25 maio 2006

São João

Ontem, vimos pinhão pela primeira vez no ano. E não é que já estamos quase em junho mesmo?

Com esse negócio de Copa e eleições, coitadinho do São João ficou até para escanteio!


Santa Rita

Falar nisso, dia 22 foi o dia de Santa Rita: a das causas impossíveis. Com esse negócio de Copa e eleições, talvez fosse bom... xá pra lá.


São Pedro

Dizem que o pior já passou. Foi embora a frente fria que encharcou o Rio de Janeiro, e agora vamos enfrentar, segundo a meteorologia do jornal, apenas “frio extremo”.

As mínimas anunciadas beiram 13 graus. As máximas irão a 30 no final de semana. “É possível que dê praia”, ainda dizem.

Hã. E cadê o frio extremo???


Santa Paciência

Meu pai recém tinha comprado o ar condicionado, e ambos não se entendiam muito bem, de modo que ele foi recorrer ao suporte, digo, atendimento ao consumidor.

- Um minutinho, senhor, que estaremos transferindo a ligação para o setor...

Blá, blá, blá, musiquinha de meditação, enfim, o ritual conhecido. Meu pai mofava do outro lado da linha, arrependido e acalorado.

Enfim, conseguiu falar com uma atendente especializada - portadora de gerundismo crônico, claro. Explicou a ela o problema. O ar não gelava.

- Não o quê, senhor?
- Não gela. Não refresca. Não refrigera!!

Ela deu meia-dúzia de sugestões óbvias, que ele já tinha tentado, e não era nada daquilo. O ar simplesmente não gelava. Quando acabaram as alternativas cadastradas (decerto, nas “perguntas mais freqüentes” do seu computador), a moça se desvencilhou de formalidades e atacou de improviso:

- Desculpe... o senhor é de onde?
- Do RS, por quê?
- Ah, logo identifiquei o sotaque. He he... O senhor não me leve a mal, mas, sabe como é... He he... O seu ar condicionado é de 8.500 BTUs, está bem, mas aquele friozinho do Rio Grande ele não vai dar não, viu?

!!!

24 maio 2006

Família

Meu pai fazia comidinha em casa, nós duas fazíamos ginástica e eu comentava, que coisa mais magnífica, que coisa sensacional isso de se ter um pai fazendo comidinha em casa e nós duas ali, fazendo ginástica... Sensacional, sem palavras.

- Até porque não se consegue falar aqui, fazendo força, né?
- É... BUFF! BUFF! (Eu bufava).

Que alegria, quem me conhece sabe.


Anos

Meu irmão fez anos, mas inverteu as velinhas do bolo bem na hora da foto.

Vale roubar, é?

Ficava mais simpático, ele achou. Não vou contar aqui quantas primaveras, senão ele me mata.

Em vão, porque eu nasço tudo de novo. Quem me conhece sabe.
Com classe


Já contei a vocês daquela senhora do Pilates - a que é toda elástica e mata a turma de inveja com tamanha flexibilidade. Pois ontem ela ia fazendo um alongamento mais ousado, coitada, não se espichou demais e embolotou inteira no chão?

Contam, contam. Essa eu não vi. Virou assunto na aula de hoje.

“Mas como é que foi? Caiu mesmo?”

“Virou de costas ou caiu de barriga?”

“Juuura? Detalhes, please.”

A professora ia acalmando os ânimos, narrando o ocorrido como se sorvesse um doce.

“Não, não... Escuta. Foi assim, ó. Ela estava nesse aparelho, e eu disse, deita e joga o corpo para frente COM CUIDADO. Ela jogou o corpo, eu disse, peraí que já vou segurar suas pernas, um segundinho só que já estou indo, eu cuidava da outra aluna, já estou indo aí, cuidava da outra, ela foi espichando, espichando para frente, cuidado aí, não vai mais, não, já te acudo, fica parada, fica... Quem disse? A mulher é teimosa!”

“Acabou se estabacando no chão??”

“Nããão... Também não é assim, né? Virou uma cambalhota linda, e ploft!, caiu com a maior classe.”

“Como assim, caiu com classe???”

“Em câmera lenta. Tô dizendo. Foi ou não foi, fulana?”

A fulana concordou, e todas aplaudimos a queda cinematográfica que, puxa vida, afinal perdemos.

Mas, pela descrição, mais um pouquinho e eu estava comprando o DVD. (Essa mulher é, de fato, tão chique que deve mesmo embolotar em som surround!).

23 maio 2006

Mais de Miriam

Outra boa nova da internet: foi lançado o ambiente virtual da jornalista Miriam Leitão
– um empreendimento modernoso com direito a blog, áudio e vídeo, naturalmente recheado com informação e análise de primeira.

Incrível, mas vamos nos pegar dizendo: não se fazem mais blogs como antigamente!

22 maio 2006

Check Up

Fui ao clínico geral fazer um check up geral das minhas condições físicas gerais enquanto pessoa humana.

- Ponha este avental verde, com a abertura virada para frente.

Ponha verde naquilo. E ponha abertura naquilo!

- Posso amarrar aqui? (Dei nó cego na cordinha que fica em volta da cintura. Querendo manter a compostura, achei que era o mínimo a ser feito).

- Pode, pode. Respire pela boca. Solte o ar. De novo. E de novo.

Apalpa daqui, aperta dali, o homem não estica o braço e puxa do armário um martelo?

- Estou em obras, é o que o senhor quer dizer?

- Não. Só vou bater no seu joelho.

Ah, bom, bater no meu joelho.

Pergunte se eu paguei barato pela consulta. Mais: pergunte se, no final, eu tive direito a bater no joelho dele. Hunf.

19 maio 2006

De novo

Socorro. Gripe horrorosa me puxou pelo colarinho (melhor dizendo, pelo decote) e me levou para a cama sem direito a preliminares. Estou me sentindo verde, e devo estar mesmo - verde ou azul, de tão pálida e sem graça. Olheiras, calafrios. Comendo sem gosto e respirando em falso.


Engano

- Alô, aí é do salão de beleza?
- Dão, senhora.
- Como?
- Dão! Dão!!

Pelo aboooor de Deus, dão be faça falar ao telefone com essa gripe!!!


Vende-se lenço

Acabei de fazer um pedido na farmácia. Vitaminas e aspirinas. “E lenços de papel, aquela caixa maiorzinha...”.

Chegou. É do tamanho de uma caixa de ferramentas. Isso aqui dá para uns 30 narizes!

Vendo lenços. É um real o punhado.


Tem febre, por acaso?

Quando era criança, por mais que me gripasse, mal tinha febre. 38 era pico de audiência. Corria a família toda, ela está com 38, chama o doutor, cobre a guria, põe mais uma mantinha que o negócio é sério.

Minha mãe vinha, alisava e beijava a minha testa, um beijo geladinho – era bom negócio estar com 38 graus.

Já meu irmão, o primogênito, aquele que já nascera adulto (do meu ponto de vista – o de pirralha da casa), pois o desgraçado ostentava febrões de 40 graus vááárias vezes por ano. Era um inferno. Sofria de bronquite, de inflamações na garganta, das mais variadas alergias possíveis e imagináveis (até hoje, não pode com poeira), e ainda por cima era portador de um talento raríssimo que o fazia naturalmente premiado enquanto são, imagine enfermo: o filho da mãe era meigo.

Doente, ficava mais meigo ainda.

E era uma criança bonita, o danado. Tinha farta cabeleira negra, levemente ondulada e brilhosa como em propaganda de xampu. O rosto era lisinho e claro; os olhos, enormes e espertos, os cílios alongados, as sobrancelhas caprichadas, a boca cor-de-rosa e carnuda, carro-chefe daquela fisionomia freqüentemente elogiada. Argh.

Com febre, mantinha o semblante sereno. Era a meiguice em pessoa.

De modo que eu bem que tentava, mas não conseguia um Ibope de 40 graus por nada neste mundo. Sempre era a segunda (e última!) colocada – coisas de caçula.

Fiquei com essa incompetência febril, qualquer aspirina sossega minhas crises, vibro quando o termômetro espeta algumas linhas acima do 38, cubro-me até o pescoço e faço “brrrrrr!!!” sozinha para ver se minha mãe aparece e me beija a testa – ou, sei lá, faz alguma coisa que me cure e traga paz de espírito...

Por exemplo, põe algum defeitinho no meu irmão.

15 maio 2006

Dia das mães

Ninguém tinha tempo de sair para comprar um presentinho para ela. Que vergonha. Meu pai se prontificou.

- Eu vou. Compro um presente em nome dos filhos.

Oba! Ele compra - em nome dos filhos, dos espíritos santos, amém. E foi na quinta-feira anterior ao domingo em questão. Mas ela foi junto. (A mãe em questão).

- Não tem graça ela ir junto! – protestamos.
- Claro que tem. Xá comigo. Ponho ela sentadinha numa praça de alimentação e vou às compras. Tem erro, não. Xá comigo.

Na volta, ela me ligou:

- Acabo de chegar do shopping. Ganhei de vocês um perfume ma-ra-vi-lho-so!
- Pô, mãe! Sacanagem! Era para ser surpresa!
- Ah, minha filha, não resisti. Fui lá e escolhi junto. Perfume é tão pessoal, né? Experimentei uns cinco, e escolhi o melhor de todos.
- E qual foi o eleito?
- Sabe que eu não sei? Esqueci.

Provou tantos que esqueceu o escolhido. Mandou embrulhar para presente, e saiu da loja balançando a sacolinha do perfume cuja marca não lembrava mais.

“Só vou abrir no domingo.”

Domingo ela abriu o pacotinho e se perfumou toda. Cheguei para o almoço e comentei que o cheiro era maravilhoso. E, de fato, era.

Até agora não sei o nome do perfume que meu pai comprou em nome dos filhos, ela própria escolheu, mandou embrulhar, esperou até domingo, abriu e ganhou de surpresa.

Não é verdade que só muda o endereço. A minha é modelo exclusivo.

11 maio 2006

Classificados

MÁQUINA
Vndo máquina d scrvr faltando uma tcla.

CAMISINHA
Troco caixas de preservativos vagabundos por roupas de bebê.

PRÓTESES
Troco lindo Pitbull muito bravo por mão ortopédica e perna mecânica.
Acontece mil vezes, aconteceu agora

- Boa tarde, eu gostaria de fazer um pedido.

Dei meu telefone, ele achou lá o cadastro. Pausa.

- Desculpe, senhora. É Bibiana??
- Sim.

Reticências do outro lado.

- Desculpe... É Bibiana mesmo?
- Aham...
- Por Deus que eu achei que estivesse escrito errado! Então... O que vai querer, dona Viviane?
...

A sua cabeça... parcelada, por favor.

10 maio 2006

Permissão

“Vossa senhoria me permita, está querendo fazer a gente de besta.”
(Senador Efraim Moraes – PMBD-PB - Presidente da CPI)


Urgente

Marquei com o corretor, depois de muitas ligações em vão. Amanhã ele virá. Finalmente ele virá. Afastem as cadeiras. Preparem os canapés. Que alívio, o corretor virá.

No entanto, telefonou na véspera:

- Não poderei ir, senhora, sinto muito. É que fui chamado de última hora para ser padrinho de casamento.

???

Vossa senhoria me permita...
CPI sem fôlego


Coloquei os fones e saí para dar minha caminhada ouvindo, acreditem, Silvinho Pereira na CPI.

É estarrecedor. Essa gente é muito burra; nós estamos representados por gente muito despreparada. São burros demais, repito, burros. Escandalosamente burros. O interrogado é burro, mas os que formulam as perguntas são igualmente burros. Alguns podem até ser espertos, mas não são inteligentes. São burros, são vulgarmente burros. É triste. Burrice assim é triste demais.

Dei a minha caminhada, ida e volta, e ninguém disse coisa alguma que valesse a pena escutar.

Ou meus ouvidos não têm a menor capacidade aeróbica, ou essa CPI está completamente sem fôlego – de tanta burrice que deve ter fumado.

09 maio 2006

Chico e o sexo

Chico Buarque, no seu DVD “À Flor da Pele”, constrangido:

- É engraçado dizer isso, né... mas as moças, nos anos 60, pretendiam se casar virgens.

E depois:

- Claro, tinha sempre uma ou outra, mas era exceção: a fulana, que estuda no colégio tal, dá. Ela dá. Mas era exceção.

E conclui, sobre hoje em dia:

- Hoje é muito difícil um rapaz de 16 anos não se deitar com sua namorada de 15. 14 anos.

**

Mãe

É engraçado como, nesta época, todo mundo acha que conhece a minha mãe.
“Sua mãe vai amar!”
“É a cara dela!”
“Cuide bem de quem cuidou de você!”

E outras pérolas divididas em 10X sem juros. Hunf.

**

Mas fiquei babando por um presente: tal de “Day Spa”, na Barra da Tijuca (claro).

Minha mãe passaria um dia inteirinho recebendo banhos cheirosérrimos, massagens relaxantes e tratamentos moderníssimos num espaço desses de estética-holística-zen-chique-no-último.

Caríssimo, of course.

Já disse: nesse ano não dá, mas ano que vem vai rolar – ah, se vai! E, para não ficar uma coisa assim tão enfadonha para a pobrezinha, tchan-nan!... Eu vou junto com ela. Eu me submeto. Encaro.

Bah, sou uma filha supimpa.

**

Pilates

As professoras resolveram fazer um alongamento em grupo (geralmente é individual). Colchonetes no chão, e mandamos ver.

Estica daqui, estica dali, conta até 20 e depois volta devagar. Estou observando uma senhora de quase 70 anos que está ao meu lado. A desgraçada tem um alongamento de pôr inveja a nós outras, porque fez dança e yôga a vida inteira. Um escândalo. A mulher se estica e nem geme, como as pobres mortais. Raiva. E a professora segue:

“Troca a perna!”

Interfiro:
“Eu tinha uma perguntinha...”

“Que foi?”

“Pode trocar a perna com a Suely?”

Quá quá quá geral. Desconcentrei a turma toda, levei bronca mesmo.
Sério - quem tem peito?


Hoje eu fiquei absolutamente chocada, e vou contar por quê.

Minha afilhada tem 12 anos. Há pouco tempo ela entrou no Orkut, e eu recebi um recadinho fofo: “oi, madrinha! Vc tem MSN?”, essas coisas. Como moramos em cidades distantes, o contato é raro. Fiquei toda feliz por reencontrar aquela gracinha de menina – que, infelizmente, e para desgosto da madrinha escritora, usa uma ortografia que beira o indecifrável (axim escritu comu nem sei imitar direito!), mas isso hoje não vem ao caso.

Vamos ao que vem ao caso – sério.

Quando fui acessar o perfil dela no Orkut, havia embaixo alguns “depoimentos” (em geral, elogios que os amigos escrevem sobre a gente, e que servem para fazer uma espécie de média - terceirizada, o que só agrega valor! – com os possíveis visitantes). Num desses depoimentos, encontrei uma coisa que me chamou a atenção: a amiguinha em questão se apresenta no Orkut com uma foto onde aparece só enrolada numa toalha. A menina tem 12 anos. Olhei de perto, e era isso mesmo. Não aparece nada além de um pedaço da toalha, os ombros, o rosto infantil e o cabelo molhado.

Aquilo me deixou espantada. Como não tenho nenhuma amiga de 12 anos, não costumo visitar perfis dessa faixa etária no Orkut. Não sei dizer, portanto, se é comum as meninas tirarem esse tipo de foto e colocarem à disposição do mundo virtual.

Não sei dizer, também, o que os pais e as mães (reais) dessas meninas pensam disso. Se é que sabem que as filhas exibem seus colos nus, rostos infantis e cabelos molhados na rede.

Para mim, já era bastante desconcertante ver aquela menininha, enrolada na toalha, fazendo cara de sensual para a câmera. Cliquei nela. Curiosidade mesmo. Quis ver o sobrenome, a origem, se havia pai ou mãe no perfil, enfim, acho que eu queria mesmo era ver a assinatura do pai ou responsável. Claro que não havia nada disso. Mas havia coisa bem pior.

Na página de recados dela, tinha lá um sujeito adulto, certamente com mais de 30 anos, que dizia: “Não sei... posso ser, quem sabe, seu novo amigo...”.

Achei o tom daquele recado muito esquisito, e fui clicar no perfil do cara. Não deu outra. Na página de recados dele, várias (e ponha várias nisso!) meninas aparecem perguntando: “Desculpe, eu conheço você?”.

Para quem não é familiarizado ao Orkut talvez isso não esteja muito claro, então eu explico: o sujeito visita muitas meninas menores de idade e manda recados “puxando um papo”.

Quem cair na rede, caiu.

Voltei à página de recados da menina de toalha e fui pesquisar qual havia sido o primeiro recado dele a ela. Como teria iniciado o papo?

Não apareceu nada. No Orkut, a pessoa que envia um recado pode perfeitamente apagá-lo quando bem entender. Ele deve apagar todos.

Eu sei que vocês estão pensando em pedofilia. Mas eu não estou (não só nisso).

Estou é pensando no Dia das Mães. E no Dia dos Pais, e no Dia dos Avós. E no dia em que alguém vai ensinar à amiga da minha afilhada noções básicas de valor, comportamento e perigo - sem temer ser rejeitado pela adolescente, ser taxado de “careta” ou “corta-barato”. Alguém que não queira ser mais um amiguinho “qui escreve axim”. Porque aquela menina, que mal tem peito para segurar a toalha enrolada ao corpo, certamente está enchendo a cabeça de abobrinhas que poderão lhe custar mais caro do que ela tem discernimento e maturidade para imaginar hoje.

E, àqueles que têm discernimento e maturidade, eu pergunto: cadê peito para ensinar???

05 maio 2006

Salão de beleza

A moça grávida contava que, ontem, quase morreu de desejo por uma sopa de cenoura.

- Não adianta dizer que é mito. A vontade que a gente tem não é igual, sabe? É exagerada mesmo. Eu ficava aguando, desesperada pela sopa!

A mulher era uma simpatia, todo mundo ficou ouvindo as histórias de grávida e adorando. Dali a pouco, gemeu e reclamou de azia. A mulherada ficou sensibilizada, mas ela nem se abalou:

- Não façam essa cara de pena, não. Essa azia não é do bebê. É da carne seca com cebola que eu acabei de comer, nossa como eu comi! E depois ainda tracei um bolo de aipim com coco que estava uma delícia! Vou tomar um Luftal e logo passa. Esquenta não.

Aaahh, bom.

***

Outro assunto que imperava era a plástica.

Chegou uma mulher de uns 40 e poucos, loira, cara de inteligente (ora, óculos de séria), e com um decote que exibia um contorno meio suspeito. Primeiro achei que era preconceito meu, quis pensar noutra coisa. Mas não conseguia, aquelas duas bolotas saltando pelo colo da mulher, sabe como é, a gente quer ser delicada, mas a curiosidade.

Vou fazer o quê? Ler a Caras?

Graças a Deus ela encontrou uma amiga, e as duas começaram a falar. A amiga era gordinha (gordinha é gentileza, tá?), mal cumprimentou a outra e foi logo dizendo:

- Eu já avisei meu marido: vá se preparando! Daqui a dois ou três meses eu vou entrar de novo.

(Fiquei pensando: entrar? Onde?)

- É, minha filha, vou entrar na faca!

(Jesus...)

- Quando fiz a primeira, ele me chamava de maluca. Mas pagou, né. Tem que pagar, é o que eu digo: você também usufrui, nego! Tem que comparecer. E ele comparece mesmo, tadinho, nem estou reclamando... Agora quero colocar silicone, porque da outra vez eu não coloquei, só diminuí e subi um pouco. Tola. Está certo que não cai nada, quando eu tiro o sutiã fica tudo no lugar, não despenca e tal. Mas eu sinto falta desse seu desenho do colo, sabe? (E fazia as bolotas da outra com as mãos dela, cá em cima).

- Sei, isso aqui (cá em cima) só com silicone mesmo. Minha médica disse. Tem jeito, não.

Lá do outro lado, uma manicure pedia uma pausa à cliente.

- Preciso tomar meu Dorflex. Menina, tô à base de Dorflex, desde que fiz a manutenção.

- Que manutenção?

- Da minha cabeça. Aliás, do cabelo. Implante!

- E dói?

- Dói um absuuuurdo!

Perua de cabelo cor de telha, até agora calada, abriu a boca para censurar:

- Você é doida! Fazer implante, depois ficar com a cabeça dolorida! Tá maluca!!!

- Ué! Estavam falando até agora de plástica! Pois essa aqui é a plástica que eu posso, tá???

Ficaram todas quietinhas.

04 maio 2006

Péssima hora

Essa greve de fome do Garotinho até teria graça (o cara é gordo, e tal), mas numa hora dessas...

Francamente, não tem a menor.

03 maio 2006

FOTO é apelido!

Quando eu fui chamada para escrever uma coluna para a revista Época, um dia ela me ligou:

- Alô, aqui é a Mirian, estou ligando para marcarmos a foto.

Na primeira frase, identificamos o sotaque uma da outra. Mas continuamos marcando a data e o local da foto - que serviria para me apresentar aos leitores. Até que uma de nós (não lembro qual) disse:

- Vem cá, tu é gaúcha de onde??

Caímos na risada. É muito bom encontrar conterrâneos longe dos pampas.

Mirian Fichtner, a gaúcha em questão, já mora no Rio há pelo menos 20 anos (se bem me lembro), é uma das fotógrafas mais brilhantes do Brasil, premiada internacionalmente, talentosíssima, perspicaz, sensível e dona de uma simpatia capaz de deixar qualquer ser fotografado à vontade. Aliás, acho que ela deixa à vontade até as pedras da calçada - que vão, gentilmente, lhe servir de cenário.

Vocês podem dizer se estou exagerando – pois a Mirian acaba de lançar o seu e-book fotográfico. Quem quiser ver o escândalo (no bom sentido) que essa mulher produz, clique aqui.

Ah, e cuidado com o relâmpago!

02 maio 2006

Crash! – No Limite

Finalmente eu assisti ao vencedor do Oscar de melhor filme. “Crash – No Limite” não tem nada de mais, e é simplesmente bom demais. O melhor que eu vi nos últimos tempos.

Não sei como bateu (sem trocadilho!) em vocês, mas, para mim, o filme não fala de raças, tampouco de violência – duas questões centrais que permeiam o roteiro do início ao fim. Nada disso. Ele não está falando das coisas que grifa; está, sim, usando os grifos para falar de coisas que estão nas entrelinhas.

Crash é sobre as complexidades humanas. E esse assunto - que é tão delicado - é belamente tratado por contraste: com a violência das cenas chocantes, muitíssimo bem dirigidas, interpretadas por atores em momentos raros, com paixão, com comoção, com fúria, com intensidade, com exagero (sim!), com inverossimilhança (sim! É cinema!!), com todos os termos ditos – que, no fim das contas, servem para nos conduzir aos indizíveis.

Para não ser apenas uma desconcertante obra das entrelinhas, Crash também é bom de linhas: traz um roteiro impecável, bem amarrado, que lida com ironia e faz o que poucos têm feito ultimamente – conta histórias. Sem frescuras. Pá-pum. Recomendo.


Fuxiqueira, eeeeeeu?

Levei um baita susto ao entrar no Orkut. Dizia lá: “veja quem visualizou o seu perfil recentemente: fulano, fulano, fulano, fulano e fulano.”

??

Ou seja, o Google criou uma ferramenta que permite a identificação da fuxicagem.

Sim. Qual o nexo?

Tô fora. Não quero nem saber o nome dos fulanos que me visitam, tampouco desejo que os meus fuxicados saibam que eu andei bisbilhotando a vida deles. Eu, hein? Troço mais antiético!

Fuxico é fuxico; tem que ser pelo buraquinho da fechadura, ou deixa de ser fuxico.

Fui lá e desabilitei o (des)serviço. Pelo menos eles dão esta opção: você aperta num botão, e tudo volta a ser como antes.
...

Mentira, vai. Todo mundo quer saber quem anda visitando o seu perfil. Mas não quer ser identificado quando visita o dos outros. (No Orkut dos outros, você sabe...).

Como o serviço só permite que você flagre o visitante se também se colocar na reta, o negócio é escolher: ou mantém a privacidade (mas também não mata a curiosidade), ou sai logo da moita (e fica sabendo quem teve interesse em fuxicar na sua vida).

Óóó, dúvida relevante.

Claro que eu escolhi ficar na moita, como me convém. Sou uma curiosa confessa - mas assim, no genérico. Não me leve para o lado pessoal, que eu negarei até a morte. Hoho.

28 abril 2006

Telas

Tinha lá um caminhão com um escrito enorme:

“Telas Santo Antônio. Há 20 anos cercando com qualidade.”

Tem a ver... Santo Antônio. Casamento. Cerca.
Hoho.

(Duas coisas a que não resisto: torta de limão e piadinha infame. Sorry.)


Ai, Jesus

Tem um cara (aquele) gritando na pracinha aqui em frente. Toda sexta-feira ele estaciona o seu carrão ali e fica pregando em nome de Jesus. Neste momento, está berrando:

EU VIM TRAZER CONFORTO A VOCÊS! CON-FOR-TO!!! EU SEI QUE VOCÊS TÊM MEDO NO CORAÇÃO, É POR ISSO QUE EU VENHO TRAZER CON-FOR-TO!!!

Tá, eu não tinha medo algum. Agora estou com medo é dele.


Coletar I

A lavanderia me mandou um e-mail com promoção, e termina assim: “coletamos e entregamos de graça”. Dá pra entender, mas, sinceramente, não consigo achar adequado esse verbo coletar. E estão usando muito. Todo mundo coleta e entrega em domicílio, cada vez mais.

O problema é que esse negócio de coletar me lembra exame de laboratório. Você sabe, cocô, etc. Não consigo deixar de associar.

Por que é que não usam “buscamos”, “apanhamos”, “retiramos”? Tem que coletar?

Não consigo imaginar a lavanderia coletando o meu edredom, não há jeito. Sou capaz de levar lá, só para não ter ninguém coletando aqui na minha casa. Ora, vão coletar noutras bandas!


Coletar II

Falar nisso: por que é que ninguém vem coletar (agora sim!) esse sujeito aí da praça, hein?

Eu pago, eu pago!!

26 abril 2006

Não há vagas não há vagas não há vagas


Agora, para renovar a carteira de habilitação, temos que fazer a tal prova de atualização do DETRAN. Cadê que eu consigo marcar a tal prova?

Simplesmente não há vagas. Nunca.

Eu disse nunca!


Perua

A perua é o único ser vivente que só sabe fazer uma cara: cara de perua.

Pois a perua (a madama, não o carro) estacionou na contramão, e na contramão quis sair daquela rua estreita como seu senso de civilidade. Eu vinha de uma avenida maior, dei o sinal e virei. Perua imóvel no meio da rua. Assim permaneceu. Parei também.

Fiz uma cara de paciente.

A perua fez cara de perua, e ali ficou.

Fiz outra cara, achei graça.

A perua fez a mesma cara outra vez.

Fiz ainda uma terceira cara – agora, irritada!

Perua não alterava o semblante, tampouco fazia menção de se mexer, manobrar, corrigir, dar meia volta, pedir desculpas, só agora eu vi a placa, foi péssimo, estou atrasada, meu marido me espera, sei lá, dar uma escusa qualquer, sorrir amarelo, levantar o polegar, nada.

Em vez disso, levantou uma só sobrancelha. E fez aquela cara de perua aguda com sobrancelha circunflexa.

Não sou de fazer isso, mas levei o dedo na buzina, e não adiantou foi nada. Tive, sim senhores, de me recolher à ingrata condição de reles integrante da classe média – aquela que sempre paga o pato, pois é isto que sou: nem tão moça, nem tão velha; nem tão rica, nem tão pobre; nem tão gorda, nem tão magra; nem tão feliz, nem tão triste; nem tão lá, nem tão cá, o que é que me resta? Recuar.

Recuei e pus minha bunda a perigo (digo: a bunda do meu carro, claro), empacada no meio de uma avenida movimentada, a esperar que a perua ruim de braço desembestasse e fosse levar sua falta de talento a passear noutras bandas. Ela e sua sobrancelha - que já era quase um Y.

Saiu, com aquela mesma cara de perua, e pude seguir meu destino em paz.

Perguntinha ilustrativa: qual era a 'marca' do cachorrinho dela?

21 abril 2006

Budapeste

É daqueles livros que você não lê rindo, mas sempre mantém uma curvinha nos lábios. Porque o texto flui com ironia e graça - e 90% da graça está na ameaça de rir, né? Adoro isso. Quando você pensa que vai, enfim, despencar no alívio de uma gargalhada sonora, ele dá o inesperado: põe lirismo no final do parágrafo, puxando lindamente o tapete do leitor. Leva-se um belo tombo - que é o primeiro passo do próximo vôo, e a gente embarca sem nem conferir o assento.

Salve Chico Buarque!


Contém GLÚTEN

Você viu essa do glúten?

O que é: uma proteína presente no trigo, aveia, centeio, cevada e malte.

O que causa: o excesso de glúten pode provocar (lá vai) gases, dores articulares, dores de cabeça e aumento no volume abdominal. Segundo especialistas, a substância forma uma espécie de “cola” que acaba estagnando as funções intestinais e minando o sistema imunológico. Daí vêm alergias de pele, artrites e doenças auto-imunes. Por dificultar a absorção normal de serotonina, pode acabar causando depressão. Como costuma vir aliado ao açúcar (que “rouba” o cálcio do organismo), aumenta o risco de osteoporose, ranger dos dentes, insônia, cáries e colesterol alto.

Como evitar: parece que o perigo maior está no abuso do trigo na alimentação. A sugestão é consumirmos, em vez dele, produtos derivados do aipim, milho, fubá e arroz. Além de, é claro, frutas e saladas.

Em sites destinados aos portadores da doença celíaca (intolerância ao glúten), é possível encontrar listas de produtos livres da substância.

--

- Você viu essa onda anti-glúten? Sabia que faz tanto mal assim?
- Eu não. Vou tomar uma providência!
- Banir o glúten?
- Não. Esperar até que eles descubram que ele faz bem.

20 abril 2006

Chico

Esse Globo Online deu uma reformulada total e está muito chique. Veja lá um teaser da entrevista com o Chico Buarque, que eles fizeram para a Revista de Domingo e vai ao ar, no site, a partir de segunda-feira.


Sai da linha

Quebraram o sigilo telefônico da mansão do Lago Sul. Ui.


Dá em nada

Lá vem mais um depoimento com habeas – agora, do compadre do Lula. O sujeito pode não responder o que bem entender.

Já sabemos no que isso dá: em habeas com açúcar.

19 abril 2006

Dois de paus


Adoro caminhar na praia nessa época do ano. Sol mais ameno, cores mais vivas. Casais namorando. Poucos. E hoje eu vi dois salva-vidas, concentradíssimos.

Jogando cartas.

14 abril 2006

Papo de mãe


Minha mãe contando estórias. Patati, patatá, quando nós nos casamos, quando fomos morar em Pelotas, etc etc.

"Aí, quando vocês começaram a nascer..."

Somos só meu irmão e eu. Sente o drama: "quando vocês começaram a nascer". E ela logo se tocou, começou a rir.

"Sim! Sim! Porque era uma lou-cu-ra! Vocês nasciam, em seguida nasciam de novo, e outra vez, e iam nascendo, meu Deus, como vocês nasciam naquela época! Tinha que ver, minha filha."

Que pena, essa parte eu perdi.


Viciados em IBOPE

- Lembra, querido, aquele atum que eu comi no restaurante francês...
- Não era atum. Era salmão.
- Atum, lógico!
- Salmão! Lembro, porque eu até provei!
- Você está enganado. Salmão foi no japonês.
- Rá! Imagina se eu ia confundir francês com japonês. Me respeita!
- Sinto muito, mas era atum.
- Pensa bem...
- Não precisa. Estou vendo o atum na minha frente!
- Salmão!
- Atum! Atum! Atum!
- Salmãããããooo!

Silêncio.

- Olha. Tenho 49% de certeza que era atum.
- HA HA HA! 49% de certeza? Essa é boa! Significa que você tem 51% de dúvida! Então tem mais dúvida do que certeza! Ou seja: certeza nenhuma! HA HA!
- Não, senhor. É que, de tanto você falar em salmão, confesso que fiquei confusa. Mas continuo tendo mais certeza do atum. 49% de certeza. E somente 40% de dúvida.
- Ué! E os outros 11%???
- NÃO SOUBERAM OU NÃO QUISERAM OPINAR.

13 abril 2006

Jack Johnson

Aqui no Rio, está rolando uma gripe horrorosa que deixa todo mundo com muito sono e dor de cabeça. Maldade: estão chamando de “gripe Jack Johnson”...


Dona Micose, quem diria

- Alô, é da farmácia? Eu gostaria de pedir um esmalte, por favor. Chama-se XXX.
- Sim, senhora. São R$ 100,00.
- Hehe. Cem reais por um esmalte?
- É isso mesmo, senhora. É que é para micose.

Eeeeeu, hein? Dona Micose está com um prestígio filho da...! Quisera eu.

07 abril 2006

Beije!


Digitando rapidinho, escondida de mim mesma – não devia, tendinite na mão esquerda. Dói. Mas essa é muito boa...

Vizinho vende uma lista de coisas (deixou um papel aqui debaixo da minha porta).

Entre elas: “Vendo tapete. Pouco uso. Medidas xx X xx. Cor predominante: beije.”

Isso mesmo. Beije!

É o corretor ortográfico do Word, na certa, ajudando os não-praticantes da nossa língua escrita a praticar traquinagens literárias. Vizinho queria escrever “bege”, mas escreveu com jota. "Beje"? Não dá outra: o corretor sugere “beije”.

E ele, na dúvida, beija mesmo.
Hihi.

05 abril 2006

Mais uma do cacet(inho)

Ainda vou escrever um livro – ou, pelo menos, um capítulo – sobre os micos que paguei na vida por causa do cacetinho. Você sabe: cacetinho é como nós, gaúchos, chamamos o pão francês.


CENA
Recreio dos Bandeirantes - Rio

Minha mãe e eu, cansadas, às 10h da noite, vamos ao supermercado. Começo a procurar a marca do pão de forma light que eu gosto, mas não encontro.

Minha mãe, paciente, espera. Olha para os lados. Distrai-se com os iogurtes.

- Tão caros...

Continuo procurando, e nada. Minha mãe - cuja paciência é ponto forte, mas não se pode querer milagre! – resolve ajudar. Lá dos iogurtes, enche os pulmões de ar e brada:

- FILHAAAAA!!! SE NÃO TEM A MARCA QUE TU GOSTAS, NÃO QUERES LEVAR UM CACETINHO???

Ecos no supermercado: “cacetinho... inho... inho...”

A filha aqui, em vez de se tocar logo da gafe cometida, reflete dois segundos e pondera (em voz bem alta, claro):

- POIS É... O PROBLEMA DO CACETINHO É QUE AMANHÃ ELE JÁ NÃO ESTARÁ TÃO BOM!

Um senhorzinho passa e estoura um riso breve, nervoso. Decerto pensou no triste envelhecimento do cacetinho.

“Desculpe, senhor. Não é nada pessoal. Muito pelo contrário. O seu, amanhã, é capaz de estar até...”

Melhor não dizer nada.

04 abril 2006

Sesta

Dia lindo, café, jornal, almoço em família, risadas, planos, supermercado, contas, word, google, pilates, caminhada na praia, banho, word, google, correspondência, word, google, google, telefone, word, word, google, google, jornal nacional, crise, eleições, blogs, google, google, google.

Se não existisse o google, daria tempo até... sei lá, de fazer a sesta!

31 março 2006

Lei de Murphy

"Há dois tipos de esparadrapo: o que não gruda e o que não sai."

Hoho.


Agora essa

A tal modelo Naomi Campbell, arroz-de-festa aqui no Brasil, deu porradas (usando um aparelho de telefone) na sua empregada, em Nova York, e poderá pegar até sete anos de prisão. Consta que, há seis anos, Naomi já tinha utilizado a mesma arma (o telefone) para dar na cabeça de uma secretária.

E, para completar o mico do dia: a fofa da maneca não aparece nas fotos com um boné escrito BRASIL??

Como se não fôssemos suficientemente bons em produzir nossos próprios fiascos... Carecia de ajuda externa, não.

30 março 2006

Túnel do tempo

Este blog está entrando na puberdade. Cinco anos, para um blog (ou para um dog?) é post para dedéu!

Meu blog e eu temos latido muito. Para não dizer que ladramos – mas não mordemos -, confira aqui trechos de marços passados:


MARÇO/2003


Buenas, macacada! Cá estou de volta, medicada, recuperada, equilibrada, equalizada, normalizada, mixada e masterizada. Perdoem meu vocabulário fonográfico; é que me sinto, uma vez recauchutada, mais próxima aos prazeres (musicais) da vida.

Por outro lado – o de cima? -, chove que Deus manda aqui na cidade maravilhosa. Falta muito pouco para que a pracinha aqui em frente se transforme num modesto parque aquático, coisa que me daria muito gosto, aliás, pois há tempo venho medindo o tamanho daqueles balanços com minha utilíssima capacidade de abstração espacial, e, não raro, chego à mesma enfadonha – porém honesta - conclusão de sempre: ou diminuo a bunda, ou alguém aumenta o balanço. Caso contrário, minha possibilidade de lazer se mantém zerada.

E não é justo, pois pago os impostos.

***

OLHA O PASSARINHO

Hoje eu vi um passarinho que era o passarinho mais lindo do mundo. E não era verde.
Era um bichinho pequeno, talvez pouco maior que um beija-flor - não que eu entenda de pássaros, mas imagino. Branco e preto, design perfeito, bico delicado, asinhas apressadas, vôo preciso, pouso certeiro. Uma poesia de ave, eu diria. Com métrica e tudo.

Eu vinha andando pela rua, entretida com cálculos mentais de vencimentos, juros e dívidas, quando aquela preciosidade cruzou meu caminho. E estacionou sua beleza incalculável numa folha comprida que se deitava pela calçada.

“Olha o passarinho” – pensei, mudando de assunto com meus botões financeiros. “Olha o passarinho”, repeti a eles.

Minha testa finalmente soltou um pouquinho a ruga do meio, mas nem durou muito. Logo aquele versinho alado alçou vôo rumo a outra endividada qualquer, decerto para lhe dar o mesmo recado que deu a mim.
Que a beleza existe para quem está disposto a dispensar, por uns segundos, os seus próprios botões e umbigos.

***

SONHAR COM O CAVALO

Noite dessas eu sonhei que tinha um cavalo. Fiquei pensando.
Sonhar com o cavalo.
Seria porque cansei de sonhar com o príncipe?
Espaço

Cheguei em casa bem a tempo de ver o foguete subir. Deu frrrrrriio na barriga!


Tempo

- Tô velha.
- Quê?
- Tô velha. Não tem mais jeito. Hoje eu percebi.
- E por quê?
- Já estão me chamando de senhora até pelo telefone!


Vistoria

Uma amiga foi à academia (primeiro dia). Voltou, é claro, arrasada.

- Aquela vistoria que fazem na gente é um afronto!!

- É avaliação...

- Avaliação??? Só se for em você. Em mim, ninguém fez avaliação nenhuma. Fizeram inspeção. Vistoria. Acharam defeito em tudo! Cheguei lá ótima. Saí 15 anos mais velha, com dores nas costas e um diagnóstico de sair procurando rampinha para ver se vou poder passar com a cadeira de rodas - que não tarda, isso é certo.

- O que foi que a mulher disse, afinal?

- Mulher? Que mulher? Aquela muralha de piercing no umbigo? Vem cá, que barriga era aquela? Quem é o arquiteto que aprova um projeto daqueles?

- Se você malhar como ela, é capaz de ficar igual...

- Deus me livre e guarde! Lá eu não volto. Depois da vistoria, nem pensar. E o pior de tudo é a falta de sigilo. Pois aquela muralha loira não se vira e diz, em alto e bom som, o relato completo da minha situação? Assim, para quem quisesse ouvir:

VOCÊ TEM OS OMBROS UM POUCO CURVADOS PARA FRENTE. ALÉM DISSO, O ESQUERDO ESTÁ UM POUCO MAIS ALTO QUE O DIREITO (e fazia os gestos, como um fantoche desengonçado). TEM UMA LORDOSE ACENTUADA, ESCOLIOSE LEVE, E OS JOELHOS SÃO VIRADOS PARA DENTRO (gesto! gesto!), O QUE FAZ COM QUE AS PERNAS ESTEJAM UM POUCO TORTAS (gesto!!!), PREJUDICANDO A PISADA E COMPROMETENDO A ESTRUTURA.

MAS, NO TODO, ESTÁ MUITO BEM.

- Ok. Só tenho uma perguntinha: QUEM É O TODO, Ô ¨&#!@$%!???!!!!!

24 março 2006

Passa ou não passa?


A rua era estreita. Está bem, nem tanto. Meio estreita. Estreitinha, vai. Eu vinha dirigindo, tranqüila, quando encontrei dois carros estacionados: um de cada lado da rua.

Quem disse que eu passava?

Fiquei ali, parada. Mirei bem, concluí que não dava. Vou arranhar um deles - no mínimo. E o meu. Não dava mesmo. Gente estúpida, estacionar em lugar proibido! Tomara que não apareça ninguém atrás de mim.

“BIIIP BIIIIIIIIIIP!!!”

Foi só pensar, que apareceu um sem-mãe querendo passar. E outro atrás dele. E outro. Eu, empacada.

“BIIIIP! BIIIIP! BIIIIIIP!”

Era uma orquestra, maestro! Regida pela minha placa traseira, imóvel, bem no meio da rua. Cristo! O que eu faço agora???

Dei uma avançadinha, e suspendi o coro. Ficaram todos em silêncio, de repente. Rufaram os tambores. Calculei o carro que sairia mais barato estragar, e me arrastei na direção dele. É nesse que eu vou. Se der m*, descasco o Gol. Raspo na trave!

Nessa altura, nenhum pedestre gentil aparecia para me dar uma força. Engraçado como os pedestres se escondem justo na hora em que mais precisamos deles. Rezei por um flanelinha. Nada.

Azar do goleiro – pensei -, vou me enfiar aqui de qualquer meio jeito. Se não houver meio jeito, um quarto de jeito já me serve. Importante é passar. Tem que passar. Tem que passar. Tem que pass...

- Eeeeeei, dona!!!

Benzadeus! Um porteiro saía da toca.

- Seu Geraldo vai puxar o Gol agorinha. Aí não passa, não!

Rá. Eu disse que não passava.

23 março 2006

Rio

Esclarecendo: tô em Buenos Aires, não. Estou no Rio mesmo. E faz calor.
:o)

As fotos que estão aí embaixo foram tiradas há um ano, quando estive lá. Não são ótimas?
---

Conta outra

Então a Caixa Econômica poderia descobrir em poucos minutos quem foi o autor da quebra de sigilo do caseiro Francenildo, mas pediu à CPI o arrastado prazo de 15 dias? Hum.

Engraçado como o jornal vem recheado de novidades que já estamos carecas de saber.

22 março 2006

Buenos Aires








21 março 2006

Tem escolha?

Eu tomava meu tradicional cafezinho, depois de ter feito as compras no supermercado, quando ouvi a seguinte pérola de um homem na fila do caixa:

- Não posso viver sem carro. Sem carro não dá. Me deixe sem mulher, mas não me deixe sem carro!

Olhei bem para a carinha dele...
Teria mesmo escolha?


Arrependidos

Comprou uma coisa e se arrependeu? Ficou p*** com os serviços prestados a você, cliente, que supostamente precisaria ser atendido – e não ficar ouvindo musiquinhas e gerúndios intermináveis?

Reclame aqui.


PS: Só não vale pôr o cônjuge. Em caso de casamento que azeda, todos sabem, a reclamação é direto com o Papa.


Ligeiramente virgem

Não é meio estranho um filme se intitular “Meu primeiro amor 2”???
Como dizia meu saudoso tio-avô: algos há...
E sempre havia mesmo.


Piadinha muito boa

An american said:
"We have George Bush, Stevie Wonder, Bob Hope, and Johnny Cash."

A Brazilian said:
"We have Lula da Silva, no wonder, no hope, and no cash."

17 março 2006

Delivery de Deus



Só vendo para crer.

O maluco aí da foto está, pela terceira sexta-feira consecutiva, plantado na pracinha que tem aqui em frente. Ele chega, abre o porta-malas do carrão, saca um microfone e começa a falar de Deus. Claro, com fundo musical adequado (?).

Diz que não pertence a nenhuma igreja, mas que veio “trazer Deus”.

Era o que nos faltava, ou não era? Tele-entrega de Deus. Resta saber quem foi o engraçadinho que fez o pedido.

Mas, falando sério. Essas pessoas que falam em nome de Deus só contribuem para a desmoralização do Cara. Aliás, eu já resolvi: não me dirijo mais a elas. Não é preconceito, não. É uma questão de gentileza. Se elas vivem falando com Deus, que Deus isso, Deus aquilo (uma intimidade!!), não sou eu quem vai interromper a conversa.

Todas as sextas-feiras, agora, sou obrigada a almoçar com uma barulhenta pregação nos meus ouvidos, porque um ambulante de Deus resolveu fazer a feira na minha praça.

Sei não, mas acho que Jesus deve estar indignado: estão pirateando a Palavra.

16 março 2006

Gaúcha

Sábado vai fazer oito anos que eu moro no Rio.

Quando dizem "ah, mas então você já está carioca!" - claro, fico furiosa. Adoro os cariocas (cariocas são alegres, cariocas são atentos, cariocas são tão sexys), mas sou e sempre serei gaúcha de nascimento e coração.

Não se preocupe, não vou engatar agora um discurso tradicionalista, tchê! Hoho.

Mas uma coisa é verdade: quando ouço alguma palavra que termina em "sul" (nome de empresa, condomínio, companhia, o raio que for), dou um suspiro satisfeito e já me sinto em casa.

Deus queira que eu não tenha um filho tão cedo. Pobrezinho ia sofrer com os apelidos.

15 março 2006

Sites confusos


Francamente: a internet já não está meio crescidinha para ficar brincando de Onde Está o Wally???

Sites confusos deveriam ir para o diabo que os carregasse – lá, sim, desfrutariam da eternidade que merecem, porque nem mesmo o diabo se encarregaria de carregá-los por completo, acredito. Ficariam, ad eternum:

“Carregando...”
“Carregando...”
“Carregando...”

Muito bem feito. Não se faz isso com o vivente apressado que precisa dar (informação) de comer ao seu afoito mouse. Esconder, camuflar, enfiar nas entrelinhas virtuais o que era para ser destaque real. Bolinhas coloridas. Lantejoulas, musiquinhas, POP UPS!

Ditado velho que acaba de ganhar upgrade: não faça na web aquilo que você não gostaria que fizessem com você na vida real!

Imagine a cena. Você pede uma torta de maçã de sobremesa. O garçom vem, todo sorridente, e põe uma bacia cheia de farinha na sua mesa.

- Cadê a minha torta de maçã??
- Caaaalma! Primeiro, vou cantar uma musiquinha!

Aí ele demora, porque está carregando a musiquinha na cabeça. E começa a cantar.

- Trá-lá-lá...
- Garçom! Ei! Eu só queria uma torta de maçã!
- Trá-lá-lá...

Engasga. Você pensa que ele travou. Mas ele continua.

- Trá-lá-lá...
- Acabou?
- Sim! Agradecemos pela sua visita!
- Tá, e a torta?
- Está vendo essa bacia de farinha na sua frente? He he! Você vai ter de achar a maçã com a boca!!
- Tá doido???
- Não sem antes, é claro, preencher o cadastro, responder à nossa enquete da semana, indicar o restaurante a um amigo...

É de matar, né?
Eleições


Eu ainda não acreditei que o PSDB desistiu do Serra (aliás, o inverso!) para colocar Geraldo Alckmin no páreo contra Lula. Choquei.

Pode ter sido instinto de autopreservação de Serra - alguns dizem -, ou esperteza mesmo (perder São Paulo e ficar chupando o dedo no caso de dar Lula II?). A Alckmin, ninguém pode dizer que faltou persistência.

Muito bem, o PSDB chega a um consenso, ainda que não se saiba exatamente até que ponto vai haver coesão dentro do partido em relação à própria candidatura de Alckmin.

Eu acho é uma coisa: perigosos esses jogos tucanos, muito perigosos. Pense comigo. Até outubro, muita água pode rolar. E se estourar mais uma bomba desmoralizante no PT? E se, dessa vez, Lula sair chamuscado?

Povo vai cair de boca no primeiro salvacionista que pintar. Deus nos livre de uma zebra, sobretudo daquela que fala em Seu nome.

--

Obs.: Não tenho partido político. Não sou tucana, não sou lulista, muito antes pelo contrário. Só estou de olho.

14 março 2006

Vamos fazer...


- Vamos fazer um blog? No caderno de economia do Globo diz que um cara ficou milionário nos EUA!
- Eu já tenho um blog. Vai fazer cinco anos.
- Hum... Então, já sei!
- Sabe??
- Sei. Vamos fazer outra coisa.
- Isso.

13 março 2006

Kramer X Kramer - lembra?


Passei a semana enfiada na web (com todo o respeito), pesquisando e fazendo um trabalho no clima "what's new?". Bom. No domingão, assisti ao filme "Kramer X Kramer", de 1979. Que, aliás, eu nunca tinha visto - apesar de saber que era um filmão imperdível, ganhou 5 Oscars, Dustin Hoffman, Meryl Streep, sem maiores comentários.

Filmaço.

A história eu resumo assim: pai (D. Hoffman) se vê obrigado a cuidar sozinho do filho de 7 anos, de uma hora para outra. Muda a vida e encara a briga.

A história não tem nada de excepcional - embora o assunto tenha dado pano para manga naquela época, conforme comentam os próprios atores nos extras do DVD -, mas as atuações são comoventes, brilhantes. O texto tem momentos ótimos, o filme é realmente bonito.


Mil e uma folhas


Chegamos, por acaso, à patisserie Kurt no Leblon. Das melhores do Rio - dizem as gulosas más línguas. Eu não conhecia, aliás, não conheço lojas de doces: julgo anti-ético. Pronto, soy contra.

Mas, assim, levada pela mão... a gente sofre, mas vai, né?

Logo na entrada, já não se tem muita saída. O lugar é pequeno, as mesas são pequenas e poucas, as vendedoras são baixinhas e sorriem curto... Não se escapa dos doces.

Decidimos dividir uma mil-folhas - 500 para cada um! -, e também a culpa. É muito bom ter alguém com quem dividir as 500 culpas.

"A gente nem exagerou, né?"

"É... foi bom, porque a gente comeu pouquinho..."

"Isso, isso... Assim que se faz, né?"

"É... Assim que se faz!"

Quando já estávamos quase auto-perdoados, um afagando a meia culpa do outro, saímos pela porta e demos de cara com uma academia ENORME do outro lado da rua. Moças malhavam. Homens suavam. Corriam. Bufavam. Emagreciam. Secavam.

Malditos desfolhados.

11 março 2006

Versos versus...

Não sei por que motivo os cantores (e as cantoras), cada vez mais, insistem em cantar coisas como “nou nou nou”, “tchu-ru-ru”, “néu réu réu” – e equivalentes. Tsc!, com tanta poesia bonita disponível...
Se beber...


Houve um acidente feio aqui no Recreio, dias atrás. Contam que o motorista ouviu atentamente as informações sobre o caminho de saída da praia – “na primeira ponte de madeira, vire à esquerda”. Só que, antes da ponte referida, havia uma para pedestres – também de madeira.

E ele foi nela.

Consta que estava alcoolizado. Pelo amor de Deus: se beber, não dirija.


Tempo

Quem, porventura, estiver ocioso: me empresta um ttttttempo aê?
Motivo: trabalho.

(Para namorar eu uso o meu mesmo, tá? Tô terceirizando o bofe, não. Xô!!)

07 março 2006

Se ele fosse eu (mas não é)


“Fui assistir a uma comédia recomendada por um blog aí, mas, francamente... tssss!”.

Francamente e tsssss significam que meu irmão não gostou, mas não gostou mesmo do filme do Daniel Filho – “Se eu fosse você” –, que eu recomendei aqui. Bom, acontece. Sempre. Sobretudo com gente que saiu da mesma barriga, hoho.


Oscar

Por falar nisso, assisti à cerimônia do Oscar, e achei tudo muito sem graça. Agora, você também reparou que as mulheres estão usando aqueles decotes(ões) com o colo nu? Digo, sem colar?

Dessa moda eu gostei muito. Valoriza o colo. Privilegia a forma feminina. E evita assalto. (Digo: se eu quisesse andar por aí com um colar su-pim-pa-mes-mo, teria de assaltar alguém.) Melhor assim.


Rapidinha


“Vou escrever rapidinho, que estou correndo”.

“Fala rápido, que estou no trânsito”.

“Ligeiro, que meu chefe tá chegando...”

Cá pra nós: a única coisa que vamos conseguir com essa correria desenfrada é criar uma sociedade absolutamente ruim de cama.

23 fevereiro 2006

Comédia – “Se eu fosse você”


É puro entretenimento. Tony Ramos e Glória Pires - que já não precisam provar coisa alguma a ninguém - dão show de atuação, ritmo, carisma. São donos do filme.

É de dobrar de rir. Eu, que adoro um cinema despretensioso e divertido-sem-compromisso, recomendo. Muito!

22 fevereiro 2006

Transgênico Vox

Se eu pudesse, separava só a Bona Voz do Bono Vox, mais um punhado de músicas que eles compuseram nos anos 80, e plantava de novo noutro vocalista, outra banda, sei lá. Porque esse sujeito que veio almoçar com o Lula e posar de estrela afetada no Morumbi, francamente. Blargh.


No táxi, em Salvador

- Aqui, doutor, passava o trio elétrico às 7h da manhã...
- Caramba! E tem gente para correr atrás do trio às 7h da matina???
- Ô, doutor, que pergunta! Pergunte se tem alguém para trabalhar... para lhe prestar um socorro na hora em que o senhor precisar... pergunte! Pergunte!!

Hoho, maldade...


No restaurante

- Garçom, por favor, de que é feito este bolinho?
- É... é doce. Coma, que é bom.

E era mesmo.

21 fevereiro 2006

E eu, que ainda não conhecia Salvador?


Sabem do que eu mais gostei? Salvador sorri com covinhas!

Explico: a orla da cidade é alegre como um riso – escancarado, solto, sensual, maroto, molhado e quente. Tudo é exposto; sujeitos, verbos e predicados dançam ao som de algum batuque que não se sabe direito identificar de onde vem, se é que vem mesmo. Mas o certo é que Salvador é estéreo, porque a gente ouve muito e o tempo todo.

Aí você parte para as ladeiras, onde a história se guarda nas construções, nos becos coloridos, nos furinhos das rendas, no silêncio das preces... enfim, nas doces sombras das covinhas de uma cidade que sorri suas carnes salgadas, suas curvas ousadas, sua alegria que embasbaca, deslumbra, comove, desconcerta, e até assusta um pouco, mas – sobretudo! – estimula a gente a sorrir também.

:o)

17 fevereiro 2006

Vista

Aqui na minha frente, em ordem de proximidade:

1. Parede de vidro
2. Homem lendo à beira da piscina
3. Avenida Beira-Mar
4. Coqueiros, coqueiros
5. O mar de Aracaju

Agora, as minhas conhecidas pílulas anti-inveja:

1. Aqui faz um calor DO CÃO. Às 7h da manhã, o termômetro marcava massacrantes 37 graus. Creia-me.
2. Nosso quarto fica praticamente à beira da piscina. Pois, ontem à noite, teve "festa" na piscina. Um sujeito empunhava uma guitarra desafinada e cantava "pois diga que irá, Irajá, Irajá" a noite toda. IRA: JÁ!!!
3. Não dormi quase nada. Se aparecer num jornal de Sergipe que um fantasma de longos cabelos, olheiras profundas e sotaque gaúcho rondava a cidade, já sabem.

Céus, vou ali beber uma coca light e já volto. Daqui a duas horas, vamos para Salvador. Na volta eu conto. Se não me derreter no meio do caminho, claro.

15 fevereiro 2006

Ficava imaginando


O táxi pára no sinal, escuto um “toc!” no capô. Motorista me olha pelo retrovisor:

- É frutinha.
- Hein?
- Frutinha. Cai sempre dessa árvore.
- Ahm...
- Todo santo dia. Impressionante.
- Sei.
- Fico imaginando se fosse uma jaca!
- Ô!
- A senhora não sabe. Na minha rua, quase em frente à minha casa, um inteligente plantou uma jaqueira.
- Que idéia!
- Pois é. O inteligente é assim, a senhora deve conhecer algum. Só tem idéia boa.
- Alguns...
- Então. Passa uma pessoa ali, já pensou se cai uma jaca na cabeça?
- Bah!
- Pior: fico imaginando se é com uma criança! Mata a coitadinha!!

Tudo que acontecia (ou que poderia acontecer) ele ficava imaginando pior, muito pior. Se era uma frutinha, imaginava jaca. Se era jaca, imaginava criança. Não me agüentei, disse:

- Mas a jaca nem caiu, e você já está imaginando uma criança morta!
- Não é isso, dona, é que pode acontecer...
- Tudo pode acontecer. Mas também pode não acontecer.
- Sim, mas já imaginou se acontece?
- Não! E nem quero imaginar!
- A senhora acha que chama??
- Sei lá se chama. Só acho que imaginar assim parece que a gente quer que aconteça.
- Não diz isso, moça! Eu sou de Jesus!!!

"Ainda bem! Já imaginou se fosse do diabo???"

Quase falei. Mas não disse mais nada, não. Fiquei com um medo danado da jaca...

13 fevereiro 2006

Feliz Ano Eleitoral


Graças a Deus, é ano eleitoral. Não sei se você também notou, mas o país não parou – como de praxe – entre o Natal e o carnaval. Seguimos direto.

As praças estão floridas, as ruas estão quase limpas, o trânsito está fluindo. A não ser quando chove, claro (também, já seria pedir demais!). De minha parte, entrei no clima. Estou, como se diz, correndo atrás do prejuízo. Mas não fica muito bem falar em prejuízo nesses tempos de campanha (ops!) – então, abafa aí.

E vamos ao que interessa, que o resto é mera perseguição da imprensa. Me prometo crescimento econômico, melhoria na habitação, mais recursos para educação e cultura. Vou baixar umas medidas, aprovar uns orçamentos, liberar verbas.

Vou reduzir os juros; mas, primeiro, vou aumentar as juras.

Todo mundo vai ver como eu sei jurar bonito e eterno. Juro, não nego, pago quando puder. Jurar não é de graça? Então, dá licença. Não estou roubando, não estou matando. Estou só jurando, me deixa aqui no meu cantinho.

Juro que esse ano enriqueço, juro que me compro um carrão zero, juro que me meto num daqueles tubos de estética e só saio de lá com o corpão da Ivete Sangalo. Juro que leio os clássicos duas vezes, juro que viajo meio mundo, aprendo cinco línguas, escrevo para dez jornais, publico três livros, lanço um disco só de sucessos, faço uma turnê pelo país de modo a não saber mais, de manhã cedo, em que lado da cama está o abajur.

Aliás, melhor jurando: juro não me acordar – e não me acordarem - de manhã cedo!

Juro de morte minha preguiça, minhas desculpas esfarrapadas para não aparar antigas arestas – que, de velhas, já se arredondam e me confundem o tato para detectá-las. Juro de vida minha astúcia, minha persistência, minha coragem.

Juro, na maior cara-de-pau, e juro mesmo; é ano eleitoral. É bom para brincar de Mulher Maravilha, faz um bem danado para o ego. Jurar em público é divertidíssimo!

Se eu fosse você, aproveitava e jurava também. Na pior das hipóteses, o material servirá à oposição no futuro.

Que belo exercício da democracia!!!

10 fevereiro 2006

1986 – o ano em que eu não conseguia ler Zoológico


Andávamos pela rua, quando minha mãe avistou uma placa enorme: “ZOOLÓGICO”. Resolveu brincar comigo:

- Filha, o que é que diz naquela placa?
- Que placa?
- Aquela, lá na frente!
- Ah... não sei.
- Claro que sabe! O que é que está escrito lá, minha filha, bem grande? ZOO...???
- Não sei. Não tenho a menor idéia. Não enxergo!

Levou-me ao oculista (naquela época, não se dizia oftalmo). Eu lia muito bem, mas não era capaz de enxergar “zoológico” a uma distância banal.

Então, conheci dois bichos novos: hipermetropia e astigmatismo. Duas palavras que eu nunca tinha lido antes, e que me pareciam horríveis. Tem cura?

- Uma delas tem. E a outra pode diminuir muito. É só usar os óculos direitinho.
- Precisa usar na aula?
- Claro!
- Até na educação física???
- Hum... não, na educação física pode tirar.

Escolhi a armação das vidraças – na base do “menos feio”, porque bonito não achava nada -, e passei a torcer para chegar logo a aula de educação física. Até entrei para o time de basquete do colégio. Jogava mal, é verdade. Será que era porque não enxergava a cestinha?

Não importa. Mesmo no banco, não precisava usar óculos. Mais do que as cestas, isso era o que me fazia feliz.

No resto das aulas, e fora delas, usei os óculos direitinho. Suportei os apelidos (desnecessário citá-los), a piedade das professoras, os primeiros namoros postergados. Ah, tirei o atraso na adolescência!

Apelidei todo mundo, quero dizer.


20 anos depois - a confissão

Livrei-me do primeiro bicho. Agora só tenho astigmatismo, mas aponto zoológicos a quilômetros (uau!), toda orgulhosa. Trato-me com o mesmo oculista, que hoje é oftalmologista e exibe as revistas com as minhas crônicas por aí: “Tá vendo? É minha paciente há 20 anos! Enxerga tudo!!”.

“NE”
“UFVP”
“CDOHRL”

Antes de fazer 30 anos, preciso confessar, senão morro de culpa: já decorei as letrinhas dele!!!

09 fevereiro 2006

08 fevereiro 2006

Só agora

Só agora eu voltei. Estive saracoteando por aí; minha vida deu uma gostosa bagunçada, estou aprendendo a dançar conforme a (boa, sempre boa) música.

(Nada a ver com carnaval, tá?)

Veio gente ótima para perto – enfim, seguiram-me os bons! -, estou animada com as novas parcerias.


Só agora - II

Cá entre nós, parece que o nosso presidente bebeu Red Bull e ganhou, só agora, um par de asas. Virou arroz de festa. Só dá ele - inaugurando, assinando, determinando, tapando os buracos que não tapou antes...

Hoje, no JN, enquanto anunciava o novo pacote bilionário de medidas para a construção civil, Lula disse que não podia ter feito antes porque as coisas no governo “ainda não estavam arrumadas”.

E agora... estão!?

25 janeiro 2006

Dois ótimos


"Revisar era assim: o camarada traduzia como a cara dele e eu emendava como a
minha."
Mário Quintana

"Tá bem, nós todos vivemos a perigo
mas meus males são piores
Acontecem comigo."
Millôr Fernandes
Periódico


Hoje o jornal está uma pancada atrás da outra; ou seja, a gente mal se levanta da cama e já toma as devidas bordoadas da realidade. Como diz um amigo: é a vida, filha.

Não. Vamos começar de novo.

Hoje o jornal está cheio de notícias horríveis – assaltos, assassinatos, traquinagens político-eleitoreiras etc. Ou seja: está muito difícil acordar, calçar os chinelinhos, pôr o café à mesa, e não se engasgar com a implacável tradução do mundo em letrinhas miúdas.

Outra tentativa (tenham paciência comigo).

Hoje o jornal está de lascar. Complicado levantar da cama, calçar as havaianas (com bandeirinha), pôr o café, e engolir (a seco) os relatos do dia. Aliás, que dia!

Última, última.

Hoje o jornal está tenebroso. Fico olhando para ele e pensando: pena que eu não tenho um gato.

20 janeiro 2006

Banda larga


É um vício. Se estou no computador e preciso ligar para a farmácia, procuro no Google – em vez de andar até o imã de geladeira.

(Você acha que eu vou morrer cedo?)

Trata-se de uma incongruência, mas é assim mesmo. Depois eu saio desvairada e vou fazer Pilates, caminhar no calçadão com a pressa das mulheres que precisam urgentemente manter a forma (ou seja: perder 3kg).

Essa banda larga é um perigo. Vai um chá diet?


São Sebastião

Hoje é feriado aqui no Rio - dia de São Sebastião, padroeiro da cidade. Tenho muita curiosidade sobre os santos, com todo respeito. Tal como os médicos, cada qual tem sua especialidade, e a gente deve buscar auxílio conforme o (como dizer?) setor da encrenca. Tudo muito organizado.

Pois consta que São Sebastião protege contra a fome, a peste e a guerra. Acho que os cariocas – e os inquilinos – devem se agarrar com afinco nas preces, hoje e sempre, porque a coisa aqui não está nada fácil.

Além disso, não sei se vocês sabem, mas São Sebastião também é considerado padroeiro dos homossexuais. A informação abaixo é de um site gay de MG:

“Os homossexuais veneram são Sebastião como protetor desde a idade Média. Na biografia do santo, consta que era o soldado preferido do Imperador Diocleciano, considerado pelos historiadores como um dos imperadores mais homossexuais de Roma.”

???

Cabe reflexão: como seriam, então, os imperadores MENOS homossexuais?

E os “mais ou menos”?

E, ainda, os ligeiramente? Os vagamente? Os dia-sim-dia-não?
...
Agora, o mais importante: a mãe deles sabia disso?

18 janeiro 2006

Recado


Tá assim de gente que manda “recadinhos” pelo blog.
Pois agora eu também vou mandar.

Deus: QUALÉ???
Nem só de pagode...

Atenção: meu vizinho agora está ouvindo Rush (YYZ). Uau!!!


Para trás?

Acabou o ano, acabou o calendário (do rádio-táxi, meu Deus!) que nós tínhamos aqui. Meu irmão não se abalou: tirou a folhinha de dezembro, e deixou por baixo a de janeiro. De 2005.

Tudo bem que a gente não gosta de envelhecer, mas... deve haver outros meios de se chegar melhor aos fins, hehe.


Urina

Hoje deu no jornal que a nossa querida praia do Recreio está impossível, veja só, por conta do extremo calor que assola o Rio. Antes eram as chuvas.

Ou seja: quando não é uma coisa, é outra.

A água do mar, dizem, anda geladérrima! - não se agüenta um mergulho.

Por outro lado, o tal “Cuca Fresca” (chuvisco que respingaria de dentro daquelas placas ENORMES da prefeitura) está seco, seco. E o chafariz que instalaram na Praia da Macumba (!!), alegria da criançada e única opção para o banhista se banhar, segundo consta, fede.

E fede muito, e fede a urina.

Um entrevistado afirma que pegou uma micose depois de ter se “lavado” ali, e que a água é reutilizada – imagina!

Ou seja: quando não é uma coisa, é outra. Na calçada é xixi. No mar... bom, o mar está gelado. (Se a prefeitura não sabe o que faz, Deus sabe. Hoho).

10 janeiro 2006

King Kong


Fui ver King Kong. Não sou a mais indicada para criticá-lo, porque não tenho saco para filmes com muita ação, mas esse foi dos piores que já assisti. Putz, que bomba!

Roteiro fraquíssimo, personagens insossos, desenvolvimento enfadonho. Pouco humor – não passa de meia-dúzia de piadas apenas razoáveis. Inspiração zero.

Quando quer ser delicado, vira piegas. Quando quer ser bruto, aí consegue (mas me dá um macaco daquele tamanho que eu também consigo).

Dois bons atores são sub-aproveitados: o primeiro é o Adrien Brody (ex-Pianista), que ficou achatado num personagem mocinho-meloso-sem-sal. O segundo é o bom comediante Jack Black (Escola de Rock), que virou uma caricatura meio lá, meio cá; tipo um traço sublinhando texto que não existe.

E não vou elogiar mais, tá?


Continua lindo

E as chuvas cessaram. E o Rio voltou a sorrir. E o dia esteve ensolarado. E vi o Cristo da janela da minha analista. E me analisei sob seu claro abraço. E minhas neuroses se sentiram acolhidas. E me inspirei, de fato. E passei duas vezes pelo aterro do Flamengo agradecendo aos céus. E vim até a Barra apreciando a paisagem.

E ainda almoçamos com um carioca que dizia: “o Rio Grande do Sul é uma coisa fantástica!!!!”.

Assim, cheio de exclamações.

Ou seja, o Rio de Janeiro continua lindo.


Mais Kong

Desculpe voltar ao assunto, é que me lembrei de uma cena que aconteceu na poltrona.
Menino de uns 10 anos assiste ao Mico Kong com a mãe. Lá pelas tantas, um personagem diz:

“Estou exausto!”

Menino lê a legenda e pergunta:

- Mãe, ele disse que está o quê?
- Exausto, meu filho.
- E o que é isso?

A mãe explica, e eu fico pensando.

(Vem cá, um piá de 10 anos já não deveria estar exausto de saber o que significa exausto???)

06 janeiro 2006

Você sabe quem é Bruna Surfistinha?


Eu também descobri há pouco. É uma garota de programa, aliás, é uma menina de uns 22 anos, que brigou com os pais e saiu de casa – acho que aos 17. E foi ser garota de programa.

Daí ela fez um blog onde contava os programas, e teve muitos acessos (o blog... E ela também, naturalmente!), e virou, mexeu, lançou um livro.

Nesta ordem: virou, mexeu e lançou. Um livro.

Que vendeu horrores!

Nessa altura do campeonato, a garota já tinha “se aposentado”. Conta que arrumou um namorado - ou namorido, sei lá -, um homem casado que começou como seu cliente, depois se apaixonou, e... enfim, praticamente um Richard Gere. Tirou a moça dessa vida, e foram felizes para sempre.

---
TÁ, E O QUÉCO?


Não sei o quéco tenho a ver com isso. Nem você, nem ninguém além dos diretamente envolvidos.

Mas o fato é que muita gente está comprando as memórias das putas tristes, do García Marquez (na lista dos mais vendidos há meses!), e também as memórias da Surfistinha alegre.

Entendo a avidez pela boa literatura, no primeiro caso. E entendo a curiosidade sobre as saliências (para ser discreta), no segundo. O resto é especulação pura, e para isso estamos aqui.

Especulo, portanto, que há uma espécie de “moda” de sexo liberal pairando no ar. Mais do que isso: é como se as meninas (e as mulheres) precisassem mostrar que também podem ser adeptas do sexo casual – não são presas às meiguices da emoção, não são mais tão apaixonáveis, e não ficam se derretendo pelos cantos ao soar de uma voz mais grave ao pé do ouvido.

Tem até uma modinha enfadonha e insistente que sugere uma espécie de lesbianismo de ocasião – uma bobagem, às vezes incentivada pela mídia “esperta” (e careta, diga-se de passagem), que tem pouco ou nada a ver com tesão; é uma questão de “atitude”. Entre muitas aspas. Meninas adolescentes beijando outras meninas na boca porque é “cool”, porque homem é tudo babaca e elas podem muito bem viver sem eles.

Baita atitude.

Acordai, bonitinhas. Não era isso que as mamães (e as vovós) queriam dizer quando queimavam sutiãs.

Culpa de quem?

De ninguém. E de todas nós. Do processo.

A minha geração, por exemplo, ouve esse papo de feminismo e acha radical, démodé. Demos de ombros, queríamos mesmo saracotear. Aliás, demos também de bunda. Pior: na boquinha da garrafa!

Claro que há quem venha de frente, e sempre vai haver, cada vez mais – advogadas, juízas, professoras, publicitárias, médicas, roqueiras, artistas porretas. Mas também há muitas moçoilas rebolando fora do eixo, e isso, me desculpem: além de não ajudar, atrapalha um bocado.

E olha que não sou contra o rebolado, não. Acho ótimo que se rebole, que se transe, que se goze, que cada qual descubra o sexo – e as formas de amar, se assim fica bonito dizer – que mais lhe dê prazer. Sacanagem, sexo bilíngüe, trilíngüe, o diabo a quatro. Ora, vá ser feliz!

Mas também sou a favor de rebolar o tutano, e isso sim merece destaque. No que estão pensando as meninas das raves? Quais putas tristes estarão lendo?

O problema, como diriam os marqueteiros, é uma questão de foco. Há muita preocupação com a celulite; pouca com os buracos do cérebro. Sexo é bom, e é para dentro. Pensar pode ser para fora.

Destinar todas as capas de revista ao êxito das bundas livres? Mas, afinal, que sucesso estamos comemorando?

Ora, vá comer feijão e estudar.

04 janeiro 2006

realidade / ficção


Uma verdade belamente escrita não dá outra: toma jeito de mentira bem contada.

Já uma verdade mal escrita não toma jeito nem quando enfiada entre aspas.

--

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

(Humberto Gessinger)

--

Fui ver o filme da Bethânia. Aproveita-se mesmo é a própria. Mais parece um “making of” caprichado do show Brasileirinho (aliás, ótimo, eu tenho em DVD). Algumas coisas comoventes de Dona Canô e Caetano, mais um Chico sub-aproveitado aqui, um Gil superaproveitado ali... nada de mais, é isso. E imagens de favelas para inglês ver.

Belas são a música e a poesia. O mais é estética, conceito, vazio. Dã.

02 janeiro 2006

Eu também vi a merda


Está todo mundo dizendo que 2005 foi uma merda, e que já foi tarde. Pois eu faço parte do humilde time de pessoas que acharam 2005 um ano supimpa (está bem, está bem, eu também vi a merda, e senti o cheiro, e registrei, e publiquei, e até pisei um pouco em cima do pedaço que me cabia!). Apesar dos mortos e feridos, no entanto, respingaram coisas boas em mim e nos que me cercam. Foi bacana demais.

Agradeço em silêncio, debaixo do edredom, e agradeço também enquanto caminho pela praia (o mar tem essa cara de quem tem algo com isso; vai ver ele nem sabe de nada, mas, na dúvida, sou francamente grata).

Volta e meia até acendo uma vela.

Como já disse, é claro que eu também vi a merda. E a fedentina chegou a me embriagar um bocado. Visitei mais médicos do que pretendia. Briguei com quem não merecia. Paguei mais impostos do que minha razão pudesse compreender. Rompi e fiz as pazes com a terapia umas dez vezes. Xinguei meus defeitos, subestimei virtudes, cantei vitórias que não cheguei a ter, fiz planos que sequer tentei realizar, outros que realizei pela metade, e outros que – putz, foi quaaaaase!

Os “quase” se acotovelam no balcão me pedindo para passar na frente dos demais projetos. (Alegam já ter a senha, ou algo assim).

Esse ano tem eleições e copa do mundo, estão dizendo que a merda pode virar - para melhor. Não sei de previsões, mas sigo muito grata e confiante, mesmo sem saber direito qual é a melhor direção para se navegar neste momento.

Assim, por partes: primeiro os remos, depois os rumos e os rimos.

01 janeiro 2006

Ano Novo


Virei o ano com a família, na praia do Recreio. Pessoas de branco pulando sete ondinhas, pescoço dolorido de procurar os fogos no céu, beijos e abraços, ops, alguém mijando no muro, garotos bêbados, moças salientes, saias coloridas, isopor, pulseiras, flores, sandálias, juras de amor, planos, promessas, enfim, resumindo, um brinde triplo para este ano:

Tim-tim (saúde)
Din-din (entrando)
Tum-tum (batendo)

FELIZ ANO NOVO!!!

28 dezembro 2005

Vinícius


Fui ver o filme sobre o Vinícius de Moraes. Bons momentos, ótimas músicas, depoimentos impagáveis (meus derramados destaques para Chico Buarque e Ferreira Gullar, dois galãs!).

Sobre os momentos-de-poesia, prefiro mil vezes a Bethânia lendo os versos – e se engasgando com o próprio nó na garganta – aos atores (no caso, Camila Morgado e Ricardo Blat) declamando e tentando, a todo custo, dar nó na garganta dos outros. Na minha, não rolou.

No mais, alguns elementos que eu não entendi por que estavam ali, e outros que não entendi por que não estavam. Mas isso sempre tem.

Acho que vale o precinho.


Filosofia de vida corporativa(sorry, não sei o autor)

“Se você está trabalhando e sorrindo, é porque já descobriu em quem colocar a culpa”.

27 dezembro 2005

Planos, planos

Ah, estou mergulhada em planos. 2006 vai ser o ano, não vai?


Contagem regressiva

Faltam 5 dias para o ano novo. Eu vou passar aqui mesmo, pelas vizinhanças.
E vocês?

24 dezembro 2005

E o peru, onde vai?


Não responda. Ninguém sabe. O peru é uma coisa fadada a encalhar na ceia, a verdade é dura: ninguém gosta de peru. Por quê? Ele é duro, ué.

Nunca vi bicho para morrer seco e duro como o peru. Mas é tradicional, Natal tem que ter peru, para... enfeitar a mesa. Ninguém come. É assim porque é assado, acabou-se.

Na minha família, todo mundo começa a discutir o cardápio do Natal uma semana antes, só porque não tem outro jeito.

- Alguma coisa a gente tem que fazer, né – alguém comenta, coçando o queixo, como quem diz que é inevitável.

- É... coisinha simples. Só para não passar em branco.

Cada um sugere uma bobagem, podia ser algo diferente esse ano, uns belisquetes, uma mesa bem colorida (a gente come é com os olhos, não é mesmo?), o importante é estarmos juntos, hoje em dia vendem tanta coisa pronta...

- E o peru?

Silêncio.

- Tem que ter peru. Senão não é Natal.

Sempre tem uma voz que pronuncia a sentença, trazendo à tona o peru que todo mundo fingia esquecer. Mas, como é Natal, não pega bem recriminar o chato que se lembrou – e nos lembrou! – do triste bicho seco.

- Poxa, gente. Senão não é Natal.

Ai, todo chato redunda. Que venha o peru, pois.

Acaba entrando como astro da noite, mas não tem saída alguma. Encalha. Os chamados “acompanhamentos” vão sendo bicados, aos poucos, pelos comensais que fazem a típica cara de “vou começar por aqui”, e terminam também por ali. O peru vai ficando.

O máximo que vi levarem foi uma perna - e o peru perneta, no final da noite, é ainda mais patético.

Secretamente, todos culpam o sem-mãe que tocou no assunto do peru. Boa oportunidade de ficar quieto. Engolisse o peru, guardasse para si! Na certa é quem mais está se entupindo de salpicão, e ainda vai roubar a rodela de abacaxi que eu vi primeiro...

Mas ninguém fala nada, porque é Natal. A ceia some e o peru persiste, intacto, vitorioso. Ano que vem ele aparece de novo, como se nem tivesse pego vento, só para confirmar que é Natal.

Tenho para mim que é sempre o mesmo bicho.

FELIZ NATAL!

21 dezembro 2005

De volta

Fui conhecer Madrid e Paris, e cheguei no Brasil hoje! estou cheia de coisas legais para contar, mas também com muito trabalho e uma pá de burocracia acumulada.

Fora o con-fuso horário no cuco (e na cuca).

Beijos tontos, volto já.

03 dezembro 2005

Viventes, acordantes e dormentes,

estou saindo de viagem e só volto no final de dezembro. Se conseguir meios, prometo vir aqui revelar os fins.

Beijos graúdos desta fujona,

Bíbi Da Pieve
Mofei no shopping

Aqui chove aos cântaros. E, quando chove, a cidade literalmente empaca.

Pois empacada fiquei eu, esperando um táxi no shopping do fim do mundo, exatamente UMA HORA. Isso que tinha pedido por telefone!

Além de mim, uma família de mulheres estabanadas e esparramadas aguardava a sorte de um carro amarelo. Que divertido.

Quando, enfim, tive o privilégio de embarcar no táxi, mais surpresinha: no meio do caminho, o pára-brisa do carro virou “do avesso” (não sei como aconteceu, mas aconteceu!), e deu uma porrada no vidro – que me deixou grudada no capô, de susto.

O motorista – cheio de “hehe” – parou num posto e arrancou o aparelho, praticamente com as unhas (“hehe, desculpe senhora”). Fomos embora com o pára-brisa metade limpo, metade molhado. E todo arranhado (“hehe, isso acontece”).

Tá bom pra você?

Se ele palitasse os dentes com aquele ferro eu não levantaria nem meia sobrancelha de surpresa. Vivendo e aprendendo.

29 novembro 2005

Web log

Você sabia que eu não sabia que a palavra “blog” vem de “web log” (que significa registro na rede)? Putz...


Mundo Pequeno

Estou praticamente viciada em blogs de brasileiros que moram no exterior. Tem uma página - chamada Mundo Pequeno - que reúne dezenas deles. Textos interessantes, engraçados, curiosos; fotos lindas, amadoras, comoventes; comentários consistentes, opiniões sem pé nem cabeça, relatos sobre passeios, compras, comidas e bebidas... enfim, o mundo é pequeno, mas cabe de um tudo nele.


Figurinhas

Tô achando meu blog fraquíssimo de figurinhas. Todos os outros têm mais figurinhas que o meu. Como a inveja é uma merda, aqui vai uma foto que eu tirei de um projeto/matéria muito bacana que O Globo está fazendo sobre os 100 anos da Av. Rio Branco (Centro do Rio). Lá tem um fotolog feito de fotos enviadas por leitores.

Esta é uma vista aérea da Praça Mauá e da zona portuária (por Daniel R. Carneiro).



Ciúmes

Ele: Te contar um segredinho: o mundo não vê isso tudo que você vê em mim, sabia?
Ela: O mundo eu sei que não. Mas A MUNDA VÊ!

Hoho.

23 novembro 2005

Buenas!

Estou escrevendo muito, para depois poder tirar umas “férias”. Entre um escrito e outro, é bom vir aqui bater papo com vocês. (Papo escrito, hoho).

Fui ali almoçar no restaurante a quilo, e encontrei o dono da padaria. Gosto disso: vida de bairro. Está cada vez menos difícil fazer as coisas sem carro no Recreio. Até abriu um café aqui perto, mas ainda não experimentei. Se tiver bolo de aipim, viro freguesa.


Passa rápido

- Veja só, novembro já está terminando...
- Hein?? Como está terminando, se ainda nem começou???

Aaai, meus cabelos!


Velas

Ah, novembro é mês de envelhecer e eu fico monotemática como uma velha engasgada. Sempre tive fascínio pelo passar do tempo. Acho que o assunto é misterioso e encantador: você não vê o tempo passando, mas confere seus efeitos. Queira ou não.

Por isso, cada vez mais, gosto da sensação de me deslocar no espaço. Caminhar, andar de carro, de bicicleta, sentir o vento balançar os cabelos. A estrada é uma maneira confortável de se sentir “operando” o tempo. Cruzar fronteiras é cruzar ponteiros.

22 novembro 2005

Então não tô dizendo?

Semana passada, uma família de Realengo foi posta a correr (de susto) por um invasor inusitado: jacaré entrou na casa, assim, sem bater.

Deus-que-me-livre-duma-dessas. Já chega eu ter encontrado um, perto da praia,outro dia. De duas coisas quero distância: olho gordo e boca grande. É do que menos preciso no momento.


Celebridade 1

Estou escolhendo latas de atum no supermercado, quem eu vejo? Zeca Pagodinho. Sorridente, conversando com quem passasse e puxasse assunto. Maior simpatia.


Celebridade 2

Em São Paulo, semana passada, no caixa do estacionamento do Iguatemi: Otávio Mesquita. Usava óculos escuros maiores que o rosto, mas girava o pescoço e sorria em 360 graus. Outra simpatia.

Praticamente ao lado, entra um “bonitão” (estilo mamãe-sou-forte) e deixa uma Ferrari na mão do manobrista. Passa com o nariz cutucando o teto.

Tenho a mínima idéia de quem seja. Levava o maior jeito de ser ninguém.


Meu aniversário

Não consigo deixar de perder o entusiasmo por esta época do ano. O mês de novembro entra angustiante, é verdade (deve ser o tal inferno astral). Mas, passado o dia 20, começo a respirar aliviada e fico toda alegrinha outra vez. Obaaaa, let’s apagar velas!

Ontem me ligaram da loja onde comprei minha colcha: ganho 20% de desconto em qualquer produto este mês. Vou lá gastar um pouco, que ninguém é de ferro.

Já que parar o tempo não posso, pelo menos envelheço em bons lençóis. Hoho.


Dia do músico

Oba, hoje é dia do músico!
Parabéns aos verdadeiros.
Aos de mentirinha, meus sinceros votos de profundo e prolongado SILÊNCIO.

16 novembro 2005

Milho verde, jacaré e moita


Cariocas cansaram das chuvas (eu estava adorando, confesso), e chegou o sol. De brinde, deu dia lindão no feriado ontem.

Gaúcha aqui teve a idéia de jerico (sou mestra) de ir caminhar na praia BEM na hora do regresso dos banhistas, à tardinha, quando o sol está indo embora e o povo idem – menos a gaúcha branquela, claro, que sai às 6h da tarde com protetor 30 e ainda espreme os olhinhos.

Pois bem. A praia era a sucursal do inferno, e as adjacências estavam absurdamente engarrafadas. Não havia para onde fugir. No calçadão era criança de patins, mãe irritada, pai bêbado, milho-verde rolando no chão e servindo de bola para o futebol atrapalhado dos adolescentes – ah, quantos gambitos tive vontade de chutar!

A ciclovia era invadida por motos, claro.

Nos carros parados, funk no último. (Popozudas não fariam falta alguma, não sei por que escolhem o fofo do urso panda em vez delas...)

Falar em extinção, no canal da lagoa (aquela imundície, como fede!), sobre a pontezinha de madeira apodrecida, uma dúzia de curiosos “admiravam” um banhista tímido: jacaré. Ai, meus sais, aonde vim parar??

Ainda na beira da praia, cansei de desviar dos cocos e dos milhos, e atravessei a rua. Quando pensei que tinha me dado bem, a cena me surpreende: um filho da mãe mijando na árvore. Me deu um susto imenso – embora, a bem da verdade, o “susto” dele nem fosse para tanto.

- Por uma mera questão de proporção, se eu fosse você, mijava numa moita. Ficava menos feio.

(Por que essas coisas não me ocorrem na hora?)

10 novembro 2005

Retrospectiva


Passou finados,
é isto:

outubro
setembro
agosto
julho
junho
maio
abril
março
fevereiro
janeiro

O cotidiano
visto assim,
pelo avesso,
é muito mais
espesso.
Poesia


Ao abrirem as cortinas, o público estava eufórico: ávido pela doce fumaça que lamberia as luzes coloridas piscantes que enfeitariam o chão do palco que abrigaria premiados atores-cantores que entoariam canções lendárias cujos finais parecessem ter sido feitos – e foram mesmo – para provocar um ataque de choro compulsivo coletivo capaz de lavar as almas dos mortais presentes, bem como de seus parentes, e dos ausentes, e (aproveitando) também dos parentes dos ausentes.

Bem, deu-se nada disso.

Veio só o preto no branco: texto dito por um poeta desconhecido, calvo, de estatura mediana, sapato meio gasto, oriundo (o poeta, não o sapato) não se sabia do interior de que parte, importado (o sapato, não o poeta) certamente do raio que o partisse.

Ninguém chorou um pingo. Mas, naquela noite, foram todos (mais ou menos) até a lua – e, olha, alguns até voltaram.

Ou seja: a poesia é uma espécie de “atalho” que a gente cria para andar mais. Daí o sapato gasto.

08 novembro 2005

Papo no Pilates


- Minha filha foi convidada para a festa de aniversário de uma amiguinha, e eu estou chocada.
- Por quê?
- A festa é na suíte de um motel. Precisava ver o convite. Cada pessoa paga R$ 40,00. Vão passar a noite num motel. Meu Deus! Motel!

Os comentários que se seguiram foram os mais variados:

- É, tua filha foi escalada para um bacanal. Como são as coisas. A gente cria os bichinhos com todo carinho...

- É nada! Isso é supernormal hoje em dia. Tá na moda! Vocês estão sendo preconceituosas. Saiu até reportagem no Globo.

- E daí?? Sair no Globo é garantia que não tem sacanagem?? Pois eu acho que é muito pelo contrário!

- “Hoje é festa lá no meu apê...” Hihi, essa garotada...

- Se eu fosse você, não deixava ir. Quanto anos ela tem? 21 é muito novinha! Tranca em casa.

- Eu não me abaixava para pegar guardanapo que caísse no chão...

- Acho que eles nem dão guardanapo nessa festa. Vai fazer o que com guardanapo?

- Será que tem comida, pelo menos?

- Você diz, comida, de comer? Ou...

- Brigadeiro, cajuzinho, risólis!

- Cachorro-quente...

- Salsicha, vai ter! Quá quá quá!!!


E a pobre mãe, que entrou na aula apavorada, saiu de lá em perfeito pânico.

04 novembro 2005

Barco


Hoje eu acordei um pouco melhorzinha e fui, saltitante, ler o horóscopo no jornal. Sim, eu leio horóscopo. Mas só acredito no que me convém.

Pois ali dizia, creia você se quiser, que é melhor a sagitariana estar atenta: “às vezes, só se percebe que o barco está afundando quando já está entrando muita água”. Assim, na lata.

P***quepariu. Só pode ser perseguição.

Não dava para me rogar uma praguinha menos resfriada, não? Água?

AAAATCHIM!!!

***

Vozes de família


É interessante como, nas famílias, algumas pessoas têm um timbre de voz semelhante – às vezes, confunde-se ao telefone.

Na minha, por exemplo. Minha mãe e eu temos vozes parecidas. Outro dia, quando estava no RS, tive uma longa conversa por telefone com meu tio. Marcamos um churrasco. E ele ia se despedindo:

- Então tá, Aninha, nos vemos no sábado...

Achou que tinha combinado tudo com a minha mãe.

Como tenho um timbre mais grave, muitas vezes também me confundem com o meu irmão. Tem uma casa de sanduíches aqui perto, onde fazemos pedidos freqüentes – a atendente acha que é sempre a mesma pessoa.

Eu: Boa tarde, eu queria fazer um pedido.
Ela: Oi, Seu Adalberto! Tudo bem? Vai o de frango ou o de tomate seco, hoje?
Eu: O de tomate seco.

Eu sempre peço o de tomate seco. Meu irmão sempre pede o de frango. E a moça jura que o Seu Adalberto alterna.

Quando a confusão é com o meu irmão, é ainda mais divertido. As pessoas ficam sem jeito.

Um dia ligou um amigo dele, e já atacou com essas brincadeiras que homem faz. Atendi:

- Alô?
- Faaaaaaaaala, bundão!!!!
- ...
- Que é, não tá reconhecendo a minha voz??
- Bom... na verdade eu...
- Vai ficar de viadagem, é?
- Viadagem, não... É que eu sou a irmã dele.

Longo silêncio constrangido do outro lado. Confundi a moça com homem, chamei de bundão e viado, e ainda dei um atestado de babaca.

- Não te preocupa, isso acontece toda hora...
- Ai, me perdoa...

Como é bom ver um rapaz constrangido, hoho.

Também já atendi namorada que me chamou de apelidos... fofos. Colegas de trabalho. Músicos, produtores, contratantes. A filha dele!

- Alô?
- Oooooi, paaai!!
- Pai é a #!*@()$¨)_#!@#¨&*(()*!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ah, não. Pai já é demais, concorda?

03 novembro 2005

Me pegou


Agora eu tenho certeza que estou gripada. Porque minha voz soa como um violoncelo desafinado, tocado por um sujeito sem talento que sofre de tendinite crônica. Ah, cuja mãe chega tarde da noite em casa... sem razoável explicação.

Bom, tô p***.

02 novembro 2005

Gripe

Acho que estou gripada, mas não tenho certeza. Aliás, nunca tenho certeza da gripe, a não ser que ela esteja explodindo. Por isso, fico meio assim de tomar antigripais: estaria assumindo que estou com gripe. Tudo vai do psicológico.

Esses antigripais, a propósito, deixam a gente derrubada e imprestável. E eu prefiro ficar derrubada e imprestável na saúde, se é que me entende. Você não prestar para nada por opção é muito melhor do que não prestar para nada por falta de. O ócio é maravilhoso, mas a gente tem que poder puxar a cordinha e saltar na rua, se der na telha.

Eu gosto muito de enxergar a cordinha, nem que seja só para esnobá-la e continuar aboletada na poltrona. Dando tchauzinho pro vento.


Tato de terapeuta

E ela me tranqüilizou:

- Não, querida, claro que não. Nesse caso, você seria uma esquizofrênica completa. Mas posso te tranqüilizar: és apenas uma neurótica supercomum, desse tipo mais vagabundo que existe aos montes por aí.
- Desculpe, mas vagabunda é a senhora.
- Olha aí, não tô dizendo?


e-volução (por falar nisso)

Antes, tínhamos que guardar as coisas na cabeça. Hoje, guardamos tudo nos arquivos, e perdemos a cabeça quando eles dão pau – ou seja, toda hora.

Antes, éramos apenas neuróticos. Hoje, graças à tecnologia, temos fortes motivos.


Constrangedor

Eu estava caminhando e passou uma van cheia de estudantes. Um menino na janela fez BÚÚÚ!!!, e me deu o maior susto. Botei a língua para ele e fiz “nhéééé, seu retardado sem mãe!” (disse bem baixinho, claro).

Mas um sujeito vinha de bicicleta atrás de mim e viu/ouviu meu papelão. Afff! Pior coisa de falar sozinha é quando você está acompanhada e não sabe.

20 outubro 2005

Colo


Os filmes na estante em desordem alfabética, a janela sem cortinas filtrando raios intensos do dia que já se acabou, os cabelos esparramados em lisos cachos de um louro meio azul, meio carvão, a televisão chiando (em silêncio) repetições inéditas e velhos anúncios de lançamentos sem previsão de estréia – todo caos é uma questão de ângulo.

Um giro de 90 graus à direita - as orelhas paralelas ao teto, o horizonte perpendicular à razão. Bochecha esmagada em jeans.

Deitada no colo dele: foi assim que ela corrigiu o mundo.

11 outubro 2005

Futuro


Ameaça chover. Jantarzinho de última hora com uns amigos. Ei, essas pessoas que inventam de um tudo: quando é que vão inventar uma pílula que você toma, espera uns 20 minutinhos, e as unhas aparecem feitas?

Comprimidinho vermelho para unhas vermelhas. Comprimidinho café para unhas café. Comprimidinho chocolate para unhas chocolate...

Esse último podia vir com gostinho.

E diet, please.


Dia dos fedelhos

Amanhã é feriado - as ruas, as praias e os shoppings estarão lotados de diabinhos cheios de vontades esperneando gritando batendo pé exigindo sorvetes balas doces Mac’comidas sintéticas cama-elástica pula-pula escorregador laptop da Barbie e do Homem-Aranha mamãe eu quero eu quero eu quero eu quero ficar em casa Deus me livre sair na rua ou almoçar em algum restaurante e levar de brinde um nugget com maionese no meio da testa tô fora.

06 outubro 2005

Erro de gênero


Quando pequena, eu imaginava que meu sobrenome continha um erro de gênero. Em vez de Da Pieve, deveria ser Do Pieve – afinal, Pieve é como todo mundo chama meu pai, que é muito homem. Não entendia o Da. E mais: achava, por conclusão infantil, simplista e doce, que os sobrenomes de todas as pessoas serviam para isto - dizer de quem elas eram.

Assim, um Maurício que fosse filho de um Lopes se chamaria Maurício Do Lopes, e uma Beatriz que fosse filha de um Antunes, Beatriz Do Antunes.

Mas e as mães? Não seriam igualmente proprietárias?

Minha mãe se chama Aninha. E não é que ficaria interessante – Bíbi D’aninha?


Deutschland


E me vem à memória um episódio de infância. Tinha 10 anos, fiz uma viagem à Alemanha com um grupo de 30 colegas e uma professora de música. Minha melhor amiga foi junto, e passamos o primeiro semestre (que precedeu a viagem) fazendo planos - que delícia ia ser aquilo, viver um mês longe dos pais, morando juntas, como faziam as americanas superadultas que iam para a faculdade.

Já no vôo de ida, quebramos o pau. Terminamos aquela amizade de uma vida inteira, ou seja, dois anos. (Dois anos, naquele tempo, valiam muito mais do que valem hoje. O câmbio do tempo é implacável).

Cheguei na Alemanha com dor de cabeça, confusa do fuso, enjoada do estômago, exausta do vôo e da briga com minha ex-melhor-amiga. Pior de tudo: ia ter que dividir o quarto com aquela inimiga mortal por longos 30 dias, já que tudo estava marcado e não tinha volta. Troço desgastante.

No primeiro dia, fomos dar um lindo passeio pela cidade. Impliquei com ela o quanto pude, e ela não revidava, ou porque era mais sensata, ou vai ver que tinha poderes para prever o que eu não conseguia. Lá pelas tantas, não se agüentou e veio me arrancar os cabelos, isso em pleno solo europeu.

A maioria da turma incentivava, outra parte tentava apartar, e a professora se viu desesperada. Os alemães comportados se horrorizavam com a algazarra brasileira, Deus que me perdoe, só de lembrar me arrepio. Gritaria, balbúrdia, gargalhadas altas. Coitada da tia Fulana, uma senhora tão boazinha.

Depois de nos embolarmos no chão – a Alemanha é ótima para isso, porque os carros param na faixa de pedestres -, aos puxões das tranças e bofetões nas orelhas, além das mordidas em casos extremos (há alguma ética nisso tudo, tá pensando o quê?), por final respingamos, uma para cada lado, não sei se por cansaço ou porque o momento implorava uma pausa. Artisticamente, eu digo.

Era a deixa para a única pessoa adulta impor alguma ordem, usando de princípio mais sóbrio, afinal. Deu nem cinco segundos, senti a sóbria mão da tia Fulana pinçando minha orelha esquerda e puxando como quem vai pendurar num varal. O mesmo ela fez com aquela traíra mirim - que me insultava ainda mais, agora ferida e humilhada gravemente diante das outras crianças.

E fomos nos arrastando, conforme as orelhas apontassem o caminho, sei lá por quantas esquinas daquele velho mundo cruel.

Claro que fizemos as pazes em dois tempos, mas aí já era tarde: sofremos as devidas punições. Passamos o dia seguinte enfurnadas numa saleta de fundos, concentradas na árdua tarefa de escolher duas enormes bacias de feijão. No próximo almoço, sairia uma típica feijoada brasileira, para apreciação dos simpáticos alemães que nos hospedavam.

Acho que eles nunca comeram tanta pedra na vida.

05 outubro 2005

Estiagem


Adoro o “almoço executivo” de um restaurante japonês aqui perto. Baratinho, rápido e caprichado. Faço uma cara de cão sem dono (no caso, cã), e ainda faturo uma entrada de sashimi com salsinha e gergelim – afinal, não se deixa uma moça sozinha esperando comida. Hoho, eu e minhas tranças.

- Aqui, dona, um passatempo pr’ocê...

Outra coisa valiosa é ouvir conversa de garçom. Sai cada uma.

- Mulher só dá trabalho. E tem mais, começa já na primeira olhada. Se a beleza resolve olhar pra você, sei lá por que diabo, sendo que está acompanhada pelo namorado, é encrenca. Pode escrever que o corno é forte e vem tomar satisfação.

E o outro:

- É por isso que eu já começo a selecionar na olhada. Não é qualquer mulher que pode me olhar, não.

Olhei pra ele (curiosa).

- Só deixo me olhar se for bonita e rica.

Olhei de novo. Baixinho, atarracado, meio sem queixo, cabelo espetado. Como é?

- Só se for as duas coisas: bonita E rica. Só uma não serve.

É, vai bem chover na horta dele. Galã desse jeito.