15 outubro 2004

Salão


Mais uma de salão de beleza (ainda faço um livro).

A senhora loura, proprietária do salão, desanda a desabafar com uma cliente antiga. Em tom, digamos, alguns decibéis mais alto que o aceitável para desabafos em frente às clientes – antigas ou não, tanto faz! Se é que há alguma aceitação para qualquer desabafo de proprietária para cliente. Sexta-feira. O salão, cheio. Eu, cheia. E cada vez mais.

- Eu acho assim, Fulana, a pessoa não pode ser boazinha o tempo todo. Não pode ser queridinha isso, queridinha aquilo, meu doce, benzinho. Sou empresária ou não sou? Montei esse negócio pra dar certo, oras! Quero todas as funcionárias uniformizadas, o material esterilizado, tudo limpinho, como manda o figurino. A cliente tem a obrigação de sair satisfeita! A cliente tem a obrigação de entrar aqui e sentir um cheirinho bom!!!

Essas duas últimas frases, então, foram pra matar. Eu me coçava, respirava fundo. Vontade louca de cutucar a perua:

- Desculpe... quer dizer que aqui a cliente tem a obrigação de sentir um cheirinho bom? Ótimo, eu não sabia. Da próxima vez que tiver de fazer as unhas, vou pensar assim: devo ir àquele salão onde tenho a obrigação de sentir um cheirinho bom, ou àquele outro onde eu sinto um cheirinho bom porque tudo realmente cheira bem?

Mas, me segurei, não disse nada. É cada uma que me aparece.


Intimidade italiana - tempos modernos

Havia uns dez anos que eu não falava com uma amiga chamada Carmem. Estudamos juntas em São Leopoldo. Hoje é designer da web, toda modernosa; casou-se com o segundo namorado e vive em Cachoeirinha (região metropolitana de Porto Alegre).

Agora, com esse negócio de Orkut, todo mundo reencontrando antigos amigos, eis que a Carmem ressurge. “Soube de você pela Época!” – ela me diz. Graaaaaande Carmem, bom te “ver”. Acabamos gastando uma grana em interurbano.

A irmã mais nova – deve estar hoje com uns 22 anos – é o assunto atual da Carmem. Que a menina não tem jeito, que é uma avoada, que não pára numa faculdade sequer. Já fez letras, administração, publicidade. E hoje, segundo a Carmem, faz turismo. Nas aulas de jornalismo – que freqüenta com assiduidade de baixa temporada.

- Agora ela me apareceu com mais um namorado, da internet. Coisa recente, saíram só algumas vezes. Eu fico espantada com a facilidade que a Juliana tem para dar intimidade para um sujeito que mal conhece. Mal conhece!

- Sabe o sobrenome?

- Sabe, sabe. Não se trata disso.

- Dar intimidade, é? Que tipo de intimidade?

- Intimidade da intimidade! Uma coisa assim, impressionante. Eu digo pra Juliana, mas ela não me ouve. Nunca me ouviu! Tem coisa que não se faz logo de início. O que os outros vão achar? O que o homem vai pensar, meu Deus?

Àquelas alturas, eu já estava me mordendo de vontade de saber dos detalhes sórdidos, da intimidade que a Juliana dava ao recém-chegado. Que “coisa” não se deve fazer logo no início? A Carmem sempre foi meio pudica, a mãe era linha dura. Que “coisa”? Doida para saber. Mas, lógico, não podia perguntar na lata. Fui me virando como podia:

- Carmem, hoje em dia é assim mesmo! As pessoas se conhecem pela internet, acabam pulando algumas etapas. Você sabe, pô, trabalha com isso! É natural. De mais a mais, a Ju não é mais nenhuma menina. Um mulherão daquele tamanho, maior de idade, vacinada. Tá na hora de saber o que quer, não tá?

- Pois é o que eu digo, tá mais do que na hora! Mas não sabe. Fica dando intimidade aí para esses caras da internet...

- Não quero me meter, mas... afinal, o que foi de tão grave que ela fez??? (Não me agüentei, escapou).

- Ela? Bom, tenho até vergonha de falar. Outro dia eu liguei pra lá, ela me contou que o sujeito tinha acabado de sair. FAZENDO O QUE NA CASA DELA?

- Ué, sei lá, uma visita... normal...

- Normal??? Normal, nada! Depois de meia hora de insistência minha, ela confessou!

- O quê? O quê??

- Que o cara tinha ido levar de presente uma cafeteira!

Broxei.

- Uma o quê?

- Uma cafeteira, não, pior: uma cafeteira italiana! Italiana! Com duas xícaras! Duas!!!

- Carmem, querida. E o que há de mal nisso?

- Porra, Bíbi! Mal conhece o sujeito!!! Cafeteira?? Cafeteira é demais! Achei que estivessem só trepando!


É, os tempos mudaram.
Inocência minha achar que a Carmem não teria mudando junto.

P.S.: Os nomes foram alterados para preservar a intimidade das amigas. Mas a cafeteira era italiana mesmo.

11 outubro 2004

Voltas


Ele chegou meio perto
ela se afastou.
Ele recuou meio metro
ela parou.
Ele se achou esperto
ela travou.

Ele empurrou
e ela pegou no tranco, e ele a viu avançando, e ela o chamou, e ele ia ficando, e ela ainda indo, e ele não conseguia, e ela só seguia, e ele espremia os olhos, e ela diminuía, e ele a queria perto, e ela já tão distante,

teria feito ele certo?

Não seria
melhor
ter ficado
só meio perto,
assim meio metro?

Nisso ele,
parado,
pensava,
coitado,
que ela tinha sumido,
acabado.

Nisso ela,
que tinha escapado lá adiante,
apareceu atrás dele,
de repente,
toda sorridente.

Bingo! - ela cantou
O mundo é redondo.
Demoraram um pouco,
mas se grudaram em cheio.

10 outubro 2004

Ferreira Gullar, às vezes


Ganhei um DVD do show “Brasileirinho”, da Maria Bethânia. Gravado em março deste ano no Canecão, elogiadíssimo, é mais um produto do selo Quitanda (da própria cantora).

O poeta Ferreira Gullar - cuja imagem abre o show, no telão, recitando “O Descobrimento”, de Mario de Andrade – dá um depoimento muito bonito na sessão de extras. Lá pelas tantas, ao falar da dificuldade que teve em escrever uma letra para “O Trenzinho Caipira” (de Heitor Villa-Lobos), sai-se com esta:

- É por isso que, quando me perguntam ‘você é o Ferreira Gullar?’, eu respondo ‘às vezes’. Porque às vezes eu tento botar a letra no Trenzinho Caipira e não consigo. Outras vezes, consigo.

Céus. Ferreira Gullar é às vezes, e me dá um arrepio ouvir isso do próprio. O papel do artista no mundo eu não me atrevo a palpitar qual seja; mas, aqui muito entre nós, não cabe a singela metáfora do “cair a ficha”? Olha, lá vai o poeta, provocando quedas de fichas nas cabeças dos passantes. Com a graça de Deus, ploft, ploft.

Afinal, quem aqui não já sentiu ser um “às vezes” de si mesmo? Genialidade à parte, quem nunca se estranhou num gesto, nunca se perdeu numa fala que não parecia a sua, quem nunca levou um tranco ou um branco da vida – e ficou sem reação, sem saber o motivo?

Eu era tão bom nisso, como fui travar justo agora? Ah, eu não sou disso! Já repeti esse número trezentas vezes; como é que fui me esquecer do principal? Nunca vou me perdoar por ter me ausentado de mim justamente nesse dia, logo hoje, eu me precisava tanto, tanto... judiaria.

Se não somos nós mesmos 100% do tempo, se nos ausentamos de vez em quando, se somos meio relapsos, se pecamos por incoerência ou inconsistência – então, afinal, quem somos (ou o que somos) nas outras vezes? Quem age por nós enquanto nós mesmos estamos dando uma voltinha até a esquina?

Quem será que somos na fatídica hora do cafezinho?

Uns idiotas, às vezes. Uns lapsos ambulantes, sem sotaques ou semblantes, uns restos de homens e mulheres, desconexos, deturpados. É, deve ser isso. Uns quaisquer, sem serventia alguma, pegos em flagrante no pior instante; uma vírgula deslocada, um texto vazio que nem lingüiça enche. Uns nada.

Ou, quem sabe, talvez, Deus seja tão camarada que nos faça pausar de nós mesmos vez por outra, que é para não enjoar. Que é para o povo aqui experimentar, vez em quando, súbitas sensações aparentemente meio desafinadas, mas que podem, sim, dar samba daqui a alguns compassos.

Lembra quando você não se reconheceu em alguma falha cometida; mas lembra também quando deu um salto mortal triplo e caiu firme, com o cabelinho ainda mais arrumado que antes. Não lembra? Ali você sorriu para a platéia e agradeceu, disfarçando a própria surpresa - nunca na vida que você sabia que teria força ou coragem ou ousadia ou talento para aquela acrobacia. Mas, olha aí, não deu outra: tinha.

Pode ser que o horário do cafezinho seja, não só uma ausência, mas uma boa oportunidade de trazermos à tona alguma coisa que estava submersa, e que pode vir a fazer a maior diferença. Talvez seja bom estar atento, não se irritar tanto com as escapulidas, deixar acontecer.

Pode ser que a vida esteja só propondo uma equação óbvia, do tipo: ausente-se = aumente-se.

Enfim: se Ferreira Gullar não fosse "só" às vezes, não seria Ferreira Gullar.

03 outubro 2004

FNAC

Café + quiche na Fnac do BarraShopping = minha alegria quase infantil, soterrada em livros, CDs e DVDs da loja mais deliciosa do mundo; não estou pra ninguém, não vejo pessoas – vejo interesses. Não vejo semblantes – vejo pontos de interrogação e exclamação esculpidos nos rostos dos mais diversos tipos (impublicáveis) que folheiam os mais diversos tipos (publicáveis).

Estou só olhando, aqui sentada. Aquele cabeludo de bigodinho cafajeste se aproxima dos periódicos, eu já sei, ele vai até as revistas de música, olha o tipo, não tem erro, braço fortinho, bermudão, conheço, bingo: baterista. O japa ao lado é mais do tipo Home Studio; nem preciso dizer que acertei. Vai um Pro-Tools, amigo? Açúcar ou adoçante?

A menina que está decidindo o que fazer na faculdade - elas dizem só facul - sai abraçada em meia-dúzia de revistas de moda. Quero ver o que o pai dela vai dizer - minha filha, nunca pensou em direito? Não enche, pai! – ela vai sair desfilando, e aí já era.

Uma coroa meio blasé pede um brownie aqui ao meu lado. Enxutérrima, tá podendo. Ela bebe o café, folheia uma revista e mordisca o brownie. Que coroa não morde; mordisca. Eis a sabedoria da maturidade.

Mas, qual foi mesmo o motivo da vinda? Não há um dia sequer que eu entre na Fnac e não me disperse do objetivo. Dessa vez, da Objetiva: ah, sim, o romance de estréia do Arthur Dapieve.



Que, aliás, trouxe para casa e li de uma só tacada, com pausa apenas para água (pela boca, adentro, e pelos ouvidos – o barulhinho da chuva lá fora, que delícia de trilha sonora).

O texto dele é de uma fluidez incrível, e curiosamente compatível com algum belo rebuscado literário – coisa de quem sabe o que está fazendo, afinal. A história começa no Rock in Rio III, e por aí o leitor, que não é surdo, já pode pegar o tom: vem rock’n roll pela frente. Como, aliás, não poderia deixar de ser. Ou poderia, mas seria um desperdício.

O personagem principal é um publicitário de 46 anos, carioca, casado, que se apaixona perdidamente pela estagiária, uns 20 anos, ruiva e gostosa como convém às estagiárias das agências dos publicitários quarentões casados. Ou não, porque a tal “relação” – se é que se pode chamar assim -, de conveniente, não tem absolutamente nada.

Do show do R.E.M. (janeiro/2001) em diante, portanto, o que se lê é uma turbulenta - ora hilária, ora patética, ora atrapalhada, mas sempre muito bem contada - história de amor-tesão-paixão-obsessão-ciumeira, ou o que quer que esteja no meio do caminho disso tudo, se é que alguém sabe definir o meio do caminho desse tipo de coisa. E o livro é sobre isso, também; sobre não haver um meio caminho para certas coisas que já nascem nos atropelando.

Eu recomendo a leitura, sim senhores!

01 outubro 2004

Santa ingenuidade, Batman!


E eu perguntei a ele:

- Escuta... impressão minha, ou tem um bebê aprendendo a falar?
- Onde?
- Aqui no prédio. Toda noite, mais ou menos essa hora, ele começa a repetir sempre aaaaééhhmmmm... aaaéééhhhhmmmm... tá ouvindo?
Pausa. Ele me olha.
- É gato, Bíbi. Trepando.

Ah, claro. (Um buraco na minha ardósia, urgente).

***

Maldade

Notinha no Globo dava conta do fim do casamento da Ivete Sangalo com o Davi Morais. Título: “Levantou poeira”.
Êta, povo gosta duma gracinha...

***

Guapo, pero no mucho

Ontem eu percebi que, nesta nova novela das 7h, a (belíssima) Natália do Vale é casada com o Werner Schünemann, mas dá mole mesmo é para o Marcos Paulo. Ok, o triângulo é crível.

Mas certamente não seria se ela tivesse conhecido o atual maridão nos tempos da Revolução - vasta cabeleira desgrenhada ao vento, bombachas, lenço vermelho no pescoço. Poderoso, destemido, guapo, Bento. E Gonçalves, ainda por cima.

Agora é apenas Werner, de cabelinho curto e camisa comportada.
Viu? Dá no que dá.

***

Tim-tim celestial

Com a chegada de mais uma frente fria, a temperatura no Rio caiu 15 graus. Comprei velas brancas. Pedro merece. Vou agradecer com toda pompa, e oferecer também o primeiro gole. E o segundo, e o terceiro, e quantos quiser. Por mim, que beba todas – desde que continue São.

28 setembro 2004

O de Janeiro e o Grande do Sul


Gaúcho fala “eu vou ir”. Carioca fala “em dia de sábado”. Gaúcho fala lancheria (para lanchonete). Carioca fala manobreiro (para manobrista). Gaúcho fala pila para dinheiro, e não põe no plural. Quanto é que deu? São dez pila, moço.

Gaúcho também não conjuga certo. Tu vai, tu viu, tu deixa? Carioca quase sempre deixa.

Gaúcho pára na sinaleira. Carioca não gosta de sinal fechado (Calcanhoto). Gaúcho liga o pisca-pisca; carioca dá a seta. Gaúcho vai à serra passar frio, comer e se esquentar. Carioca vai à praia passar calor, beber e se refrescar.

O namorado gaúcho acha que a namorada carioca está com frio na cama, e pergunta: amor, tu quer te tapar? A namorada não entende, mas aceita, e é coberta. O gaúcho pergunta se ela chaveou a porta. Ela já sabe que chavear é fechar e trancar com a chave, mas se esqueceu, e a chave está mais perto dela do que dele. Então ele diz : tu me alcança a chave? E ela sabe que alcançar é apanhar algum objeto que esteja longe e entregar a ele.

Ela alcança a chave, ele chaveia a porta e eles dormem, bem tapados.

O carioca bem carioca é da gema; o gaúcho bem gaúcho é da fronteira, da casca. O gaudério chama o celular de “telefone de garupa”, e a mulher de chinoca – mas só se for muito íntima. O carioca chama de gostosa, mesmo que não a conheça.

O humor do gaúcho é para dentro; o do carioca é para fora. No sul, branquela sem swing é mato. No Rio, é gringo. Gaúcho que mora no Rio, quando vai ao sul, é carioca. Carioca que mora no sul, quando vai ao Rio, é gaúcho.

A guria gaúcha ganha marquinha de biquíni em dois meses, depois retoma o branco; a garota carioca desbota um pouco em julho, depois retoma o bronze. As gurias são altas, têm olhos claros, algumas são verdadeiras Giseles. As garotas são saradas, brasileiras, umas Pitangas.

A geografia do Rio se exibe, seus mares, seus bíceps; o Rio Grande guarda seus mistérios no vento frio das planícies.

Ser gaúcha e viver no Rio é pôr uns cobertores para secar ao sol, lá fora, e depois dormir bem tapada - ouvindo o vento soprar, aqui de dentro.

26 setembro 2004

Pia

Botei
o João Bosco a cantar
e fui tratar da louça.

“Dois pra lá, dois pra cá”
ele me instruía,
e eu na pia.

Sabe
que nem era pelos versos,
mas pela companhia.

Que eu gosto
Detergente
Por perto

Me alivia.

***

Morde, assopra

De um amigo que recebeu uma notícia ruim, e, no dia seguinte, uma maravilhosa.
- Caramba. Deus é um baita dum morde-e-assopra.
Faz sentido.

***

Horas

Chega
uma hora na vida
em que é preciso tomar as providências
que você sabe que já devia ter tomado,
mas ainda não havia chegado
a hora da vida
em que é preciso tomar as providências
que você sabe que já devia ter tomado,
mas ainda não havia chegado
a hora da vida...

A sua hora da vida
é só sua.
Ninguém pode acertar
os seus ponteiros.

Pimenta no cuco dos outros
É refresco.

25 setembro 2004

"Bíbi!

Acabamos de chegar de uma festa. Eu e a Eliana fomos à churrascaria Schneider, jantar peixe com churrasco. Estava maravilha, maravilha.

Na verdade o motivo da festa era prestar uma homenagem para um senhor que foi, nos anos 60 (eu não errei, não, é sessenta mesmo), nosso primeiro patrão. Lá estavam reunidos uns dez guris e gurias que trabalharam no supermercado do homem. Detalhe: levamos nossas carteiras de trabalho, para fazermos confrontos de datas de admissão e saída da empresa.

Tive belas surpresas. Primeiro, constatei que a Eliana é, disparada, a mais bonita dentre as esposas de meus ex-colegas. Segundo, eu, modéstia à parte, sou o mais bem conservado. Não que os demais estejam velhos, isso não, só que talvez o tempo os tenha castigado mais.

Havia algumas regras estipuladas pela guria que organizou a festa. Primeiro: era proibido perguntar por algum colega que não tivesse comparecido. Eu não sabia, no início, e perguntei por dois que não estavam. Já haviam partido para uma melhor, segundo a organizadora - e eu nem desconfiava.

Idade, nem pensar em perguntar também. Motivo óbvio. Mas a pergunta mais freqüente era: quantos netos você tem? E o que mais se ouvia era: eu já fiz duas safenas, eu três, mas tudo bem, eu era novo ainda. Também se ouvia aquele desabafo do tipo: graças a Deus estou bem de saúde. Isso é que importa. Tive isquemia há três anos, mas me recuperei rápido. Só não dirijo ainda.

Outras conversas eram do tipo: Lembra do fulano? Vi ele há uns seis anos. Tava bem, tinha perdido a mulher, e estava aposentado agora. Ou, foi bom te ver de novo. Acho que faz uns quarenta anos, mais ou menos, não é? Ou também: aprendi muito contigo, guri. Comecei a fumar naquela época.

“Naquele tempo as coisas eram bem diferentes”. “Havia respeito”. “O dinheiro valia”. “Salário mínimo era salário” - também foram repetidas.

Foi o maior consumo de água mineral e guaraná diet da churrascaria, bem como das saladas verdes, é claro.

Bíbi, ainda bem que eu estou fora dessa gente, só trabalhei com eles não achas? Comigo não!

Vou concluir, a Eliana está preocupada e me chamando, pois quando chegamos medi a minha pressão e estava um pouco alta. Nada a preocupar, só l9Xl0.Já tomei os remédios e vou medir novamente agora.O que está a me preocupar é a taxa de glicose que estava muito alta, 198 - quando o ideal, para diabético e hipertenso como eu, é de 110."

23 setembro 2004

Meu pai tomou conta do blog


Sem mais a dizer, segue o e-mail do papai, abaixo.


"Bíbi,

transcrevo o diálogo que tive com um qüera almofadinha - deve ser paulista - que esteve aqui em casa se dizendo Inspetor dos Correios. Pois o moço teve a coragem de querer me chamar atenção por ter mandado uma caixinha de ovos para rechear os xis que mandei pra ti - Bíbi com acento no primeiro i - e para o teu irmão.

Primeiro, disse-me que eu tinha infringido a lei, e que ele estaria atrás de uma indenização para os Correios. Retruquei de pronto, dizendo a ele que eu era advogado, conhecia a lei, e, pelo que soube, quem estava me devendo uma caixa de ovo era – exatamente - o Correio.

O moçoilo retrucou, dizendo que havia uma Portaria proibindo remessas de alimentos perecíveis via sedex. Eu lhe disse que portaria não é lei, pelo menos aqui no RS, e que os ovos eram de boa qualidade e do tipo caipira. Ele gaguejou um pouco e tentou me dizer que, caipira ou não, todo ovo no compartimento de carga do avião, a 9.000 m de altura, estoura, pois não há pressurização.

Disse-lhe então que não entendia nada de aviões, e que sempre viajei neles sem preocupação com os ovos, se estourariam ou não. De mais a mais, achei que pelo sedex-10 a caixa iria no colo do piloto, isso pelo preço que cobram e pela propaganda que fazem.

O índio retrucou que eu poderia ser enquadrado na lei de segurança nacional ou até em crime internacional de atentado a aeronaves. Imagina só, Bíbi, eu mandei uns ovos e poderia ser enquadrado junto com as ações do Bin Laden!!!

Me enchi da conversa e mandei o guaipeca embora. Da próxima vez que te mandar outros produtos, vou procurar a Fedex - nada a ver com fedorento -, que poderá prestar melhores serviços que esses do nosso Correio.

Grande beijo.
O Pai"
***

Glossário (gauchês para leigos):

QÜERA, s. e adj. Indivíduo destemido (neste caso, dando chance ao azar).

ALMOFADINHA, s. e adj. Indivíduo paulista.

PAULISTA, s. e adj. Indivíduo almofadinha.

PS: As expressões acima destacadas não refletem a opinião desta autora. É coisa de pai, entenda-se.
Se puder.

21 setembro 2004

Recadinho

O porteiro perguntou ao meu irmão:

- No jornal, uma vez por semana, tem um recadinho de um rapaz com o mesmo sobrenome de vocês. É parente?

Ele se referia à coluna do Arthur Dapieve, às sextas-feiras, no Globo.
Não é ótimo? Recadinho. Adorei isso!

Leiam meu recadinho, portanto, na revista Época. Semana que vem tem.


Cinema: A Vila

O filme é simples, o roteiro é original. Não quero causar expectativa, porque sei que tem gente que vai achar que foi viagem perdida. Eu gostei muito. Nos primeiros 20 minutos, pode parecer que o filme não anda, e também pode ocorrer uma certa dúvida: ai, meu Deus, isso vai ser um tremendo abacaxi. Agüente firme. Da metade para o fim, emociona de verdade; fazia tempo que não via algo assim no cinema.
Pronto, causei expectativa.


Primavera

E chegamos ao final de mais um inverno - que já passou e nem veio, ninguém viu -, os termômetros marcando 30 graus às 6h da tarde aqui na cidade maravilhosa. Dei até uma caminhadela hoje (parece que o meu pé resolveu, enfim, começar a melhorar!), e o sol era belo, e o céu era azul, e a brisa ainda não era aquele nosso velho bafo quente – que, esse sim, tarda mas não falha. Que venham as flores, pois.

Começo a falar do clima e me empolgo, vejo ritmo nas estações: um, dois, três, quatro. Clave de sol, essas coisas simples da natureza, detalhes óbvios - trilhas de Deus?

Mas nem vamos nos aprofundar muito, que certas coisas encontram maior sentido no que não se diz sobre elas.

Bom início de primavera, só isso. E vejam flores em vocês.

19 setembro 2004

O xis do Sedex


“Bíbi. Remeti o "almoço" via Sedex l0. A Eliana disse que não me preocupasse em mandar instruções, pois vocês saberiam como preparar. Por isso, vai apenas um "bom apetite". Muitos beijos
O pai”

E o almoço chegou. Era, acreditem, material suficiente para o preparo de três “xis”. Xis bacon, xis coração e xis galinha. Tudo em saquinhos etiquetados: alface, tomate, milho, ervilha e demais ingredientes. Isopores, gelo. Muito gelo. E, o mais inusitado componente: ovo cru. Como se sabe, xis que é xis tem de ter ovo frito. Como ele não podia mandar ovo frito por Sedex, mandou, não um, mas três ovos crus.

Só que isso também não podia.

Às 9:30 da manhã de sábado (notem: de sábado!), portanto, o interfone tocava ininterruptamente. Era o porteiro, apavorado, sem saber se recebia ou não do carteiro uma caixa fartamente lambuzada, por cima e por baixo, e pelos lados, através do papelão carcomido, embebido, esfarelado. Era puro ovo.

Meu irmão socorreu o porteiro, e dispensou o carteiro. Trouxe aqui pra cima aquela caixa ensaboada, escorregadia, cuidando para não deixar cair: vai que dá o azar de estourar um ovo lá dentro...

A essa altura, uma grande interrogação: o que era aquilo? Abro a caixa, ou passo na farinha de rosca e frito assim mesmo? Sedex empanado, então era isso?

Abriu-se, com dificuldade, e a notícia boa era que o ovo tinha vazado, mas não tinha prejudicado o conteúdo – tudo muito bem lacrado, do lado de dentro. Era o xis do Sedex. Self-xis, aliás. O material estava intacto e bem conservado; era só montar tudo e comer. E assim foi feito.

Em tempo: para quem não sabe, os xis do RS são famosos pela qualidade única do pão, pelo tamanho generoso, e pela fartura dos ingredientes. Qualquer gaúcho que mora no Rio, quando encontra outro desgarrado, tem de ser solidário à “saudade dos xis de verdade” – porque aqui não se encontra um que chegue aos pés dos de lá. E isso não é bairrismo, não. É pura constatação, juro.

Escrevo isso para depois não pensarem que meu pai é um maluco desvairado, claro.
Imagina.

16 setembro 2004

Sedex

Meu pai está ameaçando mandar o almoço de sábado por Sedex. Acreditem. Sedex 10. Não tenho a mínima idéia do que me espera, ou melhor, do que eu espero.
A seguir, cenas do próximo capítulo...


Tudo vira bosta

Não consigo deixar de rir com essa musiquinha da Rita Lee. Gamei. Fazer o quê? Às vezes acontece da gente gamar na coisa errada.

Aliás, eu já dizia mais ou menos isso, há uns três anos, quando fiz uma crônica cujo título era: “No fundo, tudo é esterco.”
Vou ver se acho por aqui e posto pra vocês. (Tudo vira post?).


Desculpa

Meu irmão e eu estamos em casa, à noite. Acabou a bateria do celular dele, e ele está conectado à internet – portanto, ocupando a linha do telefone fixo. Minha cunhada liga insistentemente, e não consegue contato. Até que liga pro meu celular.

- Você sabe dele? Estou preocupada! – ela me pergunta.

Ele me faz sinal: “diz que eu liguei dizendo que vou dormir fora, hihihi”... Faço sinal que não vou dizer. Ele faz que eu diga. Faço que vou ficar com pena dela. Ele insiste. Faz, faz!

- Olha... na verdade ele ligou me avisando que ia dormir fora, e... bem... eu imaginei que estivesse com você... não estão juntos?

Ela engasga e diz que não.

Abri o jogo na hora, não agüentei de culpa. Desculpa, cunhada. Mil vezes, desculpa.
Isso não se faz.


Leminski

que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?

13 setembro 2004

AMA-go

Às vezes eu me acho uma idiota de cabelos longos e castanhos, com um sorriso idiota de quem pensou alguma besteira e achou graça. Uma porra-louca aventureira que escolheu uma profissão tresloucada e achou que dava.

Valha-me Deus! Achar que dá, hoje em dia, é para doidos.

Não sou magra nem sou gorda, e a complicação começa é por aí. Houvesse alguma definição, poderia me orgulhar do fato. Uma idiota pé-lá-outro-cá; do tipo que pondera, pondera, pondera e depois pira. Pudera.

Desculpe o umbiguismo: eu, eu, eu.

Ocorre que, às vezes, a idiota aqui precisa de um respaldo que não vem senão do âmago. Ora, âmago. Nem sei o que é isso direito.

11 setembro 2004

Crise conjugal


O monitor do meu micro esteve de dieta, e eu não percebi. Percebo agora, porque – acreditem – ele está com cintura. Aliás, uma bela cintura. Melhor que a minha.

Está certo, devo ter sido uma esposa desatenta; ele já vinha dando sinais de fraqueza nos últimos tempos, e eu não me toquei de nada. Fiz vista grossa. Volta e meia, ele dava umas tremidas (sinal evidente de alguma carência nutricional), piscava mais que o necessário. Era um aviso.

Hoje, ao ligar o computador, deparei-me com o resultado da baixa ingestão calórica: as janelas do Windows estão acinturadas. E os botões de ajuste, ali embaixo, não funcionam. Fico imaginando que, se o quadro evoluir, vai ser difícil continuar escrevendo aqui.

E se meu monitor estiver com anorexia? Significa que os meus textos vão emagrecer sensivelmente, e não adiantará empurrar sopas e sopas de letrinhas – porque o monitor vai sempre se achar gordo, rejeitando indefinidamente.

E se for bulimia? Aí o teclado tomará banhos de texto vomitado, um horror – sem contar que ele pode pegar gosto pela coisa, e começar a produzir literatura escatológica sem a minha permissão.

Não adianta eu dizer que preferia o monitor gordinho; ele não vai acreditar. Uma pessoa, quando entra em dieta séria, é porque não tolera mais a auto-imagem. Mesmo que as minhas letrinhas se esforcem para convencê-lo de que eu sempre o amei, desde o início, mesmo tão quadrado, mesmo pouco esbelto... será inútil.

Estou francamente preocupada com a saúde dos meus escritos. Eu gostava de quando o monitor também se gostava. Tivemos momentos hilários, profundos, românticos; almoçávamos ficção, jantávamos confissão. E fazíamos amor em prosa e verso, sem restrição. Rotina de um casal feliz, mesmo.

Agora, com essa falta de gostosura, não sei dizer se a relação continuará com o mesmo vigor. Estou sem estímulo. Não me vêm as palavras. Acho que vou desistir de vez.

(Que nada, vou ali traí-lo com um caderno enooooorme e já volto!)
Diferentes visões


Essa eu ouvi de um tatuador gaúcho.
O sujeito chegou ao estúdio dele disposto a fazer uma tatuagem na hora, e já tinha tudo na cabeça:

- Quero uma tatoo macabra, brother! Muito macabra!

O tatuador então puxou o catálogo das figuras mais trash, e entregou ao jovem rebelde. Ele folheava. E folheava. E demorava. E nada de escolher um desenho.

- Pô, não tem outro álbum aí?

Tinha, e o tatuador entregou a ele. Mais meia hora de meticulosa observação, e nenhuma decisão. Até que o cliente começou a olhar para os lados, e flagrou na parede a foto de uma tatoo.

- É ESSA! É ESSA! Nossa, chapei! Muito irado, cara! Tá decidido: eu quero uma igual a essa.

E assim foi feito.
Acontece que a figura era de uma linda flor.

10 setembro 2004

O charme e a idade


Essa eu me esqueci de contar a vocês, mas é ótima. No show do Erasmo Carlos com Evandro Mesquita, atrás de mim, uma senhora aguardava o terceiro sinal enquanto conversava com o sujeito ao lado. Adoro uma conversa alheia, ainda mais desse calibre: saquei, em meio minuto, que ela tratava de jogar charme.

O papo era entre pretendentes, estava claro. E mulher, quando quer fazer charme, pode ser um show ou um fiasco. Fazer charme pressupõe revelar algumas coisas; esconder outras. O mais divertido é quando a pessoa se atrapalha e acaba revelando o que deveria esconder, e vice-versa. Foi o caso dela.

- Acho que o show vai ser bárbaro. O Evandro Mesquita eu nunca vi ao vivo, você sabe, quando ele fazia sucesso com a Blitz eu ainda era muito menina, nem lembro direito...

Hein? Fiquei meio assim. A mulher não tinha voz de quem era “muito menina” no início dos anos 80, mas tudo bem. Quase virei o pescoço para conferir o semblante, mas me segurei. Adiante:

- Já o Erasmo é aquilo, todo mundo conhece, né. Tinha aquela música que eu adorava, como é mesmo o nome...? Aquela, aquela... que esse outro menino regravou ainda outro dia...

- Qual? – Ele quis saber (e eu também).

- Ah, sim! Gatinha Manhosa! Que aquele menino, o Léo Jaime, regravou há pouco.

E aí a verdade se revelou, implacável. Até porque, hoje em dia, ninguém chama o Léo Jaime de menino impunemente.

07 setembro 2004

não resisti...
a um pouquinho de Paulo Leminski:

"alguém parado
é sempre suspeito
de trazer como eu trago
um susto preso no peito,
um prazo, um prazer, um estrago,
um de qualquer jeito,
sujeito a ser tragado
pelo primeiro que passar

parar dá azar"

Querido diário


Eu não escrevo aqui há quatro dias – o que, para mim, compulsiva e exagerada, é quase uma eternidade. Posso fazer um momento “meu querido diário”? Licença.

Os últimos dias no Rio têm sido quentes, mas não aquele calorão insuportável do verão. Temos sol e temos vento; não chega a empatar, mas o segundo refresca o que o primeiro abafa, e vai-se agüentando firme por aqui. As noites têm sido frescas e ideais para um chopinho a céu aberto.

Domingo, Erica e eu fomos ao teatro. Abalou Bangu, com André Valli (o eterno Visconde de Sabugosa, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, lembra?). Algumas boas tiradas e a excelente atuação dele valeram a ida. Nem mais, nem menos.

Depois rolou um chope no Rosa Shopping – bar Na Bôa -, com batatas fritas e tábua de carnes suficientes para dois. Éramos três. Nem menos.

***

O último livro que li – devorei, aliás – foi As Mentiras que os Homens Contam, do Verissimo. E recomendo a todos, dos 8 aos 80, que Verissimo nunca é demais. Ponto, parágrafo.

***

Ontem à noite eu fui à Zona Sul e voltei, lá pela 1h, com indigesta impressão de estar sendo escoltada pela Polícia. O policiamento em Ipanema foi reforçado no feriado - eu ouvia no rádio durante a ida -, por conta dos últimos acontecimentos (um vigia que tentou impedir um assalto levou bala às 3h da tarde, e o pessoal do morro Pavão-Pavãozinho andava em discórdia outra vez).

O que eu fiz foi me trancar no carro daqui até o Leblon, e deixá-lo com um manobrista numa rua relativamente movimentada – véspera de feriado -, para então me trancar com um amigo dentro de um restaurante e olhar a vida passar lá fora. Volta e meia o som ambiente era intercalado por umas sirenes, uns alarmes, nada incomum.

Na volta, como já disse, parecia escoltada. De tempos em tempos, reduzia para uma blitz, onde meia-dúzia de sujeitos bem armados me observavam com compreensível desconfiança. Durante o percurso, viaturas e mais viaturas se anunciavam pelo retrovisor, como lantejoulas vermelhas, até passarem por mim, gritantes e urgentes.
E a gente precisa continuar – a viver, a conviver, a trabalhar, a trafegar. Às vezes dá vontade de respirar bem fundo e fazer mais um: ponto, parágrafo. Antes de começar tudo outra vez – até porque não há outro jeito. Ponto.

03 setembro 2004

Tele-coisas


Estou sem paciência para as novelas. Logo eu. Ontem, resolvi dar uma chance para a nova das 7h, e liguei a TV. Havia dois ratos falando, animadíssimos. Ratos. Falando.
Desisti.

**

Também não vejo a novela das 8h faz um tempão, mas ontem eu vi. Ri um pouco com Glória Menezes e Raul Cortez, fofos. No mais, é apreciar a beleza redundante de Marcelo Anthony, e esperar que o casal de sapatas pegue fogo. Ou não.

**

E “A Grande Família” continua sendo uma das melhores coisas da televisão brasileira. Ontem a Marilda e o Tuco encheram a cara, e acordaram na cama dele. Depois ele ficou todo apaixonado, querendo namorar, mas ela nem bola. Que pena. Adoro essas transgressões etárias nas relações amorosas. Hoho.


E-(outras)coisas

Não sei se já aconteceu com você, mas estou quase certa que sim. Os compromissos dão uma amainada, e você resolve pôr a correspondência eletrônica em dia. Ressuscita e-mails não respondidos, perdidos na sua caixa postal, e responde. Tim-tim por tim-tim. Demoradamente. Carinhosamente. Põe seus amigos a par das novidades, declara amor a quem é de amor, amizade a quem é de amizade, pede desculpas aos credores, e até dá uma cobrada nos devedores - assim, como quem não quer nada. Afinal, está com tempo; e quem está com tempo pode usar de eufemismos, ser sutil.

Aí você vai à academia, toma um banho, dá uma voltinha na rua e volta para checar as respostas. Nada. Nadinha. E assim sucessivamente, enquanto você está meio de bobeira. Silêncio total.

Na semana seguinte, quando o mundo parece cair no seu colo, e você não tem tempo nem para secar o cabelo depois do banho, eis que aquela avalanche retorna, subitamente, sem dó nenhuma do seu estado assoberbado.

Poderíamos dizer que é um dos artigos da Lei de Murphy, claro. Outro exemplo – da mesma família – é aquele indefectível olhar da loira arrasa-quarteirão que o amigo está querendo pegar há anos, mas ela nem tchuns. Seria o céu, não fosse lançado justamente no momento em que o sujeito está acompanhado de outra, numa tentativa frustrada de esquecer a ex-esnobe.

Está bem, este último exemplo pode bem ser atribuído, não à Lei de Murphy, mas àquela fama que as mulheres têm, sabe-se lá por quê, de manifestarem repentino interesse por um rapaz antes desprezado – desde que ele esteja, agora, acompanhado por uma vagab..., digo, por outra moça qualquer. (Moça qualquer, aqui, não fazendo alusão alguma às mulheres de vida fácil – bem entendido. E, também, se fizesse, não haveria nenhum preconceito. Estou me enrolando, vamos adiante antes que piore.)

Eu vou tentar explicar esse fenômeno, humildemente, como me convém. Não é que as mulheres queiram competir entre si. E também não é que o sujeito acompanhado seja valorizado além dos outros por estar, afinal, em uso. Não sei se fui clara: “em uso”, ou seja, na ativa, e aprovado – ainda que momentaneamente – por algum órgão (sexual ou de defesa da consumidora, tanto faz neste caso).

O que acontece quando uma mulher, antes adorada e declaradamente cobiçada, e que agora encontra o canalh..., digo, o homem em questão se esfregando com outra, é simples: capricho. Mastigando (que o texto também é para homens): quando você era criança, e um carrinho lhe parecia feio e sujo, até que um outro garoto resolvesse inventar as melhores manobras justo com aquela tranqueira rejeitada. Lembra? Você então pensava: “que ambos, o meu amiguinho e o carrinho, sejam felizes para sempre!” – e ia embora assobiando? Ou rolava no barro com a gostosa, digo, com o pirralho até conseguir tomar aquela máquina possante dele, insistindo: “EU VI PRIMEIRO! É MEEEEEEU!!!”? (Responda para si).

Portanto, querido, pense trezentas vezes antes de julgar aquela moça que o menosprezava antes de você se arranjar com a vizinha porque estava mais perto. Todo mundo tem direito a um ataque infantilóide, volta e meia, não tem?

Ou vá me dizer que você não ficou animado quando eu escrevi (e grifei) “rolava no barro com a gostosa” e, desde então, não prestou mais atenção nenhuma ao que eu escrevi? Me engana, que eu gosto.

P.S.: Meninos, brincadeirinha. Adoro vocês. Hoho.

02 setembro 2004

As cobras do sonho


Dormi mal pra caramba, sonhei com cobras a noite toda, acordei aflita com a campainha. Era a faxineira, insistente, positiva e operante. Calma, diacho, deixa eu vestir as calças. Saí apertando os olhos, a claridade, o pé ainda meio manco, já vai! Ela bufava do outro lado da porta, impaciente, enquanto eu girava a chave. São duas voltas, bolas!

Bom dia, bom dia. A senhora precisa comprar mais Veja - ela já exigia, e eu pensando que ela é quem precisa comprar mais Época, bolas outra vez! Ah, sim, é Veja Multi-Uso, calma. Eu, logo que acordo, já não sou boa companhia. Menos ainda tendo sonhado com cobras. Vem direto me falar como devo gastar meu suado dinheirinho? Tá pedindo, né?

Tem dia que a gente briga até com a sombra. Hoje foi assim. Cadê que o meu cabelo dava jeito? Já disse, preciso comprar uma cortina urgente, esse sol direto na minha testa, raios, não há Cristo. Cortaram meu celular porque atrasei uns dias. Alguém telefonou pro fixo e desligou na cara de secretária eletrônica, que, como o nome já diz, está aqui para me representar, na minha ausência – ou na minha indecência, ou na deselegância, ou na falta-de-saco’ância - é com ela, e não custa deixar um recado; que eu retorno, sim senhora.

E as cobras, amigo, as cobras do sonho não me deixaram mais em paz durante este dia que não passava; rastejava.

Até que, à tardinha, tocou uma música do Pink Floyd numa rádio inusitada.

E o sol se pôs lindamente, dispensando cortinas.

E o meu cabelo escuro pousou sobre o rosto claro, tão adequado quanto moldura de quadro.

E o mais era conversa fiada; intriga onírica.
As cobras do sonho. Peçonha da oposição.

31 agosto 2004

Vejam só que festa de arromba


Domingo foi dia de assistir a um show único (embora duplo): Tremendão - ele mesmo! - e Evandro Mesquita, num só show. O teatro estava lotado: das cerca de 300 pessoas, 250 deviam ser mulheres, a maior parte delas acima dos 40 anos. Imaginem só que festa de arromba.

Fiquei na fila do gargarejo, e gargarejei mesmo. Erasmo Carlos - de calça jeans desbotada, camisa de veludo molhado (ou algo assim) e colete de couro – comandava uma banda competente (um maestro/pianista, um baterista, um guitarrista, um baixista e um saxofonista), se não com o mesmo vigor de antigamente, com certeza com o mesmo talento - carisma, idem. Um pingo de choro engasgou na minha garganta logo no início, quando ele provocou: “Sei que você fez os seus castelos / e sonhou ser salva do dragão”. Essa frase sempre mexeu comigo, não sei bem por quê.

Relembrei as canções que minha mãe tocava no violão e cantava, e eu achava o máximo, quando era pequena. Pensei nos meus pais, na geração deles, em tudo que havia de surpreendente na tal da jovem guarda. E em quantos daqueles hits são pais dos nossos hits de hoje.

Lá pelas tantas, entra em cena o simpático, encantador e 1001 utilidades Evandro Mesquita. Um garotão, camisa de surfista, sorriso fácil. Pulinhos no palco. Aplausos e gritinhos na platéia. O gás do show aumentou, e a nossa participação também; afinal, ele tinha perdido um amor no paraíso. Quem poderia ficar indiferente?

Mais uma cena de cinema à minha frente: infância e adolescência, anos 80, Blitz - o início de tudo, para quem ousa acreditar em ser feliz tendo o rock brasileiro como pano de fundo. Eu confesso, sou uma boba; seja sob o sol, ou debaixo de chuva.

Depois que eu já tinha engasgado, pensado nos meus pais, nos meus tios, em mim, na besteira que fiz em resolver fazer da música a minha vida, e, finalmente, no prazer inexplicável que uma simples escala de blues acelerada causa em centenas de pessoas que sequer sonham – e nem estão interessadas – em saber o que vem a ser uma escala de blues... bom, aí eu pude vir para casa, com o coração meio bobo e descompassado, mas com um sentimento afinadíssimo que me dizia, e ainda insistia: é preciso saber viver.

24 agosto 2004

Sempre ele


Primeiro eu recebi um e-mail:

“Bi,
enviei-te uma caixa de Pandora. Se tiveres dificuldade para a elaboração dos xaropes, favor me ligar.
Boas melhoras.
Um beijo
O Pai”


Duas horas depois, o porteiro me entregava a caixa de Sedex. Abri, com todo cuidado. Dentro: dois limões (sim! Ele enviou limão por Sedex!), um pote de mel, três cartões-postais da minha cidade, uma foto dele (comendo churrasco com uns amigos), uma barra de chocolate, uma caixa de Amanditas, um saquinho de ervas (?) e uma pomada “Bayro Gel”.

Segundo ele havia me explicado dias atrás, por telefone, o kit pomada/limão/mel/ervas servia – ele jurava – para “curar o pé”.

- É pra fazer uma fomentação, filha. Fomentação! – ele repetia, e eu quase podia ver pelo telefone os olhos esbugalhados de entusiasmo.

- Fu... o quê?

- FO-MEN-TA-ÇÃO, tchê! Fiz na tua mãe, e foi o que salvou o pé dela. Falando sério!

Minha mãe rompeu os ligamentos, assim como eu, mas o caso dela foi ainda pior. Teve de encarar a bota ortopédica (o gesso moderno) durante trinta dias. Fora a tala. E o que salvou o pé dela, ele afirma, foi a tal mandinga. Tá bom.

Bastou eu gargalhar no telefone quando ele me perguntou se eu não queria que ele pegasse um avião e viesse, munido dos equipamentos, fazer a fomentação em mim, para ele se ofender. E, quando papai Da Pieve se ofende, sai debaixo.

- Tá bom. Não quer que eu vá, não vou. Mas vou mandar o equipamento pelo correio, sim senhora. Te dou as instruções, e tu fazes aí. Tou dizendo, cura o pé.

Aquilo era uma ameaça. Claro que não levei a sério. Mas ele levou.

E hoje, então, chegou o “kit fomentação”: equipamento mágico capaz de curar os ligamentos rompidos de qualquer um. Pomada, mel, limão e ervas.

- Pai, limão e mel não eram coisas para a garganta? (Passei 20 anos ouvindo isso dele, a cada pigarro – ele se preocupava muito com a minha voz, muito mais que eu: como é que ela vai cantar desse jeito? E vinha com uma colher de mel.)

- No pé, filha. Fomentação.

- Tá sugerindo que eu faça uma caipirinha do meu pé! Isso não vai dar certo!

- Caipirinha, nada. Fomentação. Fomentação. Fomentação!

Quando ele começa a repetir a mesma palavra obsessivamente, já sei que se trata de uma idéia fixa que não vai morrer tão cedo. E, se morrer, ele empalha. Portanto, eu me rendo. Vou seguir as instruções e aplicar a mandinga salvadora.

Mas vou comprar uma Vodka – e fazer, ao menos uma caipiroska!

22 agosto 2004

Eu e meus desligamentos


Meu pé já ficou roxo, verde, azul, amarelo e marrom. Já inchou e desinchou mil vezes. Já doeu, aliviou, fez que ia melhorar, piorou de novo, fez que ia piorar de novo, e melhorou outra vez.
Agora, deu para estar vermelho.

Só posso concluir: depois de tudo que me aprontou nesses últimos dias, está é morrendo de vergonha. Com toda razão.


Coca Light

Vocês viram a cor da nova garrafa de Coca Light???
Trata-se de um prateado meio cinza-azulado, fosco, impossibilitando que se veja o conteúdo. Não sei por quê, parece uma garrafa de astronauta.

É futurista e misteriosa demais para a minha bolinha. E se eu comprar coca light e vier outra coisa dentro? Como, por exemplo, algum suco natural bem saudável? Que garantia eu tenho?

Bah, sou muito ressabiada e prefiro, portanto, a transparência dos frascos.
Aliás, nos sentidos líquido e humano.


No salão

A moça que fazia as minhas unhas, depois de lixar as da mão esquerda, pegou a direita e levou um susto:

- Ué! Tá diferente!
- O quê?
- As unhas. De uma mão são maiores e mais bem formadas que de outra!
- Ah, sim. Isso é porque eu toco muito violão...
- E fica assim, é? (Incrédula)
- Fica. A função de cada mão é diferente, acaba gastando as unhas de modo irregular.
- Ah. (Olhando a mão). E você toca muito mesmo, né?
- Bastante.
- Mas você também canta?
- Canto, sim.
- Aaaah, bom!

Realmente, ela estava aliviada por saber que eu estragava as minhas unhas num violão, mas, pelo menos, cantava. Era como se uma coisa justificasse a outra. Se ela canta, está liberada.

Isso me lembrou de uma história que ouvi do Yamandú Costa, violonista gaúcho virtuoso. Ele dizia que, quando pequeno, tocava violão o tempo todo dentro de casa. A avó ouvia, e parecia mais intrigada que admirada. Certa feita, indagou:

- Tá tudo muito lindo, meu filho. Mas será que você não podia cantar, umazinha só?

21 agosto 2004

Rugas


Rugas são apenas rugas. O pensamento é que são elas.

Quando a gente pensa que o mundo é pesado, o olhar não se agüenta e apela: abre logo uma vala na pele. E a culpa é de quem, cara-pálida?

Hoje eu saí pisando duro e notei um projeto de ruga querendo autorização para se instalar no meu rosto. Não vou permitir. Não quero vala, que vala vira córrego, e córrego vira riacho - e, se choro, transborda. E ainda me dá mosquito.

Melhor tratar de aliviar o traço da sobrancelha, mas usando a pinça para outro fim: pinçando a leveza dos fatos, delineando os afetos.

Que venha o relevo da idade, no tempo exato em que os arquitetos de Deus acharem justo. Mas não me venham propor parceria.

20 agosto 2004

Cultura eleitoral gratuita


Com o início do horário eleitoral gratuito, já estou escolhendo meus ídolos. A primeira delas é uma candidata a vereadora em Duque de Caxias, de nome artístico Elinha. Leia com o “e” aberto, assim: É-linha.

Pois ela achou de fazer um slogan que é qualquer coisa:

“Não é corda, nem barbante
Elinha é quem garante!”

Tem meu voto.


Senhora do destino

Depois que tive a infelicidade de beijar o meio-fio e romper os ligamentos, estou de volta ao sofá em horário integral. Mas, que pena, não gosto dessa novela das 8h. Pra mim, uma novela pode ter bom autor, bons atores, bom argumento etc; mas, se não tiver carisma, dançou. E eu acho que essa Senhora do Destino está sem carisma.

A protagonista Suzana Vieira está uns dois tons acima; a interpretação é caricata e repetitiva. O pobre do José Mayer, de cujo charme sempre fui uma fã declarada, apagou-se totalmente. Está modestamente servindo de escada para a namorada fictícia, e o casal não convence de jeito nenhum. Até o charme dele fugiu das cenas.

Justiça seja feita: Zé Wilker é o que há de melhor na novela. Mas, com aquele núcleo (casa dele) mezzo-pastelão, mezzo-perdidão, não há cena que se sustente boa do início ao fim. Estou torcendo para que peguem o ritmo agora, já que o triângulo amoroso (Zé/Suzana/Zé) parece começar a engrenar. E as cenas de Zé + Zé ainda prometem boas risadas, agora que o jornalista deixou um pouco o lado sisudo e está se entregando ao tom irônico que o momento pede.

Acho eu, né.


Colegas de desligamento

Mamãe Aninha, que tivera os ligamentos rompidos também, no início deste ano, trata de trocar figurinhas com esta filha novata no assunto:

- Não te assusta, minha filha, com as cores do pé. É assim mesmo. O meu começou meio preto, depois ficou roxo. Depois, passou a assumir cores variadas ao longo do dia.

- Cores variadas?

- Sim. Roxo, violeta, verde, rosa, vermelho e azulado. E, vez por outra, um amarelo-fluorescente aparecia, do nada!

Sei. Já estou até vendo, na calada da noite, papai Da Pieve desenhando com marcador de texto no pezinho da bela adormecida, só para ver a cara dela de assustada ao acordar.
Papai não é mole. Hoho.

17 agosto 2004

Cuidado com o meio-fio


Como todos já sabem, torci o pé no sábado de manhã, e estou com gesso até o joelho. Só não estou torcendo para não ser nada mais grave porque, como todos sabem, já torci o suficiente... (hoho, o que acharam do trocadilho infame, logo na saída?)

Passei o dia quicando pra lá e pra cá, num pé só. Para detonar de vez com a minha superstição, ainda por cima o pé que ainda presta é o esquerdo, ou seja, não tem jeito.

Agora começou a doer a lombar (L4 e L5, para os entendidos do assunto), ali onde a minha rica hérnia de disco faz a festa, soberana. Por conta de andar torta, pisando como um ponto-e-vírgula desgovernado, ainda se acentuam as dores da minha escoliose, e... vocês imaginam a cena. A véia está que só geme. Mamãe Aninha, sarada e poderosa, que não me visse nesse estado patético. Ia me deserdar na hora.

Mas o pior nem é isso. O pior é explicar, a cada moço que vem entregar alguma coisa aqui em casa (estou mandando ver no delivery), o que foi que se sucedeu.

- Machucou o pezinho, foi? – Observou o rapaz da padaria.
- Pois é... (riso amarelo).
- E como foi?
- Bom, eu vinha andando pela rua, e... quanto deu mesmo? Trouxe troco pra 20?

Estou fazendo de tudo para não dizer que eu caí foi de madura mesmo. Até pode ficar com o troco, se quiser. Que me estabaquei, gratuitamente, foi por não ter enxergado o meio-fio (que está ali há mais ou menos cinco anos).

Mas, a vida é isto. De vez em quando, sem maiores explicações, a gente é atropelada por um meio-fio que estava ali há cinco anos – e só a gente não percebia.

Capiche?

14 agosto 2004

Agora sou uma mulher de Época

Clique na minha foto e confira a novidade!


BRRRRRRRRRRRRR!!!


Escute aqui: você não se cansa de rir para todo mundo?

Ah, eu canso. Não sei como é que pode você, comadre, andar por aí toda prosa em horário integral, sem pausa nem pro cafezinho, cumprimentando os vizinhos, o carteiro, as babás da pracinha, os porteiros da redondeza e mesmo o seu patrão. Tem hora que chega, né?

Eu tenho pra mim que esse dom de sair na rua mostrando os dentes é uma questão de freqüência: há dias em que tudo bem; mas há dias em que, francamente, vibramos uma oitava abaixo. Dá uma vontade de responder – bom dia por quê?

Nada pessoal, mas tem um sujeito me acordando sistematicamente, essa semana, com uma britadeira ordinária que entra no meu sonho e não escolhe gênero: fura tudo. Romance, suspense, tudo. Se estou sonhando que o Marcelo Anthony enfim está, enfim, cortando salsinha na minha cozinha, entra a máquina e perfura a minha vida. Não me deixa nem provar o sabor da comidinha dele, que dirá o resto.

Ontem eu abri a porta da varanda, furiosa, mirei o assassino de sonhos e sua geringonça demoníaca, pigarreei três vezes. Nem me notou, claro. Seguiu entretido em sua tarefa bizarra de achar um esquilo ou um japonês, o que vier primeiro - só pode ser isso, e rezo para que ache logo, que assim o Marcelo e eu podemos terminar o que havíamos começado. Infelizmente, meu protesto silencioso resultou em absolutamente nada, e o sujeito segue furando o que vê pela frente.

Se a prefeitura quer mesmo mostrar serviço, deveria providenciar um silenciador gigante para essas engenhocas, ou então um concreto não perfurável, ou um barulho não audível. Ou, em último caso, homens sem braço. Qualquer coisa.

O que não pode é eu, uma pré-balzaquiana de hábitos incorrigivelmente noturnos, ficar sendo importunada às poucas da madrugada por um ruído maquiavélico desse calibre. O prefeito sabe quanto custa uma bisnaga de creme antiolheiras? Sabe?

Bom, as eleições estão aí.

13 agosto 2004

25 mil visitas


Buenas!

Desculpem o mau jeito; não fiz sorteio com direito a crônica encomendada para quem fosse o visitante número 25 mil, não fiz cartazes, não fiz filipetas, não contratei carro de som... enfim, não promovi o evento como ele merecia. Mas o fato é que vocês vieram. E o contador registrou.

25 mil vezes, eu escrevendo minhas agruras do cotidiano, da insônia à mesa quebrada ao meio – e vocês aqui, fiéis, habitando minhas ranzinzas linhas. E freqüentando o espaço para comentários para discutirem tópicos relevantes, tais como a dificuldade em se desenhar um bonequinho de mãos para cima com o teclado do computador. Só falta combinarem um cineminha.

Ainda que eu não seja mais o motivo da vinda, orgulho-me de meus dispersivos, poucos e bons leitores. E agradeço, se é que alguém ainda passa os olhos aqui no corpo do blog – e não se dirige direto ao fórum dos “comments”, sedento por uma discussão realmente motivadora. Hoho. Como eu sou má.

Ironias à parte – se é que eu consigo me desvencilhar delas nalgum raro momento de lucidez -, adoro vocês por aqui.
25 mil beijos!

11 agosto 2004

Meu nome é...

- Bom dia, eu queria pedir um táxi.
- Pois não, senhora. Qual o seu nome?
- Bíbi.
- Lídia?
- Bíbi!
- Mirian?
- BÍBI!
- Como?
- Bibiana.
- Viviane?
- Bibiana!
- Lidiane?
- BIBIANA!
- Miriana?
- Meu Deus...
- Quem?
- Patrícia! Meu nome é Patrícia.
(pausa)
- Senhora Patrícia, o cadastro está em nome de quem?
(respiro fundo)
- Em nome de Bíbi.
- Lídia?
- É a tua mãe, ô &*)$&* #*(@#$!!!

(Também não sou de ferro).

***

Mulher é bicho triste...

- Querida, como você esta linda hoje!
- Como assim, “hoje”? Quer dizer que normalmente sou feia?
- Não! É linda sempre. Mas hoje está mais!
- Só porque estou com a cara toda rebocada de maquiagem? Quer dizer que, de cara lavada, sou uma bruxa?
- Não, amor!

Etc e etc, até que ele a convença de que, misteriosamente, ela é o único ser do planeta que consegue estar sempre linda, e, “hoje”, estar mais linda ainda.


... mas homem é bem pior

- Querido, o que você acha desse vestido?
- Curto.
- Não estou falando de comprimento, mas da cor. Prefere esse tom, ou aquele mais puxado pro creme?
- Quem? (Palitando os dentes e zapeando no controle remoto ao mesmo tempo, enquanto pensa na preguiça de levantar para pegar a próxima cerveja).
- Creme!
- Tá ótimo, amor, não precisa de mais creme. Minha mãe só usa creme em dia de domingo, e até hoje está com uma pele de pêssego...
- Creme, a cor, amor! A cor!
- Ah, não entendo de cor. Vam’bora logo! Tu já passou aquele reboco?
- O quê?
- Re-bo-co, aquela massa corrida que você usa no rosto...
- Base, amor!
- Base, creme, reboco...
- Não acredito que você apertou o tubo de pasta de dente no meio outra vez!
- ...tubos e conexões... tudo a mesma merda.

10 agosto 2004

Na rua

Em Ipanema, ontem à noite, estacionei e fui conversar com uma tia que vendia churrasquinho na esquina:

- Oi... será que pode estacionar ali?

E ela, casual:

- Você estacionou no meio da rua?
- Não!
- Então pode.

Quem mandou eu fazer uma pergunta idiota?

***

No salão de beleza

O papo era sobre cachorros. A dona do salão se gabava do Brutus, fiel, amigo, enorme – batia no ombro dela, quando “em pé”. Mas dava um trabalho... E ela gastava um salário mínimo por mês, só em ração!

E a manicure:

- Pois o meu, vira-lata mesmo, quase morreu outro dia. Foi envenenado. Já imaginou, que judiaria? Só se salvou porque eu botei um ovo na boca dele.

E eu, péssima de entrar de bunda no assunto alheio por educação:

- É mesmo? Desintoxica?

E ela:

- Não, OVO! Ovo mesmo. (Como se eu estivesse surda). Puta simpatia. Salvou o cão.

Sabia não.

***

No posto

Desci do carro para abastecer (gás), veio o moço puxar papo:

- Cadê o...?(faz gesto de cabelo comprido)

- O cabeludo?

- Esse!

- Tá em casa.

- É seu irmão, né?

- É.

- Reparei. (Olha para os meus pés). ‘Cês não são daqui, né?

- Não. Do sul.

Ele continua olhando para os meus pés.

- Reparei. Lá se usa isso, né?

- Botas??? (Eu, já intrigadíssima)

- É, botas.

- Sim, lá se usa...

- É cada coisa, hehe. Mas eu também, quando era moda, usava “kichute”.

- Completou, né? Quanto deu?

(Antes que aquele papo evoluísse...)

08 agosto 2004

Vivendo no gerúndio


Fiquei sabendo hoje, depois de 26 anos, que o meu nome significa “vivendo”. Será que é assim, no gerúndio mesmo - vivendo?

Gostei do gerúndio - apesar da forma estar tão gasta, mal usada, mal falada e mal paga -, porque sugere uma certa continuidade que me conforta. Passar a vida inteira no particípio é que deve ser dureza; e, de mais a mais, a verdade é que a gente vai levando.

Muitas vezes, temos a impressão de que a vida está definida; os planos estão traçados, o emprego está garantido, o amor está sacramentado. É só manter o prumo e não fazer nenhum movimento brusco – transar com o cunhado, tomar um porre na frente do chefe etc -, que tudo estará cristalizado no presente, até que a morte nos transforme em passado.

Mas o particípio não se sustenta nas próprias pernas – desaba, quando menos se espera, e caímos de novo na incerteza do crescendo, aprendendo, reinventando. O gerúndio segue reinando, absoluto, como um cavalo em movimento incansável.

Acho que a grande sacada deve ser aprender a dançar em cima dele.


PS: Já reparou como alguns substantivos parecem verbos no gerúndio? Exemplo: mundo. Que, se tirar a terminação de gerúndio (ndo) e colocar a do particípio, fica mudo.

06 agosto 2004

Filme: Encontros e Desencontros (Lost in Translation)



O filme me pegou de jeito. Não sei se foi o meu momento, a madrugada solitária que resolvi usar para este fim, ou alguma outra coisa. O fato é que me vi totalmente abobalhada diante da tela. Cenas sensíveis, cortes interessantes, questionamentos não pretensiosos sobre a condição humana. A paisagem frenética e colorida de Tóquio em contraste com a solidão dos quartos de hotel. Uma menina de 20 e poucos anos e um homem cinqüentão. Ternura, afeto, suavidade. Entrelinhas.

Descobri por que o filme me pegou.

04 agosto 2004

Rápidas


Essa novelinha das 6h é uma gracinha, e eu vou querer um daqueles Tobias (Tubía, como eles dizem) pra mim. Alguém sabe onde vende, a granel?

Vou querer, igualzim. Bem xucro, mess. Às vezes a gente também quer só um tra-bíceps-vesseiro pra encostar a cabeça e babar, tá? Numa noite fria de chuvinha fina. Quem disser que não, é mentira.

***

Minha faxineira é uma fofa. Perguntando, hoje, se eu tinha a tampa daquela panela de pressão. Não tenho. Que, se tivesse, ela podia cozinhar um feijão pra mim da próxima vez, enquanto fazia a faxina, e depois separar tudo em potinhos e pôr a congelar.

Agradeci, sensibilizada. E, orgulhosa, disse ter cozinhado o feijão mesmo sem panela de pressão (ou sem a tampa, o que dá no mesmo). E ela, no ato:

- Eu percebi. Comi hoje. Feijão bem duro.

***

Meu irmão me incomodando para achar a página dos quadrinhos no jornal de domingo, em meio àquela bagunça de jornal espalhado – que, diga-se de passagem, ele faz e eu condeno.

- Não vai achar! Não vai achar! – eu disse, pondo a mão em cima da pilha.

Ele procurou mesmo assim, e achou. Ao que me surpreendi com a minha atitude de mulher madura, enquanto ele ia levando os quadrinhos:

- NO FINAL, O CEBOLINHA VAI PULAR N’ÁGUA E A PISCINA ESTÁ VAZIAAAAA!

Depois me arrependi. Não se faz.

***

Ele saiu, e, na volta, ouvi um barulho embaixo da porta do meu quarto. Era um almanaque da Turma da Mônica, todinho só pra mim.

Tapa de luvas.

***

Hoje, pagando o extrato do meu cartão de crédito, observei a seguinte ironia: pago R$ 40,00 para receber todos os dias, na porta da minha casa, assassinatos, assaltos, desrespeito ao cidadão e ao meio-ambiente, roubo de dinheiro público, chacinas e impunidade.

Quanto será que me cobrariam para assinar só o João Ubaldo, hein?
Pai é pai

26 anos na cara, morando fora (noutro estado) desde os 20. Sexta-feira, depois de ter suado em bicas durante o show, fui comer pizza na varanda do bar e peguei um resfriado. Contei à minha mãe, por e-mail, entre um espirro e outro. E ela, lá, contou pro meu pai, que não hesitou em observar:

- A falta que um pai faz...


Pai é pai - II

1992. Eu tinha recém começado com essa história de banda. Tocávamos na praça de alimentação do shopping da cidade – que, por sua vez, também tinha recém começado com esse negócio de shopping. Eu tinha torcido o pé jogando basquete um dia antes, mas estava ótima, não tinha sido nada.

Minutos antes do início do “show”, a galera já reunida, abarrotando as cadeiras da praça de alimentação; a banda, naquele nervosismo e silêncio pré-primeiro-acorde. Contagem regressiva.

Lá detrás, afoito, meu pai vem abanando alguma coisa no ar. Não quero crer que é ele. Quanto mais se aproxima, mais reconheço o grave esbaforido da voz:

- Filhaaaaa! Filhotaaaaaa! Pera!!!! O pai trouxe um Gelol pro teu pezinho!!!

Como eu queria que houvesse outra filha, outra filhota, outro pezinho, e outro pai maluco que não fosse o meu, a gritar sandices à beira do palco. Como eu era a única menina de banda, olhei para os lados, mas não adiantou disfarçar. O jeito foi sorrir amarelo:

- Não precisa, pai. Pode ir. Não precisa, estou bem. Vai...

Ele não se intimidou diante da minha cara feia (afinal, foi ele quem fez!), e me tirou do sério: com a outra mão, sacou, de súbito, um Toddynho (!):

- Então pelo menos pega o Toddynho que o pai trouxe, faz tempo que não te alimentas...

Bufei, e ele sumiu no vapor da minha bufada. Quem não o conhecesse poderia até dizer que fui áspera com o pobre pai cuidadoso. Que nada.

Cheguei em casa e fui tirar satisfações. Ele se refestelava no sofá, às sonoras gargalhadas:

- Quáquáquáquáquáquáquáquá!!! Essa do Toddynho eu tinha planejado há uma semana! Mas aí pintou esse improviso do teu pé, e eu não tive dúvida: comprei um Gelol e aperfeiçoei o número! Quáquáquá! Foi ou não foi de mestre? Quáquá! Morreu de vergonha! Bem feito! Quáquá!

01 agosto 2004

Minha mesa meia-lua de vidro


Estava aqui, diante do micro, atualizando meus contatos cibernéticos e dando de comer aos vícios virtuais. Foi quando, de repente, um bom pedaço da minha mesa de vidro se foi ao chão, sem a menor cerimônia, como criança que quer alguma coisa e não ganha. Só faltou bater os pés.

O barulho produzido pelo suicídio da mesa foi tamanho, que só não me grudei no lustre porque não tenho lustre. Susto passado, fiquei me perguntando o que teria feito a metade da mesa se indispor com a outra metade desse jeito tão dramático, rompendo abruptamente num divórcio certamente sem chance de volta. Uma pena. Juntas, as metades formavam uma bonita lua cheia. Agora, tenho apenas uma mesa meia-lua de vidro.

Está certo que eu nunca havia entendido direito como encaixar uma mesa redonda nalgum canto da sala, de modo a criar um ambiente (não é assim que os decoradores dizem, ambiente?) charmoso, à minha altura. E ficava arrastando, de lá para cá, a pobre da mesa arredondada, girando, girando, até que ela me parecesse um pouco mais... quadrada. E nada.

Com o divórcio das partes, ao menos consigo encostar a parte reta na parede também reta, e a meia-lua parece estar embutida no concreto. Posso fazer minhas refeições solitárias de frente para a parede, ou até pendurar um quadro com o rosto do Richard Gere para me fazer companhia.

Do café da manhã à ceia, estarei apoiada sobre a metade cheia da mesa, e Richard preencherá lindamente a outra metade.

Quando eu estiver de dieta, inverto a mesa.

31 julho 2004

O show de ontem

O som, no palco, estava muito melhor do que nas últimas vezes em que tocamos lá. A bateria ficou no canto, e disso eu não gostei - ficou meio “torto”. Eu tinha de olhar para o lado direito para enxergar o baterista, e para o lado esquerdo para ver o guitarrista. Enfim, detalhes cênicos.

Depois do show, veio um moço dos dentes bonitos (conforme observou depois a minha cunhada, que não perde um detalhe odontológico):

- Muito obrigado, você salvou a minha noite! Raramente venho aqui, mas hoje tinha um amigo deprimido, você sabe... a mulher dele, você sabe... (fiz que sabia) E aí me aparece essa surpresa, você! (Fiz que não sabia) Uma mulher que é puro rock’n roll!

Fiquei feliz; mais pelo prazer proporcionado do que, propriamente, pela veracidade do título. Se ele me pega tocando Canto Alegretense (ouve um canto gauchesco e brasileiro / desta terra que eu amei desde guri) e cantando a plenos pulmões aqui na minha sacada, estou perdida. Ou, pior: cantando Besame Mucho (como si fuera esta noche la ultima vez) para a minha mãe rir... já pensou?



Simancol

Pouco antes do show começar, meu irmão já em cima do palco acertando o equipamento, duas moçoilas pedem para subir. Querem tirar uma foto em frente ao microfone, fingindo que estão cantando. Sobem e começam a rebolar, fazendo caras e bocas para a outra amiga, lá embaixo, bater a foto. Se estão atrapalhando a banda que está prestes a começar? Não pensaram nisso. Uma delas tem uma idéia brilhante e cutuca meu irmão, toda sorrisos:

- Ei! Você pode fingir que está tocando a guitarra pra gente bater a foto??

Resposta dele:

- Não. Estou aqui a trabalho.

Ploft-ploft! (Barulho da cara delas caindo no chão). Hoho.
Beeeeeeeeeeem feito.



Bodas

Meus pais comemoraram, na quinta-feira que passou, 32 anos de casados. Saíram para jantar e dançar.

- A banda era ótima. Sobretudo quando os músicos tocavam, os três, a mesma música.
- Como assim?
- Ah, não sei. Volta e meia eles discordavam, saía cada qual tocando uma coisa diferente, principalmente no início da música. Depois, se olhavam e acertavam o passo. Aí, dava pra gente dançar e tudo!

Sei como é. Já aconteceu comigo. Abafa o caso.

28 julho 2004

Para quem é do Rio
 

Sexta-feira (30/07) tem show no Far Up!
Endereço: R. Voluntários da Pátria, 448 - Cobal do Humaitá.
Horário: 23h

Estarei, acompanhada de minha banda, fazendo covers de rock nacional e internacional, além de alguma música própria.
No repertório: Barão Vermelho, Rita Lee, Alanis, James Brown, Creedence, Kenny Loggins, Cardigans, etc etc etc...

E aí? Você vem?

 

19 julho 2004

Caetano por Marina W

 
Poramordedeus, leiam no blog da Marina as impressões sobre o show de Caetano no Municipal (sensação da semana aqui no Rio), entre as quais destaco a seguinte sacada:

"Com exceção dos aplausos demorados, a platéia do Municipal foi fria, muito fria. Os cafonas acharam que onde tem orquestra - maravilhosa, regida por Jacques Morelembaum - há de haver um respeito fúnebre. Até no bis, quando ele canta Mamãe eu Quero, talvez a música mais contagiante do Brasil, ninguém canta com ele."

E ainda diz Marina:

"Paula Lavigne dava ordens antes do show começar, vocês me entendem."
 
Entendo, Marina. E como entendo.

Frase
 
 
Essa é do João Ubaldo, tentando reproduzir uma frase atribuída a Nelson Rodrigues :
 
"Se todo mundo soubesse da fantasia sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém."
 
É ou não é uma maravilha?
 
 
 
Constatação
 
 
Quando o sol bater
na janela do teu quarto
lembra e vê
que o caminho é um só.
 
Por que esperar
se podemos começar tudo de novo
agora mesmo?
 

18 julho 2004

Deus abençoe os programas de auditório!
 
 
Pois pude extrair hoje a seguinte pérola, dita por Luciano (do Zezé):
 
"Acabou de ser filmado as filmagens do nosso filme."
 
 

16 julho 2004

DVD
 
Não tenho visto muitos filmes ultimamente, mas tem dois que recomendo:
 
O júri

Se é que alguém ainda não viu. Como o nome já diz, é um filme de tribunal. Mas não é só isso. Tem um roteiro envolvente do início ao fim, um suspense interessante e boas atuações. Filmão, assistam!
 
 
O quinto passo (em inglês, Levity
 
Com Billy Bob Thurnton e Morgan Freeman. Esse não é um filme comum, e também não é um “filmão”. Mas eu gostei muito. Trata-se de uma história sensível - sem ser chata! - que fala de perdão e destino. Traz um olhar interessante sobre a condição humana; mas não espere lições de moral ou um filme pretensioso. 
  
  
Feijão cibernético 
  
Aconteceu comigo. Fui cozinhar 1 kg de feijão (para congelar). Tudo ia bem, até que resolvi provar o sal – como sempre -, e tive uma desagradável surpresa: estava salgado DEMAIS!
 
Nunca tinha colocado tanto sal numa comida antes. Era insuportável, certamente eu tinha estragado o feijão. Fiquei desesperada. Procurei batata (todo mundo sabe o truque da batata – ela “chupa” o sal da comida), mas não tinha. Joguei duas cenouras, no desespero. E vim ligar o computador. Santa internet, deve haver alguma solução.
 
Digitei no Google: “muito sal comida”. Como quem faz uma prece digital. Muito sal comida. E o feijão fervendo. E as cenouras. E o meu suador. E a minha vontade de rir, e o meu abafo do riso – em respeito a mim própria e à tragédia que se instalava na boca maior do meu fogão. Ai, Jesus.
 
“Se você colocou muito sal na comida, experimente pingar algumas gotas de limão, depois deixe ferver mais um pouco” – achei no Google!
 
Limão? É pra já! Cortei um limão e espremi, não apenas algumas gotas, mas o limão inteiro – afinal, era “muito sal comida”!
 
Confesso que já estava descrente. Meu feijão estava arruinado, era um caso perdido. Por mais que eu jogasse cenoura ou limonada, ou mesmo adoçante (confesso que não fiz, mas quase, quase!), nada resolveria. Era o fim da feijoada, eu tinha de me conformar.
 
Que nada! O Google (pra variar!) tinha razão. E o limão resolveu o caso do meu feijão salgado, como num passe de mágica.
 Quem quiser provar o meu feijão cibernético está mais que convidado.

14 julho 2004

Se é que me permite...


Às vezes eu tenho vontade de chegar perto das pessoas, com esta minha cara de “se é que me permite”, e me permitir algumas coisas - mesmo sem esperar ser permitida.
Se é que me entende, mesmo sem ser entendida.

Não digo apoiar o queixo na mão e franzir a testa - que isso eu já faço há anos -, e discutir alguma relação, ou criticar alguma atitude, sugerir melhoria de comportamento. Muito pelo contrário; cultivo uma gana silenciosa de atropelar certos padrões da sociedade e cometer uma indiscrição digna de burburinhos paralelos. Sem base, mesmo.

Abordar uma mulher que nunca vi mais gorda e me oferecer para carregar as suas sacolas. Dar um beijo na testa do motorista do ônibus. Passar a mão no cabelo de um adolescente com cara de rebelde. Cutucar um senhor barrigudo e pedir que observe como é ainda maior a barriga daquele outro.

Se é que me permite, eu adoraria perguntar tudinho sobre a sua vida, e ainda fazer observações a respeito dos seus parentes. E vou falando (se é que me entende) como se eu fosse a mais íntima das criaturas (mesmo sem você entender patavina), e dou pitacos na herança dos seus pais, no corte de cabelo da sua tia ruiva, e ainda sugiro que seu afilhado mude de colégio – assim, no meio do ano letivo.

Ninguém entenderia uma mulher desgovernada como eu, distribuindo ações descabidas a quem visse pela frente. E ninguém gostaria de ser abordado de maneira diferente daquela usual, aprovada e garantida do dia-a-dia.

Primeiro, porque não se usa gostar de nada que nos tire do prumo.

Segundo, porque as pessoas hoje se armam mais e se amam menos.
Mó legal!


Essa eu chupei do blog da Marina.

Clique aqui e se divirta! Você digita o texto que quiser, e "eles" falam o que você digitou.

Ps: tem que lembrar de ligar as caixinhas, né, meu anjo?

10 julho 2004

Faço minhas...

...as sábias palavras do Arthur Dapieve, no Globo de ontem, sobre o mais recente lamentável episódio do mundo BRock (é meu o grifo na última frase):

“Não curto Charlie Brown Jr., mas minha filha adora. Acho fraco de música e de letra, mas simpático e honesto em “Proibida pra mim” ou “Eu não uso sapato”. Diante da agressão de Chorão a Marcelo Camelo, porém, passo a achar fraco de espírito também. Típico de um país que acha que cabeça só serve para dar cabeçada. Ter atitude, no Brasil, é romper o ciclo da truculência e atar o ciclo da paz.”



A perguntar que não quer calar

O que é que Marcos Menna, o bonitinho vocalista do L S Jack, fazia numa mesa de lipo?



Nã-nã-nã-não entendo

Definitivamente, há algo de muito estranho no mundo da publicidade. Onde diabos foram parar os bons jingles? Aqueles que “grudavam” no ouvido da gente, com boas melodias, letras sintéticas (como devem ser) e apelo emocional eficaz?

Para vocês terem uma idéia, até hoje, quando vejo a marca da Brahma, lembro daquela musiquinha adaptada: “Pensou cerveja, pediu Brahma Chopp... etc” -, fora de circulação há não sei quanto tempo -, que consagrou o bordão “número 1”, Ronaldinho na copa, e tal. Depois disso, o que é que se viu/ouviu?

O bordão “refresca até pensamento” até foi uma boa sacada, mas não acho que tenha sido bem executado. Agora, essa do “na-na-na-na” devia levar um prêmio... francamente, acho que refrescaram o pensamento demais - até que ele congelou.

E aquelas campanhas lindas da Parmalat? E aquela menina que descrevia a caixinha de leite: “você corta o biquinho da vaca, e aí, vira a vaca de cabeça para baixo”! Cadê?

Sem falar nas campanhas do Bom-Brill, claro.

Agora, que pobreza é essa de “Ace todo branco fosse assim”? O sujeito cata o primeiro trocadilho infame que achar pela frente, e está feita a campanha? Então eu vou me candidatar.

Outra pérola: “Dúvida por quê? Detergente é Ype!”. Só de raiva, vou direto ao concorrente.

E o “mala das Casas Bahia”, que acabou virando mesmo celebridade? Em terra de cego...

E o cara que tem a língua “pgesa”, protagonista de uma peça publicitária cujo ápice do texto é quando ele diz: “Agagaquaga” em vez de Araraquara!!! Onde é que nós estamos?

Só posso concluir que, depois que liberaram geral as bundas e os peitos na publicidade, o povo se empolgou tanto que acabou perdendo o jeito com as palavras (faladas e cantadas, diga-se de passagem). Agora, estão tateando no escuro de uma criatividade cada vez mais impalpável.

06 julho 2004

Frente em verso


Viva a frente fria
Que chegou no fim de tarde
Invadiu nossa cidade
E me encheu de alegria

Viva a frente fria
Mal querida e mal falada
Nem um pouco ensolarada
Encoberta, recatada

Viva a nossa frente
Que eu escrevo em verso
Viva a nossa fonte
De inspiração

Viva à sua frente
Que eu refresco em rima:
Viva a sua sina
Com todo coração!


(Aqui eu quase puxei um refrão em lá maior, como num repente, mas achei que já bastava de pieguice, hoho...)
Frente em verso


Viva a frente fria
Que chegou no fim de tarde
Invadiu nossa cidade
E me encheu de alegria

Viva a frente fria
Mal querida e mal falada
Nem um pouco ensolarada
Encoberta, recatada

Viva a nossa frente
Que eu escrevo em verso
Viva a nossa fonte
De inspiração

Viva à sua frente
Que eu refresco em rima:
Viva a sua sina
Com todo coração!


(Aqui eu quase puxei um refrão em lá maior, como num repente, mas achei que já bastava de pieguice, hoho...)

05 julho 2004

Coisas que ficam


Estava fazendo uma “faxina” quando encontrei uma velha caixa de sapato; dentro dela, alguns bilhetes, cartas antigas (do tempo das cartas!), postais de gente querida. Lá no fundo, um papel timbrado do estado do RS, carimbado e tudo mais, com uns escritos que estão quase se apagando... apertei os olhos para ver se era alguma certidão importante. E era. Diz assim:

Estado do Rio Grande do Sul
Polícia Civil
Depto. de Polícia Metropolitana
Centro de Operações
Área judiciária

(Carimbo da Polícia Civil)

(Outro carimbo, escrito “VISTO: URGENTE”)

Bibi

Certamente ele quis deixar o mundo mais bonito há 17 anos. Com certeza ele exagerou na dose. Além de mais bonito, fez o mundo mais inteligente, mais carinhoso, mais amigo e principalmente muito mais alegre para se viver.

Ele não precisava, pois é justo, e acabou abrindo uma exceção e foi bondoso comigo, deixando que eu pudesse te embalar, te ouvir, te admirar e viver junto de ti.

Tudo que me ensinaste nesses 17 anos, jamais eu teria aprendido com outra pessoa. Sou grato por isso, não merecia tanto dele!

Te adoro e te admiro e sei que podes, ainda, dar ao mundo tudo que ele nunca teve.

Feliz Aniversário


(Carimbo e assinatura): Luiz Da Pieve
Delegado de Polícia

***

Fechei a caixa, e um nó se instalou na garganta de uma filha que resolveu morar longe e ainda não tem dinheiro para comprar um avião.

02 julho 2004

O Rio de Janeiro anda muito, muito chato


Assuntos fervilhantes do Rio:

- A nudez de Vera Fischer numa peça de teatro - que não me interessa;
- A ausência total de pêlos em pernas e partes de Vera Fischer que não me interessam (apesar de ela declarar que jamais se depila);
- Aliás, quero deixar bem claro – pelo sim, pêlo não (não resisti ao trocadilho!) - que nenhuma parte da Vera Fischer me interessa;
- A derrota do Flamengo, na última quarta-feira, para o Santo André;
- A soltura do empresário-e-ex-deputado-Sérgio-Naya, após 106 dias de prisão;
- O debate dos candidatos à prefeitura, na Rede Globo;
- A ameaça de mais uma guerra entre Rocinha e Vidigal;
- As “festas-temáticas-e-nostálgicas-sobre-os-anos-80” que pipocam pela cidade (misteriosamente, trazendo apenas o que a década produziu de mais bizarro e podre e vazio);
- O “veranico de inverno”, que assola a cidade, elevando as temperaturas e instigando milhares de cariocas a se aglomerarem nas praias da Região dos Lagos – infelizmente, o “evento” não é suficiente para deixar as praias da zona sul/oeste menos abarrotadas nos fins de semana (o que seria, de longe, a única vantagem);
- O Fashion Rio, ou coisa que o valha – que não me interessa;
- A primeira semana da nova novela das 8h-que-começa-às-9h – e que não me interessa, porque só assisti a um pedaço do primeiro capítulo, e achei muito chato;
- O aumento abusivo/absurdo/podre/podre de novo/e podre outra vez dos preços na telefonia fixa;
- ... e por aí vai.

Agora, fala sério: tá difícil achar alguma graça nisso tudo, né? Há que se ter qualidades circenses!

01 julho 2004

FAMA

Ouvi na propaganda do Fama a seguinte frase, dita por uma participante:
“Essa música é maravilhosa. Com certeza eu poderei, não só cantá-la, mas dar um verdadeiro show!”

É bom que eles já vêm com a modéstia embutida. Hoho.

***



Padre não julga


Minha Vó Manoela punha um vestido azul-marinho com bolinhas (na verdade, eram bolotas) brancas, com o cintinho combinando (que ela mesma devia ter feito), e me levava à missa. Eu tinha um jeito estranho que se dividia em achar graça daquilo, mas, ao mesmo tempo, sentir uma paz enorme quando entrava na igreja de mãozinha com ela.

Um dia eu disse a ela que queria me confessar, mas estava com medo. Medo de quê? – perguntou.

Estava com medo do tamanho da penitência, pronto, falei.

Vó Manoela deu risada e me garantiu que, na minha idade, ninguém cometia pecado que pudesse resultar em penitência gigante. Mas eu relutei mais alguns quarteirões; ela ia me arrastando pela mão, eu ia travando o passo e a conversa, já achei que tinha falado mais que a boca, queria esquecer esse papo de confissão, mas não achava outro assunto, e a vó insistia, que era bobagem ter medo do padre etc.

Quando ela perguntou, enfim, qual era o meu pecado horrendo, resolvi contar:

- Tenho medo de estar com a Doença de Chagas!

Eu tinha estudado, nas aulas de biologia, sobre a tal doença - provocada por um protozoário cujo nome científico agora uma busca na internet me ajuda a lembrar: Trypanosoma Cruzi! Esse bicho é transmitido por um inseto conhecido como “barbeiro”, que tem o design assemelhado ao de uma barata, só que mais mirradinho.

Bastaram algumas ilustrações nos livros didáticos, e eu achar uma barata qualquer em casa (ou mesmo uma formiga meio crescida): daí a imaginar que eu estava com a Doença de Chagas, foi um pulo. E, daí a me sentir culpada, foi um abraço.

- Como assim? Por que é que você pensa que é pecado ter medo de estar doente?

Essa resposta foi fácil. A Vó tinha me ensinado que Deus queria que a gente confiasse nele, sempre, até de olhos fechados. Dizia ela que, em tempos difíceis, não deveríamos enfraquecer; apenas rezar e confiar, que o mal iria embora. E que deveríamos temer somente a Deus.

Pronto. Se Deus achava certo que só temêssemos a Ele, seria, no mínimo, um desaforo ter medo de uma baratinha raquítica cujo cocô (literalmente) pudesse me deixar doente!

O padre certamente iria me excomungar. Eu, uma fedelha desclassificada que, em vez de ajoelhar e rezar por saúde, temia a doença possivelmente trazida por um bicho que eu achava que talvez lembrasse um pouco aquele das ilustrações dos livros.

Mas, não, ela me tranqüilizou: o padre não ia achar ruim “Até porque padre não julga.” Falou assim, rapidinho: padnãojulga.

Agora essa: padnãojulga. E eu tinha elaborado um discurso todo meticuloso, ia começar transferindo um pouco da culpa para a professora de biologia... mas, padnãojulga. Droga, ia ser sensacional. Mas, padnãojulga.

Então nem teve graça, eu fui lá e resumi – negócio é o seguinte, estou com medo de uma barata que pode ser barbeiro e pode ter me passado a Doença de Chagas. Quantas Ave-Marias dá isso?

E o padnãojulga me receitou, sei lá, meia-dúzia.

27 junho 2004

Buenas!


Nem vou falar aqui do final de Celebridade, porque o assunto já está muito batido. Pronto, esnobei.

Queria agradecer às moças que declararam, nos comments, que vêm aqui atrás de inspiração (Paula e Carol), adorei saber! Imagina, logo eu, que ando tão carente de inspiração nesses tempos bicudos. Aliás, “bicudos” é uma palavra e tanto. Inspiradas, agora? Hoho.

***

Quanto ao Bíbi-Quiz, apareceu por lá gente suspeitíssima... quem são “anônimo” e “gasparzinho”, por exemplo?

A superintendência quer muito saber.

E já imagino a Melissa pensando: “tsc tsc... a bíbi ainda não entendeu que a internet definitivamente não é um ambiente familiar...” (Ela pensa sempre com reticências).

***

Voltei de Campos num ônibus executivo da 1001, desses que deitam o banco bem deitado. Uma mulher grávida veio do meu lado. Ela na janela, eu no corredor. Grávidas precisam fazer xixi toda hora. Quando eu estava começando a esticar as pernas, ela me sorria: você me daria uma licencinha? Eu, muy generosa, dava.

Pensei em trocar de lugar com ela, mas ela se adiantou: “Hehe. Vou pegar minhas coisas e ir sentar lá atrás, fica mais fácil para ir ao banheiro toda hora. Hehe, você sabe (mostrando a barriga). Aí você pode ficar mais à vontade, hehe, pode dormir sossegada. Hehe. Hehe.”

Antes, eu nem tinha me incomodado muito. Mas dei graças a Deus quando ela resolveu pipocar dali assim que percebi o quanto ela era uma pessoa do tipo “hehe”. Desconfio muitíssimo dessas pessoas, e não me sinto nem um pouco na obrigação de dialogar mantendo esse gentileza “hehe” o tempo todo. Tipo da gentileza amarela, forçada, padrão. Hehe. Hehe. Hehe. Toda hora, hehe.

Comigo, não.

Ora, eu prezo muito meus interlocutores - e suas individualidades particulares de cada um -, e não saio dando o meu hehe para qualquer um, não.

***

Algo me diz que acordei com espírito de porco hoje.
E o primeiro que se manifestar dizendo que isso não é digno de nota vai levar e-bomba.

25 junho 2004

Queridas e queridos,

faz uns dias que não passo por aqui...
E hoje estou mesmo de passagem. Vou ali ganhar o leitinho das crianças (em Campos, RJ) e já volto, ok?

Tenham todos um ótimo final de semana, e não percam o último capítulo do Lineu! Eu também não vou perder, uma vez que o show só começa depois que subirem os créditos. :o)

Beijos, fui!

21 junho 2004

Moda-praia o ano inteiro


Tenho pavor de mostrar os pés, e também de conviver com os pés dos outros à mostra. Não devia morar neste balneário. Povo aqui vai ao banco de chinelo, na maior.

Não agarre nojo de mim; faz parte de um processo psi-(alguma-coisa-para-a-qual-eles-sempre-acham-um-nome): quando pequena, cinco ou seis anos, comecei a ter um pesadelo recorrente. Via apenas os pés de um homem, mais nada. Mas sabia que era de um homem mau, muito mau. E aquilo me dava uma aflição horrível.

Cresci rejeitando sandálias, para o desespero de minha mãe, vó Maria e minhas tias: “com esse calorão, de tênis?” – essa passou a ser a frase mais ouvida por mim.

Já crescidinha (13, 14 anos), ouvi, ao sair para uma festinha:

- Filha, a mamãe vai ter que te dizer: não se usa bota no verão. Não tens uma sandalinha?

Mané sandalinha. Eu só tinha um chinelo havaianas, que usava para tomar banho (evitava o choque no chuveiro). Fui de botas mesmo.

Só comecei a usar - e, pior: a comprar! - sandálias depois de dois anos morando no Rio de Janeiro. Aí eu não agüentei mais; muito calor mesmo, e esse negócio de orla confunde a gente. Até para se vestir.

Passei a andar mais à vontade, admito. Lembro que fui ao RS num verão desses, depois de uns quatro anos morando no Rio. Meu pai fez um churrasco e eu desci para comer de short e um mini-top (quase a parte de cima de um biquíni). Minha mãe olhou:

- Que linda! Tá usando menos roupa, finalmente, né?
- É... calorão desses...

Meio segundo depois:

- Tá certo. Mas tu não vais sair na rua assim, né?
- Por quê? Pessoal aqui vai achar ruim?

E ela, suuuuper tranqüila:

- Nada! Só vão achar que tu é puta.

Hoho.


PS: Você já fez o Bíbi-Quiz?

20 junho 2004

ANALOGIA: Com qual celebridade você se parece?


Depois de cinco fotos testadas, consta que eu sou uma generosa mistura de:


Nicole Kidman


Andie MacDowell


Judi Connelli

E você? Passa lá!




19 junho 2004

Bibômetro

Criei um Bíbi-quiz! Dez perguntas e respostas para testar os seus conhecimentos a respeito da minha pessoa.
Tá esperando o quê?

Vai lá!
As coisas do meio


Alguma coisas são poéticas. Algumas, patéticas.

E algumas outras coisas são apenas outras coisas - que não são nem belas, nem feias; nem lindas, nem escabrosas; nem divinas, nem diabólicas. Não podemos jogar a culpa em ninguém, porque não há culpa. Não podemos sequer nos culpar. São coisas do meio.

Dessas coisas eu fujo como diabo da cruz, porque elas me tiram o sono. Diante dessas coisas, que chegam pelo meio, sem fazer alarde, eu me sinto impotente – uma burra farta de pensamento, mas fraca da cabeça.

E não há como desviar. Quando o tiro é silencioso e certeiro, não há esperneio e não há ataque epilético que te livre da bala. Coisas do meio.

Aí nos damos conta de como vivemos pelos cantos, acomodados em extremos, o stress e o relax, o ódio e a paixão. Nossos cantos da vida, os becos, as quinas, confortáveis esquinas da nossa falta de intimidade com o meio. Nossa percepção se acomoda fácil nas vielas; não somos lá de muita expansão.

As coisas do meio são as melodias que não se encaixam. Nos cantos.

18 junho 2004

E Chico faz sessenta



O Rio está em polvorosa: Chico faz sessenta amanhã. Brilhante. Azul. Lindo. E Buarque, ainda por cima.

Se tenho alguma frustração na vida é morar seis anos no Rio de Janeiro e nunca ter interceptado uma caminhadela de Chico no calçadão do Leblon.

Mas dei uma interceptada no site dele e me diverti horrores com a história do Julinho da Adelaide – o personagem que ele inventou para dar uma enrolada na censura. Chico contado (e “Julinho” entrevistado) por Mario Prata, então, é o melhor dos mundos.

Abaixo, o trecho final da entrevista que Julinho concedeu ao Prata, no jornal Última Hora, em 74:

MP - O Chico tem cantado a sua música e tem dado a entender que a música é dele. Ele se refere a você como se você fosse uma figura mitológica.

JA - Não sei, rapaz. Este pessoal que tem o nome feito, pode fazer muita coisa e não adianta eu ficar aqui reclamando, entende? Como eu já disse, eu sou pragmático. Eu preciso dele e ele de mim. Então eu não vou me colocar contra ele como você está querendo. Talvez o dia que eu for mais conhecido eu faça a mesma coisa. As pessoas têm que tirar proveito do que lhe cai nas mãos, não é? O Leonel que me disse isso.

MP - Eu queria que você se definisse, já que usa tanto a expressão pragmática.

JA - Eu não sei. Pra falar a verdade, o Leonel que mandou eu dizer que eu sou pragmático. Quando perguntassem coisa mais complicada, pra dizer isto. Por exemplo: "O que você acha da Censura?" Sou pragmático. Ele falou ecumênico, também. Disse que quando me perguntassem o que eu acho de Cuba, para eu responder que sou pragmático e ecumênico. Senão eu me meteria em complicações. Mas eu não posso definir exatamente como eu sou. Eu sou pragmático, pô!

Leia toda história – e a entrevista na íntegra - aqui

17 junho 2004

Mais Cazuza


Agora falando racionalmente, li e concordei em gênero, número e grau com esta crítica:

“Acompanhando a trajetória de Cazuza desde o início da década de 80 (e sua entrada no Barão Vermelho), O Tempo Não Pára quase naufraga em sua primeira metade, quando, justamente por evitar aprofundar-se na alma de seu protagonista, acaba retratando-o como um jovem pretensioso e mimado que, fruto de um lar excessivamente liberal, dedica-se a ofender seus pais e à auto-destruição. O Cazuza visto neste segmento é antipático e detestável; um projeto unidimensional de 'artista maldito'. Além disso, o fraco roteiro, em sua errônea ambição de retratar um mito, jamais permite que o personagem simplesmente 'converse': tudo o que sai da boca do compositor é lírico - como, se em vez de 'falar', Cazuza apenas 'declamasse'.”

(Leia na íntegra)

Não, não estou detonando o filme. Gostei de ter assistido; é um filme triste e chega a emocionar em vários bons momentos – a trilha sonora do biografado ajuda, e muito, claro. O Daniel Oliveira dá um show, isso é incontestável.

Mas há muito a ser contestado, e o crítico do site Cinema em Cena, a meu ver, vai com precisão cirúrgica às, digamos, pisadas de bola que o filme dá.

A primeira coisa que me chamou atenção foi justamente a impressão de que o Cazuza devia ser um mala. Garotinho mimado, rebelde sem causa, revoltado e egocêntrico – além de pernóstico e inconseqüente. E se torna chato, muitas vezes, ao interromper o que seria o ritmo normal de uma conversa para pinçar, como que do “mundo mágico das inspirações”, frases poéticas nem sempre cabíveis no momento, soando um discurso vazio e pretensioso.

Parece que a Lucinha Araújo não acha isso – se fosse meu filho, eu não ia gostar nada de um roteiro que retratasse o cara desse jeito. Mas, como o filme é baseado no livro da própria mãe, está tudo em casa.

Outra coisa que me chamou atenção (e isso não consta na crítica acima) foi uma certa esnobada no Frejat. Além de ter poucas falas, fica parecendo, em alguns momentos, que ele era o bundão da história. Que não estivesse preparado para a genialidade do Cazuza - verdadeiro artista/poeta/astro - e, por isso, tivesse ficado comendo poeira quando o cantor decidiu sair do Barão. Pelo pouco que sei da história, acho que não foi bem assim.

Por fim, a cena em que ele descobre que está doente realmente merecia ao menos uma preparação para que o espectador entendesse que ali viria chumbo grosso. Do jeito como é colocada, no seco, o que poderia ser uma bonita comoção acaba virando uma espécie de susto de mau gosto – como quando alguém chega por trás e: “BUUUUUU!”.

16 junho 2004

Cazuza





Vocês já viram?

Eu vi ontem. Chorei em bicas.
Vida louca, vida...