13 setembro 2004

AMA-go

Às vezes eu me acho uma idiota de cabelos longos e castanhos, com um sorriso idiota de quem pensou alguma besteira e achou graça. Uma porra-louca aventureira que escolheu uma profissão tresloucada e achou que dava.

Valha-me Deus! Achar que dá, hoje em dia, é para doidos.

Não sou magra nem sou gorda, e a complicação começa é por aí. Houvesse alguma definição, poderia me orgulhar do fato. Uma idiota pé-lá-outro-cá; do tipo que pondera, pondera, pondera e depois pira. Pudera.

Desculpe o umbiguismo: eu, eu, eu.

Ocorre que, às vezes, a idiota aqui precisa de um respaldo que não vem senão do âmago. Ora, âmago. Nem sei o que é isso direito.

11 setembro 2004

Crise conjugal


O monitor do meu micro esteve de dieta, e eu não percebi. Percebo agora, porque – acreditem – ele está com cintura. Aliás, uma bela cintura. Melhor que a minha.

Está certo, devo ter sido uma esposa desatenta; ele já vinha dando sinais de fraqueza nos últimos tempos, e eu não me toquei de nada. Fiz vista grossa. Volta e meia, ele dava umas tremidas (sinal evidente de alguma carência nutricional), piscava mais que o necessário. Era um aviso.

Hoje, ao ligar o computador, deparei-me com o resultado da baixa ingestão calórica: as janelas do Windows estão acinturadas. E os botões de ajuste, ali embaixo, não funcionam. Fico imaginando que, se o quadro evoluir, vai ser difícil continuar escrevendo aqui.

E se meu monitor estiver com anorexia? Significa que os meus textos vão emagrecer sensivelmente, e não adiantará empurrar sopas e sopas de letrinhas – porque o monitor vai sempre se achar gordo, rejeitando indefinidamente.

E se for bulimia? Aí o teclado tomará banhos de texto vomitado, um horror – sem contar que ele pode pegar gosto pela coisa, e começar a produzir literatura escatológica sem a minha permissão.

Não adianta eu dizer que preferia o monitor gordinho; ele não vai acreditar. Uma pessoa, quando entra em dieta séria, é porque não tolera mais a auto-imagem. Mesmo que as minhas letrinhas se esforcem para convencê-lo de que eu sempre o amei, desde o início, mesmo tão quadrado, mesmo pouco esbelto... será inútil.

Estou francamente preocupada com a saúde dos meus escritos. Eu gostava de quando o monitor também se gostava. Tivemos momentos hilários, profundos, românticos; almoçávamos ficção, jantávamos confissão. E fazíamos amor em prosa e verso, sem restrição. Rotina de um casal feliz, mesmo.

Agora, com essa falta de gostosura, não sei dizer se a relação continuará com o mesmo vigor. Estou sem estímulo. Não me vêm as palavras. Acho que vou desistir de vez.

(Que nada, vou ali traí-lo com um caderno enooooorme e já volto!)
Diferentes visões


Essa eu ouvi de um tatuador gaúcho.
O sujeito chegou ao estúdio dele disposto a fazer uma tatuagem na hora, e já tinha tudo na cabeça:

- Quero uma tatoo macabra, brother! Muito macabra!

O tatuador então puxou o catálogo das figuras mais trash, e entregou ao jovem rebelde. Ele folheava. E folheava. E demorava. E nada de escolher um desenho.

- Pô, não tem outro álbum aí?

Tinha, e o tatuador entregou a ele. Mais meia hora de meticulosa observação, e nenhuma decisão. Até que o cliente começou a olhar para os lados, e flagrou na parede a foto de uma tatoo.

- É ESSA! É ESSA! Nossa, chapei! Muito irado, cara! Tá decidido: eu quero uma igual a essa.

E assim foi feito.
Acontece que a figura era de uma linda flor.

10 setembro 2004

O charme e a idade


Essa eu me esqueci de contar a vocês, mas é ótima. No show do Erasmo Carlos com Evandro Mesquita, atrás de mim, uma senhora aguardava o terceiro sinal enquanto conversava com o sujeito ao lado. Adoro uma conversa alheia, ainda mais desse calibre: saquei, em meio minuto, que ela tratava de jogar charme.

O papo era entre pretendentes, estava claro. E mulher, quando quer fazer charme, pode ser um show ou um fiasco. Fazer charme pressupõe revelar algumas coisas; esconder outras. O mais divertido é quando a pessoa se atrapalha e acaba revelando o que deveria esconder, e vice-versa. Foi o caso dela.

- Acho que o show vai ser bárbaro. O Evandro Mesquita eu nunca vi ao vivo, você sabe, quando ele fazia sucesso com a Blitz eu ainda era muito menina, nem lembro direito...

Hein? Fiquei meio assim. A mulher não tinha voz de quem era “muito menina” no início dos anos 80, mas tudo bem. Quase virei o pescoço para conferir o semblante, mas me segurei. Adiante:

- Já o Erasmo é aquilo, todo mundo conhece, né. Tinha aquela música que eu adorava, como é mesmo o nome...? Aquela, aquela... que esse outro menino regravou ainda outro dia...

- Qual? – Ele quis saber (e eu também).

- Ah, sim! Gatinha Manhosa! Que aquele menino, o Léo Jaime, regravou há pouco.

E aí a verdade se revelou, implacável. Até porque, hoje em dia, ninguém chama o Léo Jaime de menino impunemente.

07 setembro 2004

não resisti...
a um pouquinho de Paulo Leminski:

"alguém parado
é sempre suspeito
de trazer como eu trago
um susto preso no peito,
um prazo, um prazer, um estrago,
um de qualquer jeito,
sujeito a ser tragado
pelo primeiro que passar

parar dá azar"

Querido diário


Eu não escrevo aqui há quatro dias – o que, para mim, compulsiva e exagerada, é quase uma eternidade. Posso fazer um momento “meu querido diário”? Licença.

Os últimos dias no Rio têm sido quentes, mas não aquele calorão insuportável do verão. Temos sol e temos vento; não chega a empatar, mas o segundo refresca o que o primeiro abafa, e vai-se agüentando firme por aqui. As noites têm sido frescas e ideais para um chopinho a céu aberto.

Domingo, Erica e eu fomos ao teatro. Abalou Bangu, com André Valli (o eterno Visconde de Sabugosa, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, lembra?). Algumas boas tiradas e a excelente atuação dele valeram a ida. Nem mais, nem menos.

Depois rolou um chope no Rosa Shopping – bar Na Bôa -, com batatas fritas e tábua de carnes suficientes para dois. Éramos três. Nem menos.

***

O último livro que li – devorei, aliás – foi As Mentiras que os Homens Contam, do Verissimo. E recomendo a todos, dos 8 aos 80, que Verissimo nunca é demais. Ponto, parágrafo.

***

Ontem à noite eu fui à Zona Sul e voltei, lá pela 1h, com indigesta impressão de estar sendo escoltada pela Polícia. O policiamento em Ipanema foi reforçado no feriado - eu ouvia no rádio durante a ida -, por conta dos últimos acontecimentos (um vigia que tentou impedir um assalto levou bala às 3h da tarde, e o pessoal do morro Pavão-Pavãozinho andava em discórdia outra vez).

O que eu fiz foi me trancar no carro daqui até o Leblon, e deixá-lo com um manobrista numa rua relativamente movimentada – véspera de feriado -, para então me trancar com um amigo dentro de um restaurante e olhar a vida passar lá fora. Volta e meia o som ambiente era intercalado por umas sirenes, uns alarmes, nada incomum.

Na volta, como já disse, parecia escoltada. De tempos em tempos, reduzia para uma blitz, onde meia-dúzia de sujeitos bem armados me observavam com compreensível desconfiança. Durante o percurso, viaturas e mais viaturas se anunciavam pelo retrovisor, como lantejoulas vermelhas, até passarem por mim, gritantes e urgentes.
E a gente precisa continuar – a viver, a conviver, a trabalhar, a trafegar. Às vezes dá vontade de respirar bem fundo e fazer mais um: ponto, parágrafo. Antes de começar tudo outra vez – até porque não há outro jeito. Ponto.

03 setembro 2004

Tele-coisas


Estou sem paciência para as novelas. Logo eu. Ontem, resolvi dar uma chance para a nova das 7h, e liguei a TV. Havia dois ratos falando, animadíssimos. Ratos. Falando.
Desisti.

**

Também não vejo a novela das 8h faz um tempão, mas ontem eu vi. Ri um pouco com Glória Menezes e Raul Cortez, fofos. No mais, é apreciar a beleza redundante de Marcelo Anthony, e esperar que o casal de sapatas pegue fogo. Ou não.

**

E “A Grande Família” continua sendo uma das melhores coisas da televisão brasileira. Ontem a Marilda e o Tuco encheram a cara, e acordaram na cama dele. Depois ele ficou todo apaixonado, querendo namorar, mas ela nem bola. Que pena. Adoro essas transgressões etárias nas relações amorosas. Hoho.


E-(outras)coisas

Não sei se já aconteceu com você, mas estou quase certa que sim. Os compromissos dão uma amainada, e você resolve pôr a correspondência eletrônica em dia. Ressuscita e-mails não respondidos, perdidos na sua caixa postal, e responde. Tim-tim por tim-tim. Demoradamente. Carinhosamente. Põe seus amigos a par das novidades, declara amor a quem é de amor, amizade a quem é de amizade, pede desculpas aos credores, e até dá uma cobrada nos devedores - assim, como quem não quer nada. Afinal, está com tempo; e quem está com tempo pode usar de eufemismos, ser sutil.

Aí você vai à academia, toma um banho, dá uma voltinha na rua e volta para checar as respostas. Nada. Nadinha. E assim sucessivamente, enquanto você está meio de bobeira. Silêncio total.

Na semana seguinte, quando o mundo parece cair no seu colo, e você não tem tempo nem para secar o cabelo depois do banho, eis que aquela avalanche retorna, subitamente, sem dó nenhuma do seu estado assoberbado.

Poderíamos dizer que é um dos artigos da Lei de Murphy, claro. Outro exemplo – da mesma família – é aquele indefectível olhar da loira arrasa-quarteirão que o amigo está querendo pegar há anos, mas ela nem tchuns. Seria o céu, não fosse lançado justamente no momento em que o sujeito está acompanhado de outra, numa tentativa frustrada de esquecer a ex-esnobe.

Está bem, este último exemplo pode bem ser atribuído, não à Lei de Murphy, mas àquela fama que as mulheres têm, sabe-se lá por quê, de manifestarem repentino interesse por um rapaz antes desprezado – desde que ele esteja, agora, acompanhado por uma vagab..., digo, por outra moça qualquer. (Moça qualquer, aqui, não fazendo alusão alguma às mulheres de vida fácil – bem entendido. E, também, se fizesse, não haveria nenhum preconceito. Estou me enrolando, vamos adiante antes que piore.)

Eu vou tentar explicar esse fenômeno, humildemente, como me convém. Não é que as mulheres queiram competir entre si. E também não é que o sujeito acompanhado seja valorizado além dos outros por estar, afinal, em uso. Não sei se fui clara: “em uso”, ou seja, na ativa, e aprovado – ainda que momentaneamente – por algum órgão (sexual ou de defesa da consumidora, tanto faz neste caso).

O que acontece quando uma mulher, antes adorada e declaradamente cobiçada, e que agora encontra o canalh..., digo, o homem em questão se esfregando com outra, é simples: capricho. Mastigando (que o texto também é para homens): quando você era criança, e um carrinho lhe parecia feio e sujo, até que um outro garoto resolvesse inventar as melhores manobras justo com aquela tranqueira rejeitada. Lembra? Você então pensava: “que ambos, o meu amiguinho e o carrinho, sejam felizes para sempre!” – e ia embora assobiando? Ou rolava no barro com a gostosa, digo, com o pirralho até conseguir tomar aquela máquina possante dele, insistindo: “EU VI PRIMEIRO! É MEEEEEEU!!!”? (Responda para si).

Portanto, querido, pense trezentas vezes antes de julgar aquela moça que o menosprezava antes de você se arranjar com a vizinha porque estava mais perto. Todo mundo tem direito a um ataque infantilóide, volta e meia, não tem?

Ou vá me dizer que você não ficou animado quando eu escrevi (e grifei) “rolava no barro com a gostosa” e, desde então, não prestou mais atenção nenhuma ao que eu escrevi? Me engana, que eu gosto.

P.S.: Meninos, brincadeirinha. Adoro vocês. Hoho.

02 setembro 2004

As cobras do sonho


Dormi mal pra caramba, sonhei com cobras a noite toda, acordei aflita com a campainha. Era a faxineira, insistente, positiva e operante. Calma, diacho, deixa eu vestir as calças. Saí apertando os olhos, a claridade, o pé ainda meio manco, já vai! Ela bufava do outro lado da porta, impaciente, enquanto eu girava a chave. São duas voltas, bolas!

Bom dia, bom dia. A senhora precisa comprar mais Veja - ela já exigia, e eu pensando que ela é quem precisa comprar mais Época, bolas outra vez! Ah, sim, é Veja Multi-Uso, calma. Eu, logo que acordo, já não sou boa companhia. Menos ainda tendo sonhado com cobras. Vem direto me falar como devo gastar meu suado dinheirinho? Tá pedindo, né?

Tem dia que a gente briga até com a sombra. Hoje foi assim. Cadê que o meu cabelo dava jeito? Já disse, preciso comprar uma cortina urgente, esse sol direto na minha testa, raios, não há Cristo. Cortaram meu celular porque atrasei uns dias. Alguém telefonou pro fixo e desligou na cara de secretária eletrônica, que, como o nome já diz, está aqui para me representar, na minha ausência – ou na minha indecência, ou na deselegância, ou na falta-de-saco’ância - é com ela, e não custa deixar um recado; que eu retorno, sim senhora.

E as cobras, amigo, as cobras do sonho não me deixaram mais em paz durante este dia que não passava; rastejava.

Até que, à tardinha, tocou uma música do Pink Floyd numa rádio inusitada.

E o sol se pôs lindamente, dispensando cortinas.

E o meu cabelo escuro pousou sobre o rosto claro, tão adequado quanto moldura de quadro.

E o mais era conversa fiada; intriga onírica.
As cobras do sonho. Peçonha da oposição.

31 agosto 2004

Vejam só que festa de arromba


Domingo foi dia de assistir a um show único (embora duplo): Tremendão - ele mesmo! - e Evandro Mesquita, num só show. O teatro estava lotado: das cerca de 300 pessoas, 250 deviam ser mulheres, a maior parte delas acima dos 40 anos. Imaginem só que festa de arromba.

Fiquei na fila do gargarejo, e gargarejei mesmo. Erasmo Carlos - de calça jeans desbotada, camisa de veludo molhado (ou algo assim) e colete de couro – comandava uma banda competente (um maestro/pianista, um baterista, um guitarrista, um baixista e um saxofonista), se não com o mesmo vigor de antigamente, com certeza com o mesmo talento - carisma, idem. Um pingo de choro engasgou na minha garganta logo no início, quando ele provocou: “Sei que você fez os seus castelos / e sonhou ser salva do dragão”. Essa frase sempre mexeu comigo, não sei bem por quê.

Relembrei as canções que minha mãe tocava no violão e cantava, e eu achava o máximo, quando era pequena. Pensei nos meus pais, na geração deles, em tudo que havia de surpreendente na tal da jovem guarda. E em quantos daqueles hits são pais dos nossos hits de hoje.

Lá pelas tantas, entra em cena o simpático, encantador e 1001 utilidades Evandro Mesquita. Um garotão, camisa de surfista, sorriso fácil. Pulinhos no palco. Aplausos e gritinhos na platéia. O gás do show aumentou, e a nossa participação também; afinal, ele tinha perdido um amor no paraíso. Quem poderia ficar indiferente?

Mais uma cena de cinema à minha frente: infância e adolescência, anos 80, Blitz - o início de tudo, para quem ousa acreditar em ser feliz tendo o rock brasileiro como pano de fundo. Eu confesso, sou uma boba; seja sob o sol, ou debaixo de chuva.

Depois que eu já tinha engasgado, pensado nos meus pais, nos meus tios, em mim, na besteira que fiz em resolver fazer da música a minha vida, e, finalmente, no prazer inexplicável que uma simples escala de blues acelerada causa em centenas de pessoas que sequer sonham – e nem estão interessadas – em saber o que vem a ser uma escala de blues... bom, aí eu pude vir para casa, com o coração meio bobo e descompassado, mas com um sentimento afinadíssimo que me dizia, e ainda insistia: é preciso saber viver.

24 agosto 2004

Sempre ele


Primeiro eu recebi um e-mail:

“Bi,
enviei-te uma caixa de Pandora. Se tiveres dificuldade para a elaboração dos xaropes, favor me ligar.
Boas melhoras.
Um beijo
O Pai”


Duas horas depois, o porteiro me entregava a caixa de Sedex. Abri, com todo cuidado. Dentro: dois limões (sim! Ele enviou limão por Sedex!), um pote de mel, três cartões-postais da minha cidade, uma foto dele (comendo churrasco com uns amigos), uma barra de chocolate, uma caixa de Amanditas, um saquinho de ervas (?) e uma pomada “Bayro Gel”.

Segundo ele havia me explicado dias atrás, por telefone, o kit pomada/limão/mel/ervas servia – ele jurava – para “curar o pé”.

- É pra fazer uma fomentação, filha. Fomentação! – ele repetia, e eu quase podia ver pelo telefone os olhos esbugalhados de entusiasmo.

- Fu... o quê?

- FO-MEN-TA-ÇÃO, tchê! Fiz na tua mãe, e foi o que salvou o pé dela. Falando sério!

Minha mãe rompeu os ligamentos, assim como eu, mas o caso dela foi ainda pior. Teve de encarar a bota ortopédica (o gesso moderno) durante trinta dias. Fora a tala. E o que salvou o pé dela, ele afirma, foi a tal mandinga. Tá bom.

Bastou eu gargalhar no telefone quando ele me perguntou se eu não queria que ele pegasse um avião e viesse, munido dos equipamentos, fazer a fomentação em mim, para ele se ofender. E, quando papai Da Pieve se ofende, sai debaixo.

- Tá bom. Não quer que eu vá, não vou. Mas vou mandar o equipamento pelo correio, sim senhora. Te dou as instruções, e tu fazes aí. Tou dizendo, cura o pé.

Aquilo era uma ameaça. Claro que não levei a sério. Mas ele levou.

E hoje, então, chegou o “kit fomentação”: equipamento mágico capaz de curar os ligamentos rompidos de qualquer um. Pomada, mel, limão e ervas.

- Pai, limão e mel não eram coisas para a garganta? (Passei 20 anos ouvindo isso dele, a cada pigarro – ele se preocupava muito com a minha voz, muito mais que eu: como é que ela vai cantar desse jeito? E vinha com uma colher de mel.)

- No pé, filha. Fomentação.

- Tá sugerindo que eu faça uma caipirinha do meu pé! Isso não vai dar certo!

- Caipirinha, nada. Fomentação. Fomentação. Fomentação!

Quando ele começa a repetir a mesma palavra obsessivamente, já sei que se trata de uma idéia fixa que não vai morrer tão cedo. E, se morrer, ele empalha. Portanto, eu me rendo. Vou seguir as instruções e aplicar a mandinga salvadora.

Mas vou comprar uma Vodka – e fazer, ao menos uma caipiroska!

22 agosto 2004

Eu e meus desligamentos


Meu pé já ficou roxo, verde, azul, amarelo e marrom. Já inchou e desinchou mil vezes. Já doeu, aliviou, fez que ia melhorar, piorou de novo, fez que ia piorar de novo, e melhorou outra vez.
Agora, deu para estar vermelho.

Só posso concluir: depois de tudo que me aprontou nesses últimos dias, está é morrendo de vergonha. Com toda razão.


Coca Light

Vocês viram a cor da nova garrafa de Coca Light???
Trata-se de um prateado meio cinza-azulado, fosco, impossibilitando que se veja o conteúdo. Não sei por quê, parece uma garrafa de astronauta.

É futurista e misteriosa demais para a minha bolinha. E se eu comprar coca light e vier outra coisa dentro? Como, por exemplo, algum suco natural bem saudável? Que garantia eu tenho?

Bah, sou muito ressabiada e prefiro, portanto, a transparência dos frascos.
Aliás, nos sentidos líquido e humano.


No salão

A moça que fazia as minhas unhas, depois de lixar as da mão esquerda, pegou a direita e levou um susto:

- Ué! Tá diferente!
- O quê?
- As unhas. De uma mão são maiores e mais bem formadas que de outra!
- Ah, sim. Isso é porque eu toco muito violão...
- E fica assim, é? (Incrédula)
- Fica. A função de cada mão é diferente, acaba gastando as unhas de modo irregular.
- Ah. (Olhando a mão). E você toca muito mesmo, né?
- Bastante.
- Mas você também canta?
- Canto, sim.
- Aaaah, bom!

Realmente, ela estava aliviada por saber que eu estragava as minhas unhas num violão, mas, pelo menos, cantava. Era como se uma coisa justificasse a outra. Se ela canta, está liberada.

Isso me lembrou de uma história que ouvi do Yamandú Costa, violonista gaúcho virtuoso. Ele dizia que, quando pequeno, tocava violão o tempo todo dentro de casa. A avó ouvia, e parecia mais intrigada que admirada. Certa feita, indagou:

- Tá tudo muito lindo, meu filho. Mas será que você não podia cantar, umazinha só?

21 agosto 2004

Rugas


Rugas são apenas rugas. O pensamento é que são elas.

Quando a gente pensa que o mundo é pesado, o olhar não se agüenta e apela: abre logo uma vala na pele. E a culpa é de quem, cara-pálida?

Hoje eu saí pisando duro e notei um projeto de ruga querendo autorização para se instalar no meu rosto. Não vou permitir. Não quero vala, que vala vira córrego, e córrego vira riacho - e, se choro, transborda. E ainda me dá mosquito.

Melhor tratar de aliviar o traço da sobrancelha, mas usando a pinça para outro fim: pinçando a leveza dos fatos, delineando os afetos.

Que venha o relevo da idade, no tempo exato em que os arquitetos de Deus acharem justo. Mas não me venham propor parceria.

20 agosto 2004

Cultura eleitoral gratuita


Com o início do horário eleitoral gratuito, já estou escolhendo meus ídolos. A primeira delas é uma candidata a vereadora em Duque de Caxias, de nome artístico Elinha. Leia com o “e” aberto, assim: É-linha.

Pois ela achou de fazer um slogan que é qualquer coisa:

“Não é corda, nem barbante
Elinha é quem garante!”

Tem meu voto.


Senhora do destino

Depois que tive a infelicidade de beijar o meio-fio e romper os ligamentos, estou de volta ao sofá em horário integral. Mas, que pena, não gosto dessa novela das 8h. Pra mim, uma novela pode ter bom autor, bons atores, bom argumento etc; mas, se não tiver carisma, dançou. E eu acho que essa Senhora do Destino está sem carisma.

A protagonista Suzana Vieira está uns dois tons acima; a interpretação é caricata e repetitiva. O pobre do José Mayer, de cujo charme sempre fui uma fã declarada, apagou-se totalmente. Está modestamente servindo de escada para a namorada fictícia, e o casal não convence de jeito nenhum. Até o charme dele fugiu das cenas.

Justiça seja feita: Zé Wilker é o que há de melhor na novela. Mas, com aquele núcleo (casa dele) mezzo-pastelão, mezzo-perdidão, não há cena que se sustente boa do início ao fim. Estou torcendo para que peguem o ritmo agora, já que o triângulo amoroso (Zé/Suzana/Zé) parece começar a engrenar. E as cenas de Zé + Zé ainda prometem boas risadas, agora que o jornalista deixou um pouco o lado sisudo e está se entregando ao tom irônico que o momento pede.

Acho eu, né.


Colegas de desligamento

Mamãe Aninha, que tivera os ligamentos rompidos também, no início deste ano, trata de trocar figurinhas com esta filha novata no assunto:

- Não te assusta, minha filha, com as cores do pé. É assim mesmo. O meu começou meio preto, depois ficou roxo. Depois, passou a assumir cores variadas ao longo do dia.

- Cores variadas?

- Sim. Roxo, violeta, verde, rosa, vermelho e azulado. E, vez por outra, um amarelo-fluorescente aparecia, do nada!

Sei. Já estou até vendo, na calada da noite, papai Da Pieve desenhando com marcador de texto no pezinho da bela adormecida, só para ver a cara dela de assustada ao acordar.
Papai não é mole. Hoho.

17 agosto 2004

Cuidado com o meio-fio


Como todos já sabem, torci o pé no sábado de manhã, e estou com gesso até o joelho. Só não estou torcendo para não ser nada mais grave porque, como todos sabem, já torci o suficiente... (hoho, o que acharam do trocadilho infame, logo na saída?)

Passei o dia quicando pra lá e pra cá, num pé só. Para detonar de vez com a minha superstição, ainda por cima o pé que ainda presta é o esquerdo, ou seja, não tem jeito.

Agora começou a doer a lombar (L4 e L5, para os entendidos do assunto), ali onde a minha rica hérnia de disco faz a festa, soberana. Por conta de andar torta, pisando como um ponto-e-vírgula desgovernado, ainda se acentuam as dores da minha escoliose, e... vocês imaginam a cena. A véia está que só geme. Mamãe Aninha, sarada e poderosa, que não me visse nesse estado patético. Ia me deserdar na hora.

Mas o pior nem é isso. O pior é explicar, a cada moço que vem entregar alguma coisa aqui em casa (estou mandando ver no delivery), o que foi que se sucedeu.

- Machucou o pezinho, foi? – Observou o rapaz da padaria.
- Pois é... (riso amarelo).
- E como foi?
- Bom, eu vinha andando pela rua, e... quanto deu mesmo? Trouxe troco pra 20?

Estou fazendo de tudo para não dizer que eu caí foi de madura mesmo. Até pode ficar com o troco, se quiser. Que me estabaquei, gratuitamente, foi por não ter enxergado o meio-fio (que está ali há mais ou menos cinco anos).

Mas, a vida é isto. De vez em quando, sem maiores explicações, a gente é atropelada por um meio-fio que estava ali há cinco anos – e só a gente não percebia.

Capiche?

14 agosto 2004

Agora sou uma mulher de Época

Clique na minha foto e confira a novidade!


BRRRRRRRRRRRRR!!!


Escute aqui: você não se cansa de rir para todo mundo?

Ah, eu canso. Não sei como é que pode você, comadre, andar por aí toda prosa em horário integral, sem pausa nem pro cafezinho, cumprimentando os vizinhos, o carteiro, as babás da pracinha, os porteiros da redondeza e mesmo o seu patrão. Tem hora que chega, né?

Eu tenho pra mim que esse dom de sair na rua mostrando os dentes é uma questão de freqüência: há dias em que tudo bem; mas há dias em que, francamente, vibramos uma oitava abaixo. Dá uma vontade de responder – bom dia por quê?

Nada pessoal, mas tem um sujeito me acordando sistematicamente, essa semana, com uma britadeira ordinária que entra no meu sonho e não escolhe gênero: fura tudo. Romance, suspense, tudo. Se estou sonhando que o Marcelo Anthony enfim está, enfim, cortando salsinha na minha cozinha, entra a máquina e perfura a minha vida. Não me deixa nem provar o sabor da comidinha dele, que dirá o resto.

Ontem eu abri a porta da varanda, furiosa, mirei o assassino de sonhos e sua geringonça demoníaca, pigarreei três vezes. Nem me notou, claro. Seguiu entretido em sua tarefa bizarra de achar um esquilo ou um japonês, o que vier primeiro - só pode ser isso, e rezo para que ache logo, que assim o Marcelo e eu podemos terminar o que havíamos começado. Infelizmente, meu protesto silencioso resultou em absolutamente nada, e o sujeito segue furando o que vê pela frente.

Se a prefeitura quer mesmo mostrar serviço, deveria providenciar um silenciador gigante para essas engenhocas, ou então um concreto não perfurável, ou um barulho não audível. Ou, em último caso, homens sem braço. Qualquer coisa.

O que não pode é eu, uma pré-balzaquiana de hábitos incorrigivelmente noturnos, ficar sendo importunada às poucas da madrugada por um ruído maquiavélico desse calibre. O prefeito sabe quanto custa uma bisnaga de creme antiolheiras? Sabe?

Bom, as eleições estão aí.

13 agosto 2004

25 mil visitas


Buenas!

Desculpem o mau jeito; não fiz sorteio com direito a crônica encomendada para quem fosse o visitante número 25 mil, não fiz cartazes, não fiz filipetas, não contratei carro de som... enfim, não promovi o evento como ele merecia. Mas o fato é que vocês vieram. E o contador registrou.

25 mil vezes, eu escrevendo minhas agruras do cotidiano, da insônia à mesa quebrada ao meio – e vocês aqui, fiéis, habitando minhas ranzinzas linhas. E freqüentando o espaço para comentários para discutirem tópicos relevantes, tais como a dificuldade em se desenhar um bonequinho de mãos para cima com o teclado do computador. Só falta combinarem um cineminha.

Ainda que eu não seja mais o motivo da vinda, orgulho-me de meus dispersivos, poucos e bons leitores. E agradeço, se é que alguém ainda passa os olhos aqui no corpo do blog – e não se dirige direto ao fórum dos “comments”, sedento por uma discussão realmente motivadora. Hoho. Como eu sou má.

Ironias à parte – se é que eu consigo me desvencilhar delas nalgum raro momento de lucidez -, adoro vocês por aqui.
25 mil beijos!

11 agosto 2004

Meu nome é...

- Bom dia, eu queria pedir um táxi.
- Pois não, senhora. Qual o seu nome?
- Bíbi.
- Lídia?
- Bíbi!
- Mirian?
- BÍBI!
- Como?
- Bibiana.
- Viviane?
- Bibiana!
- Lidiane?
- BIBIANA!
- Miriana?
- Meu Deus...
- Quem?
- Patrícia! Meu nome é Patrícia.
(pausa)
- Senhora Patrícia, o cadastro está em nome de quem?
(respiro fundo)
- Em nome de Bíbi.
- Lídia?
- É a tua mãe, ô &*)$&* #*(@#$!!!

(Também não sou de ferro).

***

Mulher é bicho triste...

- Querida, como você esta linda hoje!
- Como assim, “hoje”? Quer dizer que normalmente sou feia?
- Não! É linda sempre. Mas hoje está mais!
- Só porque estou com a cara toda rebocada de maquiagem? Quer dizer que, de cara lavada, sou uma bruxa?
- Não, amor!

Etc e etc, até que ele a convença de que, misteriosamente, ela é o único ser do planeta que consegue estar sempre linda, e, “hoje”, estar mais linda ainda.


... mas homem é bem pior

- Querido, o que você acha desse vestido?
- Curto.
- Não estou falando de comprimento, mas da cor. Prefere esse tom, ou aquele mais puxado pro creme?
- Quem? (Palitando os dentes e zapeando no controle remoto ao mesmo tempo, enquanto pensa na preguiça de levantar para pegar a próxima cerveja).
- Creme!
- Tá ótimo, amor, não precisa de mais creme. Minha mãe só usa creme em dia de domingo, e até hoje está com uma pele de pêssego...
- Creme, a cor, amor! A cor!
- Ah, não entendo de cor. Vam’bora logo! Tu já passou aquele reboco?
- O quê?
- Re-bo-co, aquela massa corrida que você usa no rosto...
- Base, amor!
- Base, creme, reboco...
- Não acredito que você apertou o tubo de pasta de dente no meio outra vez!
- ...tubos e conexões... tudo a mesma merda.

10 agosto 2004

Na rua

Em Ipanema, ontem à noite, estacionei e fui conversar com uma tia que vendia churrasquinho na esquina:

- Oi... será que pode estacionar ali?

E ela, casual:

- Você estacionou no meio da rua?
- Não!
- Então pode.

Quem mandou eu fazer uma pergunta idiota?

***

No salão de beleza

O papo era sobre cachorros. A dona do salão se gabava do Brutus, fiel, amigo, enorme – batia no ombro dela, quando “em pé”. Mas dava um trabalho... E ela gastava um salário mínimo por mês, só em ração!

E a manicure:

- Pois o meu, vira-lata mesmo, quase morreu outro dia. Foi envenenado. Já imaginou, que judiaria? Só se salvou porque eu botei um ovo na boca dele.

E eu, péssima de entrar de bunda no assunto alheio por educação:

- É mesmo? Desintoxica?

E ela:

- Não, OVO! Ovo mesmo. (Como se eu estivesse surda). Puta simpatia. Salvou o cão.

Sabia não.

***

No posto

Desci do carro para abastecer (gás), veio o moço puxar papo:

- Cadê o...?(faz gesto de cabelo comprido)

- O cabeludo?

- Esse!

- Tá em casa.

- É seu irmão, né?

- É.

- Reparei. (Olha para os meus pés). ‘Cês não são daqui, né?

- Não. Do sul.

Ele continua olhando para os meus pés.

- Reparei. Lá se usa isso, né?

- Botas??? (Eu, já intrigadíssima)

- É, botas.

- Sim, lá se usa...

- É cada coisa, hehe. Mas eu também, quando era moda, usava “kichute”.

- Completou, né? Quanto deu?

(Antes que aquele papo evoluísse...)

08 agosto 2004

Vivendo no gerúndio


Fiquei sabendo hoje, depois de 26 anos, que o meu nome significa “vivendo”. Será que é assim, no gerúndio mesmo - vivendo?

Gostei do gerúndio - apesar da forma estar tão gasta, mal usada, mal falada e mal paga -, porque sugere uma certa continuidade que me conforta. Passar a vida inteira no particípio é que deve ser dureza; e, de mais a mais, a verdade é que a gente vai levando.

Muitas vezes, temos a impressão de que a vida está definida; os planos estão traçados, o emprego está garantido, o amor está sacramentado. É só manter o prumo e não fazer nenhum movimento brusco – transar com o cunhado, tomar um porre na frente do chefe etc -, que tudo estará cristalizado no presente, até que a morte nos transforme em passado.

Mas o particípio não se sustenta nas próprias pernas – desaba, quando menos se espera, e caímos de novo na incerteza do crescendo, aprendendo, reinventando. O gerúndio segue reinando, absoluto, como um cavalo em movimento incansável.

Acho que a grande sacada deve ser aprender a dançar em cima dele.


PS: Já reparou como alguns substantivos parecem verbos no gerúndio? Exemplo: mundo. Que, se tirar a terminação de gerúndio (ndo) e colocar a do particípio, fica mudo.

06 agosto 2004

Filme: Encontros e Desencontros (Lost in Translation)



O filme me pegou de jeito. Não sei se foi o meu momento, a madrugada solitária que resolvi usar para este fim, ou alguma outra coisa. O fato é que me vi totalmente abobalhada diante da tela. Cenas sensíveis, cortes interessantes, questionamentos não pretensiosos sobre a condição humana. A paisagem frenética e colorida de Tóquio em contraste com a solidão dos quartos de hotel. Uma menina de 20 e poucos anos e um homem cinqüentão. Ternura, afeto, suavidade. Entrelinhas.

Descobri por que o filme me pegou.

04 agosto 2004

Rápidas


Essa novelinha das 6h é uma gracinha, e eu vou querer um daqueles Tobias (Tubía, como eles dizem) pra mim. Alguém sabe onde vende, a granel?

Vou querer, igualzim. Bem xucro, mess. Às vezes a gente também quer só um tra-bíceps-vesseiro pra encostar a cabeça e babar, tá? Numa noite fria de chuvinha fina. Quem disser que não, é mentira.

***

Minha faxineira é uma fofa. Perguntando, hoje, se eu tinha a tampa daquela panela de pressão. Não tenho. Que, se tivesse, ela podia cozinhar um feijão pra mim da próxima vez, enquanto fazia a faxina, e depois separar tudo em potinhos e pôr a congelar.

Agradeci, sensibilizada. E, orgulhosa, disse ter cozinhado o feijão mesmo sem panela de pressão (ou sem a tampa, o que dá no mesmo). E ela, no ato:

- Eu percebi. Comi hoje. Feijão bem duro.

***

Meu irmão me incomodando para achar a página dos quadrinhos no jornal de domingo, em meio àquela bagunça de jornal espalhado – que, diga-se de passagem, ele faz e eu condeno.

- Não vai achar! Não vai achar! – eu disse, pondo a mão em cima da pilha.

Ele procurou mesmo assim, e achou. Ao que me surpreendi com a minha atitude de mulher madura, enquanto ele ia levando os quadrinhos:

- NO FINAL, O CEBOLINHA VAI PULAR N’ÁGUA E A PISCINA ESTÁ VAZIAAAAA!

Depois me arrependi. Não se faz.

***

Ele saiu, e, na volta, ouvi um barulho embaixo da porta do meu quarto. Era um almanaque da Turma da Mônica, todinho só pra mim.

Tapa de luvas.

***

Hoje, pagando o extrato do meu cartão de crédito, observei a seguinte ironia: pago R$ 40,00 para receber todos os dias, na porta da minha casa, assassinatos, assaltos, desrespeito ao cidadão e ao meio-ambiente, roubo de dinheiro público, chacinas e impunidade.

Quanto será que me cobrariam para assinar só o João Ubaldo, hein?
Pai é pai

26 anos na cara, morando fora (noutro estado) desde os 20. Sexta-feira, depois de ter suado em bicas durante o show, fui comer pizza na varanda do bar e peguei um resfriado. Contei à minha mãe, por e-mail, entre um espirro e outro. E ela, lá, contou pro meu pai, que não hesitou em observar:

- A falta que um pai faz...


Pai é pai - II

1992. Eu tinha recém começado com essa história de banda. Tocávamos na praça de alimentação do shopping da cidade – que, por sua vez, também tinha recém começado com esse negócio de shopping. Eu tinha torcido o pé jogando basquete um dia antes, mas estava ótima, não tinha sido nada.

Minutos antes do início do “show”, a galera já reunida, abarrotando as cadeiras da praça de alimentação; a banda, naquele nervosismo e silêncio pré-primeiro-acorde. Contagem regressiva.

Lá detrás, afoito, meu pai vem abanando alguma coisa no ar. Não quero crer que é ele. Quanto mais se aproxima, mais reconheço o grave esbaforido da voz:

- Filhaaaaa! Filhotaaaaaa! Pera!!!! O pai trouxe um Gelol pro teu pezinho!!!

Como eu queria que houvesse outra filha, outra filhota, outro pezinho, e outro pai maluco que não fosse o meu, a gritar sandices à beira do palco. Como eu era a única menina de banda, olhei para os lados, mas não adiantou disfarçar. O jeito foi sorrir amarelo:

- Não precisa, pai. Pode ir. Não precisa, estou bem. Vai...

Ele não se intimidou diante da minha cara feia (afinal, foi ele quem fez!), e me tirou do sério: com a outra mão, sacou, de súbito, um Toddynho (!):

- Então pelo menos pega o Toddynho que o pai trouxe, faz tempo que não te alimentas...

Bufei, e ele sumiu no vapor da minha bufada. Quem não o conhecesse poderia até dizer que fui áspera com o pobre pai cuidadoso. Que nada.

Cheguei em casa e fui tirar satisfações. Ele se refestelava no sofá, às sonoras gargalhadas:

- Quáquáquáquáquáquáquáquá!!! Essa do Toddynho eu tinha planejado há uma semana! Mas aí pintou esse improviso do teu pé, e eu não tive dúvida: comprei um Gelol e aperfeiçoei o número! Quáquáquá! Foi ou não foi de mestre? Quáquá! Morreu de vergonha! Bem feito! Quáquá!

01 agosto 2004

Minha mesa meia-lua de vidro


Estava aqui, diante do micro, atualizando meus contatos cibernéticos e dando de comer aos vícios virtuais. Foi quando, de repente, um bom pedaço da minha mesa de vidro se foi ao chão, sem a menor cerimônia, como criança que quer alguma coisa e não ganha. Só faltou bater os pés.

O barulho produzido pelo suicídio da mesa foi tamanho, que só não me grudei no lustre porque não tenho lustre. Susto passado, fiquei me perguntando o que teria feito a metade da mesa se indispor com a outra metade desse jeito tão dramático, rompendo abruptamente num divórcio certamente sem chance de volta. Uma pena. Juntas, as metades formavam uma bonita lua cheia. Agora, tenho apenas uma mesa meia-lua de vidro.

Está certo que eu nunca havia entendido direito como encaixar uma mesa redonda nalgum canto da sala, de modo a criar um ambiente (não é assim que os decoradores dizem, ambiente?) charmoso, à minha altura. E ficava arrastando, de lá para cá, a pobre da mesa arredondada, girando, girando, até que ela me parecesse um pouco mais... quadrada. E nada.

Com o divórcio das partes, ao menos consigo encostar a parte reta na parede também reta, e a meia-lua parece estar embutida no concreto. Posso fazer minhas refeições solitárias de frente para a parede, ou até pendurar um quadro com o rosto do Richard Gere para me fazer companhia.

Do café da manhã à ceia, estarei apoiada sobre a metade cheia da mesa, e Richard preencherá lindamente a outra metade.

Quando eu estiver de dieta, inverto a mesa.

31 julho 2004

O show de ontem

O som, no palco, estava muito melhor do que nas últimas vezes em que tocamos lá. A bateria ficou no canto, e disso eu não gostei - ficou meio “torto”. Eu tinha de olhar para o lado direito para enxergar o baterista, e para o lado esquerdo para ver o guitarrista. Enfim, detalhes cênicos.

Depois do show, veio um moço dos dentes bonitos (conforme observou depois a minha cunhada, que não perde um detalhe odontológico):

- Muito obrigado, você salvou a minha noite! Raramente venho aqui, mas hoje tinha um amigo deprimido, você sabe... a mulher dele, você sabe... (fiz que sabia) E aí me aparece essa surpresa, você! (Fiz que não sabia) Uma mulher que é puro rock’n roll!

Fiquei feliz; mais pelo prazer proporcionado do que, propriamente, pela veracidade do título. Se ele me pega tocando Canto Alegretense (ouve um canto gauchesco e brasileiro / desta terra que eu amei desde guri) e cantando a plenos pulmões aqui na minha sacada, estou perdida. Ou, pior: cantando Besame Mucho (como si fuera esta noche la ultima vez) para a minha mãe rir... já pensou?



Simancol

Pouco antes do show começar, meu irmão já em cima do palco acertando o equipamento, duas moçoilas pedem para subir. Querem tirar uma foto em frente ao microfone, fingindo que estão cantando. Sobem e começam a rebolar, fazendo caras e bocas para a outra amiga, lá embaixo, bater a foto. Se estão atrapalhando a banda que está prestes a começar? Não pensaram nisso. Uma delas tem uma idéia brilhante e cutuca meu irmão, toda sorrisos:

- Ei! Você pode fingir que está tocando a guitarra pra gente bater a foto??

Resposta dele:

- Não. Estou aqui a trabalho.

Ploft-ploft! (Barulho da cara delas caindo no chão). Hoho.
Beeeeeeeeeeem feito.



Bodas

Meus pais comemoraram, na quinta-feira que passou, 32 anos de casados. Saíram para jantar e dançar.

- A banda era ótima. Sobretudo quando os músicos tocavam, os três, a mesma música.
- Como assim?
- Ah, não sei. Volta e meia eles discordavam, saía cada qual tocando uma coisa diferente, principalmente no início da música. Depois, se olhavam e acertavam o passo. Aí, dava pra gente dançar e tudo!

Sei como é. Já aconteceu comigo. Abafa o caso.

28 julho 2004

Para quem é do Rio
 

Sexta-feira (30/07) tem show no Far Up!
Endereço: R. Voluntários da Pátria, 448 - Cobal do Humaitá.
Horário: 23h

Estarei, acompanhada de minha banda, fazendo covers de rock nacional e internacional, além de alguma música própria.
No repertório: Barão Vermelho, Rita Lee, Alanis, James Brown, Creedence, Kenny Loggins, Cardigans, etc etc etc...

E aí? Você vem?

 

19 julho 2004

Caetano por Marina W

 
Poramordedeus, leiam no blog da Marina as impressões sobre o show de Caetano no Municipal (sensação da semana aqui no Rio), entre as quais destaco a seguinte sacada:

"Com exceção dos aplausos demorados, a platéia do Municipal foi fria, muito fria. Os cafonas acharam que onde tem orquestra - maravilhosa, regida por Jacques Morelembaum - há de haver um respeito fúnebre. Até no bis, quando ele canta Mamãe eu Quero, talvez a música mais contagiante do Brasil, ninguém canta com ele."

E ainda diz Marina:

"Paula Lavigne dava ordens antes do show começar, vocês me entendem."
 
Entendo, Marina. E como entendo.

Frase
 
 
Essa é do João Ubaldo, tentando reproduzir uma frase atribuída a Nelson Rodrigues :
 
"Se todo mundo soubesse da fantasia sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém."
 
É ou não é uma maravilha?
 
 
 
Constatação
 
 
Quando o sol bater
na janela do teu quarto
lembra e vê
que o caminho é um só.
 
Por que esperar
se podemos começar tudo de novo
agora mesmo?
 

18 julho 2004

Deus abençoe os programas de auditório!
 
 
Pois pude extrair hoje a seguinte pérola, dita por Luciano (do Zezé):
 
"Acabou de ser filmado as filmagens do nosso filme."
 
 

16 julho 2004

DVD
 
Não tenho visto muitos filmes ultimamente, mas tem dois que recomendo:
 
O júri

Se é que alguém ainda não viu. Como o nome já diz, é um filme de tribunal. Mas não é só isso. Tem um roteiro envolvente do início ao fim, um suspense interessante e boas atuações. Filmão, assistam!
 
 
O quinto passo (em inglês, Levity
 
Com Billy Bob Thurnton e Morgan Freeman. Esse não é um filme comum, e também não é um “filmão”. Mas eu gostei muito. Trata-se de uma história sensível - sem ser chata! - que fala de perdão e destino. Traz um olhar interessante sobre a condição humana; mas não espere lições de moral ou um filme pretensioso. 
  
  
Feijão cibernético 
  
Aconteceu comigo. Fui cozinhar 1 kg de feijão (para congelar). Tudo ia bem, até que resolvi provar o sal – como sempre -, e tive uma desagradável surpresa: estava salgado DEMAIS!
 
Nunca tinha colocado tanto sal numa comida antes. Era insuportável, certamente eu tinha estragado o feijão. Fiquei desesperada. Procurei batata (todo mundo sabe o truque da batata – ela “chupa” o sal da comida), mas não tinha. Joguei duas cenouras, no desespero. E vim ligar o computador. Santa internet, deve haver alguma solução.
 
Digitei no Google: “muito sal comida”. Como quem faz uma prece digital. Muito sal comida. E o feijão fervendo. E as cenouras. E o meu suador. E a minha vontade de rir, e o meu abafo do riso – em respeito a mim própria e à tragédia que se instalava na boca maior do meu fogão. Ai, Jesus.
 
“Se você colocou muito sal na comida, experimente pingar algumas gotas de limão, depois deixe ferver mais um pouco” – achei no Google!
 
Limão? É pra já! Cortei um limão e espremi, não apenas algumas gotas, mas o limão inteiro – afinal, era “muito sal comida”!
 
Confesso que já estava descrente. Meu feijão estava arruinado, era um caso perdido. Por mais que eu jogasse cenoura ou limonada, ou mesmo adoçante (confesso que não fiz, mas quase, quase!), nada resolveria. Era o fim da feijoada, eu tinha de me conformar.
 
Que nada! O Google (pra variar!) tinha razão. E o limão resolveu o caso do meu feijão salgado, como num passe de mágica.
 Quem quiser provar o meu feijão cibernético está mais que convidado.

14 julho 2004

Se é que me permite...


Às vezes eu tenho vontade de chegar perto das pessoas, com esta minha cara de “se é que me permite”, e me permitir algumas coisas - mesmo sem esperar ser permitida.
Se é que me entende, mesmo sem ser entendida.

Não digo apoiar o queixo na mão e franzir a testa - que isso eu já faço há anos -, e discutir alguma relação, ou criticar alguma atitude, sugerir melhoria de comportamento. Muito pelo contrário; cultivo uma gana silenciosa de atropelar certos padrões da sociedade e cometer uma indiscrição digna de burburinhos paralelos. Sem base, mesmo.

Abordar uma mulher que nunca vi mais gorda e me oferecer para carregar as suas sacolas. Dar um beijo na testa do motorista do ônibus. Passar a mão no cabelo de um adolescente com cara de rebelde. Cutucar um senhor barrigudo e pedir que observe como é ainda maior a barriga daquele outro.

Se é que me permite, eu adoraria perguntar tudinho sobre a sua vida, e ainda fazer observações a respeito dos seus parentes. E vou falando (se é que me entende) como se eu fosse a mais íntima das criaturas (mesmo sem você entender patavina), e dou pitacos na herança dos seus pais, no corte de cabelo da sua tia ruiva, e ainda sugiro que seu afilhado mude de colégio – assim, no meio do ano letivo.

Ninguém entenderia uma mulher desgovernada como eu, distribuindo ações descabidas a quem visse pela frente. E ninguém gostaria de ser abordado de maneira diferente daquela usual, aprovada e garantida do dia-a-dia.

Primeiro, porque não se usa gostar de nada que nos tire do prumo.

Segundo, porque as pessoas hoje se armam mais e se amam menos.
Mó legal!


Essa eu chupei do blog da Marina.

Clique aqui e se divirta! Você digita o texto que quiser, e "eles" falam o que você digitou.

Ps: tem que lembrar de ligar as caixinhas, né, meu anjo?

10 julho 2004

Faço minhas...

...as sábias palavras do Arthur Dapieve, no Globo de ontem, sobre o mais recente lamentável episódio do mundo BRock (é meu o grifo na última frase):

“Não curto Charlie Brown Jr., mas minha filha adora. Acho fraco de música e de letra, mas simpático e honesto em “Proibida pra mim” ou “Eu não uso sapato”. Diante da agressão de Chorão a Marcelo Camelo, porém, passo a achar fraco de espírito também. Típico de um país que acha que cabeça só serve para dar cabeçada. Ter atitude, no Brasil, é romper o ciclo da truculência e atar o ciclo da paz.”



A perguntar que não quer calar

O que é que Marcos Menna, o bonitinho vocalista do L S Jack, fazia numa mesa de lipo?



Nã-nã-nã-não entendo

Definitivamente, há algo de muito estranho no mundo da publicidade. Onde diabos foram parar os bons jingles? Aqueles que “grudavam” no ouvido da gente, com boas melodias, letras sintéticas (como devem ser) e apelo emocional eficaz?

Para vocês terem uma idéia, até hoje, quando vejo a marca da Brahma, lembro daquela musiquinha adaptada: “Pensou cerveja, pediu Brahma Chopp... etc” -, fora de circulação há não sei quanto tempo -, que consagrou o bordão “número 1”, Ronaldinho na copa, e tal. Depois disso, o que é que se viu/ouviu?

O bordão “refresca até pensamento” até foi uma boa sacada, mas não acho que tenha sido bem executado. Agora, essa do “na-na-na-na” devia levar um prêmio... francamente, acho que refrescaram o pensamento demais - até que ele congelou.

E aquelas campanhas lindas da Parmalat? E aquela menina que descrevia a caixinha de leite: “você corta o biquinho da vaca, e aí, vira a vaca de cabeça para baixo”! Cadê?

Sem falar nas campanhas do Bom-Brill, claro.

Agora, que pobreza é essa de “Ace todo branco fosse assim”? O sujeito cata o primeiro trocadilho infame que achar pela frente, e está feita a campanha? Então eu vou me candidatar.

Outra pérola: “Dúvida por quê? Detergente é Ype!”. Só de raiva, vou direto ao concorrente.

E o “mala das Casas Bahia”, que acabou virando mesmo celebridade? Em terra de cego...

E o cara que tem a língua “pgesa”, protagonista de uma peça publicitária cujo ápice do texto é quando ele diz: “Agagaquaga” em vez de Araraquara!!! Onde é que nós estamos?

Só posso concluir que, depois que liberaram geral as bundas e os peitos na publicidade, o povo se empolgou tanto que acabou perdendo o jeito com as palavras (faladas e cantadas, diga-se de passagem). Agora, estão tateando no escuro de uma criatividade cada vez mais impalpável.

06 julho 2004

Frente em verso


Viva a frente fria
Que chegou no fim de tarde
Invadiu nossa cidade
E me encheu de alegria

Viva a frente fria
Mal querida e mal falada
Nem um pouco ensolarada
Encoberta, recatada

Viva a nossa frente
Que eu escrevo em verso
Viva a nossa fonte
De inspiração

Viva à sua frente
Que eu refresco em rima:
Viva a sua sina
Com todo coração!


(Aqui eu quase puxei um refrão em lá maior, como num repente, mas achei que já bastava de pieguice, hoho...)
Frente em verso


Viva a frente fria
Que chegou no fim de tarde
Invadiu nossa cidade
E me encheu de alegria

Viva a frente fria
Mal querida e mal falada
Nem um pouco ensolarada
Encoberta, recatada

Viva a nossa frente
Que eu escrevo em verso
Viva a nossa fonte
De inspiração

Viva à sua frente
Que eu refresco em rima:
Viva a sua sina
Com todo coração!


(Aqui eu quase puxei um refrão em lá maior, como num repente, mas achei que já bastava de pieguice, hoho...)

05 julho 2004

Coisas que ficam


Estava fazendo uma “faxina” quando encontrei uma velha caixa de sapato; dentro dela, alguns bilhetes, cartas antigas (do tempo das cartas!), postais de gente querida. Lá no fundo, um papel timbrado do estado do RS, carimbado e tudo mais, com uns escritos que estão quase se apagando... apertei os olhos para ver se era alguma certidão importante. E era. Diz assim:

Estado do Rio Grande do Sul
Polícia Civil
Depto. de Polícia Metropolitana
Centro de Operações
Área judiciária

(Carimbo da Polícia Civil)

(Outro carimbo, escrito “VISTO: URGENTE”)

Bibi

Certamente ele quis deixar o mundo mais bonito há 17 anos. Com certeza ele exagerou na dose. Além de mais bonito, fez o mundo mais inteligente, mais carinhoso, mais amigo e principalmente muito mais alegre para se viver.

Ele não precisava, pois é justo, e acabou abrindo uma exceção e foi bondoso comigo, deixando que eu pudesse te embalar, te ouvir, te admirar e viver junto de ti.

Tudo que me ensinaste nesses 17 anos, jamais eu teria aprendido com outra pessoa. Sou grato por isso, não merecia tanto dele!

Te adoro e te admiro e sei que podes, ainda, dar ao mundo tudo que ele nunca teve.

Feliz Aniversário


(Carimbo e assinatura): Luiz Da Pieve
Delegado de Polícia

***

Fechei a caixa, e um nó se instalou na garganta de uma filha que resolveu morar longe e ainda não tem dinheiro para comprar um avião.

02 julho 2004

O Rio de Janeiro anda muito, muito chato


Assuntos fervilhantes do Rio:

- A nudez de Vera Fischer numa peça de teatro - que não me interessa;
- A ausência total de pêlos em pernas e partes de Vera Fischer que não me interessam (apesar de ela declarar que jamais se depila);
- Aliás, quero deixar bem claro – pelo sim, pêlo não (não resisti ao trocadilho!) - que nenhuma parte da Vera Fischer me interessa;
- A derrota do Flamengo, na última quarta-feira, para o Santo André;
- A soltura do empresário-e-ex-deputado-Sérgio-Naya, após 106 dias de prisão;
- O debate dos candidatos à prefeitura, na Rede Globo;
- A ameaça de mais uma guerra entre Rocinha e Vidigal;
- As “festas-temáticas-e-nostálgicas-sobre-os-anos-80” que pipocam pela cidade (misteriosamente, trazendo apenas o que a década produziu de mais bizarro e podre e vazio);
- O “veranico de inverno”, que assola a cidade, elevando as temperaturas e instigando milhares de cariocas a se aglomerarem nas praias da Região dos Lagos – infelizmente, o “evento” não é suficiente para deixar as praias da zona sul/oeste menos abarrotadas nos fins de semana (o que seria, de longe, a única vantagem);
- O Fashion Rio, ou coisa que o valha – que não me interessa;
- A primeira semana da nova novela das 8h-que-começa-às-9h – e que não me interessa, porque só assisti a um pedaço do primeiro capítulo, e achei muito chato;
- O aumento abusivo/absurdo/podre/podre de novo/e podre outra vez dos preços na telefonia fixa;
- ... e por aí vai.

Agora, fala sério: tá difícil achar alguma graça nisso tudo, né? Há que se ter qualidades circenses!

01 julho 2004

FAMA

Ouvi na propaganda do Fama a seguinte frase, dita por uma participante:
“Essa música é maravilhosa. Com certeza eu poderei, não só cantá-la, mas dar um verdadeiro show!”

É bom que eles já vêm com a modéstia embutida. Hoho.

***



Padre não julga


Minha Vó Manoela punha um vestido azul-marinho com bolinhas (na verdade, eram bolotas) brancas, com o cintinho combinando (que ela mesma devia ter feito), e me levava à missa. Eu tinha um jeito estranho que se dividia em achar graça daquilo, mas, ao mesmo tempo, sentir uma paz enorme quando entrava na igreja de mãozinha com ela.

Um dia eu disse a ela que queria me confessar, mas estava com medo. Medo de quê? – perguntou.

Estava com medo do tamanho da penitência, pronto, falei.

Vó Manoela deu risada e me garantiu que, na minha idade, ninguém cometia pecado que pudesse resultar em penitência gigante. Mas eu relutei mais alguns quarteirões; ela ia me arrastando pela mão, eu ia travando o passo e a conversa, já achei que tinha falado mais que a boca, queria esquecer esse papo de confissão, mas não achava outro assunto, e a vó insistia, que era bobagem ter medo do padre etc.

Quando ela perguntou, enfim, qual era o meu pecado horrendo, resolvi contar:

- Tenho medo de estar com a Doença de Chagas!

Eu tinha estudado, nas aulas de biologia, sobre a tal doença - provocada por um protozoário cujo nome científico agora uma busca na internet me ajuda a lembrar: Trypanosoma Cruzi! Esse bicho é transmitido por um inseto conhecido como “barbeiro”, que tem o design assemelhado ao de uma barata, só que mais mirradinho.

Bastaram algumas ilustrações nos livros didáticos, e eu achar uma barata qualquer em casa (ou mesmo uma formiga meio crescida): daí a imaginar que eu estava com a Doença de Chagas, foi um pulo. E, daí a me sentir culpada, foi um abraço.

- Como assim? Por que é que você pensa que é pecado ter medo de estar doente?

Essa resposta foi fácil. A Vó tinha me ensinado que Deus queria que a gente confiasse nele, sempre, até de olhos fechados. Dizia ela que, em tempos difíceis, não deveríamos enfraquecer; apenas rezar e confiar, que o mal iria embora. E que deveríamos temer somente a Deus.

Pronto. Se Deus achava certo que só temêssemos a Ele, seria, no mínimo, um desaforo ter medo de uma baratinha raquítica cujo cocô (literalmente) pudesse me deixar doente!

O padre certamente iria me excomungar. Eu, uma fedelha desclassificada que, em vez de ajoelhar e rezar por saúde, temia a doença possivelmente trazida por um bicho que eu achava que talvez lembrasse um pouco aquele das ilustrações dos livros.

Mas, não, ela me tranqüilizou: o padre não ia achar ruim “Até porque padre não julga.” Falou assim, rapidinho: padnãojulga.

Agora essa: padnãojulga. E eu tinha elaborado um discurso todo meticuloso, ia começar transferindo um pouco da culpa para a professora de biologia... mas, padnãojulga. Droga, ia ser sensacional. Mas, padnãojulga.

Então nem teve graça, eu fui lá e resumi – negócio é o seguinte, estou com medo de uma barata que pode ser barbeiro e pode ter me passado a Doença de Chagas. Quantas Ave-Marias dá isso?

E o padnãojulga me receitou, sei lá, meia-dúzia.

27 junho 2004

Buenas!


Nem vou falar aqui do final de Celebridade, porque o assunto já está muito batido. Pronto, esnobei.

Queria agradecer às moças que declararam, nos comments, que vêm aqui atrás de inspiração (Paula e Carol), adorei saber! Imagina, logo eu, que ando tão carente de inspiração nesses tempos bicudos. Aliás, “bicudos” é uma palavra e tanto. Inspiradas, agora? Hoho.

***

Quanto ao Bíbi-Quiz, apareceu por lá gente suspeitíssima... quem são “anônimo” e “gasparzinho”, por exemplo?

A superintendência quer muito saber.

E já imagino a Melissa pensando: “tsc tsc... a bíbi ainda não entendeu que a internet definitivamente não é um ambiente familiar...” (Ela pensa sempre com reticências).

***

Voltei de Campos num ônibus executivo da 1001, desses que deitam o banco bem deitado. Uma mulher grávida veio do meu lado. Ela na janela, eu no corredor. Grávidas precisam fazer xixi toda hora. Quando eu estava começando a esticar as pernas, ela me sorria: você me daria uma licencinha? Eu, muy generosa, dava.

Pensei em trocar de lugar com ela, mas ela se adiantou: “Hehe. Vou pegar minhas coisas e ir sentar lá atrás, fica mais fácil para ir ao banheiro toda hora. Hehe, você sabe (mostrando a barriga). Aí você pode ficar mais à vontade, hehe, pode dormir sossegada. Hehe. Hehe.”

Antes, eu nem tinha me incomodado muito. Mas dei graças a Deus quando ela resolveu pipocar dali assim que percebi o quanto ela era uma pessoa do tipo “hehe”. Desconfio muitíssimo dessas pessoas, e não me sinto nem um pouco na obrigação de dialogar mantendo esse gentileza “hehe” o tempo todo. Tipo da gentileza amarela, forçada, padrão. Hehe. Hehe. Hehe. Toda hora, hehe.

Comigo, não.

Ora, eu prezo muito meus interlocutores - e suas individualidades particulares de cada um -, e não saio dando o meu hehe para qualquer um, não.

***

Algo me diz que acordei com espírito de porco hoje.
E o primeiro que se manifestar dizendo que isso não é digno de nota vai levar e-bomba.

25 junho 2004

Queridas e queridos,

faz uns dias que não passo por aqui...
E hoje estou mesmo de passagem. Vou ali ganhar o leitinho das crianças (em Campos, RJ) e já volto, ok?

Tenham todos um ótimo final de semana, e não percam o último capítulo do Lineu! Eu também não vou perder, uma vez que o show só começa depois que subirem os créditos. :o)

Beijos, fui!

21 junho 2004

Moda-praia o ano inteiro


Tenho pavor de mostrar os pés, e também de conviver com os pés dos outros à mostra. Não devia morar neste balneário. Povo aqui vai ao banco de chinelo, na maior.

Não agarre nojo de mim; faz parte de um processo psi-(alguma-coisa-para-a-qual-eles-sempre-acham-um-nome): quando pequena, cinco ou seis anos, comecei a ter um pesadelo recorrente. Via apenas os pés de um homem, mais nada. Mas sabia que era de um homem mau, muito mau. E aquilo me dava uma aflição horrível.

Cresci rejeitando sandálias, para o desespero de minha mãe, vó Maria e minhas tias: “com esse calorão, de tênis?” – essa passou a ser a frase mais ouvida por mim.

Já crescidinha (13, 14 anos), ouvi, ao sair para uma festinha:

- Filha, a mamãe vai ter que te dizer: não se usa bota no verão. Não tens uma sandalinha?

Mané sandalinha. Eu só tinha um chinelo havaianas, que usava para tomar banho (evitava o choque no chuveiro). Fui de botas mesmo.

Só comecei a usar - e, pior: a comprar! - sandálias depois de dois anos morando no Rio de Janeiro. Aí eu não agüentei mais; muito calor mesmo, e esse negócio de orla confunde a gente. Até para se vestir.

Passei a andar mais à vontade, admito. Lembro que fui ao RS num verão desses, depois de uns quatro anos morando no Rio. Meu pai fez um churrasco e eu desci para comer de short e um mini-top (quase a parte de cima de um biquíni). Minha mãe olhou:

- Que linda! Tá usando menos roupa, finalmente, né?
- É... calorão desses...

Meio segundo depois:

- Tá certo. Mas tu não vais sair na rua assim, né?
- Por quê? Pessoal aqui vai achar ruim?

E ela, suuuuper tranqüila:

- Nada! Só vão achar que tu é puta.

Hoho.


PS: Você já fez o Bíbi-Quiz?

20 junho 2004

ANALOGIA: Com qual celebridade você se parece?


Depois de cinco fotos testadas, consta que eu sou uma generosa mistura de:


Nicole Kidman


Andie MacDowell


Judi Connelli

E você? Passa lá!




19 junho 2004

Bibômetro

Criei um Bíbi-quiz! Dez perguntas e respostas para testar os seus conhecimentos a respeito da minha pessoa.
Tá esperando o quê?

Vai lá!
As coisas do meio


Alguma coisas são poéticas. Algumas, patéticas.

E algumas outras coisas são apenas outras coisas - que não são nem belas, nem feias; nem lindas, nem escabrosas; nem divinas, nem diabólicas. Não podemos jogar a culpa em ninguém, porque não há culpa. Não podemos sequer nos culpar. São coisas do meio.

Dessas coisas eu fujo como diabo da cruz, porque elas me tiram o sono. Diante dessas coisas, que chegam pelo meio, sem fazer alarde, eu me sinto impotente – uma burra farta de pensamento, mas fraca da cabeça.

E não há como desviar. Quando o tiro é silencioso e certeiro, não há esperneio e não há ataque epilético que te livre da bala. Coisas do meio.

Aí nos damos conta de como vivemos pelos cantos, acomodados em extremos, o stress e o relax, o ódio e a paixão. Nossos cantos da vida, os becos, as quinas, confortáveis esquinas da nossa falta de intimidade com o meio. Nossa percepção se acomoda fácil nas vielas; não somos lá de muita expansão.

As coisas do meio são as melodias que não se encaixam. Nos cantos.

18 junho 2004

E Chico faz sessenta



O Rio está em polvorosa: Chico faz sessenta amanhã. Brilhante. Azul. Lindo. E Buarque, ainda por cima.

Se tenho alguma frustração na vida é morar seis anos no Rio de Janeiro e nunca ter interceptado uma caminhadela de Chico no calçadão do Leblon.

Mas dei uma interceptada no site dele e me diverti horrores com a história do Julinho da Adelaide – o personagem que ele inventou para dar uma enrolada na censura. Chico contado (e “Julinho” entrevistado) por Mario Prata, então, é o melhor dos mundos.

Abaixo, o trecho final da entrevista que Julinho concedeu ao Prata, no jornal Última Hora, em 74:

MP - O Chico tem cantado a sua música e tem dado a entender que a música é dele. Ele se refere a você como se você fosse uma figura mitológica.

JA - Não sei, rapaz. Este pessoal que tem o nome feito, pode fazer muita coisa e não adianta eu ficar aqui reclamando, entende? Como eu já disse, eu sou pragmático. Eu preciso dele e ele de mim. Então eu não vou me colocar contra ele como você está querendo. Talvez o dia que eu for mais conhecido eu faça a mesma coisa. As pessoas têm que tirar proveito do que lhe cai nas mãos, não é? O Leonel que me disse isso.

MP - Eu queria que você se definisse, já que usa tanto a expressão pragmática.

JA - Eu não sei. Pra falar a verdade, o Leonel que mandou eu dizer que eu sou pragmático. Quando perguntassem coisa mais complicada, pra dizer isto. Por exemplo: "O que você acha da Censura?" Sou pragmático. Ele falou ecumênico, também. Disse que quando me perguntassem o que eu acho de Cuba, para eu responder que sou pragmático e ecumênico. Senão eu me meteria em complicações. Mas eu não posso definir exatamente como eu sou. Eu sou pragmático, pô!

Leia toda história – e a entrevista na íntegra - aqui

17 junho 2004

Mais Cazuza


Agora falando racionalmente, li e concordei em gênero, número e grau com esta crítica:

“Acompanhando a trajetória de Cazuza desde o início da década de 80 (e sua entrada no Barão Vermelho), O Tempo Não Pára quase naufraga em sua primeira metade, quando, justamente por evitar aprofundar-se na alma de seu protagonista, acaba retratando-o como um jovem pretensioso e mimado que, fruto de um lar excessivamente liberal, dedica-se a ofender seus pais e à auto-destruição. O Cazuza visto neste segmento é antipático e detestável; um projeto unidimensional de 'artista maldito'. Além disso, o fraco roteiro, em sua errônea ambição de retratar um mito, jamais permite que o personagem simplesmente 'converse': tudo o que sai da boca do compositor é lírico - como, se em vez de 'falar', Cazuza apenas 'declamasse'.”

(Leia na íntegra)

Não, não estou detonando o filme. Gostei de ter assistido; é um filme triste e chega a emocionar em vários bons momentos – a trilha sonora do biografado ajuda, e muito, claro. O Daniel Oliveira dá um show, isso é incontestável.

Mas há muito a ser contestado, e o crítico do site Cinema em Cena, a meu ver, vai com precisão cirúrgica às, digamos, pisadas de bola que o filme dá.

A primeira coisa que me chamou atenção foi justamente a impressão de que o Cazuza devia ser um mala. Garotinho mimado, rebelde sem causa, revoltado e egocêntrico – além de pernóstico e inconseqüente. E se torna chato, muitas vezes, ao interromper o que seria o ritmo normal de uma conversa para pinçar, como que do “mundo mágico das inspirações”, frases poéticas nem sempre cabíveis no momento, soando um discurso vazio e pretensioso.

Parece que a Lucinha Araújo não acha isso – se fosse meu filho, eu não ia gostar nada de um roteiro que retratasse o cara desse jeito. Mas, como o filme é baseado no livro da própria mãe, está tudo em casa.

Outra coisa que me chamou atenção (e isso não consta na crítica acima) foi uma certa esnobada no Frejat. Além de ter poucas falas, fica parecendo, em alguns momentos, que ele era o bundão da história. Que não estivesse preparado para a genialidade do Cazuza - verdadeiro artista/poeta/astro - e, por isso, tivesse ficado comendo poeira quando o cantor decidiu sair do Barão. Pelo pouco que sei da história, acho que não foi bem assim.

Por fim, a cena em que ele descobre que está doente realmente merecia ao menos uma preparação para que o espectador entendesse que ali viria chumbo grosso. Do jeito como é colocada, no seco, o que poderia ser uma bonita comoção acaba virando uma espécie de susto de mau gosto – como quando alguém chega por trás e: “BUUUUUU!”.

16 junho 2004

Cazuza





Vocês já viram?

Eu vi ontem. Chorei em bicas.
Vida louca, vida...

15 junho 2004

O Rio Grande se cobre de gelo

Nostalgia capilar


Ando com saudades do meu cabelão desgrenhado, pontas duplas, politicamente incorreto e esteticamente questionável.

No dia em que cortei um naco considerável das minhas madeixas, até comentei com todo mundo, estava feliz de ter cedido ao moderno e ao apelo de minha mãe, e tias, e comadres, e amigas que olhavam meio torto, como se quisessem endireitar um quadro na parede, sabe quando incomoda? Podia repicar aqui, ali, dar um volume, um jeito, um corte – sugeriam, enquanto eu pensava no quanto de vida escabelada elas também tinham, e não faziam escova, mas não seria eu a chata de ficar lembrando, com meu bafo quente de secador elétrico, inútil, inconveniente.

Está bem, eu disse. Depois de muito tempo, mas disse. E fui ao salão com uma frase decorada: “eu queria dar um volume, um jeito, um corte...”

E veio a moça, acredite, com uma pá de revistas especializadas de cuja existência eu nem sabia, e cuja utilidade até admito que exista (não sem apertar os beiços, assim, do meu jeito, vá lá, mas admito). Pus os olhos naquelas variadas beldades, metade de horário nobre, metade nem tanto, mas todas muito ajeitadas, de fios colaborando com rosto e corpo e riso e pose e tudo, tudinho em harmonia e concordância. Quanta beleza para eu escolher ser!

Fiquei verdadeiramente empolgada, isso não posso negar. Tive de esconder o riso infantil que me soltava os beiços numa hora que até era para algo, mas não era para tanto. Não para as outras, com aquelas caras emolduradas. Não para as outras, com aqueles cabelos assíduos de tesouras e tinturas; não para elas, habituadas aos catálogos de bocas e unhas, outono, inverno, primavera, verão, quadradinha, francesinha, entra franja e sai franja etc. Não para elas.

Para mim, unidunitê, as moçoilas das revistas me sorriam, quem eu seria, quem eu seria, unidunitê, eu me divertia, eu escolhia, todas me olhavam, apreensivas, quem eu seria, unidunitê - e eu me lembro muito bem de quando, enfim, elegi aquela por quem metade do meu rabo iria pelos ares:

- Camila Pitanga!

Depois desse veredicto, o que se viu foi um misto de horror e excitação: Alice no país das beldades fashion. Eu queria acreditar, a cada sonora tesourada, que o resultado seria, não justo, não apenas adequado, “um volume, um jeito, corte”, mas um must: estupendo. (Exclamações).

Quando muito, ganhei um ar mais jeitoso. (Reticências).

Nem guardei o rabo morto que a moça me ofereceu, solícita, ao final da tosquia. Mas guardo uma saudade imensa daquele tempo de fartura capilar desgovernada, démodé, quando eu era ponto de referência, aquela morena do cabelão, e havia sempre o pretexto para a cantada: nossa, dá muito trabalho para cuidar? Dava nada.

Guardo saudade, e até me arrependo um pouco de ter feito mau juízo dele nalgum momento. Que o meu cabelão já ia lá na bunda, sim. Mas, poxa, era com todo respeito.

13 junho 2004

No ICQ

- E o teu blog, menina! Que loucura, hein?
- Loucura?
- Sim! Tem que aparecer mais por lá, ou vai haver uma revolução...
- Revolução??? Mas eu fiquei só DEZ DIAS sem postar! Dez dias!

-(ela, profunda): "Onde dois ou mais estão reunidos em teu nome... lá TU TENS QUE ESTAR!” Já dizia... sei lá, Jesus.

Hoho. Tão tá, né.

Mais tarde, no telefone

- (ela, se despedindo): Então tá, né. Te cuida. E te anima! Pô, é São João!

- É mesmo! Ah! E hoje é Santo Antônio... dia 13, n'é não??

- (Ela, puta): Ah, eu sei lá! Aí já é muito santo pra mim!


É. Quando a esmola é demais...
Ilusões

Quando não se precisa de aperto de mão
- é quando as mãos estão mais próximas.
Quando dispensamos tudo aquilo que se usa dizer antes, dizendo só o mínimo
– é quando dizemos mais.
Quando não fazemos jogo algum
– é quando marcamos os melhores pontos.
Quando nos soltamos sem medo da queda
– é quando voamos mais alto.
Quando nos distraímos dos cálculos
– é quando somamos mais.
Quando nos livramos de nossa própria culpa
- é quando somos desculpados.
Quando temos a intenção de dar um abraço
- é quando ele já foi dado.
Quando questionamos se algo tem graça
- é quando a graça já foi embora.
Quando ponderamos sobre alguma emoção
- é quando ela não é mais emoção.

E, por fim: enquanto pensamos no café da manhã seguinte –
é quando o presente nos é dado, agora, de bandeja.
Duas e meia da madruga

Acabei de ler O ponto cego - Lya Luft, 1999.

Quem é que lê Lya Luft e consegue manter o pensamento quieto logo em seguida?

Vim dar uma relaxada, uma digitada, uma blogada básica.
Sossegar os miolos.
Tenham um bom despertar, queridos. Fui.

12 junho 2004

Sentiram a minha falta, foi?
Hoho. Tô de volta.

Depois de dez dias sem postar nada aqui no blog (um tempo razoável, sim, mas eu andei acostumando mal vocês!), por motivos que não tenho saco de relatar, cá estou.

Fez calor no Rio de Janeiro nesses últimos dias. Uma gosma insuportável voltou a pairar sobre a cidade, e o suador nas filas, e senhoras gordas apertando sacolas nos ônibus, e adolescentes em pânico com a oleosidade dos cabelos, sol e um vento morno nas nossas moleiras. E eu rezando, Deus, como eu rezei para que uma nova frente fria, ainda que desbotada e enfraquecida, voltasse a refrescar minhas idéias mofadas.

Enfim, parece que hoje veio. Amém.

***

Pleno dia dos namorados, o destino quis assim: minha tarde foi de uma limpeza meia-boca na cozinha (estou entrando em pânico com esse piso branco, abafa), jornais, revistas, baixo e violão – mas sem cantoria, que estou com a goela inflamada outra vez.

Nada digno de relato, como diriam Aninha e Melissa, a nova dupla sertaneja que se formou a partir deste humilde pergaminho virtual (talvez a única que cante em uníssono, mas tudo bem). Nada de romântico. Nem uma rosa, nem um Sonho de Valsa sequer, nem mesmo um celular para falar, durante um centavo, a um ano por minuto. Ou seria, durante um minuto, a um ano por centavo? Não sei, é tanta promoção, acho que nem eles sabem direito.

***

Por falar em celular: que coisa mais querida aquele garoto que faz propaganda da Claro! Tem dois: um é mais “bonitinho” (e mais loirinho, com jeito de modelo, e é mesmo), e o outro – o mais “feio” – é o meu preferido. Olhinho caído, sorriso carismático, que gracinha em forma de garoto-propaganda! E, o melhor: com jeitinho de gente que você encontra na rua.
Mas ainda não dei a sorte.

***

Momento Celebridade: fajutíssima aquela cena da “briga” entre Eliete e Nelito; mal bolada, mal escrita e mal dirigida. Não fossem ambos ótimos atores, teria sido ainda mais patético.

E Lavínia Vlasak, pelo que entendi, perdeu o encaracolado Marquinhos Palmeira e ainda continua lambendo o chão que ele pisa, é isso?
Tem base...

Em tempo: eu não quero saber quem matou o Lineu, nem me interessa. Acho que isso, na trama, é só um mero detalhe. O legal dessa novela foi a parte divertida e o show de alguns atores; as maldades do Renato Mendes e da Laura etc. Quem matou o Lineu? Nem o Gilberto Braga sabe, oras! Fica fazendo mistérios mil, libera na imprensa um final diferente a cada semana para esquentar o tititi, faz o elenco inteiro parecer suspeito para, no fim, decidir por qualquer um.

Alguém ainda fica brincando de “adivinhar” o assassino, levando em conta as “pistas” do autor?

Não. Isso era no tempo das novelas bem tramadas e argumentadas, antes do efeito IBOPE...

02 junho 2004

Casamento aberto

Nosso baterista vai tocar hoje à noite na Far Up, detalhe: com a outra banda dele. Você vê como são as coisas hoje em dia. Casamento aberto. E nós, os “outros”, vamos lá conferir a pulada de cerca. E ainda vamos pagar pra entrar.

É o fim.


O primeiro Orkontro a gente nunca esquece

Vocês sabem o que é o Orkut, né? Eu estou lá há pouco tempo, e freqüento uma comunidade do meu bairro. Pois, segunda-feira, marcaram o primeiro “orkontro oficial da comunidade”. E eu fui.

Pena que choveu de assustar carioca, mas, ainda assim, saí no lucro: conheci dois vizinhos-gracinha, batemos papo num barzinho até os garçons nos varrerem porta afora. Ambos moram a poucas quadras da minha casa.

É engraçada a sensação de conhecer gente que pode ter cruzado o seu caminho na fila da padaria, no postinho ou na praia, e ninguém nem tchuns. Aí, por um mero esbarro virtual, você acaba dividindo a conta com esses caras na vida real.

A sensação que ficou, pra mim, foi de uma camaradagem instantânea – até porque o Recreio é um bairro afastado da zona sul, todo mundo que mora aqui se sente um pouco “out” do Rio de Janeiro (o que, concordamos em uníssono, é mais vantagem que desvantagem. Mas é claro que tudo tem os dois lados). Então a gente acaba sentindo um certo alívio de conhecer gente boa que mora perto. Sabe como é, pedir uma xícara de açúcar.

Além disso, na Barra e no Recreio (os dois bairros são colados, sendo que o Recreio é ainda mais longe da zona sul), você precisa de carro para fazer tudo. Claro, você até pode andar a pé; mas, como são bairros enormes, as distâncias entre um banco, uma academia e a sua casa, por exemplo, certamente não caberão nas suas pernocas.

Isso faz com que a gente se sinta mais isolado, de certa forma, por andar sempre preso àquela cápsula com insul-film, evitando sinais fechados e qualquer contato com algum ser humano que se aproxime – por motivos óbvios. Coisas das grandes cidades, e, cada vez mais, das pequenas também.

Já dizia a minha mãe (tão badalada aqui no blog, arroz-de-festa insaciável do meu diário virtual, adivinha por quê?): “o bom desse negócio de internet é quando a gente conhece pessoas de verdade”. Sim, porque, por mais que você tenha um rio de afinidades com aquele amigo virtual, ele ainda não é uma “pessoa de verdade”. Não antes de vocês se conhecerem no mundo dos toques, dos ares e dos sabores.

Resumindo, a tecnologia pode até ser um barato, mas o mundo de verdade ainda requer pessoas de verdade. Ainda bem.


A relação deste blog com o meu irmão

Meu irmão nunca lê o blog. Vocês devem reparar que eu sempre falo sobre ele aqui. Pois é, ele nunca lê, mas sempre sabe de tudo.

Chega em casa, exausto, e a minha cunhada senta aqui e lê tudinho pra ele. Ele fica resmungando lá do sofá, recostado, volta e meia ouve-se um grunhido entre uma frase e outra:

- Hmmmrrrssnn... (contrariado, sempre).

Se estou aqui pela sala, pergunto:

- O que foi? Não gostou?

Ele faz um bico torto, e torna a manifestar qualquer coisa que não se entende, mas com a propriedade de quem questiona a burrice da pessoa que não entendeu. Tanto, que a gente até fica na dúvida.

- Hein? Falou o quê?

Ele emburra:

- Tu só me usa pra fazer piada aí... (beiço)

De modo que quero manifestar aqui - como se já não fosse público e notório – minha admiração pelo menino que vive comigo há 26 anos, portanto, desde que vim ao mundo. Aliás, por esse homem que é meu irmão (se digo menino, ele se chateia; se digo homem, se chateia também: estou tentando um equilíbrio), que me ensinou a ler e a escrever, sempre com ênfase na difícil tarefa que era, para mim, identificar qualquer palavra que começasse com “B” como sendo outra que não – afinal - “Bibiana”.

Foram muitas bananas, batatas e biancas, até que ele me fizesse entender que não se deve julgar o livro pela capa, a pessoa pela cara – ou a palavra pela primeira letra. Aprendi a ler.

Isso sem falar na lição do perdão, que ele sabiamente me ensinou após o fatídico episódio do ferrinho - um palito de ferro que eu, injuriada por uma tolice qualquer, cravei sem piedade no dorso da mão dele. O feito até hoje se conserva muito visível, embora eu não me orgulhe disso, sob forma de uma cicatriz em forma de, bem, em forma da minha crueldade infantil. Perdoável, perdoável.

Por essas e outras, tenho em minha casa um guru, ao menos a julgar pela premissa básica de todo gênio: a incrível capacidade de expressar sua verdade de forma peculiar. Tão peculiar e misteriosamente incompatível com nossa pobre maneira de entender quanto o indecifrável:

- Hmmmrrrssnn...

30 maio 2004

Celebridade


Assistir à novela Celebridade com meu irmão é pedir para ficar irritada. Primeiro, que ele não entende nada da história (porque raramente vê). Então, a cada musiquinha misteriosa acompanhada de uma careta indecifrável, ele vem com o famoso:

- O quê? O quê? O quê? (Cutucando meu braço no sofá).

Querendo que a gente conte o que aconteceu até aquela situação. Aí você até começa a explicar, na boa, acontece que o fulano flagrou a fulana fazendo...

- Quem é fulana??? (Com os olhos arregalados).

Pronto, ele não sabe quem é quem, e aí fica mesmo difícil. Outro dia, vendo a novela das 7h num sábado, lascou:

- Caraca!!! O que é que o Sassá Mutema tá fazendo nesse casarão?

Desisto.

***

Mas, dia desses, saiu-se com (mais) uma pérola. Além de se indignar profundamente com toda celebridade musical que aparece na novela (“jabá... jabazão...”- murmura), não perdoou a cantora Vanessa Da Matta, num showzinho no badalado Espaço Fama. Depois de observar alguns minutos da performance da moça, o olhar sério, mão no queixo, sabiamente concluiu:

- É... Cabelão desgrenhado, vozinha fina, olhar perdido no horizonte, cara de paisagem... Ela pensa que é a Gal Costa, né?

Tive que rir.

***

A propósito: o casalzinho Alexandre Borges e Júlia Lemmertz é muito fofo, tanto nas telas quanto fora delas. Mas, convenhamos: quem é que agüenta a Gal Costa cantando (pelo nariz) a fatídica: “momentos são iguais àqueles em que eu te amei...”?

Pior que isso, talvez os Titãs (jabá, jabazão! – murmura meu irmão) emplacando outro refrão-auto-ajuda: “Enquanto houver sol, ainda haverá”. Fala sério!

E eu sou do time que dá crédito às bandas que pisam na jaca, ora, quem não se engana volta e meia? Venham com um, venham com dois, mas não me venham com três refrões-auto-ajuda (produção em série), que aí já é maldade. Não abusem do meu otimismo sagitariano. Sorry. Demoro a falar mal, mas, quando falo...

***

Casal da hora: Palmira e Seu Salvador.

***

Beatriz é minha ÍDOLA. É podre de rica, grita o quanto pode, passa por doente e bobalhona, mas vive no mundo perfeito: um mundo onde ela e o príncipe Amorim terminam juntos (na cabeça dela, claro. Mas quem é que pensa com a cabeça dos outros, afinal?).

Além disso, não precisa aturar ronco, mau humor, futebol ou Discovery Channel. E ainda vai dar uns pegas no Márcio Garcia, que eu sei.
Salve, Beatriz!

29 maio 2004

O programa de TV que ensina a ser artista



É com alegria e satisfação que eu lembro a vocês: começa mais uma edição do meu, o seu, o nosso programa Fama, da Rede Globo!

Lá vamos nós, telespectadores fiéis, acompanhar o dia-a-dia de um grupo de malabaristas das cordas (digo: pregas, que é o termo correto) vocais. Interpretando sucessos de Gonzaguinha a Djavan, de Ivete Sangalo a Caetano, transformarão suas toscas performances em exibições classudas, repletas de técnicas e arranjos musicais, vocais e cênicos.

Tudo para mostrar que “vida de artista é suada”. Que, se você quiser “aprender a ser artista”, tem que estudar muito, saber onde colocar o agudo, o grave, o olhar e a mãozinha que não está segurando o microfone.

Depois de apreendido um mundo de informações que lhe enriquecerão como nunca antes, você finalmente virará um artista completo, e poderá encher a boca para dizer: eu sou um artista.

Então, um empresário se materializará na sua frente, de terno azul-marinho, e lhe fará uma proposta irrecusável: um contrato com uma gravadora multinacional, tudo pago para a gravação do seu disco (sim, eles estão nadando em grana, como todos nós), lançamento, mídia, 200 shows por ano, e uma banda impecável para acompanhá-lo.

Você jamais terá que lidar com contratante canalha, equipamentos de som precários, palcos mal projetados, assessoria de imprensa mal feita, bêbado subindo no palco pensando que o seu show é karaokê, cachês simplesmente não pagos (e toda ação que você terá de mover na justiça nesses casos), operador de som displicente, músicos que somem na hora da passagem de som, e a própria passagem de som (momento crucial do show, onde o abacaxi começa a ser descascado e só vai terminar na manhã seguinte, com sorte).

É claro que você também não precisará se incomodar em fazer malabarismos com o seu orçamento doméstico, se quiser sobreviver de música neste país, nem tampouco com os perigos que assolam cada vez mais as cidades, sobretudo à noite, justo quando você sai de casa para trabalhar. Por fim, você jamais terá de ficar chateado quando o pai da sua nova namorada, ao ouvir que você vive de música, perguntar:

- Sim, mas você trabalha no quê?

Ainda bem que você é um artista de verdade, e não terá de se aborrecer com esses pormenores.

Sim, porque isso você só teria aprendido a resolver se tivesse enfiado a cara na rua, meio sem jeito e sem trejeitos de artista, e tivesse ido tocar em bares, clubes e churrascarias, lidando com todo tipo de gente, tocando para todo tipo de público, estudando quando houvesse tempo, aborrecendo uns, agradando outros; se tivesse dedicado, enfim, sua vida (ou um pedaço dela) à difícil tarefa de viver de arte num país de oportunidades miúdas e valores equivocados.

Mas isso não é ser artista, uma vez que não aparece no Faustão.

28 maio 2004

O sorriso sedutor das pastas


Às 7h da manhã eu me encontrava no supermercado Zona Sul, enchendo um carrinho com os meus vícios básicos, foi quando me ocorreu: mas que diabo! As prateleiras estão cheias de coisas inúteis, e elas sorriem para você!

No balcão dos frios, por exemplo, uma infinidade de pastas: pasta disso, pasta daquilo outro. De salmão, de azeitona, de sei lá mais o quê. Caviar!

E eu lá sou mulher de pasta?

Mas é chique, pasta. Você sabe, em toda casa chique tem uma mulher chique que atende o seu celular minúsculo – porque mulheres chiques só falam no celular, mesmo dentro de casa -, e é o marido chique, que pergunta: amôôô (essa parte é tudo igual, não há chiqueza que resolva), vou chegar mais cedo, estou a fim de convidar o Sérgio e a esposa para assistirem àquele DVD com a gente, o que é que você acha?

E a esposa chique, moderna e descolada, responde que adorou a idéia, vai comprar umas pastinhas para combinar com as torradinhas que eles têm na despensa. Sim, porque gente chique vive com a despensa abarrotada de coisas que só servem para eventuais eventos. Que gente chique não dá festa: promove evento.

E lá vão os chiques para o evento do DVD com pastinha, regado a Prosecco, claro. Prosecco que, aliás, está bem ao lado das pastas no balcão dos frios. Ali, onde a gente confere o preço da mortadela e não leva porque achou caro. Bem ali.

Pois, aqui em casa, quaaaando tem festa, evento é o que vem antes: a correria que se dá rumo ao hipermercado com o melhor preço da cerveja, ainda que seja longe, ainda que seja tarde. E lá sempre se acha uma pizza, dessas de fabricação própria, com sorte você ainda encontra um pague-duas-leve-três, já pensou, que luxo?

O primeiro que acha a skol a 85 centavos bipa o outro, que bipa o outro, e acabou-se a gincana. Reúnem-se os comensais, a pizza vai ao forno e depois que esquenta não se sabe nem mais o sabor, porque é tudo igual: uma bolacha grande com queijo derretido e uma azeitona em cima. Evita-se, assim, o indesejável “não gosto disso”, “não gosto daquilo” (com certeza presente no complexo mundo das pastinhas).

Aqui você tem duas opções claras: o sólido e o líquido. Não é bem melhor?

Seria. Seria, não fosse a vasta quantidade de pastinhas sorridentes que pululam, através dos vidros embaçados, oferecendo-se em sabores inimagináveis à nossa fértil imaginação gulosa, típica da pessoa dura. Sem contar com aqueles moços enfiados em máscaras cirúrgicas, atrás do balcão, ameaçando com os olhinhos de fora: duzentos gramas? Trezentos gramas? Vai levar? Vai levar?

Tenho uma relação de amor e ódio com essas pastinhas, que não é brinquedo. Hoje, por exemplo. Quase comprei cem gramas de uma, tão rosada, tão cremosa... mas, pensei: vou comer com o quê? Teria de trazer torradas também.

Aí, já era demais. Daqui a pouco vou estar desfilando de terninho de risca-de-giz, com um escarpim em cada pé caloso. Chega.

27 maio 2004

Em tempo: está inaugurado o View Master , o blogfólio dos amigos Luís Saguar e Marcelus Gaio, dois feras em design. Ilustrações, fotografia e arte em espaço dinâmico, freqüentemente atualizado. Para quem gosta do lance, é um achado. Para quem não sabe se gosta, uma boa oportunidade de começar a gostar.

Visite!
A minha casa mal assombrada


Quem vai daqui para a praia, mais ou menos no meio do caminho, tem uma casa mal assombrada. Tem, porque tem, porque tem.

É um sobrado com janelas grandes, daquele tipo com madeira em cruz. A grama não é cortada, as paredes são descascadas, as plantas espirram pátio afora, tipo cabelo de orelha de velho, sem ordem nem medida.

Na calçada em frente há umas árvores e uns arbustos crescidos que formam uma espécie de túnel verde – no meio, só um caminho curto de pedra úmida contorna aquela esquina. Coisa de cinqüenta passos. Mas é para os corajosos.

Já vi muito marmanjo atravessando a rua para não encarar o túnel verde. A sorte é que, do outro lado, tem uma reserva ecológica, com plaquinha no portão e tudo. Dá para disfarçar fingindo interesse.

Eu, não. Desde o primeiro dia, optei pelo caminho obscuro, porque dá pra espiar melhor lá dentro. E espio mesmo. Quero saber quem é que vive lá; porque as janelas estão sempre semi-abertas, e há um cachorro preguiçoso do tipo mudo, mas que tudo observa. Alguma coisa se passa naquela casa mal assombrada.

Pois hoje eu atravessava tranqüilamente o túnel verde, entretida em pular poças d’água como fosse amarelinha, foi quando levei um susto: um casal de velhinhos, sentados na varanda! Igualmente mudos e observadores. Não moviam uma pálpebra.

Meu coração gelou, errei as contas e enfiei o pé na água. E uma questão me assombrou mais que tudo: será que eles estavam ali mesmo, eu digo, de carne e osso?

Pelo sim, pelo não, fui visitar a reserva.
Coisas de uma prenda desgarrada


Agora dei para acordar cedo – mas cedo mesmo, hoje levantei às 5:30! –, preparar meu café e vir ao micro pegar o finalzinho do programa Pátria Y Querência (apresentação: Glênio Fagundes) na Rádio Cultura FM – Porto Alegre, 107,7.

Vocês podem imaginar. Trata-se de uma programação exclusivamente gaudéria, com pérolas da música nativista – clássicos do Rio Grande; coisas da época em que não existia o rótulo “Tchê Music”, e as baterias e as guitarras elétricas não haviam ainda invadido a nossa doce e bela canção rural. Também toca coisa “muderna”, mas, como diz o Glênio (um gaudério impagável, personificação do tradicionalismo): não precisamos nos descaracterizar.

Reparem só nesses versos (abaixo), refrão da milonga que me embalou o raiar do dia hoje. E tenham uma ótima quinta-feira!

Da terra nasceram gritos
(Jayme Caetano Braun)

Meu canto é rio
meu canto é sol
meu canto é vento

Eu tenho verde
eu tenho pátria
eu tenho glória

Eu só não tenho
terra própria
porque a história

que eu escrevi
me deserdou
no testamento.