma blogada básica.
Sossegar os miolos.
Tenham um bom despertar, queridos. Fui.

12 junho 2004

Sentiram a minha falta, foi?
Hoho. Tô de volta.

Depois de dez dias sem postar nada aqui no blog (um tempo razoável, sim, mas eu andei acostumando mal vocês!), por motivos que não tenho saco de relatar, cá estou.

Fez calor no Rio de Janeiro nesses últimos dias. Uma gosma insuportável voltou a pairar sobre a cidade, e o suador nas filas, e senhoras gordas apertando sacolas nos ônibus, e adolescentes em pânico com a oleosidade dos cabelos, sol e um vento morno nas nossas moleiras. E eu rezando, Deus, como eu rezei para que uma nova frente fria, ainda que desbotada e enfraquecida, voltasse a refrescar minhas idéias mofadas.

Enfim, parece que hoje veio. Amém.

***

Pleno dia dos namorados, o destino quis assim: minha tarde foi de uma limpeza meia-boca na cozinha (estou entrando em pânico com esse piso branco, abafa), jornais, revistas, baixo e violão – mas sem cantoria, que estou com a goela inflamada outra vez.

Nada digno de relato, como diriam Aninha e Melissa, a nova dupla sertaneja que se formou a partir deste humilde pergaminho virtual (talvez a única que cante em uníssono, mas tudo bem). Nada de romântico. Nem uma rosa, nem um Sonho de Valsa sequer, nem mesmo um celular para falar, durante um centavo, a um ano por minuto. Ou seria, durante um minuto, a um ano por centavo? Não sei, é tanta promoção, acho que nem eles sabem direito.

***

Por falar em celular: que coisa mais querida aquele garoto que faz propaganda da Claro! Tem dois: um é mais “bonitinho” (e mais loirinho, com jeito de modelo, e é mesmo), e o outro – o mais “feio” – é o meu preferido. Olhinho caído, sorriso carismático, que gracinha em forma de garoto-propaganda! E, o melhor: com jeitinho de gente que você encontra na rua.
Mas ainda não dei a sorte.

***

Momento Celebridade: fajutíssima aquela cena da “briga” entre Eliete e Nelito; mal bolada, mal escrita e mal dirigida. Não fossem ambos ótimos atores, teria sido ainda mais patético.

E Lavínia Vlasak, pelo que entendi, perdeu o encaracolado Marquinhos Palmeira e ainda continua lambendo o chão que ele pisa, é isso?
Tem base...

Em tempo: eu não quero saber quem matou o Lineu, nem me interessa. Acho que isso, na trama, é só um mero detalhe. O legal dessa novela foi a parte divertida e o show de alguns atores; as maldades do Renato Mendes e da Laura etc. Quem matou o Lineu? Nem o Gilberto Braga sabe, oras! Fica fazendo mistérios mil, libera na imprensa um final diferente a cada semana para esquentar o tititi, faz o elenco inteiro parecer suspeito para, no fim, decidir por qualquer um.

Alguém ainda fica brincando de “adivinhar” o assassino, levando em conta as “pistas” do autor?

Não. Isso era no tempo das novelas bem tramadas e argumentadas, antes do efeito IBOPE...

02 junho 2004

Casamento aberto

Nosso baterista vai tocar hoje à noite na Far Up, detalhe: com a outra banda dele. Você vê como são as coisas hoje em dia. Casamento aberto. E nós, os “outros”, vamos lá conferir a pulada de cerca. E ainda vamos pagar pra entrar.

É o fim.


O primeiro Orkontro a gente nunca esquece

Vocês sabem o que é o Orkut, né? Eu estou lá há pouco tempo, e freqüento uma comunidade do meu bairro. Pois, segunda-feira, marcaram o primeiro “orkontro oficial da comunidade”. E eu fui.

Pena que choveu de assustar carioca, mas, ainda assim, saí no lucro: conheci dois vizinhos-gracinha, batemos papo num barzinho até os garçons nos varrerem porta afora. Ambos moram a poucas quadras da minha casa.

É engraçada a sensação de conhecer gente que pode ter cruzado o seu caminho na fila da padaria, no postinho ou na praia, e ninguém nem tchuns. Aí, por um mero esbarro virtual, você acaba dividindo a conta com esses caras na vida real.

A sensação que ficou, pra mim, foi de uma camaradagem instantânea – até porque o Recreio é um bairro afastado da zona sul, todo mundo que mora aqui se sente um pouco “out” do Rio de Janeiro (o que, concordamos em uníssono, é mais vantagem que desvantagem. Mas é claro que tudo tem os dois lados). Então a gente acaba sentindo um certo alívio de conhecer gente boa que mora perto. Sabe como é, pedir uma xícara de açúcar.

Além disso, na Barra e no Recreio (os dois bairros são colados, sendo que o Recreio é ainda mais longe da zona sul), você precisa de carro para fazer tudo. Claro, você até pode andar a pé; mas, como são bairros enormes, as distâncias entre um banco, uma academia e a sua casa, por exemplo, certamente não caberão nas suas pernocas.

Isso faz com que a gente se sinta mais isolado, de certa forma, por andar sempre preso àquela cápsula com insul-film, evitando sinais fechados e qualquer contato com algum ser humano que se aproxime – por motivos óbvios. Coisas das grandes cidades, e, cada vez mais, das pequenas também.

Já dizia a minha mãe (tão badalada aqui no blog, arroz-de-festa insaciável do meu diário virtual, adivinha por quê?): “o bom desse negócio de internet é quando a gente conhece pessoas de verdade”. Sim, porque, por mais que você tenha um rio de afinidades com aquele amigo virtual, ele ainda não é uma “pessoa de verdade”. Não antes de vocês se conhecerem no mundo dos toques, dos ares e dos sabores.

Resumindo, a tecnologia pode até ser um barato, mas o mundo de verdade ainda requer pessoas de verdade. Ainda bem.


A relação deste blog com o meu irmão

Meu irmão nunca lê o blog. Vocês devem reparar que eu sempre falo sobre ele aqui. Pois é, ele nunca lê, mas sempre sabe de tudo.

Chega em casa, exausto, e a minha cunhada senta aqui e lê tudinho pra ele. Ele fica resmungando lá do sofá, recostado, volta e meia ouve-se um grunhido entre uma frase e outra:

- Hmmmrrrssnn... (contrariado, sempre).

Se estou aqui pela sala, pergunto:

- O que foi? Não gostou?

Ele faz um bico torto, e torna a manifestar qualquer coisa que não se entende, mas com a propriedade de quem questiona a burrice da pessoa que não entendeu. Tanto, que a gente até fica na dúvida.

- Hein? Falou o quê?

Ele emburra:

- Tu só me usa pra fazer piada aí... (beiço)

De modo que quero manifestar aqui - como se já não fosse público e notório – minha admiração pelo menino que vive comigo há 26 anos, portanto, desde que vim ao mundo. Aliás, por esse homem que é meu irmão (se digo menino, ele se chateia; se digo homem, se chateia também: estou tentando um equilíbrio), que me ensinou a ler e a escrever, sempre com ênfase na difícil tarefa que era, para mim, identificar qualquer palavra que começasse com “B” como sendo outra que não – afinal - “Bibiana”.

Foram muitas bananas, batatas e biancas, até que ele me fizesse entender que não se deve julgar o livro pela capa, a pessoa pela cara – ou a palavra pela primeira letra. Aprendi a ler.

Isso sem falar na lição do perdão, que ele sabiamente me ensinou após o fatídico episódio do ferrinho - um palito de ferro que eu, injuriada por uma tolice qualquer, cravei sem piedade no dorso da mão dele. O feito até hoje se conserva muito visível, embora eu não me orgulhe disso, sob forma de uma cicatriz em forma de, bem, em forma da minha crueldade infantil. Perdoável, perdoável.

Por essas e outras, tenho em minha casa um guru, ao menos a julgar pela premissa básica de todo gênio: a incrível capacidade de expressar sua verdade de forma peculiar. Tão peculiar e misteriosamente incompatível com nossa pobre maneira de entender quanto o indecifrável:

- Hmmmrrrssnn...

30 maio 2004

Celebridade


Assistir à novela Celebridade com meu irmão é pedir para ficar irritada. Primeiro, que ele não entende nada da história (porque raramente vê). Então, a cada musiquinha misteriosa acompanhada de uma careta indecifrável, ele vem com o famoso:

- O quê? O quê? O quê? (Cutucando meu braço no sofá).

Querendo que a gente conte o que aconteceu até aquela situação. Aí você até começa a explicar, na boa, acontece que o fulano flagrou a fulana fazendo...

- Quem é fulana??? (Com os olhos arregalados).

Pronto, ele não sabe quem é quem, e aí fica mesmo difícil. Outro dia, vendo a novela das 7h num sábado, lascou:

- Caraca!!! O que é que o Sassá Mutema tá fazendo nesse casarão?

Desisto.

***

Mas, dia desses, saiu-se com (mais) uma pérola. Além de se indignar profundamente com toda celebridade musical que aparece na novela (“jabá... jabazão...”- murmura), não perdoou a cantora Vanessa Da Matta, num showzinho no badalado Espaço Fama. Depois de observar alguns minutos da performance da moça, o olhar sério, mão no queixo, sabiamente concluiu:

- É... Cabelão desgrenhado, vozinha fina, olhar perdido no horizonte, cara de paisagem... Ela pensa que é a Gal Costa, né?

Tive que rir.

***

A propósito: o casalzinho Alexandre Borges e Júlia Lemmertz é muito fofo, tanto nas telas quanto fora delas. Mas, convenhamos: quem é que agüenta a Gal Costa cantando (pelo nariz) a fatídica: “momentos são iguais àqueles em que eu te amei...”?

Pior que isso, talvez os Titãs (jabá, jabazão! – murmura meu irmão) emplacando outro refrão-auto-ajuda: “Enquanto houver sol, ainda haverá”. Fala sério!

E eu sou do time que dá crédito às bandas que pisam na jaca, ora, quem não se engana volta e meia? Venham com um, venham com dois, mas não me venham com três refrões-auto-ajuda (produção em série), que aí já é maldade. Não abusem do meu otimismo sagitariano. Sorry. Demoro a falar mal, mas, quando falo...

***

Casal da hora: Palmira e Seu Salvador.

***

Beatriz é minha ÍDOLA. É podre de rica, grita o quanto pode, passa por doente e bobalhona, mas vive no mundo perfeito: um mundo onde ela e o príncipe Amorim terminam juntos (na cabeça dela, claro. Mas quem é que pensa com a cabeça dos outros, afinal?).

Além disso, não precisa aturar ronco, mau humor, futebol ou Discovery Channel. E ainda vai dar uns pegas no Márcio Garcia, que eu sei.
Salve, Beatriz!

29 maio 2004

O programa de TV que ensina a ser artista



É com alegria e satisfação que eu lembro a vocês: começa mais uma edição do meu, o seu, o nosso programa Fama, da Rede Globo!

Lá vamos nós, telespectadores fiéis, acompanhar o dia-a-dia de um grupo de malabaristas das cordas (digo: pregas, que é o termo correto) vocais. Interpretando sucessos de Gonzaguinha a Djavan, de Ivete Sangalo a Caetano, transformarão suas toscas performances em exibições classudas, repletas de técnicas e arranjos musicais, vocais e cênicos.

Tudo para mostrar que “vida de artista é suada”. Que, se você quiser “aprender a ser artista”, tem que estudar muito, saber onde colocar o agudo, o grave, o olhar e a mãozinha que não está segurando o microfone.

Depois de apreendido um mundo de informações que lhe enriquecerão como nunca antes, você finalmente virará um artista completo, e poderá encher a boca para dizer: eu sou um artista.

Então, um empresário se materializará na sua frente, de terno azul-marinho, e lhe fará uma proposta irrecusável: um contrato com uma gravadora multinacional, tudo pago para a gravação do seu disco (sim, eles estão nadando em grana, como todos nós), lançamento, mídia, 200 shows por ano, e uma banda impecável para acompanhá-lo.

Você jamais terá que lidar com contratante canalha, equipamentos de som precários, palcos mal projetados, assessoria de imprensa mal feita, bêbado subindo no palco pensando que o seu show é karaokê, cachês simplesmente não pagos (e toda ação que você terá de mover na justiça nesses casos), operador de som displicente, músicos que somem na hora da passagem de som, e a própria passagem de som (momento crucial do show, onde o abacaxi começa a ser descascado e só vai terminar na manhã seguinte, com sorte).

É claro que você também não precisará se incomodar em fazer malabarismos com o seu orçamento doméstico, se quiser sobreviver de música neste país, nem tampouco com os perigos que assolam cada vez mais as cidades, sobretudo à noite, justo quando você sai de casa para trabalhar. Por fim, você jamais terá de ficar chateado quando o pai da sua nova namorada, ao ouvir que você vive de música, perguntar:

- Sim, mas você trabalha no quê?

Ainda bem que você é um artista de verdade, e não terá de se aborrecer com esses pormenores.

Sim, porque isso você só teria aprendido a resolver se tivesse enfiado a cara na rua, meio sem jeito e sem trejeitos de artista, e tivesse ido tocar em bares, clubes e churrascarias, lidando com todo tipo de gente, tocando para todo tipo de público, estudando quando houvesse tempo, aborrecendo uns, agradando outros; se tivesse dedicado, enfim, sua vida (ou um pedaço dela) à difícil tarefa de viver de arte num país de oportunidades miúdas e valores equivocados.

Mas isso não é ser artista, uma vez que não aparece no Faustão.

28 maio 2004

O sorriso sedutor das pastas


Às 7h da manhã eu me encontrava no supermercado Zona Sul, enchendo um carrinho com os meus vícios básicos, foi quando me ocorreu: mas que diabo! As prateleiras estão cheias de coisas inúteis, e elas sorriem para você!

No balcão dos frios, por exemplo, uma infinidade de pastas: pasta disso, pasta daquilo outro. De salmão, de azeitona, de sei lá mais o quê. Caviar!

E eu lá sou mulher de pasta?

Mas é chique, pasta. Você sabe, em toda casa chique tem uma mulher chique que atende o seu celular minúsculo – porque mulheres chiques só falam no celular, mesmo dentro de casa -, e é o marido chique, que pergunta: amôôô (essa parte é tudo igual, não há chiqueza que resolva), vou chegar mais cedo, estou a fim de convidar o Sérgio e a esposa para assistirem àquele DVD com a gente, o que é que você acha?

E a esposa chique, moderna e descolada, responde que adorou a idéia, vai comprar umas pastinhas para combinar com as torradinhas que eles têm na despensa. Sim, porque gente chique vive com a despensa abarrotada de coisas que só servem para eventuais eventos. Que gente chique não dá festa: promove evento.

E lá vão os chiques para o evento do DVD com pastinha, regado a Prosecco, claro. Prosecco que, aliás, está bem ao lado das pastas no balcão dos frios. Ali, onde a gente confere o preço da mortadela e não leva porque achou caro. Bem ali.

Pois, aqui em casa, quaaaando tem festa, evento é o que vem antes: a correria que se dá rumo ao hipermercado com o melhor preço da cerveja, ainda que seja longe, ainda que seja tarde. E lá sempre se acha uma pizza, dessas de fabricação própria, com sorte você ainda encontra um pague-duas-leve-três, já pensou, que luxo?

O primeiro que acha a skol a 85 centavos bipa o outro, que bipa o outro, e acabou-se a gincana. Reúnem-se os comensais, a pizza vai ao forno e depois que esquenta não se sabe nem mais o sabor, porque é tudo igual: uma bolacha grande com queijo derretido e uma azeitona em cima. Evita-se, assim, o indesejável “não gosto disso”, “não gosto daquilo” (com certeza presente no complexo mundo das pastinhas).

Aqui você tem duas opções claras: o sólido e o líquido. Não é bem melhor?

Seria. Seria, não fosse a vasta quantidade de pastinhas sorridentes que pululam, através dos vidros embaçados, oferecendo-se em sabores inimagináveis à nossa fértil imaginação gulosa, típica da pessoa dura. Sem contar com aqueles moços enfiados em máscaras cirúrgicas, atrás do balcão, ameaçando com os olhinhos de fora: duzentos gramas? Trezentos gramas? Vai levar? Vai levar?

Tenho uma relação de amor e ódio com essas pastinhas, que não é brinquedo. Hoje, por exemplo. Quase comprei cem gramas de uma, tão rosada, tão cremosa... mas, pensei: vou comer com o quê? Teria de trazer torradas também.

Aí, já era demais. Daqui a pouco vou estar desfilando de terninho de risca-de-giz, com um escarpim em cada pé caloso. Chega.

27 maio 2004

Em tempo: está inaugurado o View Master , o blogfólio dos amigos Luís Saguar e Marcelus Gaio, dois feras em design. Ilustrações, fotografia e arte em espaço dinâmico, freqüentemente atualizado. Para quem gosta do lance, é um achado. Para quem não sabe se gosta, uma boa oportunidade de começar a gostar.

Visite!
A minha casa mal assombrada


Quem vai daqui para a praia, mais ou menos no meio do caminho, tem uma casa mal assombrada. Tem, porque tem, porque tem.

É um sobrado com janelas grandes, daquele tipo com madeira em cruz. A grama não é cortada, as paredes são descascadas, as plantas espirram pátio afora, tipo cabelo de orelha de velho, sem ordem nem medida.

Na calçada em frente há umas árvores e uns arbustos crescidos que formam uma espécie de túnel verde – no meio, só um caminho curto de pedra úmida contorna aquela esquina. Coisa de cinqüenta passos. Mas é para os corajosos.

Já vi muito marmanjo atravessando a rua para não encarar o túnel verde. A sorte é que, do outro lado, tem uma reserva ecológica, com plaquinha no portão e tudo. Dá para disfarçar fingindo interesse.

Eu, não. Desde o primeiro dia, optei pelo caminho obscuro, porque dá pra espiar melhor lá dentro. E espio mesmo. Quero saber quem é que vive lá; porque as janelas estão sempre semi-abertas, e há um cachorro preguiçoso do tipo mudo, mas que tudo observa. Alguma coisa se passa naquela casa mal assombrada.

Pois hoje eu atravessava tranqüilamente o túnel verde, entretida em pular poças d’água como fosse amarelinha, foi quando levei um susto: um casal de velhinhos, sentados na varanda! Igualmente mudos e observadores. Não moviam uma pálpebra.

Meu coração gelou, errei as contas e enfiei o pé na água. E uma questão me assombrou mais que tudo: será que eles estavam ali mesmo, eu digo, de carne e osso?

Pelo sim, pelo não, fui visitar a reserva.
Coisas de uma prenda desgarrada


Agora dei para acordar cedo – mas cedo mesmo, hoje levantei às 5:30! –, preparar meu café e vir ao micro pegar o finalzinho do programa Pátria Y Querência (apresentação: Glênio Fagundes) na Rádio Cultura FM – Porto Alegre, 107,7.

Vocês podem imaginar. Trata-se de uma programação exclusivamente gaudéria, com pérolas da música nativista – clássicos do Rio Grande; coisas da época em que não existia o rótulo “Tchê Music”, e as baterias e as guitarras elétricas não haviam ainda invadido a nossa doce e bela canção rural. Também toca coisa “muderna”, mas, como diz o Glênio (um gaudério impagável, personificação do tradicionalismo): não precisamos nos descaracterizar.

Reparem só nesses versos (abaixo), refrão da milonga que me embalou o raiar do dia hoje. E tenham uma ótima quinta-feira!

Da terra nasceram gritos
(Jayme Caetano Braun)

Meu canto é rio
meu canto é sol
meu canto é vento

Eu tenho verde
eu tenho pátria
eu tenho glória

Eu só não tenho
terra própria
porque a história

que eu escrevi
me deserdou
no testamento.

25 maio 2004

A gripe e a rotina emocional


Peguei uma gripe nojenta, estou enfurnada dentro de casa, meio febril, com um edredom até o pescoço, falando pelo nariz, comendo sem sentir gosto e ouvindo em mono. Agora me dê uma razão para permanecer com o humor intacto, vendo flores na vida, tecendo comentários otimistas sobre o futuro. Uma só, uminha.

Minhas amídalas estão do tamanho de bolas de pingue-pongue, ia me esquecendo de acrescentar. E a minha voz, quanta diferença.

O amigo que der com os cornos neste acidente virtual chamado blogue, desculpe, mas vai aturar crise de mulher que não é a sua – ou seja, pouca vantagem há nisso. Sim, porque aturar o mau humor da própria mulher é, além de útil à saúde conjugal, um gesto nobre. Aqui, de nobre, temos só a pretensão.

Já que está aqui, permita-me discorrer sobre algumas inutilidades da vida, assim me distraio da dor que assola minhas maçãs cranianas (gostou?).

Estou de saco bem cheio disso que chamam rotina. Precisando viajar, respirar outros ares, conhecer gente nova, tropeçar em estradas ainda não subidas, derrapar nas não descidas.

Pensando bem, talvez uma mulher precisando viajar não seja exatamente uma necessidade de deslocamento físico. Talvez, também, não seja uma alucinação resultante de cartelas e mais cartelas de aspirina e benegrip, como você pode estar pensando. Não. Pode ser só uma predisposição momentânea ao desconhecido - esse deus infinito e soberano que nos encanta a todas. Mesmo as mais tímidas, mesmo as menos “saidinhas”. Todas, no fundo, querem(os) um tíquete livre que dê direito às mais inimagináveis saídas.

Não estou reclamando do meu cotidiano, que, se não está uma festa ensolarada, tampouco tem sido cinzento ou enfadonho. Mas existe uma rotina intelectual – da qual nem todos os livros e jornais do mundo dão ou darão conta -, e existe ainda uma rotina emocional. Para esta, não bastará todo pro zac produzido no planeta.

É sobre esse tipo de rotina que estou falando aqui. Não acordar, levantar, dormir. Mas cogitar, pensar, sentir.

E aí? A quantas anda a sua rotina emocional?

23 maio 2004

Analógica em Divinópolis (MG)


A cunhada do Lori (nosso baterista) tem uma loja de equipamentos de som em Divinópolis. Para a demonstração dos produtos, resolveu começar a tocar o CD da Analógica a todo vapor. Eis que a clientela começou a perguntar sobre a origem do que ouvia, e o boca-a-boca levou a rapaziada a fazer, digamos, cópias livres do nosso CD.

Resumo: antes mesmo de lançar o disco, estamos sendo pirateados em Divinópolis.

É ou não é uma boa notícia?

Anote aí: vamos tocar em Divinópolis muito em breve, ou não me chamo Bíbi. Me aguardem.


3.0

Meu irmão apagou trinta velinhas ontem. Teve festa no Vila Genaro (um barzinho aqui no Recreio), com direito a bolo de chocolate decorado com a figura do Homem-Aranha, mesinha enfeitada com papel crepom, e o principal: nossos poucos e bons amigos.

Falamos de música e outros trabalhos, contamos piadas do Lula, essas coisas. Todos concordam que a vida anda difícil, mas ninguém deixou de rir.

Meu irmão, que continua um incorrigível cabeludo com jeito de 22 anos, apenas lamentava nunca mais poder dizer que tem “20 e poucos”.

É. Ela chega para todos nós.


Mau tempo

Parece que o frio chegou de vez no Rio de Janeiro, ou assim entendem os cariocas – entre resmungos, esfregando as mãos, contando cobertores.

Hoje deu no Globo que “o frio continua” na semana que vem, para desespero dos aqui nascidos. Duro é agüentar essa cariocada batendo dentes com amenos 17 graus.


Self-Sopa

Mas ainda tem coisa pior. É o restaurante à Mineira, tradicional aqui do Rio por suas típicas comidas deliciosas, oferecendo “Self-Sopa” a partir das 19h, durante a semana.

Vem cá. Self-Sopa???

Já comecei a reclamar quando vi o anúncio no jornal: por módicos R$14,50 o sujeito vai até um restaurante e tem direito a se entupir de... sopa? Valha-me Deus, que idéia de jerico. Já sei, vai bombar, o carioca está achando friozinho e vai fazer fila, esfregando as mãozinhas, para cair de boca no bufê de água.

Se ainda fosse de aguardente.

20 maio 2004

Sair da cama com essa chuvinha é um pecado... sair de casa, o inferno


Ontem eu tive uma crise de me-deixe-só, pelo amor de Deus, como eu precisava ficar um pouco sozinha. E era dia da minha faxineira. E o apartamento é pequeno. E ela agora deu de ligar o rádio numa estação evangélica, num volume insuportável, e cantar junto aquelas canções, digamos... instrutivas.

Como eu também tinha de fazer uns trabalhos musicais aqui no micro, o duelo foi feio. Só acabou quando ela se despediu:

- Tchau, fica com Deus.

A senhora se incomodaria de levá-lo para passear só meia horinha?
Quase que eu disse.

***

À noite, cometi pequenos exageros: mandei trazer um DVD do Sex And The City e uma comédia romântica bobinha – quem inventou o delivery de DVD merece o céu!

Como estava friozinho (médio, médio), fiquei de pouca roupa só para poder me enrolar num edredom, apagar a luz e me esquecer da vida diante daqueles clichês açucarados. Ok, há alguma irreverência na série Sex And The City, apesar do texto pisando na pieguice com vontade. Boas risadas, sim; e o Chris Noth (aquele ator que faz o Mr. Big) já vale o seriado inteiro.

Seguindo o “raciocínio” das comédias românticas, eu poderia dizer que Mr. Noth - minha alma gêmea, sem sombra de dúvida - foi nascer nos EUA e inventou de ser ator de uma série exibida no mundo todo só para se tornar visível para mim. É um sinal.
Fechado, hoho.

Me falta...


...o ar!


***

Fomos ensaiar num estúdio novo, aqui no Recreio. Tinha uma banda ensaiando antes da gente, que obviamente atrasou, então ficamos na técnica ouvindo o som. Eram uns meninos de 16 a 20 anos, faziam um som mezzo CPM 22/Detonautas, mezzo Rappa... algo por aí (não sei direito quem é quem nessas bandas novas).

Aí eu me dei conta: a partir deste sábado, minha banda será 66,6% balzaquiana.
Abafa.

***

Sonho esquisito: eu estava grávida e tive um menino negro, mas o pai da criança (que não lembro quem era) havia morrido antes mesmo de saber que teria um filho.

Logo após o parto, no hospital, havia uma prática ridícula, assim: de um lado, ficavam as mães. De outro, os pais das crianças. Os bebês ficavam no meio, e uma enfermeira ia chamando um a um:

- Bebê Fulano. Mãe?
(Uma moça gritava: eu!)
- Pai?
(Um cara se acusava: eu!)
Então a enfermeira entregava o filho, e os três saiam, felizes, porta afora.

Eu já estava aborrecida com toda aquela exposição, sobretudo porque o meu filho não tinha pai vivo, eu teria que explicar isso, todos ficariam com pena de mim etc. Até que a enfermeira levantou o meu filho:

- Paulo. Mãe?
- Eu... (levantei a mão, tímida).
- Pai?

- Eu...
Lá do outro lado, reconheci um ex-namorado (de verdade) que não via há anos, magrinho e branco – que, obviamente, não poderia ser o pai. Fiquei meio assim, mas não discuti. Saí de lá com meu filho Paulo e o falso pai branco.

Ao sair, cobrei:
- Tu ficou maluco???

E ele, tranqüilo:
- Fiquei sabendo da história, e tive vontade de vir. Se quiser, te ajudo a criar.

Assim, como quem se oferece para pagar uma conta sua no banco.
Agradeci, mas recusei.
Um pouco porque era sonho, outro pouco porque era eu.

17 maio 2004

Homens: seus astros, meus desastres

Impressões subjetivas e politicamente incorretas de uma sagitariana leiga em astrologia

por Bíbi Da Pieve


Áries: De 21 de março a 20 de abril

O ariano é dos únicos homens que realmente abalam as estruturas de uma mulher metida a forte, e, por isso, sempre é bom manter uma distância segura. Certa feita eu me apaixonei por um ariano, e procuro alguns tijolos meus a até hoje. Workaholic, persistente até não mais poder, cabeça dura, determinado. Pode ser egocêntrico e aí, se der corda, já era. Um pouco pretensioso, na medida que lhe confere charme e um certo ar de mistério; se ultrapassar esse limite, torna-se um chato arrogante com vocação para rolo compressor. Tô fora.

Touro: De 21 de abril a 20 de maio

Teimoso mais que a porta, o taurino pode ser aquele cara por quem você não dá nada, mas, se resolver dar, vai se surpreender. O desgraçado é sensual, envolvente e até romântico – sem ser pegajoso. Tem de ter um certo jogo de cintura, não demonstrar interesse logo de cara. Jogar mesmo (sem exageros!), ou corre o risco de o touro fugir com corda e tudo, antes mesmo do melhor da festa. O que seria um desperdício, acredite. Se ele der umas sumidas de vez em quando, não estranhe: faz parte do seu show. Agora, se o negócio for compromisso, melhor averiguar onde é que ele anda pastando. Boi amarrado... será?

Gêmeos: De 21 de maio a 20 de junho

Distraído, avoado, divertido, inteligente, volúvel (galinha). Alguns são tudo isso, outros só metade. Ótimo papo, isso é batata. Pode não saber falar sobre sentimentos (ou o que vem a ser isso), mas certamente vai lhe surpreender com soluções diversas para problemas que você jamais pensou ter – mas, no fim, descobre que estavam mesmo lhe afligindo. Geminianos são líderes (cuidado com o excesso de liderança; é bom deixar bem claro quem manda em quê, até onde etc) e são incrivelmente ecléticos (galinhas, de novo). O nativo deste signo tem muita personalidade. Até aí, tudo bem. O problema é quando tem muitas personalidades; aí é problema.

Câncer: De 21 de junho a 21 de julho

Caseiro, família, homem romântico. Muitas vezes meigo, algumas vezes tão carente que se torna difícil a convivência, sobretudo se você for do tipo que não topa ficar alisando. Um conselho: quando for magoar um canceriano, pense três vezes antes, medite, reze se for preciso. E desista. O sujeito é facilmente atingível, e depois você vai gastar dias, semanas ou meses para lhe fazer esquecer aquele mal. Não compensa. Se quiser lealdade, no entanto, vai encontrar. E não seja boba de desperdiçar um cara carinhoso, gentil, fiel, que sabe ser cavalheiro e bom ouvinte. Se você já se relacionou com um canceriano, com certeza não consegue mais repetir a velha frase ressentida: “homem é tudo igual”!

Leão: De 22 de julho a 22 de agosto

Tenho uma preferência escancarada pelos leoninos, já confesso de antemão. São homens interessantes, dedicados, sensíveis, doces e ensolarados. Porém, cuidado com os ensolarados demais: podem ser egocêntricos, narcisistas e até mesmo eternos problemáticos. Alguns têm tendência à autoflagelação; nesse caso, assumir uma culpa que não é sua pode ser armadilha fatal. Não queime a mufa. Dê atenção, mas não se descabele tentando resolver os pepinos que nem ele mesmo quer resolver. Que vá se virar. Por outro lado, um leonino de bem com a vida é o céu.

Virgem: De 23 de agosto a 22 de setembro

Meticuloso, perfeccionista, pragmático, romântico, dedicado à relação. Não tem dificuldade de lidar com a rotina, o que pode fazer a mulher mais aventureira se sentir um pouco perdida, com medo de cair na monotonia. Nunca tive relacionamento com virginiano, mas sei que são capazes de se apaixonar perdidamente, e tratam desse sentimento com a mesma intensidade com a qual tratam da vida: tudo é muito bem elaborado, bem executado, bem sentido e bem vivido. O virginiano que é artista (ou trabalha com produto intelectual) pode cair no exagero e perder um pouco o senso da realidade, somatizando tudo que lhe aparece à frente, virando um hipocondríaco incansável. Haja fôlego e muita sensatez para não enlouquecer junto.

Libra: De 23 de setembro a 22 de outubro

O libriano é aquele homem popular e charmoso, querido por todos (e todas!), que pode te deixar enciumada ou paranóica – quando você percebe que todo mundo vê nele o mesmo que você. Há que se ter um certo cuidado na hora de se envolver; se ocorrer uma paixão repentina, é bem capaz do cara querer casar, assim, do nada. O problema é que, assim como houve paixão por você, pode haver por outras e outras e outras... sim, o libriano pode ser meio diversificado ou dispersivo (galinha, resumindo). São meus bons amigos, e ótimos para uma amizade colorida de vez em quando. Sem cobranças. Mas, se exigirem um contrato de exclusividade - é bem provável! -, não se esqueça de colocar tudo às claras: exclusividade mútua, ou nada feito. Não vá você ficar servindo de contrapeso eterno à sua balança, enquanto ele se decide aqui, decide ali – sem, na verdade, decidir nada. O único libriano da minha vida, de tanto se decidir e desistir, acabou casando com a própria mãe. Acontece.

Escorpião: De 23 de outubro a 21 de novembro

Esse bicho exala uma sensualidade capaz de deixar cega de paixão a pobre desavisada que lhe cruzar o caminho. O escorpiano que ainda for bonito e inteligente, então, a recomendação é de que se atravesse a rua se não quiser ficar meio zonza. A sorte é que ele vai direto ao assunto, podendo ser considerado meio grosso, insensível ou um brutamontes das cavernas. Nunca me apaixonei por um. São bons amigos, cruéis e excessivamente francos quando necessário. Alguns preservam um mistério encantador; outros disfarçam com cinismo, ciúme e possessividade uma sensibilidade exacerbada que, se a nós atrai, a eles assusta. Por via das dúvidas, eu bato na madeira.

Sagitário: De 22 de novembro a 21 de dezembro

Meus colegas de zodíaco, deles eu posso falar com total liberdade (como nos convém): são amigos fiéis, espirituosos, divertidos, boas companhias para vários chopes – em geral, acabam amigos dos garçons e proprietários dos botecos, de tanto varrer salão. Alguns são filósofos incorrigíveis. Cuidado com aquela necessidade desenfreada de liberdade, que pode passar da reclusão à galinhagem em dois tempos. Em casos mais graves, o sujeito tem medo de se entregar ao sentimento, e foge do compomisso como diabo da cruz. Aparência de impenetrável, pernóstico, excêntrico ou até arrogante; seja como for a capa, pode estar certa de que o miolo do sagitariano é muito mais agradável e acessível, é só saber chegar lá. Falar nisso, costumam ser muy generosos na cama. Dizem, dizem.

Capricórnio: De 22 de dezembro a 20 de janeiro

Inteligente, racional, metódico, planejador, estudioso, bem sucedido, charmoso, tímido, surpreendente, irônico. Pode ser tudo ou um pouco disso. Pode ser um gênio ou um palhaço; se for os dois, melhor ainda. Nunca me apaixonei por um. São meus fieis amigos para virar a noite conversando, e são meus ídolos. Talvez eu mantenha a devida distância, para não quebrar a idolatria ou a cara. Dizem que vão ficando mais jovens conforme o tempo vai passando. Dica: se quiser encarar, agarre bem firme enquanto ele ainda é “velho”. Aí, tem grandes chances de permanecer fiel. Do contrário, esse negócio de “ir rejuvenescendo com o passar do tempo” é puro engodo, nem preciso dizer: galinhagem.

Aquário: De 21 de janeiro a 19 de fevereiro

Ligado ao passado remoto e ao futuro distante com a mesma intensidade, difícil é fazer o aquariano viver tranqüilamente o aqui e agora. Visionários, geniais, céticos, escorregadios; os aquarianos, quando se apaixonam, estão também apaixonados pelo próprio sentimento. Não que você seja um mero detalhe, mas certamente não é tudo na vida de um aquariano. Ele pode parecer frio e distante, e tem o dom de esperar a exata hora (quando a moral anda baixíssima) para lhe aparecer com uma surpresa comovente, fazendo você cair lindamente do cavalo. Eu digo lindamente com conhecimento de causa: cair do cavalo de um aquariano é uma experiência artística, dramática e – claro – hilária. De bunda no chão, você fica: foi um pássaro? Foi um avião??

Peixes: De 20 de fevereiro a 20 de março

Se você for meio bicho-grilo, gostar de assuntos esotéricos, de sonhar acordada o tempo todo e de muito, muito carinho e dedicação, então ache um pisciano e se mande com ele para o meio do mato, um amor e uma cabana. É o sonho da vida dele, e pode ser o seu também. Agora, se você for um pouco agitada, descolada, cética, workaholic... acredite, pode dar certo também. Conheço um casal lindo com esse perfil, são complementares e vivem harmoniosamente – entre trancos e barrancos, claro. A sua sorte é que ele pode achar até engraçadinho quando você tem um ataque histérico porque aquele par de sapatos saiu da promoção. A sorte dele é que, enquanto você pensa que ele é um bolha e grita ininterruptamente, ele vai tomando as deciões silenciosamente para que a vida de ambos corra com qualidade emocional e até uma certa ordem.

16 maio 2004

Retiro o registro de domingo-meia-boca!


Foi só eu reclamar do meu domingo sem graça e ele sorriu pra mim. Hoho.
Matei as saudades de uma galerinha do Sul que me faz uma faaaalta...

Sorrindo outra vez, assim tipo pinto no lixo.
Domingo


Manhã: caminhada na praia – dia cinzento, frio e vento.
Antes e depois: alongamento (anti-hérnia).
Difícil andar. Cabelos voando.
Uma moça de peruca e óculos escuros, talvez querendo disfarçar alguma coisa, acabou sendo a atração da ciclovia.
Anônima?

Almoço: salada de atum. Maravilhosa. Eu que fiz.

Tarde: internet, violão, pensamentos, rabiscos no velho caderno de cabeceira. Cappuccino. Sade na “vitrola”. Mais pensamentos.
Cozinha: louças, restos.
Quarto: Lya Luft (O Ponto Cego).

Noite: pão torrado, cappuccino.

Acabou-se o domingo.
Graças a Deus.

15 maio 2004

SOCORRO QUE ESSA PORRA NÃO TEM FIM!!!


Se você não selecionar as coisas que realmente fazem falta na sua vida, e esquecer todo o resto, está fadado à loucura. Como dizia meu irmão, na loja de móveis para escritório: “é muita cadeira”.

É muita cadeira, e a pessoa tem de escolher. Quais os jornais mais importantes? Dos jornais, quais os cadernos essenciais? Dos cadernos, as notícias. Das notícias, os fatos. Dos fatos, as impressões. Das impressões (dos outros), as suas!

Dediquei um franco pedaço da minha tarde de sábado à internet. Nada de mais. Visitar uns blogues, conferir as novidades nas revistas especializadas, o jornal de São Leopoldo para saber das fofocas e do frio, uma passada no Orkut para, finalmente, tentar entender a que se destina... acabei sabendo de novos autores, bandas independentes, as impressões de um desconhecido carioca que vive em Nova York, programas de rádio, poesia na rede, fulano que está lançando um livro em São Paulo, fulana que fundou uma ong no Rio etc etc etc... fora a gordura emocional que envolve tudo isso, claro!

Ao terminar essa viagem quase involuntária pelo adorável mundo das coisas que não me pertencem, tombei, exausta: um cappuccino, por amor de Deus, que essa porra não tem fim!

A internet causa duas impressões patéticas na gente. Primeira: o mundo todo está acontecendo aqui e agora bem diante dos meus olhos (euforia). Segunda: consigo ter tempo de me inteirar de apenas 0,000000000001% do que está acontecendo, ou seja - sou um(a) bosta alienado(a) (depressão).

Assim é que, parece mentira, o discurso dos mestres orientais se encaixa tão perfeitamente à maluquice frenética da vida “muderna”, que até me deixa pasma: a busca do essencial, tá ligado?

De minha parte, quando percebi que o Tico e o Teco estavam fazendo hora-extra e ameaçavam entrar em greve, a primeira coisa que pensei foi: EU QUERO A MINHA MÃÃÃÃEEEEEE!!!

E liguei, mas ela não estava em casa.

Para você ver como até o essencial, às vezes, nos escapa. Que dirá o resto.
Hoje tinha um cara correndo na praia, mas com o maior jeitão de intelectual. Óculos, bermuda e tênis. Meu olho acompanhou as panturrilhas, juro, involuntariamente. Por que será que eu gosto de homens que se contradizem no jeito?

Um intelectual correndo. Seria menos charmoso se não corresse, ou se não fosse intelectual. Podia imaginá-lo, meia hora depois, teclando qualquer coisa num laptop surrado. Usando a cabeça e desusando as panturrilhas.

Para dizer a verdade, nem me lembro se usava mesmo óculos, ou fui eu que adicionei o acessório para compor o personagem. Quem é que corre de óculos, né? Mas, que era intelectual, isso era.

Reconheço panturrilha de intelectual a quilômetros.

14 maio 2004

22 mil e poucos, porém fiéis

Passamos dos vinte e dois motivos para visitar este blog! Obrigada a vocês: meus quatro ou cinco, porém fiéis.

***

A cadeira auto-explicativa


Meu irmão me comprou uma cadeira nova, anti-hérnia-de-disco. Vermelha, pra combinar com o blog. Não é um belo presente de 22 mil visitas?

Primeiro, ele iria sozinho à loja. Especializada em móveis para escritório, aqui no Recreio mesmo. Chegou lá, me ligou do celular:

- Bíbi, não vai dar...
- O que foi? Não tem cadeira?
- Tem. Muita cadeira.
- Então compra uma!
- Não dá, Bíbi, tu não tá entendendo... (agora falando baixinho, como se disfarçasse para alguém) é muita cadeira. Não sei escolher, é muita cadeira. Muita cadeira! Deus do céu, é muita cadeira!

Ali eu percebi que já estava lhe faltando o ar, começaria a se coçar e breve estaria cheio de manchas vermelhas: síndrome do geminiano, quando tem de se decidir por algo.

- Tá, tá, fica calmo. Respira fundo...
- É muita cadeira.
- Inspira...
- Muita cadeira.
- Expira...
- Muita cadeira.

Veio me buscar em casa. Era muita cadeira. Chegamos lá, e era muita cadeira mesmo.

- Eu não falei?
- Realmente. Mas vamos conseguir.

Eu ia sentando, ele ia torcendo os parafusos, regulando assentos e encostos: tá bom assim? Tá confortável? Tá bom para a hérnia? E agora? Melhorou?

Escolha feita, cadeira comprada, chegamos em casa. Ele pôs a caixa no meio da sala, eu abri e me deparei com uma porção de ferros e parafusos no lugar da minha querida cadeira vermelha. Foi hora da minha crise:

- Cruzes!!! Cadê a minha cadeira?
- Calma, taí. Só que desmontada.
- Ah... que lástima.
- Calma, vamos montar.
- Como? A partir desse folheto aqui? Aqui só tem um desenho em preto e branco, não tem instruções... não vai dar.
- É auto-explicativo, Bíbi! Não tá vendo?

Decididamente, eu não via uma cadeira naqueles rabiscos. Mas ele jura que via. Tanto via, que montou aquela tralha em dois tempos, transformando uns pedaços de pau e ferro numa linda cadeira vermelha anti-hérnia-de-disco.

E cá estou, confortavelmente aboletada sobre a minha cadeira auto-explicativa, comemorando as 22 mil visitas.
A hérnia agradece.

13 maio 2004

O passado virtual (enquanto ninguém se belisca)


Você já dedicou um tempinho a ele. Ou esbarrou, distraidamente, enquanto fazia alguma busca em seus arquivos. Ou, ainda, acordou decidido a investigá-lo – para saber de quem foi o erro, onde nasceu aquela amizade, quem foi que terminou o namoro que nunca começou.

Não disfarce, você já entendeu: estou falando do seu passado virtual.

Todos nós, usuários da internet, temos um passado que nos condena. No mínimo, nos condena a remetentes e receptores de inocentes cartas digitais. No máximo, sabe-se lá. Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca cometeu uma sandice cibernética.

Eu sei que você já se sentiu absolutamente ridículo em frente ao monitor, ao menos uma vez na vida. Sei que já sentiu as mais diversas emoções diante dele. Teve vontade de beijá-lo e atirá-lo pela janela, esmagou o mouse com toda força, pensou em morder-lhe o rabo, afundou meia-dúzia de teclas (imaginando transmitir mais “peso” às palavras)... quantas alternativas você marcaria como verdadeiras? Eu, todas.

Assumo que faço uso da internet há quase dez anos, e já fiz muita asneira nos balanços desta rede. Mandei e-mail para o remetente errado com conteúdo totalmente pessoal, respondi para todos do grupo (em vez de acionar o “private”) e paguei o maior mico, fingi ter errado de endereço e pedi desculpas (quando, na verdade, queria mesmo que o conteúdo chegasse àquela pessoa), redigi palavras doces (com a raiva escorrendo pela boca), fui rude (com o coração na mão e cheia de culpa), perdi as estribeiras virtuais e mandei ver (arrependimento instantâneo após o irreversível “send”), enfim, fiz poucas e boas no mundo virtual – e, o que é pior: sofri as conseqüências mais reais possíveis.

A internet tem dessas coisas: é tudo uma grande farsa, enquanto ninguém se belisca. Quando você sente na pele o cutuco de uma gafe, ou a porrada de uma meleca inconfessável que lhe escapuliu “send” afora, aí a coisa muda de figura. É quando a palavra “save” já não vale mais nada, e não adianta apelar para os seus santos, porque está feita a merda.

Assim é que se define o passado: um pedaço de vida que aconteceu e calhou de escapar justo na hora em que você queria dar uma retocadinha, uma revisadinha, uma editadinha... e já não pode mais. Eu sei que é duro. Mais ou menos como quando falta luz e você ainda não salvou nada.

Assim também é o seu passado virtual. Aquele, que começou inofensivo, quando ninguém se beliscava. E passou, sorrateiro, para o lado real.

Sem direito a “Ctrl + Z”.

11 maio 2004

Arrumei minha antena


Não a minha, claro. A da TV. Dei uma de “meu-irmão-quando-tinha-mais-tempo”, e fui de canivete: desmontei a coisa, desencapei parte de um fio que me parecia meio acabadinho, fiz nascer um robusto pedaço dele, que enrosquei numa espécie de parafuso com a finalidade de conduzir qualquer coisa a não sei onde, depois ainda finalizei com fita isolante (por quê?, não me perguntem!), tudo muito intuitivamente, mas com delicadeza e propriedade que só vendo. Virei a antena de cabeça para cima outra vez, dei-lhe três amigáveis tapinhas nas costas, acendi uma vela e um incenso, improvisei alguma reza, e, finalmente, tive uma conversa muito séria com ela.

Não sei se foi a cirurgia ou a conversa, mas o fato é que a antena voltou a ter, se não o corpinho de antes, ao menos o prazer que me proporcionava.


Falar nisso...

No DVD da quinta temporada de Sex And The City que peguei outro dia, o impagável diálogo descrito (mais ou menos) a seguir, entre Samantha e um vendedor:

- Boa tarde. Eu vim devolver o meu vibrador, está com defeito. (Ela, com um sorriso no rosto, e o negócio na mão).
- Desculpe, senhora. Deve haver um engano. Aqui não vendemos vibradores.

Estava claro que o local não era um sex shop, mas uma loja de eletrodomésticos. Mas ela insistia:

- É claro que vendem vibradores! Eu comprei o meu aqui outro dia, tenho certeza. E vim devolvê-lo. Está com defeito.
- Desculpe, senhora. Tenho certeza, aqui não vendemos nenhum tipo de vibrador.
- Ah, não? Então, o que é isso aqui?
- É um massageador de pescoço, senhora.

Ela, desapontada:
- As pessoas usam isso aqui para massagear o pescoço?
- Isso é um massageador de pescoço, senhora.

Ela, já irritada:
- Está bem. Está bem. Vim devolver o meu massageador de pescoço. Está com defeito.
- E qual o defeito, senhora?
ELE NÃO ME FAZ GOZAR.

10 maio 2004

Estou com a estranha impressão de que ninguém anda me lendo, estou com dificuldades na configuração do meu aparelho celular novo, estou meio triste por não saber cozinhar direito, estou precisando de uma cadeira nova, estou chocada com essa história de tanques de guerra nas vias cariocas, estou puta com as pessoas que ficam telefonando compulsivamente e desligam na cara da minha secretária eletrônica em vez de deixar recado, estou com saudades de viajar, estou precisando de cordas novas para o meu baixo, estou sem paciência de fazer as unhas, estou...

... na TPM.

E, como eu já dizia, odeio TPM.

09 maio 2004

Praia do Recreio




***

O jogo da velha


“Estou me achando um pouco medíocre. Você também acorda assim, às vezes?
Medíocre de cabelo e pele, medíocre de texto, medíocre de arrastar chinelos e lavar a louça de ontem à noite. Pensando nas compras da semana, no sabão em pó que acabou, no absurdo chamado Maluf, nas mudanças da Lei Rouanet. E me dói o lombo. Tudo isso, assim, superficialmente, claro. Passando um paninho na mesa, sabe como é? Medíocre.”


Tenho vontade de pegar minha autocrítica - sempre tão pontual e implacável - e pendurá-la um pouquinho na varanda para pegar um vento. Sim, porque uma coisa é ter senso crítico consigo próprio. Outra, bem diferente, é carregar uma velha ranzinza no ombro esquerdo, a resmungar ininterruptamente, cutucando o ouvido da gente com uma bengala como quem quer chamar atenção. Velha mais chata.

Depois de deixar a velha na varanda, corro lá e trago de volta, porque não vivo sem ela mesmo. Converso com a velha, dou-lhe atenção, chego até a mimá-la um pouco. E me dói o lombo outra vez. E desconfio que seja o peso da velha.

Ouvir da velha que sou medíocre, isso é de lei. Eu tenho um texto que data de 1987, eu tinha uns dez anos, e dizia assim: “eu queria ser delicada como essa bailarina (de um porta-jóias musical que acabara de ganhar da minha avó). A bailarina não fala palavrão e não bate nos outros.” E segue, por uma página de caderno grande, a velha me soprando indelicadezas por eu ser tão indelicada.

No dia anterior, eu tinha esfolado um coleguinha de turma que vinha me importunando havia meses, acusando-me de babaquices infundadas. Investi uma vez só, de mão fechada, e o pobrezinho se foi ao chão, de forma que até me assustei - não seria pra tanto.

Mas já estava feita a merda (não perdi o hábito do palavrão), e só me restou, além da repreensão dos professores e dos poucos amigos daquele canalha em miniatura, a crítica feroz da minha velha de estimação. Que eu não era delicada como a bailarina, veja só.
Ralhava a velha, e ainda ralha, quando acha que fui longe demais em alguma coisa. Mas, ainda mais, ralha quando pensa que fui de menos. E me cutuca o ouvido com a bengala: corre, infeliz! Corre, que a vida é uma só!

E saio, bem pateta, tropeçando e querendo me aprofundar nalguma bobagem que me daria o título de “eu aproveitei 100%”. Para, finalmente, a velha me criticar outra vez: caiu? Bem feito! Não olha por onde anda?

Agora eu pergunto: como é que a pessoa pode andar, olhar por onde anda, ouvir a própria razão, sentir a própria emoção, carregar uma velha gagá no ombro esquerdo e ainda ser feliz nas horas vagas?

Sai pra lá, eu não sou essa velha. Por isso coloquei o primeiro parágrafo entre aspas: credito à velha. E estou saindo agora mesmo para lhe comprar uma cadeira de balanço.

Se ela não sai, pelo menos que se distraia. Vá fazer um tricô, sei lá.

07 maio 2004

Eu gosto da TPM


É como se alguém pegasse o amplificador do mundo e torcesse todos os botões para a direita: graves, agudos, médios, volumes em geral. Tudo no máximo. Se chove um pouquinho, é dilúvio. Se alguém chega sozinho, é uma multidão invasora armada de facas. Se me fazem um agrado; ou é muito - e eu não mereço -, ou é pouco - e tenho vontade de xingar-lhe a mãe.

Sei que estou na TPM quando um comercial de margarina me faz lacrimejar, e, trinta segundos depois, estou profundamente revoltada com a propaganda e o marketing, os compositores de jingle, os redatores de publicidade, os diretores e toda essa corja mercenária que nos impele a cometer rombos no orçamento doméstico em nome do prometido colesterol zero. Abutres!

Trinta segundos depois, estou lacrimejando de culpa.

Nesse período que nos visita a todas, mensal e pontualmente como uma velha tia-avó ácida, estamos sem medidas. Perdemos os meios-termos, as meias-palavras e os meios-de-campo. Estamos, ou no ataque, ou na defesa (isso quando não nos pegamos com as unhas e os dentes cravados na bola, a rolar no gramado, indiferentes ao jogo).

O adversário da peleja é o de menos. Se Deus nos deu a graça de nascermos femininas, foi justamente para que não perdêssemos tempo com esses pormenores: atira-se no primeiro que se mover, e pronto.

Perder as estribeiras, a compostura, o sono e a paciência. Tudo isso parece ser um estrondo comportamental capaz de nos reduzir – e aos que nos cercam – a pó. Mas, e se, em vez de nos entupirmos de antidepressivos ou enfiarmos a cabeça debaixo do travesseiro enquanto a “coisa” não passa, resolvêssemos converter essa energia vulcânica em “poder de fogo”?

Há uns cinqüenta anos, no tempo em que a nossa tia-avó ácida era apenas uma debutante angelical, talvez não pegasse bem a falta de medidas numa dama da sociedade. As únicas que perdiam as medidas eram tachadas de... uma palavra bem pior que “desmedidas”, enfim.

Hoje, entretanto, uma mulher desmedida pode viver tranqüilamente. Pode sair na rua usando jeans e corpete de renda, não pode? Pode xingar a mãe de quem quiser, pode pedir vodca pura no balcão de um boteco, pode entornar quantas doses quiser e ainda assediar o garçom. Pode ou não pode?

Portanto, podemos também gostar da – tão mal falada – TPM. Ora, bolotas! Faz parte de nós!

Eu gosto da TPM, se você quer saber. Gosto de não ser tão linear. Gosto de me curvar ao sabor dos ciclos, alternando hormônios, sensibilidade, ponto de vista, paixão e ódio. Gosto de cometer loucuras, ou cogitar cometê-las – só para brincar de ser eu mesma, porém amplificada.

Como eu seria se fosse “100% TPM”? (Dá uma boa estampa de camiseta, vão roubar minha idéia, se é que não fui eu a ladra). Seria insuportável; mas será que já não sou? Seria intensa? Seria ousada? Seria sexy? Seria agressiva?

Talvez esta seja mais uma das vantagens de ser mulher: uma vez por mês, você tem uma amostra grátis do que seria você-mesma-em-versão-turbinada. Mesmo que algumas coisas ultrapassem os limites do bom senso (e por que não?), mesmo que você pise na jaca, chute o balde etc.

Tomando o devido cuidado para não transformar esse período num inferno para os pobres coadjuvantes do seu ciclo menstrual, acredite, esta pode ser uma experiência das mais criativas: rabisque suas impressões sobre o que quer que seja, e depois volte a ler dali a quinze dias.

E me diga se não somos um divertido “chope com as amigas” dentro de nós mesmas.